sábado, 3 de agosto de 2013

XVIII Domingo do Tempo Comum - ano C - 4 de agosto

       1 – “Saciai-nos desde a manhã com a Vossa bondade para nos alegrarmos e exultarmos todos os dias. Desça sobre nós a graça do Senhor nosso Deus. Confirmai, Senhor, a obra das Vossas mãos”.
         Invocamos a bênção de Deus para que os nossos dias não sejam em vão e para que o nosso tempo tenha sentido, na abertura solidária aos outros, na busca do olhar de Deus sobre nós. Tão atarefados andamos que a vida se escapa entre as mãos, ora o tempo passa depressa de mais, ora demasiado lento. Só em Deus tornamos os nossos dias abençoados. Como popularmente se diz, vale mais quem Deus ajuda do que quem madruga.
       Procuremos Jesus em toda a parte e sobretudo nos irmãos, comprometidos na transformação do mundo, com o coração impelido para as alturas. A nossa pátria é junto de Deus. Vivamos nesta sadia tensão: alavancados pelo amor eterno de Deus, peregrinos com os outros, testemunhando a salvação pela qual Jesus nos introduz na vida de Deus.
“Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. Porque vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Fazei morrer o que em vós é terreno... Não mintais uns aos outros, vós que vos revestistes do homem novo, que se vai renovando à imagem do seu Criador. Aí não há grego ou judeu, escravo ou livre; o que há é Cristo, que é tudo e está em todos”.
       A Ressurreição de Jesus não é apenas a antecipação da nossa, mas um processo que nos envolve, numa relação cósmica com todo o universo. Vivemos renovados pela redenção operada em Cristo. Com a Sua oferenda ao Pai, oferece também a nossa vida. Ele está em todos. A nossa vida está agora escondida com Cristo em Deus. Procuremo-l’O para O encontrarmos em nós, nos outros, no mundo.
       2 – “Vaidade das vaidades – diz Qohélet – vaidade das vaidades: tudo é vaidade. Quem trabalhou com sabedoria, ciência e êxito, tem de deixar tudo a outro que nada fez. Também isto é vaidade e grande desgraça. Mas então, que aproveita ao homem todo o seu trabalho e a ânsia com que se afadigou debaixo do sol? Na verdade, todos os seus dias são cheios de dores e os seus trabalhos cheios de cuidados e preocupações; e nem de noite o seu coração descansa. Também isto é vaidade”.
        Aparentemente Qohélet faz uma confissão de desencanto, de desilusão. Tudo é igual, todos os dias se repetem constantemente. Não há nada de novo debaixo do Céu. Trabalho e canseiras, cuidados e preocupações, tudo é em vão. Nem de noite o coração descansa. Tanta vida que depois tem que se deixar a outros. A experiência não permite grandes voos, pelo contrário, provoca ansiedade. Bons e maus têm o mesmo destino. Por vezes, parece que os que praticam o mal são abençoados, e os que praticam o bem são amaldiçoados.
       O autor, tal como Job, coloca em causa a sabedoria tradicional, onde sobrevinha uma correlação direta entre a bênção e a justiça, os bons eram recompensados e os maus castigados. Job e Qohélet concluem que há homens justos cujos padecimentos são injustificados.
       Começa uma intuição luminosa, a mão invisível de Deus vai agindo na pessoa e no mundo. “Todas as coisas que Deus fez, são boas a seu tempo. Até a eternidade colocou no coração deles, sem que nenhum ser humano possa compreender a obra divina do princípio ao fim” (3,11). Sanciona a solidariedade: “É melhor dois do que um só: tirarão melhor proveito do seu esforço. Se caírem, um ergue o seu companheiro. Mas ai do solitário que cai: não tem outro para o levantar!” (4, 9-10). Aproxima-te de Deus para O escutares, não sejas insensato.
       3 – Jesus liberta-nos do ciclo de violência e de pecado, de sofrimento e de morte, colocando a nossa natureza humana à direita do Pai, atraindo-nos da eternidade, do futuro de Deus. N'Ele descansa verdadeiramente a nossa alma. Se com Ele ressuscitámos, com Ele instauremos o reino de paz, de justiça e de amor.
       Em Cristo a LUZ de Deus ilumina toda a treva, cimentando a nossa esperança. Aquilo que os sábios Qohélet e Job intuíam em luz difusa, Jesus clarifica na abundância do Seu amor, com a Sua vida, e sobretudo no mistério da Sua morte e ressurreição, com a vastidão de Deus a chegar a toda a parte, tudo em todos. A ressurreição não deixa nada nem ninguém de fora. Na fragilidade dos nossos dias advém a certeza que Deus nos guia e levanta o nosso olhar. Se nos abrimos à Sua ternura e companhia, não ficaremos náufragos do pecado, do egoísmo e da morte. Ele ilumina tudo, os nossos medos e sofrimentos, as nossas dúvidas e hesitações, a nossa insuficiência.
       4 – Um homem aproxima-se de Jesus para que Ele resolva uma contenda de irmãos. Jesus questiona: «Amigo, quem Me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?» E logo alerta: «Vede bem, guardai-vos de toda a avareza: a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens». A avareza brota do coração, da inveja descontrolada, do ciúme. Trata-se de uma atitude e não tem correlação direta com os bens que se possuem. Há pobres e ricos avarentos.
        Por outro lado, não peçamos a Deus que resolva o que está ao nosso alcance resolver, quando muito peçamos para nos dar o discernimento para escolhermos o melhor bem, para aceitarmos as nossas limitações e a capacidade generosa de trabalharmos pela justiça e pela paz.
       Como o têm sublinhado a Doutrina Social da Igreja, os bens materiais e a riqueza deverão atender à justiça e à dignidade das pessoas e das famílias, não as sujeitando a jogos de interesses e a um capitalismo selvagem que não leve em conta a pessoa como fim. O que acontece, muitas vezes, é que as pessoas contam como números e enquanto geram riqueza, e riqueza da qual não beneficiam.
        Quem trabalha merece ser compensado com justiça e equidade, ainda que o trabalho também deva gerar capital e investimento, assegurando dessa forma a criação de riqueza e de mais emprego para que muitos mais tenham acesso aos recursos da terra e a oportunidade de viverem com o fruto do trabalho, realizando-se como pessoas. Numa perspetiva cristã, mais se acentua a dignificação da pessoa e do trabalho como forma de cooperar na obra criadora de Deus.
       Importa, desde logo, não descartar a relevância da caridade, da partilha solidária, com quem não tem ou não pode ter, ou que pelas circunstâncias atuais, do ambiente em que nasceu, ou por limitações pessoais ou outras, não pode trabalhar ou simplesmente não tem acesso ao trabalho, ou o trabalho não lhe permite viver com a devida dignidade, e assim à respetiva família.
       5 – Para uns e outros, Jesus reafirma: «Guardai-vos de toda a avareza: a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens...». Importa tornar-se rico aos olhos de Deus. O que acumula apenas para si acabará por se perder. Tarde, por vezes, nos damos conta que dependemos uns dos outros, no bem e no mal. Beneficiamos do bem alheio e somos atingidos pelo mal dos outros.
        Socorramo-nos novamente de Qohélet, noutras passagens: “Aquele que ama o dinheiro nunca se saciará do dinheiro, e aquele que ama a riqueza, a riqueza não virá ao seu encontro... Doce é o sono do trabalhador, quer tenha comido pouco ou muito; mas a abundância do rico não o deixa dormir descansado... Assim como saiu nu do ventre de sua mãe, de novo nu partirá como veio” (5, 9.14). “Então o pó voltará à terra de onde saiu e o espírito voltará para Deus que o concedeu... Deus pedirá contas, no dia de juízo, de tudo o que está oculto, quer seja bom, quer seja mau” (12, 7, 14).
       Aspirando às coisas do alto, o dever do discípulo de Cristo é para com o mundo e para com os outros. De novo e sempre o duplo mandamento do amor. Amamos a Deus, amemos também os irmãos. Lembremo-nos sempre que no final seremos julgados pelo amor, pela prática do bem, pela assunção da caridade, e não pela acumulação de bens e de riqueza.
       O Pão nosso de cada dia nos dai hoje, Senhor. Mas dai-nos também a alegria e a coragem da partilha solidária, valorizando o fruto do nosso trabalho e tornando-o dom. “Ensinai-nos a contar os nossos dias, para chegarmos à sabedoria do coração”. Que as preocupações do tempo presente não nos façam esquecer a nossa origem e o nosso fim comum: em Deus, para Deus, com os outros.


Textos para a Eucaristia (ano C):
 Co (Ecle) 1, 2; 2, 21-23; Sl 89 (90); Col 3, 1-5.9-11; Lc 12, 13-21.

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