sábado, 11 de outubro de 2014

XXVIII Domingo do Tempo Comum - ano A - 12 de outubro

       1 – Em muitas situações da vida, quando convidamos alguém, mesmo que a motivação seja outra, incluímos uma refeição, um lanche, um almoço, um jantar. Por vezes o convite é esse mesmo, para um café, para um copo. “Passa por aqui”, subentende-se, passa por aqui, bebemos um copo e metemos a conversa em dia. Reunimos, aproveitamos a oportunidade e jantamos e, mais informalmente, poderemos tratar de outros assuntos, ou continuar o que ficou incompleto. A refeição não visa (apenas) a satisfação da necessidade de comer, mas tem uma dimensão social e cultural, mas também religiosa. A refeição aproxima-nos. Facilita negócios, ou o empenho em atividades.
       Quando nos sentamos à mesa, pressupõe-se que o fazemos com os amigos e com a família, ou com o intuito de aprofundar amizades ou aproximar opiniões. No mundo semítico é um dado inequívoco: comer implica comunhão de vida, sintonia (familiar, religiosa, cultural, nacional). Não nos sentamos à volta da mesa se somos inimigos, ou desconhecidos, ou se pura e simplesmente não nos damos. Entrar em casa do outro, sentar à sua mesa, postar-se diante do seu olhar, no seu espaço, é entrar na sua vida, é colocar o próprio coração em frequência com o coração do outro (pessoa ou família). Ou, entenda-se, é fazer parte da família do outro.
       2 – A linguagem da Bíblia recorre às realidades concretas, do dia-a-dia, para melhor nos fazer compreender e acolher a vontade de Deus. Depois de três parábolas sobre a vinha, Jesus compara agora o reino de Deus a um banquete, ou a um rei que oferece um banquete. Para este banquete, e como seria expectável, convida os seus amigos, ou, pelo menos, aqueles que julga seus amigos e que se sentiriam honrados com o convite e fariam questão em estar presentes diante do seu rei. No entanto, um a um vão-se desculpando, apresentando todo o tipo de justificações ou de desculpas.
       Alguns não apenas recusam o convite, mas ainda tratam mal os emissários. Então o rei manda os seus exércitos para lhes dar uma lição definitiva, destruindo a cidade.
       De seguida, alarga o convite: «O banquete está pronto, mas os convidados não eram dignos. Ide às encruzilhadas dos caminhos e convidai para as bodas todos os que encontrardes». Os seus servos reuniram todas as pessoas que encontraram pelo caminho, bons e maus.
       Quando o rei entrou viu que a sala do banquete estava cheia de (novos) convidados. Reparou, contudo, que havia um homem que não estava com o traje nupcial: «Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?». Como não obtivesse resposta, o rei mandou os criados que lhe amarrassem as mãos e os pés e o lançassem no exterior.
       Jesus conclui o seu relato, dizendo: «Muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos».
       3 – Certamente nos lembramos na última parábola de Jesus sobre o proprietário que arrenda/confia a sua vinha a uns vinhateiros. Chegado o tempo da vindima, manda os seus servos para receber o que lhe cabe nos frutos da colheita. Os vinhateiros respondem com insultos, agressões e morte. Matam o filho do proprietário, para ficaram com a herança que lhe pertencia. Na parábola desta semana, algo de semelhante se passa. O rei convida. Envia os seus servos a dizerem aos convidados que está tudo pronto – tempo da colheita e da festa. Os seus servos são maltratados e alguns são mortos. O destino dos convidados é semelhante ao dos vinhateiros. São mortos. A vinha é confiada a outros vinhateiros. O banquete tem outros convidados.

       4 – Esquecendo a parte bélica da parábola, o rei é o próprio Deus que convida. Aqueles que se julgam salvos (poderão ser, leitura imediata do texto, os judeus, ou os grupos que recusaram Jesus e o Seu Evangelho), afinal estão a cavar a própria sepultura.
       Jesus, na Sua missão evangelizadora, vem pelos caminhos e encruzilhadas da vida, do mundo, da história, e chama maus e bons. A salvação é para todos. A condição é deixar o que se está a fazer, isto é, deixar a vida anterior, toda a vida que nos distancia de Deus e dos outros, para entrar no banquete nupcial, na alegria da salvação, entrar na lógica do reino de Amor que Jesus inaugura. Ninguém está a mais. A sala enche-se a partir do momento em que todas as ruelas e vielas ficam vazias, a partir do momento em que as periferias vêm para o centro, vêm para Jesus, ou no momento em que o amor, Jesus, a vida em abundância, chega a todos os recônditos.
       Uma aviso apenas: quando seguimos Jesus devemos segui-l'O por inteiro. Temos de vestir o traje nupcial. Precisamente, deixar a roupagem anterior, pesada, suja, ou menos limpa, para albergar um traje luminoso, que nos torne transparentes, afáveis, próximos, mais iguais, mais irmãos, dóceis, mais justos, mais amigos, mais família; um traje ágil, leve, atraente, que nos permita acariciar, dar as mãos, beijar, afagar o rosto do outro; trajes que não nos afastem e não nos cataloguem em categorias que nos dividam, nos afastam, nos levam a ter gestos mecânicos com muita etiqueta mas com pouco amor, com pouco à vontade, com pouca vivacidade. Precisamos de meter mãos ao trabalho e deixarmos que a nossa vida, atravessada pelo Espírito Santo, se converta e transpareça Jesus Cristo.
       5 – A linguagem do Evangelho é sugestiva. Quem não se sente bem entre iguais, entre irmãos, num banquete, sem formalismos vazios, mas com a dignidade de se sentir convidado, de se sentir em família, de se sentir como príncipe ou princesa?! Somos mais que isso. Somos filhos. É um tratamento de qualidade. Vida abundante. Se somos filhos, estamos em casa, sentimo-nos mais descontraídos.
       Vejamos a descrição de Isaías sobre este banquete:
"Sobre este monte, o Senhor do Universo há de preparar para todos os povos um banquete de manjares suculentos, um banquete de vinhos deliciosos: comida de boa gordura, vinhos puríssimos. Sobre este monte, há de tirar o véu que cobria todos os povos, o pano que envolvia todas as nações; destruirá a morte para sempre. O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces e fará desaparecer da terra inteira o opróbrio que pesa sobre o seu povo"
       É um banquete para todos, com os melhores manjares, à discrição. O melhor que pode haver. É motivo para aclamar: «Eis o nosso Deus, de quem esperávamos a salvação; é o Senhor, em quem pusemos a nossa confiança. Alegremo-nos e rejubilemos, porque nos salvou. A mão do Senhor pousará sobre este monte». «O Senhor é meu pastor: nada me falta. Leva-me a descansar em verdes prados, conduz-me às águas refrescantes e reconforta a minha alma. / Para mim preparais a mesa à vista dos meus adversários; com óleo me perfumais a cabeça e o meu cálice transborda».

       6 – A promessa do Senhor cumpre-se e visualiza-se em Jesus Cristo. É Ele o Bom Pastor. Traz-nos Deus. Abre-nos o Céu. Mostra-nos a eternidade. Antecipa a glória do amanhã. Salva-nos, aqui e agora. Convida-nos para o banquete. A todos. Sem exceção. E, ao mesmo tempo, nos envia, para que vamos, aos caminhos e encruzilhadas, e chamemos mais. Há lugar para todos. Com efeito, a sala do banquete só se encherá quando não houver ninguém fora, a não ser que se recuse a entrar.
       Na quinta-feira santa, Jesus prepara o depois da Sua morte e ressurreição, instituindo a Eucaristia, memorial, banquete que torna presente o Seu corpo e o Seu sangue, a Sua vida dada e partilhada connosco. Na Eucaristia, saboreamos a presença de Deus que desce e nos eleva, e nos compromete. Quanto mais em Deus, mais disponíveis para amar, mais apressados para sermos com os outros. A Eucaristia faz-nos Igreja, faz-nos Corpo de Cristo, faz-nos irmãos. Identificando-nos com Jesus, entrando em comunhão com Ele, só podemos tornarmo-nos cada vez mais parecidos com Ele.

       7 – Sabendo que o tempo presente ainda não é o definitivo, nem por isso deixaremos de viver com o olhar fito em Deus, com os pés bem assentes na terra, com as mãos abertas para os outros, para, como Cristo, do nascimento à cruz, acolhermos, abraçarmos, ajudarmos, transformarmos o mundo em que vivemos no melhor dos mundos que nos é possível.
       Belíssimo o testemunho do Apóstolo:
"Sei viver na pobreza e sei viver na abundância. Em todo o tempo e em todas as circunstâncias, tenho aprendido a ter fartura e a passar fome, a viver desafogadamente e a padecer necessidade. Tudo posso n’Aquele que me conforta. No entanto, fizestes bem em tomar parte na minha aflição. O meu Deus proverá com abundância a todas as vossas necessidades, segundo a sua riqueza e magnificência, em Cristo Jesus. Glória a Deus, nosso Pai, pelos séculos dos séculos".
       Quer vivamos, quer morramos, tendo muito ou pouco, homens ou mulheres, gregos ou troianos, procuremos em tudo a vontade de Deus.

Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia (ano A): Is 25, 6-10a; Sl 22 (23); Filip 4, 12-14. 19-20; Mt 22, 1-14.

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