sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Lamego 2014: Carta Pastoral de D. António Couto

       No Encerramento do Ano da Fé, Dia da Igreja Diocesana de Lamego, Solenidade de Cristo Rei Senhor do Universo, no passado dia 24 de novembro de 2013, o nosso Bispo, D. António Couto, deu a conhecer a toda a Diocese a Sua CARTA PASTORAL para enquadrar o novo Ano Pastoral e o tema que o engloba: IDE E FAZEI DISCÍPULOS.
http://www.tbcparoquia.com/dlds/Carta_Pastoral2014_D.Antnio_J_R_Couto.pdf
        Inicia a mesma com uma citação da Constituição Dogmática, Lumen Gentium (9): «Aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo». Segue o enquadramento bíblico. Eis a página do Evangelho:
«Então os Onze Discípulos partiram para a Galileia, para o monte que lhes tinha ordenado Jesus. E vendo-o, adoraram-no; alguns deles, porém, duvidaram.
E aproximando-se, Jesus falou-lhes, dizendo: “Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra. Indo, pois, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar todas as coisas que vos ordenei. E eis que Eu convosco Sou todos os dias até ao fim do mundo”» (Mateus 28,16-20).
       A Carta sublinha prioridades, algumas delas constantes: primado da graça; vida de oração; proximidade; amor; Igreja como casa aberta a todos, dando também continuidade ao lema pastoral do ano anterior, "Vamos juntos construir a Casa da Fé e do Evangelho"; missão evangelizadora/missionária da Igreja; acolhimento do Evangelho com alegria, para o comunicar por palavras e com a vida; formação de cristãos conscientes e empenhados.
       O melhor mesmo é dedicar um tempo a ler, a reler, a meditar, a refletir e mastigar as palavras de D. António, para que depois se assume a beleza, a alegria e o compromisso de fidelidade a Jesus Cristo e ao Seu evangelho de perdão e de amor.

Para LER a CARTA PASTORAL:

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Pe. Tolentino Mendonça - O Hipopótamo de Deus

José TOLENTINO MENDONÇA. O Hipopótamo de Deus. Quando as perguntas que trazemos valem mais o que as respostas provisórias que encontramos. Paulinas Editora, 320 páginas.
       Mais um extraordinário livro que agrega várias reflexões de Tolentino de Mendonça, com a idiossincrasia bem portuguesa, madeirense, cristão, poeta. Em cada texto um olhar de esperança, de desassossêgo, de provocação, de desafio, numa prosa bem poética como nos tem habituado nas suas publicações e/ou intervenções. Uma linguagem simples, familiar, tocando realidades distintas, cultura, religião, fé e fado, raízes madeirenses, e raízes do poeta, família, vida e morte e sofrimento, pintura, literatura e religião, música, economia, imperfeição, Fátima, e o silêncio de Deus, Advento, Natal e Páscoa, Outono e Inverno, Verão e Primavera e as diferentes idades do ser humano, a vocação, ser padre e ser poeta, a cruz e a bondade, filosofia e filósofos...
       Desde logo a justificação do título deste conjunto de escritos, que acompanha a publicitação do livro:
"Um dos passos mais belos da Bíblia tem a ver com um hipopótamo. E não é propriamente um divertimento teológico, pois surge numa obra que explora muito seriamente a experiência do Mal. Falo do Livro de Job, claro. O que primeiro nos surge ali é o protesto de Job contra o Mal que se abate inexplicavelmente sobre a sua história, protesto que se estende até Deus. Mas depois vem o momento em que Deus se propõe interrogá-lo. E, nesse diálogo, desenvolve-se um raciocínio que não pode ser mais desconcertante. Job só consegue pensar nas suas dores e nos porquês com os quais, inutilmente, esgrime. Deus, porém, desafia-o a olhar de frente para… um hipopótamo. O método de Deus neste singular encontro com Job é abrir a medida do seu olhar, rasgá-lo imensamente a tudo o que é grande, a tudo o que não tem resposta, mostrando-lhe que se o Mal é um enigma que nos cala, o Bem é um mistério ainda maior".
       Muitas reflexões oportunas. Lido em diferentes ocasiões podem haver um texto que chame mais atenção. Curioso o título e o texto: Onde é a nossa casa?
       "Acho que foi Alberto Camus que disse que a questão mais premente do nosso tempo é cada homem descobrir onde é a sua casa... Dia a dia há uma rota que voltamos a trilhar sem especiais hesitações, entre a fadiga e a esperança, cruzando as paredes do tempo: esse é o caminho para a nossa casa. Cada um cumpre, mesmo sem especial reflexão, trajetórias e rituais que são seus: a estrada que escolhe para regressar (sempre a mesma, sempre a mudar...); a forma familiar que tem diariamente de rodar a chave; o modo (mais lento, mais repentino) de abrir para o que ali habita; aquela fração de segundo, absolutamente impressiva, antes da primeira palavra, em que a casa inteira parece que vem ao nosso encontro, ofegante ou em puro repouso...
       ... cada pessoa tem o irrecusável dever de descobrir-se, vivendo com paixão e sabedoria a construção de si, esse processo que, por definição, está em aberto e que ao longo da existência se vai efetivando. NÓS SOMOS A NOSSA CASA. E poder dizer isso, com simplicidade e verdade, equivale a perpetuar aquilo que Albert Camus também escreveu: «no meio de um inverno, finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão invencível» (pp 141-142).

Dois lugares para visitar acerca deste livro:

(que publicou alguns dos textos agora coligidos,
por exemplo o que partilhamos aqui: "Onde é a nossa casa?".

CONSELHOS PASTORAIS - participar e ser sujeito

       O termo “participação” está muito presente nos textos do concílio Vaticano II. Com efeito, encontramo-lo por 133 vezes para falar da participação de todos os baptizados na oração da Igreja (SC 8, 10…; LG 11, 42, 51; CD 30; PO 5; AA 4, 10…) e na missão recebida de Cristo (LG 12, 26…; CD 17; AA 2, 9, 10, 29; AG 41; UR 1, 4). Esta participação designa também a comunhão com Deus à qual os homens são chamados e é a comunhão dos homens entre si que define a Igreja: “Ao participar realmente do corpo do Senhor, na fracção do pão eucarístico, somos elevados à comunhão com Ele e entre nós” (LG 7). Esta união funda-se na escritura e na tradição, de acordo com 1 Cor 10, 17: “Uma vez que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, porque todos participamos desse único Pão”.
       Resumindo, pelo baptismo somos introduzidos numa participação na vida divina que nos abre a uma participação na vida eclesial, alimentada pela nossa participação na liturgia. Através desta participação “todos, segundo o seu modo próprio, cooperam na obra comum” (LG 30).
       Participar, ter consciência de si diante do outro, permite a cada um afirmar-se como sujeito, capaz de dizer e dizer-se, pensar e afirmar, decidir e executar. E isto vale também para o que denominamos “Igrejas locais”, as dioceses, onde a Igreja universal se revê e se concretiza num determinado tempo e espaço.
       Antes do último concílio, a Igreja católica apresentava- -se como uma Igreja uniformemente romana, aparecendo como uma única e vasta diocese, onde o Papa sozinho pensava e decidia por todos e onde os bispos eram meros executantes. A reflexão conciliar, apoiada pelo pensamento de teólogos e pastores que, antes do Concílio, manifestavam outras opções e proponham outros caminhos, proporcionou um ressurgimento das Igrejas locais. Por exemplo, os documentos conciliares confirmam as conferências episcopais existentes e determinam a sua existência por todo o mundo católico (CD 36-38), desejando que mantenham ligações enentre si (CD 38), fazem referência aos conselhos presbiterais (PO 7), aos conselhos pastorais (CD 27) e aos conselhos para o apostolado dos leigos (AA 26), ao mesmo tempo que abordam o ressurgimento dos sínodos e dos concílios provinciais (CD 36) e é neste contexto que aparece também a sugestão de instalar um sínodo dos bispos junto do Papa (CD 5).
       Como escreveu W. Kasper, "a eclesiologia de comunhão põe fim ao modelo de uma pastoral que se entende somente como um cuidar dos fiéis e como uma simples resposta às suas necessidades. Ela visa o ser-sujeito da Igreja e de todos na Igreja" (A Teologia e a Igreja).
       Tal como se reconhece capacidade às dioceses para serem sujeito de opções e ritmos diferenciados dentro da unidade eclesial que sempre se deve manter, também se reconhece o mesmo para os baptizados: todos são convidados a serem membros activos e participativos, a tornarem-se sujeito dentro da Igreja.
 
FONTE: Jornal diocesano VOZ DE LAMEGO, n.º 4249, de 28 de janeiro de 2014.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

PAGOLA - O Caminho aberto por Jesus: Mateus

       Para uma leitura mais assertiva dos evangelhos durante o ciclo de leituras do ANO A, recomendámos a leitura, entre outros, de três obras:
D. ANTÓNIO COUTO. Quando Elenos abre as Escrituras. Domingo após domingo. Uma leitura bíblica do Lecionário. Ano A. Paulus Editora, Lisboa 2013.

D. MANUEL CLEMENTE. O Evangelho e a Vida. Conversas na rádio no Dia do Senhor. Ano A. Lucerna. Cascais 2013. 320 páginas. 352 páginas.

José ANTONIO PAGOLA. O Caminho aberto por Jesus: Mateus. Gráfica de Coimbra 2. Coimbra 2010. 280 páginas.
       A recomendação, que continua válida, seria ler em cada domingo o respetivo comentário, ou ler de uma assentada, relendo em cada domingo. Porém, a estrutura do livro de Pagola, que não segue domingo a domingo o Evangelho, mas propõe a leitura de São Mateus a partir dos textos atribuídos a cada domingo, deixando outros textos, de outros evangelistas. Desta forma, e para um enquadramento geral do Evangelista da Igreja, São Mateus, esta seria uma leitura adequada a fazer de uma assentada. Foi o que fizemos.
        É neste sentido que voltámos a recomendar a leitura de Pagola, O Caminho aberto por Jesus: Mateus. Já aqui sugerimos MARCOS: aqui, do mesmo autor e coleção.
       José Antonio Pagola tem a preocupação de situar as diversas passagens, enquadrando com o tempo de Jesus, ou com a situação em que o texto foi escrito, procurando trazer cada episódio para o tempo atual, com situações semelhantes na sociedade e na Igreja. A vivência do Evangelho há de ser libertadora, comprometida, transformadora. Salienta-se a força do Espírito em cada um e na comunidade, onde as Bem-aventuranças são um referencial incontornável, mas também o Juízo Final, a proximidade da Deus implica uma maior proximidade aos irmãos, aos excluídos, aos pobres, aos marginalizados.
       No final, o envio dos Apóstolos, que se tornam responsáveis por espalhar a Boa Nova, com palavras e com obras, com a vida, fazendo discípulos. "O ponto de arranque é a Galileia. Para lá os convoca Jesus. A ressurreição não os deve levar a esquecer o que viveram com Ele na Galileia. Ali O escutaram a falar de Deus como parábolas comovedoras. Ali O viram a aliviar o sofrimento, a oferecer o perdão e a acolher os esquecidos. É precisamente isto que devem continuar a transmitir".
       O anúncio e o batismo levam uma marca trinitária.
       "O Pai é o amor originário, a fonte de todo o amor. Ele começa o amor. «Só Ele começa a amar sem motivos; mais é Ele quem, desde sempre, começou a amar (Eberhard Jüngel). O Pai ama desde sempre e para sempre, sem ser obrigado nem motivado a partir de fora. É o «Eterno amante». Ama e continuará a amar sempre. Nunca nos reinará o Seu amor e fidelidade. D'Ele só brota amor. Consequência: criados à Sua imagem, estamos feitos para amar. Só amando acertamos na existência.
       O ser Filho consiste em receber o amor do Pai. Ele é o «Amado eternamente», antes da criação do mundo. O Filho é o amor que acolhe, a resposta eterna do amor do Pai. O mistério de Deus consiste, pois, em dar e também em receber amor. Em Deus, deixar-se amar não é menos que amar. Receber é também divino! Consequência: criados à imagem de Deus estamos feitos não só para amar, mas também para ser amados.
       O Espírito Santo é a comunhão do Pai e do Filho. Ele é o AMOR eterno entre o Pai amante e o Filho amado, é Ele que revela que o amor divino não é possessão ciumenta do Pai nem apropriação egoística do Filho. O amor verdadeiro é sempre abertura, dom, comunicação transbordante. Por isso, o amor de Deus não se fica em si mesmo, mas comunica-se e estende-se às Suas criaturas. «O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rom 5,5). Consequência: criados à imagem de Deus, estamos feitos para amar, sem nos apropriarmos, nem nos encerrarmos em amores fictícios e egoístas".

Veja-se a SUGESTÃO da LIVRARIA FUNDAMENTOS: Aqui.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Escola da Fé - São Mateus - Pe. Jorge Henrique

       Na dinâmica pastoral das Escolas de Vivência da Fé, no dia 24 de janeiro, dia de São Francisco de Sales, realizou-se mais um encontro de reflexão, desta feita sobre o Evangelho de São Mateus, que preferentemente se lê aos domingos no ciclo de leituras do ano A. Connosco, para nos ajudar a acolher e compreender melhor o Evangelho e o seu autor, o Pe. Jorge Henrique, Pároco de Penso, Faia, Vila da Rua, Vila da Ponte e Assistente Diocesano da Obra Kolping. Foi o pregador da última Novena e Festa de Nossa Senhora da Conceição.
       Partilhamos o diaporama preparado pelo Pe. Jorge Henrique, que poderá servir a outros (pessoas e/ou comunidades) para melhor conhecerem o Evangelho de São Mateus e simultaneamente a distribuição dos textos por todo o ano litúrgico, do 1.º Domingo do Advento (1 de dezembro de 2013) até à próxima solenidade de Cristo Rei do Universo (23 de novembro de 2014).

          Relacionado com este tema, outra apresentação preparada para o ano de 2011, numa semana de formação bíblica: AQUI.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Domingo III do Tempo Comum - ano A - 26 de janeiro

       1 – «Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus». Comum a João Batista e a Jesus Cristo, o convite ao arrependimento, a arrepiar caminho, aderindo ao bem, à justiça e à verdade. A motivação maior é a proximidade do Reino de Deus. São Mateus mostra-nos esta continuidade entre a voz e a palavra, entre o Precursor e o Messias, entre o Batista e o Filho de Deus, mas também a rutura: Jesus é a Luz das Nações.
       Mateus mostra-nos outra continuidade, Jesus é o Messias anunciado pelo profeta: “o povo que andava nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam nas sombras da morte uma luz se levantou. Multiplicastes a sua alegria, aumentastes o seu contentamento. Rejubilam na vossa presença, como os que se alegram no tempo da colheita, como exultam os que repartem despojos. Vós quebrastes, como no dia de Madiã, o jugo que pesava sobre o povo, o madeiro que ele tinha sobre os ombros e o bastão do opressor”.
       Jesus, o Messias de Deus, vem eliminar toda a treva, vem como servo sofredor, impondo-se pela Palavra, pelo Amor, pela Bondade. Com Ele vê-se a grande LUZ, o Céu desce à terra, Deus faz-Se tão pequeno, tão frágil, que Se torna homem, um de nós, um dos nossos.
        2 – Veja-se, antes de mais, a delicadeza de Jesus. Inicia a vida pública, ou pelo menos, torna mais visível e intensa a sua atividade missionária a partir do momento em que João Batista foi preso. Só então Jesus anuncia a proximidade do Reino. Não faz concorrência a João, nem ofusca o seu ministério, ainda que a consciência cada vez mais esclarecida de João apontem para Jesus e para um tempo novo.
       A continuidade discursiva (e prática) é evidente. A marca dos discípulos de João é a mesma dos discípulos de Jesus: arrependimento, conversão, adequação da própria vontade à vontade de Deus, isto é, a tudo o que possa traduzir amor, justiça, paz, perdão, solidariedade, partilha. Com Jesus vem a força do Espírito Santo que Ele dará a todo aquele que se predispuser a alargar o próprio coração para acolher Deus e se dar aos irmãos.
       Logo de início Jesus Se faz acompanhar mais de perto por alguns discípulos. Não se pode chegar ao todo sem preencher as partes, não se anuncia a boa Nova ao mundo inteiro de forma geral e abstrata. Anuncia-se o Evangelho, o Reino de Deus a pessoas concretas, ao Sr. António, à D. Maria que todos dias vejo à janela, ao Sr. Joaquim que me dá boleia para o trabalho, ao Luís que todos os dias me diz bom dia, ao tio Zé que fica feliz sempre que eu passo à sua porta e lhe pergunto se a esposa está melhor. Jesus cruza-se com pessoas de carne e osso e, sendo verdadeiramente Homem, Ele tem os mesmos limites espácio-temporais. Precisa de outras mãos, de outros pés, de outros corações. Precisa de quem possa continuar o que Ele diz e faz. Chama pelo nome. Pedro, Tiago e João, André e Filipe, Bartolomeu, Mateus e Judas, Ana e Sofia, Ricardo e Tomás, chama cada um de nós. Vamos, ouçamos o que diz, vejamos o que faz, para depois sermos nós evangelizadores, refletindo o Deus que nos habita.
       «Vinde e segui-Me e farei de vós pescadores de homens». Eles foram. E nós, aceitamos o repto de Jesus? Há um tempo para consertar as redes e refazer a vida, curar as mágoas, e há um tempo para seguir Jesus, que se tornar uma oportunidade ainda maior para curar feridas.
       Pelo caminho, Jesus anuncia o Reino de Deus, cura as pessoas das suas enfermidades. As palavras concretizam-se em gestos concretos. Bem dizer (bênção) e bem fazer (obras, prática).
        3 – Chamamento. Seguimento. Envio. Apostolado. Jesus chama, desafia-nos ao seguimento. Percorrer as pegadas de Jesus, procurando atualizar para cada tempo, para cada vida, a postura de conciliação e de amor, de proximidade e de promoção que Jesus prosseguia. A primeira condição é escutar Jesus. A segunda, segui-l'O, ouvir o que Ele diz, ver o que Ele faz, treinar-se a dizer e a fazer como Ele. Por um lado, seguimo-l'O para estarmos sempre com Ele. Por outro, seguimo-l'O para nos deixarmos enviar e nos tornarmos apóstolos, levando a palavra e a cura e a salvação.
       O caminho não está isento de dificuldades, próprias da nossa condição mortal e finita.
       No seguimento de Jesus, o apóstolo é confrontado com situações que não estaria à espera. É certo que todos partimos do pressuposto que só Deus é perfeito, só Deus é santo. Nessa medida, todos corremos o risco de falhar, por uma ou outra razão, senão agora, amanhã. Mas quando nos deparamos com falhas onde julgávamos que estava tudo bem, poderá advir a desilusão e cansaço.
       Paulo convida, novamente, a comunidade a deixar-se converter e transformar por Jesus Cristo, procurando cada um aproximar-se o mais possível do Senhor, e quanto mais perto d'Ele mais perto uns dos outros.
       “Rogo-vos, pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que faleis todos a mesma linguagem e que não haja divisões entre vós, permanecendo bem unidos, no mesmo pensar e no mesmo agir. Eu soube, meus irmãos, pela gente de Cloé, que há divisões entre vós, que há entre vós quem diga: «Eu sou de Paulo», «eu de Apolo», «eu de Pedro», «eu de Cristo». Estará Cristo dividido?”
       Esta vigilância há de ser um referencial para as nossas comunidades cristãs e para todos os seus membros. Ainda que possa, em determinada altura, haver uma maior identificação com uma pessoa que nos estimula a viver a fé, ou um santo em quem colocamos mais a nossa devoção, a LUZ é sempre Jesus Cristo. É o critério, o conteúdo, o rosto, pelo qual havemos de nos ver como Seus seguidores.
       4 – Para seguir Jesus há certamente muitas condições, o essencial, porém, é deixar-se plasmar e guiar pelo Espírito Santo. Não vamos sozinhos. Deus está connosco, através do Seu Espírito de Amor. Quando as trevas forem mais fortes, rezemos, voltemos a rezar, para que a Sua vontade se realize em nossas vidas.
       “O Senhor é minha luz e salvação: a quem hei de temer? O Senhor é protetor da minha vida: de quem hei de ter medo?”. Se Ele está por nós, quem estará contra nós?

Textos para a Eucaristia (ano A): Is 8, 23b – 9, 3 ; Sl 26 (27); 1 Cor 1, 10-13.17; Mt 4, 12-23.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Conselhos Pastorais - Povo de Deus

       Os conselhos pastorais fazem parte das inovações que modificaram a vida das paróquias depois do Concílio Vaticano II. Para compreendermos tal entusiasmo importa apenas referir a noção de “Povo de Deus” apresentada na constituição dogmática Lumen gentium (LG) e como isso abre uma nova via para pensar o lugar de todos na vida da Igreja.
       O primeiro esquema deste documento (1962) propunha um texto que se identificava com outros anteriores e colocava a hierarquia antes e o laicado no final. Um primeiro debate promove alterações ao texto e, após sugestões sucessivas, é aprovado o texto actual, em 1964. Uma das alterações mais visíveis, e que importa sublinhar aqui, é a colocação do capítulo sobre o Povo de Deus antes da parte que aborda a hierarquia. Há uma inversão da disposição dos capítulos que é muito mais que a mudança na disposição do conteúdo. Colocar antes a realidade do Povo de Deus contribui de forma decisiva para uma procura do equilíbrio eclesiástico do todo. O Povo de Deus é anterior à hierarquia, concebendo-se a Igreja, na sua totalidade, como unidade e permitindo colocar antes a noção de comunidade, ao mesmo tempo que permite situar os ministros. A partir daqui não é o leigo que se define face ao clérigo, mas é o padre que se apresenta com uma função particular em referência ao Povo de Deus.
       É esta nova perspectiva que permite aos Padres conciliares reconhecer que “a todo o discípulo incumbe o encargo de difundir a fé, segundo a própria medida” (LG 17). A Igreja é reconhecida como uma realidade comum que pertence a todos; melhor, que está para lá dos seus membros.
       É o Espírito Santo que move toda a Igreja, todo o povo de Deus, para continuar a obra da criação e da Redenção, “a cooperar para que o desejo de Deus que fez de Cristo o princípio de salvação para todo o mundo se realize totalmente” (LG 17).
       Este aspecto comunitário, que emerge através da introdução da noção de Povo de Deus, revela a pertinência de pensar a Igreja a partir de todos os seus membros. Este “todos” pode ser associado a uma outra noção, particularmente fecunda para o Concílio, a de “participação”.

FONTE: Jornal diocesano VOZ DE LAMEGO, n.º 4248, de 21 de janeiro de 2014.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Faltam +/- 350 dias para viver 2014!

       A obra-prima de Eça de Queirós, Os Maias, de 1888, é um romance que enquadra a situação histórico-social de Portugal daquele tempo. O final, um misto de esperança e de resignação.
       “– Lá vem um «americano», ainda o apanhamos.
       – Ainda o apanhamos!
       Os dois amigos lançaram o passo… Outro esforço:
       – Ainda o apanhamos!
       – Ainda o apanhamos!”.
       Cada ano traz consigo propósitos e projetos novos. Há pessoas que alteram mesmo a sua atitude face à vida. Um certo jeito de sermos portugueses e por vezes vamos adiando, à espera que outros façam ou que o tempo componha. E depois é demasiado tarde. Poderíamos ter feito alguma coisa?
       Faltam mais ou menos 350 dias para o ano terminar. Fechamos os olhos e quando voltarmos a abri-los estaremos no fim de 2014. Antes do último fôlego há que viver, aqui e agora, já, como se estivéssemos no fim.
       Ao correr da pena…
       Olha para os problemas que tens pela frente. Faz uma lista do que não convém adiar. Pede ajuda a quem sabes que te vai ajudar. Vê o que é verdadeiramente importante para ti, na relação com os outros, e no teu trabalho, vê o que tem futuro e no qual valerá a pena investir. Não permitas que algo secundário atrapalhe ou destrua uma amizade verdadeira. Vou chamar alguém a atenção? Primeiro penso se é importante o reparo, e só então o farei.
       Valoriza as tuas capacidades. Acolhe os bem que vem dos outros. Alegra-te pelas pequenas coisas da vida. Não esperes pelo ideal.
       Dos problemas, o que é mais urgente resolver? O que posso resolver só por mim? O que é que me aflige? Se é um problema e posso resolver, deixa de o ser logo que o resolvo. Se não o posso resolver, pois não depende de mim, para quê preocupar-me? O que não tem remédio, remediado está. Nenhum medo destrua a nossa esperança.
       Enquadra as dificuldades, não transformes uma dificuldade num obstáculo. “Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo…” (Fernando Pessoa). Se a visão é limitada pela árvore que tenho à frente, distancio-me para ver que há outra paisagem. Não queiras que tudo seja terra firme. Caminha. Lembras-te quando os apóstolos estão no alto mar, e do medo que os atemoriza? (cf. Mt 14, 22-33). Jesus vem em auxílio. Não tenhamos medo de caminhar sobre a água, Se Ele vai connosco. Não esperemos as condições mais favoráveis. Muitos projetos ficam por concretizar à espera das condições ideais.
       Cada dia que passa é menos um dia que temos para viver ou é mais um dia que vivemos bem?
 
Texto publicado no Jornal Diocesano, Voz de Lamego, n.º 4247, de 14 de janeiro de 2014

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

São FABIÃO, papa e mártir

Nota biográfica:
       Foi eleito bispo da Igreja Romana no ano 236. Recebeu a coroa do martírio no ano 250, ao começar a perseguição de Décio, como testemunha S. Cipriano. Foi sepultado no cemitério de Calisto.
Oração:
       Senhor, que sois a glória dos vossos sacerdotes, fazei que, por intercessão do mártir São Fabião, cresçamos sempre na comunhão da mesma fé e no desejo de Vos servir cada vez melhor. Por Nosso Senhor.
São Cipriano, bispo e mártir, e Igreja de Roma sobre o martírio de São Fabião, papa

Fabião dá-nos exemplo de fé e de virtude

Quando foi informado da morte do papa Fabião, São Cipriano mandou aos presbíteros e diáconos de Roma a seguinte carta:
«Quando era ainda incerta entre nós a notícia da morte daquele homem justo, meu companheiro no episcopado, recebi de vós, irmãos caríssimos, a carta que me mandastes pelo subdiácono Cremêncio, pela qual fiquei perfeitamente informado do martírio glorioso de Fabião. Muito me alegrei por ter sido coroada a integridade do seu governo com tão nobre fim.
A este respeito felicito-vos também sinceramente, por terdes honrado a sua memória com um testemunho tão esplêndido e ilustre. Destes-nos a conhecer a recordação gloriosa que conservais do vosso pastor e que é para nós um exemplo de fé e de virtude.
De facto, assim como é um precedente pernicioso para os súbditos a queda daquele que preside, assim também é útil e salutar o testemunho de um bispo que aos irmãos dá o exemplo de firmeza na fé».
Antes ainda de receber esta carta, a Igreja de Roma oferecia à de Cartago um testemunho da sua fidelidade na perseguição:
«A Igreja permanece firme na fé, embora alguns, dominados pelo medo – ou porque eram pessoas importantes, ou vencidos pelo terror dos homens – tenham caído. Mas nós não os abandonamos, apesar de se terem separado de nós; antes os encorajamos e exortamos a fazer penitência, para que obtenham o perdão d’Aquele que o pode conceder, não seja caso que, ao verem-se abandonados por nós, a sua ruína se agrave mais ainda.
Vede portanto, irmãos, como deveis proceder vós também: corrigindo com a vossa exortação aqueles que caíram, se eles forem de novo presos, confessarão a fé, para reparar o erro anterior. Igualmente vos lembramos outros deveres que haveis de ter em conta: se aqueles que sucumbiram nesta provação adoecem e, arrependidos do que fizeram, desejam reentrar na comunhão, devem ser socorridos; também as viúvas e os indigentes que não podem valer-se a si mesmos, os que estão na prisão, os que foram afastados para longe de suas casas, todos devem ter quem os ajude; do mesmo modo, devem ser socorridos os catecúmenos que adoecem, para que não se sintam desiludidos na sua esperança.
Saúdam-vos os irmãos que estão prisioneiros, bem como os presbíteros e toda a Igreja, que com grande solicitude vela por todos os que invocam o nome do Senhor. E também vos pedimos que, por vossa parte, vos recordeis de nós».

domingo, 19 de janeiro de 2014

Conselhos Pastorais: um Presente com Futuro

       Os conselhos pastorais representam um lugar privilegiado para a prática sinodal, já que aí encontramos, sob a forma de um “microcosmos” eclesial, os principais elementos que constituem uma verdadeira parceria entre cristãos: a comunhão vivida no diálogo das diferenças, um sentido global da Igreja, uma diversidade de vocações e ministérios, o funcionamento de uma instância pastoral, a preocupação primeira da missão. E podem existir em diferentes escalas: nas paróquias, nas zonas pastorais, nos arciprestados e na diocese.
       A Igreja não pode passar ao lado da participação alargada dos seus membros se pretender aprofundar e implicar os fiéis leigos na reflexão, no discernimento dos apelos do Evangelho e no compromisso testemunhal dos baptizados neste tempo e neste mundo que são os nossos.
       Por outro lado, há um papel de coordenação que se impõe de forma a valorizar e a manter o ritmo nas diversas realidades humanas e pastorais. Não se trata de substituir ou querer monopolizar, mas atuar para que tudo se faça, para que nada escape à missão de anunciar, celebrar e servir.
       Por último, estes conselhos podem ser vistos como pontos importantes para a observação da realidade paroquial e diocesana e para a renovação pastoral que se pretende implementar.
       Para que a Igreja seja ela mesma, fiel à sua missão, deve, paradoxalmente, tornar-se “outra”: semper ipsa, nunquam eadem (sempre ela mesma, jamais a mesma). A imobilidade pode levar à rigidez mortífera.
       Jesus de Nazaré, rompendo com todo o conformismo e toda a forma de vassalagem proclama com audácia: “Para vinho novo, odres novos” (Mc 2, 22). É preciso escolher entre o “velho fermento” dos hábitos e o Evangelho sempre novo.
       Na caminhada que a nossa Igreja local (diocese) está a fazer, entre outras iniciativas, destaca-se a vontade de formar Conselhos de Pastoral nas paróquias onde ainda não existe, tal como a nível arciprestal e diocesano. Nesse sentido, o nosso jornal, sem pretender tudo dizer, assume a vontade de escrever algo sobre este assunto ao longo destas primeiras semanas do ano.

FONTE: Jornal diocesano VOZ DE LAMEGO, n.º 4246, de 7 de janeiro de 2014

Bento XVI - a Lei natural: faz o bem, evita o mal

Venerados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio
Estimados Professores
Ilustres Senhoras e Senhores


       É com particular prazer que vos recebo no início dos trabalhos congressuais, que nos próximos dias vos verão comprometidos no debate sobre um tema de importância relevante para o actual momento histórico, o da lei moral natural. Agradeço a D. Rino Fisichella, Magnífico Reitor da Pontifícia Universidade Lateranense, os sentimentos expressos no discurso com que desejou introduzir este encontro.
       Não há dúvida de que nós estamos a viver um momento de desenvolvimento extraordinário na capacidade humana de decifrar as regras e as estruturas da matéria e no consequente domínio do homem sobre a natureza. Todos nós vemos as grandes vantagens deste progresso, e vemos cada vez mais também as ameaças de uma destruição da natureza pela força da nossa acção. Existe outro perigo menos visível, mas não menos preocupante: o método que nos permite conhecer cada vez mais profundamente as estruturas racionais da matéria torna-nos cada vez menos capazes de ver a fonte desta racionalidade, a Razão criadora. A capacidade de ver as leis do ser material torna-nos incapazes de ver a mensagem ética contida no ser, mensagem que a tradição denomina lex naturalis, lei moral natural. Trata-se de uma palavra que hoje para muitos é incompreensível, por causa de um conceito de natureza já não metafísico, mas somente empírico. O facto de que a natureza, o próprio ser, já não é transparente para uma mensagem moral, gera um sentido de desorientação que torna precárias e incertas as opções na vida de todos os dias. Naturalmente, a confusão atinge de modo particular as gerações mais jovens, que neste contexto devem encontrar as opções fundamentais para a sua vida.

       É precisamente à luz destas verificações que se manifesta em toda a sua urgência a necessidade de reflectir sobre o tema da lei natural e de reencontrar a sua verdade, comum a todos os homens. Tal lei, à qual se refere também o Apóstolo Paulo (cf. Rm 2, 14-15), está inscrita no coração do homem e, por conseguinte, também hoje não é simplesmente inacessível. Esta lei tem como seu princípio primordial e generalíssimo o de "fazer o bem e evitar o mal". Trata-se de uma verdade cuja evidência se impõe imediatamente a cada um. Dela brotam os outros princípios mais particulares, que regulam o juízo ético sobre os direitos e os deveres de cada um. Trata-se do princípio do respeito pela vida humana, desde a sua concepção até ao seu termo natural, pois este bem da vida não é uma propriedade do homem, mas um dom gratuito de Deus. Trata-se também do dever de buscar a verdade, pressuposto necessário de toda o verdadeiro amadurecimento da pessoa.
       Outra exigência fundamental do sujeito é a liberdade. Todavia, tendo em consideração o facto de que a liberdade humana é sempre uma liberdade compartilhada com os outros, é claro que a harmonia das liberdades só pode ser encontrada naquilo que é comum a todos: a verdade do ser humano, a mensagem fundamental do próprio ser, precisamente a lex naturalis. E como deixar de mencionar, por um lado, a exigência da justiça, que se manifesta em dar unicuique suum e, por outro, a expectativa da solidariedade, que alimenta em cada um, especialmente se estiver em dificuldade, a esperança de uma ajuda por parte daquele que teve uma sorte melhor? Nestes valores expressam-se normas inderrogáveis e inadiáveis, que não dependem da vontade do legislador e nem sequer do consenso que os Estados lhes podem conferir. Com efeito, trata-se de normas que precedem qualquer lei humana: como tais, não admitem intervenções em derrogação por parte de ninguém.

       A lei natural é a nascente de onde brotam, juntamente com os direitos fundamentais, também imperativos éticos que é necessário respeitar. Na actual ética e filosofia do Direito são amplamente difundidos os postulados do positivismo jurídico. A consequência é que a legislação se torna com frequência somente um compromisso entre diversos interesses: procura-se transformar em direitos, interesses particulares ou desejos que contrastam com os deveres derivantes da responsabilidade social. Nesta situação, é oportuno recordar que cada ordenamento jurídico, tanto a nível interno como internacional, haure em última análise a sua legitimidade da radicação na lei natural, na mensagem ética inscrita no próprio ser humano. Em definitivo, a lei natural é o único baluarte válido contra o arbítrio do poder ou os enganos da manipulação ideológica. O conhecimento desta lei inscrita no coração do homem aumenta com o progredir da consciência moral. Portanto, a primeira preocupação para todos, e particularmente para quem tem responsabilidades públicas, deveria consistir em promover o amadurecimento da consciência moral. Este é o progresso fundamental, sem o qual todos os outros progressos terminam por ser não autênticos. A lei inscrita na nossa natureza é a verdadeira garantia oferecida a cada um, para poder viver livres e ser respeitado na própria dignidade.
       O que dissemos até agora tem implicações muito concretas, se se faz referência à família, ou seja, àquela "íntima comunidade conjugal de vida e de amor... fundada e dotada de leis próprias pelo Criador" (Constituição pastoral Gaudium et spes, 48). A este propósito, o Concílio Vaticano II reiterou oportunamente que a instituição do matrimónio recebe a sua "estabilidade do ordenamento divino" e, por isso, "este vínculo sagrado, por causa do bem tanto dos esposos e da prole, como da sociedade, está fora do arbítrio humano" (Ibidem). Portanto, nenhuma lei feita pelos homens pode subverter a norma escrita pelo Criador, sem que a sociedade seja dramaticamente ferida naquilo que constitui o seu próprio fundamento basilar. Esquecê-lo significaria debilitar a família, penalizar os filhos e também tornar precário o futuro da sociedade.

       Enfim, sinto o dever de afirmar mais uma vez que nem tudo o que é cientificamente realizável é também lícito sob o ponto de vista ético. Quando reduz o ser humano a um objecto de ensaio, a técnica termina por abandonar o sujeito frágil ao arbítrio do mais forte. Confiar cegamente na técnica como a única garantia de progresso, sem oferecer ao mesmo tempo um código ético que mergulhe as suas raízes na mesma realidade que é estudada e desenvolvida, equivaleria a causar violência à natureza humana, com consequências devastadoras para todos.

       A contribuição dos homens de ciência é de importância primária. Juntamente com o progresso das nossas capacidades de domínio sobre a natureza, os cientistas devem contribuir também para nos ajudar a compreender profundamente a nossa responsabilidade pelo homem e pela natureza que lhe é confiada. Tendo isto como base, é possível desenvolver um diálogo fecundo entre crentes e não-crentes; entre filósofos, juristas e homens de ciência, que podem oferecer também ao legislador um material precioso para a vida pessoal e social. Por isso, faço votos a fim de que estes dias de estudo possam impelir não apenas a uma maior sensibilidade dos estudiosos em relação à lei natural, mas levem também a criar as condições para que, no que diz respeito a esta temática, se chegue a ter uma consciência cada vez mais plena do valor inalienável que a lex naturalis possui, para um progresso real e coerente da vida pessoal e da ordem social.

       Com estes bons votos, asseguro a minha lembrança na oração por vós e pelo vosso compromisso académico de investigação e de reflexão, enquanto concedo a todos vós a minha afectuosa Bênção Apostólica.
 
12 de fevereiro de 2007.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Domingo II do Tempo Comum - ano A - 19 de janeiro

       1 – Há oito dias o Céu abriu-se e escutamos a voz do Pai: «Este é o Meu Filho muito amado no qual coloquei todo a minha confiança». Hoje é o Batista que dá testemunho acerca de Jesus: «É d’Ele que eu dizia: ‘Depois de mim vem um homem, que passou à minha frente, porque era antes de mim’. Eu vi o Espírito Santo descer do Céu como uma pomba e permanecer sobre Ele. Eu não O conhecia, mas quem me enviou na batizar na água é que me disse: ‘Aquele sobre quem vires o Espírito Santo descer e permanecer é que batiza no Espírito Santo’. Ora, eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus».
       João volta a dar de caras com o Messias e não tem dúvidas: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo». O encontro com Jesus provoca reações. Também em João. Transborda a alegria de O encontrar, de O reconhecer e de dar TESTEMUNHO acerca d'Ele.
       É tempo de passar a pasta. João prepara o caminho e, agora, apresenta Jesus aos seus ouvintes: É Ele o Messias anunciado pelos profetas. Segui-O. Foi para este momento que eu vim, anunciar a proximidade do Reino de Deus e a vinda do Filho de Deus, preparar os caminhos para que Ele reine. É necessário que Ele cresça, ainda que eu desapareça!
       2 – «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo». Este anúncio coloca-nos na história do povo de Israel, história de eleição e de aliança. Liga-nos ao seguimento de Jesus. Insere-nos na celebração da Páscoa, em cada Eucaristia.
       Cada ano o Sumo-Sacerdote entra no Santo dos Santos, o lugar-tenente de Deus, o lugar mais sagrado do Templo e oferece um sacrifício de expiação pelos pecados do povo. A oferenda de um cordeiro novo, sem mancha nem defeito, cuja morte sacrificial expia os pecados de todo o povo (cf Is 52,13ss). É o dia do grande Perdão. Na celebração da Páscoa, a família reúne-se e come o cordeiro pascal (cf. Ex 12,1-28), recordando o dia da libertação do povo, escravo no Egipto.
       João Batista faz-nos compreender que estamos diante de outro Cordeiro, o que verdadeira e definitivamente há de tirar o pecado do mundo. Como nos dirá a epístola aos Hebreus (cf. Heb 10, 11-18), Ele é o Sacerdote por excelência, que oferece não um cordeiro, mas Se oferece a Si mesmo, como Cordeiro, de uma vez para sempre a favor de todos.
       Vislumbra-se a paixão redentora de Jesus. A cruz começa a desenhar-se nas palavras simples e diretas do Batista. É Ele o Cordeiro, inocente, puro, escolhido e enviado, para nos livrar do pecado e da morte. Os braços que se estenderão na cruz espelham o AMOR de Deus, que Se faz frágil para que O encontremos bem perto de nós.
      Cada domingo nos reunimos como comunidade crente, como seguidores de Jesus, para nos recordarmos da Sua entrega a nosso favor, mas sobretudo para vivermos hoje no DOM que nos é oferecido, a vida nova no Espírito. A Eucaristia guia-nos até nos fazer levantar os olhos, e o coração, e a vida, para o CORDEIRO que tira o pecado do mundo. É o mistério maior da nossa fé, o pão e o vinho transformam-Se, pela ação do Espírito Santo, em Corpo e Sangue de Cristo. Quando nos sentamos à mesa, alimentamos o corpo e fortalecemos os laços que nos unem com a família e com os amigos. Quando o alimento é o próprio Jesus Cristo, tornamo-nos com Ele um só Corpo, uma só família.

       3 – O profeta Isaías, na primeira leitura, revela com clareza que o Enviado será o “Servo Sofredor”, qual Cordeiro inocente levado ao matadouro, para resgatar o Seu povo dos seus pecados e congregar na unidade todos os povos da terra.
       Disse-me o Senhor: «Tu és o meu servo, Israel, por quem manifestarei a minha glória... Não basta que sejas meu servo, para restaurares as tribos de Jacob… Vou fazer de ti a luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da terra». 
       O tempo dos animais sacrificados já lá vai, agora é o próprio Deus que nos oferece o Seu Filho, que por sua vez Se oferece e nos oferece a Deus. “Não Vos agradaram sacrifícios nem oblações, / mas abristes-me os ouvidos; / não pedistes holocaustos nem expiações, / então clamei: «Aqui estou». Eis que venho para fazer, ó Deus, a tua vontade” (Salmo e Hebreus 10). De uma vez para sempre, Jesus Se oferece em libação pelos nossos pecados, libertando-nos de superstições, falsas esperanças, baseadas em poções mágicas e fantasias. Liberta-nos do demónio e de muitos medos que nos paralisam. Coloca a vida em dinâmica de esperança e de abertura a um Deus clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade, a um Deus que é Pai.

       4 – São Maximiliano Kolbe é um belíssimo exemplo de alguém que assume ser outro Cristo, dando a sua vida a favor de um irmão, não por desprezar a sua vida, mas por pura gratuidade, compadecendo-se do seu colega de prisão.
       Em plena segunda Guerra Mundial, num campo de concentração, em Julho de 1941, um prisioneiro, do bunker onde se encontra Maximiliano Kolbe, foge. Para dissuadir qualquer fuga e para vingar aqueles que o conseguiam, os nazis enviavam 10 outros prisioneiros para uma cela isolada até morrerem de fome e sede. No caso presente, o prisioneiro fugitivo viria a ser encontrado morto, afogado numa latrina. Mas antes, são selecionados 10 prisioneiros para morrerem. Ouve-se o choro e lamento de um prisioneiro que deixará a mulher e os filhos. O padre Kolbe pede então para tomar o seu lugar e o seu pedido é aceite. Passadas duas semanas, apenas quatro dos dez homens sobrevivem, entre os quais Kolbe. Os guardas nazis executam-nos com uma injeção de ácido carbónico. Morre em véspera da Assunção de Nossa Senhora, a 14 de Agosto de 1941, dia em que celebrámos a sua memória.
       É um testemunho que torna luminosa a entrega de Jesus Cristo em favor da humanidade inteira e, por conseguinte, Ele é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, resgatando-nos às trevas, introduz-nos na vida de Deus.

Textos para a Eucaristia (ano A): Is 49, 3.5-6; Sl 39 (40); Cor l, 1-3; Jo 1, 29-34.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Passado, presente, futuro: como viver o tempo?


Vive intensamente o presente.
Enfrenta corajosamente a vida e não permitas que as dificuldades perturbem o teu fundo de serenidade.
Vive agora, já.
Intensamente.
Ao prosseguires o longo caminho para a paz interior, evita permanecer em perene conflito para tomar uma decisão, para fazer uma escolha.
É preciso viver o momento presente.
Prestar atenção às coisas diárias simples, e vivê-las com grande paixão.
Habituamo-nos a pensar sempre na situação que há de vir; por exemplo, pensa-se na noite em que se irá jantar fora com o parceiro, imagina-se de que modo acontecerá; ou, então, durante a semana, pensa-se no domingo, quando se for jogar golfe, nos resultados a que se chegará... Mas, depois, quando estivermos a cear ou a jogar golfe, precisamente nesses momentos, estaremos a pensar em como acabará o serão ou o que se fará depois da partida de golfe.
Nunca estamos parados no momento presente, na vivência da situação.
Com o tempo, perderemos a capacidade de viver intensamente, de viver com paixão.
Nunca conheceremos a serenidade. E, muito menos, a paz interior.
Não nos realizaremos verdadeiramente.
Na realidade, não teremos vivido.
Muitas vezes, no chamado tempo livre, em vez de se relaxar e de ter uma relação serena e libertadora com a natureza, o ser humano continua a pensar nos problemas de casa, de trabalho, etc.
Assim, não se vive na realidade, mas sempre na cabeça.
Deve-se viver o momento presente porque é o único que nos é concedido.
Perder-se no momento presente, excluindo o passado e o futuro que ainda não é.
Fugir do presente pode também ser um modo de fugir das suas responsabilidades.
Finalmente, ter medo do futuro não ajuda a enfrentá-lo melhor.
E mais: também cria alarme, ansiedade e angústia.
Apenas serve para amedrontar-nos.
Não há um momento certo para viver o presente.
O momento certo é viver agora!
Como diz a palavra «passado», o passado já não existe.
Porquê, voltar a ele?
Talvez por medo de viver o presente, para não assumir a responsabilidade de uma escolha.
O passado só pode acompanhar-nos ao longo da nossa viagem da vida.
Temos de fazer as pazes com o nosso passado.
Isto não significa que não o recordemos.
Só não podemos tê-lo diante de nós, porque nos paralisaria!
Não nos deixaria viver.
O truque é mantê-lo ao nosso lado.
Deste modo, tornar-se-á nosso aliado, ajudar-nos-á a não repetir os erros já cometidos.

Valerio Albisetti, Psicólogo, professor universitário,
In Felizes apesar de tudo, ed. Paulinas.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A Boneca de Sal

A boneca de sal vagueou pela terra até chegar ao mar,
onde ficou absorta a comtemplar aquela massa imensa de água inquieta
que ela nunca vira.

"Quem és tu?", pergunta a boneca ao mar.

"Entre e vê" - diz o mar sorrindo.

Dito e feito, ela entrou mar dentro

e quanto mais entrava, mais se dissolvia
até restar só um pouco do seu corpo.

Antes de derreter-se totalmente,

exclamou a Boneca admirada:
"Agora já sei quem sou!
Anthony de Mello, O canto do pássaro, Paulinas 1995.
       Há uns largos anos, no Seminário Menor de Resende, foi-nos mostrado um diaporama com este título e a história mais detalhada seria mais ou menos assim:
Era uma vez uma boneca feita de sal. O maior sonho da vida dela era, um dia, poder ver o mar.
Ficava dias e noites embrenhada nos seus pensamentos, tentando imaginar a imensidão e a beleza do grande oceano, e ia ficando presa a uma grande nostalgia - uma espécie de "saudade", vaga, de algo que lhe parecia conhecer apesar de tão longínquo...
Um certo dia, decidiu meter mãos à obra - não podia esperar mais -, e decidiu partir.
Depois de uma árdua e continuada busca, chegou, por fim, a uma areal - uma praia à beira mar. E, ali, confirmou o que o seu coração adivinhava: como era imenso e apelativo aquele mar. E como era misterioso?
Ali ficou, perdida em contemplação, e tentando indagar mil e uma palpitantes respostas advindas daquele mar:
- Diz-me, quem és tu?
- Sou o mar.
- Mas o que é o mar?
- Sou eu!
- Explica-me melhor, por favor! Deixa-me perceber, deixa-me conhecer-te...
- É simples: toca-me.
A boneca, extasiada, mas um pouco a medo, avançou um passo em direcção à espuma que orlava aquela vastidão, e deixou que os seus pequenos pés fossem acariciados por aquela "evanescência?". Um pouco mais afoita, mergulhou os seus pés, em pleno, na água que a convidava. E - surpresa! - pareceu-lhe que começava mesmo a compreender qualquer coisa...
Quando, porém, pôs os olhos no chão, apercebeu-se, assustada, que os seus pés haviam desaparecido. Protestou aflita:
- Oh! Que fizeste tu? Onde estão os meus pés?
Mas o mar replicou:
- Porque choras? Apenas foi necessário ofereceres alguma coisa - um pouco de ti própria - para poderes compreender...
A boneca reflectiu e serenou; e pareceu-lhe que entendia um pouco mais.
Então, decidida avançou. A água começou lentamente a cobrir partes do seu corpo, ao mesmo tempo que sentia que estas, dolorosamente, se desvaneciam. A cada passo que dava, a menina perdia algum pedaço. Contudo - oh, estranho "porquê"! - quanto mais avançava, mais e mais profundamente compreendia, mais saber lhe era comunicado, apesar de ainda não ser capaz de dizer o que era o mar.
Uma outra vez, inquiriu:
- O que é o mar?
Uma última onda arrebatou o que restava dela. E, precisamente, naquele derradeiro momento em que desaparecia na imensidão do seu Seio, a boneca exclamou:
- Sou eu!

sábado, 11 de janeiro de 2014

Batismo do Senhor - ano A - 12 de janeiro de 2014

       1 – «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência».
       Se há verdade que Jesus faz questão em vincar é precisamente que Deus é Pai. Haveria (e ainda há) a imagem de um Deus distante, terrífico, transcendente, distante, impassível, juiz, pronto a castigar-nos e exigir tudo de nós, parecendo que a felicidade de Deus dependeria do nosso sofrimento, sacrífico, numa atitude que nos colocaria num relação de súbditos, de escravos, ou até mesmo de marionetas nas Suas mãos. Quanto maior fosse o nosso esforço e sofrimento maior seria o contentamento de Deus. Ora, Jesus, em definitivo, desfaz este distanciamento. Deus é tão próximo que Se faz um de nós, vem ao nosso encontro, procura-nos em nossa casa, assume a nossa fragilidade. "Para Jesus a verdadeira metáfora de Deus não é o «cedro», que faz pensar em algo grandioso, mas a «mostarda», que sugere o pequeno e insignificante" (J. Pagola).
       O Deus que Jesus nos revela é Pai, e um Pai que nos ama de tal maneira que nos dá o Seu filho bem-amado. Ele espera por nós. Acredita em nós. Aposta em nós. Faz festa quando as coisas nos correm bem, quando o nosso caminho nos torna felizes. Quanto maior a nossa felicidade, a nossa alegria, tanto maior o sorriso de Deus. Com efeito, sendo Pai de todos, quer que formemos uma só família, que nos tratemos como irmãos, que vivamos solidariamente no bem. Destarte, se um de nós é feliz mas à volta há alguém a precisar de ajuda, de uma palavra, de um sorriso, de um ombro amigo, ou de bens para viver com dignidade, o meu, o teu, o nosso compromisso com Deus, reconhecendo-nos como filhos, obriga-nos à paixão pelo próximo, a fazer o que está ao nosso alcance para solucionar ou minorar a dor alheia, o sofrimento dos nossos irmãos.
       2 – «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência».
       No Batismo, e na Transfiguração (Mt 17,1-19), Deus declara a Sua predileção pelo Filho, por Jesus. É extensível a nós. Jesus assume-nos como irmãos. Torna visível a nossa filiação. Meu Pai e Vosso Pai, peço por vós ao Pai. Entrega-nos Maria para nossa Mãe. Entrega-nos a Maria para tomarmos consciência que somos filhos, somos Seus irmãos. Como também dirá, os seus irmãos, as suas irmãs, a sua mãe, os seus familiares, são aqueles e aquelas que escutam a Palavra de Deus (Pai) e procuram fazer a Sua vontade. No Batismo e na Transfiguração é o Pai que dá testemunho do Filho e revela a Sua Paternidade, que logo se “alarga” para nós. O acolhimento desta revelação levar-nos-á à escuta do Filho, levar-nos-á a seguir Jesus.
       A certa altura, Jesus encontra-se com João, o Batista, o Precursor. Ouviram falar um do outro, e dos respetivos feitos e mensagem. João vem antes, no tempo. Prepara a chegada do Messias. Batiza na água. É um batismo simbólico que antecipa o verdadeiro batismo, operado pela morte e ressurreição de Jesus Cristo.
       Jesus assume-Se nos gestos simples e banais, é Um entre nós, Um connosco. Não começa por dizer que é Deus ou filho de Deus, começa por viver como nós, submetendo-se às nossas leis humanas, preceitos, tradições. Mesmo religiosamente, Jesus segue os Seus Pais, Maria e José. Vai ao templo nas datas festivas, reza, escuta a palavra de Deus, oferece os respetivos sacrifícios previstos na Lei.
       Durante mais de trinta anos Jesus vive discretamente como qualquer simples mortal. Em casa dos pais. Vive. Vai às festas da família e da aldeia, está presente no luto de familiares, amigos e vizinhos. Come. Bebe. Trabalha. Torna-se carpinteiro. Está entranhado na comunidade de Nazaré.
      Como qualquer profeta, depois dos trinta anos é tempo de assumir a Sua missão de vida. Chegado esse tempo submete-se ao batismo de João, nas margens do Rio Jordão. João percebe que está a chegar a hora de passar o testemunho e também sabe que Jesus não precisava de ser batizado e, por isso, Lhe diz: «Eu é que preciso de ser batizado por Ti e Tu vens ter comigo?». Logo Jesus contesta dizendo: «Deixa por agora; convém que assim cumpramos toda a justiça». João deixou então que Ele Se aproximasse e batizou-o, como a tantos que vinham ter com ele. Jesus integra a multidão, não está acima ou de fora. Com efeito, ao longo da Sua vida pública é vê-l’O ir à margem, à beira do caminho, às periferias, buscar os que andam perdidos.
       3 – «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência».
       Esta é a voz que vem do Céu. Com efeito, logo que foi batizado "abriram-se os céus e Jesus viu o Espírito de Deus descer como uma pomba e pousar sobre Ele" e fez-se ouvir a voz do Pai, como testemunho, como desafio, envolvendo-nos.
       O que é que a voz nos diz quando fala na complacência do Pai em relação ao Filho? Isaías já o havia predito há muitos anos atrás:
"Diz o Senhor: «Eis o meu servo, a quem Eu protejo, o meu eleito, enlevo da minha alma. Sobre ele fiz repousar o meu espírito, para que leve a justiça às nações. Não gritará, nem levantará a voz, nem se fará ouvir nas praças; não quebrará a cana fendida, nem apagará a torcida que ainda fumega: proclamará fielmente a justiça. Não desfalecerá nem desistirá, enquanto não estabelecer a justiça na terra, a doutrina que as ilhas longínquas esperam. Fui Eu, o Senhor, que te chamei segundo a justiça; tomei-te pela mão, formei-te e fiz de ti a aliança do povo e a luz das nações, para abrires os olhos aos cegos, tirares do cárcere os prisioneiros e da prisão os que habitam nas trevas».
       Logo depois do Batismo, Jesus vai a Nazaré, entra na Sinagoga, a um sábado, entregam-lhe o rolo que contém este texto de Isaías e assume o seu conteúdo: “Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir” (Lc 4, 16-30). Ele é o Messias de Deus, o Príncipe da Paz. Vem como aragem suave que convida, e não como vendaval que destrói. Sobre Ele repousa o Espírito de Deus para levar a paz, a justiça, a concórdia a todas as nações. Ele é a LUZ verdadeira que ilumina toda a treva.
       4 – Somos batizados na água e no Espírito, na morte e ressurreição de Jesus Cristo. É um batismo novo, redentor, sacramental, traz-nos a oferenda de Jesus a nosso favor, introduz-nos na vida de Deus.
       O encontro com Deus gera “seguidores”, discípulos, profetas, apóstolos. Jesus é assumido pelo Pai, publicamente, na assembleia reunida no Jordão, e a partir do Batismo torna-se o Profeta, por excelência. Após os batismo, os discípulos tornam-se verdadeiramente apóstolos, anunciadores do Evangelho. São batizados no sangue de Cristo, participam da Sua morte e sobretudo são envolvidos pela Sua Ressurreição. Jesus dá-lhes o Espírito Santo. Morrem para o pecado, são novas criaturas. As suas vidas não mais serão as mesmas. Saem à rua, deixam a segurança das suas casas, o espaço do seu conforto, sem medo, vão ao encontro das pessoas e dos povos, anunciam-lhes a Boa Notícia: Deus é Pai, deu-nos o Seu Filho Jesus, que ofereceu a vida por nós, morreu e ressuscitou, e vive connosco em comunidade crente.
       Ouçamos o testemunho destemido de Pedro:
«Na verdade, eu reconheço que Deus não faz aceção de pessoas, mas, em qualquer nação, aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável. Ele enviou a sua palavra aos filhos de Israel, anunciando a paz por Jesus Cristo, que é o Senhor de todos. Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo que João pregou: Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio, porque Deus estava com Ele».
       E com a Palavra, imitando o Mestre, levam o conforto, a esperança, a cura.
       Como é que se realiza o nosso Batismo? Jesus é batizado e intensifica a Sua missão, dando tudo o que recebeu, tudo o que aprendeu. Os apóstolos são batizados na morte e ressurreição de Jesus e comunicam a vida em abundância que receberam de Jesus. E nós? Somos batizados, tornamo-nos novas criaturas para Deus, o que é que fazemos com o nosso batismo?


Textos para a Eucaristia (ano A): Is 42, 1-4.6-7; Atos 10, 34-38; Mt 3, 13-17.