segunda-feira, 30 de março de 2015

Caminhada Quaresmal 2015: início da Semana Santa

DOMINGO DE RAMOS NA PAIXÃO DO SENHOR
Texto da Caminhada Quaresmal, nas paróquias de Pinheiros e de Tabuaço, assinalada por um gesto/símbolo, sublinhando um aspeto do Evangelho do respetivo domingo. Em Domingo de Ramos na Paixão do Senhor, a Cruz, expressão do Amor de Deus manifestado em Jesus Cristo. Em Tabuaço, a capa e a cruz... em Pinheiros, a Cruz.
(Paróquia de Tabuaço)
(Paróquia de Pinheiros)

Com o Domingo de Ramos iniciamos a Semana Maior dos Cristãos, mistério pascal da morte e ressurreição de Jesus, Amor divino que nos assume na nossa fragilidade humana, na nossa caminhada pela história e pelo tempo.

CAPA – No primeiro momento, a entrada triunfal de Jesus na cidade santa de Jerusalém. À passagem de Jesus, várias pessoas lançam capas e ramos ao chão, reconhecendo-O como Messias, o Rei de Israel.
Seguindo o gesto daquela multidão, que saibamos amaciar o chão dos nossos irmãos para que sintam mais suaves as pedras que encontram pelo caminho. Podemos não evitar os tropeços ou os obstáculos, mas podemos estender a capa e a mão que os outros caminhem confiantes.

CRUZ – Quando Eu for levantado da terra, atrairei todos a Mim.
A Cruz é o sinal maior do amor de Deus que Se mostra em Jesus. Amor levado às últimas consequências, até à última gota de sangue. 
Que cada um de nós, atraído por tão grande amor, atraído pela Cruz de Jesus que nos abraça, possa tornar-se discípulo missionário, acolhendo a Mensagem e a Vida de Jesus, que nos é dada, e anunciando a todos a alegria do Evangelho.
A Cruz abarca a nossa história por inteiro. O AMOR de Deus que se firma na terra e se levanta, levantando-nos para a amizade com Deus e com os que seguem o caminho connosco.´
Professemos a nossa Fé:Creio em Um só Deus…

sábado, 28 de março de 2015

Domingo de Ramos na Paixão do Senhor (B) - 29.março

       1 – A vida não é a preto e branco. Afirmação já muito batida. Melhor, que a vida não seja cinzenta! São diferentes as cores e as matizes dos nossos dias. Como o tempo, também na nossa vida, há dias de sol e dias nublosos, dias de chuva e dias preguiçosos.
       A celebração do Domingo de Ramos apresenta um quadro completo, fazendo-nos visualizar, através de momentos e de intervenientes variados, diversas faces da nossa existência.
       Há uma multidão de gente pobre e humilde, trabalhadora e cheia de fé, que acompanha Jesus, da Galileia para Jerusalém, do mundo para a cidade santa. A multidão gera alvoroço. Há um murmúrio que se eleva, aclamando e reconhecendo Jesus como o Messias, o Filho de David, o Rei de Israel, o Bendito que vem em Nome do Senhor.
       À Sua passagem depõem capas e ramos, para que o chão de Jesus seja macio e, sobretudo, como reconhecimento da Sua realeza. É um Rei sem coroa e sem exército, sem pompa nem circunstância. Não vem armado nem ostenta riqueza. Não vem no alto de um cavalo de combate, mas quase com os pés no chão, num jumentinho, filho de uma jumenta (cf. Mc 11, 1-10).
       A voz sobe de tom e o entusiasmo à volta de Jesus faz-nos olhar na Sua direção.
       Os discípulos estão misturados entre aquela multidão. Passam despercebidos. Seguem no mesmo passo ligeiro, empolgados com tão grande manifestação de afeto para com o Seu Mestre e Senhor. Jesus já os tinha precavido dos tempos que lá vinham. Mas, por alguns momentos, eles esquecem o anúncio da paixão e os sinais que evidenciam o perigo iminente.
       2 – Algumas horas depois, o empolgamento dará lugar ao desencanto, a festa cederá à tristeza, a confiança será substituída pela desilusão.
       Belíssimo o hino que Paulo recolhe na Epístola aos Filipenses e que resume, de forma sublime, todo o mistério da salvação, o abaixamento de Cristo por amor, a Sua filiação e identidade divina, a Sua identificação com a fragilidade e finitude humanas, a glorificação que se realiza através do mistério da entrega na Cruz, o Nome que é elevado acima de todos os nomes, sentando-Se à direita do Pai, de onde nos atrai com a Sua luz, com o Seu olhar: «Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio... tornou-Se semelhante aos homens... humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai».
       3 – «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?». Início do salmo que hoje cantamos e que encontramos nos lábios de Jesus, e no Seu coração, dirigindo o Seu clamor e a Sua confiança para Deus Pai. A oração continua: «Todos os que me vêem escarnecem de mim, / estendem os meus lábios e meneiam a cabeça: / Confiou no Senhor, Ele que o livre, / Ele que o salve, se é meu amigo. / Matilhas de cães me rodearam, / cercou-me um bando de malfeitores. / Trespassaram as minhas mãos e os meus pés, / posso contar todos os meus ossos. / Repartiram entre si as minhas vestes / e deitaram sortes sobre a minha túnica. / Mas Vós, Senhor, não Vos afasteis de mim, / sois a minha força, apressai-Vos a socorrer-me».
       «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?». O final da vida de Jesus ou o início de um tempo novo? As palavras que soam mais alto são as que sugerem revolta, protesto, acusação! Quantas situações na nossa vida em que nos apetece gritar bem alto: Meu Deus, meu Deus, porquê, porquê a mim? Porquê logo neste momento da minha vida?
       O salmo inicia com uma pergunta que pouco a pouco dá lugar a uma súplica confiante: nestes momentos difíceis da minha vida, Senhor, não me abandoneis, pois sois a minha força. É a súplica de um filho a um pai ou a uma mãe. Mais que protesto é um pedido. O fim que se aproxima, aproxima-nos uns dos outros, aproxima-nos de Jesus. «Na verdade, este homem era Filho de Deus». Diz o centurião, mesmo que à procura do significado das palavras que acabou por dizer. No último suspiro, Jesus entrega-Se por nós, entrega-nos ao Pai.
       4 – Umas horas antes, os discípulos tomam consciência que o desenlace da vida de Jesus não vai ser como esperavam. Apercebem-se pela gravidade com que Jesus os olha e pela solenidade com que lhes fala. Há que deixar tudo em pratos limpos, que nada (de importante) fique por dizer, mesmo que só mais tarde, à luz da ressurreição, seja compreensível.
       Como judeus, Jesus e os discípulos vão celebrar a Páscoa, recordando a libertação da escravidão para a liberdade da terra prometida. O ambiente começa a agitar-se. Em Betânia, à mesa, nova oportunidade para Jesus assentar o estômago aos seus discípulos. "Veio uma mulher que trazia um vaso de alabastro com perfume de nardo puro de alto preço". Os discípulos percebem o desperdício mas não a abundância do arrependimento e do amor. Também não percebem, mas Jesus lembra-lhes, que aquela unção antecipa a unção de um corpo que daqui a algumas horas estará no sepulcro.
       Novo golpe. Ao cair da tarde, quando as trevas se adensam, diz-lhes Jesus: «Um de vós, que está comigo à mesa, há de entregar-Me». Como é possível num grupo de amigos, que se consideram irmãos, alguém possa sequer pensar em trair Jesus!
       Logo depois, Jesus antecipa a Sua morte e a Sua ressurreição. «Tomai: isto é o meu Corpo... Este é o meu Sangue, o Sangue da nova aliança, derramado pela multidão dos homens... Não voltarei a beber do fruto da videira, até ao dia em que beberei do vinho novo no reino de Deus».
       Mas antes desse DIA NOVO, a noite prolonga-se no abandono, na traição, na negação. «Todos vós Me abandonareis». Já no horto das Oliveiras, a oração intensa de Jesus. Os discípulos que dormem de cansaço e de medo. A prisão. O discípulo de confiança, Judas, que entrega o Mestre com um beijo. Os açoites, as injúrias e agressões, acusações e falsas testemunhas. Parece que vale tudo para condenar um homem. A negação de Pedro, a passagem de um a outro tribunal, uma outra multidão, cheia de si ou iludida por vãs promessas e por vis mentiras. No Sinédrio, e diante de Pilatos, que se deixa vencer pelo medo e pela ameaça, pois não se vê a perder o seu posto! O julgamento apressado e a fácil condenação à morte. A cruz pesada demais para um homem só, de tal que requisitam Simão de Cirene para ajudar. No alto da Cruz, Jesus olha para nós e puxa o nosso olhar para o Céu. Está rodeado de dois salteadores, como se fora um deles! E mesmo crucificado, a morrer, é insultado.
       Já desfalecido, solta forte grito e morre. A afirmação do Centurião mostra a estupefação diante da valentia com que aquele homem frágil enfrentou todos os que escarneciam d'Ele e a violência com que o faziam. O Seu corpo morto está uma lástima, está irreconhecível.
       Mas ainda há lugar para a generosidade. «José comprou um lençol, desceu o corpo de Jesus e envolveu-O no lençol; e rolou uma pedra para a entrada do sepulcro. Entretanto, Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde Jesus tinha sido depositado». Um último gesto de cuidado.
       5 – Isaías, o profeta do Advento e da Quaresma, dá-nos a chave de leitura para percebermos melhor a vida e a missão do Messias que vem de Deus, como o Emanuel, Deus connosco, Príncipe da Paz, para instaurar um reino de conciliação, de justiça e de paz.
       «O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam».
       O Messias, qual Servo sofredor, cordeiro inocente levado ao matadouro, vem para trazer uma palavra de alento, não respondendo à violência com violência, mas com serviço e perdão. Aí está o retrato de Jesus, o retrato do Ungido (=Messias) de Deus.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (B): Is 50, 4-7; Sl 21 (22); Filip 2, 6-11;Mc 14, 1 - 15,47.

domingo, 22 de março de 2015

Paróquia de Pinheiros: CAMINHADA QUARESMAL

5.º DOMINGO DA QUARESMA
Caminhada Quaresmal nas paróquias de Pinheiros e de Tabuaço, assinalada por um gesto/símbolo, sublinhando um aspeto do Evangelho do respetivo domingo. Neste domingo, o desejo manifestado pelos gregos em ver Jesus (cf. Jo 12, 20-33), com a colocação de GLOBO com o rosto de Jesus. Em Pinheiros a opção por texto/reflexão:

Queríamos ver Jesus.
É um pedido que preenche por inteiro o Evangelho que nos é dito neste Domingo.
Jesus e os apóstolos sobem a Jerusalém, onde se concentra grande número de judeus.
É por ocasião da Páscoa judaica, que faz a memória da libertação do Povo.
Vêm de muitos lugares, das terras próximas, mas também de terras mais distantes.
Alguns vivem no estrangeiro e já nem falam a língua dos pais e, por isso, recorrem a um apóstolo que fala grego, a Filipe.
A fama de Jesus, para o bem e para o mal, já se tinha espalhado.
Como acontece na nossa comunidade, há notícias que correm depressa. 
Aqueles gregos já tinham ouvido falar de Jesus, ou na Grécia, por algum familiar que os visitou, algum comerciante ou no regresso à Judeia.
São muitos os motivos que conduzem a Jesus: curiosidade, ir na onda dos outros, conhecer a proposta de Jesus, ir à procura de um sentido novo para a sua vida.
Ainda que não saibamos as motivações, o pedido é claro e decidido: Queríamos ver Jesus.

COLOCAÇÃO DO GLOBO.

Para prevenir equívocos e evitar falsas esperanças, Jesus fala do que está para vir:
“Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto. Quem ama a sua vida, perdê-la-á, e quem despreza a sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém Me quiser servir, que Me siga, e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo”.
Mais perto, aqueles gregos, mas também os seus discípulos, começam a ver claramente que o projeto de Jesus exige coragem e serviço. Aproximam-se horas difíceis em que Ele será posto à prova. Mas também nós somos postos à prova.
Os gregos queriam ver Jesus. E nós, queremos ver Jesus?
E se estamos com Ele, facilitamos que outros cheguem perto de Jesus, como fez Filipe e André? Ou, pelo contrário, formamos uma barreira com a multidão, impedindo que outros se aproximem de Jesus?

Senhor Jesus, que também eu deseje ver-Te,
na palavra de cada domingo, no pão da Eucaristia, no irmão que puseste ao meu lado.
Que queira seguir-Te, tomando a cruz dos meus dias, e na Tua companhia, descobrir a alegria de ser teu discípulo, testemunhando o Amor que Tu nos trazes, para que outros queiram ver-Te e seguir-Te.

Paróquia de Tabuaço: CAMINHADA QUARESMAL 2015

5.º DOMINGO DA QUARESMA
Caminhada Quaresmal nas paróquias de Pinheiros e de Tabuaço, assinalada por um gesto/símbolo, sublinhando um aspeto do Evangelho do respetivo domingo. Neste domingo, o desejo manifestado pelos gregos em ver Jesus (cf. Jo 12, 20-33), com a colocação de GLOBO com o rosto de Jesus. Em Tabuaço a opção pela encenação do Evangelho.


PERSONAGENS:

Narrador | Jesus | André | Filipe | Gregos | Apóstolos | Multidão | Voz Off


Narrador: Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Naquele tempo, alguns gregos que tinham vindo a Jerusalém para adorar nos dias da festa, foram ter com Filipe, de Betsaida da Galileia, e fizeram-lhe este pedido:

Um grego: «Senhor, nós queríamos ver Jesus».

(Cântico: Queremos ver Jesus…)

Narrador: Havia sempre pessoas a partir e a chegar. Muitas vezes nem tinham tempo para comer ou para descansar. Ainda mais quando se aproximavam os dias de Páscoa. De todo o mundo há pessoas que querem ver Jesus.

GLOBO

Narrador: Filipe foi dizê-lo a André.

Filipe: Há pessoas que querem aproximar-se para ver Jesus.

André: Vamos dizer-lhe.

(Aproximam-se de Jesus e dizem): Mestre, há mais pessoas que querem ver-Te.

Jesus: «Chegou a hora em que o Filho do homem vai ser glorificado. Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto. 

(CÂNTICO: grão de trigo)

Jesus: Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto. Quem ama a sua vida, perdê-la-á, e quem despreza a sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém Me quiser servir, que Me siga, e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo. E se alguém Me servir, meu Pai o honrará. Agora a minha alma está perturbada. E que hei de dizer? Pai, salva-Me desta hora? Mas por causa disto é que Eu cheguei a esta hora. Pai, glorifica o teu nome».

Narrador: Veio então do Céu uma voz que dizia:

Voz Off: «Já O glorifiquei e tornarei a glorificá-l’O».

Narrador: As pessoas não têm a certeza do que aconteceu…

Um jovem: Que foi isto? Ouviste o mesmo que eu?

Outro jovem: Foi um trovão, foi o que eu ouvi!

Terceiro jovem: Foi claramente um trovão…

Primeiro jovem: «Foi um Anjo que Lhe falou». Tenho a certeza.

Terceiro jovem: aproximemo-nos para ouvir o que Ele diz.

Jesus: «Não foi por minha causa que esta voz se fez ouvir; foi por vossa causa. Chegou a hora em que este mundo vai ser julgado. Chegou a hora em que vai ser expulso o príncipe deste mundo. E quando Eu for elevado da terra, atrairei todos a Mim».

Narrador: Falava deste modo, para indicar de que morte ia morrer.

Palavra Salvação

(Novamente o refrão do cântico: queremos ver Jesus)

sábado, 21 de março de 2015

Domingo V da Quaresma - ano B - 22 de março de 2015

       1 – Como o rio que corre para o mar... a vida pública de Jesus aproxima-se do fim, a Quaresma faz-nos caminhar com Ele, em passos decididos, envolvendo-nos com uma vontade férrea de prosseguir, apesar da dor, do sofrimento, do sangue: «Agora a minha alma está perturbada. E que hei de dizer? Pai, salva-Me desta hora? Mas por causa disto é que Eu cheguei a esta hora. Pai, glorifica o teu nome».
       Fazendo memória daqueles dias, a Epístola aos Hebreus acentua a dramaticidade com que Jesus enfrenta o momento mais doloroso da Sua vida: «Nos dias da sua vida mortal, Cristo dirigiu preces e súplicas, com grandes clamores e lágrimas, Àquele que O podia livrar da morte e foi atendido por causa da sua piedade. Apesar de ser Filho, aprendeu a obediência no sofrimento e, tendo atingido a sua plenitude, tornou-Se para todos os que Lhe obedecem causa de salvação eterna».
       O sublinhado feito nesta epístola remete-nos para a oblação de Jesus, para a Sua obediência por amor, pela qual nos redime do pecado e da morte. Deus não O livra do sofrimento, mas, apesar do sofrimento, na oferenda de amor, n'Ele nos garante a passagem desta vida para a eternidade, já experimentável para aqueles que vivem em Cristo.
       Jesus sobe a Jerusalém com os seus discípulos, por ocasião da Páscoa (judaica), vivendo, ensinando, com uma clarividência cada vez maior: «Chegou a hora em que o Filho do homem vai ser glorificado. Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto. Quem ama a sua vida, perdê-la-á, e quem despreza a sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém Me quiser servir, que Me siga, e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo. E se alguém Me servir, meu Pai o honrará».
       São estas as coordenadas dos seguidores de Jesus: amar, servir, dar a vida, gastando-a a favor dos outros, para dar fruto em abundância, em comunhão com Ele, imitando-O.
       2 – Entre a multidão que subiu a Jerusalém para as festas pascais, alguns gregos se destacam, indo ter com Filipe pedem-lhe: «Senhor, nós queríamos ver Jesus». Um pedido que enche todo o Evangelho dito neste dia. Os dizeres de Jesus estão agrafados a este pedido, dizendo a todos, àqueles que estão à volta e àqueles que se aproximam, quais as condições do seguimento e do discipulado.
       Filipe escuta o pedido daquelas pessoas e não se faz rogado. Vai ter com André e juntos vão ter com Jesus, para Lhe darem a conhecer o desejo daqueles homens que vêm de longe. Sublinhe-se deste já como Filipe não se faz estorvo mas é instrumento para chegar a Jesus. Por outro lado, o discipulado envolve os que caminham connosco, não somos discípulos sozinhos. Filipe "arrasta" André, para em conjunto irem até Jesus.
       Mas se Filipe e André são facilitadores da aproximação dos gregos a Jesus, há também aqueles que dificultam o acesso ao Senhor. O pedido denota que há barreiras que impedem um acesso fácil a Jesus. Isso deve-se à multidão e também à língua falada.
       O anúncio da salvação é para todos, e Jesus fala para aquela multidão, para os apóstolos, para aqueles gregos que entretanto engrossam o número dos que estão perto de Jesus e, claro, para nós.
       Como no batismo, como na Transfiguração, ouve-se uma voz que dá testemunho acerca de Jesus: «Já O glorifiquei e tornarei a glorificá-l’O». No batismo, a voz dirige-se a Jesus; na Transfiguração dirige-se aos apóstolos; desta feita é audível pela multidão. O desafio é idêntico, Deus sanciona Jesus. Cabe-nos a nós seguir aquela voz, seguir Aquele de Quem a Voz dá testemunho.
        Uns desculpar-se-ão que não ouviram, ou não perceberam, outros não chegaram a encontrar-se com Jesus, por razões diversas, outros ouviram bem a voz mas não estão preparados para assumir o desafio.
       3 – É neste sentido que vale a pena rogar a Deus para que disponha o nosso coração e assim, iluminados pelo Espírito de Deus, possamos escutar, compreender, assimilar e viver segundo a sua palavra.
       Com o salmista, deixemos que ressoe em nós esta súplica: «Criai em mim, ó Deus, um coração puro / e fazei nascer dentro de mim um espírito firme. / Não queirais repelir-me da vossa presença / e não retireis de mim o vosso espírito de santidade. / Dai-me de novo a alegria da vossa salvação / e sustentai-me com espírito generoso. / Ensinarei aos pecadores os vossos caminhos / e os transviados hão de voltar para Vós».
       Quando os gregos se acercam de Filipe, Deus já agia nos seus corações. Como Santo Agostinho sublinha nas Confissões: Procurava-te (antes de Te conhecer) fora de mim e Tu estavas dentro de Mim. É Deus que toma a iniciativa, mas salvaguarda a nossa decisão. «Todos Te procuram» – recado dos discípulos a Jesus, ainda na Galileia. Vamos a outros lugares anunciar a Boa Nova, foi para isso que Eu vim – resposta de Jesus. Em Jerusalém, uma multidão se aproxima de Jesus. «Queríamos ver Jesus». Pedido dos gregos. De toda a parte vêm pessoas para ouvir Jesus e estar com Ele. Antes, foi Ele que partiu por aldeias e cidades, levando Deus, dando-nos Deus, assumindo-nos como irmãos para Deus.
       4 – Em Jesus, tempo novo e vida nova, nova e eterna Aliança de Deus com o Seu povo, com a humanidade. Jesus reconcilia-nos para que nos tornemos uma só família.
       O profeta Jeremias, já citado no domingo passado, mostra-nos como Deus estabelece, unilateralmente, Aliança com o Povo, sendo que não desiste de nós, apesar do nosso pecado, da nossa infidelidade e da nossa ingratidão. Jeremias antecipa uma aliança:
«Dias virão, diz o Senhor, em que estabelecerei com a casa de Israel e com a casa de Judá uma aliança nova. Não será como a aliança que firmei com os seus pais, no dia em que os tomei pela mão para os tirar da terra do Egito, aliança que eles violaram... Hei de imprimir a minha lei no íntimo da sua alma e gravá-la-ei no seu coração. Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo... Porque vou perdoar os seus pecados e não mais recordarei as suas faltas».
       O Filho de Deus Amado "substitui-nos", inocente, sem mancha nem pecado, assume-Se um de nós, e n'Ele somos libertos do pecado e da morte. Na Sua vida dada, no Corpo e Sangue oferecidos, uma Aliança que perdurará até à eternidade.

Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia (ano B): Jer 31, 31-34; Sl 50 (51); Hebr 5, 7-9; Jo 12, 20-33.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Dentro do Coração de Jesus cabe cada um de nós

4.º DOMINGO DA QUARESMA
Texto da Caminhada Quaresmal, nas paróquias de Pinheiros e de Tabuaço, assinalada por um gesto/símbolo, sublinhando um aspeto do Evangelho do respetivo domingo. Neste domingo, a certeza clara que Jesus veio para que o mundo seja salvo por Ele. Deus amou tanto o mundo que lhe entrega o Seu Filho Unigénito (cf. Jo 3, 14-21). Gesto: um Coração, o Coração de Jesus.
 (Paróquia de Pinheiros)

(Paróquia de Tabuaço)


       Deus é Amor.
       Só quem ama conhece a Deus.
       Amar é a maior tarefa do ser humano. Quem não for capaz de amar e de ser amado, nunca descobrirá a beleza da vida e a possibilidade de se encontrar com Deus.
       Só o amor nos liberta das garras da morte, do medo e da solidão, do egoísmo e da injustiça.
       O pior que nos pode acontecer não é morrer. O pior é não amar. Não ser amado. Morremos antes de morrer. A solidão é uma das doenças mais endémicas do nosso tempo. Viver só. Sentir-se só. Sentir-se abandonado, incompreendido, sem um olhar que nos acolha como irmãos, sem uma voz que nos faça sentir vivos, sem a escuta que nos reconheça como iguais!
       Viver sem amor é viver sem futuro, sem esperança, sem sonhos para cultivar, sem projetos para construir. 
       Deus é Amor. Só o amor cria. Só o amor clama por esperança, por vida, por futuro.
       Desde o início que por Amor Deus nos chama à vida, nos ampara e envia sinais e mensageiros para nos anunciarem caminhos de salvação.
       Jesus – Deus connosco – vem transparecer este amor. Só o amor nos salva. Jesus é o Amor em carne e osso. Faz-Se um de nós, identifica-Se com a nossa fragilidade e com os nossos sonhos, abre-nos o Seu Coração para que n’Ele o nosso coração seja maior.
       O CORAÇÃO de Jesus é um Coração de carne, cheio de Deus, cheio de amor, que transvasa para nós. Ele não veio para condenar o mundo mas para que o mundo seja salvo por Ele. Deus amou tanto o mundo que nos deu o Seu próprio para filho, assumindo-nos também a nós como filhos bem-amados.
       No coração de Jesus cabemos todos. E todos podemos viver como irmãos se estivermos dentro do Seu coração.
Preparemo-nos para escutar a Palavra de Deus.
Na primeira leitura, a certeza que Deus não Se esquecerá de Jerusalém, não Se esquecerá de nós e, como num sábado permanente, esperará por nós.
Na segunda leitura, o apóstolo São Paulo faz-nos ver a riqueza da misericórdia de Deus. A salvação é dom de Deus, colocado ao alcance da nossa mão.
No Evangelho, a certeza que a vinda de Jesus Cristo tem como propósito a salvação do mundo. Ele é a luz que nos guia para a verdade.
Serenamente escutemos a Palavra de Deus.

domingo, 15 de março de 2015

D. António Couto: Introdução ao Evangelho de Marcos

D. ANTÓNIO COUTO (2015). Introdução ao Evangelho segundo Marcos. Lisboa: Paulus Editora. 136 páginas.
       Mais um excelente subsídio para preparar a Eucaristia de Domingo, para melhor compreender o Evangelho de São Marcos, colocando-se em atitude de seguimento, como discípulo em relação a Jesus Cristo, para melhor se entranhar na lógica de serviço, de doação, configurando a própria vida à vida de Jesus.
        O Evangelho seguido prevalentemente neste ciclo litúrgico do ANO B é São Marcos.
        Tal como havia feito para o Ano A, para o qual D. António Couto nos colocou nas mãos dois títulos: Quando Ele nos abre as Escrituras. Ano A, e Introdução ao Evangelho segundo Mateus, o Bispo da mui nobre Diocese de Lamego colocoa à nossa disposição mais dois títulos: Quando Ele nos abre as Escrituras: Ano B, com o comentário à liturgia de cada Domingo, e agora este sobre São Marcos.
        Como já nos habituou, D. António Couto coloca neste trabalho a sua fé, a experiência de vida, a dedicação ao Evangelho, valendo-se de conhecimentos diversos, ao nível da Sagrada Escritura, da história, da psicologia, da teologia, socorrendo-se dos Padres da Igreja e de outros estudiosos, mas sobretudo fazendo-nos mergulhar no texto de Marcos.
       São Marcos voltou à ribalta. Se antes era um texto considerado secundário, ficando quase no esquecimento, pois era entendido como uma espécie de resumo do Evangelho de São Mateus, ou de São Mateus e de São Lucas, a partir do século XIX começa a ser redescoberto, pois é reconhecido como o primeiro Evangelho a ser escrito e, por conseguinte, mais simples, direto, mais próximo cronologicamente de Jesus. Por outro lado, ainda que a linguagem seja diferente, com diferentes destinatários, segundo D. António Couto, os outros Evangelhos, Mateus, Lucas e mesmo São João, mantêm um esquema similar ao de Marcos.
       Sublinham-se no texto temas como chamamento, semente, pão e paixão de Jesus, discipulado. Com efeito o Evangelho de São Marcos faz-nos seguir como que no filme que passa diante de nós, em que a personagem principal é e deve ser o próprio Jesus, que Se aproxima, que chama, que diz, que faz, que nos envia. O discípulo é o que vai atrás.
       Este estudo divide-se em três capítulos:
  1. À porta do Evangelho de Marcos (quem é Marcos, onde e quando escreveu, para quem, estrutura do evangelho).
  2. Quem é Jesus? À procura da identidade de Jesus (Dizer Jesus, dizer do povo, de Pedro, do centurião; jornada de Carfarnaum: Parábola da semente / pão / paixão / ensinados e não compreendidos; na Barca sem Jesus, na Barca com Jesus.
  3. Quem é o discípulo de Jesus e como tornar-se discípulo de Jesus? À procura da identidade do discípulo de Jesus.
       D. António Couto, com mestria, faz-nos sentir discípulos de Jesus, ou melhor, coloca-nos na posição daqueles que se aproximam de Jesus ou de quem Jesus Se aproxima, mostrando que os Seus ditos são para nós, quando nos envolve, nos desafia, nos recrimina, quando nos lembra da nossa condição, quando nos faz passar para trás, como a Pedro e aos demais discípulos, quando nos relembra nossa nudez diante do mistério de Deus. Outro aspeto muito interessante, é a linguagem corrida e muitas vezes (quase) poética de D. António, bem como o estudo dedicado de alguns termos, a partir do grego, do hebraico ou do aramaico e até aqueles que não percebam estas línguas, ficam a perceber melhor o texto e o contexto do filme do Evangelho de Marcos.

LER a apresentação/sugestão do livro:

sábado, 14 de março de 2015

Domingo IV da Quaresma - ano B - 15 de março

       1 – «Se eu me esquecer de ti, Jerusalém, esquecida fique a minha mão direita / Apegue-se-me a língua ao paladar, se não me lembrar de ti, se não fizer de Jerusalém a maior das minhas alegrias».
       Neste domingo, a liturgia propõe a alegria do Evangelho da Salvação que é manifesta em Jesus Cristo. Já se vislumbra a Páscoa. A Paixão de Jesus é prova maior do amor de Deus para connosco. Desde sempre. No pensamento de Deus existimos desde o início. Deus pensou-nos e chamou-nos, pelos nossos pais, à vida e quer-nos dar a vida abundante e feliz.
       Hoje como ontem, na Igreja como no povo eleito, os tempos são de provação, com dias de sol e dias de chuva. O importante é que de cada situação possamos descobrir e integrar o que nos enlace nos outros, aprender e amadurecer caminhos, aperfeiçoar e corrigir escolhas, discernir o que nos engrandece e nos faz mais humanos, capacitando-nos para enfrentar obstáculos com paciência e misericórdia, iluminando as oportunidades que temos pela frente, fortalecendo o nosso espírito para não nos deixarmos abater nas tempestades nem nos deixarmos endeusar nos momentos de conquista, de vitória e de bonança. A humildade será sempre a força dos que querem avançar e ficar na história como promotores da justiça, da paz e da solidariedade, a alegria daqueles que querem ver os seus nomes inscritos no coração de Deus.
       2 – «Enquanto o país não descontou os seus sábados, esteve num sábado contínuo, durante todo o tempo da sua desolação, até que se completaram setenta anos». A linguagem bíblica da primeira leitura fala-nos daquele SÁBADO contínuo em que DEUS Se coloca em atitude de ESPERA paciente e benevolente.
       O autor sagrado sublinha a iniciativa de Deus que envia mensageiros para poupar o povo e a sua morada. No entanto, o acolhimento das Suas palavras e dos Profetas surte poucos efeitos. Deus não desiste e continua a preparar o seu povo. Passaram-se 70 anos, isto é, um longo tempo de preparação e de gestação para um tempo novo. «Sobre os rios de Babilónia nos sentámos a chorar, com saudades de Sião. Nos salgueiros das suas margens, dependurámos nossas harpas». O tempo de provação aproxima-se do fim. Quem se sentir povo de Deus deverá agora pôr-se a caminho. Esta é a condição do crente: estar a caminho, em processo de conversão contínua, fazendo-Se acompanhar por Deus.
       3 – A história da salvação chega ao seu termo com a chegada de Jesus Cristo. «O Filho do homem será elevado, para que todo aquele que acredita tenha n’Ele a vida eterna». No deserto, tempo de provação do povo de Israel, Moisés levantou uma serpente de bronze. Quem olhasse para a serpente seria salvo. Era uma situação provisória e pontual. O filho do Homem, Jesus, será levantado da terra, e todos os que contemplarem a Sua Cruz, deixando-se trespassar e transformar pelo olhar de Cristo, serão salvos. É um acontecimento pleno e definitivo.
       «Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele». Como prometido e anunciado, Deus continua a dar-nos oportunidades, a última das quais nos é dada com Cristo. Deus dá-nos o melhor que tem para nós: o Seu filho muito amado.
       E o que é necessário para termos direito à vida eterna? Nada. A vida eterna é-nos dada por Jesus Cristo, com a Sua vida, com a Sua morte e ressurreição. Só precisamos de nos dispor a acolher a Luz que d'Ele vem, a acreditar que Ele é a nossa vida, deixando-nos envolver e comprometer pelo amor que nos traz da eternidade, para que pouco a pouco nos possamos identificar com Ele.
       A salvação é dom de Deus, como nos diz o apóstolo São Paulo: «Deus, que é rico em misericórdia, pela grande caridade com que nos amou, a nós, que estávamos mortos por causa dos nossos pecados, restituiu-nos à vida com Cristo – é pela graça que fostes salvos – e com Ele nos ressuscitou e com Ele nos fez sentar nos Céus... é pela graça que fostes salvos, por meio da fé. A salvação não vem de vós: é dom de Deus».
       A condenação é o inverso. É condenado quem não acredita n'Ele, quem ama mais as trevas que a Luz que Deus nos dá por Jesus Cristo. Quem pratica o mal, anda nas trevas. Quem pratica o bem não se esconde da luz que nos envolve.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano B): 2 Cr 36, 14-16. 19-23; Sl 136 (137); Ef 2, 4-10; Jo 3, 14-21.

sexta-feira, 13 de março de 2015

VIA-SACRA PARA CRENTES E NÃO CRENTES

JOSÉ LUÍS NUNES MARTINS E PAULO PEREIRA DA SILVA (2015). Via-Sacra para crentes e não crentes. Lisboa: Paulus Editora. 88 páginas.
       Seguimos de perto a reflexões semanais de José Luís Nunes Martins, além da leitura do seu livro Filosofias, que já recomendamos, pelo que a motivação para esta leitura já existia, ainda que num registo diferente. José Luís Nunes é pai e filósofo. Paulo Pereira da Silva, físico teórico, empresário, gestor, inovador. Dois crentes. Mas em conjunto apresentam um belíssimo manancial de reflexões sobre a Via-sacra.
       Para cada um das 14 Estações, seguindo a Via-sacra tradicional, uma reflexão para os não crentes, melhor, colocando-se na pele de um não crente, e uma reflexão para crentes.Interrogações, busca, respostas, mais questionamentos, tendo como personagem principal Jesus Cristo e cada um de nós.
(Apresentação da Via-sacra, com a intervenção do Professor Marcelo)

       Belíssimos textos que nos põem a pensar sobre a vida, a morte, o sofrimento, o amor, a partilha, a comunhão, o que fica depois da morte, a busca, as dúvidas, a companhia dos que nos acompanham nesta jornada, que nos levantam e os que ajudamos a levantar, os que carregam a nossa cruz e aqueles de quem aliviamos o peso das suas cruzes, os encontros e desencontros.
       É um riquíssimo livro para este tempo da Quaresma e para todos os tempos, para os momentos em que vivemos confiantes e os momentos de angústia que atravessam alguns os nossos dias.
       Sublinhe-se ainda o conjunto de fotografias de Francisco Gomes que acompanham as diferentes estações da Via-sacra e que enriquecem a reflexão.

quarta-feira, 11 de março de 2015

CELAM - Documento da Aparecida

CELAM (14.ª reimpressão: 2013). Documento de Aparecida. Texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. São Paulo e Brasília: Edições CNBB, Paulus Editora, Paulinas Editora. 312 páginas.
       D. António Couto, Bispo da nossa Diocese de Lamego, tem sustentado que a primeira Exortação Apostólica do Papa Francisco, Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho), mais que ser uma Exortação pós-sinodal (reflexão que resulta do Sínodo dos Bispos sobre "a nova evangelização para a transmissão da fé cristã", que se realizou em outubro de 2012, e no qual esteve presente D. António Couto), mais que ser pós-sinodal, é pós-APARECIDA.
       A pessoa não é um mundo à parte, mas integrado com as circunstâncias que a ajuda a crescer e para as quais também contribui. As conferências o Episcopado Latino Americano e caribenho trouxeram uma riqueza inesgotável à Igreja Católica. Os bispos daquela região do mundo, onde existem mais católicos, onde convivem diversas culturas, etnias, origens diversas, uma das regiões mais pobres, ainda que os recursos sejam muitos.
       Com a Assembleia de Aparecida, são 5 as assembleias gerais que puseram os Bispos a rezar em conjunto, a refletir, a apontar novos caminhos, com a autonomia do seu ministério, em estreita ligação ao Sucessor de Pedro, com Pio XII, na primeira Assembleia da CELAM, em 1955, no Rio de Janeiro; com Paulo VI e João Paulo II, sucessivamente em Medellín, Puebla e Santo Domingo, e com Bento XVI em Aparecida, no Brasil, e com a preocupação de responder aos desafios que se colocam à Igreja e à sociedade naquela região do mundo e que deu agora à Igreja o Papa Francisco.
       Algumas das preocupações manifestadas pelo Papa Francisco já estavam presentes no seu ministério episcopal na Argentina, integrando o continente da esperança e que o Papa Bento XVI desejava muito fosse também o continente do amor, da caridade. Expressões como discípulos missionários, Igreja em saída, alegria do Evangelho, comunidades de base, acolhimento, proximidade, compromisso social e político de leigos bem formados, catequese em todas as idades, diálogo com outras confissões cristãs e com outras religiões, presença na cultura, na sociedade, onde estiverem as pessoas aí terá que estar a Igreja.
       Quem lê o Documento facilmente percebe que tem a mão, o pensamento e o coração do Papa latino-americano, o então Cardeal Jorge Mário Bergoglio, uma vez que foi quem presidiu à Comissão da Assembleia do Episcopado e foi o relator do documento final de Aparecida.
       O método seguido na Assembleia é semelhante ao da Ação Católica, ver, julgar e decidir. Por conseguinte, o Documento traça uma leitura sobre a realidade ou realidades latino-americanas e caribenhas, com a sua história, com as suas sombras e esperanças; a presença da Igreja e do Evangelho, também com as suas sombras e esperanças, e com as suas potencialidades; e as respostas que poderão ser dadas e que comprometem e responsabilizam todos, Bispos, padres, diáconos, catequistas, universidades, famílias, paróquias, comunidades de base. Sair, ir ao encontro do mais frágil, lutar pela justiça, e pelos direitos fundamentais, imitando Jesus, tornando-se discípulos para nos tornarmos verdadeiramente missionários. A proposta à grande Missão Continental, procurando potenciar todo o bem, eliminando as barreiras, as injustiças, levando Deus, o Deus próximo, o Deus connosco, Jesus Cristo.
       Sublinhe-se também a ligação estreita da V Conferência Latino Americana e Caribenha e do atual Papa Francisco ao Papa Bento XVI que presidiu à abertura da Assembleia e cujas intervenções foram assumidas, integradas, sublinhadas em todo o documento de Aparecida. Bento XVI entranhou-se bem no espírito de Aparecida, ou a CELAM soube acolher e identificar-se com o "sonho" de Bento XVI. Ou melhor, a Igreja na América Latina e no Caribe, em comunhão com o Papa, soube colocar-se à escuta do Espírito Santo para melhor servir as comunidades e as pessoas, acolhendo a graça de Deus e comunicando o Evangelho da Verdade e da Caridade.

terça-feira, 10 de março de 2015

Do Templo de Jerusalém ao Templo Novo de Jesus

3.º Domingo da Quaresma
Texto da Caminhada Quaresmal, nas paróquias de Pinheiros e de Tabuaço, assinalada por um gesto/símbolo, sublinhando um aspeto do Evangelho do respetivo domingo. Neste domingo, tendo em conta a passagem em que Jesus expulsa os vendilhões do Templo (cf. Jo 2, 13-25), dois tijolos, um maior ou mais pequeno, um inteiro, outro partido... no Templo que é Cristo, todos temos lugar...
(Paróquia de Tabuaço)
(Paróquia de Pinheiros)

       «Destruí este templo e em três dias o levantarei»
       Resposta pronta de Jesus àqueles que questionam a Sua autoridade.
       Jesus chegou ao Templo para rezar, para refletir, para Se encontrar com Deus, juntamente com o Povo. Em vez de um espaço agradável de acolhimento, Jesus encontra uma balbúrdia, o Templo transformado numa praça, onde se discute, se compra e se vende, com uns tantos a aproveitar-se da miséria e da fé dos muitos crentes que se aproximam.
       Bem sabemos que uma construção – uma casa, um templo, um jardim – leva o seu tempo e os seus cuidados. Para destruir é mais fácil!
       Quantos dias e quantas horas para que o jardim fique a nosso gosto? Há sempre alguma coisa a acrescentar, a ratificar, a compor! Ervas a mondar, regas a efetuar, proteções a colocar! E de repente, um vendaval, um animal selvagem, um roedor, e é destruído em segundos, o trabalho que demorou tanto a fazer e tantos cuidados ocupou.
       O Templo de Jerusalém demorou 46 anos a construir e bastaram algumas horas para os romanos deitarem por terra o trabalho de milhares de judeus! Daí que os judeus não percebam como é possível a Jesus levantar um novo Templo em três dias?
       «Destruí este templo e em três dias o levantarei».
       Jesus fala-nos de outro templo, fundado na Sua vida e na Sua entrega. Será morto para nos salvar. Três dias depois ressuscitará, dando início a um novo Templo, no Seu Corpo, do qual nos tornamos membros, pelo Batismo.
       Neste Templo cada pedra é importante. Ninguém é substituível, pois todos têm o seu lugar. Muitos membros, mas o mesmo Corpo, a mesma Igreja, o mesmo Templo. Numa construção, os tijolos que não prestam, que têm defeito, que estão partidos, são dispensáveis. Nesta construção, (GESTO: introdução do tijolo… ou um tijolo bom e um meio partido) cada pedra, cada prego, cada tijolo, cada pedaço, é fundamental para a construção do Corpo de Cristo. Se um só tijolo estiver de fora será nossa obrigação repescá-lo para a construção do Reino de Deus.

       Senhor Jesus, que neste Templo, que é a Igreja, o Teu Corpo, saibamos ser pedras vivas, acolhendo os que chegam, procurando os que partem, indo ao encontro dos desavindos, para construirmos com mais amor a família de Deus. Amém.

Para lá das nuvens, o sol continua a brilhar

O texto publicado na última edição da Voz de Lamego (3 de março de 2015) foi em parte utilizado na dinâmica da Quaresma nas Paróquia de Tabuaço e de Pinheiros, no segundo domingo da Quaresma, com a proclamação do Evangelho da Transfiguração de Jesus...
(Paróquia de Tabuaço)
(Paróquia de Pinheiros)

       Ficamos felizes com um dia radiante, cheio de sol e de luz e sobretudo se é em pleno inverno. Há dias em que as nuvens são densas, carregadas, escuras, prontas a cair-nos em cima.
       Assim é connosco, com a nossa vida. Por vezes, os desertos, as cinzas, o sofrimento, a morte, a tristeza, fazem-nos perder o pé. Mas sabemos que não será para sempre.
       O Sol continua a brilhar para lá das nuvens que nos assustam e tiram brilho aos nossos dias.
       Por vezes precisamos apenas de um raio de sol, uma palavra, um sorriso, alguém que nos diga que a nossa vida faz sentido e que as coisas vão melhorar, apesar de tudo. Dias melhores virão.
       Jesus tinha dito aos seus discípulos que ia ser morto (cf. Mc 8, 27-33).
       Os discípulos ficam em desespero. Como é possível que Jesus vá ser morto? Logo agora que encontraram um sentido maior para as suas vidas!
       Jesus mostra-lhes a luz que vem das alturas, mostra-lhes o Céu (cf. Mc 9, 2-10), mas não lhes diz, nem a eles nem a nós, que a vida vai ser fácil daqui para a frente. Não. Diz-lhes que têm que descer da Montanha. Por maiores que sejam as dificuldades, Deus não os abandonará.
       Quando as trevas forem mais densas e o sofrimento mais intenso, lembrar-se-ão deste momento, desta luz, para prosseguirem caminho, pois para lá das nuvens o Sol continua a brilhar, depois das trevas a luz virá, depois da noite o dia surgirá.
       A Quaresma desperta-nos para esse caminho de luz e salvação, de esperança e vida nova. A Quaresma é um tempo limitado (podemos dizê-lo em relação à Páscoa, que se prolonga por 50 dias e em todas as Eucaristias do anos, e em relação à Páscoa definitiva). Logo estaremos a celebrar a Ressurreição de Cristo, a Páscoa.
       É uma primavera de promessas a despontar. O que está encoberto, sob a terra, logo desabrochará; os rebentos morrerão para que nasçam as flores e os frutos. A Páscoa, a vida, a felicidade, Deus, o amanhã, impelem-nos a caminhar, a avançar. Ainda que seja um pequeno vislumbre de luz far-nos-á avançar com mais segurança, até que a luz inunde por completo o espaço em que caminhamos, até que a vida se imponha sobre a morte, a luz sobre as trevas, a alegria sobre a tristeza.
       Transfiguremo-nos com Cristo, para melhor sentirmos a Páscoa!

in Voz de Lamego, edição de 3 de março de 2015

sábado, 7 de março de 2015

Domingo III da Quaresma - ano B - 8 de março de 2015

       1 – «Destruí este templo e em três dias o levantarei». Resposta de Jesus àqueles que o questionaram sobre a autoridade com que repreende e expulsa os vendilhões do templo.
       Os ouvintes de Jesus replicam com outra questão, fundamentada na experiência e na história: «Foram precisos quarenta e seis anos para se construir este templo e Tu vais levantá-lo em três dias?». Como sublinha o evangelista, são duas leituras diferentes sobre realidades distintas. Os judeus falam do templo de Jerusalém. Jesus fala da Sua vida, anunciando a Sua morte e a Sua ressurreição três dias depois de ser morto. «Quando Ele ressuscitou dos mortos, os discípulos lembraram-se do que tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus».
       Neste terceiro domingo da Quaresma, com Jesus no Templo de Jerusalém, de quê ângulo nos colocamos? Como cambistas ou como Seus seguidores? A casa é lugar, é espaço sagrado, é altar, é sacramento, do nosso encontro com Deus e com os irmãos, seja templo de pedra ou a nossa vida, e, por conseguinte, deverá ser honrado, íntegro, sem barreiras ou tralha que nos impeça de voltar o coração para o alto e abraçar os que prosseguem na mesma caminhada.
       Mais à frente, no diálogo com a Samaritana, Jesus concluirá, com todas as letras, que o verdadeiro culto não se realiza em Jerusalém ou em Gerizim, mas em espírito e verdade, através do nosso corpo, da nossa vida por inteiro. Porém, e como se conclui da atitude de Jesus, os espaços sagrados devem ser respeitados e respeitáveis, pois possibilitam um maior recolhimento para nos encontrarmos connosco, com os outros, com Deus.
       Três domingos e três espaços para encontrar Deus. No deserto, onde as seguranças, os pontos de referência, não existem, ficámos a sós com Deus. Poderá advir a tentação, a prova, o amadurecimento da fé. O monte que nos invita a sair do nosso conforto e comodismo, exigindo que nos ponhamos a caminho e subamos, não para ficarmos envoltos em nuvens, mas para regressarmos e trazermos a luz ao mundo, descendo ao compromisso quotidiano. Hoje é o Templo, espaço sagrado (separado da banalidade, do mundo, ainda que dentro do mundo), para sentirmos que Deus tem lugar e hora marcada connosco, não é simples abstração espiritual.
       2 – «Não façais da casa de Meu Pai, casa de comércio». Nas entrelinhas, os discípulos percebem as palavras da Escritura Sagrada: «Devora-me o zelo pela tua casa». Quem não respeita a casa onde vive... quem não respeita esta casa de todos, o mundo... não respeitará a casa dos outros nem saberá reconhecer que a verdadeira casa, o templo novo, é o nosso corpo, a nossa vida, através da qual comunicamos e nos comunicamos, através da qual estamos diante dos outros e nos podemos encontrar e reconhecer como irmãos.
       Jesus é o TEMPLO que nos acolhe. A Sua vida, feita doação, tornar-se-á LUGAR de encontro e de vida nova. N'Ele seremos uma só família para Deus. Do alto da Cruz, Ele nos assumirá como irmãos e dar-nos-á como referência, como Mãe, a Sua Mãe, para que n'Ela aprendamos a amar-nos uns aos outros. Uma casa só será verdadeiramente humana com a presença de uma Mãe e, por conseguinte, Maria cuidará de nós para que a casa do Pai não seja casa de comércio, mas casa de encontro, de partilha e de comunhão. Uma Mãe tudo fará para que entre os filhos se esbatam quaisquer contendas, rivalidades ou negociatas!
       É preciso muito tempo para construir, edificar, para solidificar. Num edifício como nas nossas vidas, na nossa família e no grupo de amigos. Para destruir por vezes basta uma pequena aragem, uma palavra, um gesto, uma gota de inveja. Um jardim leva uma geração a ficar do agrado de quem dele cuida. Uma família está sempre em aperfeiçoamento, entre alegrias e tristezas.
       E, no entanto, um animal selvagem pode destruir um jardim em alguns minutos, ou uma praga, ou um temporal. Assim na família, assim na Igreja, assim na sociedade. O que muitos em muito tempo edificaram, poucos em pouco tempo podem destruir com a maior das facilidades. E até a madeira mais dura, endurecida pela qualidade, pelos anos e pelo tratamento pode ser carcomida por alguma traça. Todo o cuidado é pouco. Será muito importante não desistir. Deus não desiste de nós. Nunca desiste da humanidade. Não desistamos uns dos outros!
       3 – Jesus edifica este novo Templo sobre rocha firme, sobre a Sua própria vida, que nos dá para que tenhamos, n'Ele, vida abundante. Como os ramos em relação à vide se mantêm viçosos e dão muito fruto também nós se nos mantivermos como membros do Corpo de Cristo formaremos um Templo robusto e durável.
       Neste Templo não há pedras a mais ou desnecessárias. Ele resgata-nos para Deus com a Sua vida e a Sua morte, feita dom. A ressurreição logo chegará; com Ele nos colocará em Deus de onde nos atrai. Mas porquanto é tempo de caminhar, de construir. É necessário descer da montanha, sair do Templo. As cearas ainda não estão prontas para a ceifa. O Filho do Homem vai ser morto. Mas não será uma morte em vão, pois ninguém lhe tira verdadeiramente a vida, Ele no-la oferece, por amor.
       É a maior dádiva. Naquele tempo como neste outros tesouros nos atraem. "Os judeus pedem milagres e os gregos procuram a sabedoria". E continua o apóstolo: "Quanto a nós, pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios; mas para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é poder e sabedoria de Deus. Pois o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens".
       Seguimos um Homem cujo poder se visualiza na Cruz, na fragilidade e na impotência, onde nos revemos. Salvar-nos-á pelo amor e não pela força, gastando-se até à última gota de sangue. Nova e eterna Aliança. Dando-nos a vida, dá-nos o Céu.

       4 – Ao longo de gerações, de Adão a David, de Elias a João Batista, de Eva a Maria, Deus nos desafia, nos interpela, conta connosco para estabelecer um pacto que faça germinar a vida, salvando a humanidade, restaurando a Aliança sempre que é quebrada. Unilateralmente. Em Noé. Em Abraão. O interlocutor deste domingo é Moisés, ou melhor, é o Povo de Deus e Deus especifica de novo as condições, que brotam da Sua misericórdia e nos aponta um caminho de salvação e de felicidade:
«Uso de misericórdia até à milésima geração para com aqueles que Me amam e guardam os meus mandamentos... Durante seis dias trabalharás e levarás a cabo todas as tuas tarefas. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus... Honra pai e mãe, a fim de prolongares os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te vai dar. Não matarás. Não cometerás adultério. Não furtarás. Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo. Não cobiçarás a casa do teu próximo; não desejarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo nem a sua serva, o seu boi ou o seu jumento, nem coisa alguma que lhe pertença».
       Se partirmos de Deus encontraremos o caminho para amar, respeitar e promover a vida dos outros, acolhendo-os como iguais. Como no relembra o salmo, «a lei do Senhor é perfeita, / ela reconforta a alma; / as ordens do Senhor são firmes, / dão sabedoria aos simples». Por outras palavras, a Lei de Deus não tem como preocupação primeira fazer-nos andar na linha, mas conduzir-nos à felicidade duradoura, que mutuamente nos inclui, para que num só coração, sejamos uma só família humana (cf. tema da Semana Nacional Cáritas).

Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia (ano B): Ex 20, 1-17; Sl 18 (19); 1 Cor 1, 22-25; Jo 2, 13-25.

domingo, 1 de março de 2015

Marcela Candara e A. Romero: Dá-me os Teus olhos


Senhor, "dá-me o caminho que devo seguir,
dá-me teus sonhos, teus anseios, teus pensamentos, teu sentir,
dá-me a tua vida para viver, dá-me os teus olhos quero ver..."