sexta-feira, 31 de maio de 2013

Papa Francisco na Casa DOM de MARIA

       No dia 21 de maio, o Papa Francisco deslocou-se à Casa Dom de Maria, estrutura desejada  e inaugurada pelo beato João Paulo II, da responsabilidade das Missionárias da Caridade, congregação criada pela beata Madre Teresa de Calcutá.

Amados irmãos e irmãs, boa tarde!

        Dirijo uma saudação carinhosa a todos vós; de modo totalmente especial a vós, queridos hóspedes desta Casa, que é sobretudo vossa, porque para vós foi pensada e instituída. Agradeço a quantos, de vários modos, contribuem para esta bonita realidade no Vaticano. A minha presença esta tarde quer ser, antes de tudo, um agradecimento sincero às Missionárias da Caridade, fundadas pela Beata Teresa de Calcutá, que trabalham aqui há vinte e cinco anos, com numerosos voluntários, a favor de muitas pessoas que necessitam de ajuda. Obrigado de coração! Vós, prezadas Irmãs, juntamente com os Missionários da Caridade e com os colaboradores, tornais visível o amor da Igreja pelos pobres. Mediante o vosso serviço quotidiano, sois — como reza um Salmo — a mão de Deus que sacia a fome de cada ser vivo (cf. Sl 145, 16). Ao longo destes anos, quantas vezes vos inclinastes sobre os necessitados, como o bom samaritano, os fitastes nos olhos e os ajudastes a erguer-se! A quantas bocas destes de comer com paciência e dedicação! Quantas feridas, especialmente espirituais, curastes! Hoje, gostaria de meditar sobre três palavras que vos são familiares: Casa, Dom e Maria.

       Esta estrutura, desejada e inaugurada pelo Beato João Paulo II — mas trata-se de algo entre santos, entre beatos! João Paulo II, Teresa de Calcutá; e a santidade passou; isto é bonito! — é uma «casa». E quando dizemos «casa» referimo-nos a um lugar de acolhimento, a uma morada, a um ambiente humano onde estar bem, encontrar-se a si mesmo, sentir-se inserido num território, numa comunidade. Ainda mais profundamente, «casa» é uma palavra com um sabor tipicamente familiar, que evoca o entusiasmo, o carinho e o amor que se podem experimentar no seio de uma família. Então, a «casa» representa a riqueza humana mais preciosa, a do encontro, a dos relacionamentos entre as pessoas, diferentes por idade, por cultura e por história, mas que vivem unidas e que, juntas, se ajudam a crescer. Precisamente por isso, a «casa» é um lugar decisivo na vida, onde a vida se desenvolve e se pode realizar, porque se trata de um lugar onde cada pessoa aprende a receber amor e a doar amor. Esta é a «casa». E é isto que procura ser, desde há vinte e cinco anos, também esta casa! No limite entre Vaticano e Itália, ela constitui uma vigorosa exortação a todos nós, à Igreja e à Cidade de Roma, a ser cada vez mais família, «casa» onde devemos permanecer abertos ao acolhimento, à atenção e à fraternidade.

       Depois, há uma segunda palavra muito importante: o termo «dom», que qualifica esta Casa e define a sua identidade típica. Com efeito, trata-se de uma Casa que se caracteriza pela dádiva, pelo dom recíproco. Que quero dizer com isto? Quero dizer que esta Casa vos oferece acolhimento, ajuda material e espiritual, a vós estimados hóspedes, provenientes de várias regiões do mundo; mas também vós constituís uma dádiva para esta Casa e para a Igreja. Vós dizeis-nos que amar Deus e o próximo não é algo de abstracto, mas de profundamente concreto: significa ver em cada pessoa o rosto do Senhor para servir, e para o servir concretamente. E vós, caros irmãos e irmãs, sois a face de Jesus. Obrigado! Vós «ofereceis» a quantos trabalham neste lugar, a possibilidade de servir Jesus naqueles que se encontram em dificuldade, em quem precisa de ajuda. Então, esta Casa constitui uma transparência luminosa da caridade de Deus, que é um Pai bom e misericordioso para com todos. Aqui vive-se uma hospitalidade aberta, sem distinção de nacionalidade ou de religião, segundo o ensinamento de Jesus: «Recebestes de graça, dai também de graça» (Mt 10, 8). Todos nós temos o dever de recuperar o sentido do dom, da gratuidade e da solidariedade. Um capitalismo selvagem tem ensinado a lógica do lucro a qualquer custo, do dar para obter, da exploração sem considerar as pessoas... e podemos ver os resultados na crise que estamos a viver! Esta Casa é um lugar que educa para a caridade, uma «escola» de caridade que ensina a ir ao encontro de cada pessoa, não para obter lucro, mas por amor. A música — por assim dizer — desta Casa é o amor. E isto é bonito! E gosto que seminaristas do mundo inteiro venham aqui para fazer uma experiência directa de serviço. Assim, os futuros sacerdotes podem viver de forma concreta um aspecto essencial da missão da Igreja e fazer valorizar isto para o seu ministério pastoral.

       Finalmente, há uma última característica desta Casa: ela qualifica-se como um dom «de Maria». A Virgem Santa fez da sua existência uma dádiva incessante e inestimável a Deus, porque amava o Senhor. Maria é um exemplo e um estímulo para aqueles que vivem nesta Casa, e para todos nós, a viver a caridade em relação ao próximo não devido a uma espécie de dever social, mas a partir do amor de Deus, da caridade de Deus. E também — como ouvimos a Madre dizer — Maria é aquela que nos leva a Jesus e nos ensina como ir até Ele; e a Mãe de Jesus é a nossa e forma uma família connosco e com Jesus. Para nós, cristãos, o amor ao próximo nasce do amor de Deus e constitui a sua expressão mais límpida. Aqui procura-se amar o próximo, mas também deixar-se amar pelo outro. Estas duas atitudes caminham juntas, pois uma não pode existir sem a outra. No papel timbrado das Missionárias da Caridade estão impressas estas palavras de Jesus: «Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes» (Mt 25, 40). Amar Deus nos irmãos e amar os irmãos em Deus.

        Dilectos amigos, mais uma vez obrigado a cada um de vós. Rezo a fim de que esta Casa continue a ser um lugar de acolhimento, de dom e de caridade no coração da nossa Cidade de Roma. A Virgem Maria vele sempre sobre vós, e acompanhe-vos a minha Bênção. Obrigado!

FONTE - AQUI.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Abrir, abrir, abrir

       "Construir mais praças do que paredes; mais mesas do que despensas; abrir, abrir, abrir. Pode até acontecer que este gesto de abertura seja denunciado como traição dos interesses do grupo. Mas, para sermos fiéis ao núcleo mais fundo da autenticidade, temo-nos de interrogar constantemente: «o que é trair?» Não esqueçamos o que ensina Kierkegaad: a única traição é não ter querido nada, profunda e autenticamente".

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

Pe. Tolentino Mendonça - A arte da lentidão

       Talvez precisemos voltar a essa arte tão humana que é a lentidão. Os nossos estilos de vida parecem irremediavelmente contaminados por uma pressão que não dominamos; não há tempo a perder; queremos alcançar as metas o mais rapidamente que formos capazes; os processos desgastam-nos, as perguntas atrasam-nos, os sentimentos são um puro desperdício: dizem-nos que temos de valorizar resultados, apenas resultados.
       À conta disso, os ritmos de atividade tornam-se impiedosamente inaturais. Cada projeto que nos propõem é sempre mais absorvente e tem a ambição de sobrepor-se a tudo. Os horários avançam impondo um recuo da esfera privada. E mesmo estando aí é necessário permanecer contactável e disponível a qualquer momento. Passamos a viver num open space sem paredes nem margens, sem dias diferentes dos outros, sem rituais reconfiguradores, num contínuo obsidiante, controlado ao minuto. Damos por nós ofegantes, fazendo por fazer, atropelados por agendas e jornadas sucessivas em que nos fazem sentir que já amanhecemos atrasados.
       Deveríamos, contudo, refletir sobre o que perdemos, sobre o que vai ficando para trás, submerso ou em surdina, sobre o que deixamos de saber quando permitimos que a aceleração nos condicione deste modo. Com razão, num magnífico texto intitulado “A lentidão”, Milan Kundera escreve: «Quando as coisas acontecem depressa demais, ninguém pode ter certeza de nada, de coisa nenhuma, nem de si mesmo.» E explica, em seguida, que o grau de lentidão é diretamente proporcional à intensidade da memória, enquanto o grau de velocidade é diretamente proporcional à do esquecimento. Quer dizer: até a impressão de domínio das várias frentes, até esta empolgante sensação de omnipotência que a pressa nos dá é fictícia. A pressa condena-nos ao esquecimento.
       Passamos pelas coisas sem as habitar, falamos com os outros sem os ouvir, juntamos informação que nunca chegamos a aprofundar. Tudo transita num galope ruidoso, veemente e efémero. Na verdade, a velocidade com que vivemos impede-nos de viver. Uma alternativa será resgatar a nossa relação com o tempo. Por tentativas, por pequenos passos. Ora isso não acontece sem um abrandamento interno. Precisamente porque a pressão de decidir é enorme, necessitamos de uma lentidão que nos proteja das precipitações mecânicas, dos gestos cegamente compulsivos, das palavras repetidas e banais. Precisamente porque nos temos de desdobrar e multiplicar, necessitamos de reaprender o aqui e o agora da presença, de reaprender o inteiro, o intacto, o concentrado, o atento e o uno.
       Lembro-me de uma história engraçada que ouvi contar à pintora Lourdes de Castro. Quando em certos dias o telefone tocava repetidamente, e os prazos apertavam e tudo, de repente, pedia uma velocidade maior do que aquela que é sensato dar, ela e o Manuel Zimbro, seu marido, começavam a andar teatralmente em câmara lenta pelo espaço da casa. E divergindo dessa forma com a aceleração, riam-se, ganhavam tempo e distanciamento crítico, buscavam outros modos, voltavam a sentir-se próximos, refaziam-se.
       Mesmo se a lentidão perdeu o estatuto nas nossas sociedades modernas e ocidentais, ela continua a ser um antídoto contra a rasura normalizadora. A lentidão ensaia uma fuga ao quadriculado; ousa transcender o meramente funcional e utilitário; escolhe mais vezes conviver com a vida silenciosa; anota os pequenos tráficos de sentido, as trocas de sabor e as suas fascinantes minúcias, o manuseamento diversificado e tão íntimo que pode ter luz.

José Tolentino Mendonça, in Secretariado Nacional da Cultura.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Judas, o predileto discípulo de Jesus

       "... nenhuma perturbação provoca em nós tanto impacto, nem golpe nenhum fere como aqueles que nos chegam de um irmão, de um amigo".

       "... só quem nos ama pronuncia corretamente o nosso nome, sabe o seu significado até ao fim, está apto a nomear o nosso mundo na sua complexa e enigmática inteireza. Só quem nos ama é capaz de ver-nos como realmente somos: esta mistura apaixonada e contraditória, esta aventura conseguida e, ainda assim, inacabada, esta pulsão de nervos e de alma, de opacidade e vislumbre. escreveu com razão o poeta: «Quem não me deu Amor, não me deu nada». Só quem nos ama deposita no fundo da terra oscilante do nosso coração uma semente de bondade, um fragmento de amanhã. E, contudo, tal como a noite, a certa hora, espera inevitável pelo dia, ou como tempestade brota, sem sabermos explicar como, do interior da própria bonança, assim é na amizade. Pode existir um momento, uma hora da vida, uma situação em que, com menor ou maior gravidade, sintamos, ao arrepio de tudo, o contacto com um gesto, com uma palavra que a atraiçoa...
       ... A traição estilhaça o nosso quadro interno, precipita-nos na deceção, amarra-nos a um intensa e desconhecida dor...
       ... só quem me ama me pode trair"
        "Em hebraico, Judas significa «o predileto». Tal como Cefas (o nome Pedro) significa «pedra».. Há quem veja aqui traços do humor de Jesus, que chama «pedra» a um seguidor assustado como Pedro e tem como discípulo traidor um de nome «predileto»... Jesus não escolheu Judas por outra razão que não fosse o amor...
       Quando ele se dispôs a seguir Jesus, certamente existia nele idealismo, convicção e verdade... O desejo de verificar com os seus próprios olhos, de se envolver eram genuínos. Depois, foram-se acumulando poeiras, embaraços, esfriamentos, discórdias...

       "Tal como os restantes discípulos, ele estava convencido de que Jesus se dirigia para Jerusalém para instaurar o Reino de Deus e o Verus Israel (verdadeiro Israel), sob a forma de um poder político, a tal ponto que as discussões entre eles era sobre o lugar que caberia a casa um no futuro governo (cf. Lc 9, 46 e Mc  10, 35-40)...

       "Judas, no fundo, traiu porque se sentiu traído. É a traição que determina o seu gesto. Que, da sua parte, tudo fique decidido durante a Última Ceia, evidencia bem a densidade do desfecho: quando, no partir e repartir do pão, Jesus anuncia que aceita viver a morte como dom, Judas considera isso intolerável. Ele não quer um Messias que morre. E abandona a sala..."

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

terça-feira, 28 de maio de 2013

OSSOS - Vivência católica - Matrimónio - Compromisso

       Bones é uma série americana e que passa num dos canais por cabo ou satélite. Uma daquelas séries de investigação criminal.
       Num dos episódios da temporada 8, episódio 14, um dos protagonistas Seeley Booth (David Boreanaz), que vive com a Dra. Temperance "Bones" Brennan (Emily Deschanel), está envolto num pequeno mistério pessoal que vai sendo revelado.
       Primeiro, a companheira vai-lhe dizendo que o pode ajudar, no dia em que ele vai ao hospital e não pode ir buscar a filha de ambos.
       Os colegas apercebem-se que todas as sextas-feiras ele sai e não diz para onde.
       Um dos colegas interroga-o diretamente sobre aquelas saídas...:
       - Já sei, vais-te confessar...
       Booth é católico. Vem rápida a resposta, tranquila, sem ondas, direta, convicta:
       - Não me posso confessar. Não estou casado. Para se confessar é preciso fazer o propósito de não voltar ao mesmo, não voltar a pecar... eu não pretendo separar-me da minha companheira. Damo-nos bem, somos felizes.
        A visão é católica, de um crente e certamente de um católico praticante. Pois não acentua, como tanto se vê, mesmo em meios muito católicos, uma impossibilidade derivado ao estado conjugal, mas aceitação de um facto.
       Isso não impede de outros compromissos e que dimanam do ser pessoa, cidadão, católico. O mistério vai sendo revelado. Ele prepara uma feira para crianças doentes, cancerosas, com diversas atividades. Fá-lo discretamente, pois assim deve ser a caridade cristã.
       A mulher (companheira) revela então a outra colega, que faz um trabalho como voluntário, comprometido com a fé e a comunidade católica, com descrição, com grande generosidade. Não quis que ninguém o soubesse. (É citado um texto bíblico, da Carta de São Paulo aos Coríntios (1 Cor 12, 31 – 13, 13): a caridade é benigna, paciente, não se irrita, não é altiva nem orgulhosa... salientando que para ajudar os outros não é preciso badalar o sino...).
       Chamou-e a atenção este episódio. Não significa que esteja a recomendar a série, ou a considerá-la uma referência de moral e bons costumes. Mas sublinho o facto de tratarem de um tema sério, delicado, por vezes doloroso, com elevação, e respeito pela vivência e pela fé católica.
      O personagem sabe em que condições vive, maritalmente. Sabe o que envolve e que consequências traz para a prática religiosa, mas sabe também que isso não o impede de um compromisso ativo, sério, generoso.

       Como lembrou em diversas ocasiões o papa Francisco, a Igreja há de ser um espaço de fé, de testemunho, de acolhimento, de ternura. A questão, no entanto, diz o mesmo, não passa por facilitar ou relaxar as leis e os princípios, mas de encontrar formas (novas) para que ninguém se sinta menos amado, menos acolhido, menos protegido.
       Algumas mensagens rápidas do papa Francisco, lidas apressadamente, parecem mostrar que as leis da Igreja vão mudar, de uma hora para a outra. É curioso ver como o Papa Francisco cita Bento XVI para alertar para o relativismo das ideias e convicções como algo que mina a Igreja, e a mensagem do Evangelho, da verdade.
       Uma das últimas intervenções do Papa é extraordinária: a Igreja não pode ter fiscais da fé, mas deve ter as portas abertas para todos os que vêm, dando o exemplo de uma mãe solteira que se dirige à paróquia para pedir o batismo do filho, e que encontra um proibição, quanto deveria encontrar acolhimento.
       Dá outro exemplo, uma mulher depois da Missa dirige-se a um sacerdote para lhe pedir a bênção. O sacerdote responde que já recebeu a bênção na Missa. Vem outro sacerdote que lhe dá a bênção.
       No primeiro exemplo encontramos muitas opiniões. Em todo o caso o Papa não diz nada de novo, a este propósito. A prática nas comunidades cristãs vêm sendo alteradas nesse sentido: o batismo é concedido a todos para quem é solicitado, filhos de pessoas casadas, civil ou catolicamente, solteiras, juntas, recasadas, ainda que as práticas não sejam iguais em todas as paróquias, em algumas, na situação em que os pais da criança podem casar-se pela Igreja, aconselham a batizar por ocasião da Primeira Comunhão dos filhos, ponderando se o que pedem para os filhos não devem pedir também para si próprios, a graça do Sacramento?! Na maioria, no entanto, a opção de batizar sem adiamentos, mas esclarecendo sobre a posição da Igreja. A verdade também é uma forma de acolher.
       Voltando à série... Há circunstâncias da vida, e das nossas limitações humanas, que nos permite viver a caminho, apostando não no que nos é proibido, mas no muito que nos é permitido, olhando mais longe. Deus é sempre maior.

A alegria é um dom da amizade acolhida

       "Quando olhamos para aquilo que somos e vivemos, quando pomos os olhos no fim do caminho que estamos a percorrer, é importante que sintamos que é para a alegria que estamos chamados. É para a roda dos eleitos que estamos a caminhar. E, por isso, deslocamos infatigavelmente o nosso coração do peso da sombra para a leveza da luz, para a leveza da alegria. Na verdade somos atravessados, somos conduzidos, levados pela mão de uma promessa, e essa promessa é alegria. Não sabemos o que é isso. por agora a nossa alegria é parcial, provisória; é ainda a alegria deste momento, deste instante... Porém, a alegria que nos está prometida é uma alegria completa"
       "A alegria não nos pertence. A alegria atravessa-nos. A alegria é sempre um dom. A alegria nasce do acolhimento. A alegria nasce quando eu aceito construir a minha vida numa cultura de hospitalidade... A alegria é um dom da amizade acolhida... A alegria é um dom que me visita na surpresa, no não anunciado... O meu coração é uma soleira, uma porta entreaberta. a minha vida vive do acolhimento amigável. Temos de adquirir uma porosidade, deixarmo-nos tocar, deixamo-nos ligar pelo fluxo reparador da vida".

       "Os dias sem alegria são completamente sem memória.

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Francisco como Bispo de Roma em visita pastoral


Somos argila amassado do tempo

       "Nós somos feitos de tempo; somos amassados da argila do tempo; somos feitos de idades, de estações, de horas, de dias, somos feitos de cronometrias, isto é, de medições de tempo, visíveis e invisíveis. De facto, tudo o que é humano é feito de tempo; somos um reservatório de tempo; lençóis de tempo que se vão acumulando. Para dizer uma palavra - somos duração...
        «Viver sem amigos é morrer sem testemunhas». Os amigos trazem à nossa vida uma espécie de atestação. Os amigos sabem o que é para nós o tempo. Eles testemunham que somos, que fizemos, que amamos, que perseguimos determinados sonhos e que fomos perseguidos por este ou aquele sofrimento. E fazem-no não com a superficialidade que, na maior parte das vezes, é a das convenções, mas com a forma comprometida de quem acompanha. O olhar do amigo é uma âncora. A ela nos seguramos em estações diferentes da vida para receber esse bem inestimável de que temos absoluta necessidade e que, verdadeiramente, só a amizade nos pode dar: a certeza de que somos acompanhados e reconhecidos. Sem isso a vida é uma baça surdina destinada ao esquecimento.
        A história de cada um de nós consuma-se através de uma necessidade de reconhecimento. Para haver um «eu» tem de existir um «tu». Com cada homem vem ao mundo algo de novo que nunca antes existiu, algo de inaugural e de único, mas é na construção de uma reciprocidade que de forma consistente o podemos descobrir. O «eu» tem imperiosa carência de ser olhado amigavelmente por outro, e por outros, para organizar-se e ousar o risco de ser"

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

sábado, 25 de maio de 2013

Festa da Santíssima Trindade - ano C - 26 de maio

       1 – “Uma pessoa sozinha nem para comer serve". É uma expressão popular que certamente já ouvimos em contextos diversos e que hoje nos pode ajudar a refletir no mistério da Santíssima Trindade. Como referem alguns Padres da Igreja, Deus é Uno mas não Um. Se fosse UM seria solidão, solidão eterna; dois seria conflito, dilema, oposição; Três é comunhão.
       Quando estamos sozinhos poderemos não estar sós. No plano espiritual percebe-se bem. Mesmo sem ninguém por perto, Deus está connosco e connosco estão todos aqueles que nos querem bem e a quem nós queremos bem, os que caminham no tempo e os que já se encontram na eternidade de Deus.
       A solidão é muito mais que estar sozinho e pode acontecer até no meio de uma multidão e do maior ruído. Quando uma pessoa não se sente amada, compreendida, quando não se sente reconhecida pelo seu talento, pelo seu trabalho, pelo seu esforço, quando sente que o mundo é inimigo e que não há coração que compreenda, quando parece que tudo corre mal, então a solidão invade todo o ser, toda a alma, criando um grande vazio interior para o qual muitas vezes não há explicação.
       Seja como for, precisamos dos outros, precisamos de ver e viver com pessoas. O estar sozinho consigo mesmo é um estado de alma que não dispensa a companhia. Precisamos uns dos outros, para nos reconhecermos como pessoas, para nos identificarmos, para sabermos quem somos, para saber o que nos distingue e o que nos assemelha. Precisamos de um olhar, uma palavra, um toque, para sabermos que estamos vivos.
       Deus é COMUNICAÇÃO de vida e de amor. Conceber Deus como Trindade, é reconhecer que a VIDA circula em Deus, o AMOR transborda e cria o mundo, a humanidade.

       2 – A Palavra de Deus há de levar-nos à vida concreta e comprometida com o tempo atual e com as pessoas que Deus coloca à nossa beira, aqui e agora (hic et nunc). Não refletimos a palavra de Deus pela sua beleza, ou para que se torne mais aprazível, ainda que seja um ponto de partida, mas com o intuito de que ilumine a nossa vida e impulsione a nossa caridade.
       Assumir que o nosso Deus é Trindade faz-nos conjugar a harmonia, a comunhão, com a diversidade, com os dons dos outros. Um Deus que é Trino invade e revoluciona os nossos egoísmos e as tentativas dos totalitarismos, das ditaduras, de qualquer espécie de monismo. A Igreja nasce da Trindade, sustenta-se na Trindade e encaminha-Se para a Trindade santíssima. Não é uma rotulagem que se cola no exterior, como identificativo, tal como como nos produtos comerciais. Não é uma vestimenta, é a própria alma da Igreja e dos cristãos, condição sine qua non, sem a Trindade não existe Igreja, não há cristãos. A Trindade enforma-nos, preenche-nos caracteriza-nos, desafia-nos. Podemos dirigir-nos mais ao Pai do Céu, mais ao Filho Jesus Cristo, mais ao Espírito Santo, Senhor que dá a vida, mas é sempre à Trindade que rezamos, é sempre a Deus trino que entregamos a nossa vida e no Qual buscamos o sentido para a nossa peregrinação sobre a terra.
       Reconhecer Deus como Trindade anula o princípio ditatorial do “quero, posso e mando”, que não tem e não pode ter cabimento no CREDO cristão. Acolher Deus como Pai, Filho e Espírito Santo implica que recebamos em nós o DIFERENTE, os outros, reconhecendo-os como irmãos, com qualidades; implica reconhecer e aceitar outras ideias, outras vivências. Ao mesmo tempo, como na Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito, Três Pessoas, uma só natureza, assim nós com os outros, diferentes mas partilhamos a mesma natureza humana. Desta forma, o reconhecimento da igual dignidade e o tratamento que lhes devemos, como parte de nós, do nosso mundo, da nossa história, sem os quais não seríamos humanos.
       3 – O jeito de Jesus viver configura, nas palavras, na oração, na postura, esta realidade de comunhão trinitária. Ele vai à margem, traz os desvalidos, os excluídos, para o centro, para a luz, para a vida, reconhecendo-os como irmãos, como filhos amados de Deus, independentemente da condição social, política, familiar, doentes, pecadores, pessoas impuras, todos acorrem a Ele e a todos acolhe com carinho e delicadeza, crianças, mulheres… Por outro lado, Jesus deixa claro que a Sua prioridade é fazer a vontade do Pai, não age por Si mesmo, realiza a obra do Pai.
       No evangelho que hoje escutamos, Jesus faz eco da comunhão íntima com Pai, pelo Espírito Santo: «Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas não as podeis compreender agora. Quando vier o Espírito da verdade, Ele vos guiará para a verdade plena; porque não falará de Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará o que está para vir. Ele Me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará. Tudo o que o Pai tem é meu. Por isso vos disse que Ele receberá do que é meu e vo-lo anunciará».
       É a identidade de Jesus, mas também o seu modo de agir. Orienta a Sua vida pelo Pai, deixando-se moldar pelo Espírito Santo. Tem de ser também a nossa divisa: orientarmos a nossa vida a partir de Deus, para o Pai, no Filho pelo Espírito Santo. Jesus ascende para o Pai, mas envia o Espírito para que Ele nos assista no nosso pensar e no nosso agir, tornando compreensível a verdade que o próprio Jesus nos revelou, e criando a vitalidade para vivermos gastando-nos a favor dos outros, para que circule o amor e a vida, como em Deus.
       4 – Um problema de todos os tempos, mas também do nosso, é a (in)coerência de vida, passar das palavras à prática, passar da profissão de fé ao fazer o bem, passar do pensamento para o compromisso concreto. Estamos a caminho. Deus caminha connosco e encontra-nos a caminhar. A Trindade também é isto, um Deus que não Se encerra em Si, num Céu estrelado e distante, mas que sai ao nosso encontro, encarna, faz-Se Homem, assumindo a temporalidade por nós.
       Jesus, a sabedoria do Pai (ver primeira leitura), ilustra a Trindade na história dos homens. Torna Deus presente com as Suas palavras, com os Seus gestos de amor e de perdão. Não por um período de tempo limitado, mas para sempre. Não transforma a terra em Céu, mas mostra-nos a eternidade, pelo amor, pela paixão. Vai para o Pai, e de junto do Pai, envia o Espírito Santo que O torna presente até ao fim dos tempos.
       Como nos recorda São Paulo, em nós já está em gestação o Reino de Deus:
“Tendo sido justificados pela fé, estamos em paz com Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual temos acesso, na fé, a esta graça em que permanecemos e nos gloriamos, apoiados na esperança da glória de Deus. Mais ainda, gloriamo-nos nas nossas tribulações, porque sabemos que a tribulação produz a constância, a constância a virtude sólida, a virtude sólida a esperança. Ora a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”.
       Não há que enganar. Não estamos sós. O amor de Deus preenche-nos o coração e a vida. E o amor gera vida, partilha, comunhão.


Textos para a Eucaristia (ano C): Prov 8, 22-31; Rom 5, 1-5; Jo 16, 12-15.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Amizade - lugar de encontro entre Deus e o Homem

"Amar e ser amado são faculdades tanto divinas como humana, mas o único verdadeiro amor é o de Deus, porque tudo nele tem a sua origem. A causa pela qual devemos amar a Deus e amarmo-nos uns aos outros é o próprio Deus ..."
"A amizade com Deus torna-se, então, a medida (sem medida) da nossa amizade. «Bem-aventurado quem te ama, e ao seu amigo em Ti, e ao seu inimigo por causa de Ti» [Santo Agostinho, Confissões, IV 9,4]"

"A amizade é antes o próprio lugar do encontro entre o humano e o divino, o lugar onde os amigos podem participar de Deus, podem mergulhar no seu mistério..."

"O amigo espiritual é uma imagem de Cristo; o repouso no seu abraço é o abandono no Espírito Santo, que é vida que circula em Deus. Um amigo torna-se para nós um mestre do desapego e da liberdade interior: «os corações que se amam testemunha,-no por expressões do rosto, por palavras, olhares e mil pequenas nadas, que são gravetos para alimentar o fogo onde as almas se fundem entre si e tornam-se apenas uma. Mas se o que nós acreditamos dever amar nos nossos amigos não nos conduzir a uma amar por amar, a nossa consciência reprovar-nos-á» [Aelredo]"

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

O amigo fiel é remédio da vida

       A palavra amável multiplica os amigos e uma língua afável atrai saudações agradáveis...  há amigos de ocasião, que não serão fiéis no dia da adversidade. Há amigos que se tornam inimigos, revelando as vossas contendas para tua humilhação. Há amigos para a mesa, que não serão fiéis no dia da desgraça... Afasta-te dos teus inimigos e acautela-te dos teus amigos. O amigo fiel é abrigo seguro: quem o encontrou descobriu um tesouro. O amigo fiel não tem preço: não se pode medir o seu valor. O amigo fiel é remédio da vida: os que temem o Senhor hão-de encontrá-lo. Quem teme o Senhor orienta bem a sua amizade, porque tal como ele é, assim é o seu amigo (Sir 6, 5-17).
       Ben Sirá, na sua experiência e sabedoria, fala-nos hoje da amizade. O amigo vê-se na adversidade e quem encontrou um amigo verdadeiro encontrou um tesouro. Na bonança muitos parecem ser os amigos. Na adversidade se vê quem permanece, quem é verdadeiramente amigo.
       Para lá do cuidado na escolha dos amigos, importa antes de mais o temor de Deus, para que vivendo de acordo com a Sua vontade, a amizade possa tornar-se mais autêntica.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Tabuaço - Profissão de Fé - 2013

       Imagens da Profissão de Fé, na paróquia de Nossa Senhora da Conceição, de Tabuaço, no dia 19 de maio, solenidade do Pentecostes, em forma de diaporama/vídeo. A música de fundo foi proposta para cântico de entrada na XXVIII JDJ, que se realizou no Santuário de Santa Maria do Sabroso, no dia 18 de maio.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

A amizade é um contínuo

 "A amizade não se alimenta de encontros episódicos ou de feitos extraordinários. A amizade é um contínuo. Tem sabor a vida quotidiana, a espaços domésticos, a pão repartido, a horas vulgares, a intimidade, a conversas lentas, à exposição confiada, a peripécias à volta de uma viagem ou de um dia de pesca. A Amizade tem o sabor da hospitalidade, a corridas atarefadas e a tempo investido na escuta. A amizade enche a cada de perfume (cf. Jo 12, 3)"
"A amizade não se satisfaz apenas com a versão pública dos acontecimentos, mas procura sempre um outro lado, um ângulo diferente para olhar mais fundo...

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Eucaristia - comensalidade que congrega crentes

"É verdade que a Eucaristia (cf Lc 22,19-20), centro da vida do Reino, é uma refeição, e que ela condensa, em torno de uma mesa, o inteiro destino do Senhor, como se todos os seus gestos e palavras confluíssem, afinal, para a unidade de um único gesto e de uma única palavra. Mas a Eucaristia nasceu já como uma refeição atípica, impregnada de uma semântica irredutível a esse enquadramento. Desde o princípio foi relatada e acolhida, na fé da comunidade cristã, como Dom radical de si que Jesus protagonizou e como comensalidade que congrega os crentes à volta desse acontecimento. Contudo, aquilo que se verifica é que, além da Eucaristia, os Evangelhos estão costurados pela memória de outras refeições. E estas, colocando Jesus numa situação simbólica cheia de implicações, iluminam para nós o sentido profundo da amizade de Jesus".

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

domingo, 19 de maio de 2013

Profissão de Fé - 2013

       Solenidade de Pentecostes e celebração da Profissão de Fé dos meninos do 6.º Ano Catequese. Nos últimos anos, para dar mais relevo a grande festa do Pentecostes, temos feito coincidir a Profissão de Fé, pois é no Espírito Santo que professamos a fé em Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo. É no Espírito Santo que nascemos como cristãos e formamos Igreja.
       O dia 19 de maio de 2013 fica marcado de forma especial para a Mariana Lemos, Mariana Seixas, Margarida, Guilherme, Neuza, Sofia, Daniela Correia, Daniela Gonçalves, Rita Ferreira, e para as suas famílias, sendo sempre uma celebração envolvente da comunidade paroquial. Algumas imagens desta belíssima festa.
Para outras fotos disponíveis, na página da Paróquia de Tabuaço no facebook,
ou no Google +

sábado, 18 de maio de 2013

Solenidade do Pentecostes - 19 de maio de 2013

       1 – O Espírito Santo é Pessoa, é Deus, é DOM dado à Igreja. Como referia o Papa Francisco, é a própria Pessoa de Deus que fala em nós, que nos traz Jesus Cristo. Gera-O em Maria, gera-O nos discípulos, gera-O na Igreja. É água viva, que conforta a nossa alma, que enforma a nossa fé, que acalenta a nossa esperança, que nos compromete com os irmãos.
       Na Ascensão, Jesus ascende para Deus mas não nos deixa órfãos; de junto do Pai envia-nos o Espírito, que por Sua vez nos dará Deus, nos dará o próprio Jesus Cristo, vivo, ressuscitado, na Palavra e nos Sacramentos.
       O Espírito Santo é a COMUNICAÇÃO de Deus à humanidade. Quando alguém vai para longe, envia uma CARTA, faz um telefonema, liga-se pela Internet, numa videochamada. O Espírito Santo é esta CARTA que Deus continua a escrever em nós, inspirando-nos, criando a vitalidade da fé, a certeza da presença de Jesus entre nós. É a REDE que nos liga a Deus e aos outros, faz-nos a memória do passado e lança-nos para o futuro, com Deus.
       2 – Vejamos os dois relatos do Pentecostes, ou dádiva do Espírito Santo.
       Nos Atos dos Apóstolos, a narração deste sublime acontecimento: “Subitamente, fez-se ouvir, vindo do Céu, um rumor semelhante a forte rajada de vento, que encheu toda a casa onde se encontravam. Viram então aparecer uma espécie de línguas de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem”.
       Respeitando a sensibilidade semítica e o calendário religioso judaico, São Lucas mostra o PENTECOSTES cristão. Jesus Cristo morreu, ressuscitou, apareceu aos discípulos, subiu ao Céu, enviando o Espírito Santo, que nos atrai para Ele, e nos compromete com o tempo presente.
       Com a vinda do Espírito, os novos céus e a nova terra ganham forma, expressão e força. Com as aparições do Ressuscitado, os discípulos despertam da noite, da dúvida, da hesitação, do desencanto. O Espírito Santo coloca-nos em andamento. É HORA de abrirmos portas e janelas, arejando a nossa casa, saindo para os caminhos da vida a anunciar Jesus em todo o mundo. Solta-se-nos a língua, do assombro diante do mistério para testemunho jubiloso.
       3 – No relato de São João, no Evangelho, a cronologia é diferente, mas o conteúdo é o mesmo: o Espírito agrafa-nos à alegria, à esperança, ao testemunho.
“Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos».
       Antes, a multiplicidade de línguas não impede a comunhão. O pecado, visto com a construção de Babel, leva à incompreensão, pois o objetivo é viver sem Deus, à margem dos outros, em estilo de autossuficiência, de egoísmo, a viver em função de si e dos seus caprichos. Quando cada um se preocupa apenas consigo, de forma gananciosa, não entende a linguagem do outro, os seus apelos, ou os seus sofrimentos. Com a vinda do Espírito, com a abertura à criatividade divina, é possível falar diversos idiomas percetíveis, pois a linguagem do bem, do amor, da verdade é universal, simples, acessível a todos.
       Por outras palavras, o idioma, as diferenças culturais, religiosas, políticas, não justificam a intolerância, a violência, a guerra santa. O Espírito faz-nos ver e compreender que as diferenças nos enriquecem mutuamente.
       No evangelho sublinha-se sobretudo a alegria que brota das aparições do Ressuscitado e da dádiva do Espírito Santo. O medo dá lugar à confiança, o isolamento converte-se em alegria, a intranquilidade transforma-se em paz e compromisso. Até então Jesus, agora JESUS através de NÓS. Nós e o Espírito Santo.
       4 – Se o Pai é o mesmo, se Jesus é irmão de todos, se é no mesmo Espírito que somos constituídos herdeiros da HERANÇA eterna, então o que somos, o que fazemos, o que assumimos, o que dizemos há de aproximar-nos, contribuir para sermos o que SOMOS, identificando-nos com Jesus, deixando que o Seu Espírito recrie em nós constantemente a vida em abundância.
       Belíssimo o texto do apóstolo à comunidade de Corinto:
“Ninguém pode dizer «Jesus é o Senhor» a não ser pela ação do Espírito Santo. De facto, há diversidade de dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo. Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. Há diversas operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. Em cada um se manifestam os dons do Espírito para o bem comum. Assim como o corpo é um só e tem muitos membros e todos os membros, apesar de numerosos, constituem um só corpo, assim também sucede com Cristo. Na verdade, todos nós – judeus e gregos, escravos e homens livres – fomos batizados num só Espírito, para constituirmos um só Corpo. E a todos nos foi dado a beber um único Espírito”.
       A profissão de fé cristã só é possível no Espírito Santo. Ele nos inspira para a verdade e para o bem. Se professamos a mesma fé, os dons diversos hão de guiar-nos aos outros, com os outros, a favor da vida. E ninguém está fora, excluído. Todos são importantes, porque todos são filhos de Deus, todos somos membros do mesmo Corpo, do mesmo Cristo, da mesma Igreja.

Textos para a Eucaristia (ano C): Atos 2, 1-11; 1 Cor 12, 3b-7.12-13; Jo 20, 19-23.

O beato João Paulo II faria 93 anos

       João Paulo II, eleito a 16 de Outubro de 1978, sucedendo a João Paulo I, nasceu em 18 de Maio de 1920, em Wadowice, uma pequena cidade a 50 kms. de Cracóvia. Era o mais novo de três irmãos. Filho de Karol Wojtyła e Emilia Kaczorowska, herda o nome do pai, Karol Wojtyla. A sua mãe faleceu em 1929, e o seu irmão mais velho, Edmundo (médico), em 1932; o seu pai (sub-oficial do exército), morreu 1941, e a sua irmã Olga morreu antes de ele ter nascido.
       Foi baptizado no dia 20 de Junho de 1920, pelo Pe. Franciszek Zak, na Igreja paroquial de Wadowice; aos  9 anos fez a Primeira Comunhão e aos 18 anos o Crisma...
       ... Foi ordenado sacerdote no dia 1 de Novembro de 1946, em Cracóvia, pelas mãos do Arcebispo Sapieha.
       No dia 4 de Julho de 1958, foi nomeado por Pio XII, Bispo Auxiliar de Cracóvia. Foi ordenado Bispo no dia 28 de Setembro de 1958, na Catedral de Wawel (Cracóvia), pelas mãos do Arcebispo Eugeniusz Baziak.
       No dia 13 de Janeiro de 1964, foi nomeado Arcebispo de Cracóvia, por Paulo VI, recebendo também dele o título de Cardeal a 26 de Junho de 1967.
       Eleito Papa a 16 de Outubro de 1978, iniciou o seu profícuo pontificado a 22 do mesmo mês.
       Morreu a 2 de Abril de 2005. Sucedeu-lhe Bento XVI, seu "braço direito" durante largos anos.
       No dia 28 de Junho de 2005, iniciou-se o processo da causa de beatificação e canonização, com dispensa de Bento XVI dos habituais cinco anos após falecimento.

Para consultar a biografia oficial e detalhada de João Paulo II consulte a página da Santa Sé, aqui!