sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Solenidade de TODOS OS SANTOS - 1 de novembro de 2014

       1 – Sede santos porque Eu, o Senhor Vosso Deus, Sou santo (cf. 1Ped 1, 16).
       A referência última e primeira da santidade é Deus. O desafio da santidade é um compromisso de felicidade, de aperfeiçoamento, de vida no bem, na verdade e do amor. Não é o privilégio de alguns iluminados ou de alguns puros, é o caminho que todos podemos e devemos percorrer. Não é uma conquista ou uma usurpação, é dádiva de Deus que em Jesus Cristo nos redime e nos salva, nos introduz na Sua comunhão de vida nova. Pelo batismo, com efeito, tornamo-nos santos, isto é, filhos amados de Deus. Ao longo do tempo, vivemos neste itinerário de santidade, por vezes decididos, outras vezes aos tropeções. Ele convoca-nos, ampara-nos, protege-nos, envolve-nos; com o Seu amor imenso não cessa de nos dar oportunidades, de nos impulsionar para o bem, para a vida.
       Os discípulos de Jesus começaram a ser chamados de cristãos (são de Cristo) pela primeira vez, em Antioquia; até então era chamados de santos, de eleitos. Por mais que esta linguagem da santidade possa ser estranha na atualidade, ou por vezes pejorativa – quando se apelida alguém de santinho ou de santo de pau oco –, o certo é que a santidade é própria daqueles que foram ungidos para Deus, e que na água e no Espírito Santo se tornaram membros do Corpo de Cristo, que é a Igreja.
       Um sacerdote, Pe. Manuel Gonçalves da Costa, prestigiado historiador da Diocese de Lamego, numa das últimas homilias, proferida na Semana dos Seminários, diante dos seminaristas, onde me incluía, dizia-nos que Deus é santo em sentido substantivo. É a Sua essência. É perfeito, é Santo. É o sumo Bem. Em nós, o sermos santos é adjetivo, vamo-nos construindo, limando, lapidando. Tendo a nossa origem no amor de Deus, em potência, identificamo-nos com Ele, mas poderemos levar tempo até que seja Ele a viver em nós.
       2 – Ao longo da nossa vida encontramos pessoas que refletem a luz de Deus, transparecem em serenidade, em bondade, em serviço o que divisamos como santidade, perfeição, ação compassiva. Obviamente, como pessoas, ser limitados e finitos, todos estamos sujeitos à condição do tempo e da história. E mesmo os mais sãos de nós, os mais santos, podem, em algum momento vacilar, duvidando, ou paralisando a ajuda aos outros. Mas, olhando para o bom Papa João XXIII, para a Madre Teresa de Calcutá, para o Padre Américo, para são Francisco de Assis, para o Santo Cura d'Ars, para o Santo Padre Cruz, para Santa Teresa do Menino Jesus, e para tantas pessoas que passam por nós e que visualizam a santidade de Deus, não temos muitas dúvidas: há pessoas santas, pessoas boas, humildes, generosas, felizes e que fazem felizes os que estão à sua volta.
       A santidade não passa de moda. É atual. Balança-nos para o futuro, para a eternidade. Compromete-nos com o mundo de hoje, aqui e agora. Não é para os outros, é para nós, é connosco que Jesus está a falar. Vem e segue-Me. Sede santos. Sede perfeitos. Sede misericordiosos. Como o Pai celeste é misericordioso. Ele é Bom até para com os maus. A referência é Deus, ainda que os Seus santos nos façam sentir mais próximos, e nos permitam saber o quanto Deus é acessível para nós. A santidade está ao nosso alcance. O amor de Deus é-nos oferecido por inteiro em Jesus Cristo. Ser santo é participar da vida de Deus.
       3 – Durante o corrente ano, três figuras do Papado foram reconhecidas como Santos, João Paulo II e João XXIII, e como Beato, Paulo VI. Com perfis diferentes, com circunstâncias diferentes, vivendo o ministério petrino, serviram a Igreja, anunciaram o Evangelho, levaram Jesus Cristo ao mundo. Nem todos os santos adquirem a visibilidade que lhes permita serem propostos pela Igreja a todo o mundo. Por conseguinte, neste dia de Todos os Santos evocamos sobretudo o inumerável número de santos que, por vezes, no anonimato souberam lavar as suas vestes no sangue do Cordeiro e oferecer as suas vidas no serviço aos seus irmãos.
       «Vi uma multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé, diante do trono e na presença do Cordeiro, vestidos com túnicas brancas e de almas na mão».
       Cento e quarenta e quatro mil, isto é, multidões de pessoas, um número incontável de filhos que se deixaram tocar pela presença de Deus nas suas vidas. Na adversidade e na bonança, não desistiram de buscar o bem, para si e sobretudo para os outros, procurando revestir de Cristo o mundo inteiro.
       São bem-aventurados, pois nem o poder, nem a riqueza ou a opulência, nem as facilidades ou falsidades, os fizeram desviar do serviço, da justiça e da paz, cooperando na verdade. Imitando Jesus, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, fizeram-se próximos, na humildade e no amor, dos mais distantes, dos mais frágeis, perfumaram os caminhos por onde passaram com a alegria de testemunharem o amor de Deus.
       4 – O caminho das bem-aventuranças, proclamadas por Jesus no alto da montanha, são um programa de vida, que nos interpelam nas diversas situações e circunstâncias da vida. Não proclamam o miserabilismo da vida concreta, mas a capacidade, a ousadia e resiliência de transformar o mundo, correndo o risco da pobreza como despojamento, da perseguição, de serem maltratados e mortos. O discípulo não é superior ao Mestre. E se O perseguiram e mataram, também aqueles que O testemunham, com a voz e a vida, correm os mesmos riscos. Se Ele, que é Mestre e Senhor, Se coloca em atitude de serviço, ajoelhando diante dos discípulos para lhes lavar os pés, que somos nós se não fizermos o mesmo?
       O serviço aos irmãos, como atitude livre e consciente, não nos desprestigia, não nos rouba nenhum bocado, mas mostra-nos o melhor de Deus que nos habita. Eu não vim para ser servido mas para servir e dar a vida pelos homens. Seguindo-O, tornamo-nos filhos. "Ainda não se manifestou o que havemos de ser. Mas sabemos que, na altura em que se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porque O veremos tal como Ele é".
       Paulo dirá um dia com toda a clareza: já não sou eu que vivo é Cristo que vive em mim. Para mim viver é Cristo. Seguindo Cristo, deveremos refulgir em nós a eternidade de Deus que nos vai preenchendo com o Seu amor infinito.

Pe. Manuel Gonçalves

Textos para a Eucaristia: Ap 7, 2-4.9-14; Sl 23 (24); 1 Jo 3, 1-3; Mt 5, 1-12a.

GISELDA ADORNATO: PAULO VI - BIOGRAFIA

GISELDA ADORNATO (2014). Paulo VI. Biografia. A história, a herança, a santidade. Lisboa: Paulus Editora. 296 páginas.
       Surpreendente. Um retrato muito completo de um Papa que trouxe a Igreja para a atualidade, no meio de grandes provações, na procura de a manter fiel ao Evangelho da Verdade e da Caridade, tornando-a próxima do nosso tempo, da cultura e da ciência, apostando na evangelização, no compromisso missionário, aberta ao mundo, promovendo o ecumenismo e o diálogo com outras religiões e outras sensibilidades.
       A recente beatificação de Paulo VI, no passado dia 19 de outubro, no encerramento da III Assembelia Extraordinária do Sínodo dos Bispos (instituído por Paulo VI no prosseguimento do Vaticano II) e dedicada à família, tema amplamente refletido por ele que lhe trouxe muitos dissabores nomeadamente com a publicação da Exortação Apostólica Humanae Vitae, que suscitou as mais variadas reações, algumas de violento ataque ao papado e à Igreja, e que mesmo dentro da Igreja suscitou oposição e rutura.
       O pontificado de Paulo VI transformou a Igreja, ainda que tenha ficado marcado por vários episódios de tormento e provação. Depois da morte do bom Papa João XXIII, o Cardeal Montini, depois de um tempo de fervor pastoral na maior Diocese do mundo, Milão, regressa a uma casa que conhece bem, no serviço aos seus antecessores, nomeadamente Pio XII. Regressa como Papa, escolhendo o nome de Paulo, sublinhando desde logo a missionaridade da Igreja. 1963, o concílio está a meio e com a morte do Papa saltam as dúvidas se continuará e terá um desfecho. Logo Paulo VI retomará as sessões do Concílio, com uma intervenção muito interventiva, procurando pontes, não cedendo a pressões, com visões muitas vezes antagónicas entre os chamados conservadores e os progressistas. Paulo VI procura que uns e outros dialoguem, e se aproximem da verdade que é Jesus Cristo.
       Com Paulo VI iniciam-se as Viagens Apostólicas do Papa a diversos países do mundo: Israel, EUA, Portugal, Índia, Colómbia, Uganda... e um intenso trabalho apostólico de diálogo com os Ortodoxos, com as diversas confissões cristãs, mas também o diálogo interreligioso, com judeus e muçulmanos, mas também com outras culturas religiosas, encontro com o Dalai Lama.
(Paulo VI com João Paulo II, Dom Hélder da Câmara, com Madre Teresa de Calcutá, com João XXIII)

       Para quem viveu e cresceu com a figura de João Paulo II, de depois Bento XVI, e agora Francisco, os Papas anteriores são uma memória longínqua que nos é recordada de tempos a tempos. No entanto, com o reconhecimento da heroicidade das virtudes de Paulo VI, em 20 de dezembro de 2012, pela mão de Bento XVI e agora a beatificação, pelas mãos de Francisco, tornou-se urgente redescobrir esta figura iminente da Igreja.
       Tantas foram as vicissitudes que atravessaram a Igreja no século XX. Num tempo de grande transformação, a Igreja contou, no Papado, com figuras extraordinárias, pela inteligência, pela cultura, pela bondade, pela fé. Alguns dos Papas foram entretanto canonizados: Pio X, João XXIII, João Paulo II, e beatificado Paulo VI, mas decorre também o processo de beatificação de Pio XII aberto ainda por Paulo VI.
(Paulo VI com a Irmã Lúcia, com João Paulo I, com Bento XVI, com João Paulo II)

       Curiosa, nesta biografia, a grande proximidade de Paulo VI com os Predecessores mas também com os Sucessores. Trabalhou diretamente, na Cúria Romana, com Pio XI, Bento XV, Pio XII.

       João XXIII criou-o Cardeal, em 15 de dezembro de 1958. Por sua vez, Paulo VI cria Cardeal dois dos seus Sucessores, o futuro João Paulo II e Bento XVI.
       As intervenções de Paulo VI encontram eco alargado, pela clareza, pela insistência, pela frontalidade, pela humildade. Alguns temas são problemáticos e geram tensões. Ficará conhecido sobretudo pela Humanae Vitae, mas o seu magistério é muito mais abrangente, com a reforma litúrgica, a implantação do Concílio, a intervenção e compromisso social, o diálogo com a cultura e com a ciência, a aproximação aos jovens, a colegialidade dos Bispos em comunhão com o Papa, o ecumenismo, o diálogo interreligioso, as conferências episcopais, o dia Mundial da Paz, as viagens apostólicas, a intervenção na ONU, peregrino de Fátima, a internacionalização da Cúria Romana, e a reforma da mesma, o Ano da Fé (1968) e o Ano Santo (1975), acentuando precisamente a fé, a reconciliação, a centralidade de Jesus Cristo. As dissensões com os Bispos Holandeses, com Lefebrve, o beijar da terra em Milão, o beijar o pés a Melitone, metripolita de Calcedónia, estreitando os laços com a Igreja Luterana. A abertura da Igreja às mulheres e aos leigos. A Ação Católica.

       Nasceu a 26 de setembro de 1987, em Bréscia, e faleceu a 6  de agosto de 1978, em Castel Gandolfo. Formado em Filosofia, Direito Canónico e em Direito Civil. Durante a Segunda Guerra Mundial é o chefe do Serviço de Informações do Vaticano e repsonsável por procurar soldados e civis presioneiros ou dispersos. A 1 de novembro de 1954, é eleito por Pio XII para Arcebispo de Milão, é ordenado a 12 de dezembro do mesmo ano, no Vaticano. A 15 de dezembro de 1958, é feito Cardeal. É eleito Papa a 21 de junho de 1963. A 8 de dezembro de 1965 encerra o Concílio Ecuménico Vaticano II.
       Em 21 de novembro de 1964, Consagra Nossa Senhora com o Título de Mãe da Igreja, isto é, Mãe de todo o Povo de Deus.
       Em 24 de dezembro de 1964, proclama São Bento como Padroeiro principal da Europa.
       Em 1971, atribui o prémio da Paz João XXIII a Madre Teresa de Calcutá.
       Morre "velho e cansado", mas com esperança na Igreja, conduzida por Cristo, o verdadeiro timoneiro. Alguns meses passa por mais uma grande provação: o rapto (16 de março de 1978) e morte do estadista democrata cristão Aldo Moro, cujo funeral se realiza na Basílica de São João de Latrão, a 13 de maio. Depois a aprovação da Lei do Divórcio, em Itália, no seu último ano de vida assiste ainda à entrada em vigor da Lei do Aborto. Morre às 21h40 de 6 de agosto de 1978.

       O futuro Papa João XXIII sobre Montini quando este vai para Arcebispo de Milão: "E agora, onde poderemos encontrar alguém que saiba redigir uma carta, um documento como ele sabia?"

       João XXIII, em Carta ao Arcebispo de Milão: "Deveria escrever a todos: bispos, arcebispos e cardeais do mundo [...]. Mas para pensar em todos contento-me de escrever ao arcebispo de Milão, porque nele levo-os a todos no coração, tal como diante de mim ele a todos representa".

       Montini-Paulo VI sobre João XXIII: "Que Ele fosse bom, sim, que fosse indiferente, não. Como ele se atinha à doutrina, como temia os perigos, etc. [...] Não foi um transigente, não foi um atraído por opiniões erradas. [...] O seu diálogo não foi bondade renunciatória e pacífica..."

       Em 27 de junho de 1977, nomeia Cardeal Joseph Ratzinger, arcebispo de Mónaco e Frisinga. Sobre o futuro Bento XVI:
"Damos atestado desta fidelidade também a V. Eminência, cardeal Ratzinger, cujo alto magistério teológico em prestigiosas cátedras universitárias da Sua Alemanha e em numerosas e válidas publicações fez ver como a investigação teológica - na via maestra da fides quarens intellectum - não possa e não deva nunca andar separada da profunda, livre a criadora adesão ao Magistério que autenticamente interpreta e proclama a Palavra de Deus...".
       Sobre JOÃO PAULO II... Paulo VI nomeia-o Arcebispo de Cracóvia em 1964 e Cardeal em 1967. Recebeu-o pessoalmente 20 vezes e outras quatro com o Cardeal Wyszynski ou outros bispos polacos. Pedir-lhe-á para orientar os exercícios Quaresmais de 1976. 
       João Paulo II sobre Paulo VI: "Paulo VI trazia no seu coração a luz do Tabor, e com essa luz caminhou até ao fim, levando com alegria evangélica a sua cruz".

       Os os Bispos da América Latina que tomaram a iniciativa de promover o processo de Paulo VI para ser elevado aos altares. Por aqui se pode tirar um fio de ligação ao Papa Francisco...

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

10 aconselhamentos para não envelhecer

  1. Não te deixes envelhecer. Nunca digas, mesmo a brincar, que estás velho. O estar velho não tem muito a ver com a idade. É uma atitude.
  2. Também nunca digas que estás jovem. Se o ouvires dos outros, não acredites em demasia.
  3. Procura ser do teu tempo, entender o teu tempo. Nem olhes para trás, nem ultrapasses as nuvens.
  4. Que o passado sirva para te situares no presente e perspetivares o futuro com sabedoria.
  5. Não te "armes" em conselheiro, com os pretextos da experiência vivida e acumulada. Que sejam os outros a descobrir-te e a procurar-te.
  6. Não te feches, nem em casa, nem em ti. O mundo é o teu espaço: sai, convive, troca ideias e experiências, ajuíza os acontecimentos, que vão marcando a marcha da comunidade. Se não forem bons, procura corrigi-los.
  7. Encontra tempo para te pores as perguntas que, se calhar, nunca te puseste a sério: Afinal, quem sou eu? Porque sou? Para que sou?
  8. Não és uma "ilha", não fazes parte de um "arquipélago". Antes, és membro de uma grande família, na qual e com a qual - com cuja sorte - estás comprometido até ao pescoço.
  9. Aceita as limitações com naturalidade, sem queixumes que te "coitadinhizam". Em qualquer estádio da vida.
  10. Canta a vida, em cada dia. Cada dia é o nosso dia. Nele, devemos ser e estar por inteiro.
D. Manuel Martins, Pregões de Esperança, pp. 151-152

Apóstolo São Paulo à comunidade de Éfeso (6, 10-20)

       Na primeira leitura, proposta para esta quinta-feira da XXX Semana do Tempo Comum, anos pares, mais um trecho da Epístola de São Paulo aos Efésios. E se ontem o Apóstolo apelava à benevolência, à generosidade dos filhos para com os pais e dos pais para com os filhos, hoje desafia-nos a viver com as armas da fé, da caridade, da justiça, deixando que aja em nós o Espírito de Deus, para nos tornarmos embaixadores de Jesus Cristo e do Seu Evangelho, como o faz são Paulo.
Escutemos com atenção as palavras inspiradas:
Fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder. Revesti-vos da armadura de Deus, para poderdes resistir às ciladas do demónio. Porque nós não temos de lutar contra adversários de carne e osso, mas contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra os espíritos do mal que habitam as regiões celestes. Portanto, irmãos, tomai a armadura de Deus, para poderdes resistir no dia mau e perseverar firmes, superando todas as provas. Permanecei bem firmes, de rins cingidos com o cinturão da verdade, revestidos com a couraça da justiça, de pés calçados com o zelo de anunciar o Evangelho da paz. Tende sempre nas mãos o escudo da fé, com o qual podereis apagar as setas inflamadas do Maligno. Tomai o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus. Orai em todo o tempo, movidos pelo Espírito Santo, com toda a espécie de orações e súplicas. Perseverai nas vossas vigílias, com preces por todos os cristãos. Orai também por mim, para que, ao falar, me seja concedida a palavra, a fim de anunciar com firmeza o mistério do Evangelho, do qual sou embaixador nas minhas algemas. Possa eu de facto anunciá-lo com firmeza, como é meu dever (Ef 6, 10-20).
       A linguagem militar é simbólica, já que as armas são a oração, a Palavra de Deus, a caridade, o compromisso com a justiça, a transparência do Espírito de Deus.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Eu, pecador, me confesso...

Eu, pecador, me confesso

de nem sempre saber sorrir;
de nem sempre saber ouvir;
de nem sempre saber compreender e ajudar;
de passar por tantos a precisarem da partilha
       de mim e avançar em frente;
de me calar, ao ver e ouvir tanta hipocrisia;
de falar sem ser preciso, com tantas pessoas
       e situações a reclamarem a minha voz;
de não sentir nada diante de tanta dor
e de tanta injustiça.

Eu, pecador, me confesso

de medos que não sou capaz de vencer;
de comodismos que não sou capaz de superar;
de desânimos que não me deixaram sair de mim;
de egoísmos que puseram os outros fora
       dos meus cuidados;
de gostos que me fizeram esquecer
       o para que sou
de ressentimentos que fizeram reduzir o sentido
       do Pai-Nosso que tantas vezes rezo;
de preconceitos que me levam a dividir o mundo
       e a malsiná-lo sem razão;
de certezas que não me permitem comungar
       vida e ideias.

Eu, pecador, me confesso

de ver tanta lágrima e não a enxaguar;
de contemplar tanta chaga e voltar a cara;
de ouvir tantos gritos e fugir;
de saber de tantos náufragos
       e de não correr a salvá-los;
de encontrar tanta gente sem norte
       e não lhe indicar o caminho;
de ver tantos e tantos caídos ou a caírem
       e não lhes lançar a mão;
de saber e conhecer tanta gente que perdeu
       as razões de viver, e continuar sentado
       à minha mesa feliz e a dormir sem pesadelo.

Eu, pecador, me confesso

porque não tenho cantado, como devia,
a beleza da vida,
a imensidade do amor de Deus,
o valor da fraternidade,
a importância da justiça e da paz.

Eu, pecador, me confesso

porque não tenho sido esperança,
não tenho semeado a esperança,
não tenho gritado a esperança.
D. Manuel Martins, Pregões de Esperança, pp. 147-148

terça-feira, 28 de outubro de 2014

A Igreja é a minha casa

Sim, é a minha casa. 
Esta igreja, onde eu nasci e onde querro morrer.
       Nela me sinto bem. Nela gosto de estar.
Aqui eu penso,projecto, sonho, alimento-me.
Aqui eu rezo, recordo, choro, zango-me,
       encontro-me.
Aqui sofro, aqui canto.  
A IGREJA É A MINHA CASA.
Gostaria, tantas vezes, de a ver
mais acolhedora,
mais aberta!
Com mais espaço para as outras pessoas
(não é ela comunhão e sacramentos?)
mais gratuita,
mais convidativa. 
A IGREJA É A MINHA CASA,
E tenho pena que
       feche as portas,
       condene sem coração,
      corte com quem procura...
Eu amo muito a Igreja,
porque a Igreja é a minha casa

       Com defeitos?
       Com a ruga dos anos?
       Às vezes azeda? 
Mas a Igreja é a minha casa,
Então, porque lhe quero muito,
       vou pintá-la de fresco,
       vou rasgar-lhe mais portas
       vou torná-la mais simpática,
       mais disponível,
       mais atenta.
Vou fazer com que cante mais a beleza da vida,
       perca o medo e salte para o mundo.
       grite os valores e os direitos
       das pessoas e dos povos.
A IGREJA É A MINHA CASA.
Se eu quiser,
       se tu quiseres,
       se todos quisermos,
       todos virão a ela
       e todos nela se sentirão bem...
Porque ela é a casa de Deus.
Porque Deus habita nela.
D. Manuel Martins, Pregões de Esperança, pp. 149-150

domingo, 26 de outubro de 2014

10 razões para ser cristão

sábado, 25 de outubro de 2014

XXX Domingo do Tempo Comum - ano A - 26 de outubro

       1 – Se dúvidas houvesse sobre a primazia do amor a Deus concretizável e traduzido no amor ao próximo, ficariam desfeitas com a resposta de Jesus aos fariseus: «‘Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito’. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo, porém, é semelhante a este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas».
       Um grupo de fariseus ouve dizer que Jesus tinha feito calar outro grupo, o dos Saduceus. Julgando-se mais espertos, aproximam-se para O experimentar, com um elogio inicial, seguido da pergunta: «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?»
     Os judeus, de forma geral, e muito mais os fariseus, estudiosos da Sagrada Escritura, sabem bem qual é o mandamento mais importante. Desde crianças, todo o crente judeu aprende o Shema – «Escuta, Israel! O Senhor é nosso Deus; o Senhor é único! Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. Estes mandamentos que hoje te imponho estarão no teu coração…» (Dt 6, 4-6; cf. Dt 6, 1-9). Jesus mais não faz do que Lhes recordar esta belíssima oração, rezada várias vezes ao dia, em todas as idades. É o seu credo, a profissão de fé judaica!
       Logo Jesus acrescenta um segundo mandamento, semelhante ao primeiro, juntando-os. Nos dois mandamentos está contida toda a Sagrada Escritura, a Lei e os Profetas. Com efeito, o amor a Deus conduz e exige o amor ao próximo. E quem é o meu próximo? Aquele que é do meu país? Os meus amigos? Os que pertencem à minha religião? Aqueles que precisam de mim? Em São Lucas, Jesus responde com a parábola do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 29-37). Próximo é quem se aproxima para ajudar.
       Em São Mateus, por sua vez, Jesus fará a ligação imediata: «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes» (cf. Mt 25, 31-46). Acolher Jesus, amar a Deus, entrar na vida eterna, integrar o Reino de Deus, implica acolher, amar, cuidar de todos aqueles que encontramos, especialmente os mais pobres, material ou espiritualmente falando. E não se trata apenas de palavras ou de intenções, é a postura e o programa de vida de Jesus e dos Seus seguidores.
       2 – Ao longo da história da humanidade e, em particular, da história das religiões se viveu em contradição entre o dito e o feito, entre as intenções e as realizações, entre a palavra e as obras, entre as promessas e a vida prática. Não é de hoje. Mesmo que digamos que antigamente é que era, assim ou assado! A palavra era de honra e para cumprir. Mas o ser humano não é perfeito, e as contradições eram mais que muitas. Hoje, por diversos fatores, o divórcio entre a fé e a vida, entre a palavra dada e a palavra assumida, concretizada, corre mais riscos pois está mais exposta.
       Em Jesus, a certeza evidente de que tudo o que nos liga a Deus nos aproxima dos outros. Até mesmo a oração. A vida de Jesus é disso exemplo. A cumplicidade com Deus não Lhe rouba tempo para estar onde é necessário estar. Humanamente não é possível estar em toda a parte, então chama e envia os apóstolos, chama-nos e envia-nos.
       A hipocrisia que Jesus vislumbra em alguns grupos dirigentes não é uma novidade. Os profetas – Isaías, Jeremias, Ezequiel, Joel, e outros – como mensageiros de Deus e em Seu nome deixam transparecer a dicotomia entre a religião e a vida concreta. São palavras duras, sobretudo em relação àqueles que tinham a missão e a obrigação de cumprir a palavra de Deus, visualizando-a na justiça, no cuidado dos mais desfavorecidos, órfãos e viúvas, no acolhimento dos estrangeiros, na solidariedade com os vizinhos, no perdão aos ofensores e aos devedores, na concórdia dentro da família.
       3 – A Lei de Deus – para judeus, os primeiros 5 livros da Bíblia, Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio, constituem a Lei – contempla precisamente o cuidado e a atenção aos mais frágeis. Não é uma opção. É um mandamento. Diz o Senhor:
«Não prejudicarás o estrangeiro, nem o oprimirás, porque vós próprios fostes estrangeiros na terra do Egipto. Não maltratarás a viúva nem o órfão. Se lhes fizeres algum mal e eles clamarem por Mim, escutarei o seu clamor; inflamar-se-á a minha indignação e matar-vos-ei ao fio da espada. As vossas mulheres ficarão viúvas, e órfãos os vossos filhos. Se emprestares dinheiro a alguém do meu povo, ao pobre que vive junto de ti, não procederás com ele como um usurário, sobrecarregando-o com juros. Se receberes como penhor a capa do teu próximo, terás de lha devolver até ao pôr-do-sol, pois é tudo o que ele tem para se cobrir, é o vestuário com que cobre o seu corpo. Com que dormiria ele? Se ele Me invocar, escutá-lo-ei, porque sou misericordioso».
Voltemos a ler com atenção e veja-se a sabedoria da Lei e a força do mandamento. É vontade de Deus que a justiça, a proximidade, o acolhimento, a generosidade, façam parte do nosso estilo de vida. Deus olha e vê o seu povo e a miséria dos seus eleitos. O mal que fizermos aos outros ou o bem que deixarmos de fazer, pesará nas nossas contas diante de Deus.

       4 – O apóstolo Paulo, de quem habitualmente escutamos a segunda leitura, dá testemunho da sua fé no meio das comunidades que organiza e/ou ajuda a desenvolver. A fé é o ponto de partida, mas tendo em vista o serviço aos irmãos:
"Vós sabeis como procedemos no meio de vós, para vosso bem. Tornastes-vos imitadores nossos e do Senhor, recebendo a palavra no meio de muitas tribulações, com a alegria do Espírito Santo; e assim vos tornastes exemplo para todos os crentes da Macedónia e da Acaia. Porque, partindo de vós, a palavra de Deus ressoou não só na Macedónia e na Acaia, mas em toda a parte se divulgou a vossa fé em Deus, de modo que não precisamos de falar sobre ela".
       Como em outras partes sublinha o apóstolo, a vivência e o amadurecimento da fé compromete as comunidades com os mais desfavorecidos. Cuidados para com os que precisam de ajuda, dentro da comunidade, para que a ninguém falte o necessário para viver com dignidade. Cuidado e atenção e auxílio a favor de outras comunidades onde se verificam maiores dificuldades. São conhecidas as coletas promovidas pelo apóstolo a favor da comunidade de Jerusalém.
       Por um lado, a fé em Jesus Cristo introduz-nos na vida nova. Com a Sua morte e ressurreição, que tornamos presente na Eucaristia, envolve-nos e compromete-nos com o mundo inteiro. Por outro, as obras, o serviço ao próximo, a justiça, a concórdia e a solidariedade, atestam a autenticidade da nossa fé. A fé agrafa-se à vida. A vida adquire sentido, de plenitude, pela fé e projeta-nos até ao Infinito.

       5 – Se nos calarmos, se silenciarmos o grito dos injustiçados, dos esquecidos, dos sem voz nem vez, Deus há de pedir-nos contas. Mas Ele não Se esquecerá. Ele não deixará de ouvir o seu clamor, sobretudo o clamor do pobre:
"Eu Vos amo, Senhor, minha força, / minha fortaleza, meu refúgio e meu libertador. / Meu Deus, auxílio em que ponho a minha confiança, / meu protetor, minha defesa e meu salvador. / Na minha aflição invoquei o Senhor / e clamei pelo meu Deus. / Do seu templo Ele ouviu a minha voz / e o meu clamor chegou aos seus ouvidos".
       Deus vem em meu auxílio, em todos os momentos da minha vida, conduz-me pela mão, e leva-me ao colo ou sustenta-me aos ombros. O pobre clamou, o Senhor ouviu a sua voz.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano A): Ex 22, 20-26; Sl 17 (18); 1 Tes 1, 5c-10; Mt 22, 34-40.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Leituras: D. MANUEL MARTINS - Pregões de esperança

D. MANUEL MARTINS (2014). Pregões de esperança. Prior Velho: Paulinas editora. 160 páginas.
"... que os nossos políticos façam, sim, uma cimeira, não para combinarem entre si a distribuição de cadeiras ou a alternância do poder; mas para descobrirem finalmente as necessidades do Povo, que são cada vez mais, e procurarem, inquietos, os melhores caminhos de as satisfazerem" (p. 29).
"Sem trabalho não há pão, nem dignidade, nem liberdade, nem progresso. Sem trabalho, devidamente compensado, perdem-se as razões de viver. E hoje, e Portugal, há imensa gente que quer trabalhar e não encontra onde nem como; há imensa gente que trabalha e não recebe salários. Mas também há imensa gente - e isto não se esqueça nem deixe de dizer-se bem alto - que não quer trabalhar e, o que é pior, não deixa trabalhar quem deseja trabalhar" (pp 39-40)
"O sepulcro é morte. A Páscoa é vida. Todo aquele que quer ser filho da Páscoa aposta na vida" (p 42).
O grito da Páscoa "... é um grito de esperança. Não fomos criados para o escuro, mas para a luz; não fomos criados para o sofrimento que nasce da fome, das guerras e das injustiças, mas para a fraternidade e para a paz; não fomos criados para a morte, mas para a vida. A Páscoa de tudo isto é sinal e apelo" (p 52).
"O grande mal que nos pode bater à porta é o da distração ou o da habituação. É fácil estarmos no mundo, passarmos pela vida, sem vermos o mundo, sem sermos tocados pela vida. E assim vivemos sós, chegamos ao fim sós" (p 101).
"Lembra-te que não és dono de nada. Tudo o que tens está hipotecado a favor dos que mais precisam, que são muitos, que são cada vez mais" (p 106)
       D. Manuel Martins, o primeiro Bispo da Diocese de Setúbal, nascido em 1927, em Leça do Balio, em Matosinhos. Em 1975 foi nomeado Bispo da recém criada Diocese de Setúbal. Resignou em 1998. Ficou conhecido como o Bispo Vermelho pelas numerosas intervenções na defesa dos mais desfavorecidos, numa Setúbal cheia de problemas sociais, famílias desestruturadas, problemas de toxicodependência, desemprego, trabalho precário, muitas greves.
       No dia da Ordenação Episcopal, contestação na rua pelo Bispo e o que significava. Na saída, o reconhecimento da maioria. Nunca foi um bispo de consensos. Nem de falas mansas. Como relembra o atual Presidente da Cáritas Portuguesa, Eugénio da Fonseca, que discordava com D. Manuel em muitas coisas, mas que foi amadurecendo e percebendo que a fé teria que ser interventiva a favor dos mais pobres, estes textos foram inicialmente recolhidos pela Cáritas Diocesana de Setúbal, em livro, e a maioria escritos para o jornal "A Seara". Esta reedição assume os textos anteriores e outros que D. Manuel Martins confiou à editora.

Os textos são agrupados por temas:
NATAL E PÁSCOA
AOS JOVENS
SER SOLIDÁRIOS
MARIA, MÃE
EM IGREJA
       Os textos de intervenção, digamos assim, brotam do compromisso batismal, cristão. A fé está ligada à vida, e ao compromisso. Seguir Jesus implica agir como Ele, fazendo-Se próximo dos mais necessitados de ajuda, material e espiritualmente falando. Em prosa, ou poesia, em contextos diversos, D. Manuel Martins utiliza uma linguagem simples, acessível, direta.

sábado, 18 de outubro de 2014

XXIX Domingo do Tempo Comum - 19 de outubro

       1 – A Deus o que é de Deus. Os pobres são de Deus. Não podem ser usados em nome deste ou daquele partido, do poder ou da oposição, desta ou daquela organização. Estão salvaguardados por Deus e para Deus. A opção preferencial de Jesus pelos pobres é a garantia que estes não serão instrumentalizados, nem espezinhados, nem ignorados, nem esquecidos. Não está em causa qualquer qualificação moral, isto é, são pobres logo são pessoas boas. Não. Como vimos no domingo anterior, Deus chama bons e maus. Pobres e ricos. Brancos e pretos e amarelos. Homens e mulheres. Adultos e crianças e idosos. Portugueses e chineses. Todos são criados, amados, chamados por Deus. No entanto, para reconhecermos Deus há que O reconhecer sobretudo escondido nos pobres, nos desvalidos. Foi esse o propósito e a vida de Jesus. Jesus não pede o Bilhete de Identidade ou o Cartão de Cidadão. Jesus aproxima-Se rapidamente dos pobres, dos que sofrem. Ora a pessoa está antes do seu pecado!
       A César o que é de César. Não useis a religião, e/ou a fé, como desculpa ou justificação para o vosso compromisso/descompromisso social, político, económico. Em todos os campos, em todas as dimensões da vida, o cristão deverá agir como cristão, irradiando os valores do serviço, da verdade, da competência, da honestidade, da transparência, da justiça, do apoio preferencial aqueles e àquelas que têm mais dificuldades, ou que não têm nem voz nem vez. Se um cristão vai para a política e deixa de ser cristão para ser político, prestará um mau serviço à política. Se se compromete politicamente, em todas as decisões, colocará a mais-valia de ser cristão, mesmo reconhecendo que na concretização de soluções e entendimentos possa ser necessário e inevitável fazer cedências. Quando estas acontecem, que não firam a dignidade da pessoa, o valor da vida humana, não coloquem em causa o bem comum.
       2 – Se os pobres são de Deus, teremos que os tratar como trataríamos Deus. Afinal, Deus esconde-Se no ser humano. Em Jesus, Deus assumiu a nossa natureza humana. Nos gestos, nas palavras, na postura, Jesus vive para servir, amando, aproximando-Se, curando. Toca nas feridas das pessoas, mistura-se com o rebanho, não tem receio de ser apontado por comer com publicanos e pecadores, ou ser considerado impuro por se deixar tocar pela mulher pecadora, ou por afagar o rosto da mulher surpreendida em flagrante adultério.
       Com Ele não há discussão sobre quem é o maior. Ou melhor, dá-se a inversão da primazia: maior é aquele que serve.
       Um grupo de fariseus aproxima-se de Jesus, passa à frente da multidão que O escuta e acompanha. Já vimos como anciãos do povo e doutores da lei se colocam na primeira fila, não para escutar melhor, mas para evitar que as suas posições (de liderança) e o seu estatuto social não se altere, ou para remediarem alguma "subversão" que as palavras de Jesus possam provocar.
       Aproximam-se com o intuito de lhe armarem uma cilada: «Mestre, sabemos que és sincero e que ensinas, segundo a verdade, o caminho de Deus, sem te deixares influenciar por ninguém, pois não fazes aceção de pessoas. Diz-nos o teu parecer: É lícito ou não pagar tributo a César?». Ou seja: colocas-te ao lado de César ou ao lado dos pobres?
       Do que não estavam à espera era da resposta de Jesus: «Porque Me tentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda do tributo». Eles apresentaram-Lhe um denário e Jesus perguntou: «De quem é esta imagem e esta inscrição?». Eles responderam: «De César». Disse-Lhes Jesus: «Então, dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus».
       A opção preferencial pelos pobres não é contra ninguém, é a favor dos pobres. Quando a mãe ou o pai dão mais atenção ao filho que está doente, não estão a esquecer-se dos outros filhos, mas debruçam-se sobre o que mais precisa naquele momento, para que recupere e possa sentar-se na sala com toda a família! Obviamente que esta opção e esta postura denuncia a prepotência, a corrupção, as injustiças sociais, a arbitrariedade política e económico-financeira.
       3 – Seguir Jesus também implica opções políticas e partidárias. Os cristãos devem ser os primeiros a dar a cara, a comprometerem-se e a envolverem-se em projetos de transformação do mundo e da sociedade, partindo da certeza de que nenhum sistema político é perfeito. Estaríamos já no paraíso! Pelo que não se pode divinizar/endeusar. Quando isso acontece, nada de bom virá pela frente. Haverá lugar à corrupção, às ditaduras, ainda que encapotadas, ou, o sério risco dos mesmos de sempre se perpetuarem nos cargos de responsabilidade, com todo o tipo de artimanhas. Com todos os riscos inerentes, os cristãos têm de se comprometer, não para fazer igual, ou para fazer diferente, têm de se comprometer para fazer o melhor a favor do maior número de pessoas. Sem tréguas.
       Com efeito, como tem sublinhado o papa Francisco, a política é uma das formas mais sublimes de servir a humanidade. Ou deveria ser. Gerir a coisa e a causa pública deverá ser uma honra, uma dignidade e sobretudo um serviço, uma missão. A política é para servir a cidade (a polis), as pessoas. Quando alguém usa a política para se servir ou ao seu grupo, dá-se a deformação da mesma. A polis não é propriedade privada para satisfazer o capricho, a ganância ou a opulência de alguns.
       O mesmo se diga de todos os políticos, também os cristãos que assumem essa missão. Não são perfeitos. Idolatrar alguém, endeusar como senhor, como único detentor da verdade, será sempre subverter a política mas também a dignidade humana. Ninguém é Deus. Todos temos as nossas limitações, os nossos pecados, e as nossas manias. Ou haverá por aí alguém perfeito, impecável, deus?
       Como sabiamente concluiu Winston Churchill, a democracia é o pior sistema político à exceção de todos os outros, reconhecendo que a história já adotou sistemas políticos que se pensava seriam perfeitos. Tiveram o seu tempo. A democracia permite que todos os cidadãos participem, direta ou indiretamente, no governo de determinado país. O direito ao voto, livre e consciente, permite escolher os que nos representam no governo da autarquia ou do governo central, e posteriormente poderemos alterar em nossas escolhas, sem sacralizar ideologias ou pessoas. Sagrada é a vida e a dignidade humana!

       4 – A garantia de que Deus é Deus, protege-nos e coloca-nos em situação de igualdade. Onde Deus não existe, o homem pode tornar-se Deus. Aliás, essa é a filosofia da morte de Deus. Matar Deus, para que o homem se torne Deus. Quando e onde isso sucedeu deu-se a involução da civilização. Caso paradigmático, o nazismo, ou o nacional-socialismo, centrado na figura de Hitler, aparecendo como o Super-Homem (ideia veiculada por Nietzsche), assumindo-se como Senhor e Juiz da história. Deu o que deu, a morte de 6 milhões de judeus e a devastação da Europa.
       Escutemos o que Deus nos diz através do Profeta:

«Por causa de Jacob, meu servo, e de Israel, meu eleito, Eu te chamei pelo teu nome e te dei um título glorioso, quando ainda não Me conhecias. Eu sou o Senhor e não há outro; fora de Mim não há Deus. Eu te cingi, quando ainda não Me conhecias, para que se saiba, do Oriente ao Ocidente, que fora de Mim não há outro. Eu sou o Senhor e mais ninguém».
       Se só Deus é Deus, e nesse caso só é possível que haja um Deus, havendo dois, um seria a limitação do outro, está garantido que nenhum homem, nenhuma realidade, nenhuma ideologia ou sistema político, social, económico, poderá ser endeusado. E nessa medida, também a proteção dos mais desvalidos, pois a justiça de Deus há de cumprir-se, aqui e agora, e, em última instância, na eternidade, pelo que nos exige já uma tomada de posição sobre os outros.

       5 – O apóstolo dir-nos-á, repetidamente, ainda que se perceba a acentuação sobre a fé, que a caridade, o amor, a compaixão, é a realidade que se vive no tempo e na história e nos leva à eternidade.
       Conjuntamente com Silvano e Timóteo, São Paulo deixa-nos esta belíssima saudação, englobando a fé, a esperança e a caridade, com origem em Deus que é Amor:
«A graça e a paz estejam convosco. Damos continuamente graças a Deus por todos vós, ao fazermos menção de vós nas nossas orações. Recordamos a atividade da vossa fé, o esforço da vossa caridade e a firmeza da vossa esperança em Nosso Senhor Jesus Cristo, na presença de Deus, nosso Pai. Nós sabemos, irmãos amados por Deus, como fostes escolhidos. O nosso Evangelho não vos foi pregado somente com palavras, mas também com obras poderosas, com a ação do Espírito Santo».
       A fé, o Evangelho, tem nas obras a confirmação do que se professa e anuncia. São conhecidas as coletas que o apóstolo promove nas suas comunidades a favor de outras mais desfavorecidas, nomeadamente a comunidade de Jerusalém e como deixa rasgados louvores àqueles cuja fé os comprometeu na caridade para com os outros.
       Em Dia Mundial das Missões, a mesma missão, anunciar o Evangelho, em toda a parte, com palavras e obras, com a voz e a vida, com a oração e a partilha solidária.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano A): Is 45, 1. 4-6; Sl 95 (96); 1 Tes 1, 1-5b; Mt 22, 15-21.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

JOÃO TEIXEIRA - Fazei o que ELE vos disser

PINHEIRO TEIXEIRA, J. A. (2014). Fazei o que Ele vos disser. O que Maria diz à Igreja. Prior Velho: Paulinas Editora. 168 páginas.
"Ela foi o primeiro «livro» onde o Evangelho começou a ser «escrito» e a primeira vida onde o Evangelho começou a ser inscrito. Os seu silêncio foi o melhor eco da Palavra eterna do Pai. Foi nas «páginas» da sua existência que o Verbo começou a ganhar forma neste mundo".

       O Pe. João António, Reitor do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, dá à estampa este conjunto de reflexões sobre a vocação e a missão de Maria, como primeira discípula de Jesus Cristo, paradigma da Igreja, de ontem, de hoje e do futuro. Na celebração das suas Bodas de Prata Sacerdotais, 25 anos passados sobre a ordenação, o Pe. João António partilha connosco 25 reflexões que nos falam de Maria, e nos fala da Igreja. O que é Maria, assim deverá ser a Igreja.
       É um texto fluído, acessível, com recurso frequente a antíteses, entre o mínimo e o máximo, o que facilita muito a compreensão das ideias e das teses defendidas.
       Por outro lado, o sacerdote recorre à maximização da vida cristã, e da vida da Igreja, para se assemelhar à postura de Jesus e à postura de Nossa Senhora. Nunca é suficiente a oração, a fé, a caridade, o compromisso com os outros, a pobreza e o despojamento para que brilhe Jesus Cristo, o silêncio para que fale a Palavra de Deus.

O prefácio é do nosso Bispo, D. António Couto:
"Atravessamos um tempo nublado, insípido, incolor e indolor, de baixa densidade divina e humana, intelectual, moral, testemunhal. Um tempo como um espaço, nivelado e sem relevo, sem rostos, sem lágrimas, sem entranhas, mãos, pés e coração. Cai em cheio e com estrondo, neste nosso tempo, a figura de Maria, Mãe de Deus e nosso Mãe, mulher sensibilíssima e habitada, cidade do alto monte  alumiada, com luzes em todas as portas e janelas, farol e lar seguro, sempre aceso e aberto nesta noite do mundo... Com pinceladas firmes e seguras, o padre João António insere muito bem a figura de Maria na teologia, na eclesiologia, na mariologia, na pastoral e na cultura. E compreende-se sempre que a grande cultura anda no coração do povo simples e humilde, que continua a depositar com ternura, no regaço de Maria, as suas dores e a suas flores".

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Sugestão: ANIMAIS & COMPANHIA

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Editorial da Voz de Lamego | SOCIEDADE do CANSAÇO

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Papa Francisco | Dia Mundial das Missões | 2014

sábado, 11 de outubro de 2014

XXVIII Domingo do Tempo Comum - ano A - 12 de outubro

       1 – Em muitas situações da vida, quando convidamos alguém, mesmo que a motivação seja outra, incluímos uma refeição, um lanche, um almoço, um jantar. Por vezes o convite é esse mesmo, para um café, para um copo. “Passa por aqui”, subentende-se, passa por aqui, bebemos um copo e metemos a conversa em dia. Reunimos, aproveitamos a oportunidade e jantamos e, mais informalmente, poderemos tratar de outros assuntos, ou continuar o que ficou incompleto. A refeição não visa (apenas) a satisfação da necessidade de comer, mas tem uma dimensão social e cultural, mas também religiosa. A refeição aproxima-nos. Facilita negócios, ou o empenho em atividades.
       Quando nos sentamos à mesa, pressupõe-se que o fazemos com os amigos e com a família, ou com o intuito de aprofundar amizades ou aproximar opiniões. No mundo semítico é um dado inequívoco: comer implica comunhão de vida, sintonia (familiar, religiosa, cultural, nacional). Não nos sentamos à volta da mesa se somos inimigos, ou desconhecidos, ou se pura e simplesmente não nos damos. Entrar em casa do outro, sentar à sua mesa, postar-se diante do seu olhar, no seu espaço, é entrar na sua vida, é colocar o próprio coração em frequência com o coração do outro (pessoa ou família). Ou, entenda-se, é fazer parte da família do outro.
       2 – A linguagem da Bíblia recorre às realidades concretas, do dia-a-dia, para melhor nos fazer compreender e acolher a vontade de Deus. Depois de três parábolas sobre a vinha, Jesus compara agora o reino de Deus a um banquete, ou a um rei que oferece um banquete. Para este banquete, e como seria expectável, convida os seus amigos, ou, pelo menos, aqueles que julga seus amigos e que se sentiriam honrados com o convite e fariam questão em estar presentes diante do seu rei. No entanto, um a um vão-se desculpando, apresentando todo o tipo de justificações ou de desculpas.
       Alguns não apenas recusam o convite, mas ainda tratam mal os emissários. Então o rei manda os seus exércitos para lhes dar uma lição definitiva, destruindo a cidade.
       De seguida, alarga o convite: «O banquete está pronto, mas os convidados não eram dignos. Ide às encruzilhadas dos caminhos e convidai para as bodas todos os que encontrardes». Os seus servos reuniram todas as pessoas que encontraram pelo caminho, bons e maus.
       Quando o rei entrou viu que a sala do banquete estava cheia de (novos) convidados. Reparou, contudo, que havia um homem que não estava com o traje nupcial: «Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?». Como não obtivesse resposta, o rei mandou os criados que lhe amarrassem as mãos e os pés e o lançassem no exterior.
       Jesus conclui o seu relato, dizendo: «Muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos».
       3 – Certamente nos lembramos na última parábola de Jesus sobre o proprietário que arrenda/confia a sua vinha a uns vinhateiros. Chegado o tempo da vindima, manda os seus servos para receber o que lhe cabe nos frutos da colheita. Os vinhateiros respondem com insultos, agressões e morte. Matam o filho do proprietário, para ficaram com a herança que lhe pertencia. Na parábola desta semana, algo de semelhante se passa. O rei convida. Envia os seus servos a dizerem aos convidados que está tudo pronto – tempo da colheita e da festa. Os seus servos são maltratados e alguns são mortos. O destino dos convidados é semelhante ao dos vinhateiros. São mortos. A vinha é confiada a outros vinhateiros. O banquete tem outros convidados.

       4 – Esquecendo a parte bélica da parábola, o rei é o próprio Deus que convida. Aqueles que se julgam salvos (poderão ser, leitura imediata do texto, os judeus, ou os grupos que recusaram Jesus e o Seu Evangelho), afinal estão a cavar a própria sepultura.
       Jesus, na Sua missão evangelizadora, vem pelos caminhos e encruzilhadas da vida, do mundo, da história, e chama maus e bons. A salvação é para todos. A condição é deixar o que se está a fazer, isto é, deixar a vida anterior, toda a vida que nos distancia de Deus e dos outros, para entrar no banquete nupcial, na alegria da salvação, entrar na lógica do reino de Amor que Jesus inaugura. Ninguém está a mais. A sala enche-se a partir do momento em que todas as ruelas e vielas ficam vazias, a partir do momento em que as periferias vêm para o centro, vêm para Jesus, ou no momento em que o amor, Jesus, a vida em abundância, chega a todos os recônditos.
       Uma aviso apenas: quando seguimos Jesus devemos segui-l'O por inteiro. Temos de vestir o traje nupcial. Precisamente, deixar a roupagem anterior, pesada, suja, ou menos limpa, para albergar um traje luminoso, que nos torne transparentes, afáveis, próximos, mais iguais, mais irmãos, dóceis, mais justos, mais amigos, mais família; um traje ágil, leve, atraente, que nos permita acariciar, dar as mãos, beijar, afagar o rosto do outro; trajes que não nos afastem e não nos cataloguem em categorias que nos dividam, nos afastam, nos levam a ter gestos mecânicos com muita etiqueta mas com pouco amor, com pouco à vontade, com pouca vivacidade. Precisamos de meter mãos ao trabalho e deixarmos que a nossa vida, atravessada pelo Espírito Santo, se converta e transpareça Jesus Cristo.
       5 – A linguagem do Evangelho é sugestiva. Quem não se sente bem entre iguais, entre irmãos, num banquete, sem formalismos vazios, mas com a dignidade de se sentir convidado, de se sentir em família, de se sentir como príncipe ou princesa?! Somos mais que isso. Somos filhos. É um tratamento de qualidade. Vida abundante. Se somos filhos, estamos em casa, sentimo-nos mais descontraídos.
       Vejamos a descrição de Isaías sobre este banquete:
"Sobre este monte, o Senhor do Universo há de preparar para todos os povos um banquete de manjares suculentos, um banquete de vinhos deliciosos: comida de boa gordura, vinhos puríssimos. Sobre este monte, há de tirar o véu que cobria todos os povos, o pano que envolvia todas as nações; destruirá a morte para sempre. O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces e fará desaparecer da terra inteira o opróbrio que pesa sobre o seu povo"
       É um banquete para todos, com os melhores manjares, à discrição. O melhor que pode haver. É motivo para aclamar: «Eis o nosso Deus, de quem esperávamos a salvação; é o Senhor, em quem pusemos a nossa confiança. Alegremo-nos e rejubilemos, porque nos salvou. A mão do Senhor pousará sobre este monte». «O Senhor é meu pastor: nada me falta. Leva-me a descansar em verdes prados, conduz-me às águas refrescantes e reconforta a minha alma. / Para mim preparais a mesa à vista dos meus adversários; com óleo me perfumais a cabeça e o meu cálice transborda».

       6 – A promessa do Senhor cumpre-se e visualiza-se em Jesus Cristo. É Ele o Bom Pastor. Traz-nos Deus. Abre-nos o Céu. Mostra-nos a eternidade. Antecipa a glória do amanhã. Salva-nos, aqui e agora. Convida-nos para o banquete. A todos. Sem exceção. E, ao mesmo tempo, nos envia, para que vamos, aos caminhos e encruzilhadas, e chamemos mais. Há lugar para todos. Com efeito, a sala do banquete só se encherá quando não houver ninguém fora, a não ser que se recuse a entrar.
       Na quinta-feira santa, Jesus prepara o depois da Sua morte e ressurreição, instituindo a Eucaristia, memorial, banquete que torna presente o Seu corpo e o Seu sangue, a Sua vida dada e partilhada connosco. Na Eucaristia, saboreamos a presença de Deus que desce e nos eleva, e nos compromete. Quanto mais em Deus, mais disponíveis para amar, mais apressados para sermos com os outros. A Eucaristia faz-nos Igreja, faz-nos Corpo de Cristo, faz-nos irmãos. Identificando-nos com Jesus, entrando em comunhão com Ele, só podemos tornarmo-nos cada vez mais parecidos com Ele.

       7 – Sabendo que o tempo presente ainda não é o definitivo, nem por isso deixaremos de viver com o olhar fito em Deus, com os pés bem assentes na terra, com as mãos abertas para os outros, para, como Cristo, do nascimento à cruz, acolhermos, abraçarmos, ajudarmos, transformarmos o mundo em que vivemos no melhor dos mundos que nos é possível.
       Belíssimo o testemunho do Apóstolo:
"Sei viver na pobreza e sei viver na abundância. Em todo o tempo e em todas as circunstâncias, tenho aprendido a ter fartura e a passar fome, a viver desafogadamente e a padecer necessidade. Tudo posso n’Aquele que me conforta. No entanto, fizestes bem em tomar parte na minha aflição. O meu Deus proverá com abundância a todas as vossas necessidades, segundo a sua riqueza e magnificência, em Cristo Jesus. Glória a Deus, nosso Pai, pelos séculos dos séculos".
       Quer vivamos, quer morramos, tendo muito ou pouco, homens ou mulheres, gregos ou troianos, procuremos em tudo a vontade de Deus.

Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia (ano A): Is 25, 6-10a; Sl 22 (23); Filip 4, 12-14. 19-20; Mt 22, 1-14.

Escutar o que Deus nos diz e realizá-lo

       Enquanto Jesus falava à multidão, uma mulher levantou a voz no meio da multidão e disse: «Feliz Aquela que Te trouxe no seu ventre e Te amamentou ao seu peito». Mas Jesus respondeu: «Mais felizes são os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática» (Lc 11, 27-28).
       Como referíamos ontem, é a fé de Cristo Jesus que nos salva. Mas a fé não é apenas abstracta ou sentimental, é também compromisso com os outros. Não é oca, mas preenchida com o bem que provoca em nós a favor dos outros. As palavras de Jesus não deixam margem: ouvir a palavra e pô-la em prática. Duas condições da fé: escutar o que Deus nos diz e realizar a Sua vontade.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Festa e Romaria de Santa Eufémia de Pinheiros | 2014

       O dia 16 de setembro é dia de festa e romaria na Paróquia de Pinheiros, cuja festa e padroeira é santa Eufémia, atraindo pessoas das paróquias da Zona Pastoral de Tabuaço e paróquias vizinhas de Armamar e de Moimenta da Beira, para cumprirem promessa, rezar por intercessão de Santa Eufémia, fazer súplicas, agradecer. A festa é precedida de Novena. No sábado anterior, a Procissão das Velas em honra de Nossa Senhora do Rosário. No dia 17, festa em honra de Santa Bárbara, num ambiente mais familiar.
       Música de fundo retirado do CD "A Alegria de Crer", 10.º Ano de Catequese, Edições Salesianas.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Pe. Feytor Pinto e Octávio Carmo na Agência Ecclesia

Leitura: Pe. FEYTOR PINTO - Sexualidade Humana

Pe. Vítor FEYTOR PINTO (2014). Sexualidade Humana.Exigências éticas e comportamentos saudáveis. Lisboa: Paulus Editora, 192 páginas.
       O (Monsenhor) Pe. Vítor Feytor Pinto, atual responsável da paróquia do Campo Grande, no Patriarcado de Lisboa, nasceu em 1932 e em 1955 foi ordenado sacerdote na Diocese da Guarda. Ficou conhecido dos portugueses sobretudo no tempo em que foi Alto-Comissário do Projeto Vida (Luta contra a Toxicodependência) travessando os governos de Cavaco Silva e de António Guterres. Durante seis anos percorreu o país, participando em debates, conferência, em igrejas, centros pastorais, escolas, hospitais.
       Em 2002, segundo o próprio, foi convidado pelo Instituto de Bioética da Universidade Católica Portuguesa para fazer algumas conferências no 1.º Curso de Mestrado em Bioética. Nessa ocasião concluiu que seria benéfico também fazer o mestrado em Bioética, proposta aceite pelo Instituto. Este livro é basicamente a dissertação preparada para o Mestrado, orientado pelo grande figura desta área, o Pe. Luís Archer.
       Escolheu para este trabalho o campo da sexualidade humana, analisando a compreensão da sexualidade no mundo e tempo atuais, verificando os efeitos da chamada revolução sexual, revisitando algumas páginas importantes do magistério da Igreja, Vaticano II, papa João Paulo II e papa Bento XVI, a compreensão bíblica da sexualidade no Antigo e no Novo Testamento, a sexualidade e a transmissão da vida, a sexualidade como dom de Deus e como compromisso e responsabilidade humana. Feytor Pinto apontará a ética personalista no enquadramento da vivência consciente, livre, responsável da sexualidade humana.
PARTE I - Ética e sexualidade integral
PARTE II - Sociedade atual e visão redutora da sexualidade
PARTE III - A Sexualidade humana: maravilhoso dom de Deus
PARTE IV - A transmissão responsável da vida
       O Pe. Feytor Pinto não foge aos diversos questionamentos colocados à temática da sexualidade, com as diversas interpretações da mesma, e as diferentes maneiras de a viver. Por outro lado, o que será útil para este tempo, a sexualidade como abertura responsável à vida e o envolvente da família. Certamente, nesta reflexão de sempre, mas acentuada pelos Sínodos dos Bispos, o extraordinário, em 2014, e o ordinário, em 2015, para melhor compreender a família, este é um texto que poderá contribuir para um enquadramento sério, humano, cristão.
       Uma nota mais pessoal/diocesana: o autor, Pe. Feytor Pinto, cita dois estudos de D. António Couto, Bispo da nossa Diocese de Lamego, Como uma Dádiva: Caminhos da Antropologia Bíblica. Lisboa: UCP, 2002, e Pentateuco.Caminho de Vida Agraciada. Lisboa: UCP, 2002.
"Não há sexualidade plenamente integrada sem afetividade, como não há comunhão de vida sem relação de amor" (p. 22)
"Não há sexualidade verdadeira sem amor, sem relação afetiva, sem capacidade de ir ao encontro do outro, sem encontrar no outro complementaridade, sem descoberta do perdão, do serviço, da alegria no dar, da serenidade no perder, no encontro das vidas até ao projeto comum que inicia comunhão de vida, o último e mais belo objetivo da sexualidade humana" (pp. 23-24).
"O amor é mais do que um encontro de corpos, o amor é mais do que o desejo, mais do que a paixão, mais do que o sentimento, o amor é um compromisso de vida. pode haver encontro dos corpos sem as pessoas se amarem..." (p. 133)
"O ato sexual encontra, na situação conjugal e somente nela, condições ideais para a sua realização. O ato sexual deve ser expressão de uma doação total, exclusiva, irrevogável. O ato sexual tem uma nobreza específica, pelo que supõe tempo necessário, uma dignidade própria, um ritmo de relação, uma afirmação recíproca de um amor que marca a vida do par" (p. 138) 
"O amor não é a atitude apenas de uma pessoa, é sempre um encontro de dois, convergente para a comunhão de ideais e de vida. O amor não é um acidente na vida, é um elemento essencial à realização de cada pessoa. Mesmo no normal processo de desenvolvimento humano, sobretudo a partir da adolescência, pressente-se facilmente que o amor é relação de conhecimento, de proximidade, de afirmação, de dádiva, de compromisso. É um dinamismo de maior riqueza no ser humano" (p. 156)
Vale a pena ler também a entrevista do Pe. Feytor Pinto,
realizada por Octávio Carmo, A VIDA É SEMPRE UM VALOR

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Alfredo DINIS e João PAIVA | Educação, Ciência e Religião

Alfredo DINIS e João PAIVA (2013). Educação, Ciência e Religião. Lisboa: Gradiva. 2.ª Edição. 204 páginas.
       A confusão, a distinção, a sobreposição, a ruptura, o confronto entre fé e cultura, entre ciência e religião, entre sociedade e Igreja, entre o homem e Deus, entre a terra e o céu, preenche muitas bibliotecas, milhares de páginas de livros, revistas, boletins, com discussões que vêm de há muito tempo mas que, uma e outra vez, voltam à discussão.
       O Papa Bento XVI, citado diversas vezes neste trabalho, em diversas ocasiões, como Cardeal e depois como Papa, refletiu muitas vezes na necessidade da ciência e da religião trabalharem conjuntamente, respeitando o campo uma da outra, mas, no plano da fé, a ciência desemboca na na fé, como sentido das coisas, do mundo, da pessoa. Por sua vez, a fé precisa da razão, da ciência, para nacionalizar o que é necessário racionalizar, pois também a religião não é um fenómeno abstrato, sem ligação à vida, ao mundo, ao que de mais profundo existe no ser humano.
       Os autores deste livro lançam pistas e procuram respostas para diversos questionamentos levantados pelos homens das ciências e pelos crentes. Se alguns "cientistas" fecham todas as portas à religião, muitos outros encontram Deus nas ciências e nas diferentes descobertas. Estas podem contradizer a Bíblia, nas suas especificações concretas e históricas, mas não anulam a necessidade do ser humano procurar um sentido, uma razão de ser para viver, para existir neste tempo e neste mundo.
       Pode haver pontos de contacto entre a ciência e a religião. Não se anula, mas podem ajudar-se. A melhor atitude, de parte a parte, é a da abertura, de se colocar a hipótese de que o outro tem as suas razões. Não se pode negar um Absoluto (crer em Deus) com outro absoluto (Deus nunca, não é sequer hipótese).
       Alfredo Dinis (1952-2013) é licenciado em Filosofia e Humanidades, e em Teologia, Mestre e Doutor em História e Filosofia da Ciência. Sacerdote jesuíta.
       João Paiva é licenciado em Química e mestre em Ensino da Física e da Química, doutorado em Química e Professor na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.
       Universos diferentes mas que se tocam na mesma ambiência cristã e católica. No caso presente, a ciência não é uma obstáculo à fé e à vivência da mesma em situações reais e concretas, mas no entanto a ciência desafia a fé, a religião, a formular novos conceitos, mas que, como referiu Bento XVI, a fé seja luz e não obscurantismo.
       A linguagem é simples, acessível, assertiva, sem dogmatismos, com muitas portas abertas. Adão e Eva? Preservativo e amor responsável? Galileu, Copérnico. Idade Média. Teoria da evolução das espécies, evolucionismo, e a criação obra de Deus? Vida em outras planetas? Jesus como único Mediador, também extensível para outras galáxias?

Veja também a seguinte notícia/debate:

sábado, 4 de outubro de 2014

XXVII Domingo do tempo Comum - ano A - 5 de de outubro

       1 – «Havia um proprietário que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e levantou uma torre; depois, arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe. Quando chegou a época das colheitas, mandou os seus servos aos vinhateiros para receber os frutos» (Evangelho).
       Príncipes dos sacerdotes e anciãos do povo na primeira fila para ouvirem Jesus. A multidão está lá também. Aqueles, porém, vão para a frente não com o propósito de seguir Jesus, mas para se apresentarem como líderes e senhores de todo o povo. Jesus utiliza as parábolas da vinha para despertar, para provocar, para nos fazer tomar consciência da realidade, sem Se impor. Ele é a Palavra que Se faz carne. A linguagem é simples e acessível, é direta e frontal, sem pretensões de convencer. Ele propõe. Cabe a cada ouvinte ser discípulo ou ser mero espectador.
       O dono da vinha é o Senhor, que a planta, cuida dela para que venha a dar fruto em abundância.
       Na primeira leitura, o dono da vinha tudo faz para que a vinha, a casa de Israel, produza uvas de boa qualidade. "O meu amigo possuía uma vinha numa fértil colina. Lavrou-a e limpou-a das pedras, plantou-a de cepas escolhidas. No meio dela ergueu uma torre e escavou um lagar. Esperava que viesse a dar uvas, mas ela só produziu agraços" (1.ª Leitura). Então que fazer? Continuar a insistir ou arrancar a vinha e plantar outra em seu lugar? Com efeito, "a vinha do Senhor do Universo é a casa de Israel e os homens de Judá são a plantação escolhida. Ele esperava retidão e só há sangue derramado; esperava justiça e só há gritos de horror".
       2 – No Evangelho, a parábola de Jesus remete para o dono da vinha que arrenda a sua vinha. Os vinhateiros encontram tudo preparado para uma excelente colheita. Pouco precisam de fazer. Logo vem a hora da colheita. Então o proprietário envia mensageiros para receberem em seu nome a parte que lhe cabe pelos frutos. A ganância apodera-se dos vinhateiros. Ao verem os enviados do dono da vinha, matam, agridem, injuriam. Entretanto, o dono da vinha envia o próprio filho, pensando que o respeitarão por ser seu filho. Os arrendatários não querem saber, pelo contrário, matam também o filho para assim ficarem com a herança que lhe pertence.
       Jesus, tal como o profeta, interroga os interlocutores: que fazer àqueles vinhateiros? A resposta compromete-os: «Mandará matar sem piedade esses malvados e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entreguem os frutos a seu tempo».
       No ambiente destas parábolas Jesus coloca em causa aqueles que, embora sempre à volta do templo e da religião, esmagam o seu semelhante, com impostos, com obrigações que eles não cumprem.
       A parábola fala de todos os mensageiros que Deus enviou ao Seu povo. Foram ignorados, perseguidos, acusados injustamente, expulsos das cidades, escorraçados, para não incomodarem, para não denunciarem as injustiças.
       Por último, Deus envia o Seu Filho Unigénito. Nem assim. Aqueles a quem foi dada a missão de cuidar da vinha, de tratar bem as pessoas, de as guiar por caminhos de bem e de verdade, promovendo a justiça solidária, esvaziam os bolsos e a vida das pessoas simples, multiplicando as leis e as obrigações morais e religiosas, cansam, esgotam a vinha e as videiras. Não quiseram saber da raiz, da cepa, quiseram apenas retirar os frutos, sem os partilhar. Tinham a missão de envolver as pessoas, cuidando, tratando das feridas, testemunhando o amor de Deus. Utilizam o poder e a liderança para se servirem, para pisarem, para se sobreporem. É a discussão de ontem e de hoje, dos doutores da lei, dos anciãos do povo, mas também dos discípulos: quem será o maior?
       3 – "Deus dos Exércitos, vinde de novo, olhai dos céus e vede, visitai esta vinha. Protegei a cepa que a vossa mão direita plantou, o rebento que fortalecestes para Vós". A prece do salmista, que é também a nossa prece, assume com humildade a própria pequenez, deixando que Deus, compassivo e bom, possa vir em auxílio da vinha que Ele plantou. É um pedido feito na confiança, na certeza que Deus é fiel às Suas promessas. Ele continua a visitar-nos, e a entrar na nossa vida.
        A vinha exige muito trabalho, ao longo do ano inteiro, escava, adubar, podar, herbicidas, a ampara, o enxofre... é um trabalho permanente. Se a vinha não é cuidada, no final o fruto poderá não ser o esperado. Um mau ano agrícola, pode deitar por terra todo o esforço. Mas não é definitivo. Volta o trabalho e o cuidado, para novos anos de abundância.
       Os textos da Bíblia falam-nos desta esperança. O Senhor não abandonará a Sua vinha. Deus não desiste de nós. Nunca. Deus nunca desiste de nós. Podemos dar apenas agraços, mas Deus dá-nos tempo para refazermos a vinha, para nova poda, novos enxertos. «Nunca lestes na Escritura: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos’? Por isso vos digo: Ser-vos-á tirado o reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos».
       Rejeitado, morto numa Cruz, Jesus, o Filho de Deus, ressuscita e torna-Se pedra angular, a verdadeira cepa, a verdadeira videira, na qual havemos de enxertar a nossa vida, para que possamos produzir fruto com abundância. Se, como ramos, nos mantivermos unidos à videira é possível que a água se transforme no melhor vinho, que Se transformará no Sangue de Cristo, oferecido para salvação de todos. Podemos errar/pecar. Deus continua a creditar em nós, a apostar em nós. Limpemos a folhagem que em nós está a mais e que impede as uvas de amadurecer.

       4 – O Apóstolo testemunha o amor de Deus, a quem podemos sempre apresentar as nossas súplicas, as nossas inquietações: «Não vos inquieteis com coisa alguma. Mas, em todas as circunstâncias, apresentai os vossos pedidos diante de Deus, com orações, súplicas e ações de graças. E a paz de Deus, que está acima de toda a inteligência, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus. O que aprendestes, recebestes, ouvistes e vistes em mim é o que deveis praticar... E o Deus da paz estará convosco».
       Curiosamente, a confiança em Deus, a certeza que Deus sempre vem, que escuta a nossa prece, remete-nos para o compromisso, para o trabalho, para o cuidado da vinha. Deveis praticar o que aprendestes. Confiar em Deus, por certo, não significa sentar-se à sombra da bananeira à espera do alimento e da abundância da vida. Confiar em Deus levar-nos-á a agir com persistência. Há anos que a vinha não produz tanto. O agricultor logo após a vindima volta à vinha para recomeçar todo o processo, com a esperança renovada em novas colheitas.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano A): Is 5, 1-7; Sl 79 (80); Filip 4, 6-9; Mt 21, 33-43.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Papa Francisco - Catequese sobre os 7 Sacramentos

Papa FRANCISCO (2014). Catequeses sobre os Sacramentos. Fátima; Secretariado Nacional de Liturgia, 32 páginas.
       Depois de termos sugerido as CATEQUESES do Papa Francisco durante o ano de 2013, eis agora um opúsculo dedicado aos SETE SACRAMENTOS, recolha e proposta do Secretariado Nacional de Liturgia (SN Liturgia no Facebook) Os Sacramentos, sinais e expressão da presença de Deus no mundo através da Igreja, que nos envolvem e nos fazem participantes da vida divina, são sempre espaço de encontro, de partilha, de vida nova, de encontro e reencontro com a comunidade e com Deus, no desafio constante de nos deixarmos plasmar pelo Espírito Santo, para nos tornarmos cada vez mais parecidos com Jesus Cristo, com a força renovada no empenho em transformar o mundo em que vivemos.
       De forma coloquial, o Papa Francisco procura, de forma assertiva, mostrar a importância, a seriedade e a dinâmica dos Sacramentos.
       Para quem for mais fácil ler, então a sugestão desta brochura. Para quem preferir ler em formato digital, ou imprimir, siga as hiperligações, clicando sobre cada título. As catequeses, estas e outras, estão disponíveis na página oficial do Vaticano, no apartado das Audiências-Gerais das Quartas-feiras.
  1. Batismo, Fundamento da nossa Fé.
  2. Pelo Batismo, tornamo-nos membros do Corpo da Igreja.
  3. Pela Confirmação, recebemos o Espírito Santo como Dom.
  4. Eucaristia, memorial da Páscoa de Jesus.
  5. Eucaristia e Vida.
  6. Na Confissão pedimos perdão a Jesus.
  7. Unção dos Doentes, Misericórdia de Deus.
  8. Sacramento da Ordem.
  9. Sacramento do Matrimónio.

       São catequeses breves, acessíveis, para ler e meditar e sobretudo para viver melhor os Sacramentos e o compromisso com a Igreja e com a Sociedade.