segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Memória – Gratidão – Esperança

       1 – Memória.
       O novo povo de Deus – a Igreja – assenta a sua identidade e existência na Morte e Ressurreição de Jesus, como expressão do amor de Deus para connosco. “Vede que admirável amor o Pai nos consagrou em nos chamar filhos de Deus. E somo-lo de facto... Agora somos filhos de Deus e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Mas na altura em que se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porque O veremos tal como Ele é".
       Deus faz-Se homem em Jesus Cristo, a eternidade entra no tempo. Ele assume a nossa fragilidade e finitude, leva a Sua cruz ao calvário. A ressurreição confirma a Sua entrega permanente.
       Na Páscoa semanal – na Eucaristia – fazemos memória da morte e ressurreição, e de forma mais solene na Páscoa anual. Actualizamos o mistério pascal de Jesus e tornamos presente os que caminham peregrinos pelo tempo e pela história – nós –, e aqueles que já partiram para a eternidade de Deus.
       É na memória (no memorial) da nossa fé que nascemos como Igreja e nos reconhecemos como irmãos em Jesus Cristo, formando o Seu Corpo místico.
       Sem memória não existiria comunidade, pois não há comunidades sem história, sem passado, sem ascendentes. Mesmo havendo muitas partes da nossa memória pessoal e colectiva que precisem de purificação, a nossa memória é preciosa, molda-nos como sociedade e como comunidade crente. Somos cristãos porque outros nos confiaram as razões da sua fé, a sua esperança.
       2 – Gratidão.
       A gratidão consiste em acolher tudo o que de bom nos legaram os nossos antepassados, procurando um caminho para o nosso tempo, aprendendo com os erros e os desvios a renovar-nos e colocar em marcha, para este tempo, os novos céus e a nova terra em que fomos enxertados por Jesus Cristo. O mundo de amanhã será o que hoje conseguirmos edificar.
       Ao celebrarmos a memória dos fiéis defuntos, reconhecemos o que nos comunicaram com amor: a vida, os valores, a cultura, e a própria religião. Na oração, em especial na Eucaristia, antecipação da comunhão com os santos e com Deus, em plenitude, entramos em comunhão com eles. Para já, a certeza de que a morte dos nossos entes queridos não foi um fim definitivo, confiámo-los ao Coração de Deus, onde se encontram até um dia nos receberem.

       3 – Esperança.
       O nosso olhar há-de estar fito no Senhor Jesus. À direita de Deus Pai, pela Ressurreição/Ascensão, Ele colocou a nossa natureza humana e daí nos atrai constantemente. Vivemos na tensão permanente de saborearmos a vida que possuímos como dádiva e como tarefa, e a atracção para a comunhão gloriosa. Para já, o nosso compromisso é com o tempo presente, com o mundo actual e com as pessoas que nos rodeiam, mas sem perder o norte, sem nos perdermos nem desviarmos do olhar de Deus e da nossa identidade cristã.
       Os Santos – reconhecidos e propostos pela Igreja como exemplo e/ou anónimos que viveram exemplarmente – acalentam a nossa esperança. Jesus antecede-nos na morte e na ressurreição, mostrando-nos como o amor é mais forte do que a morte e vence por nós e para nós a “muralha” que nos separava de Deus, redimindo-nos do nosso pecado, fazendo com que a nossa fragilidade não seja um obstáculo, mas um instrumento de salvação e de felicidade. É na nossa limitação que nos abrimos aos outros e que abrimos o nosso coração e a nossa vida ao amor de Deus.
       Por meio dos Santos, Deus torna mais luminosa a Sua presença e mais fácil o nosso caminho de santidade. Sabemos que é possível. Foi possível em Jesus Cristo. Foi possível que muitos homens e mulheres percorressem a vida com dedicação e entrega, ao jeito de Jesus, procurando que as suas vidas fossem luz, traduzindo em palavras e gestos de perdão e caridade o amor de Deus.
       É a nossa fé e a nossa esperança. Os santos permitem-nos sentir que não estamos sós no nosso caminhar. Nunca estamos sós. Deus acompanha-nos, mas é mais fácil à nossa compreensão sentirmos a Sua presença através de pessoas, de carne e osso como nós, que souberam branquear a suas vestes no sangue do Cordeiro (=Jesus Cristo)... 

Textos para a Eucaristia (ano A): Ap 7, 2-4.9-14; 1 Jo 3, 1-3; Mt 5, 1-12a.

domingo, 30 de outubro de 2011

A lição da CRIANÇA sobre o amor!

       Numa sala de aula, havia várias crianças.
       Quando uma delas perguntou à professora:
       - Professora, o que é o amor?
       A professora sentiu que a criança merecia uma resposta à altura da pergunta inteligente que fizera. Como já estava na hora do recreio, pediu para que cada aluno desse uma volta pelo pátio da escola e trouxesse o que mais despertasse nele o sentimento de amor.
       As crianças saíram apressadas e, ao voltarem, a professora disse:
       - Quero que cada um mostre o que trouxe consigo.
       A primeira criança disse:
       - Eu trouxe esta flor, não é linda?
       A segunda criança falou:
       - Eu trouxe esta borboleta. Veja o colorido de suas asas, vou colocá-la em minha coleção.
       A terceira criança completou:
       - Eu trouxe este filhote de passarinho. Ele havia caído do ninho junto com outro irmão. Não é uma gracinha?
       E assim as crianças foram se colocando.
       Terminada a exposição, a professora notou que havia uma criança que tinha ficado quieta o tempo todo. Ela estava vermelha de vergonha, pois nada havia trazido. A professora se dirigiu a ela e perguntou:
       - Meu bem, por que você nada trouxe?
       E a criança timidamente respondeu:
       - Desculpe, professora. Vi a flor e senti o seu perfume. Pensei em arrancá-la, mas preferi deixá-la para que seu perfume exalasse pôr mais tempo. Vi também a borboleta, leve, colorida. Ela parecia tão feliz que não tive coragem de aprisioná-la. Vi também o passarinho caído entre as folhas, mas, ao subir na árvore, notei o olhar triste de sua mãe e preferi devolvê-lo ao ninho. Portanto professora, trago comigo o perfume da flor, a sensação de liberdade da borboleta e a gratidão que senti nos olhos da mãe do passarinho. Como posso mostrar o que trouxe?
       A professora agradeceu a criança e lhe deu nota máxima, pois ela fora à única que percebera que só podemos trazer o amor no coração.

Autor desconhecido, in Nova Civilização.

sábado, 29 de outubro de 2011

XXXI Domingo do tempo Comum (ano A) - 30 de outubro

       1 – "Na cadeira de Moisés sentaram-se os escribas e os fariseus".
       Com o decorrer dos anos, o carisma de Moisés e a beleza, simplicidade e grandeza dos Mandamentos desvanece-se com novos líderes e com a multiplicação de leis, de preceitos, com muitas excepções, exigências, derivações, pormenores cada vez mais picuinhas. A complexidade da Lei leva ao seu não cumprimento.
       Refira-se que a história do povo de Israel não foi fácil nem linear. Constitui-se a partir de 12 tribos, com peculiaridades próprias que servem para unir mas também para dividir. Funcionam com alguma harmonia e compreensão nas lideranças fortes de Moisés, David, Salomão. Os reis e os líderes religiosos sucedem-se. Fracas e indecisas lideranças geram conflitos, que por sua vez tornam a nação vulnerável. Se cada um puxa para si e/ou para a sua tribo, o povo deixa de ter defesas para os ataques que chegam do exterior. Se interiormente está dividido, não oferece segurança contra os inimigos.
       As lutas palacianas pelo poder, a corrupção, as influências das famílias mais poderosas e as negociatas entre os detentores da autoridade civil e militar conduzem a nação ao descalabro.
       Um alvo fácil das nações vizinhas, mais unidas, militarmente mais poderosas, com estratégias de invasão e de domínio, com um maior poderia económico, Israel é invadido, com os estrangeiros a imporem a sua presença e os casamentos mistos (forma de apaziguar ânimos, se se integram nas famílias judaicas, estas não se voltarão contra os seus familiares...). Por outro lado, os exílios a que estão sujeitos.
       É também nestas condições adversas à Palavra de Deus, que se multiplicam os preceitos para preservar a identidade, cultura e religião judaicas, aquando das invasões, do exílio, ou em momentos de grande instabilidade.
       2 – A multiplicação de leis e preceitos confunde as pessoas mais simples e não "obriga" os mais instruídos e poderosos que sempre arranjam subterfúgios para contornar os seus deveres sociais e religiosos.
       Jesus, como vimos no domingo anterior, repõe com clareza a simplicidade da Lei. Toda a Lei e os Profetas se resumem, nos seus ditames, a amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Se a cadeira (símbolo do ensino e da autoridade) de Moisés foi usurpada, agora é purificada por Jesus, com a autoridade do Mestre dos Mestres, que vive como ensina, e ensina o que transforma em obras de perdão e caridade.
       A clareza e simplicidade obriga a uma escolha, limitando as desculpas e justificações. Ou sim ou sopas. A compreensão fácil da Lei, neste caso, do duplo mandamento do amor, implica a sua aceitação ou a sua recusa.
       Jesus alerta para o desfasamento entre o conhecimento da lei e o consequente cumprimento: "Fazei e observai tudo quanto vos disserem, mas não imiteis as suas obras, porque eles dizem e não fazem. Atam fardos pesados e põem-nos aos ombros dos homens, mas eles nem com o dedo os querem mover. Tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens... Aquele que for o maior entre vós será o vosso servo. Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado".
       Malaquias, na primeira leitura, alertava para esta incongruência: "Vós desviastes-vos do caminho, fizestes tropeçar muitos na lei e destruístes a aliança de Levi, diz o Senhor do Universo. Por isso, como não seguis os meus caminhos e fazeis acepção de pessoas perante a lei, também Eu vos tornarei desprezíveis e abjectos aos olhos de todo o povo". Não cumprem. Exigem aos outros. São um contra-testemunho.
       Por conseguinte, as palavras de Jesus incentivando a cumprir a lei, com palavras e com obras, seguindo o caminho da humildade e do serviço ao próximo, como expressão e concretização do amor a Deus. Não faz sentido exigir aos outros o que não se faz menção de cumprir.

       3 – De novo, e como no domingo anterior, lembramos que a referência é Jesus Cristo, com as Suas palavras, com os Seus gestos e com a Sua vida, na oferenda constante a favor da humanidade, até à morte na Cruz.
       Foi com este fito que o Apóstolo procurou em tudo imitar Jesus Cristo, para que através do seu testemunho outros aderissem ao Evangelho. Diz-nos São Paulo: "Fizemo-nos pequenos no meio de vós. Como a mãe que acalenta os filhos que anda a criar, assim nós também, pela viva afeição que vos dedicamos, desejaríamos partilhar convosco, não só o Evangelho de Deus, mas ainda própria vida, tão caros vos tínheis tornado para nós".
       O Apóstolo assume uma postura que contraria a dos mestres de Israel que ensinam e exigem aos outros, mas não cumprem nem fazem o mais pequeno esforço para cumprir. O Apóstolo faz-se pequeno, para que Cristo cresça nas comunidades. O maior, para Jesus Cristo, e que é testemunhado por São Paulo, é aquele que se faz pequeno, aquele que serve os seus irmãos.

Textos para a Eucaristia (ano A): Mal 1,14b-2,2b.8-10; 1 Tes 2,7b-9.13; Mt 23,1-12.

Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado

       Jesus disse-lhes esta parábola: «Quando fores convidado para um banquete nupcial, não tomes o primeiro lugar. Pode acontecer que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu; então, aquele que vos convidou a ambos, terá que te dizer: ‘Dá o lugar a este’; e ficarás depois envergonhado, se tiveres de ocupar o último lugar. Por isso, quando fores convidado, vai sentar-te no último lugar; e quando vier aquele que te convidou, dirá: ‘Amigo, sobe mais para cima’; ficarás então honrado aos olhos dos outros convidados. Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado» (Lc 14, 1.7-1).

       Partindo de uma situação concreta, os banquetes e os convidados, Jesus constata que muitos procuram o melhor lugar, correndo o risco de ter de ceder o lugar a uma pessoa mais importante. O conselho de Jesus é o da humildade, em todas as situações da vida. O caminho do crente é o serviço aos outros, não por acanhamento mas como expressão da caridade.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

É preciso nascer de novo

       ... até nos velórios se aprende muito...Ele era polémico... promovia uma revolução na vida das pessoas... olhava para os miseráveis e dizia que eles eram especiais aos olhos de Deus... Ele almoçava com os pecadores, Ele janta com os pecadores, Ele anda com os pecadores...

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Palavras de Bento XVI em Assis

      Queridos irmãos e irmãs, distintos Chefes e representantes das Igrejas e Comunidades eclesiais e das religiões do mundo, queridos amigos,
       Passaram-se vinte e cinco anos desde quando pela primeira vez o beato Papa João Paulo II convidou representantes das religiões do mundo para uma oração pela paz em Assis. O que aconteceu desde então? Como se encontra hoje a causa da paz? Naquele momento, a grande ameaça para a paz no mundo provinha da divisão da terra em dois blocos contrapostos entre si. O símbolo saliente daquela divisão era o muro de Berlim que, atravessando a cidade, traçava a fronteira entre dois mundos. Em 1989, três anos depois do encontro em Assis, o muro caiu, sem derramamento de sangue. Inesperadamente, os enormes arsenais, que estavam por detrás do muro, deixaram de ter qualquer significado. Perderam a sua capacidade de aterrorizar. A vontade que tinham os povos de ser livres era mais forte que os arsenais da violência. A questão sobre as causas de tal derrocada é complexa e não pode encontrar uma resposta em simples fórmulas. Mas, ao lado dos factores económicos e políticos, a causa mais profunda de tal acontecimento é de carácter espiritual: por detrás do poder material, já não havia qualquer convicção espiritual. Enfim, a vontade de ser livre foi mais forte do que o medo face a uma violência que não tinha mais nenhuma cobertura espiritual. Sentimo-nos agradecidos por esta vitória da liberdade, que foi também e sobretudo uma vitória da paz. E é necessário acrescentar que, embora neste contexto não se tratasse somente, nem talvez primariamente, da liberdade de crer, também se tratava dela. Por isso, podemos de certo modo unir tudo isto também com a oração pela paz.

       Mas, que aconteceu depois? Infelizmente, não podemos dizer que desde então a situação se caracterize por liberdade e paz. Embora a ameaça da grande guerra não se aviste no horizonte, todavia o mundo está, infelizmente, cheio de discórdias. E não é somente o facto de haver, em vários lugares, guerras que se reacendem repetidamente; a violência como tal está potencialmente sempre presente e caracteriza a condição do nosso mundo. A liberdade é um grande bem. Mas o mundo da liberdade revelou-se, em grande medida, sem orientação, e não poucos entendem, erradamente, a liberdade também como liberdade para a violência. A discórdia assume novas e assustadoras fisionomias e a luta pela paz deve-nos estimular a todos de um modo novo.
       Procuremos identificar, mais de perto, as novas fisionomias da violência e da discórdia. Em grandes linhas, parece-me que é possível individuar duas tipologias diferentes de novas formas de violência, que são diametralmente opostas na sua motivação e, nos particulares, manifestam muitas variantes. Primeiramente temos o terrorismo, no qual, em vez de uma grande guerra, realizam-se ataques bem definidos que devem atingir pontos importantes do adversário, de modo destrutivo e sem nenhuma preocupação pelas vidas humanas inocentes, que acabam cruelmente ceifadas ou mutiladas. Aos olhos dos responsáveis, a grande causa da danificação do inimigo justifica qualquer forma de crueldade. É posto de lado tudo aquilo que era comummente reconhecido e sancionado como limite à violência no direito internacional. Sabemos que, frequentemente, o terrorismo tem uma motivação religiosa e que precisamente o carácter religioso dos ataques serve como justificação para esta crueldade monstruosa, que crê poder anular as regras do direito por causa do «bem» pretendido. Aqui a religião não está ao serviço da paz, mas da justificação da violência.
        A crítica da religião, a partir do Iluminismo, alegou repetidamente que a religião seria causa de violência e assim fomentou a hostilidade contra as religiões. Que, no caso em questão, a religião motive de facto a violência é algo que, enquanto pessoas religiosas, nos deve preocupar profundamente. De modo mais subtil mas sempre cruel, vemos a religião como causa de violência também nas situações onde esta é exercida por defensores de uma religião contra os outros. O que os representantes das religiões congregados no ano 1986, em Assis, pretenderam dizer – e nós o repetimos com vigor e grande firmeza – era que esta não é a verdadeira natureza da religião. Ao contrário, é a sua deturpação e contribui para a sua destruição. Contra isso, objecta-se: Mas donde deduzis qual seja a verdadeira natureza da religião? A vossa pretensão por acaso não deriva do facto que se apagou entre vós a força da religião? E outros objectarão: Mas existe verdadeiramente uma natureza comum da religião, que se exprima em todas as religiões e, por conseguinte, seja válida para todas? Devemos enfrentar estas questões, se quisermos contrastar de modo realista e credível o recurso à violência por motivos religiosos. Aqui situa-se uma tarefa fundamental do diálogo inter-religioso, uma tarefa que deve ser novamente sublinhada por este encontro. Como cristão, quero dizer, neste momento: É verdade, na história, também se recorreu à violência em nome da fé cristã. Reconhecemo-lo, cheios de vergonha. Mas, sem sombra de dúvida, tratou-se de um uso abusivo da fé cristã, em contraste evidente com a sua verdadeira natureza. O Deus em quem nós, cristãos, acreditamos é o Criador e Pai de todos os homens, a partir do qual todas as pessoas são irmãos e irmãs entre si e constituem uma única família. A Cruz de Cristo é, para nós, o sinal daquele Deus que, no lugar da violência, coloca o sofrer com o outro e o amar com o outro. O seu nome é «Deus do amor e da paz» (2 Cor 13,11). É tarefa de todos aqueles que possuem alguma responsabilidade pela fé cristã, purificar continuamente a religião dos cristãos a partir do seu centro interior, para que – apesar da fraqueza do homem – seja verdadeiramente instrumento da paz de Deus no mundo.

       Se hoje uma tipologia fundamental da violência tem motivação religiosa, colocando assim as religiões perante a questão da sua natureza e obrigando-nos a todos a uma purificação, há uma segunda tipologia de violência, de aspecto multiforme, que possui uma motivação exactamente oposta: é a consequência da ausência de Deus, da sua negação e da perda de humanidade que resulta disso. Como dissemos, os inimigos da religião vêem nela uma fonte primária de violência na história da humanidade e, consequentemente, pretendem o desaparecimento da religião. Mas o «não» a Deus produziu crueldade e uma violência sem medida, que foi possível só porque o homem deixara de reconhecer qualquer norma e juiz superior, mas tomava por norma somente a si mesmo. Os horrores dos campos de concentração mostram, com toda a clareza, as consequências da ausência de Deus.

       Aqui, porém, não pretendo deter-me no ateísmo prescrito pelo Estado; queria, antes, falar da «decadência» do homem, em consequência da qual se realiza, de modo silencioso, e por conseguinte mais perigoso, uma alteração do clima espiritual. A adoração do dinheiro, do ter e do poder, revela-se uma contra-religião, na qual já não importa o homem, mas só o lucro pessoal. O desejo de felicidade degenera num anseio desenfreado e desumano como se manifesta, por exemplo, no domínio da droga com as suas formas diversas. Aí estão os grandes que com ela fazem os seus negócios, e depois tantos que acabam seduzidos e arruinados por ela tanto no corpo como na alma. A violência torna-se uma coisa normal e, em algumas partes do mundo, ameaça destruir a nossa juventude. Uma vez que a violência se torna uma coisa normal, a paz fica destruída e, nesta falta de paz, o homem destrói-se a si mesmo.

       A ausência de Deus leva à decadência do homem e do humanismo. Mas, onde está Deus? Temos nós possibilidades de O conhecer e mostrar novamente à humanidade, para fundar uma verdadeira paz? Antes de mais nada, sintetizemos brevemente as nossas reflexões feitas até agora. Disse que existe uma concepção e um uso da religião através dos quais esta se torna fonte de violência, enquanto que a orientação do homem para Deus, vivida rectamente, é uma força de paz. Neste contexto, recordei a necessidade de diálogo e falei da purificação, sempre necessária, da vivência da religião. Por outro lado, afirmei que a negação de Deus corrompe o homem, priva-o de medidas e leva-o à violência.

       Ao lado destas duas realidades, religião e anti-religião, existe, no mundo do agnosticismo em expansão, outra orientação de fundo: pessoas às quais não foi concedido o dom de poder crer e todavia procuram a verdade, estão à procura de Deus. Tais pessoas não se limitam a afirmar «Não existe nenhum Deus», mas elas sofrem devido à sua ausência e, procurando a verdade e o bem, estão, intimamente estão a caminho d’Ele. São «peregrinos da verdade, peregrinos da paz». Colocam questões tanto a uma parte como à outra. Aos ateus combativos, tiram-lhes aquela falsa certeza com que pretendem saber que não existe um Deus, e convidam-nos a tornar-se, em lugar de polémicos, pessoas à procura, que não perdem a esperança de que a verdade exista e que nós podemos e devemos viver em função dela. Mas, tais pessoas chamam em causa também os membros das religiões, para que não considerem Deus como uma propriedade que de tal modo lhes pertence que se sintam autorizados à violência contra os demais. Estas pessoas procuram a verdade, procuram o verdadeiro Deus, cuja imagem não raramente fica escondida nas religiões, devido ao modo como eventualmente são praticadas.
       Que os agnósticos não consigam encontrar a Deus depende também dos que crêem, com a sua imagem diminuída ou mesmo deturpada de Deus. Assim, a sua luta interior e o seu interrogar-se constituem para os que crêem também um apelo a purificarem a sua fé, para que Deus – o verdadeiro Deus – se torne acessível. Por isto mesmo, convidei representantes deste terceiro grupo para o nosso Encontro em Assis, que não reúne somente representantes de instituições religiosas. Trata-se de nos sentirmos juntos neste caminhar para a verdade, de nos comprometermos decisivamente pela dignidade do homem e de assumirmos juntos a causa da paz contra toda a espécie de violência que destrói o direito. Concluindo, queria assegura-vos de que a Igreja Católica não desistirá da luta contra a violência, do seu compromisso pela paz no mundo. Vivemos animados pelo desejo comum de ser «peregrinos da verdade, peregrinos da paz».

BENTO XVI, Peregrinos da Verdade, Peregrinos da Paz, Assis, 27 de Outubro de 2011.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Bilhete para Assis - 25 anos do encontro da Paz

Assumem-se como «passageiros do mesmo comboio», numa linha que esperemos não corra o risco de fechar

       Em 2002, quando o João Paulo II convidou pela terceira vez líderes religiosos de todo o mundo para um encontro de oração pela paz em Assis, o então cardeal Ratzinger referiu-se a esse acontecimento a partir da simbologia de um caminho, de uma viagem. E encontrou no facto do papa Wojtyla ter percorrido a distância entre Roma e Assis na companhia de representantes de outras religiões em carruagens do mesmo comboio analogias suficientes para afirmar a pertinência e importância destes encontros.
       No mesmo artigo (30 Giorni, nº 1 de 2002) afirmava, enquanto prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o caminho da construção da paz, com outras religiões e a exemplo de S. Francisco, como meio para encontrar a identidade cristã católica. Escreve: “Se nós, como cristãos, empreendermos o caminho pela paz a partir do exemplo de S. Francisco, não devemos ter medo de perder a nossa identidade: é precisamente então que a encontramos. E se outros se unem a nós na procura da paz e da justiça, nem eles nem nós temos de temer que a verdade possa ser pisada por bonitas frases feitas”.
       Na semana em que a mesma pessoa, agora Bento XVI, toma a iniciativa de convocar também representantes de religiões de todo o mundo para uma jornada de reflexão, diálogo e oração para a paz e a justiça no mundo, vale a pena criar sintonias com o significado que o então cardeal Ratzinger atribuiu ao que chamou “Evento Assis”. Afirma, no mesmo artigo, que esse encontro “foi sobretudo a expressão de um caminho, de uma busca, da peregrinação pela paz que só acontece se unida à justiça. De facto, onde falta a justiça, onde aos indivíduos são negados os direitos, a ausência de guerra pode ser apenas um véu detrás do qual se escondem a injustiça e a opressão”.
       Como João Paulo II nesse encontro de 2002, também Bento XVI fará a viagem de comboio entre Roma e Assis com as delegações de várias religiões. “Este comboio pareceu-me como que um símbolo da nossa peregrinação na história”, considerava na altura a respeito da viagem do seu antecessor. E, como a prever uma nova viagem com o mesmo destino, referia: “o facto que o comboio tenha escolhido como seu destino a paz e a justiça, a reconciliação dos povos e das religiões, não é com certeza uma grande ambição e, ao mesmo tempo, um sinal de esperança?”
       25 anos depois do primeiro encontro mundial de oração pela paz em Assis, o atual Papa volta aos lugares de S. Francisco com líderes de outras religiões. Todos querem ser “Peregrinos da verdade, peregrinos da paz”, como indica o tema deste encontro. E assumem-se como “passageiros do mesmo comboio”, numa linha que esperemos não corra o risco de fechar. Basta para isso que não diminuam os interessados num bilhete para Assis...

Paulo Rocha, in Agência Ecclesia

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Se o grão de trigo não morrer na terra...

Estamos sujeitos à vã situação do tempo presente

       "Eu penso que os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória que se há-de manifestar em nós. Na verdade, as criaturas esperam ansiosamente a revelação dos filhos de Deus. Elas estão sujeitas à vã situação do mundo, não por sua vontade, mas por vontade d’Aquele que as submeteu, com a esperança de que as mesmas criaturas sejam também libertadas da corrupção que escraviza, para receberem a gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Sabemos que toda a criatura geme ainda agora e sofre as dores da maternidade. E não só ela, mas também nós, que possuímos as primícias do Espírito, gememos interiormente, esperando a adopção filial e a libertação do nosso corpo. É em esperança que estamos salvos, pois ver o que se espera não é esperança: quem espera o que já vê? Mas esperar o que não vemos é esperá-lo com perseverança" (Rom 8, 18-25).
        O Apóstolo São Paulo, nesta missiva aos Romanos, mostra-nos a tensão dialógica entre o tempo presente e a eternidade junto de Deus. Enquanto vivemos no tempo e na história, neste mundo, estamos sujeitos à fragilidade humana. O sofrimento acompanha-nos até ao fim, ainda que confortados pela esperança, pela certeza de que a nossa existência tem um fim que desembocará na eternidade de Deus. Essa certeza afasta-nos do fatalismo e do desespero, do vazio e da morte como desaparecimento total da nossa memória, da nossa identidade, da nossa vida.
       A imagem não poderia ser mais feliz, a gravidez e o parto que se aproxima. A gravidez e o parto sugere incómodo, dor, sofrimento, às vezes agonia. Mas mais forte que a dor é a alegria do que está para vir, a chegada do filho. É perante essa certeza que as dores são mais facilmente suportadas.
Também assim a nossa vida espiritual que nos compromete com este mundo e com este tempo, antecipando a alegria da comunhão definitiva com Deus para os momentos de travessia, de sofrimento, de provação.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Nota sobre o livro "O último segredo"

Primeira nota:
       Ainda não li o livro, mas a entrevista de José Rodrigues dos Santos à revista Sábado. Permite concluir desde logo que é mais um romance oportunista, querendo tornar dogmático o que são suposições já muito exploradas - apresenta alguns dados como sendo novos e escondidos pela Igreja, quando são estudados há decénios, e alguns, há séculos. Tratando-se de uma obra ficcionada nada a opor. Mas quando se faz querer que a teologia e a Igreja vivem na mentira e o José  Rodrigues dos Santos é a verdade descoberta e definitiva, no mínimo é presunção. Tantos estudiosos, historiadores, teólogos, e outros, cujas descobertas e/ou reflexões não têm nem valor nem credibilidade porque há ou pode haver outras interpretações!
       Pelo que li, o romance não traz, para a história, nada de novo. A filiação de Jesus, a sua família, os evangelhos gnósticos, a figura ímpar de Maria Madalena, são temas amplamente discutidos. Diga-se a propósito e como exemplo: Maria Madalena, popularmente continua a dizer-se que era uma prostituta ou a mulher apanhada em adultério; o filme de Mel Gibson assume esta versão; na Igreja contudo ninguém ensina semelhante inverdade. Maria Madalena era uma mulher bastante doente que Jesus curou e depois disso tornou-se uma das benfeitores de Jesus e dos seus discípulos. Alguns Padres da Igreja fizeram confusão entre Maria Madalena e outras mulheres de quem não nos chega o nome - talvez para não serem expostas. Muitas vezes, incluindo José Saramago, é apresentada como pessoa íntima de Jesus. Bom, por ser suspeita vale mais dos que os testemunhos do Evangelho? Ou do que os estudos teológicos?
        Também poderia abordar, não sei se aparecerá no romance, que Jesus nasceu 7 anos antes da era cristã... que morreu pelo ano 30, mas com 37 anos... qualquer estudante de teologia sabe isso... que Judas poderia ter sido o discípulo predilecto de Jesus... que a expulsão dos sete demónios de Maria Madalena poderá significar que tinha muitas doenças, ou uma doença muito grave... veja-se que o sete é muito simbólico... poderia também referir que afinal em Belém, Jesus nasce numa gruta ou num estábulo por generosidade de São José, que teria aí uma casa, e a gravidez de Maria, o terá levado a disponibilizar a casa para os que se deslocavam para o recenseamento. Se Maria ocupasse a casa, todos na casa ficariam contaminados (era assim a lei judaica), com o parto. Então, a opção terá sido o "estábulo", a parte debaixo da casa, onde se resguardaram... e tantas outras coisas sobre as quais há hoje uma luz diferente, mas que no essencial e para os crentes não são obstáculo, mas a constatação que a Sagrada Escritura tem um contexto espacio-temporal, situada na história, redigida por homens, em palavras humanas...

       Mais uma nota introdutória:
       Li romances anteriores de José Rodrigues dos Santos (que vale a pena ler). Nada a opor ao romancista... como li várias obras de José Saramago (a escrita sobre Jesus Cristo é mais uma tentativa de mostrar factos novos, mas nada do que li para mim foi novo, tinha estudado no seminário, mas foi um bom negócio "literário", como também Caim)... como li Dan Brown, O Código Da Vinci (facilmente o que nos é apresentado como a última verdade, factual, se verifica que mesmo nos dados históricos e nas referências aos monumentos há muitos erros e alguns de palmatória... depois disso, as suas publicações, aproveitando o sucesso, versaram sobre as mesmas suposições, mas ficaram por isso mesmo, para mim, desinteressante...)
       Se pesquisarem na NET vão encontrar muitos "últimos segredos"... de qualquer coisa, mas a maioria versa sobre religião... continua a vender bem!
       BENTO XVI, na obra de Jesus de Nazaré, aborda muitos dos temas polémicos, mas vai além do método crítico-histórico. Vale a pena ler a obra, onde se pode verificar claramente que a Igreja e os seus maiores "teólogos" não fogem às questões colocadas nas insinuações, na história, nas tradições paralelas, nos grupos sectários que se afastaram da Igreja...

      
NOTA DO SECRETARIADO NACIONAL DA PASTORAL DA CULTURA:

       O romance de José Rodrigues dos Santos, intitulado “O último segredo”, é formalmente uma obra literária. Nesse sentido, a discussão sobre a sua qualidade literária cabe à crítica especializada e aos leitores. Mas como este romance do autor tem a pretensão de entrar, com um tom de intolerância desabrida, numa outra área, a história da formação da Bíblia por um lado, e a fiabilidade das verdades de Fé em que os católicos acreditam por outro, pensamos que pode ser útil aos leitores exigentes (sejam eles crentes ou não) esclarecer alguns pontos de arbitrariedade em que o dito romance incorre.

       1. Em relação à formação da Bíblia e ao debate em torno aos manuscritos, José Rodrigues dos Santos propõe-se, com grande estrondo, arrombar uma porta que há muito está aberta. A questão não se coloca apenas com a Bíblia, mas genericamente com toda a Literatura Antiga: não tendo sido conservados os manuscritos que saíram das mãos dos autores torna-se necessário partir da avaliação das diversas cópias e versões posteriores para reconstruir aquilo que se crê estar mais próximo do texto original. Este problema coloca-se tanto para o Livro do Profeta Isaías, por exemplo, como para os poemas de Homero ou os Diálogos de Platão. Ora, como é que se faz o confronto dos diversos manuscritos e como se decide perante as diferenças que eles apresentam entre si? Há uma ciência que se chama Crítica Textual (Critica Textus, na designação latina) que avalia a fiabilidade dos manuscritos e estabelece os critérios objetivos que nos devem levar a preferir uma variante a outra. A Crítica Textual faz mais ainda: cria as chamadas “edições críticas”, isto é, a apresentação do texto reconstruído, mas com a indicação de todas as variantes existentes e a justificação para se ter escolhido uma em lugar de outra. O grau de certeza em relação às escolhas é diversificado e as próprias dúvidas vêm também assinaladas.
       Tanto do texto bíblico do Antigo como do Novo Testamento há extraordinárias edições críticas, elaboradas de forma rigorosíssima do ponto de vista científico, e é sobre essas edições que o trabalho da hermenêutica bíblica se constrói. É impensável, por exemplo, para qualquer estudioso da Bíblia atrever-se a falar dela, como José Rodrigues dos Santos o faz, recorrendo a uma simples tradução. A quantidade de incorreções produzidas em apenas três linhas, que o autor dedica a falar da tradução que usa, são esclarecedoras quanto à indigência do seu estado de arte. Confunde datas e factos, promete o que não tem, fala do que não sabe.

       2. Chesterton dizia, com o seu notável humor, que o problema de quem faz da descrença profissão não é deixar de acreditar em alguma coisa, mas passar a acreditar em demasiadas. Poderíamos dizer que é esse o caso do romance de José Rodrigues dos Santos. A nota a garantir que tudo é verdade, colocada estrategicamente à entrada do livro, seria já suficientemente elucidativa. De igual modo, o apontamento final do seu romance, onde arvora o método histórico-crítico como a única chave legítima e verdadeira para entender o texto bíblico. A validade do método de análise histórico-crítica da Bíblia é amplamente reconhecida pela Igreja Católica, como se pode ver no fundamental documento “A interpretação da Bíblia na Igreja Católica” (de 1993). Aí se recomenda o seguinte: «os exegetas católicos devem levar em séria consideração o caráter histórico da revelação bíblica. Pois os dois Testamentos exprimem em palavras humanas, que levam a marca do seu tempo, a revelação histórica que Deus fez… Consequentemente, os exegetas devem servir-se do método histórico-crítico». Mas o método histórico-crítico é insuficiente, como aliás todos os métodos, chamados a operar em complementaridade. Isso ficou dito, no século XX, por pensadores da dimensão de Paul Ricoeur ou Gadamer. José Rodrigues dos Santos parece não saber o que é um teólogo, e dir-se-ia mesmo que desconhece a natureza hipotética (e nesse sentido científica) do trabalho teológico. O positivismo serôdio que levanta como bandeira fá-lo, por exemplo, chamar “historiadores” aos teólogos que pretende promover, e apelide apressadamente de “obras apologéticas” as que o contrariam.

       3. A nota final de José Rodrigues dos Santos esconde, porém, a chave do seu caso. Nela aparecem (mal) citados uma série de teólogos, mas o mais abundantemente referido, e o que efetivamente conta, é Bart D. Ehrman. Rodrigues dos Santos faz de Bart D.Ehrman o seu teleponto, a sua revelação. Comparar o seu “Misquoting Jesus. The Story Behind who Changed the Bible and Why” com o “O Último segredo” é tarefa com resultados tão previsíveis que chega a ser deprimente. Ehrman é um dos coordenadores do Departamento de Estudos da Religião, da Universidade da Carolina do Norte, e um investigador de erudição inegável. Contudo, nos últimos anos, tem orientado as suas publicações a partir de uma tese radical, claramente ideológica, longe de ser reconhecida credível. Ehrman reduz o cristianismo das origens a uma imensa batalha pelo poder, que acaba por ser tomado, como seria de esperar, pela tendência mais forte e intolerante. E em nome desse combate pelo poder vale tudo: manobras políticas intermináveis, perseguições, fabricação de textos falsos… Essa luta é transportada para o interior do texto bíblico que, no dizer de Ehrman, está texto repleto de manipulações. O que os seus pares universitários perguntam a Ehrman, com perplexidade, é em que fontes textuais ele assenta as hipóteses extremadas que defende.

       4. Resumindo: é lamentável que José Rodrigues dos Santos interrogue (e se interrogue) tão pouco. É lamentável que escreva centenas de páginas sobre um assunto tão complexo sem fazer ideia do que fala. O resultado é bastante penoso e desinteressante, como só podia ser: uma imitação requentada, superficial e maçuda. O que a verdadeira literatura faz é agredir a imitação para repropor a inteligência. O que José Rodrigues dos Santos faz é agredir a inteligência para que triunfe o pastiche. E assim vamos.

domingo, 23 de outubro de 2011

Festa de Acolhimento - 2011/2012

       Sábado, 22 de Outubro de 2011, a primeira festa do itinerário catequético, com os meninos e as meninas do 1.º ano de Catequese. O acolhimento é próprio de todo o cristão, amar, acolher, partilhar, entrar em comunhão com os outros.
       Esta festa, no primeiro ano de catequese, tem a preocupação de integrar os meninos e fazê-los sentir parte da comunidade celebrante.
       Aqui ficam algumas imagens, em formato de vídeo, com a belíssima música de Taizé, neste animado Aleluia:

sábado, 22 de outubro de 2011

XXX Domingo do tempo Comum - 23 de Outubro

       1 – Disse-lhes e diz-nos Jesus: «‘Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito’. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo, porém, é semelhante a este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas».
       A pergunta feita a Jesus, por um doutor da lei, sobre o mais importante dos mandamentos, permite, uma vez mais, ao Mestre dos Mestres, lembrar que não basta saber é essencial que o saber leve ao compromisso concreto com o próximo.
        É uma cilada, mas Jesus não deixa de responder. Segundo a Sagrada Escritura (que corresponde, para nós, ao Antigo Testamento) é inequívoco que o mandamento mais importante é amar a Deus antes e acima de tudo. O doutor da lei tem obrigação de saber. Para qualquer crente, judeu ou cristão, amar a Deus com todas as forças, com todas as capacidades intelectuais, volitivas, espirituais, é o ponto de partida e de chegada, é o princípio e o fim de todas as escolhas. As nossas opções devem procurar estar conformes à vontade de Deus, à Palavra do Senhor. Quando isso acontece, então tudo o mais se tornará fácil e o cumprimento dos restantes mandamentos já se inclui no amor a Deus sobre todas as coisas.
       Porém, se não há dúvidas quanto ao primeiro mandamento, já quanto à importância dos outros havia algumas discussões. Jesus acrescenta, desfazendo dúvidas e confusões, que o segundo mandamento é amar o próximo como a si mesmo. E o próximo é toda a pessoa que encontramos e não apenas os que fazem parte do nosso grupo, da nossa nacionalidade, da nossa religião. Mais, Jesus dirá mesmo que nós é que nos tornamos próximos sempre que nos predispomos a ir ao encontro do outro.
       Vivendo estes dois mandamentos, cumpre-se com todos os outros preceitos existentes na Sagrada Escritura.

       2 – Na primeira leitura, do Livro do Êxodo, Moisés explicita os mandamentos na relação com o próximo, concretizando com algumas situações reais em que se poderá provar e experimentar o amor ao próximo.
       "Não prejudicarás o estrangeiro, nem o oprimirás, porque vós próprios fostes estrangeiros na terra do Egipto. Não maltratarás a viúva nem o órfão... Se emprestares dinheiro a alguém do meu povo, ao pobre que vive junto de ti, não procederás com ele como um usurário, sobrecarregando-o com juros... Se receberes como penhor a capa do teu próximo, terás de lha devolver até ao pôr-do-sol, pois é tudo o que ele tem para se cobrir, é o vestuário com que cobre o seu corpo. Com que dormiria ele? Se ele Me invocar, escutá-lo-ei, porque sou misericordioso".
       Muitos anos antes de Jesus, já a Sagrada Escritura sanciona em concreto a vivência do amor ao próximo, atendendo com generosidade e hospitalidade ao estrangeiro que vem até nós, ajudando aqueles que estão numa situação mais frágil (mais precária), que ao tempo eram os órfãos e as viúvas; emprestando dinheiro aos pobres, mas sem juros... se não tem dinheiro para sobreviver como poderiam ter dinheiro para pagar juros... é o contrário do que fazem hoje os países do primeiro mundo em relação aos países do terceiro e do quarto mundos...
       A radicalidade do compromisso com o nosso semelhante já é por demais evidente no livro do Êxodo. Jesus colocará uma referência inelutável: amar o próximo dando a vida por ele, isto é, amar como Ele amou, até ao fim, dando a própria vida se necessário.

       3 - Com efeito, recorda-nos São Paulo na segunda leitura, a referência fundamental é Jesus Cristo, o Seu amor por nós. Ele salva-nos dando a Sua vida, oferecendo-Se em obediência ao projecto de Deus. "Vós sabeis como procedemos no meio de vós, para vosso bem. Tornaste-vos imitadores nossos e do Senhor, recebendo a palavra no meio de muitas tribulações, com a alegria do Espírito Santo; e assim vos tornastes exemplo para todos os crentes da Macedónia e da Acaia".
       O que Paulo nos recomenda, como à comunidade de Tessalónica, é que em tudo procuremos imitar Jesus Cristo. Por vezes torna-se mais fácil imitar o Senhor se tivermos por perto quem exemplifique este amor, como São Paulo para as comunidades que fundou. O Apóstolo relembra que se tornou testemunho do Evangelho de Jesus Cristo, mas que também a comunidade soube responder em zelo e dedicação, ainda que no meio de muitas tribulações.
        O mesmo desejamos para nós e para as nossas comunidades cristãs. No meio das tribulações do tempo presente não deixemos de procurar realizar a vontade de Deus na caridade sem limites, ao jeito de Jesus Cristo.

Textos para a Eucaristia (ano A): Ex 22,20-26; 1 Tes 1,5c-10; Mt 22,34-40.

Beato JOÃO PAULO II

       A Igreja Católica celebra este sábado, pela primeira vez, a memória litúrgica de João Paulo II (1920-2005), Papa polaco que foi beatificado em maio deste ano pelo seu sucessor, Bento XVI, no Vaticano.
       A data assinala o dia de início de pontificado de Karol Wojtyla, em 1978, pouco depois de ter sido eleito Papa.
       Na habitual resenha biográfica que é apresentada no calendário dos santos e beatos, João Paulo II é lembrado pela “extraordinária solicitude apostólica, em particular para com as famílias, os jovens e os doentes, o que o levou a realizar numerosas visitas pastorais a todo o mundo”.
       “Entre os muitos frutos mais significativos deixados em herança à Igreja, destaca-se o seu riquíssimo Magistério e a promulgação do Catecismo da Igreja Católica e do Código de Direito Canónico para a Igreja latina e oriental”, pode ler-se.
       Aos fiéis é proposta ainda uma passagem da homilia de João Paulo II no início do seu pontificado, precisamente a 22 de outubro de 1978, na qual afirmou: «Não tenhais medo! Abri as portas a Cristo!».
       A beatificação, que antecede a canonização (declaração de santidade), é o rito através do qual a Igreja Católica propõe uma pessoa como modelo de vida e intercessor junto de Deus, ao mesmo tempo que autoriza o seu culto público, normalmente em âmbito restrito.
       A Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos dispôs um calendário próprio para a diocese de Roma (da qual todos os Papas são bispos) e as dioceses da Polónia (país natal de João Paulo II), regulando o “culto litúrgico” ao futuro beato.
       A Santa Sé refere ainda que outras conferências episcopais, dioceses ou famílias religiosas podem apresentar um “pedido de inscrição” desta memória litúrgica nos seus calendários próprios.
       A oração inicial da missa – formalmente, a «coleta» - desta celebração litúrgica, em português, é a seguinte:
       “Ó Deus, rico de misericórdia, que escolhestes o beato João Paulo II para governar a vossa Igreja como Papa, concedei-nos que, instruídos pelos seus ensinamentos, possamos abrir confiadamente os nossos corações à graça salvífica de Cristo, único Redentor do homem. Ele que convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos”.
       Karol Jozef Wojtyla, eleito Papa a 16 de outubro de 1978, nasceu em Wadowice (Polónia), a 18 de maio de 1920, e morreu no Vaticano, a 2 de abril de 2005.
       Entre os seus principais documentos, contam-se 14 encíclicas, 15 exortações apostólicas, 11 constituições apostólicas e 45 cartas apostólicas.
       Este dia vai ser assinalado em Roma com um encontro de jovens para uma missa presidida pelo cardeal Agostino Vallini, vigário do Papa para a diocese italiana.
       Em Lisboa, a data será celebrada paróquia da Sé Patriarcal, com o lançamento, às 20h00, de um disco de tributo ao beato, que inclui o hino oficial da beatificação de João Paulo II, originalmente composto em italiano pelo maestro Marco Frisina, com tradução e adaptação para português feita pelo padre António Cartageno.
       Antes desta sessão decorre, às 16h00, a apresentação de um filme sobre João Paulo II, seguindo-se, pelas 18h30, a celebração da missa evocativa da sua memória.
       Ainda em Lisboa, na igreja da Encarnação, no Chiado, o núncio apostólico [embaixador da Santa Sé] vai benzer uma imagem de João Paulo II, às 19h00, para ser exposta à veneração dos fiéis.
       O Instituto Superior de Estudos Teológicos de Coimbra, juntamente com o seminário da diocese, promove por seu lado um congresso teológico intitulado ‘João Paulo II: Memória e Presença’.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Paradoxos vivos

Como bem, mas sinto fome
        porque há um ser humano que está faminto.
Bebo água fresca, mas tenho a garganta seca
        porque há um ser humano que está sedento.
Posso sorrir, mas soltam-se-me as lágrimas
        porque há um ser humano profundamente triste.
Tenho um corpo são, mas sinto-me mal
        porque há um ser humano que está doente.
Tenho boa visão, mas encontro-me na escuridão
        porque há um ser humano que está cego.
Tenho uma mente esclarecida, mas as ideias fogem-me
        porque há um ser humano que é analfabeto.
Tenho amigos, mas vivo a solidão com angústia
        porque há um ser humano que está abandonado.
Tenho mais que uma casa, mas sinto-me à intempérie
        porque há um ser humano sem abrigo.
Procuro a pureza, mas sinto-me culpado
        porque há um ser humano refém do pecado.
Sou livre, mas é como se as minhas janelas tivessem grades
        porque há um ser humano encarcerado.
Visto-me segundo a moda, mas sinto-me coberto de trapos
        porque há um ser humano que está nu.
Desfruto da comodidade, mas não tenho descanso
        porque há um ser humano necessitado.

Myrtle Householder, in Cristo Jovem

Eu vim trazer o fogo à terra...

        Disse Jesus aos seus discípulos: «Eu vim trazer o fogo à terra e que quero Eu senão que ele se acenda? Tenho de receber um baptismo e estou ansioso até que ele se realize. Pensais que Eu vim estabelecer a paz na terra? Não. Eu vos digo que vim trazer a divisão. A partir de agora, estarão cinco divididos numa casa: três contra dois e dois contra três. Estarão divididos o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra» (Lc 12, 49-53).
        Quando as pessoas agem procurando a verdade e a justiça, a rectidão e a frontalidade, quando se guiam pela sua consciência (bem formada, esclarecida, aberta aos outros) e não se deixam arrastar pela correnteza da opinião geral, estão sujeitas a alguns dissabores, a enfrentar-se com outras opiniões e outras pessoas. Bem entendida a discussão é positiva, como diz o ditado, da discussão nasce a luz. Porém, a procura da verdade pode encontrar diversos obstáculos, porque expõe outros que vivem na mentira e na hipocrisia, e porque podem impedir outros mais de viverem a seu bel-prazer e à custa das ilusões que inculcam nos demais...

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Guia do Património Religioso do Douro

       Foi apresentado na cidade de Tarouca o Guia Douro Religioso, há alguns dias, procurando potenciar o turismo do Douro, partindo de três rotas ligadas ao religioso, inventariando o que existe, divulgando e promovendo a visita...

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Grão de uma romã - Hino contra a pobreza...

       A Associação CAIS apresenta este Hino Contra a Pobreza, como forma de assinalar o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, comemorado cada ano a 17 de Outubro.

Bento XVI: proclama o ANO da FÉ (2012/2013)

       Um ano de fé com início a 11 de Outubro do próximo ano. É a proposta de Bento XVI para assinalar o quinquagésimo aniversário do Concílio Vaticano II (1962/65).
       “Decidi proclamar um especial “Ano da Fé”, que terá início a 11 de Outubro de 2012, quinquagésimo aniversário da abertura do Concílio ecuménico Vaticano II, e que terminará a 24 de Novembro 2013, solenidade de Cristo Rei do universo”, disse hoje o Papa.
       “Considero que, 50 anos depois da abertura do Concílio, tão ligado à feliz memória do Beato João XXIII, seja oportuno destacar a beleza e a centralidade da fé, a exigência de a reforçar e aprofundar a nível pessoal e comunitário”, acrescentou ainda Bento XVI.
       O anúncio foi feito perante cerca de oito mil responsáveis e leigos na homilia da missa celebrada hoje na basílica de São Pedro no âmbito do primeiro encontro promovido pela "Nova Evangelização".
       O Papa anunciou que esta iniciativa será especificada numa carta apostólica. O Concílio aberto por João XXIII marcou a abertura da Igreja ao mundo e à modernidade, com o reconhecimento da liberdade religiosa e o respeito devido às outras religiões.
       A liturgia e a pastoral foram profundamente renovadas com o Concílio. Depois dele, múltiplos movimentos de reformas e iniciativas agitaram a Igreja, paralelamente com a diminuição da prática religiosa e a saída de numerosos padres, e as divisões entre progressistas e conservadores acentuaram-se.

Notícia da Rádio Renascença. Veja a reportagem em formato de vídeo.

sábado, 15 de outubro de 2011

XXIX Domingo do Tempo Comum - 16 de Outubro

       1 – Na Viagem Apostólica à Alemanha, Sua terra natal, o Papa sublinhou a necessidade da Igreja ser livre face aos bens materiais e à política, para que cumpra com a sua missão primordial que é anunciar e testemunhar Jesus Cristo e o Seu Evangelho de justiça, de perdão e de amor, de partilha, solidariedade e comunhão, abrindo os corações para a dimensão espiritual, sobrenatural, transcendente da vida, sustentando a esperança que nos coloca em Deus, na confiança que nos compromete com os outros, no mundo e na história actuais.
       Bento XVI diz-nos clara e inequivocamente que a Igreja "para cumprir a sua missão, ela deverá continuamente manter a distância do seu ambiente, deve por assim dizer «desmundanizar-se»", não cedendo às “pretensões e condicionamentos do mundo”.
       “A Igreja deve abrir-se incessantemente às inquietações do mundo e dedicar-se a elas sem reservas”, e não se deixar levar por “uma tendência contrária, ou seja, a de uma Igreja que se acomoda neste mundo”.
       Por outro lado, diz-nos Bento XVI, “as secularizações – sejam elas a expropriação de bens da Igreja, o cancelamento de privilégios, ou coisas semelhantes – significaram sempre uma profunda libertação da Igreja de formas de mundanidade... Uma Igreja aliviada dos elementos mundanos é capaz de comunicar aos homens, precisamente no âmbito sócio caritativo – tanto aos que sofrem como àqueles que os ajudam –, a força vital particular da fé cristã”.
       2 – Até Jesus chegam diversos questionamentos, alguns correspondem a uma busca sincera, outros a intentos para Lhe armarem ciladas, como acontece no Evangelho de hoje. Alguns fariseus, doutores da lei, herodianos (=partidários de Herodes), procuram armar-Lhe uma ratoeira: "É lícito ou não pagar tributo a César?".
       A resposta precisa de ponderação e sabedoria. Se Jesus dissesse que não deveriam pagar tributo a César, isso seria motivo mais que suficiente para ser acusado de estar contra o imperador e as autoridades romanas que impunham a ordem. Se dissesse que se deveria pagar a César ficaria a clara impressão que Ele não defendia os judeus mas os romanos. Saliente-se desde logo como se juntam algumas facções que nem se dava assim tão bem, mas protegem-se uns aos outros.
       Vejamos então como é sábia a réplica de Jesus: "Mostrai-me a moeda do tributo... De quem é esta imagem e esta inscrição... Então, dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus".
       Ao longo da história da Igreja (e da humanidade) muitas foram as ocasiões em que o poder do mundo se confundiu com o "poder" (que deveria ser serviço) religioso. Por vezes aliaram-se, apoiaram-se, e garantiram mutuamente o poder e a predominância sobre os demais, não como quem serve, à maneira de Jesus, mas como quem coloca pessoas, comunidades e países inteiros ao serviço dos seus interesses pessoais e/ou familiares.
       Quantas disputas, a ver quem mandava mais, se o rei ou o bispo?! Quantas vezes, o poder político se encostou à Igreja e à religião? Quantas vezes, a Igreja se colou ao poder político, beneficiando de apoios, umas vezes mais pessoais, outras vezes a favor das comunidades?
       Jesus di-lo claramente, a cada um a sua missão. Não se contrapõem, também não se confundem. Em todo o caso, a fé, a religião, a Igreja, hão-de posicionar-se diante da política, como dos bens materiais, numa atitude crítica, dando sempre a primazia para o serviço que os poderes públicos podem prestar às pessoas mais fragilizados. O facto de não se confundir, cria um distanciamento favorável à procura de novas respostas e sobretudo de soluções cada vez mais concordes com o Evangelho. O não se comprometer com este ou com aquele regime político, com este ou aquele partido, fazem com que a Igreja seja de todos e para todos, e dê o seu contributo específico para uma sociedade mais justa, mais fraterna, mais solidária, o contributo que radica no Evangelho, na caridade, ou melhor, que radica em Jesus Cristo.

       3 – Como cristãos, a nossa referência primeira, essencial e última, é JESUS CRISTO, verdadeiro e humano rosto de Deus. Já não vivemos nas trevas, na ilusão, no medo. Ele revela-nos o AMOR de Deus por nós, é Deus entre nós, no mundo, no tempo, na história. Não Se resguarda, como Deus omnipotente e todo-poderoso, mas um Deus próximo, Emanuel, Deus connosco. Vem para ficar e nos elevar para Ele.
       Dito de outra forma, a nossa referência não é primeiramente política e ideológica, não somos deste ou daquele grupo social ou político, somos cristãos. É a nossa identidade. Não é uma carapaça que ponhamos em nós, é a nossa alma, a nossa vida, somos nós, filhos de Deus em Cristo Jesus.
       Com o profeta, concluímos que não temos vários deuses, mas um só. "Eu sou o Senhor e não há outro; fora de Mim não há Deus. Eu te cingi, quando ainda não Me conhecias, para que se saiba, do Oriente ao Ocidente, que fora de Mim não há outro".
       Por vezes não sabemos em quem confiar e onde depositar a nossa fidelidade. A este ou aquele partido, a esta ou àquela associação, nesta ou em outra dimensão da vida. Por vezes poderemos colocar a nossa segurança nos bens materiais, ou nas realizações culturais. A fé em Deus, em Jesus Cristo, ajuda-nos a relativizar o mundano, num compromisso que não se desiluda com a caducidade das coisas nem com a fragilidade das pessoas e das suas opções.
       Por outro lado, refira-se, que os cristãos têm o dever moral de se empenharem activamente na transformação do mundo em que vivem, procurando testemunhar os valores que presidem à sua identidade cristã. Um contributo cristão quanto aos valores da vida, da dignidade humana, da opção preferencial pelos mais pobres, da protecção das pessoas mais fragilizadas, a partilha, o perdão, a reconciliação entre pessoas (e realidades), a caridade, entendida como serviço permanente a favor do próximo, ao jeito de Jesus Cristo, como quem se predispõe a dar a vida em cada palavra e em cada gesto.

       4 – O nosso compromisso vai muito além do tempo presente. Isso é muito positivo. Vai até à eternidade. Não se destrói nas desilusões presentes. Compromete-se já, hic et nunc, aqui e agora, com as realidades actuais, mas com um rasto de esperança que nunca desiste, porque sabe que mais à frente vai encontrar-se com Deus.
       Daí que o nosso trabalho, o nosso envolvimento na transformação do mundo e no compromisso com os outros, comece e termine na oração, uns pelos outros e uns com os outros: "A graça e a paz estejam convosco. Damos continuamente graças a Deus por todos vós, ao fazermos menção de vós nas nossas orações. Recordamos a actividade da vossa fé, o esforço da vossa caridade e a firmeza da vossa esperança em Nosso Senhor Jesus Cristo, na presença de Deus, nosso Pai. Nós sabemos, irmãos amados por Deus, como fostes escolhidos. O nosso Evangelho não vos foi pregado somente com palavras, mas também com obras poderosas, com a acção do Espírito Santo".
       É pela oração que nos colocamos no coração de Deus e caminhamos como comunidade.

Textos para a Eucaristia (ano A): Is 45,1.4-6; 1 Tes 1,1-5b; Mt 22,15-21.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Mia Couto: o meu primeiro Mestre foi o medo

       A fome será sem dúvida a maior cauda de insegurança...
       ...a violência contra as mulheres... sobre as mesmas nuvens cinzentas, vivemos todos nós... quando não têm medo da fome têm medo da comida... há quem tenha medo que o medo acabe...

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Pe. Tolentino Mendonça: Ligar os pontos...

Numa cultura que se recusa a encarar [a doença e a morte] … Steve Jobs deixa um testemunho exemplar de sabedoria e humanidade
        É estranho dizer-se de um homem que morre aos 56 anos que tenha tido três vidas. Mas é isso que apetece dizer quando se escuta o inspirador discurso que Steve Jobs fez em 2005, na entrega de diplomas da universidade de Stanford, e que hoje podemos perceber claramente como uma espécie de testamento. Jobs conta, então, três histórias, que correspondem a momentos-chave do seu percurso.
       A primeira descreve os seus difíceis começos e ele chama-lhe “ligar os pontos”. O arranque da vida não podia ser mais áspero. Entregue para a adoção assim que nasceu, uma adolescência hesitante, a entrada numa universidade que os pais não conseguiam pagar nem ele verdadeiramente suportava, a dureza de uma juventude feita de biscates, meio à deriva…Mas no meio disso, a aprendizagem pessoal do valor das coisas, a busca exigente daquilo que realmente gostava e aceitar pagar o preço, em dedicação e esforço. Ele conta, por exemplo, que escolheu frequentar minuciosamente um bizarro curso de caligrafia. Só dez anos mais tarde, quando inventou o revolucionário Macintosh, percebeu que esse conhecimento viria a ter uma aplicação preciosa. Como diz Steve Jobs, precisamos confiar que os pontos dispersos do nosso percurso se vão ligar e receber daí confiança para seguir um caminho diferente do previsto.
       A segunda história é sobre o amor e a perda. Ele inventou com um amigo, na garagem da sua casa, um negócio que, em apenas uma década, passou a mover 2 biliões de dólares e 4000 empregados. E, precisamente, quando julgava ter alcançado o auge despedem-no. Impressionante é o modo como integra este golpe, depois de um primeiro atordoamento: «Decidi começar de novo. E isso deu-me liberdade para começar um dos períodos mais criativos da minha vida». A verdade é que ele se reinventa e volta à liderança da empresa da qual havia sido dispensado.
       A terceira história é acerca da doença e da morte. E numa cultura que se recusa a encarar qualquer uma delas, Steve Jobs deixa um testemunho exemplar de sabedoria e humanidade: «A morte é muito provavelmente a melhor invenção da Vida… O nosso tempo é limitado então não o desperdicemos… Tenhamos a coragem de seguir o nosso coração». Por isso, a sua morte recente não nos obriga apenas a lembrar a revolução tecnológica que ele aproximou dos nossos quotidianos. Ela obriga-nos a arriscar “ligar os pontos” dentro de nós.

José Tolentino Mendonça, Editorial Agência Ecclesia

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

DEUS CAPACITA OS ESCOLHIDOS

Conta certa lenda,
que estavam duas crianças
patinando num lago congelado.
Era uma tarde nublada
e fria e as crianças brincavam despreocupadas.
De repente, o gelo se quebrou
e uma delas caiu,
ficando presa na fenda que se formou.
A outra, vendo seu amiguinho preso
e se congelando, tirou um dos patins
e começou a golpear o gelo com todas
as suas forças, conseguindo por fim
quebrá-lo e libertar o amigo.
Quando os bombeiros chegaram
e viram o que havia acontecido,
perguntaram ao menino:
- Como você conseguiu fazer isso?
É impossível que tenha conseguido quebrar o gelo,
sendo tão pequeno e com mãos tão frágeis!
Nesse instante, um ancião que passava pelo local,
comentou:
- Eu sei como ele conseguiu.
Todos perguntaram:
- Pode nos dizer como?
- É simples - respondeu o velho.
- Não havia ninguém ao seu redor,
para lhe dizer que não seria capaz..

"Deus nos fez perfeitos e não escolhe os capacitados,
CAPACITA OS ESCOLHIDOS.
Fazer ou não fazer algo só depende
de nossa vontade e perseverança


Mt 22:14 - Porque muitos são chamados.
Mas poucos os escolhidos.

Confie...
As coisas acontecem na hora certa.
Exatamente quando devem acontecer!
Momentos felizes, louve a Deus.
Momentos difíceis, busque a Deus.
Momentos silenciosos, adore a Deus.
Momentos dolorosos, confie em Deus.
Cada momento, agradeça a Deus.

E se o seu matrimónio fosse um desporto?

       A Conferência Episcopal dos Estados Unidos lançou uma campanha publicitária sobre o matrimónio e a vivência salutar em família, como um desporto que se pratica... Qual seria o desporto escolhido, se o seu matrimónio fosse um desporto...

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Marinha mexicana...

       Mais um momento de deslumbre, de arte, de engenho...

Limpais o exterior. E o interior?...

       Depois de Jesus ter falado, um fariseu convidou-O para comer em sua casa. Jesus entrou e tomou lugar à mesa. O fariseu admirou-se, ao ver que Ele não tinha feito as abluções antes de comer. Disse-lhe o Senhor: «Vós, os fariseus, limpais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de rapina e perversidade. Insensatos! Quem fez o interior não fez também o exterior? Dai antes de esmola o que está dentro e tudo para vós ficará limpo» (Lc 11, 37-41).
       Um dos gestos obrigatórios para os judeus eram as abluções, antes da refeição, lavar as mãos e eventualmente a cara. É uma questão prática e higiénica. Mas converteu-se em rito religioso. Jesus ignora o gesto e senta-se para tomar a refeição. Não deve ter sido inocente. Talvez uma provocação de Jesus para suscitar a reflexão. E a reflexão é clara: a insistência não deve ser no aspecto exterior, mas na vivência interior e que esta, por sua vez, possa traduzir-se com atitudes e gestos concretos na relação com o nosso semelhante.
       Obviamente que o copo como o prato devem estar limpos também no exterior e o aspecto ajuda à refeição, mas como seria se o prato estivesse limpo por fora mas sujo por dentro?! A prioridade é o interior, a conversão ao bem, à verdade, à justiça...

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Vídeo sobre os 100 anos de José Mendes

       Foi disponibilizado o vídeo com vários momentos da celebração festiva dos 100 anos do Sr. José Mendes, com a Eucaristia, a pregação do Pe. António Giroto, o almoço e a festa que se foi prolongando ao longo do dia:

O Filho do Homem será um sinal...

Disse Jesus:
       «Esta geração é uma geração perversa: pede um sinal, mas nenhum sinal lhe será dado, senão o sinal de Jonas. Assim como Jonas foi um sinal para os habitantes de Nínive, assim o será também o Filho do homem para esta geração. No juízo final, a rainha do sul levantar-se-á com os homens desta geração e há-de condená-los, porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão; e aqui está quem é maior do que Salomão. No juízo final, os homens de Nínive levantar-se-ão com esta geração e hão-de condená-la, porque fizeram penitência ao ouvir a pregação de Jonas; e aqui está quem é maior do que Jonas» (Lc 11, 29-32).
       O filho do Homem - Jesus Cristo - será um sinal para esta geração, para todas as gerações. Cabe-nos acolher o sinal e deixarmo-nos converter. Não basta possuir talentos, ou receber dons, é necessário desenvolvê-los, colocá-los ao serviço dos outros. A presença de Jesus (como sinal) vale se deixarmos que a Sua presença seja impulsionadora na transformação da nossa vida e do nosso mundo.
       Por outro lado, na nossa vida há muitas situações que carecem de comprovação, como por exemplo a confiança que depositamos em alguém. Essa confiança é que nos vai levar a aproximarmo-nos dela. Se pelo contrário somos incapazes de confiar, nunca descobriremos que ela é uma pessoa de bem. A Jesus pedem-lhe um sinal inequívoco, depois de terem visto diversos prodígios. Jesus diz-lhes e diz-nos que o verdadeiro sinal é Ele mesmo, com a Sua vida e assim o será na morte e ressurreição...

domingo, 9 de outubro de 2011

Primeiro dia de Catequese e do Ano Pastoral

       Outubro é o mês de retomar a Catequese Paroquial, bem assim como as diversas actividades e celebrações que dinamizam a vida da paróquia.
 
 
 
       Sábado, 8 de Outubro, voltámos em força ao Centro Paroquial , para num ambiente de festa e alegria nos sentirmos mais próximos uns dos outros. Os jovens, com as catequistas, ajudaram a ambientar os que vieram pela primeira ve, mas também todos os outros, para que o regresso pudesse ser apreciado por todos. Depois de uma parte mais recreativa, a celebração da Eucaristia, parte integrante da Catequese, ou, dito de outra forma, a catequese procura levar o cristão à Eucaristia, e da Eucaristia nasce a melhor e mais autêntica catequese, como vivência, como anúncio, como testemunho de que Jesus Cristo vive em nós, no meio de nós, e Se nos dá na Palavra proclamada e no Pão repartido.
 
       No final do dia, pelas 21h00, reunião com os diversos grupos paroquiais para programar os diversos tempos pastorais, reflectindo sobre a vida comunitária e os momentos mais marcantes ao longo do ano pastoral que agora se inicia. 

       Abaixo as fotos em formato de vídeo do primeiro dia de Catequese, tendo por música de fundo a bonita canção da Fraternidade Verbum Dei, Passo a Passo, Grão a Grão.
Para ver todas as fotos do Primeiro dia da catequese, para lá do vídeo, pode aceder ao facebook.

SDPJ Lamego - À primeira vista...

       O Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil de Lamego (SDPJ de Lamego, promoveu, no passado dia 1 de Outubro, o primeiro encontro para (grupos de) jovens, em Alvite, com tempos de oração, reflexão e convívio, para apresentar as diversas iniciativas a levar a efeito durante o ano de 2011/2012. De Tabuaço estiveram lá 11 jovens. Aqui ficam algumas imagens disponibilizadas pelo SDPJ de Lamego: