terça-feira, 29 de março de 2016

Tabuaço: São José . Dia do Pai . Festa do Pai-nosso

       Na solenidade de São José, a 19 de março, a tradicional comemoração do Dia do Pai e, pelo segundo ano consecutivo, na Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Tabuaço, a Festa do Pai-nosso, com os meninos do 2.º Ano de Catequese. Imperou a simplicidade comovente, como todas as festas com crianças e com a família.
       Este é sempre um dia muito significativo, para os Zé's e para os pais, mas também para a Igreja, constituída por pessoas, pais e filhos, irmãos, avós, família. É uma das celebrações mais participadas, daquelas que não precisa de convocação. Ainda bem, pois a figura de São José, muitas vezes relegada para segundo plano, tem vindo a recuperar uma missão importantíssima que teve na vida da família de Nazaré, no cuidado e na proteção de Maria e de Jesus, e, claro está, na formação de Jesus, a quem dá o Nome ligando-O à realeza de David. Valores do silêncio, do trabalho, da justiça, da prática religiosa, da honradez que Lhe reconhecemos, são valores que devemos adoptar como cristãos e como Igreja.
       A Festa do Pai-nosso, do 2.º Ano de Catequese, cabe por inteiro nesta solenidade. Jesus ensina-nos que Deus é Pai, de todos e a Quem podemos dirigir as nossas súplicas, pedidos, intercessões, em Quem podemos confiar, porque o aprende com São José, o Pai que o liga ao mundo das pessoas, à história e ao tempo.
       Algumas fotos deste dia:
Para outras fotos consultar a página da Paróquia de Tabuaço no Facebook

sábado, 26 de março de 2016

PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO - 27 de março de 2016

       1 – O mistério pascal realiza a plenitude da misericórdia divina no meio de nós. Em Jesus Cristo, Deus vem ao nosso encontro, faz-Se mendigo do nosso amor, faz-Se peregrino com a humanidade, iniciando um Reino novo, integrando-nos. Por um lado, Deus ama-nos absolutamente. Por outro, respeita-nos na nossa liberdade. Mas não desiste de nós, como a Mãe não desiste dos filhos mesmo quando a fazem sofrer.
       Jesus é Rosto e é Corpo da Misericórdia do Pai. Em Jesus, a misericórdia divina ganha um Corpo, lingando-nos sensivelmente uns aos outros e a Deus.
       Ao longo da Sua vida, Jesus passou fazendo, gastando-Se a favor dos mais desvalidos. A delicadeza e a bondade de Jesus preenchem as suas palavras e os seus gestos.
       A misericórdia fica mais transparente na última semana de vida de Jesus. O amor é levado até ao fim, a compaixão de Jesus pela humanidade levam-n’O à Cruz, para uma identificação completa com o sofrimento mais atroz e com a própria morte.
       A Cruz, em certo sentido, é provisória. Ou melhor, a morte é provisória, é passagem, que encerra a nossa vida biológica e nos faz aceder à eternidade de Deus. Definitiva é a ressurreição e a vida em Deus, a Sua graça e misericórdia, a Sua bondade e compaixão, que nos configura, nos prepara para vivermos n’Ele eternamente.
       A morte na Cruz redime-nos. A Cruz é um sinal permanente. Cravada na terra, irmana-nos no pecado, na fragilidade e na finitude; levantada, levanta-nos e eleva-nos, ressuscita-nos para as alturas, guiando-nos para o Pai das Misericórdias.
       2 – Domingo, Dia do Senhor. Vida, Luz e Graça. Salvação. Páscoa redentora. Deus faz-nos participantes da Sua vida para sempre. Este é o Dia que o Senhor preparou, desde sempre, porque nos ama e para nos amar, em plenitude, para sempre. Sempre é uma realidade que só acontece em Deus. Tudo o mais é passageiro, até a morte, o sofrimento, a doença, as limitações. A Ressurreição não anula o nosso sofrimento nem a nossa morte, assume-os para nos colocar por inteiro em Deus, em Quem não haverá mais luto, nem lágrimas, em Quem a vida será abundante.
       Jesus é uma lufada de ar fresco, água límpida, alimento suculento. É o poeta da Misericórdia de Deus. Primavera da Eternidade. A sua docilidade e delicadeza transformam a vida das pessoas. Encontrando-O, encontramos Deus. E encontramo-nos com o que somos, com a nossa origem em Deus. Por Ele criados por amor, por amor por Ele procurados. O projeto inicial de Deus para nós é traduzido, visualizado, vivido por Jesus: sermos irmãos, para sermos felizes. Em todas as situações e apesar de todas as circunstâncias.
       O sepulcro vazio é o lugar da morte, do passado e do desencontro. Segundo D. António Couto, Bispo de Lamego, o sepulcro não está vazio mas cheio de sinais, o Anjo, a arrumação, os homens vestidos de branco. Em todo o caso, os sinais reenviam-nos a procurar Jesus em outro lugar, no lugar da vida, das pessoas. Não é o sepulcro vazio que nos converte à ressurreição, mas o encontro com o Ressuscitado. Na vida pública de Jesus, a conversão, a cura, a vida renovada, acontecem no encontro com Ele. Do mesmo modo, após a ressurreição. O encontro com Jesus salva-nos, renova-nos, introduz-nos na vida divina, sintoniza-nos, agrafa-nos à Misericórdia de Deus, eternamente.
       3 – O que provoca a fé na ressurreição, em definitivo, é o encontro com o Ressuscitado e não o sepulcro vazio. As mulheres aproximam-se do sepulcro, não encontram o corpo de Jesus e ficam atemorizadas. Maria Madalena pergunta Àquele que julga ser o jardineiro onde puseram o corpo de Jesus, deduzindo-se a possibilidade de roubo ou de colocação em outro túmulo. A corrida de Pedro e do discípulo amado ao sepulcro é consequência do anúncio que as mulheres fizeram, no túmulo confirmam as informações e começa o processo de fé na ressurreição, mas só ganha solidez no encontro de Jesus.
       Sintomático é a aparição de Jesus aos discípulos de Emaús. Desencantados, regressam a casa. Jesus morreu. Não há nada a fazer que não seja regressar à vida anterior, ao tempo em que não O conheciam. Viveram com Ele momentos inesquecíveis. Por uns instantes semeou esperança, num mundo diferente, fraterno, humano, onde todos têm lugar e onde serão tratados como Filhos amados de Deus. Mas as autoridades do Templo, os líderes do poder político e religioso viram-n'O como uma ameaça e um estorvo às suas pretensões pessoais, e conduziram um processo para O fazerem desaparecer da terra dos vivos. Entretanto, algumas mulheres tinham ido ao sepulcro e não encontraram o corpo de Jesus. Apareceram-lhes uns Anjos. Mas não viram Jesus. Alguns dos discípulos também foram ver o sepulcro, encontraram tudo como as mulheres tinham dito, mas não viram Jesus.
       Só o encontro com Jesus gera vida nova, conversão, fé na ressurreição, pois esta só é possível com o Ressuscitado, vivo, de volta ao convívio daqueles que começavam a acreditar no Reino de Deus aberto a todos, especialmente aos excluídos da sociedade, da política e da religião.
       Jesus encontra os discípulos de Emaús descorçoados. Encontra-os. Fala-lhes. Senta-Se com eles à mesa. Nesse encontro, eles percebem que Jesus ressuscitou e está vivo. Estava a anoitecer e eles convidam Jesus para pernoitar. Mas agora, levantam-se e regressam à comunidade, ao convívio dos outros discípulos. Se Jesus está vivo, não há noite que amedronte. O testemunho do encontro com Jesus Ressuscitado fortalece a comunidade. «Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão».
       4 – Nos Atos dos Apóstolos, Pedro faz uma síntese do que sucedeu por aqueles dias: «Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando a todos os que eram oprimidos pelo Demónio, porque Deus estava com Ele. Nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez no país dos judeus e em Jerusalém; e eles mataram-n'O, suspendendo-O na cruz. Deus ressuscitou-O ao terceiro dia e permitiu-Lhe manifestar-Se, não a todo o povo, mas às testemunhas de antemão designadas por Deus, a nós que comemos e bebemos com Ele, depois de ter ressuscitado dos mortos. Jesus mandou-nos pregar ao povo e testemunhar que Ele foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos. É d'Ele que todos os profetas dão o seguinte testemunho: quem acredita n’Ele recebe pelo seu nome a remissão dos pecados».
       Jesus aparece a Pedro, a Maria Madalena, às Mulheres, aos discípulos de Emaús. E eles acreditam. Mudam a trajetória da sua vida, e dão testemunho entusiasmado desse encontro. Do mesmo modo o grupo dos discípulos. Na tarde daquele primeiro Dia, Jesus aparece-lhes e as suas vidas mudam para sempre. Tomé não está na comunidade, ouvirá o que lhe dizem os outros, mas só oito dias depois, quando Jesus volta ao meio deles, é que verdadeiramente acredita. Novamente a necessidade do encontro com Jesus, não em segunda mão, mas em primeira mão.
        5 – O encontro com Jesus, se é autêntico, redime-nos, converte-nos, renova-nos, introduz-nos na vida de Deus, conforma-nos à Cruz de Jesus, ressuscitando-nos para uma vida nova, de graça e misericórdia, de perdão e salvação.
      "Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo Se encontra, sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. Porque vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a vossa vida, Se manifestar, então também vós vos haveis de manifestar com Ele na glória". A nossa vida foi colocada, com Jesus Ressuscitado, à direita de Deus Pai. Por conseguinte, há que nos afeiçoarmos às coisas do alto. Afeiçoar-nos significa tomar as feições de Jesus, das alturas, de Deus, para O transparecermos na nossa carne, no cuidado pelos outros e pelo mundo.
       Como recomenda o Apóstolo, desfaçamo-nos do fermento velho, para sermos "uma nova massa... Cristo, o nosso cordeiro pascal, foi imolado. Celebremos a festa, não com fermento velho, nem com fermento de malícia e perversidade, mas com os pães ázimos da pureza e da verdade". A pureza é uma escolha que podemos fazer ao optarmos pela verdade, pela misericórdia compassiva, pelo perdão, pela amizade, pela ternura. "A pureza é própria dos adultos. Uma criança não é pura, é ingénua. A pureza é uma opção", como confidenciava o Pe. Jorge Carneiro, sacerdote Jesuíta, na última formação do Clero de Lamego. A pureza não é ingenuidade. Jesus não é ingénuo, mas sábio e santo. A pureza leva a dar a primazia à misericórdia de Deus.


Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia:
       Atos 10, 34a. 37-43; Sl 117 (118); Col 3, 1-4 ou 1 Cor 5, 6b-8;Jo 20, 1-9; Lc. 24, 13-35.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Jesus, o Poeta da Misericórdia – 4

O mistério pascal realiza a plenitude da misericórdia divina no meio de nós. Em Jesus Cristo, Deus vem ao nosso encontro, faz-Se mendigo do nosso amor, faz-Se peregrino com a humanidade. Traz-nos Deus, inicia um Reino novo, integrando-nos. Por um lado, Deus ama-nos absolutamente. Por outro, respeita-nos na nossa liberdade. Mas não desiste de nós, como a Mãe não desiste dos filhos mesmo quando a fazem sofrer.

Com a Encarnação Deus dá um passo gigantesco para nos encontrar. O Antigo Testamento revela um Deus interventivo, que não Se alheia da história e dos sofrimentos do Povo que escolheu para firmar uma Aliança (quase) unilateral. O pecado do Povo, as infidelidades, transgressões vão destruindo as ligações entre as pessoas, mas não quebram a Aliança. Deus mantém-Se fiel. A Sua misericórdia é infinita. O profeta Oseias exemplifica esta fidelidade/ misericórdia de Deus. Tal como Oseias desposa e cuida da esposa que o trai repetidamente, nunca desistindo de a amar, assim Deus não desiste de nos amar.

Os Patriarcas, os Juízes, os Sacerdotes, os Profetas são mensageiros que relembram ao Povo o caminho da felicidade e da vida, que passa pela prática da justiça, da solidariedade, pelo cuidado dos mais frágeis, os pobres, os órfãos e as viúvas, os escravos e os estrangeiros.

Chegado o tempo, Deus envia o Seu próprio Filho. Desde então não há nada que nos separe do amor de Deus, pois Ele caminha connosco, assumindo-nos, faz-Se pecado para nos redimir, no elevar, para nos introduzir na vida divina. Jesus é Rosto e é Corpo da Misericórdia do Pai. Em Jesus a misericórdia divina ganha um Corpo, lingando-nos sensivelmente uns aos outros e a Deus.

Ao longo da Sua vida, Jesus passou fazendo, gastando-Se a favor dos mais desvalidos. A delicadeza e a bondade de Jesus preenchem as suas palavras e os seus gestos.

A misericórdia fica mais transparente na última semana de vida de Jesus. O amor é levado até ao fim, a compaixão de Jesus pela humanidade levam-n’O à Cruz, para uma identificação completa com o sofrimento mais atroz e com a própria morte.

Uma das passagens luminosas da misericórdia vivida por Jesus é o gesto do Lava-pés, durante a Última Ceia. São João Paulo II diz-nos que é uma cátedra da caridade divina, e mais, é uma lição, uma epifania, uma revelação: a justiça de Deus relaciona-se com Sua misericórdia infinita, ajusta-Se à condição do pecador. Ali, em Jesus, Deus abaixa-Se, ajoelha-Se e lava-nos os pés, abrindo o Caminho da Misericórdia…

publicado na Voz de Lamego, n.º 4355, de 22 de março de 2016

quarta-feira, 23 de março de 2016

Jesus, o Poeta da Misericórdia – 3

A vida é um mistério que não se dissolve no conhecimento, na ciência ou na sabedoria popular. A sua complexidade, por um lado, e a sua simplicidade, por outro, fazem da vida (vegetal, animal, humana) um desafio permanente de procura, de descoberta, de admiração. Para crentes e não crentes é um mistério inabarcável.

Com os avanços da ciência foi possível resolver muitos enigmas e melhorar a qualidade da vida, ainda que persistam doenças crónicas, as depressões, o vazio existencial. Somos muito mais que a soma de cromossomas, ADN, sangue, ossos, músculos, carne. Somos um mistério que quanto mais se desvenda mais complexo se torna.

Ao longo do tempo, o ser humano procurou compreender e justificar o sofrimento, a doença e a morte. Se a vida é tão bela, como é possível o sofrimento e a morte? Porque é que a vida não é igual para todos? Porque que é que uns sofrem tanto e outros têm uma vida durável e saudável? Terá a ver (somente) com as escolhas de cada um?

Uns procuram respostas na fé e na religião, outros no acaso ou na ciência. Muitos aceitaram a doença e as desgraças como vontade de Deus ou como consequência do pecado.

O Poeta da Misericórdia, Jesus, não procura justificações ou culpados. É preciso ajudar? Ajuda-se. Se alguém sofre é porque algum mal praticou. A figura de Job é enigmática. É acusado pelos amigos mais próximos, que deveriam conhecê-lo melhor, de pecar tendo em conta todo o mal que está a sofrer. Job questiona tal ligação, pois nada praticou que merecesse tantos sofrimentos. Sobrevirá o mistério de Deus que não é desvendável em questões académicas.

Jesus desliga o mal sofrido de qualquer culpa. Mas, atenção, diz-nos Jesus, é necessário que nos preocupemos com o bem de todos, uns dos outros, aderindo ao Reino de Deus, convertendo-nos. Fácil é olhar para os defeitos e pecados dos outros! Porém, para os seguidores de Jesus, importa deixar-se olhar pela Misericórdia de Deus e a Ele aderir de todo o coração.

Na vida de Jesus, na Sua mensagem e na Sua morte e na Sua ressurreição, prevalece a misericórdia de Deus. Quem Me vê, vê o Pai. E quem vê Jesus vê a bondade e a delicadeza, a compaixão e a proximidade, a paciência e o amor, o perdão e a verdade. Em Jesus, o Reino de Deus está em ação e já se podem ver os frutos. Cabe-nos também transparecer o Reino de Deus.

publicado na Voz de Lamego, n.º 4354, de 15 de março de 2016

terça-feira, 22 de março de 2016

Jesus, o Poeta da Misericórdia – 2

A vida de Jesus é um hino de docilidade para como os excluídos da sociedade, da política, da religião. É um poema de ternura e proximidade para com todos os desprezados deste mundo; os palácios que visita são as aldeias e os campos, dorme onde calha e come do que lhe dão. Faz-Se mendigo da nossa generosidade, enquanto nos fala de um sonho, que já se visualiza no seu proceder para connosco, o sonho de nos ver sentados à mesma mesa, no mesmo reino, sob a mesma filiação, transformados pela misericórdia do Pai.

O Jubileu da Misericórdia, convocado pelo Papa Francisco, tem permitido aclarar a misericórdia como um atributo essencial e primário de Deus. A justiça é o menor dos atributos de Deus. A misericórdia sanciona o perdão e acaricia o homem marcado pelo pecado, pela miséria, renovando-o, envolvendo-o e inserindo-o numa vida nova de graça e de salvação.

A própria palavra misericórdia (miséria + coração) aponta para a absorção da nossa miséria pela compaixão de Deus. "A misericórdia divina vem em socorro da miséria do homem" (Beato Paulo VI, reflexão sobre Santo Agostinho). Jesus, Rosto da Misericórdia, proclama bem alto, nas palavras e sobretudo nos gestos a misericórdia infinita do Pai, que ama e que toma a iniciativa para nos salvar.

Sublinha o Papa Francisco: «A lógica de Deus, com a Sua misericórdia, abraça e acolhe reintegrando e transfigurando o mal em bem, a condenação em salvação e a exclusão em anúncio… o caminho da Igreja é sempre o de Jesus: o caminho da misericórdia e da integração».

A convivência de Jesus com pecadores, publicanos, prostitutas, leprosos, coxos, surdos, mudos, mulheres, crianças, estrangeiros visualiza o Reino de Deus aberto a todos. Jesus come com as pessoas que não contam para os reinos deste mundo, mostrando-lhes que no banquete de Deus há lugar para todos, mas os primeiros a sentar-se à mesa do Reino são os mais desvalidos, o que nos obriga a olhar para eles com um cuidado redobrado, pois tudo o que fizermos aos mais pequeninos dos irmãos é a Cristo que o fazemos (cf. Mt 25, 31-45). Se acolhemos o peregrino recebemos Cristo; se vestimos o nu agasalhamos Jesus; se alimentamos o pedinte fazemos com que Jesus seja nosso alimento e sacie a nossa fome e a nossa sede; se usarmos de misericórdia para com o nosso semelhante seremos alcançados pela misericórdia de Deus, que primeiro nos foi favorável.

publicado na Voz de Lamego, n.º 4353, de 8 de março de 2016

Jesus, o Poeta da Misericórdia

Jesus passou fazendo o bem (Atos 10, 38), anunciando o Reino de Deus, misturando-se e envolvendo-se com doentes, leprosos, publicanos, pecadores públicos, crianças, mulheres, pobres, os excluídos dos reinos deste mundo. Assume-Se como o Bom Pastor que dá a vida pelas ovelhas, que busca a que anda perdida até a encontrar e carrega aos ombros a ovelha ferida. É o poeta que bendiz o Pai por Ele Se manifestar aos pequenos deste mundo porque são grandes no Reino de Deus, são grandes porque são filhos de Deus.

Anda sobretudo pelo campo e pelas aldeias. Vai a casa de todos os que o convidam, mas por sua iniciativa não vive nem em palácios nem em casas luxuosas, não tem onde reclinar a cabeça, não tem casa própria, porque quer morar em nossa casa, não tem dinheiro porque Ele é a maior riqueza que podemos sonhar e mendiga a nossa generosidade; não tem outra muda de roupa, porque espera que O vistamos com o nosso abraço. Identifica-Se com os mais pobres da Galileia, pequenos artesãos, pescadores, agricultores, pastores, e todos os que não contam. Vive feliz por transparecer o Amor do Pai, triste porque nem todos conhecem a misericórdia e o cuidado do Pai.

Não é um filósofo ou um mestre que busque o sucesso e o aplauso. Fica feliz por cada pessoa que encontra no caminho e a quem fala com delicadeza, compadecendo-Se, procurando olhar a vida a partir do sofrimento que encontra para poder ser cura e salvação. Vem para os doentes, para os pecadores, a todos envolve com o olhar da misericórdia de Deus. Mostra-nos o Pai, na parábola do Bom Samaritano, no abraço à Mulher samaritana, na parábola do Pai misericordioso que faz festa pelo regresso do filho pródigo e a todos nos quer na Sua presença; mostra-Se próximo na alegria da mulher que encontra uma dracma, no encontro com Zaqueu, querendo ficar em sua casa; na surpresa da mulher apanhada em adultério e por Ele envolvida num olhar de amizade e num abraço que a resgata de todos os abraços pecaminosos.

Contrariamente a João Batista, a missão de Jesus não é denunciar e eliminar o pecado mas comungar a nossa vida e o nosso sofrimento, assumindo-nos como irmãos. Não nos pergunta pelo pecado, mas pelo bem que estamos dispostos a comunicar. Jesus é o poeta da Misericórdia nas palavras, nos encontros, nos gestos de proximidade, de cura, de integração, nos gestos de perdão e de paz.

publicado na Voz de Lamego, n.º 4352, de 1 de março de 2016

segunda-feira, 21 de março de 2016

Quaresma: desafio e compromisso para hoje

       Todas as pessoas já viveram situações que desejariam não ter vivido.
       Por vezes ouvimos alguns a dizerem que se voltassem atrás fariam tudo de novo, repetiriam a vida. Tal não seria possível! A vida não volta para trás. E, claro, todos alterariam alguma coisa. Só não mudam os burros e os sábios, como diz um provérbio chinês. Olhando para trás, se não houvesse nada a mudar, era sinal que nada se tinha aprendido com as diversas experiências, nada se teria aprendido com a própria história. Repetindo tudo, também os erros seriam repetidos.
       Obviamente, todos mudaríamos alguma coisa.
       Mesmo que saibamos que as circunstâncias em que agimos não nos tivessem antes permitido agir doutra forma. Como nos lembra Ortega y Gasset, nós, somos nós e as nossas circunstâncias. Um comportamento determinado está condicionado por muitos fatores interiores: medo ou confiança, experiência ou inexperiência, coragem ou hesitação, pessimismo ou experiência, e por muitas fatores exteriores: os outros, o tempo, as condições sociais, políticas, económicas, familiares.
       Por outro lado deparamos com aqueles que torcem as orelhas: quem me dera voltar atrás, como tudo seria diferente! Ah, como eu mudaria muita coisa!
       Mas também não podemos voltar atrás. A nossa vida decide-se e resolve-se no presente e avança impreterivelmente para o futuro, e este só Deus no-lo pode garantir. Cabe-nos viver o presente, o aqui e agora (hic et nunc) da nossa vida, o passado não é recuperável, o futuro a Deus pertence. Carpe diem – colha o dia, viva o momento! Num sentido cristão, positivo, significa que não desculpamos a vida com o passado ou com o futuro mas comprometemo-nos com o nosso semelhante no dia de hoje, nas circunstâncias que nos é dado viver.
Quem me dera voltar atrás!
       Em tempo de Quaresma, este poderá ser um bom propósito, não para olhar (simplesmente) para trás, mas para nos "situarmos" (nos imaginarmos) no futuro, quando chegar o dia, se deixarmos, em que, ao voltar-nos para trás, para o passado, tenhamos que fazer tal afirmação, como lamento, como desilusão, como impossibilidade, com a resignação de quem sabe que poderia ter aproveitado a vida, poderia ter vivido bem, com verdade, com alegria, com honestidade, com garra, com história, e agora já não pode fazer nada com o tempo desperdiçado, com as oportunidades que não agarrou... Não vale a pena chorar sobre o leite derramado!
       É sintomático o conselho de Santo Inácio de Loyola: “Orai como se tudo dependesse de Deus, trabalhai como se tudo dependesse de vós”.

publicado na Voz de Lamego, n.º 4350, de 16 de fevereiro de 2016

Quaresma: desafio e compromisso para hoje - 2

A Páscoa ilumina todo o ano litúrgico. Ciclicamente vivemos os grandes acontecimentos da vida de Jesus, mas sempre depois da (primeira) Páscoa. Porque Jesus regressou à vida, porque vive na comunidade crente, porque Se faz presente, pelo Espírito Santo, ao convívio dos Seus discípulos, congrega a Igreja, que é Seu Corpo, do qual somos membros. Se Jesus tivesse ficado naquele sepulcro seria progressivamente esquecido. A desilusão sentida com a Sua morte manteria a dispersão, perdendo-se o mais importante da Sua mensagem e da vida que encorpa a Palavra de Deus. 

Cada Quaresma, também esta jubilar, encerra um desafio que nos compromete: converter-nos, identificar a nossa vida com a de Jesus, com a Seu jeito de Se aproximar, de amar e de servir. É um compromisso permanente, mas visualizável com mais intensidade neste tempo da Quaresma. Preparamo-nos para a festa anual da Páscoa, preparando-nos sempre para a Páscoa definitiva quando chegar a nossa hora de fazermos a “passagem” para a eternidade de Deus. 

Para que um dia não tenhamos que dizer "quem me dera voltar atrás", não percamos tempo nem oportunidades, façamos tudo, em todas as ocasiões, como se não houvesse amanhã, como se não tivéssemos mais tempo pela frente, como se fosse o último dia, o último encontro, a última palavra, o último café, o último sorriso. 

Demos o melhor de nós mesmos, agora! E então, mais à frente, poderemos dizer: não fiz tudo bem, cometi erros, poderia ter feito melhor, mas tentei dar o melhor de mim mesmo, não adiei escolhas, não desbaratei as minhas energias em futilidades, não desperdicei a oportunidade para ser feliz, não fugi a responsabilidades, não enganei, não maltratei, não injuriei, não menosprezei ninguém... posso morrer em paz! 

Podemos não fazer tudo bem, mas não deixemos de tentar, voltar a tentar, recomeçar uma e outra vez, não desistir da luta, não virar a cara às dificuldades, não esperar que outros façam o que eu posso fazer, não deixemos que outros escolham por nós o nosso destino! 

Quaresma é tempo de conversão, de propósitos de mudança de vida, para darmos o melhor de nós mesmos, nos tornarmos mais solidários, mais próximos, para testemunharmos o Deus da vida... 

Na nossa fragilidade, na nossa birra, ou na nossa preguiça, peçamos a Deus que nos dê o discernimento para fazermos escolhas de bem e coragem para cumprir com a vida e com todos os projetos que nos transformam em irmãos uns dos outros.

publicado na Voz de Lamego, n.º 4351, de 23 de fevereiro de 2016

sábado, 19 de março de 2016

Domingo de Ramos na Paixão do Senhor - 20.03.2016

       1 – A vida vale, mais que pelo número de anos, pela intensidade com que se vive. Uma fração de segundo, um acontecimento, uma pessoa, podem valer por uma vida inteira. As horas que se aproximam, distribuídas na Semana Maior da nossa fé, valem a vida de Jesus e a salvação da humanidade. Valem tudo. São horas dramáticas e decisivas. Diríamos, a nosso favor, que são horas felizes porque Jesus nos mostra em definitivo que o amor de Deus por nós é infinito.
       Suor e lágrimas, cansaço, dor física, traição e fuga dos amigos, violência, injúrias, crucifixão e morte. Naquelas horas, Jesus há de ter vivido na maior das ansiedades. Caminha inexoravelmente para a morte. Sobe a Jerusalém pela Festa da Páscoa. Há um vislumbre de paz e de festa, de reconhecimento e de amizade. Com Jesus, os seus amigos, discípulos, alguns familiares, conterrâneos. Segundo Joseph Ratzinger / Bento XVI, a multidão que aclama Jesus na entrada triunfal em Jerusalém é constituída por galileus, pobres, agricultores e artesãos, pedintes, discípulos, mulheres, pessoas que Ele curou e reabilitou.
       Alguns judeus juntam-se ao molhe, por curiosidade, por amizade, em processo de conversão. Jesus tinha amigos nas redondezas, em Betânia, a família de Lázaro, Marta e Maria, e em Jerusalém, o amigo que lhe empresta a casa para comer a Páscoa. Sendo poucos, mostram que Jesus não é propriedade exclusiva de um grupo. É reconhecido como filho de David, da descendência real da qual se esperava um novo Messias que, como David, libertasse e congregasse todo o povo de Israel.
       2 – Há de voltar mais tarde. Diz a canção (de Rui Veloso) para se não voltar ao lugar onde se foi feliz por que só se encontrará cinza e erva rasa. Jesus voltará a entrar na cidade de Jerusalém, num processo que O levará à Cruz. Então formar-se-á outra multidão, instigada pelas autoridades dos judeus, os líderes do Templo e as elites sociais. Por um lado, a alegria da multidão vinda da Galileia, cujas pessoas trajam as melhores roupas, pobres mas limpas, cheias de fé, vêm adorar Deus no Templo por ocasião da Páscoa, exploradas mas acreditando na proteção divina. Por outro, estoutra multidão formada por judeus cuja animosidade vem ao de cima. Também aqui há pessoas simples e ingénuas e que se deixam convencer pelos líderes religiosos, políticos e sociais, e outros tantos que sem opinião formada seguem qualquer voz que se eleve com promessas fáceis.
        Durante a Ceia (a Última que é também a Primeira. A última do tempo histórico que Jesus. A Primeira de um tempo Novo que está a irromper, seguindo a reflexão de D. António Couto), Jesus faz-nos passar do sossego à apreensão. A refeição é um momento de repouso, de alegria, de festa, satisfaz uma necessidade e coloca em comunhão íntima os convivas. Situemo-nos junto de Jesus, como discípulos, como Judas e como Pedro, como João e Tiago ou Tomé, como Maria, Sua Mãe, Maria Madalena ou Maria de Cléofas, como crianças, que não contam, e como pobres que se sentam como amigos. Estamos todos? Festejemos enquanto há tempo.
       Jesus fala-lhes do desejo ardente e da alegria de comer esta refeição mas também de lhes possibilitar uma Páscoa sem fim na eternidade. A Paixão aproxima-Se. Não falta muito. Há que dizer as últimas palavras. O Filho do Homem vai ser entregue, vai ser condenado e morto. «Ora Eu estou no meio de vós como aquele que serve... Eu preparo para vós um reino, como meu Pai o preparou para Mim: comereis e bebereis à minha mesa, no meu reino, e sentar-vos-eis em tronos, a julgar as doze tribos de Israel. Simão, Simão, Satanás vos reclamou para vos agitar na joeira como trigo. Mas Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça. E tu, uma vez convertido, fortalece os teus irmãos».
       O reino de Deus que Jesus inaugura é exigente, pois reclama a verdade e o serviço. É para julgar, servindo. Não é o julgamento de um juiz sobre os outros, é o serviço a todos.
       3 – Depois da refeição, Jesus retira-Se para o Jardim das Oliveiras, para rezar. O ambiente é pesado, pois as notícias deixam antever um desfecho pouco favorável. Jesus tinha sido claro, deixando antever que o tempo era escasso e que tudo se iria precipitar. Os discípulos acompanham-n'O, mas cedo vacilam. Apodera-se deles o sono. Segundo Augusto Cury, isso dever-se-á a uma carga emocional muito grande, em que a pessoa, por medo e ansiedade, se deixa dormir.
       São horas de agonia. A intensidade da oração de Jesus revela a carga emocional que O envolve. Vai morrer. Já não há volta a dar. Tem que enfrentar ou que fugir. «Pai, se quiseres, afasta de Mim este cálice. Todavia, não se faça a minha vontade, mas a tua». Prevalece a vontade do Pai. Jesus há de assumir a Cruz como expressão do amor pela humanidade, da compaixão que sempre viveu na relação com todos os que com Ele se cruzaram. Nem o sofrimento nem a morte, nem a espada nem as potestades nos separam do amor de Deus. O Mestre da Vida leva até ao fim a opção pelo bem, pela verdade, a opção pela justiça, pela fraternidade.
       Na hora mais dramática, os discípulos adormecem. Quando mais precisava do conforto e do apoio dos amigos, mais eles se distanciaram. É a história da nossa vida. Quando precisamos dos amigos é quando não podemos contar com eles! Será oportunidade de conhecermos os amigos que temos! «Porque estais a dormir? Levantai-vos e orai, para não entrardes em tentação».
       Ainda estava a falar quando uma multidão se aproximou. Judas encabeça este grupo. Um dos amigos mais fiéis e mais bem formado, não resistiu a entregar Jesus! Porquê? Não há uma resposta definitiva. Também a não temos quando os que nos são mais caros nos desiludem. Porquê, se sempre nos demos tão bem? Por não acreditar em Jesus e no Seu projeto de amor? Ou como sugerem alguns, por acreditar tanto mas não ter paciência para esperar por Deus?
       A oração de Jesus, a Sua intimidade com o Pai, ajudam a enfrentar esta hora. Não reage com violência, mas com compreensão, com perdão. «Basta! Deixai-os». A violência não resolve. É arrastado, escarnecido, os discípulos não O acompanham. Judas trai. E todos O traem. Pedro nega-O. Todos os apóstolos se mantêm à distância. Fogem. Parece que quando se amontoam as dificuldades, mais pessoas se apresentam a acusar, injuriar, a blasfemar.
       4 – O profeta Isaías ajuda a perceber a postura e a missão de Jesus: «Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e, por isso, não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido».
       Diante do Sumo-Sacerdote ou de Pilatos, Jesus mantém a mesma docilidade. Acusado injustamente, não responde com injúrias. Caminha resolutamente. A Sua vida tem um propósito definido: entrega, oblação, dádiva, a favor da humanidade.
       Ele "que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz".
        A humilhação de Jesus é simultaneamente glorificação da vontade de Deus Pai, para que prevaleça a verdade e o bem, a compaixão e a fraternidade. Nenhum osso e nenhum laço será quebrado, pelo menos da parte de Deus. Até o pobre Barrabás é beneficiário da morte de Jesus Cristo, como o bom ladrão que com Ele foi crucificado. Barrabás é solto, apesar de assassino. Jesus é crucificado, apesar de inocente. O bom Ladrão rouba a melhor parte, o Paraíso e toma parte com Jesus no Reino de Deus. Não ontem, mas hoje. Revejamo-nos num e noutro, também nós podemos beneficiar da morte de Jesus. Pela Santa Cruz, Jesus redime o mundo, redime-nos e sintoniza-nos com a eternidade misericordiosa do Pai.
        5 – Caminhamos todos para o Calvário, mas prosseguiremos além da Cruz e da morte. Somos parte da multidão. Vamos com diferentes motivações: curiosidade, coscuvilhice, em busca de um sentido para a nossa vida. Mais próximos ou mais distantes. Ajudamos Jesus a levar a Sua Cruz. Ou como pais e mães choramos por medo do que possa suceder aos nossos filhos. Aquelas mulheres de Jerusalém associam o seu choro ao da Virgem Mãe. Judeus e soldados romanos. Autoridades judaicas e executores materiais de decisões e juízos convenientes.
       No final, o dia escurece mas não desaparece nem a delicadeza nem a esperança. Primeiro o centurião, que glorifica a Deus por toda a dor, todo o amor, de Jesus na Cruz: «Realmente este homem era justo». Depois, José de Arimateia a mostrar que é sempre possível a compaixão. Uma das últimas obras de misericórdia corporal: enterrar os mortos. E nem um copo de água ficará sem recompensa!
        Ecoam até ao túmulo as últimas palavras de Jesus: «Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito». No meio daquele torpor guardamos a certeza da entrega confiante de Jesus nas mãos do Pai. Entrega-Se e entrega-nos, confia-nos, a Deus, Pai de Misericórdia.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano C): Lc 19, 28-40. L1 Is 50, 4-7; Sl 21 (22); Filip 2, 6-11; Lc 22, 14 – 23, 56.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Solenidade de São José - 19 de março

        1 - «Filho, porque procedeste assim connosco? Teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura».
       «Quando ainda estava longe, o pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos... Trazei o vitelo gordo e matai-o; vamos fazer um banquete e alegrar-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado»

       2 - Dois momentos significativos que nos mostram a figura de São José pelos olhos de Maria e pelos olhos de Jesus e nos fazem compreender a paternidade de Deus. O amor paterno (e materno) é assim: preocupado, atento, disponível, maleável, adapta-se às exigências da vida e dos filhos, é oblativo, pensa mais nos outros que em si mesmo, sofre pacientemente, espera, acredita, aposta nos filhos, sempre, faz festa quando as coisas correm bem, morre um pouco quando as coisas correm mal.
       Na perda e encontro do Menino no Templo (Lc 2, 41-51), Maria faz saber a Jesus a preocupação que ele provocou. No papel de Mãe, Maria mostra o cuidado dos dois pais: ambos apoquentados, atentos, respeitando ainda assim as escolhas do Jesus. Maria faz uma pergunta. Abre a oportunidade para o filho se justificar. Maria e José, depois de toda a caminhada, do cansaço, do padecimento, não perdem tempo a gritar com o filho, dizem-lhe que O amam, e perguntam-lhe se compreende como o coração dos pais fica apertadinho quando não sabem dos filhos.
       Na parábola contada por Jesus, do Pai misericordioso, mais conhecida como parábola do Filho pródigo (Lc 15, 11-32), apresentada no evangelho de São Lucas, entrevê-se como Jesus compreende o amor de Deus Pai a partir do amor de São José. É uma luminosa descrição da figura de São José, sem o qual Jesus teria muita dificuldade em compreender a benevolência, bondade e misericórdia de Deus ou pelo menos a explicá-lo de forma tão simples e acessível.
       3 - Durante muitos anos Jesus aprende a respeitar, a dialogar, a amar o Pai e a Mãe. Vê neles a alegria e a proximidade física e afetiva, naquela pequena cidade de Nazaré, sem grandes posses, mas com uma grande cumplicidade. As pessoas são solidariamente vizinhas. Ajudam-se. Partilham do que têm, entram em casa uns dos outros, sofrem as perdas e as dificuldades da vida, reúnem-se para festejar o que a vida lhes dá, colocando-se sob a bênção de Deus, encontrando sempre oportunidade e motivos para louvar e agradecer as maravilhas do Senhor.
       Primeiro, junto de Nossa Senhora, Jesus aprende a falar e a escrever e a rezar, aprende a escutar e a esperar pela sua vez, a ouvir os mais velhos, as histórias da família e do povo de Deus. A partir dos 7 anos, como os rapazes da sua idade, acompanha o pai, acompanha São José na carpintaria. Aprende um ofício. José deu-lhe o nome e casa e agora dá-lhe as ferramentas para fazer alguma coisa de útil pelos outros. Numa cultura e tradição diferentes, o papel de São José é o de todos os pais: garantir que os filhos sejam capazes de acrescentar valor à vida, pessoal, familiar, social. Durante 30/34 anos, Jesus ficou perto dos pais para aprender a beleza da vida, o encanto da casa. Nada do outro mundo: levantar-se, comer qualquer coisa, acompanhar o pai, trabalhar, esperar que a mãe traga o almoço, voltar ao trabalho, ajudar alguém, conversar, participar da vida da comunidade.
      
       3 - Hoje vivemos a correr. Talvez seja por isso que não mastigamos a vida. Comemos a correr. Não temos tempo para a escuta, para a partilha, para sentar à mesa e beber mais um copo. Não degustamos a presença dos outros. Um bom copo de vinho... saborear o aroma, a cor, a densidade, deixando que o vinho passe pelas papilas gustativas, engolir devagar. Assim deveria ser a vida. Se passa a correr não há oportunidade de assentar e saborear, partilhar e celebrar.
       Porém, ainda que os tempos sejam diferentes existem coordenadas que continuam válidas para que a vida e os valores se comuniquem entre gerações. Quando não se vai lá com palavras, ter-se-á que ir com a vida. Ensina-se fazendo, vivendo, testemunhando. José e Maria não mandam o filho ao Templo, vão e o filho acompanha-os. Diálogo. Amor. Respeito.
       «Filhos, obedecei a vossos pais… / E vós, pais, não exaspereis os vossos filhos, mas criai-os com a educação e correcção que vêm do Senhor» (Ef 6, 1-9). Não se caçam moscas com vinagre. Talvez com mel e com uma elevada dose de paciência. Nunca desistir. Aquele Pai, como Deus em relação a nós, nunca desiste. Há um coração, uma memória feliz, uma casa onde regressar. Aquele filho não se perdeu completamente, porque no seu coração é mais forte a ligação ao Pai. E o amor do Pai é tão imensamente grande e forte, que grita pelo filho no silêncio e nas palavras não ditas. É tão grande que não se divide pelos filhos, pois se dá por inteiro a cada um.
       4 - Os filhos não precisam de pais super-heróis, mas de pais que sejam pessoas normais, de carne e osso, que choram e riem, que brincam e que se aborrecem, que afagam e repreendem, que escutam e falam. O mais importante não é ser um pai perfeito, mas ser um pai presente, ativo, interventivo, que é amigo sem deixar de ser pai, que desafia o filho a fazer sempre melhor, mas que abraça quando a vida não segue nos carris, que alerta sem querer ter razão, afinal não é um adversário para o filho. O Pai está lá sempre. Na parábola vemo-lo a chamar a atenção do filho mais velho. Não acentua diferenças, acentua o amor, a proximidade, os laços afetivos. Respeita as decisões dos filhos. Ainda que destruído por dentro, é mais forte o amor que o liga aos filhos e o respeito pela sua liberdade.
       Enquanto está na casa de São José, Jesus toma consciência da sua condição de filho. A sua vida futura dependerá dos equilíbrios que sustentam a sua família "biológica" e saberá que os laços de amor vão mais além que os laços de sangue. E aqui, mais uma vez, sem querer forçar o texto bíblico, Jesus entende que a família se expande nos afetos, no respeito, na partilha, na vida ofertada, na procura por identificar vontades. José ter-lhe-á mostrado que era verdadeiro pai, mesmo que O não tenha carnalmente gerado. São meus familiares todos os que procurarem escutar a Palavra do Pai pondo-a em prática.
       5 - Pelos olhos de Maria, na subida ao Templo de Jerusalém, à festa da Páscoa, quando Jesus tinha 12 anos, José é um Pai cuidadoso, preocupado, cumprindo a sua missão de Pai, levando a família a celebrar uma das festas mais importantes do Judaísmo, deixando-se entrever que era o proceder habitual da família de Nazaré. José tem a responsabilidade de cuidar da esposa e do filho, da segurança na viagem e dos víveres. Maria fala-nos da sua aflição e da aflição de José, em busca do filho que se perdeu ou se encontrou no Templo.
       Pelos olhos de Jesus, na parábola do Filho Pródigo, onde se vislumbram as impressões digitais de São José como Pai de Jesus, atento, cuidadoso, que confia no filho e respeita a sua liberdade e o seu espaço, que comunica elevada dose de amor, de carinho, de proximidade, de compreensão, que está pronto a celebrar a vida com a família. Os traços que caracterizam Deus como Pai inspiram-se na figura de São José, que assume, em casa, na vida de Jesus, uma paternidade firme, trabalhadora, responsável, suficientemente próximo e amigo, atento ao crescimento de Jesus, passando-lhe pouco a pouco as responsabilidades de cuidar da casa, sem se desligar dos deveres na comunidade e na história de Israel. Um dia Jesus poderá facilmente concluir que a família é muito mais que a soma dos membros com ligações sanguíneas, mas estrutura-se, alimenta-se e fortalece-se com os laços de caridade.

Pe. Manuel Gonçalves

Textos para a Eucaristia: 2 Sam 7, 4-5a. 12-14a. 16; Rom 4, 13. 16-18. 22; Mt 1, 16. 18-21. 24a ou Lc 2, 41-51a.

Proposta de Reflexão que agora retomamos,
na página da Paróquia de Tabuaço.

terça-feira, 15 de março de 2016

Frei Clodovis Boff - O quotidiano de Maria de Nazaré

FREI CLODOVIS BOFF, OSM, (2015). O quotidiano de Maria de Nazaré. Prior Velho: Paulinas Editora. 136 páginas.
       Os Evangelhos centram-se em Jesus e sobretudo no processo da Sua condenação e morte na Cruz, sob a luz das aparições do Ressuscitado, alargando depois para a vida pública, com algumas incursões na Sua infância (São Mateus e São Lucas), ou na fundamentação teológica para O situar como Filho encarnado de Deus (São João).
       A preocupação primeira dos evangelistas foi preservar as palavras e os acontecimentos vividos por Jesus, com a participação dos discípulos e com a experiência das comunidades cristãos, depois da Ressurreição. Não têm nem o cuidado nem a preocupação de escrever uma biografia completa da vida de Jesus, desde o nascimento à morte.
       Com o passar dos anos, muitos sentiram a necessidade de preencher algumas lacunas. Os evangelhos apócrifos respondem a esta e a outras interrogações. Mesmo que sejam posteriores aos Evangelhos canónicos, e alguns com muitas fantasias, permitem comprovar dados, relacionar com o contexto, com a história da época.
       O "Quotidiano de Maria de Nazaré" é um texto belíssimo que nos traz a vida de Nossa Senhora, inserida na família e na cultura, naquele povo e naquele tempo, a vivência simples, pobre, dedicada, com as dificuldades mas também da solidariedade das famílias na pequena cidade de Nazaré. Acompanhamos Maria da infância, ao compromisso matrimonial com São José, o nascimento e crescimento de Jesus, a morte de São José, a vida pública de Jesus e os problemas vividos então, a morte de Jesus. Maria familiariza-nos com Jesus, parentes e amigos.
       Com os dados dos Evangelhos, dos evangelho apócrifos, de autores judeus e romanos da época, servindo-se também de descobertas recentes, recorrendo à arqueologia, à cultura, às vivências em outras cidades vizinhas, é possível aproximar-nos da vida de Maria e com Ela sentirmo-nos ainda mais próximos de Jesus. Ele não caiu do céu aos trambolhões, ousou tomar a nossa carne e ser Um entre nós.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Paróquia de Tabuaço - Semana Santa 2016

A Igreja aproxima-se do tempo litúrgico mais importante, a celebração anual festiva da Páscoa da Ressurreição de Jesus. O tempo que a prepara e o tempo subsequente são também oportunidades para recentrar a liturgia, a reflexão, a vivência no essencial da fé cristã, o mistério pascal que nos redime, nos assume, nos eleva, nos ressuscita, abrindo-nos, em definitivo, as portas da eternidade de Deus, de onde Jesus, à direita do Pai nos atrai e nos protege e nos desafia a vivermos como Ele viveu entre nós. Com a Ressurreição, Jesus voltou à vida, e vive entre nós quando nos reunimos em Seu nome e procuramos viver como Ele nos ensinou, como Ele viveu.

Estamos às portas da Semana Santa, a Maior da nossa fé. As comunidades vivem intensamente, com as celebrações próprias destes dias. Assim também na comunidade Paroquial de Nossa Senhora da Conceição de Tabuaço. O Cartaz ajuda a divulgar, para que outros possam envolver-se vivendo as pegadas de Jesus.


Nas vésperas da Semana Santa, uma das festas da Catequese, no sábado, 19 de março, Solenidade de São José:

Para iniciarmos a Semana, a Bênção de Ramos, na Capela de Santa Bárbara, prosseguindo a procissão até à Igreja para aí celebrarmos a Eucaristia, com a leitura da Paixão do Senhor. Caindo a noite, e como habitualmente nos últimos anos, a Via-Sacra Paroquial com a encenação das 14 estações que a compõem:
Na quarta-feira da SEMANA SANTA, o dia tradicional das Confissões para a comunidade. Tal como no ano passado, o dia será preenchido com a Adoração do Santíssimo Sacramento, DIA DO PERDÃO E DA MISERICÓRDIA envolvendo e comprometendo os diferentes grupos eclesiais-paroquiais:
Revisitando, vivendo, os acontecimentos mais importantes da vida de Jesus, para viver renovando a fé e os compromissos batismais e assim nos configuramos mais e mais e mais a Jesus Cristo e, com Ele, aprendermos a dar largos à misericórdia para com todos.

sábado, 12 de março de 2016

Domingo V da Quaresma - ano C - 13 de março

       1 – O ministério de Jesus é facilmente caracterizável pela delicadeza, proximidade e misericórdia, pelo acolhimento e amizade, pela ternura e pela bondade. Jesus não faz aceção de pessoas. A opção primeira, contudo, é para os que não têm lugar nos reinos deste mundo: pobres, publicanos, pecadores, mulheres, crianças, doentes, estrangeiros, portadores de deficiência. Não são os sãos que precisam de médico, mas os doentes. É para os pecadores que vem ao mundo, encarnando. Não para aqueles que se considerem a si mesmos perfeitos. Aquele que perdeu a capacidade de aprender, de mudar, de crescer, de corrigir algum aspeto na sua vida, e se sente e se coloca acima dos outros, não é deste mundo, não é humano. Seria deus e os deuses não são da terra.
       Ora, Jesus faz-Se humano, vivendo sujeito às coordenadas do tempo e do espaço. E por isso Se pode encontrar, tocar, Se pode perseguir, prender e até Se pode matar. Em definitivo, Jesus é o poeta da misericórdia de Deus. Não vem para condenar, mas para salvar, para redimir, para elevar todo aquele que se perdeu no caminho ou se desviou da felicidade. Vem para iluminar as trevas e levar à verdade os que vivem enrodilhados na mentira e na falsidade. Vem para reconciliar-nos connosco, com os outros, com o mundo. Traz à nossa vida uma Notícia Boa, Nova e Bela: Deus ama-nos com Amor de Mãe e tudo fará para nos reunir como filhos, em família.
       2 – Belíssima a página do Evangelho de São João que hoje nos é apresentada neste 5.º Domingo da Quaresma. A descrição joanina faz-nos ver Jesus e acompanhá-l'O em diferentes momentos. Retira-Se para o monte das Oliveiras, para pernoitar, para descansar, para rezar, alimentando-Se da presença do Pai. Com Ele vão os discípulos. Vamos no Seu encalço, não nos percamos no caminho, não fiquemos para trás. A oração faz-nos sintonizar com Jesus e com a Sua oração em nós.
       Manhã cedo e Jesus volta ao Templo. Senta-Se e começa a ensinar o povo que se aproximara d'Ele. Como em outras ocasiões, alguns fariseus e doutores da Lei também se aproximam mas para O testar. Apresentam uma mulher apanhada em flagrante adultério. Desde logo a discriminação, falta o homem que com ela cometeu adultério e para quem a Lei de Moisés exigia o mesmo tratamento. A prática já não correspondia aos ideais mosaicos. Colocam-na no meio dos presentes. Humilhação completa. Não bastava ter sido surpreendida em falta era agora exposta perante todos.
       «Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Na Lei, Moisés mandou-nos apedrejar tais mulheres. Tu que dizes?». Armadilha bem orquestrada da qual não é fácil uma saída airosa. Se condenasse aquela mulher, Jesus não seria melhor que aqueles que lha apresentaram e cairia uma das facetas essenciais do Mestre da Sensibilidade, a Sua delicadeza, tolerância, acolhimento de pecadores e publicanos. Não condenando, estaria a ser conivente com o pecado e a contrariar a Lei de Moisés, que o povo judeu tem como referência imprescindível para a religião.
       Jesus usa da mesma argúcia e faz com que os fariseus, os doutores da Lei, os discípulos, e todo o povo, onde também nos incluímos, regressem à terra, ao chão. "Jesus inclinou-Se e começou a escrever com o dedo no chão". E é então que Jesus contrapõe: «Quem de entre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra». E novamente Jesus nos faz olhar para o chão das nossas misérias. Para atirar a primeira pedra é preciso alguém impecável, que não tenha fraquezas, nem pecados, nem telhados de vidro. Não julgueis e não sereis julgados. Não condeneis e não sereis condenados. Porque olhas para o argueiro na vista do teu irmão sem tirar a trave da tua vista?
       3 – Um após outro, todos se retiraram, porque olhando para as suas vidas facilmente encontraram motivos de condenação, de censura, de arrependimento. Mal é quando desviamos a atenção para os outros para que não olhem para nós.
       No final, diz Santo Agostinho, "todos saíram da cena. Somente ficaram Ele e ela; ficou o Criador e a criatura; ficou a miséria e a misericórdia... Ficou ali apenas a pecadora e o Salvador. Ficou a enferma e o médico. Ficou a miserável com a misericórdia". Jesus levantou-Se e disse-lhe: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?». Ela respondeu: «Ninguém, Senhor». Disse então Jesus: «Nem Eu te condeno. Vai e não tornes a pecar».
       A miséria desta mulher é absorvida pela misericórdia de Deus que em Jesus a perdoa e a acaricia. Vai e não voltes à mesma vida. Tens agora uma nova oportunidade. Refaz o trajeto, refaz e vida. Vai e sê mulher, sê feliz. A misericórdia não passa ao lado do pecado, o pecado é perdoado por Deus, por Jesus; a misericórdia reabilita-a para uma vida nova. Jesus não desculpa o pecado, não desvaloriza ou disfarça o mal. Desculpabilizar não é perdoar, é contornar o problema, varrer para debaixo do tapete. Reconhecer o pecado, o mal feito, é levar a sério a pessoa, na sua liberdade, consciência e responsabilidade. Perdoar é aceitar a pessoa com as suas limitações e as suas falhas. Ela pecou, como o homem que estivera com ela também pecou. Jesus di-lo claramente: vai e não voltes a pecar. Não te condeno. Os teus pecados estão perdoados. Esta mulher é reabilitada como filha amada de Deus.
       O desafio é para ela, para fariseus e doutores da lei, e também para nós. Obriga-nos a olhar para nós para que não condenemos nem injusta nem levianamente. Perdoar as injúrias. Suportar com paciência as fraquezas do próximo. Perdoemos porque primeiro Deus nos perdoa!
       Onde abunda o nosso pecado superabunda a graça, a misericórdia, a benevolência de Deus.
       4 – O Senhor Deus é lento para a ira e pronto a usar de misericórdia até à milésima geração. Jesus é o Rosto e a plenitude da Misericórdia do Pai, encarnando-a na história e no tempo, na nossa vida e no nosso mundo. Porém, ao longo da história do Povo Eleito, Deus revela-Se na Sua infinita bondade, misericórdia, compaixão.
       O Povo de Deus faz a experiência da presença amorosa de Deus em diferentes momentos e circunstâncias. "O Senhor abriu outrora caminhos através do mar, veredas por entre as torrentes das águas". Mas como se isso não bastava, a promessa de Deus: «Vou realizar uma coisa nova, que já começa a aparecer; não a vedes? Vou abrir um caminho no deserto, fazer brotar rios na terra árida. Os animais selvagens – chacais e avestruzes – proclamarão a minha glória, porque farei brotar água no deserto, rios na terra árida, para matar a sede ao meu povo escolhido, o povo que formei para Mim e que proclamará os meus louvores».
       Como a águia transporta a sua cria, assim Deus nos eleva e nos protege; como galinha que envolve os pintainhos, assim Deus, como Mãe, nos resguarda de todo o mal. E, ainda que nos transviemos, Deus não cessa de nos procurar e, se regressamos, faz festa, revestindo-nos com o traje da alegria.
       5 – Na morte e ressurreição de Jesus cumpre-se a Promessa de Deus a Israel e a todos os povos. Eis que faço novas todas as coisas! Jesus, oferecendo a Sua vida por nós, carregando os nossos sofrimentos e o nosso pecado, introduz-nos na vida divina, vida de graça e de amor. Pelo Batismo somos configurados ao mistério pascal. Morremos com Cristo para com Ele ressuscitarmos novas criaturas.
       Como à mulher apanhada em flagrante adultério, também a nós Jesus nos ergue com Ele e nos envia a levar a Boa Nova a todos: o Reino de Deus chegou, está entre nós, a redenção cumpriu-se com a Sua vida, morte e ressurreição.
       Paulo relembra-nos a nossa identificação a Jesus, desafiando-nos a sintonizar com Ele o nosso caminhar. O Apóstolos deixou-se alcançar por Cristo, renunciando as todas as coisas, para se configurar à Sua morte e, n'Ele, chegar à ressurreição. Mas não é o fim, pois «continuo a correr, para ver se a alcanço, uma vez que também fui alcançado por Cristo Jesus... Só penso numa coisa: esquecendo o que fica para trás, lançar-me para a frente, continuar a correr para a meta, em vista do prémio a que Deus, lá do alto, me chama em Cristo Jesus».
       Já fomos alcançados pela misericórdia de Cristo Jesus, mas o nosso trabalho, a nossa missão só termina quando chegar a hora de irmos para o Pai. A certeza de que fomos redimidos na morte e ressurreição de Jesus compromete-nos mais com o nosso tempo e com as pessoas com as quais temos de construir o Seu Reino de Deus de amor, de justiça e de paz.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano C): Is 43, 16-21; Sl 125 (126); Filip 3, 8-14; Jo 8, 1-11.

sábado, 5 de março de 2016

Domingo IV da Quaresma - ano C - 6 de março de 2016

       1 – Para saborearmos a palavra de Deus, comecemos por dirigir o nosso coração e a nossa vida para Ele: «Deus de misericórdia, que, pelo vosso Filho, realizais admiravelmente a reconciliação do género humano, concedei ao povo cristão fé viva e espírito generoso, a fim de caminhar alegremente para as próximas solenidades pascais» (Oração de coleta).
       A alegria que buscamos reforça-se pela conciliação, em Deus, com os outros e com o mundo. Contagiados pela Sua misericórdia infinita, façamos emergir a delicadeza, o cuidado e a compaixão para com aqueles que peregrinam connosco neste tempo e neste mundo.
       A liturgia da Palavra que hoje temos a dita de refletir, mormente o Evangelho de São Lucas, coloca a descoberto a compaixão de Deus Pai. É grandiloquente a parábola tradicionalmente conhecida como "do filho pródigo", ainda que seja o Pai misericordioso que preenche todo o texto. O Papa Francisco, com a convocação do Jubileu da Misericórdia, quer que a Igreja transpareça mais claramente a Misericórdia do Pai que resplandece em Jesus, nas Suas palavras e no Seu agir. As parábolas da misericórdia ganham assim uma maior relevância. E esta é uma parábola que ilumina todo o Evangelho, pela qual Jesus nos revela o coração misericordioso do Pai.
       2 – Os publicanos e os pecadores, os doentes, as mulheres e as crianças, os leprosos, os surdos e os coxos, os pobres, são os amigos mais próximos de Jesus. Atrai-os pela simplicidade, pela transparência, pela afabilidade. Procura-os. Vai ter com eles, senta-se a conversar e, o gesto mais sublime, come com eles. A refeição não é apenas uma momento para se alimentar, é um momento de encontro, de convívio, de festa. Um judeu senta-se à mesa para comer com a família e com os amigos. Se Jesus come com publicanos e pecadores e com as pessoas não recomendáveis é por considerá-los amigos, com quem quer partilhar o tempo e a vida.
       Este proceder não agrada a todos. Jesus anuncia o Reino de Deus, onde todos têm lugar, optando por se encontrar com os mais desvalidos. Alguns grupos, que se consideram privilegiados, puros, abençoados por Deus, acham que se Ele é profeta então deve circunscrever-se ao Templo e às Sinagogas e conviver com pessoas de bem e não com pessoas de honra duvidosa.
       Perante o murmúrio, a desconfiança e a crítica, Jesus conta-lhes uma parábola: «Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’. O pai repartiu os bens pelos filhos. Alguns dias depois, o filho mais novo, juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante».
       Jesus mostra-nos a figura do Pai que ama com amor de Mãe. A Sua casa e o Seu trabalho, o Seu coração e a Sua vida orientam-se para os dois filhos, para lhes proporcionar alegria e segurança. É um Pai que parte a cara e perde a vergonha, mas não quer perder os filhos e não desiste deles. O mais novo deseja-lha a morte, pois a herança vem com a morte do pai. Este filho afasta-se, para ele o pai morreu, deixou de ser pai, porque não quer continuar a ser filho. Por sua vez o Pai não o força, mas é com tristeza que o vê partir. Confia que ele regresse e, por conseguinte, o seu olhar perde-se no horizonte à espera que o filho volte. «Ainda ele estava longe, quando o pai o viu: encheu-se de compaixão e correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos». Encheu-se de compaixão (revolveram-se-lhes as entranhas), quando vislumbrou o filho à distância. Não hesitou. Correu. Lançou-lhes ao pescoço, encheu-o de beijos. Tal como uma Mãe quando se reencontra com o filho ausente há algum tempo. O filho saiu de casa, esbanjou os bens, regressa por indigência, pois gastou tudo o que tinha, ficando na miséria. Está convencido que o Pai o aceitará como empregado mas não como filho. O Pai nem lhe deixa terminar o discurso preparado, enche-o de beijos, recebe-o como filho, manda que lhe ponham o anel, as sandálias, a melhor túnica, manda matar o vitelo gordo, faz-lhe uma grande festa. A miséria (do filho) é absorvida pela misericórdia (do Pai)!
       3 – Mas a provação não fica por aqui. Quando o Pai se delicia com o regresso do Seu filho que estava perdido, aproxima-se o filho mais velho. Cumpridor. Sempre perto do Pai. Mais que filho, é um servo obediente, trabalhador. «Há tantos anos que eu te sirvo, sem nunca transgredir uma ordem tua». Não questiona as ordens. Faz o tem que fazer. Fica fora, a observar. Fora de casa e da festa!
       «Ora o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças. Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. O servo respondeu-lhe: ‘O teu irmão voltou e teu pai mandou matar o vitelo gordo, porque ele chegou são e salvo’. Ele ficou ressentido e não queria entrar».
       O Pai põe-se novamente em campo. Sai da festa e de casa e vai ao encontro do filho. O Pai renuncia à sua autoridade e humilha-se pelos filhos. Os que estão à volta, os servos, são testemunhas destas coisas. O Pai expõe-se aos olhares e aos cochichos. Assim como Jesus Se expõe ao nosso sussurro e à nossa crítica por se atrever a conviver com pessoas de má índole.
       Apesar de Se expor, o Pai não deixa de ser Pai e Mãe, cujas entranhas se revolvem, cuja compaixão (misericórdia) O conduz para fora do seu espaço de conforto. Não se preocupa com os costumes ou as ideias preconcebidas acerca da figura hierática da paternidade. Não mantém distâncias, não fica no seu canto à espera que os filhos regressem. Dá-lhes a liberdade necessária para que decidam, mas faz-lhes sentir o Seu amor, a Sua delicadeza. «Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado».
       Mais que filhos, um e outro, assumem-se como assalariados. Quando regressa, o filho mais novo quer ser tratado como um dos servos, porque até os servos em sua casa são bem tratados. O filho mais velho sente-se um servo cumpridor, nunca se sentiu filho nem considera o seu irmão. Veja-se o trato: "esse teu filho"! Só quando nos sentimos filhos nos poderemos considerar irmãos!
       4 – O perigo também está dentro de nós. A dracma perdida (no conjunto das três parábolas: Pai misericordioso, pastor à procura da ovelha perdida, mulher que perde e encontra a dracma) mostra que em casa também podemos perder-nos. Jesus responde com as três parábolas ao murmúrio, à crítica, à desconfiança e à suspeita que recaem sobre Ele por se misturar com pecadores e publicanos.
       A lermos a parábola, como em outras, devemos procurar o melhor ângulo acolhermos o essencial da mensagem de Jesus: a partir do filho mais novo, do filho mais velho, ou do Pai! Porém, para que a parábola possa levar-nos à conversão, devemos situar-nos, como insiste D. António Couto, Bispo de Lamego, na assembleia ouvinte, como fariseus e doutores da lei, a quem Jesus se dirige. Contestam o proceder de Jesus, porque não conhecem o Pai, a Quem consideram patrão, juiz, todo-poderoso, a Quem temem e, por isso, procuram cumprir um conjunto de regras e de tradições para serem merecedores da compaixão de Deus.
       Ora, para Jesus a salvação de Deus é DOM, é gratuita. Nenhum dos filhos fez nada que mereça os cuidados e a ternura complacente do Pai. A misericórdia alcança-os para lá dos méritos. Um sai de casa e assume-se como filho sem Pai. O outro, ainda que em casa, considera-se servo, mas não filho e não considera como irmão o outro filho de Seu Pai. Aqueles fariseus e doutores da lei, do lado de quem devemos colocar-nos, terão de fazer a experiência de Deus como Pai que ama com amor de Mãe, que quebra a cara mas não quer perder nenhum dos Seus filhos.
       Sentindo a nossa fragilidade, mas sabendo-nos filhos, acolhamos em verdade a misericórdia de Deus. O primeiro passo para a cura é o reconhecimento de que estamos doentes e precisamos de tratamento. Deus toma a iniciativa de nos AMAR de todo o coração. Cabe-nos responder-Lhe. Quando é que nos assumimos como filhos bem-amados?!

       5 – A revelação de Deus como Pai vai sendo desenhada ao longo do Antigo Testamento, na história da Primeira Aliança. O penitente, o orante, o crente confia a Sua vida a Deus, esperando compaixão, graça, misericórdia. A libertação do Egipto tem a marca de Deus, que não Se mantém indiferente às súplicas do Seu povo. «Hoje tirei de vós o opróbrio do Egipto», diz Deus a Josué. O Povo pode então celebrar na planície a paz e a libertação, a bênção de Deus. O deserto fica para trás para que na terra da promessa experimentem a abundância dos frutos da terra.
       O Apóstolo São Paulo faz-nos ver como em Cristo, a nossa Terra Prometida, se manifesta a justiça e a misericórdia de Deus, que nos salva e nos renova: «Deus que em Cristo reconcilia o mundo consigo, não levando em conta as faltas dos homens e confiando-nos a palavra da reconciliação… A Cristo, que não conhecera o pecado, Deus identificou-O com o pecado por causa de nós, para que em Cristo nos tornemos justiça de Deus».

Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia (ano C): Jos 5, 9a. 10-12; Sl 33 (34); 2 Cor 5, 17-21; Lc 15, 1-3. 11-32.

Dois homens subiram ao templo para orar

       Oseias presenteia-nos com mais esta belíssimo confissão de fé, de confiança em Deus. Se Ele nos feriu, Ele nos há de curar. Faz lembrar um Pai/Mãe que coloca o filho de castigo mas com a preocupação de o orientar para o bem. E numa imagem que hoje não se usa, a mãe ou o pai que dão uma bofetada no filho, mas que logo abraçam, afaçam, fazem sentir bem, acarinham, curam o filho que se magoou.
Vinde, voltemos para o Senhor. Se Ele nos feriu, Ele nos curará. Se nos atingiu com os seus golpes, Ele tratará as nossas feridas. Ao fim de dois dias, Ele nos fará viver de novo; ao terceiro dia nos levantará e viveremos na sua presença. Procuremos conhecer o Senhor: a sua vinda é certa como a aurora. Virá a nós como o aguaceiro de Outono, como a chuva da Primavera sobre a face da terra. «Que farei por ti, Efraim? Que farei por ti, Judá?» – diz o Senhor – «O vosso amor é como o nevoeiro da manhã, como o orvalho da madrugada que logo se evapora. Por isso os castiguei por meio dos Profetas e os matei com palavras da minha boca; e o meu direito resplandece como a luz. Porque Eu quero a misericórdia e não os sacrifícios, o conhecimento de Deus, mais que os holocaustos» (Os 6, 1-6).
       O profeta sublinha a conversão, as boas obras, a justiça, o amor, como forma de viver em Deus, remetendo para a misericórdia de Deus mais que todas as tradições ou sacrifícios. Também assim no Evangelho de hoje, não vale tanto o ritualismo, o cumprimento de uma tradição, de uma obrigação (ainda que religiosa), mas sobretudo uma atitude permanente de conversão e de despojamento diante de Deus.
       O publicano sai justificado, diante de Deus posta-se como "nada", precisado da graça de Deus. O fariseu aparece diante de Deus como "tudo", não precisa nem de Deus. Mas escutemos e meditemos o texto:
Jesus disse a seguinte parábola para alguns que se consideravam justos e desprezavam os outros: «Dois homens subiram ao templo para orar; um era fariseu e o outro publicano. O fariseu, de pé, orava assim: ‘Meu Deus, dou-Vos graças por não ser como os outros homens, que são ladrões, injustos e adúlteros, nem como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo quanto possuo’. O publicano ficou a distância e nem sequer se atrevia a erguer os olhos ao Céu; mas batia no peito e dizia: ‘Meu Deus, tende compaixão de mim, que sou pecador’. Eu vos digo que este desceu justificado para sua casa e o outro não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado» ( Lc 18, 9-14)