sábado, 31 de janeiro de 2015

Domingo IV do Tempo Comum - ano B - 1.fev.2015

       1 – Ouvíamos as primeiras palavras de Jesus, que nos convocam, nos desafiam ao seguimento e logo nos tornam testemunhas e missionários. Entretanto, decalcando as pegadas de Jesus, hoje encontramo-nos com a Sua autoridade, exercida pela coerência de vida, pela compaixão, por gestos de amor e de perdão, pelo acolhimento e proximidade, pela cura e reabilitação daqueles e de todos os que andam perdidos e desanimados.
       Onde chega Jesus, desaparece o mal, a treva e a morte.
       São Marcos leva-nos a Cafarnaum. No sábado seguinte, entranhado na cultura e na civilização judaica, Jesus entra na sinagoga e começa a ensinar. A missão primeira de Jesus é o anúncio do Evangelho a todos os povos. Num primeiro momento, a pregação suscita admiração. E qual é a razão? Bom, precisamente porque em Jesus as palavras estão preenchidas de vida e de esperança. Ele ensina com autoridade e não como os escribas. Ao longo do Evangelho perceberemos melhor o que significa este contraponto: os escribas exigem aos outros, mas não cumprem, ou exigem o cumprimento estrito da Lei mas sem acolher a pessoa; as palavras de Jesus condizem com o Seu jeito de agir, concretizando na delicadeza e atenção aos mais frágeis, aos excluídos social, política e religiosamente, aos doentes, aos pecadores.
       E até os espíritos impuros sentem a ameaça pela presença de Jesus.
Encontrava-se na sinagoga um homem com um espírito impuro, que começou a gritar: «Que tens Tu a ver connosco, Jesus Nazareno? Vieste para nos perder? Sei quem Tu és: o Santo de Deus». Jesus repreendeu-o, dizendo: «Cala-te e sai desse homem». O espírito impuro, agitando-o violentamente, soltou um forte grito e saiu dele. Ficaram todos tão admirados, que perguntavam uns aos outros: «Que vem a ser isto? Uma nova doutrina, com tal autoridade, que até manda nos espíritos impuros e eles obedecem-Lhe!».
       Jesus exorciza todo o mal que nos habita. A Sua presença há de envolver-nos, converter-nos, introduzir-nos na Sua comunhão e na Sua comunidade. Não se trata aqui, nem em lado nenhum, de um ato privado ou envergonhado. Jesus atua com descrição, mas para integrar, para devolver a dignidade, para promover a vida.
       2 – Com Jesus, chega um tempo novo, um riacho de água fresca, uma aragem suave e acolhedora, um vendaval de graça e de luz, que nos desenraíza e transforma. Ele é o profeta que está no meio de nós, é o Deus connosco. É a Ele que devemos escutar. Na primeira leitura ouvíamos o convite de Moisés a todo o povo:
«O Senhor teu Deus fará surgir no meio de ti, de entre os teus irmãos, um profeta como eu; a ele deveis escutar... Porei as minhas palavras na sua boca e ele lhes dirá tudo o que Eu lhe ordenar. Se alguém não escutar as minhas palavras que esse profeta disser em meu nome, Eu próprio lhe pedirei contas».
       O que naquele tempo era esperança para o futuro, para nós é promessa que se cumpre em Jesus Cristo. É o Profeta por excelência, no qual Deus colocou todo o Seu enlevo. Traz-nos de Deus as suas palavras de amor, de misericórdia e de perdão. Mais, Ele é e própria Palavra, de carne e osso. Quem O escutar será salvo, pois Ele não veio para condenar o mundo, mas para que n'Ele e através d'Ele o mundo seja salvo. E nisto consiste a salvação, como nos recorda o evangelista João, acreditar n'Aquele que o Pai enviou. Escutá-l'O. Acolhê-l'O. Vivê-l'O.
       A fé implica a escuta. A escuta leva-nos à identificação com Aquele que escutamos. A identificação converte-nos e compromete-nos. Acolhemo-l'O para que a nossa vida O transpareça, em todas as dimensões e circunstâncias.
Rezamos o salmo com este desejo feito nosso:
Quem dera ouvísseis hoje a sua voz: «Não endureçais os vossos corações, como em Meriba, como no dia de Massa no deserto, onde vossos pais Me tentaram e provocaram, apesar de terem visto as minhas obras».
       Cabe-nos alterar o rumo da história, procurando que as palavras de Jesus não caiam em saco roto nem passem sem produzir fruto abundante na nossa vida.

       3 – O tempo é breve. Palavras que o apóstolo São Paulo nos dizia no domingo passado. Tão breve e fugaz! Parece que nos escapa como areia entre os dedos da mão. Com esta consciência, vamos repetindo que o tempo passa demasiado depressa, parece que ainda era ontem e já passaram alguns anos. Se soubesse o que sei hoje, teria feito as coisas de outra maneira (positiva ou negativamente!), mas agora é tarde, já não me resta muito tempo.
       Os lamentos do fim, que escutamos uns dos outros, não nos devem levar a viver cinicamente como se de facto não tivéssemos mais tempo para agir, para fazer escolhas, para endireitar a nossa vida, para emendar a mão, devem levar-nos a alterar o que tem de ser alterado para nos sentirmos bem, felizes, realizados, com a certeza de que continuamos a lutar, a esforçar-nos, a fazer o que está ao nosso alcance, e que não desistimos nem à primeira, nem à segunda, nem à terceira, por maiores que sejam os obstáculos e por mais que o tempo nos pareça escasso.
       Há dias numa reunião de sacerdotes, um deles contava que uma senhora, pressentindo a morte, foi de casa em casa para se despedir de toda a gente. Afinal, ainda tinha tempo, pois durou mais dez anos!
       Nesta primeira missiva aos Coríntios, o Apóstolo insiste, com eles e connosco, para vivermos bem o tempo presente, o AGORA da salvação que nos chega de Jesus. Ele salvou-nos com a Sua morte e a Sua ressurreição. Há que fazer com que este ACONTECIMENTO marque a cadência dos nossos dias. E que nada nos impeça, nos desvie ou dificulte a nossa configuração a Jesus.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano B): Deut 18, 15-20; Sl 94 (95); 1 Cor 7, 32-35; Mc 1, 21-28.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

A luz do candelabro...

       Disse Jesus à multidão: «Quem traz uma lâmpada para a pôr debaixo do alqueire ou debaixo da cama? Não se traz para ser posta no candelabro? Porque nada há escondido que não venha a descobrir-se, nem oculto que não apareça à luz do dia. Se alguém tem ouvidos para ouvir, oiça». Disse-lhes também: «Prestai atenção ao que ouvis: Com a medida com que medirdes vos será medido e ainda vos será acrescentado. Pois àquele que tem dar-se-lhe-á, mas àquele que não tem até o que tem lhe será tirado» (Mc 4, 21-25).
       A missão da luz é iluminar.
       Se colocarmos a luz num recanto, escondida, abafada, não exercerá a sua função de iluminar. Então não servirá para nada. Assim a nossa vida deverá ser como uma lâmpada acesa, que ilumine o mundo em que vivemos, da nossa família para o universo inteiro.
       Jesus lembra-nos também da generosidade dos nossos juízos para com os outros. A medida que usarmos com o nosso semelhante será usada connosco. Há que ser generosos, para que Deus também o seja connosco.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Vigília de Oração Ecuménica | Igreja de Almacave

       No dia 24 de janeiro de 2015, realizou-se, na Igreja Paroquial de Almacave, uma Vigília de Oração pela Unidade dos Cristãos, dentro do Oitavário de Oração pela Unidade dos Cristãos (18 a 25 de janeiro de cada ano).
       A iniciativa, solicitada pelo Bispo da Diocese de Lamego, D. António Couto, foi coordenada pelo Grupo de Jovens de Almacave - aproveitando o formato da Oração de Taizé que acontece no terceiro sábado de cada mês -, pelo SDPJ de Lamego e pelo Departamento Diocesano para o Ecumenismo.
       Da Paróquia de Tabuaço, a participação do Grupo de Jovens (GJT), alguns adultos, e também a participação de dois jovens de Carrazedo.
       Uma ou outra imagem, sabendo-se que os momentos de oração, neste formato, convidam à oração, ao silêncio, ao canto, e demovem as fotos.

Quem fizer a vontade de Deus esse é meu irmão...

       Chegaram à casa onde estava Jesus, sua Mãe e seus irmãos, que, ficando fora, O mandaram chamar. A multidão estava sentada em volta d’Ele, quando Lhe disseram: «Tua Mãe e teus irmãos estão lá fora à tua procura». Mas Jesus respondeu-lhes: «Quem é minha Mãe e meus irmãos?» E, olhando para aqueles que estavam à sua volta, disse: «Eis minha Mãe e meus irmãos. Quem fizer a vontade de Deus esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe» (Mc 3, 31-35).
       A passagem do Evangelho que hoje nos é proposta mostra a prevalência da vontade de Deus como referencial que no liga a Deus e uns aos outros.
       Aos familiares de Jesus, Mãe e irmãos (= primos carnais) chega uma preocupação que se espalha pela povoação, fruto de algum boato ou comentário maldoso. Naquele como neste tempo, rapidamente se espalham as insinuações e/ou boatos, muito mais um cancro pelo corpo.
       Maria, atenta e vigilante, corre ao encontro do Filho. Confia n'Ele mas o que lhe dizem deixa-a incomodada. Logo vai ter com Jesus para ver o que se passa e trazê-l'O de volta a casa se se confiormarem os boatos, os mal-dizeres.
Jesus rodeado de pessoas, é alertado para a presença de Sua Mãe e Seus parentes, respondendo com clareza: Mãe e irmãos são os que escutam a Palavra, os que fizerem a vontade de Deus. Inclui a Mãe e os parentes, consideranddo-nos da Sua família, com a única condiação de fazermos a vontade Deus. Pertencer à família de Jesus está ao alcance da nossa vontade.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Domingo III do Tempo Comum - ano B - 25 de janeiro

       1 – "A glória de Deus é o homem vivo; e a vida do homem é a visão de Deus". Esta afirmação pertence a Santo Ireneu, Bispo e Mártir (nasceu por volta do ano 130 e foi morto no ano 200). Quando nos confrontamos com a prática religiosa, com as vivências crentes, a partir de fora, vêm ao de cima exigências, sacrifícios, renúncias. "Porque vais à Missa? Vem daí, vamos tomar um café, deixa lá a Missa, podes ir noutros dias. Com este tempo, já viste o sacrifício que vais fazer?"
       Uma visão utilitarista da religião, num ambiente consumista, onde domina a liquidez de ideias e de convicções, o bem-estar a qualquer preço, eliminando tudo o que possa cheirar a esforço, a persistência, a paciência. Desde logo se diga que a vida é multicolor, e não apenas a preto e branco, luz e trevas, deserto e oásis, é uma paleta de cores, com matizes diferentes conforme as circunstâncias que nos envolvem. Até a chuva e o sol alteram a nossa interação com os outros.
       Hoje, a Palavra de Deus traz-nos, envolvendo-nos, provocando-nos, um forte apelo à conversão. A Bíblia faz assomar violências e ódios, conflitos e disputas, guerras e vinganças. E, no entanto, entrelaça-nos em histórias de bênção, de aliança, de amizade, histórias de luta, de compromisso, de vida e de esperança, de luz. Algumas tramas fazem-nos pensar que Deus é "vingativo" quando não cumprimos, quando nos desviamos e transviámos. A dualidade da aliança: Deus ama-nos se vivermos segundo as Suas leis. Numa leitura rápida e superficial somos levados a olhar para Deus como um Ser caprichoso, cioso, que nos castiga à primeira falta. É, aliás, uma conceção que ainda voga nas nossas comunidades, em muitos cristãos.
       Uma leitura mais atenta, generosa, abrangente da Bíblia, põe em evidência Deus como criador e redentor. Está presente em todos os momentos da nossa vida e da nossa história, sobretudo nas adversidades, na míngua, no exílio e até na morte. A Sua maior glória é o Homem vivo, feliz. Cumprir os Mandamentos é garantia que nos tornamos mais irmãos, mais próximos, mais felizes connosco e com os outros. Deus ama-nos primeiro e sem condições prévias ou reservas futuras.
       2 – Entremos agora no Evangelho de São Marcos que nos faz escutar as primeiras palavras de Jesus. Antes, a voz do Pai que dá testemunho acerca de Jesus. Depois, a voz de João Batista que nos aponta o Cordeiro de Deus. Hoje é Cristo que em definitivo assume a missão de evangelizar o mundo.
       Depois de João Batista ter sido preso, Jesus parte para a Galileia, a Galileia dos gentios, onde se cruzam crenças e nacionalidades, numa abertura original a todos os que buscam e se deixam interpelar. A salvação está agora acessível a todos, está ao nosso alcance. Jesus vem à nossa aldeia, à nossa vida. É para nós que Ele dirige a Sua pregação: «Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».
       Com Jesus, o tempo cumpre-se, chega ao seu fim. O reino está próximo, está no meio de nós, Jesus abre-nos os Céus. É Ele verdadeiramente o reino de Deus, a vida de Deus, a comunhão que nos enlaça para sempre. Podemos viver já sob o olhar amoroso de Deus, sob a Sua luz. Jesus vem porque Deus nos quer, Deus nos quer bem, nos quer vivos, nos quer verdadeiramente humanos, refletindo-O em nós, não por capricho Seu, mas para felicidade nossa.
       Caminhando junto de nós, junto do mar da Galileia, Jesus repara em nós. Vê-nos com olhos de ver, com o coração. Lançamos as redes ao mar! Quantas vezes andamos à pesca, à procura, sem saber onde encontraremos bom peixe, se a maré nos trará a fortuna ou a desgraça! A Simão e a André e a nós, Jesus lança o desafio: «Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens».
       Eles deixam tudo, muito rapidamente, e seguem Jesus. Mais adiante, vê também Tiago e João, filhos de Zebedeu, que consertavam as redes. Jesus chama-os e também eles largam os seus afazeres e seguem-n’O. Serão pescadores de homens, preparam-se para ajudar a consertar o mundo, a história, a vida, contribuindo para que o tempo se cumpra para todos.
       3 – Página belíssima e luminosa nos traz o livro de Jonas. Também Jonas é chamado por Deus. A missão para o qual é enviado não se afigura muito fácil. É enviado a outra Galileia dos gentios, a uma nação estrangeira, a Nínive. Um povo que não é o seu, mas que Deus quer salvar: «Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive e apregoa nela a mensagem que Eu te direi». Para Jonas o melhor seria que Deus fizesse o favor de quanto antes destruir a cidade. Recusa-se, inclusive, a dirigir-se àquela povoação para cumprir a missão que lhe está confiada. Jonas, contrafeito, engolido por uma baleia, desembarca em Nínive para que a vontade de Deus se realize.
       O autor dá-nos a informação preciosa de que Nínive era uma grande cidade, em extensão, mas sobretudo aos olhos de Deus. A mensagem é direta: «Daqui a quarenta dias, Nínive será destruída». Jonas intuiu a bondade de Deus e daí a recusa em anunciar o castigo. Percebe que se avisar os ninivitas estes podem ter tempo de se converter. Ainda assim não pôde fugir à sua missão.
       A pregação surte efeito, "Os habitantes de Nínive acreditaram em Deus, proclamaram um jejum e revestiram-se de saco, desde o maior ao mais pequeno. Quando Deus viu as suas obras e como se convertiam do seu mau caminho, desistiu do castigo com que os ameaçara".
       Vendo bem, o propósito de Deus, nesta como outras páginas da Escritura e da história, não é eliminar pessoas, mas eliminar o pecado, o mal, o que é diabólico, ou seja, o que nos afasta dos outros ou nos coloca contra eles. Há lugar para todos. O castigo é preparado por nós. Quando cada um só se preocupa com o seu umbigo, mais tarde ou mais cedo, a comunidade deixa de existir.
       No seguimento da leitura, vemos um Jonas revoltado, mal-humorado, levando-se demasiado a sério. Para Ele Deus deveria cumprir com o desiderato original e destruir a cidade, independentemente do número de pessoas que perecesse. "Por isso é que, precavendo-me, quis fugir para Társis, porque sabia que és um Deus misericordioso e clemente, paciente, cheio de bondade e pronto a renunciar aos castigos" (Jn 4, 2). Vendo que Deus não cumpre com (o que Jonas julgava ser) o prometido, manifesta-se desencantado e quer que Deus lhe dê a morte, já que a não deu aos ninivitas. A reposta de Deus é eloquente. Jonas descansa debaixo de um ricínio, que nasceu da noite para o dia, mas que morre do mesmo jeito. Jonas lamenta-se de novo. Chega a resposta de Deus: «E não hei de Eu compadecer-me da grande cidade de Nínive, onde há mais de cento e vinte mil pessoas, que não sabem distinguir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda, e um grande número de animais?» (Jn 4, 11).

       4 – São Paulo segue de perto a missão do contrariado Jonas e sobretudo a missão do convicto Jesus. À comunidade de Corinto e às nossas comunidades:
"O que tenho a dizer-vos, irmãos, é que o tempo é breve. Doravante, os que têm esposas procedam como se as não tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que andam alegres, como se não andassem; os que compram, como se não possuíssem; os que utilizam este mundo, como se realmente não o utilizassem. De facto, o cenário deste mundo é passageiro".
       O tempo é breve. Demasiado breve. É urgente que cumpramos o nosso tempo, preenchendo-o com o melhor de nós, com o que perdura para lá deste mundo, iniciando já a realeza de Jesus. Se é Ele que age em nós, é possível que todos os esforços valham a pena.
       A conversão é a condição de todos os que se abrem à graça de Deus, mendigando o amor de Deus, deixando-Se iluminar pela Sua benevolência.
       Na conclusão do Oitavário de Oração pela Unidade dos Cristãos (18 a 25 de janeiro), coincidindo com a conversão de São Paulo, a evidente certeza que todos precisamos de nos converter a Jesus Cristo, bebendo do mesmo caudal de água viva que jorra d’Ele e nos sacia até à eternidade.

       5 – Jonas, Jesus, São Paulo, mostram-nos a conversão como caminho para Deus, cientes da Sua misericórdia infinita, mas que promove a nossa liberdade, as nossas escolhas.
       Do mesmo jeito, o salmista nos convoca à oração, respondendo à Palavra de Deus:
"Mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos, / ensinai-me as vossas veredas. / Guiai-me na vossa verdade e ensinai-me, / porque Vós sois Deus, meu Salvador. / Lembrai-Vos, Senhor, das vossas misericórdias / e das vossas graças, que são eternas. / Lembrai-Vos de mim segundo a vossa clemência, / por causa da vossa bondade, Senhor".
       A oração é-nos favorável, inicia com a certeza confiante da bondade de Deus. Cabe-nos, no seguimento, a predisposição para nos convertermos a Ele de todo o coração, para que a nossa vida prossiga até à eternidade, comunhão plena com Ele e com os irmãos, visualizável na partilha solidária e na comunhão fraterna.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano B): Jonas 3, 1-5. 10; Sl 24 (25); 1 Cor 7, 29-31; Mc 1, 14-20.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

D. MANUEL CLEMENTE - O Evangelho e a Vida - ano B

D. MANUEL CLEMENTE (2014). O Evangelho e a Vida. Conversas na rádio no Dia do Senhor. Ano B. Cascais: Lucerna. 320 páginas.

Depois de algumas sugestões de leitura para melhor preparar o Domingo:
       Sugerimos agora do livro de D. Manuel Clemente, Patriarca de Lisboa. Para o ano A, tínhamos feito a sugestão de três livros, para lá de blogues, páginas, Facebook, Youtube, aplicações, que partilham textos, propostas de reflexão, pistas de reflexão para melhor escutar e mastigar a palavra de Deus.
       Por um lado, a variedade de propostas para melhor preparar o Dia do Senhor, através da preparação da Palavra de Deus, para que a escuta nos aproxime verdadeiramente de Jesus Cristo, a Palavra do Pai, que Se faz carne. Por outro lado, a riqueza inesgotável da Palavra de Deus, com as suas diferentes leituras, géneros literários, com a vivência de pessoas e de grupos, da ação de Deus no mundo ao longo do tempo.
       O livro de D. Manuel Clemente centra-se sobretudo nos Evangelhos lidos ao Domingo e nalguns dias solenes. É uma recolha das conversas n' "O Dia do Senhor", da Rádio Renascença, emissora católica portuguesa. Ao longo dos anos, as manhãs de domingo da RR traziam-nos os comentários de D. Manuel Clemente, partindo de um trecho do Evangelho do dia, refletindo as palavras ditas com o fito de que fossem bem percebidas e sobretudo vividas, em família e em comunidade.
      O livro apresenta o Evangelho de cada domingo, seguindo-se a reflexão (oralizante) respetiva. A negrito aparece o texto escolhido e lido através dos microfones da Rádio.
       Por conseguinte, resultando dessas conversas no Dia do Senhor, o discurso é muito direto, acessível, simples, depreendendo-se a sua oralidade, envolvendo-nos no texto, procurando que os diversos encontros sejam entre Cristo e nós, na atualidade pessoal e comunitária.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

São Sebastião, Padroeiro da Diocese de Lamego

       Padroeiro da Diocese de Lamego.
       Juntamente com Santa Bárbara é dos mártires com mais popularidade no Concelho e na Diocese. Muitas das paróquias têm imagens de São Sebastião e algumas têm capelas em sua honra.
       Terá nascido em Narbona, sul de França, de uma família nobre, em meados do século III. Os seus pais seriam de Milão, onde cresceu até se mudar para Roma.
       Em nome da religião enveredou por uma carreira militar. O imperador Diocleciano, desconhecendo a sua religião, nomeou-o capitão general da Guarda Pretoriana. Ajudava a que os condenados se mantivessem fiéis a Jesus Cristo. Cada mártir que surgia era um alento para Sebastião. Foi denunciado por Fabiano, então Governador Romano. Diocleciano acusou-o de ingratidão. Foi cravado por flechas, até o julgarem morto. Santa Irene encontrou-o e tratou-o. Depois de restabelecido voltou junto do imperador. Este mandou que fosse chicoteado até à morte e depois deitado à Cloaca Máxima, o lugar mais imundo de Roma. O corpo foi recuperado e sepultado nas catacumbas da Via Ápia.
       Faleceu a 20 de Janeiro de 288.

Oração:
       Concedei-nos, Senhor, o espírito de fortaleza, para que, a exemplo do vosso mártir São Sebastião, aprendamos a obedecer antes a Vós que aos homens. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

São Sebastião, Padroeiro da Diocese de Lamego

       1 – O padroeiro principal da Diocese de Lamego, é São Sebastião, ao qual se junta Santo Agostinho, padroeiro secundário..
        Quando uma terra e/ou uma comunidade escolhe um patrono isso deve-se ao seu carisma e à vontade de seguir a sua determinação e o exemplo da sua vida. Os santos mártires ganharam uma enorme projeção nas comunidades cristãs dos primeiros séculos e pelos séculos seguintes.
       É nesta perspetiva que São Sebastião, Santa Eufémia, Santa Inês, Santa Luzia, Santa Leocádia, São Vicente, diácono, Santa Bárbara, se impõem por todo o mundo cristão, pelo testemunho de fidelidade ao Evangelho, a Jesus Cristo, arriscando a própria vida. Foi também uma forma de catequizar as comunidades, pregar através de exemplos concretos.
       São Sebastião, que se celebra a 20 de janeiro, dia da sua morte, é a nossa escolha para janeiro, para também nós, unidos à Diocese, procurarmos acolher o testemunho da sua vida, na fidelidade à Igreja, no compromisso com o nosso tempo e com este mundo em que vivemos.
       É mais uma figura do ano sacerdotal que nos interpela. A coragem demonstrada diante dos perseguidores, diante dos algozes, desvela-nos o rosto de Deus, que em Cristo Jesus, Se entrega inteiramente à humanidade.
       2 – Descendente de uma família nobre, terá nascido em Narbona, sul de França, em meados do século III. Segundo a maioria dos estudiosos, os seus pais eram de Milão, onde cresceu até se mudar para Roma. Mas também há quem defenda que o pai era natural de Narbona e Sebastião tenha nascido em Milão.
       Em nome da religião enveredou por uma carreira militar, para desse modo defender os cristãos que sofriam uma terrível perseguição. As suas qualidades são amplamente elogiadas: figura imponente, prudência, bondade, bravura, era estimado pela nobreza e respeitado por todos. O imperador Diocleciano, reconhecendo nele a valentia e desconhecendo a sua religião, nomeou-o capitão general da Guarda Pretoriana. Animava os condenados para que se mantivessem firmes e fiéis a Jesus Cristo.
       Cada mártir que surgia era um alento para Sebastião. Foi denunciado por Fabiano, então Governador Romano. Diocleciano acusou-o de ingratidão. Foi cravado por flechas, até o julgarem morto. Santa Irene encontrou-o e tratou-o. Depois de restabelecido voltou junto do imperador. Este mandou que fosse chicoteado até à morte e depois deitado à Cloaca Máxima, o lugar mais imundo de Roma. O corpo foi recuperado e sepultado nas catacumbas da Via Ápia. Faleceu a 20 de janeiro de 288, ou 300.

       3 – O tempo e o ambiente em que vivemos não é de perseguição declarada aos cristãos, mas a nossa tarefa não é mais fácil que a de São Sebastião. A sua fé confrontou-se com a perseguição, ajudando aqueles que estavam próximos de desanimar.
       Quantas vezes nos deixamos contagiar por um contexto, por valores e leis contrários à fé que professámos? Quantas oportunidades para nos afirmarmos cristãos? Quantas formas de perseguição aos valores que defendemos? Quantos cristãos precisam que os animemos na sua fé, na sua caminhada espiritual?!
       São Sebastião, rogai por nós!

sábado, 17 de janeiro de 2015

Domingo II do Tempo Comum - ano B - 18 de janeiro

       1 – Diante de nós, Jesus, o Cordeiro de Deus que carrega e que tira os pecados do mundo. O Espírito do Senhor repousa n’Ele e consagra-O para anunciar a Boa Nova aos pobres, aos cativos levar a libertação, dar vista aos cegos, a todos libertar da escravidão do pecado e da morte. Vamos no Seu encalço. Foi batizado por João e logo os Céus nos lembraram como Deus está no meio de nós. Em Jesus, Deus faz-Se peregrino connosco e para nossa salvação. Desfez-se a barreira que nos separava do Céu, por Jesus vamos ao Pai e sabemos que estamos no Pai quando nos identificamos com Jesus (cf. Jo 14, 19-24).
       João percebe que Aquele Jesus é o Messias que estava para vir e que já está no MEIO de nós. Àqueles dois discípulos, e a nós também, João mostra Jesus: É o Cordeiro de Deus. Como a dizer-nos: agora o tempo é outro, já não faz sentido serdes meus discípulos, quando todos devemos ser discípulos d'Ele, Aquele sobre Quem desceu o Espírito Santo. Os discípulos ouvem-no, deixam-no e passam a seguir Jesus. Veja-se a sequência de testemunho. João dá testemunho de Jesus. Comunica aos Seus discípulos Quem é o Messias. E os discípulos, escutam e fazem uma escolha.
       Duas atitudes nos são sugeridas: sermos testemunhas, em palavras e obras, de Jesus, e como João apontarmos sempre para Ele que está no MEIO de nós; como discípulos, sermos ouvintes da Palavra de Deus, para nos pormos a caminho, seguindo atrás de Jesus.
       2 – Jesus volta-Se e vê-nos. Vai à frente, mas não indiferente. Ele sabe que O seguimos, que O procuramos, e que podemos perder-nos. Seguindo-O de perto, decalcando as Suas pegadas, podemos escutar a Sua voz: «Que procurais?». E teremos então oportunidade de nos aproximarmos mais: «Rabi – que quer dizer ‘Mestre’ – onde moras?».
       Tratamo-l'O por Mestre, reconhecendo que podemos aprender muitas coisas com Ele. Mas Ele, por sua vez, surpreende-nos, não começa por nos instruir, nos ditar pensamentos, ou balizar os mandamentos para sermos seus discípulos: «Vinde ver». A resposta de Jesus é um convite para entrarmos em Sua casa. Ele quer ser a nossa morada. Quer-nos a morar com Ele. Só assim o conheceremos, só assim O seguiremos, só assim podemos transparecê-l'O.
       O encontro com Jesus tem hora marcada. Eram quatro horas da tarde. O pormenor temporal que o evangelho de São João nos dá é significativo. Aquele encontro não é abstrato, desligado da vida, imaginável. É real, como real são os discípulos que seguem Jesus. Um dos que foram ver onde Jesus morava e ficaram com Ele nesse dia é André, irmão de Simão Pedro.
       O encontro com Jesus muda-nos. Não basta saber alguma coisa sobre Ele. É importante. É o primeiro passo. Depois, segui-l'O pelo caminho, permanecendo junto d'Ele, na Sua casa. E se Ele se torna a nossa morada, o inevitável acontece: não podemos calar o que vimos e ouvimos.
       André vai procurar o seu irmão e diz-lhe: «Encontrámos o Messias» – que quer dizer ‘Cristo’ –; e levou-o a Jesus. Atente-se no pormenor: André não diz muitas coisas sobre Jesus, nem tenta convencer Pedro, simplesmente o leva a JesusO testemunho sobre Jesus é fundamental, pois não podemos seguir e amar o que desconhecemos. Cada um de nós ouviu falar de Jesus, e alguém nos levou a Ele. O encontro pessoal com Jesus não é dispensável. Lembremo-nos da Samaritana que vai à cidade anunciar que encontrou o Messias. Na volta, os que vieram com ela, dizem claramente: Já não é pelas tuas palavras que acreditamos; nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é verdadeiramente o Salvador do mundo (Jo 4, 42).
       3 – Dá-se o encontro de Jesus com Pedro. E mais uma vez somos surpreendidos. Ele precede-nos. Sabe quem somos, trata-nos pelo nome. O Seu olhar vai ao fundo de nós, onde Ele nos descobre e nos desconcerta. Jesus fita os olhos em Simão e diz-lhe: «Tu és Simão, filho de João. Chamar-te-ás Cefas» – que quer dizer ‘Pedro’.
       E tudo muda de novo. És Simão mas chamar-te-ás Cefas, serás Pedro, pedra, rocha sobre a Qual edificarei a minha Igreja. Sublinhe-se desde já que a Igreja é de Cristo, não de Pedro. É Ele que a edifica, mas conta com Pedro e conta connosco. A pedra angular é Jesus. Pedro é, ainda, uma pedra a trabalhar, para se tornar Pedra firme sobre a qual Jesus edifica a Sua Igreja. Ou como refere D. António Couto, Bispo de Lamego, partindo do significado de Cefas, Pedro é sobretudo "a rocha escavada, oca, espécie de gruta que serve de lugar de refúgio e acolhimento, onde os pássaros fazem os seus ninhos, os animais guardam as suas crias e os homens se refugiam em caso de guerra: não é sólido, mas dá solidez e proteção a uma vida nova". Rocha firme mas sobretudo rocha-ventre, que gera e acolhe a vida. Assim há de ser a Igreja: proteger, potenciar novas vidas. É a tarefa de todo o cristão, de todos os que se deixam encontrar por Jesus e Se deixam ver pelo Seu olhar.

       4 – Se o evangelho nos traz a vocação (chamamento) dos primeiros apóstolos, a primeira leitura presenteia-nos com o chamamento (chamamento) de Samuel.
       Samuel dorme no templo, lugar de encontro com Deus. Ali está a arca da Aliança. Para os cristãos a Arca da Aliança é a Igreja, ou o Corpo de Jesus que é a Igreja. Também Maria pode ser reconhecida – Primeira Igreja – como a Arca da Aliança. Na Arca, encontra-se a Lei de Deus dada ao Povo por Moisés. No nosso caso, a Arca traz-nos o próprio Deus, traz-nos Jesus. Samuel (= Deus chama) está bem perto de Deus e, por conseguinte, repousa, dorme tranquilo. Estamos perto de Deus, sentimo-nos tranquilos na Sua presença? Escutamos a Sua voz? Estamos pacificados quando sabemos que Ele está por perto?
       "O Senhor veio, aproximou-Se e chamou como das outras vezes: «Samuel, Samuel!» E Samuel respondeu: «Falai, Senhor, que o vosso servo escuta». Samuel foi crescendo; o Senhor estava com ele e nenhuma das suas palavras deixou de cumprir-se".
       Deus chama-nos mas nem sempre discernimos a Sua voz. Também pode acontecer que outras vozes nos desviem da de Deus e nos confundam. A comunidade é uma ajuda preciosa. Ajuda a comunidade. Heli vai percebendo que é Deus quem chama Samuel. Este ainda não conhecia o Senhor. E como poderia conhecer o Senhor se ainda não lhe tinham falado explicitamente d'Ele?! Mais um incisivo para nós: como Samuel ponhamo-nos à escuta de Deus e da Sua Palavra; como comunidade crente, demos testemunho diante dos outros deste Deus que nos fala ao coração, que está bem próximo de nós, para que os outros possam deixar-Se encontrar por Ele, perceber a Sua voz, e escutar o Seu chamamento.

       5 – O Templo no Qual encontramos a Deus, é Jesus. Ele é o verdadeiro Templo de Deus. E com Ele também nós nos tornamos templos, lugares de encontro com os outros e com Deus. Não esqueçamos que o Templo não é para Deus. O Templo é para nos encontrarmos com Deus. Mas também com os outros. Como lugar físico, sagrado, casa de oração e de comunhão, faz-nos olhar para Deus, colocando-nos em atitude de escuta, de contemplação, de diálogo, mas sintoniza-nos com outros que rezam como nós, que procuram, que escutam, que suplicam, que agradecem. Se rezamos ao mesmo Deus, unimo-nos entre nós.
       O Apóstolo lembra-nos que o nosso encontro com Deus não é abstrato, mas corpóreo. O romantismo de uma vida meramente espiritual não toca a realidade e se não toca a realidade não a salva. Ora, somos pessoas, de carne e osso, pecadores, frágeis como os vasos de barros, mas é AQUI e AGORA, no nosso corpo, na nossa vida inteira, que Deus nos encontra. Como víamos no Evangelho, e na primeira leitura, Deus tem hora marcada connosco, chama-nos pelo nome, num lugar determinado, no caminho, ou em Sua casa. Sigamo-l'O à Sua morada, para aprendermos d'Ele, para nos alimentarmos à Sua mesa, para O comunicarmos.
       Santificamo-nos na nossa corporeidade: "O corpo não é para a imoralidade, mas para o Senhor, e o Senhor é para o corpo. Não sabeis que os vossos corpos são membros de Cristo? Aquele que se une ao Senhor constitui com Ele um só Espírito. Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós e vos foi dado por Deus? Não pertenceis a vós mesmos, porque fostes resgatados por grande preço: glorificai a Deus no vosso corpo".
       O seguimento de Cristo, a adoração de Deus, não é abstrata, concretiza-se em nós, na nossa vida, na história e no tempo, e não há nem tempo nem história nem templo sem o corpo, o nosso corpo, a nossa vida humana.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano B): 1 Sam 3, 3b-10. 19; Sl 39 (40); 1 Cor 6, 13c-15a. 17-20; Jo 1, 35-42.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

D. António Couto: quando Ele nos abre as Escrituras - B

D. ANTÓNIO COUTO (2014). Quando Ele nos abre as Escrituras. Domingo após Domingo. Uma leitura bíblica do Lecionário. Ano B. Lisboa: Paulus Editora. 400 páginas.
       Um ano antes, D. António Couto, Bispo da Diocese de Lamego, ofereceu-nos, em livro a leitura bíblica do lecionário referente ao ano A, juntando-lhe um estudo sobre São Mateus, então o evangelista daquele ano. No novo ano litúrgico, seguindo a mesma lógica e preocupação, a leitura bíblica do Lecionário do Ano B, a ser acompanhada de um estudo sobre São Marcos, evangelista principal deste ano.
       O livro é um excelente hino à Palavra de Deus proclamada neste ano litúrgico que se iniciou com o primeiro domingo do Advento e leva já alguns domingos subsequentes. Reconhecido como "especialista" em Sagrada Escritura, D. António faz jus a esse reconhecimento. As reflexões publicadas no seu blogue oficial, na página da Diocese de Lamego no Facebook, e com outras partilhas em outras tantos lugares da Rede digital, mostram como "um especialista" é capaz de chegar a ser simples e acessível, ainda que em algumas situações se socorra do hebraico, do grego, ou de outras linguagens.
       Semana após semana é possível seguir as sugestões que veicula disponibilizando o comentário às leituras de domingos e dos dias santos, ou dias especiais, seja para os que preparam Homilias, seja para quem deseja preparar bem o Domingo, Dia do Senhor. O blogue (MESA DE PALAVRAS) facilita atualizar, ratificar, limar arestas, para que o comentário seja intenso e nos comprometa mais com a palavra. O livro... é sempre um livro, fácil de manusear, criando mais atenção, criando uma disponibilidade maior para ler, reler, sublinhar.
       Só depois de lido é que poderá sugerir-se o que se leu, ainda que no caso presente o autor seja garantia da qualidade dos comentários, pistas de reflexão, indicações de leitura. Debruçando-se sobre a liturgia de cada Domingo, solenidade ou festa litúrgica, será bom ler o respetivo comentário na semana ou dias precedentes a que se refere. Lê-lo de fio a pavio permite ter uma visão ampla do ano litúrgico. E, por outro lado, começando a ler parece quase um romance que se desenrola, queremos saber mais, descobrir mais coisas, ter uma visão aprofundada, onde transparece o estudo, dedicação, a oração, a fé, o compromisso com a Igreja, com sua a missão evangelizadora.
        Logo na apresentação, D. António dá pistas sobre o que se pretende com esta obra: "oferece uma viagem e uma visita guiada pelos textos bíblicos dos domingos, solenidades e festas ao longo do ano B... É a estrada bela, e é andando nela que se encontra repouso para a vida (Jr 6, 16). Encontramos lume e sentido, para voltar à estrada de Emaús, a quem já ardia o coração (Lc 24, 32). É a estrada que desce de Jerusalém para Gaza. A estrada é no deserto (Atos 8, 26), como a de Isaías 35, 8; 43, 19, mas pode sempre encontrar-se nela o sentido e a água (Atos 8, 35-36). É a estrada de Damasco, em que podemos sempre cair de nós abaixo e ouvir chamar o nosso nome de uma forma nova e diferente (Atos 9, 4; 22, 7; 26, 14). É a estrada que se abre à nossa frente, sempre que ouvimos Jesus dizer: «Segue-me!» ou «vai»! A viagem é longa e sentida".
       Logo de seguida D. António Couto fala no estilo que poderá ser verificado ao longo das páginas seguintes: "O estilo é o de sempre. A substância é bíblica e litúrgica, com tempero teológico, literário, simbólico, cultural, histórico, arqueológico. Fui-o escrevendo com gosto, pensando em todos aqueles que gostam de saborear os textos bíblicos que a Liturgia nos oferece. Pensei sobretudo naqueles que domingo após domingo, têm a responsabilidade de abrir as Escrituras à compreensão dos homens e das mulheres, jovens e crianças, que domingo após domingo, entram nas nossas igrejas".
       Uma das palavras que D. António utiliza amiúde para nos apresentar a beleza e a riqueza de alguns textos é FILIGRANA. Diríamos o mesmo deste livro que nos oferece: são páginas de pura filigrana, fios de ouro que nos entrelaçam na vida, na missão de Jesus, na Sua oração, nos Seus gestos, nos Seus encontros, desafios, na Sua vida por inteiro, com fios entrelaçados a toda a Sagrada Escritura, a civilizações diferentes, de diferentes épocas, socorrendo-se de um manancial imenso de recursos.. A linguagem de D. António é poética, faz-nos rimar a vida com a Escritura. É mais um livro extraordinário.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Papa FRANCISCO - o dinheiro é um instrumento...

       "Uma ausência de poder económico significa irrelevância a nível político, social e até humano. Quem não possui dinheiro é apenas considerado na medida em que pode servir para outros objetivos. Há muitas pobrezas, mas a pobreza económica é a que é vista com mais horror.
       O dinheiro é um instrumento que de algum modo - como a propriedade - prolonga e acresce as capacidades da liberdade humana, consentindo-lhes atuar no mundo, agir e dar fruto. Em si próprio, é um instrumento bom, como quase todas as coisas de que o homem dispõe: é um meio que alarga as nossas possibilidades. Contudo, este meio pode virar-se contra o homem.
       "Na origem, o homem é pobre, é necessitado e indigente. Quando nascemos, para viver precisamos do cuidado dos nossos pais, e assim também em cada uma das épocas e etapas da vida nunca nenhum de nós se conseguirá libertar totalmente da necessidade e ajuda dos outros, nunca será capaz de erradicar de si próprio o lunute da impotência perante alguém ou alguma coisa. Também esta é uma condição que caracteriza o nosso ser 'criaturas': não nos fizemos a nós próprios e sozinhos, não podemos dar-nos tudo o que precisamos. O reconhecimento desta verdade convida-nos a permanecer humildes e a praticar com coragem a solidariedade, como uma virtude indispensável ao próprio viver.
       Em qualquer caso, dependemos de alguém ou de alguma coisa. Podemos viver isto como uma debilidade ou como uma possibilidade, como um recurso para ajustar contas com um mundo onde ninguém pode prescindir do outro, onde todos somos úteis e preciosos para todos, cada um a seu modo...
       Só quando o homem se concebe não como um mundo isolado, mas como alguém que, pela sua natureza, está ligado a todos os outros, originalmente tidos como 'irmãos', é possível uma práxis social onde o bem comum não seja uma palavra vazia e abstrata!

Prefácio do livro: GERARD-LUDWIG MÜLLER (2014).

sábado, 10 de janeiro de 2015

Festa do Batismo do Senhor - 11 de janeiro de 2015

       1 – Os Céus são-nos abertos completamente em Jesus Cristo. Pelo nascimento, que ainda agora celebrámos. Pela Sua vida. A inteira vida de Jesus. Pela Sua paixão. Inteira paixão por nós, pela humanidade inteira. Os Céus estão escancarados pela Ressurreição de onde vem toda a LUZ, intensa, fulgurante, mais penetrante que a espada de dois gumes, é uma LUZ que chega ao mais profundo do nosso coração. A vastidão do Céu – na expressão feliz de Bento XVI – abarca o mundo inteiro.
       Hoje Jesus aproxima-Se de João para ser batizado e logo o Céu desce à terra e a voz do Pai ressoa nos nossos ouvidos, com ressonância indelével nosso coração: «Tu és o meu Filho muito amado, em Ti pus toda a minha complacência». Deus reconhece e faz ouvir o amor da Sua eleição. E nós estávamos lá, no Jordão e não podemos ignorar o que ouvimos. Mais tarde, a mesma voz, falará para nós e para nos dizer o que temos de fazer: Este é o Meu filho muito amado. Escutai-O (cf. Lc 9, 35).
       Logo ali, ao presenciarmos a cena e ao escutarmos Aquela voz que vem do alto, que vem do Céu, ficamos a saber que algo de novo começa a surgir, a manifestar-se. Vamos ver mais de perto. João já nos havia precavido: «Vai chegar depois de mim quem é mais forte do que eu, diante do qual eu não sou digno de me inclinar para desatar as correias das suas sandálias. Eu batizo na água, mas Ele batizar-vos-á no Espírito Santo».
       E assim aconteceu. Jesus não se fez rogado e quando o tempo amadureceu, veio ter com João ao Jordão. E vimos que ao subir da água, os Céus se rasgaram e o Espírito desceu sobre Ele, e logo aquela voz nos deixou atordoados, sem saber o que dizer e o que fazer, sem saber o que sentir. És o meu Filho muito amado! Dirige-se a Jesus, mas n’Ele se dirige a cada um de nós.
       2 – O profeta Isaías, profeta do Advento, do Natal, da Quaresma, profeta da Paixão que nos traz Deus ao coração, apresenta mais uma bela página de incentivo, de confiança, de desafio. O Senhor Deus faz saber, através de Isaías, que o Seu Ungido está à porta:
«Eis o meu servo, a quem Eu protejo, o meu eleito, enlevo da minha alma. Sobre ele fiz repousar o meu espírito, para que leve a justiça às nações. Não gritará, nem levantará a voz, nem se fará ouvir nas praças; não quebrará a cana fendida, nem apagará a torcida que ainda fumega: proclamará fielmente a justiça. Não desfalecerá nem desistirá, enquanto não estabelecer a justiça na terra, a doutrina que as ilhas longínquas esperam. Fui Eu, o Senhor, que te chamei segundo a justiça; tomei-te pela mão, formei-te e fiz de ti a aliança do povo e a luz das nações, para abrires os olhos aos cegos, tirares do cárcere os prisioneiros e da prisão os que habitam nas trevas».
       Página bela e intensa, pura filigrana, como diria o nosso Bispo D. António Couto, em que se visualiza a fonte do amor, o amor primeiro. Deus que nos precede, n'Ele a origem do amor, primeiro e verdadeiro, único e perfeito. Faz repousar o Seu Espírito no Filho que nos dá, a Luz que ofusca no instante inicial mas que logo purifica o nosso olhar. E quando olhamos a vida e os outros com o mesmo Olhar com que Deus nos ama, então ficamos mais próximos uns dos outros, reconhecemo-nos e acolhemo-nos irmãos e amamo-nos como Ele nos ama.
       A caracterização do Messias é visível e confirmada em Jesus. O testemunho dos Céus na hora do batismo é antecipado pelo Profeta. O Ungido não se imporá pelo poder, pela majestade, pela força ou pela violência, mas pela paz, pelo amor, pela persistência no caminho da justiça e do bem. É o Senhor que O modela como luz das nações, libertação dos oprimidos e dos que vivem nas trevas. Ele e nós que n'Ele somos acolhidos, reconhecidos e considerados irmãos. Ele é o Cordeiro que carrega e tira os pecados do mundo. Nós, com Ele, carregamo-nos uns aos outros para nos aliviarmos mutuamente dos fardos que por vezes pesam sobre cada um.
       3 – «O Senhor abençoará o seu povo na paz».
       Também a bela melodia do Salmo faz sinfonia com o Ungido do Senhor, que vem para amar, libertar, para dar a Vida por nós e nos salvar, nos guiar, nos elevar com Ele para junto do Pai. O Deus da Paz nos abençoe e proteja, nos conduza por águas calmas e que no caudal da vida, do tempo e da história, nos faça avançar com os outros, nunca contra eles, com mais amor para construirmos a Sua verdadeira família, que começamos aqui na terra, no tempo que Deus nos dá.

       4 – Depois de tantas vicissitudes, eis o imponente testemunho de São Pedro. A Luz das Nações, o Filho de Deus, revelou-Se em toda a plenitude na Morte e sobretudo na Ressurreição. Essa luz intensa e imensa invade agora o coração e a vida de Pedro e dos apóstolos e dos discípulos e de todos nós. A alegria sobrepõe-se ao medo; a luz afasta as trevas; o amor aproxima-nos esboroando egoísmos; a identificação com Aquele que dá a vida por nós, o Filho Amado do Deus Altíssimo, leva-nos a imitá-l'O, no perdão, no amor e na paz.
       Ponhamo-nos à escuta, no meio da multidão, como havia feito Jesus quando vai ter com João ao Jordão para por ele Se fazer batizar. Não passa à frente ou ao lado, mas está no MEIO do povo, com o Povo e com o Povo caminha até João. Para que a justiça se faça e se efetive a Sua identificação connosco, Ele faz o que nós fazemos, Ele vive connosco, para que depois nós aprendamos a viver como Ele e a fazer como Ele faz.
       No meio da multidão, Pedro toma a palavra, sem medo nem travo na voz, com olhar fundo e terno, e a voz bem colocada e audível, entoada, para que as palavras ecoem em nós. Pedro, aquele que antes, por medo e por vergonha, se tinha recusado a ser associado a Jesus, associa-se agora com todo o coração:
«Na verdade, eu reconheço que Deus não faz aceção de pessoas, mas, em qualquer nação, aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável. Ele enviou a sua palavra aos filhos de Israel, anunciando a paz por Jesus Cristo, que é o Senhor de todos. Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo que João pregou: Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio, porque Deus estava com Ele».
       O amor de Deus é para todos. Não escolhe nem idade, nem sexo, nem nacionalidade, não escolhe brancos ou pretos, homens ou mulheres, é para todos. Em Jesus todos somos irmãos. Um povo, uma nação cuja aliança se expande a todo o mundo. Deus não faz aceção de pessoas, como tantas vezes a nós nos acontece ou deixamos acontecer.
       5 – Depois do Batismo, e durante toda a vida, Jesus passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos. Deus estava com Ele. E Ele transparecia Deus, nas palavras, nos gestos, no olhar, nos prodígios realizados, nos silêncios, na oração, a caminhar, e em todos aqueles e aquelas que encontrava no Seu caminho, todos aqueles de quem se aproximava com ternura e compaixão.
       Deus está (sempre) connosco. Com e em Jesus somos batizados. E como passamos? Fazendo o bem? Curando todos os que à nossa volta estão oprimidos? Sentimo-nos ungidos e enviados? Preenchemos os nossos dias com a presença de Deus? O quê ou Quem transparecemos na nossa vida?

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano B): Is 42, 1-4. 6-7; Sl 28 (29); Atos 10, 34-38; Mc 1, 7-11.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

PAGOLA - O CAMINHO aberto por JESUS - Marcos

       "O Caminho aberto por Jesus - Marcos", é o título de um interessantíssimo livro de José António Pagola, cuja publicação em Portugal é da responsabilidade da Gráfica de Coimbra 2 (Coimbra 2012).
       O evangelista que nos acompanha, no ciclo de leituras do Ano B, que termina com a solenidade de Cristo Rei, é São Marcos, o primeiro, e talvez por isso, o mais rudimentar, mais genuíno, mais direto, mais acessível, e mais perto (cronologicamente) de Jesus.
       Nesta obra, o autor apresenta o texto do evangelho, contextualizado, procurando situar-nos no tempo de Jesus, no ambiente da época, deixando vir ao de cima a delicadeza de Jesus, a sua bondade, a atenção aos mais desvalidos, a inversão de todos os estereótipos sociais e religiosos, interessando-se pelas pessoas mais insignificantes. O autor procura lançar questões à Igreja e aos cristãos, à sociedade deste tempo e desafiar a uma atitude que assume a Mensagem cristã, em definitivo, sem preconceitos, e sem receio, abrindo para a esperança de Deus.
       Veja-se a apresentação feita pelo próprio autor:

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Gerhard-Ludwig Müller - POBRE PARA OS POBRES

GERARD-LUDWIG MÜLLER (2014). Pobre para os pobres. A Missão da Igreja. Apelação: Paulus Editora. 184 páginas.
       Um dos mais recentes livros publicados do Cardeal alemão Gerard Müller, um dos sucessores do Cardeal Joseph Ratzinger (Bento XVI) à frente a Congregação para a Doutrina da Fé, tendo escolhido precisamente por Bento XVI, em junho de 2012 e posteriormente confirmado pelo Papa Francisco. Eleito Papa, o Cardeal Ratzinger/Papa Bento XVI chamou o Cardeal norte-americano William Joseph Levada, que esteve como Prefeito desta Congregação de 2015 a junho de 2012, sucedendo-lhe então outro cardeal alemão, Gerard Müller.
       Não é o lugar que faz os homens. E certamente não têm a mesma sensibilidade. Foram escolhidos precisamente pela firmeza da doutrina, pela integridade da fé, pela capacidade de trabalho, pela humildade e abertura diante dos outros, pelo saber mas sobretudo pela fé. O mundo teve alguma dificuldade em conhecer o então Cardeal Ratzinger, com um Homem íntegro, homem de fé, homem de Deus, com uma enorme capacidade de tralhado humilde ao serviço da Igreja, ao serviço do Evangelho, respondendo com amizade ao agora Santo João Paulo II, estando sempre por perto, dialogando, insistindo, não desistindo às primeiras dificuldades, integrando opiniões e visões diferentes. E neste livro, evocativo da Teologia da Libertação, que voltou às primeiras páginas com a eleição do atual Papa, latinoamericano, vê-se como o Cardeal Ratzinger/ Papa Bento XVI soube acolher a sensibilidade da teologia preconicada por Gustavo Gutiérrez, tornando-se ouvinte e estudioso, como Prefeito e depois como Papa, com contributos extraordinários nas intervenções feitas, na Congregação, e mais recentemente na Assembleia da CELAM, em Aparecida, cuja leitura clarificadora o pai da Teologia da Libertação sublinha precisamente o contributo de Bento XVI e cujo texto se pode ler nesta obra de Gerard Müller.
       Além do texto principal do Cardeal Müller, dois textos de Gustavo Gutiérrez: A opção preferencial pelos pobres em Aparecida; A espiritualidade do Acontecimento conciliar - nestes textos Gutiérrez reflete no fundamento da Teologia da Libertação, a opção de Jesus, que encarna para redimir, para salvar, para libertar. É o que Jesus faz, é o que tem de fazer a Igreja. A opção preferencial é inclusiva, universal, não exclui ninguém, mas centra-se preferencialmente nos excluídos, desprezados, pobres, mendigos, explorados... exatamente como Jesus fazia. No segundo texto, a ambiência conciliar que compromete a Igreja com os pobres, com a transformação do mundo, num compromisso social efetivo. É um ambiente que se respira antes e no concílio ainda que depois encontre muitos obstáculos. Outro texto agrafado ao livro é da autoria de Josef Sayer que nos apresenta a história de encontro, de amizade e de reflexão conjunta do Cardeal Müller e de Gustavo Gutiérrez.
       O Prefácio ao livro é do Papa Francisco - simples, direto, desafiador. O Papa Francisco cresceu e comprometeu-se em concreto com o ambiente onde nasceu e floresceu a Teologia da Libertação, conhece os intervenientes, conhece as dificuldades dos pobres latino-americanos e as comunidades de base, movimentos, párocos e leigos que se comprometeram seriamente com o mundo da pobreza. Foi Relator da Assembleia de Aparecida.
       Este é mais um contributo generoso do cardeal alemão, atual Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, para a relfexão teológica. A amizade com Gustavo Gutiérrez levou à America latina, ao apostolado concreto no meio de populações pobres, dormindo entre eles, comendo como eles, vivendo nas mesmas condições. Desta forma, pôde aliar a curiosidade intelectual, a investigação e reflexão teológica, com o saber prático, real, concreto.
       Como é habitual, quando mais profundo, sábio, estudioso é um autor, mais acessível se torna para os seus leitores e/ou para os seus ouvintes. Como outros textos já citados deste autor, a sua leitura é acessível, envolvendo-nos na reflexão.

Outros textos por aqui recomendados:
G. GUTIÉRREZ e G. MÜLLER. 
Cardeal Gerhard Müller - A verdade leva-nos aos pobres.
Gerhard-Ludwig Müller - A ESPERANÇA DA FAMÍLIA.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Frei Filipe - Arrependei-vos e acreditai no Evangelho

FREI JOSÉ FILIPE RODRIGUES, op (2014). Arrependei-vos e acreditai no Evangelho. Homilias para o Ano B. Cascais: Lucerna. 168 páginas.
       Há pouco tempo publicado, em novembro, bem a tempo de com este trabalho se entrar no novo ano litúrgico B, com o ciclo de leituras de domingos e dias santos que privilegia o Evangelho de São Marcos a quem o autor pede emprestado o título para agregar estas homilias, originalmente proferidas há três anos, isto é, no mesmo ciclo de leituras do Ano B, maioritariamente na Paróquia de Campo Grande, onde o Frei Filipe, da Ordem dos Pregadores (op), dominicano, colabora regularmente.
        O livro viria a ser apresentado na Paróquia de Almacave, Diocese de Lamego, no dia 15 de dezembro, tendo como orador principal D. António Couto, que recomendou a leitura a todos, particularmente aos que têm a responsabilidade de preparar as homilias, os sacerdotes, apresentando o texto como uma trabalho diligente, que tem muito trabalho escondido, oração, leitura, meditação. São homilias, propriamente ditas, ainda que a oralidade do seu autor, neste como em outros casos, ultrapasse as linhas escritas. São homilias simples, de leitura fácil, acessível e que se centram sobretudo nos três textos principais da Liturgia da Palavra, primeira e segunda leituras, e Evangelho. A indicação das respetivas Leituras, salmo incluído, surgem referenciadas no início de cada homilia.
        A amizade e a ligação virtual, por esta rede, esta aldeia global, com pontos de contacto, tendo em conta as raízes do frei Filipe, que sublinhou na apresentação da sua obra, levaram-me à cidade de Lamego para encontrar pessoal o seu autor, tomando contacto mais direto com este trabalho meritório. Como acompanho as suas reflexões, litúrgicas e/ou pastorais, dia a dia, culturais, sociais, já sabia, antes participar nesta apresentação ou de ler/meditar o Livro, que se lê com agrado, é acessível, faz diversas pontes que nos levam aos dominicanos, mas também a outros autores, outras andanças, poetas, escritores, pinturas, quadros... acontecimentos, monumentos.
       Anteriormente recomendámos aqui RETALHOS DA VIDA DE UM PADRE. É uma leitura envolvente, a vida de um frade/padre, inquietações, meditações, encontros com a alegria e com o sofrimento, com a vida e com o mistério da morte.
       Desta feita, recomendámos agora este livro de Homilias, que publica o trabalho rezado, meditado, escrito, proferido. A leitura pode fazer-se pelo menos de duas formas: como leitura espiritual, de fio a pavio. Foi o que fizemos, ainda que com a preocupação de o recomendarmos. só o poderíamos fazer depois de o lermos. Neste caso dá-nos também uma visão de conjunto de todo o ano litúrgico. A segunda forma: a fim de preparar cada Eucaristia de domingo seguinte, ler e meditar o texto correspondente. Dessa forma, a disponibilidade para participar na Eucaristia será mais motivadora e mais consciente.
       Lê-se com agrado. Ajuda a refletir. Faz-nos entrar nas narrações do Evangelho. Faz-nos ver melhor Jesus, acolhê-l'O, senti-l'O mais próximo. Por outro lado, a abertura para este tempo, com acontecimentos e o clima social e cultural atuais, nos quais a Palavra de Deus se reflete para converter. Como tinha referido o Frei Filipe, na apresentação em Lamego, a leitura atempadamente,, no domingo à noite para o domingo seguinte, ajuda a ajuntar acontecimentos, reflexões e outras leituras. Em algumas Homilias, o Frei Filipe presenteia-nos com pérolas de pensadores, poetas, escritores, ou com quadros artísticos, outros tempos e lugares e outras sensibilidades: um coral de Bach; uma resposta de Gandhi; um ou outro poema de Sophia de Melo Breyner; um comentário do Papa Leão Magno; reflexão de São Máximo de Turim; uma ou outra intervenção do Papa Bento XVI; o aggiornamento do Vaticano II; o tempo de Jesus e dos apóstolos e o nosso tempo.
       Do primeiro Domingo do Advento ao último domingo do tempo Comum - Solenidade de Cristo Rei, passando pelas comemorações mais importantes, Natal e Páscoa, Pentecostes, Corpo de Deus, Todos os Santos, Assunção de Nossa Senhora, Imaculada Conceição.
       Aí está um subsídio importante, acessível, de agradável leitura, envolvente, que nos pode ajudar a preparar homilias, se for o caso, ou a preparar cada domingo.
"O Evangelho de hoje diz-nos que não devemos contornar as situações desagradáveis, não devemos fingir que elas não aconteceram. O Evangelho diz-nos que Aquele que tudo pode, Aquele que tem poder sobre tudo e sobre todos, o nosso Deus está na nossa barca. Com Ele o vento acalma, as ondas deixaram de ser perigosas e a nossa barca viaja no sossego e na alegria da Sua presença" (p. 100).