sexta-feira, 31 de julho de 2015

Santo Inácio de Loiola, presbítero

Nota biográfica:
       Nasceu no ano 1491 em Loiola, na Cantábria (Espanha); seguiu primeiramente a vida da corte e a vida militar. Depois, consagrando-se totalmente ao Senhor, estudou teologia em Paris e aí reuniu os primeiros companheiros, com quem mais tarde fundou em Roma a Companhia de Jesus. Exerceu intensa actividade apostólica e, particularmente com os seus escritos e com a formação de discípulos, contribuiu grandemente para a reforma da vida cristã e para a renovação da acção missionária. Morreu em Roma no ano 1556.

Oração (de coleta):
        Senhor nosso Deus, que suscitastes na vossa Igreja Santo Inácio de Loiola para propagar a maior glória do vosso nome, concedei que, à sua imitação e com o seu auxílio, combatendo o bom combate na terra, participemos da sua vitória no Céu. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Da Autobiografia de Santo Inácio, redigida pelo Padre Luís Gonçalves da Câmara

Examinai os espíritos para ver se vêm de Deus

Inácio gostava muito de ler livros mundanos e fantasistas, que costumam chamar-se «de cavalaria». Quando se sentiu livre de perigo, pediu que lhe dessem alguns deste género para passar o tempo. Mas não se tendo encontrado naquela casa nenhum livro desses, deram-lhe a «Vita Christi» e um livro da vida dos Santos, ambos em vernáculo.
Com a leitura frequente destas obras, começou a ganhar algum gosto pelas coisas que ali estavam escritas. Mas deixando de as ler, detinha-se a pensar algumas vezes naquilo que tinha lido e outras vezes nas coisas do mundo em que antes costumava pensar.
Entretanto, Nosso Senhor vinha em seu auxílio, fazendo com que a estes pensamentos se sucedessem outros, sugeridos pelas novas leituras. De facto, lendo a vida de Nosso Senhor e dos Santos, detinha-se a pensar consigo mesmo: «E se eu fizesse como fez São Francisco e como fez São Domingos?». E reflectia em muitas coisas destas, durante longo tempo. Mas sobrevinham-lhe depois os pensamentos mundanos de que acima se fala, e também neles se demorava longamente. E esta sucessão de pensamentos durou muito tempo.
Mas havia esta diferença: quando se entretinha com os pensamentos mundanos, sentia grande prazer; e logo que, já cansado, os deixava, ficava triste e árido de espírito; quando, porém, pensava em seguir os rigores dos Santos, não somente sentia consolação enquanto neles pensava, mas também ficava contente e alegre depois de os deixar.
No entanto, não advertia nem considerava esta diferença, até que uma vez se lhe abriram os olhos da alma e começou a admirar-se desta diferença e a reflectir sobre ela; e compreendeu por experiência própria que um género de pensamentos lhe deixava tristeza e o outro alegria.
Mais tarde, quando fez os Exercícios Espirituais, foi desta experiência que tomou as primeiras luzes para compreender e ensinar aos seus irmãos o discernimento de espíritos.

Sacramento do Crisma na Paróquia de Távora

       No dia 25 de julho, a Paróquia de São João Batista de Távora, na Zona Pastoral de Tabuaço, acolheu o Senhor Bispo, D. António Couto, para a celebração do Sacramento do Crisma, a 18 jovens, entre os 15 e os 21 anos de idade. Há pouco mais de 4 anos, a 6 de fevereiro de 2011, D. Jacinto Botelho, então Bispo de Lamego, e dentro da Visita Pastoral à Paróquia, administrou o Crisma a 10 jovens.
       Este ano o grupo foi um pouco maior, juntando os jovens que se situavam acima dos 15 anos, uns com 10 anos de catequese, outros com uma formação mais próxima e orientada para o sacramento do Crisma, outros vindos da emigração, onde frequentam a catequese e a Santa Missa.
       Na véspera, dia 24 de julho, D. António Couto deslocou-se a Távora para um encontro de preparação para o Sacramento do Crisma. Por um lado com o propósito de haver uma maior cumplicidade na celebração entre os jovens e o Senhor Bispo e, por outro, oportunidade para D. António sublinhar os aspetos mais relevantes para os que celebram o Crisma. D. António insistiu na necessidade dos jovens ser ousados, teimosos, desenvergonhados para viverem e anunciarem Jesus Cristo, com alegria, com a leveza da pomba, um dos símbolos do Espírito Santo, para voarem comprometendo-se a viver como Jesus, próximo, terno, compassivo, amigo. Mais do que saber o catecismo todo, importa sobretudo viver ao jeito de Jesus Cristo, e mãos abertas para tudo receber de Deus, que tudo nos dá, e partilhar com os outros, a vida, a amizade, o amor.
       Chegado o sábado, pela tarde, a comunidade de Távora reuniu-se para receber o Senhor Bispo, junto à Igreja Paroquial, para de seguida participar na celebração do Crisma de alguns dos seus membros.
       Durante a Eucaristia, os crismandos colocaram em destaque alguns momentos como o Ato Penitencial, durante o qual simbolicamente queimaram alguns pecados; o ofertório com sinais e símbolos para acentuar a ligação ao batismo e à vivência do Crisma, bem como o compromisso em viver ao jeito de Jesus, que Se entregou por inteiro, dando a Sua vida por nós e que de novo Se dá na Eucaristia. No final da Eucaristia, momento habitual de agradecimentos, com uma palavra de especial carinho para a catequista que ao longo dos anos se tem dedicado no serviço da catequese, a favor da comunidade.
       O momento mais importante, como seria de esperar, foi a administração do Crisma dos 18 jovens, que se fizeram acompanhar dos respetivos padrinhos. Um pouco antes a invocação do Espírito – as mãos abertas de Deus, para com as nossas mãos abertas recebermos e partilharmos –, seguindo-se a crismação, com a unção com o óleo santo, na fronte de cada jovem, com nome e com rosto.
       Durante a homilia, D. António Couto, partindo das leituras do XVII Domingo do Tempo Comum, refletindo particularmente no Evangelho da multiplicação dos pães e dos peixes, a todos, especialmente aos crismandos, convocou para esta multiplicação, melhor para esta condivisão com os outros. Partilhando o pouco, multiplica-se por muitos e sobra tudo (12 cestos). A Palavra de Deus distribui-se, partilha-se, mas não se gasta. O Pão da Eucaristia, partilha-se e não se esgota.
       D. António Couto, fazendo perguntas pontuais, interagindo com a assembleia, provocando-a com respostas, frisou bem que o milagre descrito no Evangelho era sobretudo o da partilha, pois em nenhuma parte se fala em multiplicação. É uma condivisão gratuita. Filipe e os demais discípulos e nós também fazemos contas. Tantas pessoas, e logo vemos que não temos dinheiro. Onde compraremos pão para tanta gente? Pergunta de Jesus aos discípulos. Fazem contas às pessoas e ao dinheiro. Quando falamos em comprar pensamos em dinheiro e no shopping, ou numa loja, onde se vende o pão. Jesus fala em comprar sem dinheiro, relendo a página de Isaías: «Todos vós que tendes sede, vinde às águas! Vós, que não tendes dinheiro, vinde! Comprai cereal e comei! Comprai cereal sem dinheiro, e sem pagar, vinho e leite. (…) Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom!» (Isaías 55,1-2).
       Outras das páginas citadas foi do diálogo de Jesus com a Samaritana. Os discípulos vão comprar alimentos. Vão ao Shopping. Enquanto vão Jesus conversa com a Samaritana a quem pede água, para de seguida lhe oferecer água que jorra até à vida eterna. Quando os discípulos regressam com alimentos, Jesus não quer comer. Olham uns para os outros e murmuram sobre quem lhe terá trazido comida. Porém, o alimento de Jesus não é da ordem do comprar, em que se situa os discípulos e em que nos situamos, mas no cumprir a vontade do Pai.
       O nosso Bispo convidou a acolher bem os pequeninos – era um miúdo que tinha os cinco pães e os dois peixes, e que não contavam – e os velhinhos, pois para Jesus todos contam, pois todos têm dons de Deus, que tudo dá, para que partilhemos o dom, com alegria e ousadia, e desavergonhadamente, sublinhou novamente D. António, os jovens, e todos os cristãos, anunciem Jesus, em casa, na escola, no trabalho. Comprometam-se na Igreja – catequese, limpeza, coral, acólitos e outras tarefas importantes – mas sobretudo saiam a anunciar Jesus Cristo e a alegria de ser cristão.
      No final da Eucaristia, um pequeno lanche de confraternização entre os crismados, assinalando a alegria desta celebração e a presença amigo do Bispo diocesano, D. António Couto, com o convite que volte mais vezes.

terça-feira, 28 de julho de 2015

O trigo e o joio, o bem e o mal

       Os discípulos aproximaram-se d’Ele e disseram-Lhe: «Explica-nos a parábola do joio no campo». Jesus respondeu: «Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem e o campo é o mundo. A boa semente são os filhos do reino, o joio são os filhos do Maligno e o inimigo que o semeou é o Diabo. A ceifa é o fim do mundo e os ceifeiros são os Anjos. Como o joio é apanhado e queimado no fogo, assim será no fim do mundo: o Filho do homem enviará os seus Anjos, que tirarão do seu reino todos os escandalosos e todos os que praticam a iniquidade, e hão-de lançá-los na fornalha ardente; aí haverá choro e ranger de dentes. Então, os justos brilharão como o sol no reino do seu Pai. Quem tem ouvidos, oiça» (Mt 13, 36-43).
       Tal como aconteceu com a parábola do semeador que sai a semear e cuja semente cai à beira do caminho, em terra pedregosa, em terra fértil, em que Jesus explica o significado aos discípulos, também na parábola do trigo e do joio Jesus explica.
       Acrescente-se a reflexão de João Paulo II sobre uma e outra parábola. Numa e noutra parábola, como ainda na parábola da vinha em que o senhor sai de manhã, ao meio dia, a meio da tarde, e chama trabalhadores para a sua vinha, Jão Paulo II diz-nos que cada um de nós pode atravessar os diversos momentos das parábolas, isto é, não se pode dizer que este é bom e este é mau, mas em tempo distinto poderemos ser joio ou ser trigo.
       Peçamos ao Senhor que ns ajude a ser trigo na maior parte do tempo e que o joio que existe em nós vá desaparecendo pelo crescimento e qualidade do trigo.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Reino dos Céus: grão de mostarda... ou fermento...

       Jesus disse ainda à multidão a seguinte parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se ao grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. Sendo a menor de todas as sementes, depois de crescer, é a maior de todas as hortaliças e torna-se árvore, de modo que as aves do céu vêm abrigar-se nos seus ramos». Disse-lhes outra parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado». Tudo isto disse Jesus em parábolas, e sem parábolas nada lhes dizia, a fim de se cumprir o que fora anunciado pelo profeta, que disse: «Abrirei a minha boca em parábolas, proclamarei verdades ocultas desde a criação do mundo» (Mt 13, 31-35)
        No evangelho que nos é proposto para este dia, Jesus fala-nos através de duas parábolas bem nossas conhecidas e ilustrativas do jeito simples e próximo de Jesus comunicar. Uma e outra parábola acentuam que não é o tamanho ou o poder inicial da semente, nem a visibilidade... mas a seiva no seu interior que de pequena semente a torna uma árvore frondosa, ou a "qualidade" do fermente.
       Deus sustenta o mundo em todo o tempo, mesmo quando as situações problemáticas parecem mostrar a ausência de Deus. Mesmo quando não se percebe a presença e o amor de Deus, Deus está, Deus faz-Se presente, Deus conta connosco. Por outro lado, não importa a pobreza inicial da nossa vida, mas o que poderemos vir a tornar-nos.

sábado, 25 de julho de 2015

XVII Domingo do Tempo Comum - ano B - 26 de julho

       1 – O alimento e a pobreza são realidades de todas as épocas. Pobres sempre os tereis. Garantia de Jesus quando os discípulos contestam a generosidade e a devoção de uma mulher que d’Ele se aproxima e sobre Ele derrama um frasco de perfume de alto preço (cf. Mt 26, 6-12; Jo 12, 1-8). Faz-nos lembrar aquelas pessoas que desafiam a Igreja a vender tudo o que tem para acudir aos pobres mas não mexem uma palha para fazer alguma coisa, sabendo-se que muitos crentes dão o melhor que têm, por vezes com muito sacrifício, para terem uma Igreja bem adornada, com tudo o que há de melhor, procurando que a casa que é de todos seja a mais cuidada, e se é para receber o convidado mais importante, Jesus Cristo, não se poupam a esforços. E não tem a ver com quantidades, mas com o coração e com a vida, como exemplifica Jesus apresentando uma viúva pobre que deitou duas pequenas moedas no cofre do templo, mais do que todos os outros, pois estes deitaram do que lhes sobejava e aquela mulher deitou tudo quanto tinha para sobreviver (cf. Lc 21, 1-4), confiando-se totalmente a Deus.
       Porém, o cuidado com as coisas de Deus há de sensibilizar-nos a cuidar bem dos preferidos de Deus, os pobres, os pequeninos, os humildes e mansos de coração, os que têm pouco e vivem na míngua. O Juízo Final sintetiza a mensagem de Jesus: "Sempre que fizeste isto a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizeste... Sempre que deixaste de fazer isto a um destes pequeninos, foi a Mim que o deixaste de fazer" (Mt 25, 31-46). Também aqui não se pode simplesmente espiritualizar o amor ao próximo, há que o materializar: tive fome e deste de comer, tive sede e deste-me de beber, era peregrino e me recolheste, estava nu e me vestiste, adoeci e visitaste- me, estava preso e foste ver-me. E veja-se como passados alguns séculos, ainda que com muitos pecados, muitos atrasos e lentidões, muitos distanciamentos, a Igreja tem um compromisso social incomparável. A Igreja, com todos os seus membros, poderá sempre fazer melhor, até esgotar todas as possibilidades! O mandato de Cristo é o ponto de partida e o fundamento, que conta connosco e com os meios que estão ao nosso alcance para fazer a vida acontecer.
       Adentremo-nos no Evangelho da multiplicação e da partilha solidária.
       2 – Como víamos no domingo passado, ainda que com outro evangelista, há uma numerosa multidão que segue Jesus. São João refere que isso se deve aos milagres que Ele fazia com os doentes. Também aqui se vê que Jesus vai para o outro lado do mar da Galileia. Não fica deste lado, do seu lado, no seu canto, mas leva-nos com Ele para outras paragens. Sobe ao monte, vista privilegiada para ver a multidão que O segue, e diz a Filipe: «Onde havemos de comprar pão para lhes dar de comer?»
       Diante do número crescente de pobres, de famílias com dificuldades, empresas a fechar, incumprimento nos pagamentos, também podemos cair em desânimo, concluindo que os problemas são maiores do que as nossas possibilidades: «Duzentos denários de pão não chegam para dar um bocadinho a cada um». É uma pergunta legítima. E se nos pomos a pensar que alguns se puseram a jeito?! Por vezes é necessário acudir às necessidades imediatas, mas a preocupação é revolver as situações a longo prazo, envolvendo aqueles que estão necessitados. É também uma questão de dignidade.
       Fixemo-nos em Jesus. Não faz nenhum reparo em relação à multidão. Não Se interroga pelo facto de alguns estarem desprevenidos. O comentário partilhado com Filipe, e com os outros discípulos, e connosco, é sobre o que cada um nós pode fazer para resolver o problema que temos pela frente e saciar aquela multidão.
       André, irmão de Simão Pedro, denota a insuficiência dos meios: «Está aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?».
       Para nós é muito pouco, mas faz toda a diferença. «Mandai-os sentar». 5 mil homens. Jesus toma os pães e os peixes, dá graças e distribuiu-os. Todos comem o que querem. Até ficarem saciados. Nova ordem de Jesus que conta connosco: «Recolhei os bocados que sobraram, para que nada se perca». 12 cestos. De 5 pães e dois peixes, depois da refeição para 5 mil homens, sobram 12 cestos! Abundância que vem de Deus. Abundância que vem da partilha.
       3 – A primeira leitura, que novamente nos traz um profeta, prepara-nos para ler o Evangelho. Um homem leva a Eliseu pão feito com os primeiros frutos da colheita. 20 pães de cevada, e algum trigo no saco. Eliseu ordena-lhe: «Dá-os a comer a essa gente». Mas como poderia ele pensar em distribuir 20 pães por cem pessoas? Eliseu insiste: «Dá-os a comer a essa gente, porque assim fala o Senhor: ‘Comerão e ainda há de sobrar’». Mais vale quem Deus ajuda do que quem muito madruga!
       O verdadeiro milagre é a confiança em Deus e na Sua Palavra. Deus conta connosco. Cabe-nos parte importante na resolução dos problemas que afligem o nosso tempo. Deus age através de nós, dos nossos dons e dos nossos bens. O que fazemos pode não passar de uma gota de orvalho no oceano, mas este só estará completo com a nossa gota de orvalho, como nos lembra a Beata Madre Teresa de Calcutá.
       O milagre da multiplicação que Eliseu obtém de Deus, e o milagre da abundância operado por Jesus, podemos vivê-los através da partilha. "A terra está dotada dos recursos necessários para saciar a humanidade inteira. É preciso saber usá-los com inteligência, respeitando o ambiente e os ritmos da natureza, garantindo a equidade e a justiça nas trocas comerciais, e uma distribuição das riquezas que tenha em conta o dever da solidariedade" (São João Paulo II, Mensagem para a Quaresma, 1996). 
       O milagre só Deus o pode realizar, ainda que através de nós. A partilha faz-nos multiplicar por muitos o pouco que cada um possa ter. Sejam cinco pães e dois peixes! Deus acrescenta-nos no que fica o que damos aos outros. Na partilha as contas são de multiplicar. “A felicidade está mais no dar do que no receber” (Atos 20, 35).
       A oração de coleta ajuda-nos a consciencializar a iniciativa e omnipotência de Deus, envolvendo-nos na transformação do mundo presente com o olhar colocado na eternidade: "Deus, protetor dos que em Vós esperam, sem Vós nada tem valor, nada é santo. Multiplicai sobre nós a vossa misericórdia, para que, conduzidos por Vós, usemos de tal modo os bens temporais que possamos aderir desde já aos bens eternos". 

       4 – A Carta aos Efésios, por sua vez, continua a impelir-nos para os outros, fundamentando a nossa vida e as nossas escolhas em Deus, que é "Pai de todos, que está acima de todos, atua em todos e em todos Se encontra". Se professamos a mesma fé, há que agir para nos vincularmos no mesmo batismo: "Procedei com toda a humildade, mansidão e paciência; suportai-vos uns aos outros com caridade; empenhai-vos em manter a unidade de espírito pelo vínculo da paz. Há um só Corpo e um só Espírito, como há uma só esperança na vida a que fostes chamados. Há um só Senhor, uma só fé, um só Batismo".
       A missão de Paulo é levar o Evangelho a toda a parte. Porém, não esquece de verificar o Evangelho e os seus frutos nas comunidades por Ele fundadas, incentivando os cristãos a tornarem-se verdadeiros irmãos em Cristo Jesus.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (B): 2 Reis 4, 42-44; Sl 144 (145); Ef 4, 1-6; Jo 6, 1-15.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

D. António Couto com os crismandos em Távora


       A Paróquia de São João Batista de Távora vai viver mais um momento de especial significado, a celebração do Sacramento do Crisma. Da preparação para este dia, o encontro de D. António Couto com os Crismandos, 17 jovens, dos 15 aos 21 anos. Este encontro favorece a proximidade entre o Senhor Bispo os jovens que vão ser crismados. Oportunidade para que D. António vincasse alguns aspetos para melhor viver e assumir o Sacramento do Crisma.
       Depois de uma breve oração inicial, o pároco apresentou as razões do encontro, dando a palavra para que cada jovem se apresentasse, com o nome e a idade. Tomando a palavra o Senhor Bispo começou por sublinhar a ligação à palavra Crisma, unção, sendo que Cristo é o Ungido, Jesus crismado (Cristo). Aquele que é crismado é para ser outro Cristo. Mais do que saber o catecismo, também é importante saber catequese, importa viver à maneira de Jesus e todos conhecemos a postura de Jesus na ligação.
       O Espírito Santo é-nos dado por Jesus. Citando São João (7, 39) em que Jesus fala do Espírito santo que os seus discípulos iam receber, mas que ainda não têm porque Jesus ainda não foi glorificado, D. António prosseguiu dizendo que a glorificação vem da crucificação/morte/ressurreição de Jesus. Depois da glorificação, com a morte e ressurreição de Jesus, os discípulos recebem o Espírito Santo. Várias imagens com as quais nos é apresentado o Espírito Santo: a pomba, o vento, o fogo, o óleo. Como o óleo que penetra a pele, pela unção, assim o Espírito Santo age em nós. Em Israel, as pombas regressam na primavera (primeiro verão), ausentando-se no inverno, isto é, o regresso na primavera quando surge a vida nova. Assim o Espírito Santo que nos renova. O vento que agita e afasta todas as teias de aranha, assim o Espírito age de modo a que tenhamos cristãos/jovens, teimosos, desenvergonhados, assumindo-se como cristãos e dando testemunho, vivendo ao jeito de Jesus.
       Algumas perguntas com respostas para espicaçar os crismandos.
       D. António referiu-se aos diferentes gestos do crisma, a unção, mas antes disso a invocação do Espírito Santo, com as mãos abertas, símbolo das mãos de Deus que dá tudo, e das mãos que devemos abrir para tudo receber de Deus e para tudo dar.
       Jesus vivendo como viveu era uma pessoa alegre. Também os cristãos devem ser alegres. Por vezes há cristãos que parecem levar um pesado saco às costas de tão tristes que andam. O cristão vive e testemunha a alegria de ser cristão, levando a Boa Nova onde não se vive.
       Em relação à pomba, uma pequena estória contada pelos rabinos sobre a criação da pomba.
       Deus criou a pomba e colocou-a no chão. Mal pousou no chão veio um gato e deu cabo dela. Então a pomba foi ter com Deus e disse-lhe: como é que pode ser uma coisa destas, a mim deste-me duas patas, fininhas, frágeis e ao gato deste-lhe quatro patas e mais grossas. Assim não pode ser, não tenho como me defender. Ouvindo as suas queixas, Deus colocou-se duas asas e voltou a pousá-la na terra. Já tinha duas patas e duas asas. Mas tão rápido como antes o gato veio e deixou-a ainda pior que da primeira vez. A arrastar-se a pomba volta a bater à porta de Deus e protesta veemente: já não bastava duas pequenas patas, franzinas, com estas duas asas tenho que carregar com mais peso e se antes já não tinha hipótese com o gato agora muito menos. Então Deus respondeu-lhe: estúpida pomba, Eu não te dei as asas para te pesarem mas para suportarem o teu peso e te fazerem voar. Nesta belíssima imagem, o convite de D. António aos jovens para se voem, alegres, com Jesus Cristo, ungidos pelo Espírito, no coração, não desistam de voar, de ser destemidos, teimosos, no bom sentido, desenvergonhados, em viver e anunciar Jesus Cristo.

Recebeu a palavra em boa terra: ouve a palavra...

       Jesus aos seus discípulos: «Escutai o que significa a parábola do semeador: Quando um homem ouve a palavra do reino e não a compreende, vem o Maligno e arrebata o que foi semeado no seu coração. Este é o que recebeu a semente ao longo do caminho. Aquele que recebeu a semente em sítios pedregosos é o que ouve a palavra e a acolhe de momento com alegria, mas não tem raiz em si mesmo, porque é inconstante, e, ao chegar a tribulação ou a perseguição por causa da palavra, sucumbe logo. Aquele que recebeu a semente entre espinhos é o que ouve a palavra, mas os cuidados deste mundo e a sedução da riqueza sufocam a palavra, que assim não dá fruto. E aquele que recebeu a palavra em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende. Esse dá fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta por um» (Mt 13, 18-23).
       Fácil de entender a parábola. Mais fácil se torna com a explicação de Jesus.
       Tradicionalmente, os diferentes terrenos seriam diferentes pessoas. Mas não é descabido pensar que cada um de nós, em diferentes épocas da sua vida, passa por diversas fases, umas vezes é terreno fértil, outras, pedregoso, outras vezes, terra com muitos espinhos.
       Por vezes as circunstâncias da vida deixam-nos sem paciência para escutar. Fechamo-nos. Não queremos ouvir. Não queremos que nos macem. Isolámo-nos.
       Outras vezes, escutámos a Palavra de Deus e a voz da nossa consciência que nos atrai para Deus, mas temos muitas urgências: decidir, fazer, comprar, sair, divertir, encontros e mais encontros, festas, compromissos inadiáveis, muito trabalho... e não temos tempo nem para nós, nem para os outros, nem para a família, nem para viver com alegria e generosidade.
       Por vezes até gostaríamos de fazer diferente, comprometermo-nos mais, mas falta a coragem. Outras vezes, deixamos que outros façam. Outras vezes, vamos com a corrente...
       Mas também sabemos ser, e também somos, em muitas situações, terreno fértil, onde a Palavra de Deus germina e dá fruto em abundância.

Enquadramento mais abrangente:
XV Domingo do TC (ano A) - 10 de julho de 2011

sábado, 18 de julho de 2015

XVI Domingo do Tempo Comum - ano B - 19 de julho

       1 – A fé não é uma realidade abstrata. A fé liga-nos aos outros, no tempo e no espaço, ao passado, aos nossos contemporâneos e ao futuro, aos que estão perto e aos que estão longe, aos que peregrinam na história e aos que se encontram na eternidade de Deus.
       Com efeito, "o para sempre é feito de agoras" (Emily Dickinson). Se vivêssemos idealmente como seres espirituais, sem fronteiras nem limites, sem corpos nem encontros, não seríamos o que somos, em vez de homens e mulheres seríamos anjos, não seríamos deste mundo.
       Somos de carne e osso, situamo-nos no tempo e na história. A nossa vida não se dilui em intenções, generalizações, globalizações, sem identidade nem rosto. A vida é concretizável no nascer, na interação com os nossos pais, irmãos, família, com os vizinhos, com os colegas de escola, com os colegas de brincadeira e, mais tarde, de trabalho.
       Quando Jesus fala, ainda que fale às multidões, quando Jesus age, ainda que o faça a favor da humanidade inteira, fixa os olhos em pessoas concretas, com quem dialoga, a quem abraça, a quem sorri, a quem cura, a quem toca.
       Quando olhamos para um líder mundial, ficamos com a sensação que é alguém inacessível, protegido por seguranças que não deixam ninguém aproximar-se. Está acima dos simples mortais.
       Jesus não é um líder mundial, nem uma superestrela. É uma pessoa simples, está aí, bem perto, cuidando de nós. Os apóstolos foram enviados a pregar, a curar, a expulsar os demónios. Partiram em nome de Jesus para fazer o bem às pessoas que encontrassem necessitadas de saúde/salvação. Regressam. Entusiasmados com a missão, contam tudo a Jesus, confidenciam-lhe o que viveram. Também nós somos chamados a confidenciar a nossa vida a Jesus.
       Depois de os ouvir com atenção, a preocupação muito "banal" e humana de Jesus: «Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco». E são Marcos acrescenta: "De facto, havia sempre tanta gente a chegar e a partir que eles nem tinham tempo de comer. Partiram, então, de barco para um lugar isolado, sem mais ninguém".
       2 – Na recente Viagem Apostólica do Papa Francisco à América Latina sobreveio a certeza que a fé aproxima pessoas, não é incolor, vive-se no sorriso, na palavra, no gesto, num aperto de mão, num afago, numa selfie. O Santo Padre vai visitar um país. Em abstrato é um país. Mas encontra-se com pessoas, com os governantes, com os Bispos, com uma ou outra comunidade, desloca-se a um bairro de lata, a um hospital, visita uma cadeia, abraça uma criança, um idoso, fala aos jornalistas, fala com um grupo de doentes...
       Sobretudo a partir de João Paulo II, mas já com Paulo VI, as Viagens Apostólicas do Papa a diversos lugares do mundo expressam a Igreja em saída ao encontro de povos, de situações, de pessoas. E mesmo no Vaticano, o dia do Papa é preenchido de diversos encontros, com pessoas com responsabilidades políticas, económicas, culturais, mas também com pessoas simples. Bento XVI, nos dias de renúncia, sublinhava precisamente a proximidade das pessoas simples que lhe escreviam como a um amigo ou a um Pai.
       A fé não é um bicho de 7 cabeças, que nos isole ou nos eleve acima dos demais. Em ano de vida consagrada coloca-se em evidência a diversidade de estilos de vida apostólica ou consagrada, mas mesmo os/as religiosos/as de clausura não se retiram do mundo para ficarem imunes ao mundo, retiram-se para estar mais perto de Deus, vivendo em comunidade, para intensificarem a oração pelos outros. A "finalidade" da oração e da vida consagrada são os irmãos. A introspeção leva-nos ao santuário interior onde nos encontramos com Deus e em Deus nos encontramos com aqueles e aquelas que Deus no dá e com os quais construímos a família.
       3 – A delicadeza de Jesus ocupa por inteiro o Evangelho deste domingo e todo o domingo, toda a Palavra e toda a nossa vida. Depois da confidência dos apóstolos poderíamos esperar um belo discurso de Jesus, uma oração poética, mais perguntas ou mais recomendações. Jesus está atento aos seus amigos: vinde, descansai e comei, que bem precisais.
       É uma delicadeza que se alarga à multidão.
       "Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e compadeceu-Se de toda aquela gente, porque eram como ovelhas sem pastor. E começou a ensinar-lhes muitas coisas".
       Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus. Jesus interpreta os tempos. Há um tempo para alimentar o corpo. Não adianta pregar a estômagos vazios. Há um tempo para refletir, para orar, para dar sentido à vida, para apalavrar a existência.
       Há pessoas miseráveis a viver em palácios, há pessoas felizes a viver em favelas. Quem tem muito pode pensar que a felicidade não passa pelos bens, ainda que não os dispense nem os partilhe com quem nada tem. A fé compromete-nos na transformação do mundo, na luta contra as injustiças, na promoção das pessoas e na inclusão dos mais frágeis.
       A palavra já existia, Ela está no início, Jesus é a Palavra (o Verbo) de Deus que Se faz carne, Se faz corpo. Sem palavra, não há vida. É pela Palavra que Deus cria o mundo. Jesus põe-se a ensinar aquela multidão cujas pessoas são como ovelhas sem pastor. Precisam de encontrar um sentido definitivo para as suas vidas. Jesus fala-lhes de Deus. Fala do Amor que é Deus e que abraça cada um. Fala-lhes de esperança e vida nova. Desafia-os a viver, a fazer da vida um milagre.
       4 – Jesus faz-nos chegar à plenitude do tempo e da história.
       E com Ele dá-nos Deus. O Céu está entre nós. Fez a Sua tenda no mundo. Mas desde sempre, desde que nos criou, que Deus não cessa de vigiar a nossa felicidade, desafiando-nos, envolvendo-nos, provocando-nos, alertando-nos para os perigos de desaparecermos. A Palavra de Deus é como espada de dois gumes, denúncia o mal para introduzir o bem.
       Nos últimos domingos fomos visitados por Ezequiel e por Amós. Hoje Deus visita-nos pelo grande profeta Jeremias: «Ai dos pastores que perdem e dispersam as ovelhas do meu rebanho!... Vou ocupar-Me de vós e castigar-vos, pedir-vos contas das vossas más ações... Eu mesmo reunirei o resto das minhas ovelhas de todas as terras onde se dispersaram… Dar-lhes-ei pastores que as apascentem e não mais terão medo nem sobressalto; nem se perderá nenhuma delas... Dias virão, diz o Senhor, em que farei surgir para David um rebento justo. Será um verdadeiro rei e governará com sabedoria; há de exercer no país o direito e a justiça».
       O que Deus diz aos pastores, diz a cada um de nós. Somos responsáveis uns pelos outros. Deus pedir-nos-á contas dos nossos irmãos. «Onde está o teu irmão Abel?» Caim bem se desculpa: «Sou, porventura, guarda do meu irmão?». Garantia de Deus para todos: «A voz de sangue do teu irmão clama da terra até Mim». (Gn 4, 8-16).
       A promessa de Deus vem desde sempre. Caim é expulso do Jardim, mas é protegido por Deus. Há pastores que dispersam e perdem as ovelhas, mas Deus fará surgir um rebento justo, que para nós é Jesus, o Bom Pastor, que Se compadece da multidão e por ela dá a Sua vida. As palavras de Jesus identificam-se com o salmo. Ele "é meu pastor: nada me falta. Leva-me a descansar em verdes prados, conduz-me às águas refrescantes e reconforta a minha alma. Para mim preparais a mesa à vista dos meus adversários; com óleo me perfumais a cabeça, e o meu cálice transborda".

       5 – Jesus Cristo dá a Sua vida para nos congregar como povo santo: um só rebanho com um só pastor. Uma verdadeira família para Deus. Para que todos sejam Um como Eu e Tu somos Um (cf. Jo 17, 21) De todos os povos dispersos, Jesus forma o Seu corpo.
       O sublinhado de São Paulo é ilustrativo: “Cristo é, de facto, a nossa paz. Foi Ele que fez de judeus e gregos um só povo e derrubou o muro da inimizade que os separava… E assim, de uns e outros, Ele fez em Si próprio um só homem novo, estabelecendo a paz. Pela cruz reconciliou com Deus uns e outros, reunidos num só Corpo, levando em Si próprio a morte à inimizade. Cristo veio anunciar a boa nova da paz, paz para vós, que estáveis longe, e paz para aqueles que estavam perto. Por Ele, uns e outros podemos aproximar-nos do Pai, num só Espírito”.
       O ponto de partida, o fundamento e o fim da nossa vida é a Santíssima Trindade.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (B): Jer 23, 1-6; Sl 22 (23); Ef 2, 13-18; Mc 6, 30-34.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Santo Aleixo - o Homem de Deus

       Santo Aleixo é um lugar da Paróquia de Santa Maria de Barcos, situado no percurso da Estrada Nacional 323, entre o Espinho e a Vila de Tabuaço. A 17 de julho, possivelmente a data da morte do "Homem de Deus", popularizado como Santo Aleixo de Roma.
       Coube-nos, em 2012, em sorte participar na Festa em honra de Santo Aleixo, na Procissão da Capela de Nossa Senhora de Fátima, junto à Estrada Nacional, até à primitiva e restaurada Capela de Santo Aleixo, na encontra sobranceira à povoação, na celebração da Santa Missa, cantada, e na Pregação. E obviamente para falar de alguém é necessário conhecê-lo, ou corre-se o risco de meter o pé na argola. Sendo assim, recolhemos informação, do pároco, em livros disponíveis e nesta aldeia global que é a internet.
       Sendo que a pregação deverá centrar-se em Jesus Cristo, através da Palavra de Deus, na Sua Pessoa e no mistério da Sua Paixão e Ressurreição, também é oportuno ilustrar a vivência do Evangelho e adesão a Jesus Cristo com os Santos, situados em diferentes épocas, com vidas e circunstâncias diversas das nossas, mas com o mesmo compromisso batismal, de tudo ser feito para louvor e glória de Deus.
        Ressalve-se que parte das histórias de muitos Santos dos séculos IV, V, VI, mas também de outras épocas, tem muito de lendário, o que fácil se compreende. Não havia reportagens jornalísticas. Primeiro a pessoa que adquire fama de santidade e, depois, as histórias que se espalham sobre a pessoa em causa, de cidade em cidade ou aldeia, e através das gerações, com a consequente leitura pessoal das mesmas histórias. Mas por entre o lendário descobre-se a verdade que lhe deu forma e fama: a fidelidade a Jesus Cristo, o estilo de vida em que se viveu, acontecimentos que "convenceram" pessoas da santidade.

       Santo Aleixo nasceu e viveu num tempo de paz, de tolerância e de acolhimento da Igreja e do Cristianismo, à volta do ano 350, em Roma, na alta aristocracia. Filho do senador Eufemiano e da matrona Aglais. Nobre, vivendo num palácio, com muitos criados. Família cristã.
       A família e o ambiente são muito importantes na formação da pessoa. No caso presente, o Homem de Deus, nasceu num berço de oiro e num ambiente favorável à fé. Com o imperador Constantino, o cristianismo tornou-se tolerado, ganhando pouco a pouco a cidadania do império e tornando-se, com o imperador Teodósio a religião oficial e obrigatória do Império. Muitos cristãos tinham tido necessidade de afirmar a sua fé perante a família e perante a autoridade política dando a vida, como Santa Bárbara, São Sebastião, ou Santa Eufémia (se bem que esta tenha também nascido em família cristã e num ambiente cristão).
       Os pais tinham como principal projeto de vida para o seu filho o prolongar do nome e da família, e sempre oportunidade de estabelecer laços familiares com outras famílias da aristocracia. Foi o que aconteceu. O jovem Aleixo desde muito novo procurou levar uma vida de piedade e penitência, inclinado para seguir o exemplo de outros jovens que se tornaram santos. Um desejo de juventude que teve que adiar, pois a vontade dos pais ia prevalecer. Para não os contrariar, desposou uma jovem da mesma classe aristocrata. Mas ainda antes de consumar o matrimónio, na noite de núpcias, sabendo talvez que seria um tempo em que ninguém o incomodaria, falou com a sua esposa, e em segredo deixou a casa dos pais e partiu para Oriente.
       Não se sabe muito da sua vida oculta, mas comummente se aceita que andou de cidade em cidade, tornando-se pedinte, depois de se ter despojado dos bens que ainda possuía, vendendo e dando aos pobres e fixou-se em Edessa, na Síria.
       Vivia junto à Igreja, participava das orações e da vida sacramental, e dependia das esmolas que ia recebendo e/ou solicitando. Do que recebia ainda repartia por outros mendigos. Em certa ocasião, os criados do seu pai, que o procuravam, socorreram-nos mas não o reconheceram, pois estava desfigurado com a fome e com as condições de vida a que se sujeitara.
       A sua fama foi-se espalhando. Muitos vinham procurá-lo. Vivia como pobre, partilhava com os mais pobres do que tinha, presente nas orações comunitárias e certamente um excelente ouvinte e conselheiro.
       Com medo de ser reconhecido e não querendo fama, deixa Edessa e regressa a Roma. Desfigurado, pede abrigo aos pais, que não o reconhecem e, por isso, mesmo, concedem-lhe um pequeno quarto perto dos animais. "Tende compaixão deste pobre de Jesus Cristo e permiti-me que me aloje nalgum canto do vosso palácio". Popularmente é descrito como vivendo debaixo das escadas, junto ao palácio, maltrato pelos criados do pai, em oração, e dormindo no chão.
       Morre quando o seu pai, Eufemiano participava na Missa presidida pelo Papa Inocêncio I, que ouve uma voz: «Acaba de expirar o servo de Deus, é grande o seu poder, morreu em casa de Eufemiano". Juntamente com o pai, o Bispo de Roma, deslocou-se para se encontrar com o Homem de Deus. Os pais reconheceram-no por um pergaminho que tinha entre as mãos, onde se identificava e segundo alguns onde estaria um pedido de desculpas aos pais e àquele que tinha assumido como esposa.
       A fama de santidade espalhou-se rapidamente também pela cidade de Roma, ficando conhecido precisamente como Santo Aleixo de Roma.

Três desafios, propostos também na reflexão na Capela de Santo Aleixo:
  1. Viver por convicções e não ao sabor de modas. Aleixo, num primeiro momento faz a vontade aos pais, mas a opção clara será por viver na fidelidade a Jesus Cristo, como sempre desejava, pela piedade e pela penitência.
  2. A família é o espaço primeiro onde se aprende a ser gente e onde se testa a veracidade da fé cristã. Aleixo foi educado em valores cristãos, sendo-lhe ilustrada a fé com exemplos dos muitos mártires cristãos. (Obviamente, e como anteriormente ficou dito, a adversidade e ambientes contrários também podem incentivar a afirmação da fé).
  3. Alimentar-se de Jesus Cristo, da Sua Palavra, na inserção à oração da comunidade, para viver com os outros. Não são precisas muitas coisas, é necessário a fé, a vontade, a adesão livre e libertadora a Jesus Cristo e ao Seu Evangelho. Aleixo viveu perto da Igreja, em Edessa, e do pouco que tinha partilhava com os outros pedintes. E partilhava-se. Há sempre algo que poderemos partilhar. Ninguém é tão pobre...
Fontes bibliográficas:  Santos de todos os dias (mês de julho), Apostolado de Oração, Matosinhos 2005; Portal Católico. Pode consultar uma peça sobre Santo Aleixo de Roma: AQUI

BB. Inácio de Azevedo e Companheiros

Nota biográfica:
       Inácio de Azevedo nasceu no Porto, de família ilustre, em 1526 ou 1527; entrou na Companhia de Jesus em 1548 e foi ordenado sacerdote em 1553. Mais tarde partiu para o Brasil, a fim de se consagrar ao apostolado missionário. Tendo voltado à pátria, conseguiu recrutar numerosos colaboradores para a sua obra evangelizadora e empreendeu a viagem de regresso; mas, interceptados ao largo das ilhas Canárias pelos corsários anticatólicos, ali sofreu o martírio no dia 15 de Julho de 1570; os trinta e nove companheiros que iam na mesma nau foram também martirizados no mesmo dia.
Oração (de colecta):
       Deus eterno e todo-poderoso, que dotastes de invencível constância na fé os bem-aventurados mártires Inácio de Azevedo e seus companheiros, concedei-nos que, fortalecidos por tão numerosos exemplos, imitemos o fogo da sua caridade e participemos da sua glória na pátria celeste. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.


“…para mim, viver é Cristo e morrer, um lucro.“
(Fl 1, 21)
       Ao cabo de alguns dias de viagem, era o dia 15 de Julho de 1570, faz hoje precisamente 441 anos, “davam já a volta para a cidade da Palma, de que distavam duas ou três léguas”, avistaram a vela de uma grande nau e depois mais três, de modo que, inicialmente, chegaram a pensar tratar-se da armada de D. Luís de Vasconcellos, mas tal não se veio a confirmar. Era antes Jacques de Sória, corsário calvinista francês, conhecido pelo seu ódio de morte aos católicos e entre estes, muito especialmente, aos jesuítas. Acompanhavam Sória perto de meio milhar de soldados, todos eles animados pelo mesmo furor contra a Igreja Católica.
       Rapidamente prepararam a nau Santiago para a peleja, não obstante a diferença numérica de homens e armamento. O capitão da nau Santiago pediu ao Padre Inácio irmãos para a luta: “Padre, estamos prestes para pelejar, mas temos muito pouca gente, sendo tantos os inimigos; dai-nos alguns desses vossos Irmãos mais robustos, que nos ajudem». Respondeu o Padre: «Dar-vo-los-ei, não para pelejarem mas para vos animarem com suas palavras»”. Tripulação e irmãos jesuítas estavam animados na defesa da sua nau, ainda que isso lhes custasse a própria vida. Foram aguentando a peleja até que a nau foi invadida pelos corsários franceses e então começou corpo a corpo uma luta desigual, iniciando-se assim uma verdadeira carnificina.
       “Quando o galeão chegou a distância de se poder ouvir, Sória gritou de lá: - «Deitai, deitai ao mar esses Pretes que vão semear falsa doutrina no Brasil!»”.

Vale a pena visitar o blogue: Santos da Arquidiocese de Évora:

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima

       No âmbito das celebrações do centenário (1917-2017) das Aparições de Nossa Senhora em Fátima, a primeira Imagem Peregrina, produzida a partir das indicações da Irmã Lúcia, imagem entronizada na Basílica de Nossa Senhora do Rosário e que há 50 anos percorreu o país, vai visitar (de novo) as Dioceses portuguesas.
       Na nossa Diocese de Lamego, a Imagem peregrina será acolhida no dia 26 de julho, pelas 16h00, em Vila Nova de Foz Côa, recebendo-a da Diocese de Bragança. Será entregue no dia 9 de agosto, na Sé Catedral, aos responsáveis de Fátima, regressando ao Santuário até ao mês de setembro, reiniciando na Diocese do Porto.
       Na Zona Pastoral de Tabuaço, será acolhida no 2 de agosto, pelas 18h00, na Paróquia de Arcos, que a recebe da Paróquia de Cabaços, Zona Pastoral de Moimenta da Beira. Será confiada à Zona Pastoral de Armamar, no do 3 de agosto, pelas 18h00, nos limites da Paróquia de Santa Leocádia com a Paróquia de Santo Adrião.
       Irá percorrer todas as paróquias da Zona Pastoral / concelho de Tabuaço na ordem e nos horários que surgem no Cartaz: DIA 2 de AGOSTO: Arcos - Longa - Nagosa - Granja do Tedo - Carrazedo - Vale de Figueira - Tabuaço. A recepção em Tabuaço será junto ao RECINTO de Nossa Senhora da Conceição, iniciando-se, com a participação de todas as paróquias a Procissão das Velas, que recolherá na Igreja Paroquial, havendo então um momento de Vigília de Oração. Durante a noite a Igreja poderá ficar aberta, tendo em conta que já houve grupos que manifestaram esse desejo. Pelas 8h00, celebração de SANTA MISSA, despedida da Imagem em direção à Paróquia de Távora.
DIA 3 de AGOSTO: Távora - Granjinha - Paradela - Sendim - Chavães - Desejosa - Valença do Douro - Santo Aleixo - Adorigo - Pinheiros - Barcos - Santa Leocádia.


       Cruzará a Vila de Tabuaço por voltas das 13h30 do dia 3 de agosto, de Chavães em direção à Desejosa, e no regresso, pelas 15h15, de Valença em direção a Adorigo.
       As diferentes comunidades, e todas as pessoas que puderem e quiserem, podem deslocar-se para a colher a Imagem Peregrina, em Arcos, no dia 2 de agosto, e na passagem de testemunha em Santa Leocádia, no dia 3 de agosto. 18h00 - hora de acolhimento e de entrega.

Nem um copo de água ficará sem recompensa

Disse Jesus aos seus apóstolos:
       "Disse Jesus aos seus apóstolos: «Não penseis que Eu vim trazer a paz à terra. Não vim trazer a paz, mas a espada. De facto, vim separar o filho de seu pai, a filha de sua mãe, a nora da sua sogra, de maneira que os inimigos do homem são os de sua casa. Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim, não é digno de Mim. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não é digno de Mim.Quem encontrar a sua vida há-de perdê-la; e quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la. Quem vos recebe, a Mim recebe; e quem Me recebe, recebe Aquele que Me enviou. Quem recebe um profeta por ele ser profeta, receberá a recompensa de profeta; e quem recebe um justo por ele ser justo, receberá a recompensa de justo. E se alguém der de beber, nem que seja um copo de água fresca, a um destes pequeninos, por ele ser meu discípulo, em verdade vos digo: não perderá a sua recompensa». Depois de ter dado estas instruções aos seus doze discípulos, Jesus partiu dali, para ir ensinar e pregar nas cidades daquela gente" (Mt 10, 34 - 11, 1).

       Jesus alerta os seus discípulos para a inquietação que devem sentir na transformação do mundo, gastar a vida para a ganhar, viver na dedicação permanente ao próximo, não esperar tranquilidade na missão. A paz conquista-se pelo compromisso com os outros. Paulo VI lembrava que o desenvolvimento é outro nome para a paz, pois esta não é alcançável quando existe pobreza, guerra, dependência, corrupção, quando lei do mais forte impera, escravizando, controlando, retirando aos outros a liberdade e a capacidade de autodeterminação. A paz exige escolhas ativas a favor da transformação do mundo e das estruturas de pecado, para que a injustiça, as desigualdades sociais, o défice de acesso à saúde, à educação e à cultura, sejam minoradas em ordem à fraternidade.
       O caminho para Jesus é o serviço, a caridade, a atenção e cuidado sobretudo às pessoas que se encontram em situações de desfavor, num mundo paralelo, deficitário, de exclusão social, política e religiosa. Aos seus discípulos diz claramente qual é o caminho: serviço, caridade. Nem um copo de água dado em nome de Jesus ficará sem recompensa.

domingo, 12 de julho de 2015

Paróquia de Tabuaço | Sacramento do Crisma | 2015

       No dia 4 de julho, a Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Tabuaço acolheu, com júbilo, o Senhor Bispo, D. António Couto, para a administração do Sacramento do Crisma a 19 jovens e adultos.

       No dia anterior, na sexta-feira, D. António Couto reuniu com os crismandos, no Centro Paroquial de Tabuaço, para refletir a importância e o significado do Sacramento do Crisma.
       O Senhor Bispo começou por sublinhar que com a unção está completa a instrução, o que falta é colocar em prática o que se aprendeu. Debruçou-se sobre os gestos: a invocação do Espírito Santo, com as mãos abertas, de Quem tudo dá, para que como num puzzle possamos também de mão abertas receber e compartilhar, e a crismação – para que o azeite, que penetra, nos transforme a mente e o coração e nos leve a militar na vivência e anúncio do Evangelho, estando atentos uns aos outros, não deixando que nenhum se perca. As mãos abertas em Adão e Eva deram lugar às mãos fechadas e os dons passaram a ser posse. O melhor da vida não tem preço, não se compra nem se vende. Tudo dar como Jesus. O que baralhou os apóstolos, mormente Pedro, não foi Jesus estar disposto a dar a vida pelos amigos. Também Pedro está disposto a dar a vida por Jesus. O que fez Pedro num oito foi a disponibilidade e a decisão de Jesus dar a vida por todos, até por aqueles que O vão matar...

       No sábado, pelas 17h00, a Igreja Paroquial encheu-se de pessoas, de alegria e de festa para acolher o Senhor Bispo.
       A celebração do Crisma, nesta como em outras paróquias, é um momento de especial importância não apenas para os crismandos e suas famílias, mas para a comunidade no seu conjunto, envolvendo o trabalho e a dedicação de muitas pessoas e dos vários grupos paroquiais – catequese, zeladoras da Igreja, grupo coral, acólitos, conselho económico, conselho pastoral. O cuidado na preparação visualiza-se mais nestes dias, para que aqueles que vêm, mormente o Senhor Bispo, se sintam bem acolhidos e com vontade de cá voltar.
       O grupo de crismandos resultou de dois grupos de catequese, que frequentaram o 10.º ano de catequese nos últimos anos pastorais, de 2013-2014 e de 2014-2015, e de alguns adultos que se prepararam mais proximamente com as Escolas da Fé. Nas últimas semanas houve uma preparação mais intensiva, à base do YOUCAT – Crisma, terminando com um tríduo de pregação, com o Pe. Jorge Giroto, refletindo sobretudo nos sacramentos de Iniciação Cristã – Batismo, Crisma e Eucaristia.
       Na concelebração da Eucaristia, a presença dos reverendos sacerdotes, Pe. Jorge Giroto, Pe. Filipe, Pe. Ildo e Pe. João Carlos, Pró Vigário Geral da Diocese de Lamego, e Pe. Manuel Gonçalves, pároco desta comunidade.

       No decorrer da Eucaristia, na homilia, D. António Couto desafiou os jovens, e toda a comunidade, a imitar Ezequiel, cuja fragilidade acentua a presença e a força de Deus; a imitar Paulo, cuja conversão o mostra a cair não do cavalo mas de si próprio, para que na sua fraqueza sobrevenha a força de Jesus Cristo, e a sua vida transforma-se por completo; a imitar Jesus que vai/vem à sua terra, e dá-Se por inteiro. Entre os seus parentes e amigos, que somos também nós, na sua terra que é nossa, mas também é a Sua terra, Jesus encontra dificuldades em comunicar a vida nova que traz do Céu. Por vezes andamos tão centrados nas coisas da terra que deixamos de olhar para o Céu.
       Durante a sua reflexão, D. António falou da esperança que é necessário alimentar, a partir de um poema de Charles Péguy. A esperança é uma menina de 9 anos que não cresce, e é levada pelas mãos pelas suas irmãs mais velhas, a Caridade e a Fé. Olhando mais atentamente, não é a esperança que é levada, é ela que empurra a Fé e a Caridade. Assim os jovens crismados hão-de ser esta esperança, e levar a esperança, ainda que pequena, para as suas vidas, para a família, para a escola, para o trabalho. Sem desistir. A comunidade deve acolher os crismados, não deixar que nenhum se perca e os crismados, por sua vez, deverão inserir-se nas diversas dinâmicas da comunidade.
       Depois da solene Eucaristia, com a administração do Crisma, realizou-se um convívio paroquial com os crismados e suas famílias, com as crianças da catequese, com a comunidade paroquial e com o Senhor Bispo e os sacerdotes que o acompanharam.

in Voz de Lamego, n.º 4320, ano 85/34, de 7 de julho de 2015

sábado, 11 de julho de 2015

XV Domingo do Tempo Comum - ano B - 12 de julho

       1 – Deus chama-nos para nos enviar. A primeira e mais original vocação do cristão é a santidade, isto é, a disponibilidade para acolher Deus, deixando-se transformar pela Sua graça, identificando-se progressivamente com Jesus Cristo e com o seu jeito de viver, de amar, de perdoar, de Se assumir irmão, sobretudo dos mais frágeis.
       Jesus chama os apóstolos e envia-os. Se, por momentos, eles entendem que o seguimento é um privilégio, uma prerrogativa com benefícios materiais, sociais ou políticos, cedo vão perceber que seguir Jesus é uma missão da qual poderá advir a perseguição e a própria morte.
        Partem de mãos vazias. Como nos tem lembrado o nosso Bispo, D. António Couto, de mãos vazias como as de Deus, que tudo nos dá; a bênção faz-se com as mãos abertas e estendidas e hão de corresponder às nossas mãos abertas para receber os dons de Deus, mantendo-as abertas para repartir pelos irmãos. "Ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, a não ser o bastão: nem pão, nem alforge, nem dinheiro; que fossem calçados com sandálias, e não levassem duas túnicas". O importante mesmo é a mensagem que levam. Quanto mais leves mais disponíveis e mais próximos das pessoas. O que levamos pesa-nos, atrasa-nos o andar, afasta-nos dos outros, cria medo de perder o que temos, faz-nos desconfiar dos outros e das suas intenções…
       Os apóstolos – hoje somos nós – não estão sós. Jesus envia-os dois a dois. Jesus vai com eles, vai connosco através do outro e da comunidade. Quando dois ou três vos reunirdes em Meu nome, Eu estarei no MEIO de vós (cf. Mt 18, 20). Sozinhos perder-nos-emos. Desanimaremos rapidamente, perderemos a direção, duvidaremos facilmente sobre o caminho que seguimos. O nosso GPS é Jesus, que segue connosco através da comunidade, a Igreja, que é o Seu Corpo.

        2 – O discípulo será sempre discípulo. Para os cristãos o Mestre é Jesus. Quem se assumir como mestre deixa de ser cristão para ser outra coisa qualquer. Fixando-nos nos dois termos "discípulo" e "apóstolo", diríamos que o cristão terá que ser sempre discípulo mesmo quando é apóstolo. Por sua vez, o apóstolo, para se manter fiel a Jesus Cristo, será sempre discípulo, aluno, aprendiz, servo. Por outras palavras, e assumindo a linguagem que se foi aprofundando nas Conferências Gerais do Episcopado da América Latina (CELAM), a junção da condição de discípulo com a de missionário. Daí que o cristão, todo o cristão, seja discípulo missionário. Não podemos ser seguidores de Jesus se não para O vivermos e O anunciarmos ao mundo inteiro.
       Jesus dá-lhes o poder sobre os espíritos impuros, com o seguinte mandato: «Quando entrardes em alguma casa, ficai nela até partirdes dali. E se não fordes recebidos em alguma localidade, se os habitantes não vos ouvirem, ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés como testemunho contra eles».
       É Jesus quem os envia. O mandato é de Cristo. A mensagem que hão de anunciar – a proximidade do reino, o arrependimento e a fé no Evangelho (cf. Mc 1, 14-15) – é de Cristo. O risco dos discípulos é tornarem-se mestres desligando-se do verdadeiro Mestre, de Jesus Cristo, e em vez de anunciarem o Evangelho, anunciarem-se a si mesmos. E assim também o perigo da Igreja – constituída por todos os discípulos de Jesus –, de se debruçar sobre si mesma, protegendo-se, protegendo os privilégios que adquiriu. Desde o início do seu pontificado, Francisco tem-se referido à doença de uma Igreja ensimesmada, autorreferencial, voltada para o interior onde já só se encontra uma ovelha. Ao invés, a Igreja deve sair, à procura das 99 ovelhas que se tresmalharam, e anunciar Jesus. Como a Lua reflete a luz do Sol, assim a Igreja tem que refletir a Luz de Cristo.
       "Os Apóstolos partiram e pregaram o arrependimento, expulsaram muitos demónios, ungiram com óleo muitos doentes e curaram-nos" e regressam para junto de Jesus, como veremos no próximo Domingo. O ponto de partida é Jesus. O ponto de encontro dos cristãos, dos discípulos missionários, é Jesus. Ele é o ponto de convergência e de irradiação da salvação.

       3 – O Deus de Jesus Cristo é um Deus próximo, Pai, amigo. Se em Cristo Se revela em plenitude, nos Profetas e através deles, Deus dá-Se a conhecer como Alguém que se entranha na História, intervindo positivamente, pelos sinais e pelos mensageiros. Víamos, na semana passada, o envio de Ezequiel para o meio do povo. Podem não o escutar e à Palavra que traz de Deus, mas saberão que Deus não os abandona, que está no meio deles pelo Profeta.
       Amós está em missão. Não se anuncia. Vem em nome de Deus para comunicar a mensagem de Deus. E como bem sabemos a Palavra de Deus é como espada de dois gumes, corta o mal para introduzir o bem, denuncia as injustiças, a pobreza, a exclusão, para propor a Aliança, colocando Deus no centro para que as pessoas não sejam usadas caprichosa e arbitrariamente.
       Poderá a honestidade ofender? Poderá a verdade ferir? (Não se trata aqui da sensibilidade e do cuidado que deveremos ter quando lidamos com pessoas. Há sempre o perigo de utilizarmos a verdade, a honestidade ou a frontalidade como desculpa e justificação para destilarmos ódio e os nossos azeites sobre alguém de quem não gostamos muito).
       A honestidade, pela sua transparência, poderá ofender o desonesto, pois este sente-se exposto. Amasias, sacerdote de Betel, ressentido, ordena a Amós: «Vai-te daqui, vidente. Foge para a terra de Judá. Aí ganharás o pão com as tuas profecias. Mas não continues a profetizar aqui em Betel, que é o santuário real, o templo do reino». O sacerdote do templo está conivente com o poder instituído e não quer perder nem o posto nem o prestígio nem os proventos, pelo que tenta condicionar Amós.
       A resposta de Amós é corajosa: «Eu não era profeta, nem filho de profeta. Era pastor de gado e cultivava sicómoros. Foi o Senhor que me tirou da guarda do rebanho e me disse: ‘Vai profetizar ao meu povo de Israel’». O que está em causa não é Amós, mas Deus e o Seu mandato. Recusar servir a Deus para servir o poder e a realeza terrena não são opção para Amós.

       4 – A segunda leitura, como na maioria dos domingos, traz-nos o Apóstolo Paulo, Profeta cristão, que em nome de Jesus Cristo anuncia o Evangelho a todo o mundo onde humanamente é possível chegar. As missivas, enviadas às diversas comunidades por ele instituídas ou solidificadas, revelam esta preocupação de vincular os cristãos ao Evangelho recordando-lhes a Palavra de Deus, e apontando caminhos para viverem de acordo com Jesus Cristo.
       A Carta aos Efésios inicia com uma saudação que revela a misericórdia de Deus que nos abençoa com todas as espécies de bênçãos espirituais em Cristo para que vivamos como herdeiros, como filhos, conduzindo a nossa vida de forma a darmos glória a Deus, respondendo à Sua bênção: “N’Ele nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença. Ele nos predestinou, conforme a benevolência da sua vontade, a fim de sermos seus filhos adotivos, por Jesus Cristo, para louvor da sua glória e da graça… N’Ele, pelo seu sangue, temos a redenção e a remissão dos pecados. Em Cristo fomos constituídos herdeiros, para sermos um hino de louvor da sua glória...”
       A chuva que cai na terra não volta para o céu sem ter produzido fruto, assim a Palavra de Deus, assim a Sua bênção, é um chamamento constante, um desafio, para que em nós produza em abundância e transpareça para todas as pessoas que Deus estão à nossa volta.

       5 – A oração de coleta deste domingo recolhe e sublinha a palavra proclamada: "Senhor nosso Deus, que mostrais aos errantes a luz da vossa verdade para poderem voltar ao bom caminho, concedei a quantos se declaram cristãos que, rejeitando tudo o que é indigno deste nome, sigam fielmente as exigências da sua fé".
       A oração torna-nos mais íntimos de Deus, que nos envia aos nossos semelhantes. A fé salva-nos, mas aferimos da sua autenticidade quando nos tornamos irmãos e cuidamos uns dos outros.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (B): Amós 7, 12-15; Sal 84 (85); Ef 1, 3-14; Mc 6, 7-13.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Papa Francisco no Centro de Reabilitação Palmasola

Discurso do Papa durante visita ao Centro de Reabilitação Palmasola
Santa Cruz de La Sierra, Bolívia, Sexta-feira, 10 de julho de 2015


Queridos irmãos e irmãs!
Não podia deixar a Bolívia sem vir ver-vos, sem deixar de partilhar a fé e a esperança que nascem do amor entregue na cruz.
Obrigado por me receberem. Sei que se prepararam e rezaram por mim. Muito obrigado!

Nas palavras de D. Jesús Juárez e no testemunho de quem falou, pude comprovar que a dor não é capaz de apagar a esperança no mais fundo do coração e que a vida continua a jorrar com força em circunstâncias adversas.

Quem está diante de vós? Poderiam perguntar-se. Gostaria de responder-lhes à pergunta com uma certeza da minha vida, com uma certeza que me marcou para sempre. Aquele que está diante de vós é um homem perdoado. Um homem que foi e está salvo de seus muitos pecados. E é assim como me apresento. Não tenho muito mais para lhes dar ou oferecer, mas o que tenho e amo quero dar-vo-lo, quero partilhá-lo: Jesus Cristo, a misericórdia do Pai.

Ele veio para nos mostrar, fazer visível o amor que Deus tem por nós. Por vós, por mim. Um amor ativo, real. Um amor que levou a sério a realidade do seus. Um amor que cura, perdoa, levanta, cuida. Um amor que se aproxima e devolve a dignidade. Uma dignidade, que podemos perder de muitas maneiras e formas. Mas, nisto, Jesus é um obstinado: deu a sua vida por isto, para nos devolver a identidade perdida.

Lembro-me duma experiência que nos pode ajudar. Pedro e Paulo, discípulos de Jesus, também estiveram encarcerados; também foram privados da liberdade. Nessa circunstância, houve algo que os sustentou, algo que não os deixou cair no desespero, na escuridão que pode brotar da falta de sentido: foi a oração. Pessoal e comunitária. Eles rezaram, e por eles se rezava. Dois movimentos, duas ações que geram entre si uma rede que sustenta a vida e a esperança. Sustenta-nos contra o desespero e incentiva-nos a prosseguir o caminho. Uma rede que vai sustentando a vida, a vossa e a das vossas famílias.

Porque uma pessoa, quando Jesus entra na sua vida, não fica detida no seu passado, mas começa a olhar o presente de outra forma, com outra esperança. A pessoa começa a ver com outros olhos a si mesma, a sua própria realidade. Não fica enclausurado no que aconteceu, mas é capaz de chorar e encontrar nisso a força para voltar a começar. E, se em determinados momentos nos sentimos tristes, mal, abatidos, convido-vos a fixar o rosto de Jesus crucificado. No seu olhar, todos podemos encontrar espaço. Todos podemos colocar junto d’Ele as nossas feridas, as nossas dores e também os nossos pecados. Nas suas chagas, encontram lugar as nossas chagas; para serem curadas, lavadas, transformadas, ressuscitadas. Ele morreu por vós, por mim, para nos dar a mão e levantar-nos. Conversem com os sacerdotes que aqui vêm, conversem… Jesus sempre nos quer levantar.

Esta certeza move-nos a trabalhar pela nossa dignidade. Reclusão não é o mesmo que exclusão, porque a reclusão faz parte dum processo de reinserção na sociedade. Há muitos elementos – bem o sei – que jogam contra este lugar: a superlotação, a morosidade da justiça, a falta de terapias ocupacionais e de políticas de reabilitação, a violência… Tudo isso torna necessário uma pronta e eficaz aliança interinstitucional para se encontrar respostas.

Mas, enquanto se luta por isso, não podemos dar tudo por perdido. Hoje há coisas que já podemos fazer.

Aqui, neste Centro de Reabilitação, a convivência depende em parte de vós. O sofrimento e a privação podem tornar o nosso coração egoísta e levar a confrontos, mas também temos a capacidade de os transformar em ocasião de autêntica fraternidade. Ajudai-vos mutuamente. Não tenhais medo de vos ajudar entre vós. O diabo procura a rivalidade, a divisão, os bandos; lutai para sairdes vencedores contra ele.

Gostaria de vos pedir que leveis a minha saudação às vossas famílias. É tão importante a sua presença e a sua ajuda! Os avós, o pai, a mãe, os irmãos, o cônjuge, os filhos. Lembram-nos que vale a pena viver e lutar por um mundo melhor.

Finalmente, uma palavra de encorajamento a todos os que trabalham neste Centro: aos seus dirigentes, aos agentes da Polícia Carcerária, a todo o pessoal. Realizam um serviço público fundamental. Desempenham uma tarefa importante neste processo de reinserção; tarefa de levantar e não rebaixar, de dignificar e não humilhar, de animar e não acabrunhar. É um processo que requer deixar a lógica de bons e maus para passar a uma lógica centrada na ajuda à pessoa. Gerará melhores condições para todos, porque um processo assim vivido dignifica-nos, anima-nos e levanta-nos a todos.

Antes de vos dar a bênção, gostaria que rezássemos uns momentos em silêncio. Cada um faça-o como sabe.

Por favor, peço-vos que continueis a rezar por mim, porque também eu tenho os meus erros e devo fazer penitência. Obrigado!

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Papa Francisco na Bolívia - basta de descartes

Praça do Cristo Redentor, Santa Cruz de La Sierra, Bolívia
Quinta-feira, 9 de Julho de 2015


Viemos de lugares, regiões, povoados distintos, para celebrar a presença viva de Deus entre nós. Há horas que saímos de nossas casas e comunidades, para podermos estar juntos como Povo Santo de Deus. A cruz e a imagem da missão trazem-nos à memória todas as comunidades que nasceram sob o nome de Jesus nestas terras e das quais somos herdeiros.

No Evangelho que acabamos de ouvir, descrevia-se uma situação muito semelhante à que estamos a viver agora. Como aquelas quatro mil pessoas, também nós estamos desejosos de ouvir a Palavra de Jesus e receber a sua vida. Eles ontem e nós hoje, ao pé do Mestre, Pão de vida.

Nestes dias, pude ver muitas mães que carregavam seus filhos às costas, como aliás muitas de vós o fazem aqui. Carregando sobre si a vida, o futuro do seu povo. Carregando os motivos da sua alegria, as suas esperanças. Carregando a bênção da terra nos frutos. Carregando o trabalho feito com as suas mãos. Mãos, que moldaram o presente e tecerão os sonhos do amanhã. Mas carregando também sobre os seus ombros decepções, tristezas e amarguras, a injustiça que parece não ter fim e as cicatrizes duma justiça não realizada. Carregando sobre si mesmas a alegria e a dor duma terra. Carregais sobre vós a memória do vosso povo. Porque os povos têm memória, uma memória que passa de geração em geração, uma memória em caminho.

E não são poucas as vezes que experimentamos o cansaço deste caminho. Não são poucas as vezes que nos faltam as forças para manter viva a esperança. Quantas vezes vivemos situações que pretendem anestesiar-nos a memória e, deste modo, debilita-se a esperança e, pouco a pouco, perdem-se os motivos de alegria. E começa a apoderar-se de nós uma tristeza que nos torna individualistas, que nos faz perder a memória de povo amado, de povo escolhido. E esta perda desagrega-nos, faz com que nos fechemos aos outros, especialmente aos mais pobres.

Pode suceder a nós o mesmo que aos discípulos de ontem, quando viram a quantidade de pessoas que estava lá. Pedem a Jesus que a mande embora, já que é impossível alimentar tanta gente. Perante muitas situações de fome no mundo, podemos dizer: «Os números não batem certo; não podemos resolver a conta». É impossível enfrentar estas situações; então o desespero acaba por apoderar-se do coração.

Num coração desesperado, é muito fácil ganhar espaço a lógica que pretende impor-se no mundo de hoje. Uma lógica que procura transformar tudo em objecto de troca, de consumo: vê tudo negociável. Uma lógica que pretende deixar espaço para muito poucos, descartando todos aqueles que não «produzem», que não são considerados aptos ou dignos porque, aparentemente, «os números não batem certo». Jesus retoma a palava para nos dizer: Não é necessário irem embora; dai-lhes vós mesmos de comer.

É um convite que hoje ressoa fortemente para nós: «Não é necessário mandar ninguém embora, basta de descartes; dai-lhes vós mesmos de comer». Jesus continua a dizer-nos nesta praça: Sim, basta de descartes; dai-lhes vós mesmos de comer. O olhar de Jesus não aceita uma lógica, uma perspectiva que sempre «corta o fio» pelo ponto mais frágil, mais necessitado. Tomando «o pedaço», Ele mesmo nos dá o exemplo, nos mostra o caminho. Uma atitude em três palavras: toma um pouco de pão e alguns peixes, bendiz a Deus por eles, divide-os e entrega para que os discípulos os partilhem com os outros. Este é o caminho do milagre. Por certo, não é magia nem idolatria. Por meio destas três ações, Jesus consegue transformar a lógica do descarte numa lógica de comunhão, de comunidade. Gostaria de destacar brevemente cada uma destas ações.


Toma. O ponto de partida é tomar muito a sério a vida dos seus. Fixa-os nos olhos e, nestes, conhece a sua vida, os seus sentimentos. Vê, naquele olhar, o que pulsa e o que deixou de pulsar na memória e no coração do seu povo. Considera-o e valoriza-o. Valoriza todo o bem que possam oferecer, todo o bem a partir do qual se possa construir. Mas não fala dos objetos, dos bens culturais ou das ideias; fala das pessoas. A riqueza maior duma sociedade mede-se na vida do seu povo, mede-se nos idosos que conseguem transmitir aos mais novos a sua sabedoria e a memória do seu povo. Jesus nunca ignora a dignidade de pessoa alguma, por maior que seja a aparência de não ter nada para oferecer ou partilhar.

Bendiz. Jesus toma em suas mãos o dom, e bendiz o Pai que está nos céus. Sabe que estes dons são um presente de Deus. Por isso, não os trata como «uma coisa qualquer», dado que toda esta vida é fruto do amor misericordioso. Ele reconhece-o. Vai além da simples aparência e, neste gesto de bendizer, de louvar, pede a seu Pai o dom do Espírito Santo. Aquele acto de bendizer tem esta dupla perspectiva: por um lado, agradecer e, por outro, transformar. É reconhecer que a vida é sempre um dom, um presente que, colocado nas mãos de Deus, adquire uma força de multiplicação. O nosso Pai não nos tira nada, multiplica tudo.

Entrega. Em Jesus, não existe um tomar que não seja bênção, nem uma bênção que não seja entrega. A bênção é sempre missão, tem um destino: repartir, partilhar o que se recebeu, uma vez que só na entrega, no com-partilhar é que as pessoas encontram a fonte da alegria e a experiência da salvação. Uma entrega que quer reconstruir a memória de povo santo, de povo convidado, chamado a ser portador da alegria da salvação. As mãos, que Jesus ergue para bendizer o Deus do céu, são as mesmas que distribuem o pão à multidão que tem fome. Podemos imaginar como os pães e os peixes iam passando de mão em mão até chegar aos mais afastados. Jesus consegue gerar uma corrente entre os seus: todos estavam compartilhando o seu, transformando-o em dom para os outros, e foi assim que comeram até ficarem saciados. E, incrivelmente, sobrou: recolheram sete cestos de sobras. Uma memória tomada, abençoada e entregue sempre sacia um povo.

A Eucaristia é «Pão repartido para a vida do mundo», como diz o lema do V Congresso Eucarístico que hoje inauguramos e vai realizar-se em Tarija. É sacramento de comunhão, que nos faz sair do individualismo para vivermos juntos o seguimento de Jesus e nos dá a certeza de que aquilo que temos e somos, se tomado, abençoado e entregue, pelo poder de Deus, pelo poder do seu amor, transforma-se em pão de vida para os outros.

A Igreja é uma comunidade memoriosa. Por isso, fiel ao mandato do Senhor, repete incansavelmente: «Fazei isto em memória de Mim» (Lc 22, 19). Geração após geração atualiza, nos distintos cantos da nossa terra, o mistério do Pão da Vida. No-lo faz presente e entrega. Jesus quer que participemos desta sua vida e, por nosso intermédio, se vá multiplicando na nossa sociedade. Não somos pessoas isoladas, separadas, mas o Povo da memória atualizada e sempre entregue.

Uma vida memoriosa precisa dos outros, do intercâmbio, do encontro, duma solidariedade real que seja capaz de entrar na lógica do tomar, bendizer e entregar; na lógica do amor.