sábado, 7 de março de 2015

Domingo III da Quaresma - ano B - 8 de março de 2015

       1 – «Destruí este templo e em três dias o levantarei». Resposta de Jesus àqueles que o questionaram sobre a autoridade com que repreende e expulsa os vendilhões do templo.
       Os ouvintes de Jesus replicam com outra questão, fundamentada na experiência e na história: «Foram precisos quarenta e seis anos para se construir este templo e Tu vais levantá-lo em três dias?». Como sublinha o evangelista, são duas leituras diferentes sobre realidades distintas. Os judeus falam do templo de Jerusalém. Jesus fala da Sua vida, anunciando a Sua morte e a Sua ressurreição três dias depois de ser morto. «Quando Ele ressuscitou dos mortos, os discípulos lembraram-se do que tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus».
       Neste terceiro domingo da Quaresma, com Jesus no Templo de Jerusalém, de quê ângulo nos colocamos? Como cambistas ou como Seus seguidores? A casa é lugar, é espaço sagrado, é altar, é sacramento, do nosso encontro com Deus e com os irmãos, seja templo de pedra ou a nossa vida, e, por conseguinte, deverá ser honrado, íntegro, sem barreiras ou tralha que nos impeça de voltar o coração para o alto e abraçar os que prosseguem na mesma caminhada.
       Mais à frente, no diálogo com a Samaritana, Jesus concluirá, com todas as letras, que o verdadeiro culto não se realiza em Jerusalém ou em Gerizim, mas em espírito e verdade, através do nosso corpo, da nossa vida por inteiro. Porém, e como se conclui da atitude de Jesus, os espaços sagrados devem ser respeitados e respeitáveis, pois possibilitam um maior recolhimento para nos encontrarmos connosco, com os outros, com Deus.
       Três domingos e três espaços para encontrar Deus. No deserto, onde as seguranças, os pontos de referência, não existem, ficámos a sós com Deus. Poderá advir a tentação, a prova, o amadurecimento da fé. O monte que nos invita a sair do nosso conforto e comodismo, exigindo que nos ponhamos a caminho e subamos, não para ficarmos envoltos em nuvens, mas para regressarmos e trazermos a luz ao mundo, descendo ao compromisso quotidiano. Hoje é o Templo, espaço sagrado (separado da banalidade, do mundo, ainda que dentro do mundo), para sentirmos que Deus tem lugar e hora marcada connosco, não é simples abstração espiritual.
       2 – «Não façais da casa de Meu Pai, casa de comércio». Nas entrelinhas, os discípulos percebem as palavras da Escritura Sagrada: «Devora-me o zelo pela tua casa». Quem não respeita a casa onde vive... quem não respeita esta casa de todos, o mundo... não respeitará a casa dos outros nem saberá reconhecer que a verdadeira casa, o templo novo, é o nosso corpo, a nossa vida, através da qual comunicamos e nos comunicamos, através da qual estamos diante dos outros e nos podemos encontrar e reconhecer como irmãos.
       Jesus é o TEMPLO que nos acolhe. A Sua vida, feita doação, tornar-se-á LUGAR de encontro e de vida nova. N'Ele seremos uma só família para Deus. Do alto da Cruz, Ele nos assumirá como irmãos e dar-nos-á como referência, como Mãe, a Sua Mãe, para que n'Ela aprendamos a amar-nos uns aos outros. Uma casa só será verdadeiramente humana com a presença de uma Mãe e, por conseguinte, Maria cuidará de nós para que a casa do Pai não seja casa de comércio, mas casa de encontro, de partilha e de comunhão. Uma Mãe tudo fará para que entre os filhos se esbatam quaisquer contendas, rivalidades ou negociatas!
       É preciso muito tempo para construir, edificar, para solidificar. Num edifício como nas nossas vidas, na nossa família e no grupo de amigos. Para destruir por vezes basta uma pequena aragem, uma palavra, um gesto, uma gota de inveja. Um jardim leva uma geração a ficar do agrado de quem dele cuida. Uma família está sempre em aperfeiçoamento, entre alegrias e tristezas.
       E, no entanto, um animal selvagem pode destruir um jardim em alguns minutos, ou uma praga, ou um temporal. Assim na família, assim na Igreja, assim na sociedade. O que muitos em muito tempo edificaram, poucos em pouco tempo podem destruir com a maior das facilidades. E até a madeira mais dura, endurecida pela qualidade, pelos anos e pelo tratamento pode ser carcomida por alguma traça. Todo o cuidado é pouco. Será muito importante não desistir. Deus não desiste de nós. Nunca desiste da humanidade. Não desistamos uns dos outros!
       3 – Jesus edifica este novo Templo sobre rocha firme, sobre a Sua própria vida, que nos dá para que tenhamos, n'Ele, vida abundante. Como os ramos em relação à vide se mantêm viçosos e dão muito fruto também nós se nos mantivermos como membros do Corpo de Cristo formaremos um Templo robusto e durável.
       Neste Templo não há pedras a mais ou desnecessárias. Ele resgata-nos para Deus com a Sua vida e a Sua morte, feita dom. A ressurreição logo chegará; com Ele nos colocará em Deus de onde nos atrai. Mas porquanto é tempo de caminhar, de construir. É necessário descer da montanha, sair do Templo. As cearas ainda não estão prontas para a ceifa. O Filho do Homem vai ser morto. Mas não será uma morte em vão, pois ninguém lhe tira verdadeiramente a vida, Ele no-la oferece, por amor.
       É a maior dádiva. Naquele tempo como neste outros tesouros nos atraem. "Os judeus pedem milagres e os gregos procuram a sabedoria". E continua o apóstolo: "Quanto a nós, pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios; mas para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é poder e sabedoria de Deus. Pois o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens".
       Seguimos um Homem cujo poder se visualiza na Cruz, na fragilidade e na impotência, onde nos revemos. Salvar-nos-á pelo amor e não pela força, gastando-se até à última gota de sangue. Nova e eterna Aliança. Dando-nos a vida, dá-nos o Céu.

       4 – Ao longo de gerações, de Adão a David, de Elias a João Batista, de Eva a Maria, Deus nos desafia, nos interpela, conta connosco para estabelecer um pacto que faça germinar a vida, salvando a humanidade, restaurando a Aliança sempre que é quebrada. Unilateralmente. Em Noé. Em Abraão. O interlocutor deste domingo é Moisés, ou melhor, é o Povo de Deus e Deus especifica de novo as condições, que brotam da Sua misericórdia e nos aponta um caminho de salvação e de felicidade:
«Uso de misericórdia até à milésima geração para com aqueles que Me amam e guardam os meus mandamentos... Durante seis dias trabalharás e levarás a cabo todas as tuas tarefas. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus... Honra pai e mãe, a fim de prolongares os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te vai dar. Não matarás. Não cometerás adultério. Não furtarás. Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo. Não cobiçarás a casa do teu próximo; não desejarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo nem a sua serva, o seu boi ou o seu jumento, nem coisa alguma que lhe pertença».
       Se partirmos de Deus encontraremos o caminho para amar, respeitar e promover a vida dos outros, acolhendo-os como iguais. Como no relembra o salmo, «a lei do Senhor é perfeita, / ela reconforta a alma; / as ordens do Senhor são firmes, / dão sabedoria aos simples». Por outras palavras, a Lei de Deus não tem como preocupação primeira fazer-nos andar na linha, mas conduzir-nos à felicidade duradoura, que mutuamente nos inclui, para que num só coração, sejamos uma só família humana (cf. tema da Semana Nacional Cáritas).

Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia (ano B): Ex 20, 1-17; Sl 18 (19); 1 Cor 1, 22-25; Jo 2, 13-25.

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