sábado, 3 de setembro de 2016

XXIII Domingo do Tempo Comum - ano C - 4/09/2016

       1 – Preferência e seguimento, humildade e despojamento. A vocação primeira do cristão é seguir Jesus. Segui-l'O amando-O antes e acima de tudo. Quanto mais próximos de Deus mais disponíveis para amarmos e servirmos os irmãos. Quanto menos tempo tivermos para Deus menor a disponibilidade para cuidarmos dos outros, com alegria e prontidão.
       A atualidade deixa-nos ansiosos e preocupados, como Marta, amiga de Jesus. Tantas são as tarefas e tão urgentes que deixamos de ter tempo para o essencial: a vida, os amigos, a família, a qualidade na relação com os outros. Para que os laços se fortaleçam precisamos de convívio, de paciência, de persistência, de tempo. Podemos sempre dizer que mais importante que a duração do tempo é a qualidade do mesmo. De certa maneira. Se temos uma agenda muito preenchida que, pelo menos, estejamos totalmente naqueles instantes que dispomos com os outros. Mas que não seja uma desculpa ou justificação para nos distrairmos da família, dos amigos ou da vida.
       A vivência do domingo, tradicionalmente dia de descanso, era uma belíssima oportunidade para promover o encontro social, cultural, religioso, familiar. O trabalho é muito importante, como realização pessoal-profissional, como ganha-pão, como transformação da sociedade e do mundo, como supressão de carências. Mas o trabalho não é tudo. É um drama para quem não tem acesso a um trabalho digno e uma condigna remuneração. Mas também é dramático quando o trabalho justifica as chatices com a família, o afastamento crónico dos filhos, a indisponibilidade para os amigos. O trabalho é para nos aproximar e nos ajudar a crescer, não é um passatempo para nos distrair das dificuldades ou dos problemas.
       2 – Quando precisares de ajuda, pede a quem está ocupado, porque arranjará sempre tempo. Não peças colaboração a quem não tem nada que fazer (por opção), pois não estará disponível. Neste sentido, também a prioridade dada a Deus não nos indisponibiliza para os outros.
       Há uma grande multidão que segue Jesus. A motivação de cada pessoa poderá ser diferente: curiosidade, à procura de um sentido para a vida, para ver um milagre, por arrastamento... Alguns regressarão a casa transformados, prontos a mudar a vida pessoal, familiar, profissional e a maneira de se relacionarem com Deus – um Amigo e não um Ser Terrível – e com os outros, em quem se pode encontrar Deus.
       O Evangelho é para todos. Se, por vezes, Jesus se dirige especificamente a uma pessoa ou a um grupo, é para que todos ouçamos. Jesus volta-se, também nós, e diz: «Se alguém vem ter comigo, e não Me preferir ao pai, à mãe, à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não pode ser meu discípulo... quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo».
       Optar não é excluir, mas dar preferência ao que realmente importa. Em todo o caso, a vida é feita de escolhas que, por sua vez, implicam renúncias, sacrifícios, gastando prevalentemente as energias e a vida na opção que fizemos. Quando não se escolhe, também se escolhe não escolher ou deixar que outros escolham ou que a vida se encarregue de nos arrastar. Assim sendo, é melhor sermos atores da nossa história que meros espectadores à espera que os outros realizem a vida por nós.
       Se decidimos ser cristãos, ajamos como cristãos, procurando agrafar a nossa vida à vida de Jesus e, como Ele, transparecer a misericórdia do Pai em tudo o que dissermos e fizermos. Não há cristãos a meio tempo ou quando dá jeito. Há cristãos por inteiro, mesmo que por vezes sobrevenha em nós a fragilidade, a limitação e o pecado. Mas maior que o nosso pecado é a misericórdia de Deus.
       3 – Neste domingo, 9 anos depois da sua morte (5 de setembro de 1997), é canonizada a Madre Teresa de Calcutá, cujo testemunho de vida transparece a entrega total a Jesus Cristo, que se refletiu no serviço aos mais pobres dos pobres. A mulher franzina, com uma coragem intrépida na luta pelos desvalidos da sociedade. Nasceu a 26 de agosto de 1910, em Skopje, na Albânia. O nome de batismo é Agnes (Inês) Ganxhe Bojaxhui. Com 18 anos vai para a Irlanda, onde se torna irmã de Loreto, cuja Ordem envia missionárias sobretudo para a Índia. Em 1928 vai finalmente para a Índia, com a missão, como as companheiras, de ensinar (geografia e religião) no colégio de St. Mary, em Entally, Calcutá, de que se tornará Diretora. Em 1946, sente a "vocação dentro da vocação", para sair ao encontro dos mais pobres dos pobres, daqueles que ninguém quer. Cerca de 2 anos depois solicita ao Vaticano a autorização para deixar a Ordem de Loreto e fundar uma nova Congregação, as Irmãs da Caridade. Até à sua morte não cessará de se entregar a Jesus Cristo no cuidado das pessoas mais desfavorecidas. Em 19 de outubro de 2003 foi beatificada por João Paulo II. Já em vida é considerada santa…
       Madre Teresa sintoniza-nos com o Evangelho: "Pela minha missão, pertenço a todo o mundo, mas o meu coração pertence a Jesus Cristo... Quando olhamos para a cruz, compreendemos a grandeza do Seu amor. Quando olhamos para a manjedoira compreendemos a ternura do Seu amor por ti e por mim, pela tua família e por cada família... Nunca estejais tristes. Sorri, pelo menos, cinco vezes por dia. Basta um sorriso, um bom-dia, um gesto de amizade. Fazei pequenas coisas com grande amor... Muitos de vós, antes de partir, vão pedir-me autógrafos. Seria melhor que vos aproximasses de um pobre e, através dele, pudésseis encontrar o autógrafo de Cristo".
       A sua entrega foi total. Não olhou nunca para trás, ainda que com dificuldades e trevas. Na oração e na intimidade com Deus forjou a coragem e a ousadia para servir os enjeitados deste mundo e destes reinos, procurando justiça, aliviando-os nos seus sofrimentos, devolvendo-os à vida, reconhecendo-os como filhos amados de Deus, fazendo-os sentir-se únicos!
       «Reza como se tudo dependesse de Deus e age como se tudo dependesse de ti... A verdadeira santidade consiste em fazer a vontade de Deus com um sorriso... É fácil sorrir às pessoas que estão fora da nossa casa. É fácil cuidar das pessoas que não se conhecem bem. É difícil ser sempre solícito e delicado e sorridente e cheio de amor em casa, com os familiares, dia após dia, especialmente quando estamos cansados e irritados. Todos nós temos momentos como estes e é precisamente então que Cristo vem ter connosco vestido de sofrimento».
       O mundo precisa de Deus. E precisa de nós para levarmos o Deus que nos habita a todos que não O conhecem ou vivem afastados d’Ele. «Eu sou um lápis nas mãos de Deus. Ele usa-me para escrever o que quer... Demo-nos conta que o que fazemos é apenas uma gota no oceano. Mas sem essa gota, faltaria alguma coisa no oceano. Não devemos pensar na quantidade, nos números. Sejamos capazes de amar uma só pessoa de cada vez, de servir uma pessoa de cada vez... Jesus é o meu tudo. A minha plenitude». O mundo inteiro para cuidar é a pessoa que precisa de mim, agora. 
       4 – Seguir e amar Jesus não nos distrai nem da vida nem dos outros, mas dá-lhe um sentido de plenitude, a certeza que a vida não se perde e que os outros são a nossa oportunidade de nos redimirmos e neles encontrarmos o próprio Deus que conta com o nosso sorriso e com a nossa ajuda. Em Cristo, Deus deixa-Se tocar, embalar, amar, perseguir, deixa-Se matar, mas nunca, nunca, nunca deixa que o Seu amor e a Sua misericórdia vacilem. O Seu poder é a Sua misericórdia infinita. A Sua grandeza está em fazer-Se pequeno, ficando do nosso tamanho, escondendo-Se entre nós. Ele vive. Podemos novamente e sempre encontra-l’O, segui-l’O, amá-l’O em cada ser humano.
       Peçamos ao Senhor que nos conceda a sabedoria para discernirmos sobre as escolhas que nos fazem escolhê-l'O, a humildade para acolhermos os Seus desígnios e a fortaleza para os cumprir. "Ensinai-nos a contar os nossos dias, para chegarmos à sabedoria do coração. Voltai, Senhor! Até quando... Tende piedade dos vossos servos. Saciai-nos desde a manhã com a vossa bondade, para nos alegrarmos e exultarmos todos os dias. Desça sobre nós a graça do Senhor nosso Deus. Confirmai, Senhor, a obra das nossas mãos".
       O Reino novo está a emergir, desde Cristo. Cabe-nos hoje a nós prosseguir com o Seu projeto de amor e de vida nova, levando a todos a esperança, fazendo com que todos se sintam parte deste sonho, para, entre avanços e recuos, nos tornarmos a Sua família.

       5 – São Paulo encontrou Jesus a caminho de Damasco. Já O perseguia sem saber, perseguindo os cristãos. "Sou Jesus, a Quem tu persegues". Finalmente os seus olhos abrem-se. Deixa tudo. A sua sabedoria, as suas certezas, a sua terra, para seguir Jesus, anunciando-O em toda a parte, em todas as situações e circunstâncias.
       Está prisioneiro por amor de Cristo Jesus, a interceder por um escravo, que quer que seja como um irmão muito querido. Ao dirigir-se e Filémon, Paulo agradece-lhe o cuidado e a atenção, "devolvendo" Onésimo, pedindo-lhe que o trate como se se tratasse do próprio Apóstolo. Em Cristo não há livres ou escravos, homens ou mulheres, mas todos são irmãos e assim devem ser tratados.


Pe. Manuel Gonçalves




Textos para a Eucaristia (C): Sab 9, 13-19; Sl 89 (90); Flm 9b-10. 12-17; Lc 14, 25-33.

Sem comentários:

Enviar um comentário