sexta-feira, 18 de março de 2016

Solenidade de São José - 19 de março

        1 - «Filho, porque procedeste assim connosco? Teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura».
       «Quando ainda estava longe, o pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos... Trazei o vitelo gordo e matai-o; vamos fazer um banquete e alegrar-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado»

       2 - Dois momentos significativos que nos mostram a figura de São José pelos olhos de Maria e pelos olhos de Jesus e nos fazem compreender a paternidade de Deus. O amor paterno (e materno) é assim: preocupado, atento, disponível, maleável, adapta-se às exigências da vida e dos filhos, é oblativo, pensa mais nos outros que em si mesmo, sofre pacientemente, espera, acredita, aposta nos filhos, sempre, faz festa quando as coisas correm bem, morre um pouco quando as coisas correm mal.
       Na perda e encontro do Menino no Templo (Lc 2, 41-51), Maria faz saber a Jesus a preocupação que ele provocou. No papel de Mãe, Maria mostra o cuidado dos dois pais: ambos apoquentados, atentos, respeitando ainda assim as escolhas do Jesus. Maria faz uma pergunta. Abre a oportunidade para o filho se justificar. Maria e José, depois de toda a caminhada, do cansaço, do padecimento, não perdem tempo a gritar com o filho, dizem-lhe que O amam, e perguntam-lhe se compreende como o coração dos pais fica apertadinho quando não sabem dos filhos.
       Na parábola contada por Jesus, do Pai misericordioso, mais conhecida como parábola do Filho pródigo (Lc 15, 11-32), apresentada no evangelho de São Lucas, entrevê-se como Jesus compreende o amor de Deus Pai a partir do amor de São José. É uma luminosa descrição da figura de São José, sem o qual Jesus teria muita dificuldade em compreender a benevolência, bondade e misericórdia de Deus ou pelo menos a explicá-lo de forma tão simples e acessível.
       3 - Durante muitos anos Jesus aprende a respeitar, a dialogar, a amar o Pai e a Mãe. Vê neles a alegria e a proximidade física e afetiva, naquela pequena cidade de Nazaré, sem grandes posses, mas com uma grande cumplicidade. As pessoas são solidariamente vizinhas. Ajudam-se. Partilham do que têm, entram em casa uns dos outros, sofrem as perdas e as dificuldades da vida, reúnem-se para festejar o que a vida lhes dá, colocando-se sob a bênção de Deus, encontrando sempre oportunidade e motivos para louvar e agradecer as maravilhas do Senhor.
       Primeiro, junto de Nossa Senhora, Jesus aprende a falar e a escrever e a rezar, aprende a escutar e a esperar pela sua vez, a ouvir os mais velhos, as histórias da família e do povo de Deus. A partir dos 7 anos, como os rapazes da sua idade, acompanha o pai, acompanha São José na carpintaria. Aprende um ofício. José deu-lhe o nome e casa e agora dá-lhe as ferramentas para fazer alguma coisa de útil pelos outros. Numa cultura e tradição diferentes, o papel de São José é o de todos os pais: garantir que os filhos sejam capazes de acrescentar valor à vida, pessoal, familiar, social. Durante 30/34 anos, Jesus ficou perto dos pais para aprender a beleza da vida, o encanto da casa. Nada do outro mundo: levantar-se, comer qualquer coisa, acompanhar o pai, trabalhar, esperar que a mãe traga o almoço, voltar ao trabalho, ajudar alguém, conversar, participar da vida da comunidade.
      
       3 - Hoje vivemos a correr. Talvez seja por isso que não mastigamos a vida. Comemos a correr. Não temos tempo para a escuta, para a partilha, para sentar à mesa e beber mais um copo. Não degustamos a presença dos outros. Um bom copo de vinho... saborear o aroma, a cor, a densidade, deixando que o vinho passe pelas papilas gustativas, engolir devagar. Assim deveria ser a vida. Se passa a correr não há oportunidade de assentar e saborear, partilhar e celebrar.
       Porém, ainda que os tempos sejam diferentes existem coordenadas que continuam válidas para que a vida e os valores se comuniquem entre gerações. Quando não se vai lá com palavras, ter-se-á que ir com a vida. Ensina-se fazendo, vivendo, testemunhando. José e Maria não mandam o filho ao Templo, vão e o filho acompanha-os. Diálogo. Amor. Respeito.
       «Filhos, obedecei a vossos pais… / E vós, pais, não exaspereis os vossos filhos, mas criai-os com a educação e correcção que vêm do Senhor» (Ef 6, 1-9). Não se caçam moscas com vinagre. Talvez com mel e com uma elevada dose de paciência. Nunca desistir. Aquele Pai, como Deus em relação a nós, nunca desiste. Há um coração, uma memória feliz, uma casa onde regressar. Aquele filho não se perdeu completamente, porque no seu coração é mais forte a ligação ao Pai. E o amor do Pai é tão imensamente grande e forte, que grita pelo filho no silêncio e nas palavras não ditas. É tão grande que não se divide pelos filhos, pois se dá por inteiro a cada um.
       4 - Os filhos não precisam de pais super-heróis, mas de pais que sejam pessoas normais, de carne e osso, que choram e riem, que brincam e que se aborrecem, que afagam e repreendem, que escutam e falam. O mais importante não é ser um pai perfeito, mas ser um pai presente, ativo, interventivo, que é amigo sem deixar de ser pai, que desafia o filho a fazer sempre melhor, mas que abraça quando a vida não segue nos carris, que alerta sem querer ter razão, afinal não é um adversário para o filho. O Pai está lá sempre. Na parábola vemo-lo a chamar a atenção do filho mais velho. Não acentua diferenças, acentua o amor, a proximidade, os laços afetivos. Respeita as decisões dos filhos. Ainda que destruído por dentro, é mais forte o amor que o liga aos filhos e o respeito pela sua liberdade.
       Enquanto está na casa de São José, Jesus toma consciência da sua condição de filho. A sua vida futura dependerá dos equilíbrios que sustentam a sua família "biológica" e saberá que os laços de amor vão mais além que os laços de sangue. E aqui, mais uma vez, sem querer forçar o texto bíblico, Jesus entende que a família se expande nos afetos, no respeito, na partilha, na vida ofertada, na procura por identificar vontades. José ter-lhe-á mostrado que era verdadeiro pai, mesmo que O não tenha carnalmente gerado. São meus familiares todos os que procurarem escutar a Palavra do Pai pondo-a em prática.
       5 - Pelos olhos de Maria, na subida ao Templo de Jerusalém, à festa da Páscoa, quando Jesus tinha 12 anos, José é um Pai cuidadoso, preocupado, cumprindo a sua missão de Pai, levando a família a celebrar uma das festas mais importantes do Judaísmo, deixando-se entrever que era o proceder habitual da família de Nazaré. José tem a responsabilidade de cuidar da esposa e do filho, da segurança na viagem e dos víveres. Maria fala-nos da sua aflição e da aflição de José, em busca do filho que se perdeu ou se encontrou no Templo.
       Pelos olhos de Jesus, na parábola do Filho Pródigo, onde se vislumbram as impressões digitais de São José como Pai de Jesus, atento, cuidadoso, que confia no filho e respeita a sua liberdade e o seu espaço, que comunica elevada dose de amor, de carinho, de proximidade, de compreensão, que está pronto a celebrar a vida com a família. Os traços que caracterizam Deus como Pai inspiram-se na figura de São José, que assume, em casa, na vida de Jesus, uma paternidade firme, trabalhadora, responsável, suficientemente próximo e amigo, atento ao crescimento de Jesus, passando-lhe pouco a pouco as responsabilidades de cuidar da casa, sem se desligar dos deveres na comunidade e na história de Israel. Um dia Jesus poderá facilmente concluir que a família é muito mais que a soma dos membros com ligações sanguíneas, mas estrutura-se, alimenta-se e fortalece-se com os laços de caridade.

Pe. Manuel Gonçalves

Textos para a Eucaristia: 2 Sam 7, 4-5a. 12-14a. 16; Rom 4, 13. 16-18. 22; Mt 1, 16. 18-21. 24a ou Lc 2, 41-51a.

Proposta de Reflexão que agora retomamos,
na página da Paróquia de Tabuaço.

Sem comentários:

Enviar um comentário