sábado, 5 de março de 2016

Domingo IV da Quaresma - ano C - 6 de março de 2016

       1 – Para saborearmos a palavra de Deus, comecemos por dirigir o nosso coração e a nossa vida para Ele: «Deus de misericórdia, que, pelo vosso Filho, realizais admiravelmente a reconciliação do género humano, concedei ao povo cristão fé viva e espírito generoso, a fim de caminhar alegremente para as próximas solenidades pascais» (Oração de coleta).
       A alegria que buscamos reforça-se pela conciliação, em Deus, com os outros e com o mundo. Contagiados pela Sua misericórdia infinita, façamos emergir a delicadeza, o cuidado e a compaixão para com aqueles que peregrinam connosco neste tempo e neste mundo.
       A liturgia da Palavra que hoje temos a dita de refletir, mormente o Evangelho de São Lucas, coloca a descoberto a compaixão de Deus Pai. É grandiloquente a parábola tradicionalmente conhecida como "do filho pródigo", ainda que seja o Pai misericordioso que preenche todo o texto. O Papa Francisco, com a convocação do Jubileu da Misericórdia, quer que a Igreja transpareça mais claramente a Misericórdia do Pai que resplandece em Jesus, nas Suas palavras e no Seu agir. As parábolas da misericórdia ganham assim uma maior relevância. E esta é uma parábola que ilumina todo o Evangelho, pela qual Jesus nos revela o coração misericordioso do Pai.
       2 – Os publicanos e os pecadores, os doentes, as mulheres e as crianças, os leprosos, os surdos e os coxos, os pobres, são os amigos mais próximos de Jesus. Atrai-os pela simplicidade, pela transparência, pela afabilidade. Procura-os. Vai ter com eles, senta-se a conversar e, o gesto mais sublime, come com eles. A refeição não é apenas uma momento para se alimentar, é um momento de encontro, de convívio, de festa. Um judeu senta-se à mesa para comer com a família e com os amigos. Se Jesus come com publicanos e pecadores e com as pessoas não recomendáveis é por considerá-los amigos, com quem quer partilhar o tempo e a vida.
       Este proceder não agrada a todos. Jesus anuncia o Reino de Deus, onde todos têm lugar, optando por se encontrar com os mais desvalidos. Alguns grupos, que se consideram privilegiados, puros, abençoados por Deus, acham que se Ele é profeta então deve circunscrever-se ao Templo e às Sinagogas e conviver com pessoas de bem e não com pessoas de honra duvidosa.
       Perante o murmúrio, a desconfiança e a crítica, Jesus conta-lhes uma parábola: «Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’. O pai repartiu os bens pelos filhos. Alguns dias depois, o filho mais novo, juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante».
       Jesus mostra-nos a figura do Pai que ama com amor de Mãe. A Sua casa e o Seu trabalho, o Seu coração e a Sua vida orientam-se para os dois filhos, para lhes proporcionar alegria e segurança. É um Pai que parte a cara e perde a vergonha, mas não quer perder os filhos e não desiste deles. O mais novo deseja-lha a morte, pois a herança vem com a morte do pai. Este filho afasta-se, para ele o pai morreu, deixou de ser pai, porque não quer continuar a ser filho. Por sua vez o Pai não o força, mas é com tristeza que o vê partir. Confia que ele regresse e, por conseguinte, o seu olhar perde-se no horizonte à espera que o filho volte. «Ainda ele estava longe, quando o pai o viu: encheu-se de compaixão e correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos». Encheu-se de compaixão (revolveram-se-lhes as entranhas), quando vislumbrou o filho à distância. Não hesitou. Correu. Lançou-lhes ao pescoço, encheu-o de beijos. Tal como uma Mãe quando se reencontra com o filho ausente há algum tempo. O filho saiu de casa, esbanjou os bens, regressa por indigência, pois gastou tudo o que tinha, ficando na miséria. Está convencido que o Pai o aceitará como empregado mas não como filho. O Pai nem lhe deixa terminar o discurso preparado, enche-o de beijos, recebe-o como filho, manda que lhe ponham o anel, as sandálias, a melhor túnica, manda matar o vitelo gordo, faz-lhe uma grande festa. A miséria (do filho) é absorvida pela misericórdia (do Pai)!
       3 – Mas a provação não fica por aqui. Quando o Pai se delicia com o regresso do Seu filho que estava perdido, aproxima-se o filho mais velho. Cumpridor. Sempre perto do Pai. Mais que filho, é um servo obediente, trabalhador. «Há tantos anos que eu te sirvo, sem nunca transgredir uma ordem tua». Não questiona as ordens. Faz o tem que fazer. Fica fora, a observar. Fora de casa e da festa!
       «Ora o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças. Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. O servo respondeu-lhe: ‘O teu irmão voltou e teu pai mandou matar o vitelo gordo, porque ele chegou são e salvo’. Ele ficou ressentido e não queria entrar».
       O Pai põe-se novamente em campo. Sai da festa e de casa e vai ao encontro do filho. O Pai renuncia à sua autoridade e humilha-se pelos filhos. Os que estão à volta, os servos, são testemunhas destas coisas. O Pai expõe-se aos olhares e aos cochichos. Assim como Jesus Se expõe ao nosso sussurro e à nossa crítica por se atrever a conviver com pessoas de má índole.
       Apesar de Se expor, o Pai não deixa de ser Pai e Mãe, cujas entranhas se revolvem, cuja compaixão (misericórdia) O conduz para fora do seu espaço de conforto. Não se preocupa com os costumes ou as ideias preconcebidas acerca da figura hierática da paternidade. Não mantém distâncias, não fica no seu canto à espera que os filhos regressem. Dá-lhes a liberdade necessária para que decidam, mas faz-lhes sentir o Seu amor, a Sua delicadeza. «Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado».
       Mais que filhos, um e outro, assumem-se como assalariados. Quando regressa, o filho mais novo quer ser tratado como um dos servos, porque até os servos em sua casa são bem tratados. O filho mais velho sente-se um servo cumpridor, nunca se sentiu filho nem considera o seu irmão. Veja-se o trato: "esse teu filho"! Só quando nos sentimos filhos nos poderemos considerar irmãos!
       4 – O perigo também está dentro de nós. A dracma perdida (no conjunto das três parábolas: Pai misericordioso, pastor à procura da ovelha perdida, mulher que perde e encontra a dracma) mostra que em casa também podemos perder-nos. Jesus responde com as três parábolas ao murmúrio, à crítica, à desconfiança e à suspeita que recaem sobre Ele por se misturar com pecadores e publicanos.
       A lermos a parábola, como em outras, devemos procurar o melhor ângulo acolhermos o essencial da mensagem de Jesus: a partir do filho mais novo, do filho mais velho, ou do Pai! Porém, para que a parábola possa levar-nos à conversão, devemos situar-nos, como insiste D. António Couto, Bispo de Lamego, na assembleia ouvinte, como fariseus e doutores da lei, a quem Jesus se dirige. Contestam o proceder de Jesus, porque não conhecem o Pai, a Quem consideram patrão, juiz, todo-poderoso, a Quem temem e, por isso, procuram cumprir um conjunto de regras e de tradições para serem merecedores da compaixão de Deus.
       Ora, para Jesus a salvação de Deus é DOM, é gratuita. Nenhum dos filhos fez nada que mereça os cuidados e a ternura complacente do Pai. A misericórdia alcança-os para lá dos méritos. Um sai de casa e assume-se como filho sem Pai. O outro, ainda que em casa, considera-se servo, mas não filho e não considera como irmão o outro filho de Seu Pai. Aqueles fariseus e doutores da lei, do lado de quem devemos colocar-nos, terão de fazer a experiência de Deus como Pai que ama com amor de Mãe, que quebra a cara mas não quer perder nenhum dos Seus filhos.
       Sentindo a nossa fragilidade, mas sabendo-nos filhos, acolhamos em verdade a misericórdia de Deus. O primeiro passo para a cura é o reconhecimento de que estamos doentes e precisamos de tratamento. Deus toma a iniciativa de nos AMAR de todo o coração. Cabe-nos responder-Lhe. Quando é que nos assumimos como filhos bem-amados?!

       5 – A revelação de Deus como Pai vai sendo desenhada ao longo do Antigo Testamento, na história da Primeira Aliança. O penitente, o orante, o crente confia a Sua vida a Deus, esperando compaixão, graça, misericórdia. A libertação do Egipto tem a marca de Deus, que não Se mantém indiferente às súplicas do Seu povo. «Hoje tirei de vós o opróbrio do Egipto», diz Deus a Josué. O Povo pode então celebrar na planície a paz e a libertação, a bênção de Deus. O deserto fica para trás para que na terra da promessa experimentem a abundância dos frutos da terra.
       O Apóstolo São Paulo faz-nos ver como em Cristo, a nossa Terra Prometida, se manifesta a justiça e a misericórdia de Deus, que nos salva e nos renova: «Deus que em Cristo reconcilia o mundo consigo, não levando em conta as faltas dos homens e confiando-nos a palavra da reconciliação… A Cristo, que não conhecera o pecado, Deus identificou-O com o pecado por causa de nós, para que em Cristo nos tornemos justiça de Deus».

Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia (ano C): Jos 5, 9a. 10-12; Sl 33 (34); 2 Cor 5, 17-21; Lc 15, 1-3. 11-32.

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