sábado, 12 de novembro de 2011

XXXIII Domingo do Tempo Comum (ano A) - 13 de novembro

       1 – Na aproximação ao final do ano litúrgico, a Palavra de Deus ajuda-nos a reflectir sobre as realidades últimas, a morte, a vida eterna, a passagem deste mundo para a comunhão com Deus. Obviamente que a reflexão sobre a morte e sobre a eternidade nos obriga a enquadrar o tempo que está antes, a nossa responsabilidade para com o tempo actual, neste nosso mundo, com as pessoas que estão à nossa volta. Pensamos no fim para melhorarmos o entretanto, o caminho que lá nos conduz. Quando chegar a nossa hora, o tempo deixa de ser nosso, restará a misericórdia de Deus e a esperança dos que ficam a aguardar pela sua vez. Por ora, o nosso compromisso, a nossa vida.
       Ouçamos as palavras significativas do Apóstolo São Paulo: "Sobre o tempo e a ocasião, não precisais que vos escreva, pois vós próprios sabeis perfeitamente que o dia do Senhor vem como um ladrão nocturno. E quando disserem: «Paz e segurança», é então que subitamente cairá sobre eles a ruína, como as dores da mulher que está para ser mãe, e não poderão escapar. Mas vós, irmãos, não andeis nas trevas, de modo que esse dia vos surpreenda como um ladrão, porque todos vós sois filhos da luz e filhos do dia: nós não somos da noite nem das trevas. Por isso, não durmamos como os outros, mas permaneçamos vigilantes e sóbrios".
       Paulo recorda-nos as palavras que ouvimos de Jesus Cristo há uma semana: "vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora". Até podemos esquecer, atarefados, stressados, empenhados em viver bem (que seja sobretudo isto), mas, como popularmente se diz, temos o destino marcado, um dia haveremos de dar contas ao Senhor, Deus do Universo, e Deus nosso. O conselho de Paulo é o mesmo de Jesus: iluminados pelas palavras, pela vida, pela morte e ressurreição de Jesus, vivamos na luz, como filhos da luz, vigilantes e sóbrios, não nos deixemos adormecer por fáceis resignações, comodismos ou distrações.
       2 – Duas realidades incontornáveis e certas na nossa vida: a morte (ainda que não saibamos o dia nem a hora) e o amor. Queiramos ou não, novos ou mais velhos, com saúde de ferro ou doentes crónicos, homens ou mulheres, bem humorados ou zangados com todos, sorridentes ou sisudos, a nossa hora chegará um dia, não ficaremos para a semente. Mesmo que esse fosse o nosso anseio. Ninguém sobreviverá à corrupção do tempo e da história. Teremos um fim.
       O amor, por outro lado, comanda a vida. A este respeito há muitas discussões, pois o dinheiro comanda muitos mundos. O poder (e o desejo de poder) comanda outros mundos. O ódio e a vingança têm também os seus mundos e os seus adoradores. Mas no final sobrevém o amor, a vida, a esperança, a fé. Noutro contexto, o Apóstolo Paulo dir-nos-ia que agora coexistem a fé, a esperança e o amor, mas só o amor permanecerá até à eternidade. Se o mundo se regulasse pela lei do poder ou do dinheiro, já há muito não estávamos por cá, nem o meio mundo que engana, nem o meio mundo que é enganado. É pela força e dinâmica do amor que o mundo tem evoluído e tem sido transformado e não destruído.
       Para nós, crentes, é o amor de Deus que nos criou e é no Seu amor que sobrevivemos no tempo e na história e sobreviveremos à nossa morte biológica. Com efeito, em Deus o amor transborda em plenitude para nos criar e para nos salvar. É o amor que mobilizou, e mobiliza, homens e mulheres a ultrapassarem os seus limites e a colocarem o seu saber, o seu coração, os seus talentos e a sua vida ao serviço dos outros e da humanidade, nas mais diversas áreas de saber, da ciência, da tecnologia.
       É certo que muito mal e sofrimento grassa no mundo, por vezes tão rente a nós que se torna impossível ignorar. Ainda assim, connosco, o anseio de viver com alegria e saúde, por muito tempo, rodeados de esperança e de amigos e de situações que possamos desfrutar. É como que um impulso inscrito em nós por Deus para darmos sentido à nossa existência.

       3 – A morte é certa. Mas não podemos ficar sentados e de mãos cruzadas à espera. Então vivamos com entusiasmo. Vivamos no amor, que também é certo, o de Deus por nós, o que nos torna filhos em Jesus Cristo, o amor que o Espírito Santo nos inspira para nos ligarmos como família na partilha solidária, para entrarmos em comunhão uns com os outros, vivendo em dinâmica de felicidade.
       No Evangelho deste domingo, a parábola de Jesus sobre os talentos é muito expressiva, como que nos dizendo que Deus nos dá a vida e nos presenteia com muitos talentos. Na Sua "ausência", enquanto não nos recolhe de novo para a morada eterna, cabe-nos desenvolver, com criatividade e generosidade, os talentos que possuímos e que d'Ele nos aproximam constantemente.
        "Disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «Um homem, ao partir de viagem, chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens. A um entregou cinco talentos, a outro dois e a outro um, conforme a capacidade de cada qual; e depois partiu. O que tinha recebido cinco talentos fê-los render e ganhou outros cinco. Do mesmo modo, o que recebera dois talentos ganhou outros dois. Mas, o que recebera dois talentos ganhou outros dois. Mas, o que recebera um só talento foi escavar na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor... Muito tempo depois, chegou o senhor daqueles servos e foi ajustar contas com eles»..."
       Há caminhos a percorrer, há quem escolha pôr mãos à obra de imediato e quem opte por se esconder no medo, nas desculpas, na falta de dons, no que os outros podem e devem fazer, nas circunstâncias desfavoráveis, na falta de tempo.
       Como poderemos chegar felizes junto de Deus se desperdiçamos o nosso tempo e as qualidades que Ele nos deu e as oportunidades que tivemos para sermos felizes e contribuirmos para a felicidade de outros? Quando Ele vier retomar o que é Seu, que teremos para oferecer? Multiplicámos o que nos deu, ou desculpar-nos-emos com o medo, com os outros, com as limitações pessoais ou com as circunstâncias?

Textos para a Eucaristia (ano A): Prov 31,10-13.19-20.30-31; 1 Tes 5,1-6; Mt 25,14-30.

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