segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Solenidade de Todos os Santos - 1 . novembro . 2016

       1 – Quando alguém espirra é comum dizer-se-lhe "santinho". Outras expressões também conhecidas: "viva", "saúde", "com Jesus Cristo cresças". Durante a peste negra quando alguém espirrava era, na maioria dos casos, o último suspiro. Desejar saúde ou vida ou felicidade era uma forma de encorajamento. Ou "santinho", pois deveria ser santo e estar nas graças de Deus para sobreviver ao espirro da morte. A resposta mais comum: "não sou". É como se fosse algo de impossível, acessível a uns poucos; outras vezes dá a sensação que ser santinho é ter uma vida insossa, direitinha, sem chama nem fogo, sem prazer nem entusiasmo.
       Os últimos Papas têm reconhecido a santidade em pessoas (ditas) normais. Havia a clara noção que para se ser santo ou se era mártir ou tinha que se viver num convento ou num mosteiro, longe das tentações do mundo e das preocupações próprias do quotidiano. Havia ainda a ideia que a santidade estava ligada à virgindade imaculada e, nesse propósito, uma pessoa casada estava fora dos eleitos à santidade. Lembro-me de na minha infância ouvir uma conversa sobre este tema, notando-se, o que só muito mais tarde percebi, a ideia que o casamento tinha algo de pecaminoso.
       O reconhecimento da santidade na vida familiar e o reconhecimento do casal como testemunhos de santidade, por exemplo, os pais de Santa Teresa do Menino, de jovens ou adultos, de um surfista ou uma médica, garante-nos que a santidade é possível. E não apenas, é também desejável. Ser santo é ser feliz, bem-aventurado, capaz de assumir a sua identidade primeira, amar e acolher o amor do outro, porque primeiro Deus nos amou.
       2 – Há pessoas à nossa volta que pela simplicidade de vida, pela alegria que irradiam, pelo bem que fazem, pela paz que comunicam, pela disponibilidade com que ajudam os outros, pela prontidão com que se dão, transparecem o sorriso e a misericórdia de Deus.
       Um dos primeiros aspetos sublinhados pelo nosso Bispo, D. António Couto, na Carta Pastoral para o ano de 2016-2017, é a necessidade e a urgência dos cristãos serem transparência e testemunhas de Jesus Cristo. Discípulos missionários e não apenas animadores ou transmissores do Evangelho. A identidade do cristão passa por viver em Cristo, alimentando-se da Sua Palavra e dos Sacramentos pelos quais Ele continua a agir no nosso mundo, cuidando d'Ele na pessoa dos mais necessitados de pão e de amor.
       A santidade de vida começa no tempo presente. Não apenas na hora da morte ou na eternidade. É aqui que nos preparamos, nos treinamos e iniciamos a vida como ressuscitados em Jesus Cristo, a partir do Sacramento do Batismo. Mergulhamos na Sua morte, para com Ele ressuscitarmos e vivermos como ressuscitados.
       São João na sua primeira missiva sublinha isso mesmo: "Caríssimos, agora somos filhos de Deus e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Mas sabemos que, na altura em que se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porque O veremos tal como Ele é. Todo aquele que tem n’Ele esta esperança purifica-se a si mesmo, para ser puro, como Ele é puro".
       Se vivemos já a esperança da ressurreição futura, onde seremos semelhantes a Ele, é tempo de nos purificarmos, isto é, de vivermos assumindo os Seus passos, o Seu mandato: "Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei".

       3 – A vivência do Evangelho, o seguimento de Jesus Cristo, não é coisa do passado, não é para um grupo de elite ou para uma geração de pessoas mais idosas. É para todos, em todo o tempo, em toda a parte. É possível que no passado as comunidades dessem a ideia de uma maior vivência do cristianismo, mas sabemos também que muitas vezes era pelo medo infligido, pela superstição, pela imposição social, pois todos iam à Missa, todos se confessavam pelo menos na "desobriga", todos comungavam ao menos uma vez ao ano, todos casavam pela Igreja e se alguém não ia e não seguia o padrão era olhado de lado e falado abertamente.
       As comunidades cristãs estão mais frágeis? Talvez. Não há tanta regularidade? É possível.
       Por um lado, o compromisso com a comunidade parece mais esbatido e menos "obrigatório", correspondendo à tendência cultural e social do tempo. Primeiro há que atender às necessidades pessoais, resolver os problemas caseiros e a vida em família, tratar da profissão e, então e se ainda houver tempo, vamos à Missa ou a outras atividades pastorais que a Igreja proponha. Esquecemos que também somos Igreja, somos membros deste Corpo de Cristo, onde todos somos necessários e onde a falta de um prejudica todo o corpo.
       Por outro lado, os que estão, estão mais conscientemente, sem tantos medos ou preconceitos ou pressões culturais, familiares ou sociais. Vão porque acham importante, porque se sentem bem, porque tomaram consciência da sua pertença à comunidade paroquial. Isto não significa que os pais, a família não deva incentivar os filhos e, num primeiro momento, como para a escola, não devam levá-los com eles. Pelo contrário, quando maior a consciência da pertença à comunidade, mais responsabilidade. Há pais que nunca deixam de ir, de participar. Mães que levam os filhos na barriga, ao colo, pela mão... mais tarde será mais fácil os filhos irem pelo próprio pé. Se os pais não arranjam desculpas fáceis para não ir, mas vão a todo o custo, deixando outros afazeres, é possível que os filhos tomem consciência do quão importante é a fé e a vida em comunidade.
       4 – Não é fácil ser cristão. Ser cristão não é para as elites, não é para um grupo de puros, já santos, já convertidos. Ser cristão implica-nos por inteiro, em todas as situações. Não somos cristãos apenas quando nos apetece, quando dá jeito. Mas o tempo todo. O sacramento do Batismo é indelével, isto é, transforma-nos em novas criaturas para Jesus Cristo e, com Ele e n'Ele, a favor dos outros. Estamos todos a caminho, com as nossas fragilidades, com o nosso pecado, confiando sempre na misericórdia de Deus e na Sua complacência para connosco. Por isso nos dá Jesus, o Seu Amado Filho, que Se mistura connosco e nos ensina a caminhar para o Pai, confiando, colocando o nosso olhar, o nosso coração e a nossa vida sob o olhar e a proteção de Deus.
       O caminho de Jesus é exigente. Não é uma exigência exterior, forçada, imposta. É uma exigência que decorre do seguimento. Se somos de Cristo, então ajamos como Ele. Viver em lógica de serviço e cuidado aos demais, como o último de todos, colocando os outros à frente, não é um processo fácil. Exige vigilância, consistência, insistindo uma e outra vez. É o caminho das bem-aventuranças em que nos colocamos em dinâmica de compaixão, de ternura, de caridade.
       Bem-aventurados os pobres em espírito, os humildes, os que choram, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os que promovem a paz, os que sofrem perseguição por amor da justiça. É deles o reino dos Céus, serão eles e seremos nós, a transformar, a renovar a terra e as relações entre pessoas e povos. «Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa».
       Jesus Cristo foi injuriado, julgado, morto. Os discípulos, desde a primeira hora, também o foram. E assim tem sido ao longo da história da Igreja. É, com efeito, um critério pelo qual poderemos aferir a fidelidade a Cristo na Igreja. A honestidade, o serviço, a denúncia das injustiças, da corrupção, a opção pela verdade, acarreta a perseguição e a maledicência e, muitas vezes, uma vida sacrificada. Há pessoas, em alguns países, que perdem o emprego por serem cristãos e o afirmarem publicamente. Isto acontece mesmo em países ditos do primeiro mundo. Mas é uma opção que nos realiza e nos santifica na medida em que nos agrafa a Jesus Cristo.

       5 – Com Jesus Cristo, Deus renova todas as coisas. Com a Sua morte e na Sua ressurreição, também nós fomos santificados. Ele morreu e ressuscitou por mim e por ti. Agora sou eu e tu, somos nós, que devemos morrer/viver pelos outros, não em substituição, mas em serviço, cuidado, dedicação. Há mais alegria em dar do que em receber. A santidade é o caminho de todo aquele que quer imitar Jesus Cristo. A santidade é esta capacidade, esta disponibilidade, de vivermos como pessoas, levando a sério a nossa humanidade e na certeza que o bem que fizermos também nos beneficia. Procurar ser santo é procurar ser feliz. E só somos verdadeiramente felizes com os outros.


Pe. Manuel Gonçalves




Textos para a Eucaristia (C): Ap 7, 2-4. 9-14; Sl 23 (24); 1 Jo 3, 1-3; Mt 5, 1-12a.

...serás feliz por eles não terem com que retribuir-te

        Disse Jesus a um dos principais fariseus, que O tinha convidado para uma refeição: «Quando ofereceres um almoço ou um jantar, não convides os teus amigos nem os teus irmãos, nem os teus parentes nem os teus vizinhos ricos, não seja que eles por sua vez te convidem e assim serás retribuído. Mas quando ofereceres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te: ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos» (Lc 14, 12-14).
        A recomendação de Jesus para hoje aposta, e uma vez mais, na radicalidade própria do Evangelho. Os almoços e jantares sociais podem ser oportunidade de aproximação e de enriquecimento humano, estreitando laços. Mas por vezes não passam de momentos de adulação, à espera da paga igual ou superior. Também aqui a afirmação "não há almoços grátis" tem algum sentido, quando o convite visa uma compensação posterior ou outro convite, ou alguma coisa em troca.
       Jesus desafia à partilha com os que têm mais necessidade, os mais frágeis e os mais pobres. Dar sem esperar nada em troca que não seja a alegria por ajudar alguém a ser um pouco mais feliz e a viver mais dignamente. Na linha do que escutávamos ontem no evangelho, não devemos fazer as coisas apenas para sermos vistos pelos outros, mas pelo bem em si mesmo, pela certeza de que concretizámos a nossa identidade cristã.
       À mesa de Jesus todos têm lugar...

domingo, 30 de outubro de 2016

VL – A graça do palhaço – 3

       A graciosidade do palhaço é tanto maior quanto mais se entrega, quando mais se dá aos outros. A sua graça depende da resposta do público, das pessoas para quem atua.
       Ele tem a preocupação de pôr a audiência a rir. E nada melhor que expor os seus próprios problemas. Procurar o palhaço que há em si mesmo, descobrir-se com as suas inseguranças e medos, com as suas debilidades e angústias. A verdade entra na equação. Quanto mais autêntico, quanto mais ele mesmo, apanhado em flagrante delito de debilidade, mais gracioso será. A arte de ser palhaço engloba toda a sua vida, fazendo sobressair a inocência que existe no mais fundo de si mesmo. Aceita o fracasso, o seu fracasso, para promover o outro, colocando o espectador em estado de superioridade. “Através desse fracasso, o palhaço revela a sua profunda natureza humana que nos emociona e nos faz rir” (Cristina Moreira).
       Com o palhaço aprendemos a ser para os outros e com os outros. O palhaço tem um contacto direto com o público, está sob o olhar dos outros. Não se faz palhaço diante do público. Atua com o público, interage com todas as pessoas do público e as reações das mesmas influenciam a sua atuação. 
       Com efeito, “o importante não é o palhaço em si mesmo. O essencial é o olhar que recebe dos outros a quem dedica a sua vida”, procurando “converter o pesado em leve, o amargo em doce, o oculto em verdadeiro… Deve buscar para a sua personagem um estado de inocência, de frescura, de ingenuidade, de onde olhar a vida… é um peregrino que segue uma estrela, que crê na sua verdade e se sente solvente em comunicar-se na mensagem…”
       Tal como o palhaço também nós queremos ser reconhecidos, amados, queridos…
       O palhaço conta-se a si mesmo. Por isso a sua vida interior tem tanto que ver com a sua atuação. “O palhaço não existe separado do autor que o interpreta. Todos somos palhaços, todos nos julgamos bonitos, inteligentes e fortes, mas na realidade, cada um de nós tem as suas debilidades, o nosso lado ridículo, que, quando se manifesta, fazem rir”.
       Ele, como nós, busca o amor de alguém, o reconhecimento do público. O que faz é para agradar, para divertir as pessoas. Incorpora, por imitação, tudo o que admira e reprodu-lo com afeto. A ilusão de superar as limitações do tempo e do espaço, com criatividade e imaginação. Faz-nos desejar pertencer a um mundo melhor… 

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4383, de 18 de outubro de 2016

sábado, 29 de outubro de 2016

XXXI Domingo do Tempo Comum - ano C - 30/10/2016

       1 – Um publicano a rezar no Templo, colocando-se diante de Deus, despido de qualquer presunção ou pretensão, certo da misericórdia de Deus. Apresenta-se transparente e disponível para deixar que Deus o transforme. É a atitude do discípulo de Cristo. O discípulo é aquele que se predispõe a amadurecer, a crescer como pessoa, aperfeiçoando as arestas que ainda magoam os outros, pela indiferença ou pelos gestos de maldade, injustiça, violência.
       Hoje o Evangelho mostra-nos outro modelo de discípulo. Zaqueu, o homem de vistas curtas, de estatura baixa, que não vê além do seu nariz, do seu umbigo. Mas chega um dia em que se sente impelido a ver e conhecer Jesus. Dois fatores o impedem de chegar perto de Jesus. O primeiro tem a ver sua pequena estatura. Já deu o primeiro passo: a decisão de ver Jesus. O outro obstáculo é a multidão. A multidão, na qual também nos encontramos, pode ajudar a encontrar Jesus, apontando para Ele, mas pode também impedir que alguém se aproxime de Jesus, mantendo-se compacta e barrando a passagem.
       Em que situações a multidão impede de ver Jesus?
       Em que situações a multidão ajuda a encontrar Jesus?
       São duas questões que devemos colocar-nos. Sabemos que a vivência da fé, a coerência de vida, o testemunho, o cuidado com os mais frágeis, pode levar outros a querer estar perto de Jesus e a desfrutar da mesma fé e do mesmo compromisso. O inverso manifesta-se quando a vida concreta contradiz abertamente a fé professada. O nosso intento será sempre, reconhecendo o nosso pecado, procurar o mais possível a identificação a Jesus Cristo.
       2 – Quando queremos alguma coisa, de verdade, vamos atrás. Insistimos, uma e outra vez. Não desistimos à primeira. Procuramos os meios, as pessoas, os instrumentos para obtermos o que desejamos. Zaqueu decidiu ver Jesus. Não apenas avistá-l'O à distância, mas vê-l'O de perto, deixar-se ver por Ele. Também aqui a multidão teve uma influência positiva. Zaqueu ouviu falar de Jesus. Terá ouvido muitas coisas acerca do Mestre da Docilidade. Como chefe de publicanos, cobradores de impostos odiados por toda a gente, foi ouvindo o que se dizia acerca de Jesus: um Profeta que anuncia um reino novo, um tempo novo, uma nova maneira das pessoas se relacionarem. As palavras e os prodígios, a mensagem e a Sua postura. A alternativa: um subversivo, um revolucionário, um lunático. Das informações recolhidas, um desejo forte de encontrar-se pessoalmente com Jesus, confirmando com os próprios olhos o que ouvira dizer. Não basta o que ouvimos dizer, é necessário o encontro com Jesus.
       "Então correu mais à frente e subiu a um sicómoro, para ver Jesus, que havia de passar por ali". Colocado num lugar estratégico, para ver sem ser visto. Mas antes de ver, já Jesus, chegado ao local, o vê e o chama: «Zaqueu, desce depressa, que Eu hoje devo ficar em tua casa». Atónito e surpreendido, logo desce e com alegria recebe Jesus em sua casa. Não há tempo para perguntas e para porquês. Agora é o tempo da conversão. A conversão iniciara-se com o desejo de ver Jesus e completa-se com o acolhimento alegre a Jesus.
       O discípulo torna-se missionário. «Senhor, vou dar aos pobres metade dos meus bens e, se causei qualquer prejuízo a alguém, restituirei quatro vezes mais». A alegria do encontro com Jesus provoca compromisso e mudança de vida. Zaqueu só precisou de um lampejo de luz para se abrir à misericórdia de Deus, que se manifesta e age em Jesus. Doravante a postura de Zaqueu não mais será a mesma.
       3 – Somos responsáveis uns pelos outros. A desresponsabilização pelo próximo é pecado que fere os outros e que brada aos Céus. Deus pergunta a Caim sobre o seu irmão e ele responde-Lhe – acaso sou guarda do meu irmão? Contradiz a fraternidade original e a vontade de Deus. No Evangelho Jesus reporá o mandamento: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei. Não há maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos. Jesus não demonstra o amor, mostra-o ao entregar-Se por nós.
       Como relembra o Principezinho, somos responsáveis por aqueles que cativamos. E devemos cativar e cuidar de cada pessoa, de todas as pessoas, da pessoa que está à minha beira, pois foi-me enviada por Deus. É a presença de Deus no meio de nós. Quero encontrar Deus? Queres encontrar-te com Deus? O próximo é a resposta! Cuidar de quem precisa de mim e de ti, de quem precisa de nós. Fazermo-nos próximos para ajudar. Esta é a via para chegar a Deus.
       Não há outra forma. Deus deixa-Se ver, tocar, prender, abraçar em cada pessoa. Não podes, lembra São Tiago, fazer juras de amor a Deus, que não vês, se desprezas os outros que vês, em quem podes ver Deus. Deus não Se manteve e não Se mantém distante de nós. Em Jesus Cristo, Deus encarnou, assumiu a nossa natureza humana. A fragilidade e o pecado foram tocados e redimidos pela carne de Jesus Cristo. Encarnou. Viveu. Morreu. Ressuscitou. Ascendeu para Deus Pai. Mas não nos deixa órfãos, dá-nos o Espírito Santo, que acende em nós a chama do amor e nos ilumina tornando Cristo visível na Palavra proclamada, nos Sacramentos celebrados, nas pessoas encontráveis no nosso peregrinar.
       Aquela multidão que vê Jesus a entrar em casa de Zaqueu – o chefe de publicanos, odiado pela profissão que exerce, concluindo-se que pertencia àqueles que usam e abusam do cargo –, não fica convencida: «Foi hospedar-Se em casa dum pecador». Jesus não percebe. É ingénuo. Como vai logo hospedar-se em casa de uma pessoa assim?! A resposta de Jesus vem mais à frente: «Hoje entrou a salvação nesta casa, porque Zaqueu também é filho de Abraão. Com efeito, o Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido». Também aqui se pode ver a intuição da parábola do Pai Misericordioso: "este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado".
       A vinda de Jesus ao mundo tem um propósito firme: que n'Ele todos descubram Deus e se deixem salvar pelo Seu amor. Por conseguinte, cabe-nos hoje mostrar Deus aos nossos contemporâneos, transparecendo-O nas palavras e nos gestos, com a voz e com a vida.

       4 – Maior que o nosso pecado é a misericórdia e a complacência de Deus. A humildade faz-nos mirar ao espelho, não para nos vermos, mas para vermos o quanto Deus nos ama. Víamos na semana passada que a oração do pobre sobe ao céu, a oração do fariseu traz-lhe a justificação de Deus. A prepotência e a soberba condenam-nos a girar em torno do nosso umbigo, acabando zonzos, acabando por cair no vazio e na solidão…
       "Diante de Vós, Senhor, o mundo inteiro é como um grão de areia na balança, como a gota de orvalho que de manhã cai sobre a terra. De todos Vos compadeceis e não olhais para os seus pecados... Vós amais tudo o que existe... A todos perdoais, porque tudo é vosso, Senhor, que amais a vida. O vosso espírito incorruptível está em todas as coisas. Por isso castigais brandamente aqueles que caem e advertis os que pecam, recordando-lhes os seus pecados, para que se afastem do mal e acreditem em Vós, Senhor".
       O livro da Sabedoria deixa vir ao de cima a misericórdia de Deus. Do mesmo jeito o Salmo nos ensina a compaixão e a bondade de Deus: "O Senhor é clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade. O Senhor é bom para com todos e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas. O Senhor é fiel à sua palavra e perfeito em todas as suas obras. O Senhor ampara os que vacilam e levanta todos os oprimidos".

       5 – E porque sabemos que Deus nos atende, suplicamos-Lhe que nos faça caminhar sem obstáculos para os bens por Ele prometidos, ou para aprendermos, com a sabedoria do coração, a fazer com que as dificuldades sejam oportunidades para fortalecer a nossa fé e a nossa confiança em Deus. Por outro lado, a oração previne-nos contra os falsos profetas, comprometendo-nos com o tempo presente, com o mundo atual, sabendo que Deus nos envia em missão, a missão de espalhar a fé e a esperança, através da prática do bem, do cuidado e do serviço a todos os que encontrarmos.
       Rezando, o Apóstolo adverte-nos contra o desespero, contra as trevas, contra aqueles que nos querem amedrontar com desgraças. "Oramos continuamente por vós, para que Deus vos considere dignos do seu chamamento e, pelo seu poder, se realizem todos os vossos bons propósitos e se confirme o trabalho da vossa fé. Assim o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo será glorificado em vós... Nós vos pedimos, irmãos, a propósito da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo e do nosso encontro com Ele: Não vos deixeis abalar facilmente nem alarmar por qualquer manifestação profética, por palavras ou por cartas, que se digam vir de nós, pretendendo que o dia do Senhor está iminente".
       Hoje como ontem, são muitos os que anunciam o fim do mundo, com imensos sinais destrutivos, numa crescente cultura da morte. Porém, adverte-nos o apóstolo, cabe-nos irradiar a cultura da vida, perseverando, lutando pela justiça e pela verdade, na certeza que Deus vencerá.

Pe. Manuel Gonçalves

Textos para a Eucaristia (C): Sab 11, 22 – 12, 2; Sl 144 (145); 2 Tes 1, 11 – 2, 2; Lc 19, 1-10.

VL – A graça do palhaço – 2

       A D. Evinha (1924-2016), natural da Paróquia de Santa Eufémia de Pinheiros, a viver em Tabuaço, numa vida dedicada aos outros, inserida na vida pastoral da Igreja, comprometida em viver e comunicar o Evangelho, sugeriu-me várias leituras, como por exemplo de José António Pagola. Outra leitura que me aconselhou foi a “A graça do Palhaço” (La gracia en el clown) e “Os palhaços” (Los clowns). Deixamos para a discussão académia as diferenças que podem ser estabelecidas entre “palhaços” e “clowns” (termo inglês, numa evocação mais erudita).
       A autora é docente de teatro, Cristina Moreira, oriunda da Argentina, bailarina e atriz, tendo-se fixado na Europa, integrando companhias de teatro, escrevendo peças… O seminário dedicado aos palhaços é o mais festivo. O objetivo do palhaço é fazer rir o público. Começa aqui o ensinamento para cada um de nós. Ser palhaço para os outros. Agir pelos outros. Fazer rir está intimamente ligado ao amor. Exige muito, exige tudo do palhaço, entrega intensa que se sujeita a ser aceite ou recusado. Com docilidade o palhaço procura construir uma relação com o público. “O amor está implícito no desejo de comunicar a alegria de estar com os outros… a graça emana da entrega espiritual ao outro”.
       Um ator representa, seguindo um guião. O palhaço representa-se. Ele procura reconstruir a partir de si uma nova personagem. Elabora o seu guião interagindo com a sua audiência. Ao longo do processo vai aprimorando a sua habilidade, o seu carácter, a sua fisionomia. Não é a vestimenta, a caracterização física que distingue os palhaços, mas a capacidade de mostrar-se com as próprias fraquezas, oferecendo-se à audiência, sempre num prisma de humildade. Serve os demais, sujeita-se aos seus juízos e, o que preparou com esmero, pode falhar.
       Sublinha a autora que “a graça no intérprete nasce do reconhecimento da própria limitação, de um estado de humildade diante do verdadeiramente eterno. No momento em que o homem se pode rir de si mesmo, não se levando a sério… encontra um estilo solto para olhar a sua vida. Esta liberdade permite-lhe fazer rir os demais”.
       O palhaço avança a partir do nada, que é muito, que é tudo, avança a partir do seu interior, dando o melhor de si, expondo-se, colocando a nu as suas inseguranças, os seus medos, procurando ultrapassar os seus dilemas. O palhaço é um homem real com os seus contratempos. Dessa forma se sintoniza com o seu público, com as suas debilidades, desafiando-os a rir-se de si mesmos, levantando-se para a luta.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4382, de 11 de outubro de 2016

Num banquete nupcial não tomes o primeiro lugar...

       Jesus entrou, num sábado, em casa de um dos principais fariseus para tomar uma refeição. Todos O observavam. Ao notar como os convidados escolhiam os primeiros lugares, Jesus disse-lhes esta parábola: «Quando fores convidado para um banquete nupcial, não tomes o primeiro lugar. Pode acontecer que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu; então, aquele que vos convidou a ambos, terá que te dizer: ‘Dá o lugar a este’; e ficarás depois envergonhado, se tiveres de ocupar o último lugar. Por isso, quando fores convidado, vai sentar-te no último lugar; e quando vier aquele que te convidou, dirá: ‘Amigo, sobe mais para cima’; ficarás então honrado aos olhos dos outros convidados. Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado» (Lc 14, 1.7-11 )
       Jesus toma uma refeição em casa de um dos principais fariseus e observa como alguns procuram o primeiro lugar, para estar mais perto do anfitrião, para serem servidos em primeiro lugar, para serem vistos por todos. Jesus aproveita, uma vez mais, a ocasião, para intervir ensinando. O discípulo não é o que ocupa o primeiro lugar, o discípulo é aquele que serve, que ama, que se humilha para ajudar e cuidar dos outros.
       Bem sabemos que na atualidade, em qualquer banquete, esta questão já não se coloca, pois os anfitriões previamente destinam os lugares, precisamente para evitar constrangimentos na hora de escolher os lugares. Podem gostar ou não gostar do sítio onde foram colocados, mas pelo menos não se cria um mau ambiente entre convidados.
       Seja como for, Jesus caracteriza uma vez mais a atitude e identidade do discípulo. Aquele que serve, que não precisa de exibições ou de aparências, mas dá prioridade à relação com os outros, atendendo-os nas suas necessidades.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

VL – A graça do palhaço – 1

       A conversa é como as cerejas. Começa e não sabemos quando acaba. Esta reflexão será um pouco assim. Por estes dias (1 de outubro) foi a sepultar na Paróquia de Santa Eufémia de Pinheiros, a D. Evinha, de onde era natural, a viver na Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Tabuaço há mais de uma década. É daquelas pessoas que marcam um tempo, criam um espaço de afetos e de luz, deixam um rasto de bondade, de alegria e simplicidade.
       A D. Evinha era cidadã do mundo, cristã em todos os momentos. Na Escola Diocesana de Formação Social acentuou um caminho de compromisso em Igreja que passou agora para a eternidade de Deus. Dos tempos da Ação Católica, as ganas de viver, de renovar a vida eclesial, com o Vaticano II, a sede de Deus e as novidades que iam chegando do Concílio. A formação superior na área da ação social, a passagem pelo ministério do trabalho e da solidariedade social, onde poderia fazer carreira, tendo optado por ajudar na promoção de outros, no país do Estado Novo e nos tempos da revolução, as reuniões cuidadosas para evitar a prisão de pais e mães de família, da aldeia à cidade, do norte à capital, ao Alentejo e ao Algarve, a vida consagrada no instituto de vida secular, com forte implantação em Espanha e na Améria Latina, o trabalho missionário/social/humano no Brasil e nos países vizinhos, dormindo em esteiras, comendo frugalmente, o contacto com a Teologia da Libertação e a perceção que a fé tem que estar ao lado dos mais pobres, dando-lhes ferramentas para que possam gerir as suas vidas…
       Regressada do Brasil, fixando-se definitivamente em terras de Tabuaço, nunca desistiu de se empenhar, participando onde era necessário, na Igreja e na vida social e cultural. Sempre disponível, para mais oração, para mais formação, das crianças aos jovens e aos adultos, aos mais idosos, na catequese, nos grupos de jovens, como ministra extraordinária da comunhão, na vivência do Natal, da Páscoa, a cantar as Boas Festas, a visitar doentes, a dar conselhos com a delicadeza de uma mãe, preparando jovens para o crisma, intervindo nos tempos de formação, escrevendo, partilhando a vida, gastando-se… sempre ligada à vida da Igreja, sempre sintonizada com os sinais dos tempos.
       Como Pároco pude usufruir da sua amizade e dos seus conselhos, da sua ajuda e das suas sugestões. Uma das sugestões, no início no meu ministério sacerdotal: as homilias deveriam terminar sempre de forma positiva, para que fosse autêntico o “assim seja”…

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4381, de 4 de outubro de 2016

São Simão e São Judas, Apóstolos

       O nome de Simão figura em undécimo lugar na lista dos Apóstolos. Dele se sabe apenas que nasceu em Caná e que tinha o denominativo de «Zelotes».
       Judas, de sobrenome Tadeu, é o Apóstolo que na Última Ceia perguntou ao Senhor por que razão Se manifestava aos seus discípulos e não ao mundo (Jo 14, 22).

       "Já não sois estrangeiros nem hóspedes, mas sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o alicerce dos Apóstolos e dos Profetas, que tem Cristo como pedra angular. Em Cristo, toda a construção, bem ajustada, cresce para formar um templo santo do Senhor; e em união com Ele, também vós sois integrados na construção, para vos tornardes, no Espírito Santo, morada de Deus" (Ef 2, 19-22).

       Este texto da Epístola aos Efésios, proposto na festa dos Apóstolos São Simão e São Judas, remete-nos para a família de Deus a que pertencemos, pelo Baptismo. Já não somos estrangeiros, somos filhos, pertencemos ao Senhor. O nosso nome já nos fala desta pertença e desta identidade, cristãos, isto é, de Cristo. Se nos configurarmos a Ele, então contribuiremos para edificar no bem, e nos tornarmos morada de Deus.

Oração de Coleta:
Deus de infinita misericórdia, que nos fizestes chegar ao conhecimento do vosso nome por meio dos bem-aventurados Apóstolos, concedei-nos, por intercessão de São Simão e São Judas, que a vossa Igreja cresça continuamente com a conversão dos povos ao Evangelho. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
REFLEXÃO de BENTO XVI sobre estes dois apóstolos:

Simão o Cananeu e Judas Tadeu

Queridos irmãos e irmãs!
Hoje tomamos em consideração dois dos doze Apóstolos: Simão o Cananeu e Judas Tadeu (que não se deve confundir com Judas Iscariotes). Consideramo-los juntos, não só porque nas listas dos Doze são sempre mencionados um ao lado do outro (cf. Mt 10, 4; Mc 3, 18; Lc 6, 15; Act 1, 13), mas também porque as notícias que a eles se referem não são muitas, excepto o facto que o Cânon neotestamentário conserva uma carta atribuída a Judas Tadeu.
Simão recebe um epíteto que varia nas quatro listas: Mateus qualifica-o como "cananeu", Lucas define-o "zelote". Na realidade, as duas qualificações equivalem-se, porque significam a mesma coisa: na língua hebraica, de facto, o verbo qanà' significa "ser zeloso", "dedicado" e pode referir-se quer a Deus, porque é zeloso do povo por ele escolhido (cf. Êx 20, 5), quer a homens que são zelosos no serviço a Deus único com dedicação total, como Elias (cf. 1 Rs 19, 10). Portanto, é possível que este Simão, se não pertencia exactamente ao movimento nacionalista dos Zelotes, tivesse pelo menos como característica um fervoroso zelo pela identidade judaica, por conseguinte, por Deus, pelo seu povo e pela Lei divina. Sendo assim, Simão coloca-se no antípoda de Mateus, que ao contrário, sendo publicano, provinha de uma actividade considerada totalmente impura.
Sinal evidente que Jesus chama os seus discípulos e colaboradores das camadas sociais e religiosas mais diversas, sem exclusão alguma. Ele interessa-se pelas pessoas, não pelas categorias sociais ou pelas actividades! E o mais belo é que no grupo dos seus seguidores, todos, mesmo se diversos, coexistiam, superando as inimagináveis dificuldades: de facto, era o próprio Jesus o motivo de coesão, no qual todos se reencontravam unidos. Isto constitui claramente uma lição para nós, com frequência propensos a realçar as diferenças e talvez as contraposições, esquecendo que em Jesus Cristo nos é dada a força para superar os nossos conflitos. Tenhamos também presente que o grupo dos Doze é a prefiguração da Igreja, na qual devem ter espaço todos os carismas, os povos, as raças, todas as qualidades humanas, que encontram a sua composição e a sua unidade na comunhão com Jesus.
No que se refere depois a Judas Tadeu, ele é chamado assim pela tradição, unindo ao mesmo tempo dois nomes diferentes: de facto, enquanto Mateus e Marcos o chamam simplesmente "Tadeu" (Mt 10, 3; Mc 3, 18), Lucas chama-o "Judas de Tiago" (Lc 6, 16; Act 1, 13). O sobrenome Tadeu tem uma derivação incerta e é explicado ou como proveniente do aramaico taddà', que significa "peito" e, por conseguinte, significaria "magnânimo", ou como abreviação de um nome grego como "Teodoro, Teódoto". Dele são transmitidas poucas coisas. Só João assinala um seu pedido feito a Jesus durante a Última Ceia. Diz Tadeu ao Senhor: "Senhor, como aconteceu que te deves manifestar a nós e não ao mundo?". É uma pergunta de grande atualidade, que também nós fazemos ao Senhor: porque o Ressuscitado não se manifestou em toda a sua glória aos seus adversários para mostrar que o vencedor é Deus? Por que se manifestou só aos Discípulos? A resposta de Jesus é misteriosa e profunda. O Senhor diz: "Se alguém me tem amor, há-de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada" (Jo 14, 22-23). Isto significa que o Ressuscitado deve ser visto, sentido também com o coração, de modo que Deus possa habitar em nós. O Senhor não se mostra como uma coisa. Ele quer entrar na nossa vida e por isso a sua manifestação é uma manifestação que exige e pressupõe o coração aberto. Só assim vemos o Ressuscitado.
Foi atribuída a Judas Tadeu a paternidade de uma das Cartas do Novo Testamento, que são chamadas "católicas" porque não se destinam a uma determinada Igreja local, mas a um círculo muito amplo de destinatários. De facto, ele dirige-se "aos eleitos amados por Deus Pai e guardados para Jesus Cristo" (v. 1). A preocupação central deste escrito é advertir os cristãos de todos os que, com o pretexto da graça de Deus, desculpam a própria devassidão e para desviar outros irmãos com ensinamentos inaceitáveis, introduzindo divisões dentro da Igreja "deixando-se levar pelo seu delírio" (v. 8), assim define Judas estas suas doutrinas e ideias especiais. Ele compara-os inclusivamente aos anjos caídos, e com palavras fortes diz que "seguiram pelo caminho de Caim" (v. 11). Além disso classifica-os sem reticências como "nuvens sem água que os ventos levam; árvores de outono sem fruto, duas vezes mortas, desarraigadas; ondas furiosas do mar que repelem a espuma da sua torpeza; estrelas errantes condenadas à negrura das trevas eternas" (vv. 12-13).
Talvez hoje nós já não estejamos habituados a usar uma linguagem tão polémica, que contudo nos diz uma coisa importante. No meio de todas as tentações que existem, com todas as correntes da vida moderna, devemos conservar a identidade da nossa fé. Certamente, o caminho da indulgência e do diálogo, que o Concílio Vaticano II felizmente empreendeu, deve ser sem dúvida prosseguida com uma constância firme. Mas este caminho do diálogo, tão necessário, não deve fazer esquecer o dever de reconsiderar e de evidenciar sempre com igual força as linhas-mestras e irrenunciáveis da nossa identidade cristã. Por outro lado, é necessário ter bem presente que esta nossa identidade exige força, clareza e coragem face às contradições do mundo em que vivemos. Por isso o texto epistolar prossegue assim: "Mas vós, caríssimos, fala a todos nós mantende-vos no amor de Deus, esperando que a misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo vos conceda a vida eterna. Tratai com misericórdia aqueles que vacilam..." (vv. 20-22). A Carta conclui-se com estas bonitas palavras: "Àquele que é poderoso para vos livrar das quedas e vos apresentar diante da sua glória, imaculados e cheios de alegria, ao Deus único, nosso Salvador, por meio de Jesus Cristo, Senhor nosso, seja dada glória, a majestade, a soberania e o poder, antes de todos os tempos, agora e por todos os séculos, Amém" (vv. 24-25).
Vê-se bem que o autor destas frases vive plenamente a própria fé, à qual pertencem realidades grandes como a integridade moral e a alegria, a confiança e por fim o louvor, sendo motivado em tudo apenas pela bondade do nosso único Deus e pela misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso, tanto Simão o Cananeu, como Judas Tadeu nos ajudam a redescobrir sempre de novo e a viver incansavelmente a beleza da fé cristã, sabendo dar um testemunho dela forte e ao mesmo tempo sereno.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

VL – Santa Mãe dos Pobres

       Madre Teresa de Calcutá nasceu a 26 de agosto de 1910, em Skopje, na Albânia. O nome de batismo é Agnes (Inês). Com 18 anos foi para a Irlanda, tornando-se irmã de Loreto. Em 1928 foi para a Índia, a fim de ensinar (geografia e religião) no colégio de St. Mary, em Entally, Calcutá. Em 1946, sente a "vocação dentro da vocação", para sair ao encontro dos mais pobres dos pobres, daqueles que ninguém quer. Pouco depois solicita ao Vaticano autorização para fundar uma nova Congregação, as Irmãs da Caridade. Até à sua morte entregar-se-á inteiramente a Jesus Cristo no cuidado dos mais desfavorecidos.
       Beatificada por João Paulo II em 19 de outubro de 2003.
       Canonizada por Francisco em 4 de setembro de 2016.
       Partindo de Cristo… "Pela minha missão, pertenço a todo o mundo, mas o meu coração pertence a Jesus Cristo... Quando olhamos para a cruz, compreendemos a grandeza do Seu amor. Quando olhamos para a manjedoira compreendemos a ternura do Seu amor por ti e por mim, pela tua família e por cada família... Nunca estejais tristes. Sorri, pelo menos, cinco vezes por dia. Basta um sorriso, um bom-dia, um gesto de amizade. Fazei pequenas coisas com grande amor... Muitos de vós, antes de partir, vão pedir-me autógrafos. Seria melhor que vos aproximasses de um pobre e, através dele, pudésseis encontrar o autógrafo de Cristo".
       Na oração e na intimidade com Deus, a ousadia para servir os enjeitados deste mundo. «Reza como se tudo dependesse de Deus e age como se tudo dependesse de ti... A verdadeira santidade consiste em fazer a vontade de Deus com um sorriso... É fácil sorrir às pessoas que estão fora da nossa casa. É fácil cuidar das pessoas que não se conhecem bem. É difícil ser sempre solícito e delicado e sorridente e cheio de amor em casa, com os familiares, dia após dia, especialmente quando estamos cansados e irritados. Todos nós temos momentos como estes e é precisamente então que Cristo vem ter connosco vestido de sofrimento».
       O mundo precisa de Deus. E precisa de nós para levarmos Deus aos mais pobres. «Eu sou um lápis nas mãos de Deus. Ele usa-me para escrever o que quer... Demo-nos conta que o que fazemos é apenas uma gota no oceano. Mas sem essa gota, faltaria alguma coisa no oceano. Sejamos capazes de amar uma só pessoa de cada vez, de servir uma pessoa de cada vez... Jesus é o meu tudo. A minha plenitude».

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4377, de 6 de setembro de 2016

... como a galinha recolhe os pintainhos...

        Naquele dia, aproximaram-se alguns fariseus, que disseram a Jesus: «Vai-te daqui, porque Herodes quer matar-te». Jesus respondeu-lhes: «Ide dizer a essa raposa: Eu expulso demónios e realizo curas hoje e amanhã; ao terceiro dia chego ao meu fim. Mas hoje, amanhã e depois de amanhã, devo seguir o meu caminho, porque não é possível que um profeta morra fora de Jerusalém. Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados, quantas vezes Eu quis reunir os teus filhos, como a galinha recolhe os pintainhos debaixo das suas asas! Mas vós não quisestes. Pois bem. A vossa casa vai ficar abandonada. E Eu vos digo: Não voltareis a ver-Me, até chegar o dia em que direis: ‘Bendito o que vem em nome do Senhor!’». (Lc 13, 31-35).
       Alguém avisa Jesus de que Herodes pretende matá-l'O e que é melhor abandonar a cidade. A resposta de Jesus é firme e como planeado permanecerá na cidade três dias. Aproveita também a ocasião para profetizar sobre a cidade de Jerusalém, como aviso e como desafio à conversão. Os seus habitantes tiveram muitos sinais. Deus permaneceu sempre próximo, na "espera" para que os filhos pudessem ser reunidos.
       O último aviso é mais uma oportunidade, radicada na esperança. Voltareis a ver-me no dia em que direis "bendito o que vem em nome do Senhor".

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Espaço Pastoral acolhe o Diogo Martinho

       Natural de Cutelo, Gosende, concelho de Castro Daire, o Diogo Martinho, de 22 anos, no 5.º Ano do curso de Teologia, a frequentar o Seminário Maior de Lamego, estará connosco, neste espaço pastoral que engloba as paróquias a mim (Pe. Manuel Gonçalves) confiadas, Tabuaço, Pinheiros, Távora e Carrazedo.
       Estará connosco aos fins de semana para ver, observar, ajudar e nos enriquecer com a sua presença.
       Acolhemo-lo no dia 15 de outubro, começando por se apresentar nas diferentes paróquias e em momentos diversos, nos ensaios do grupo coral infanto-juvenil, na catequese, na Missa vespertina, em Tabuaço, seguindo para a Eucaristia vespertina na Paróquia de São Salvador de Carrazedo. À noite, jantar com membros dos diferentes grupos da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição. O dia 16 foi preenchido pela participação nas Eucaristias das paróquias de São João Batista de Távora e de Nossa Senhora da Conceição de Tabuaço, na bênção-inauguração da Ampliação e requalificação do Quartel dos Bombeiros Voluntários de Tabuaço e, no início da tarde, na Eucaristia na Paróquia de Santa Eufémia de Pinheiros.


Para outras fotos visite a página da Paróquia de Tabuaço no Facebook

VL – O amor afasta o temor (Santa Faustina)

       Imaginemos um pai severo, com muitas regras e castigos. Tão distante dos filhos que se faz respeitar pelo medo. Basta um olhar! E se for preciso desapertar a fivela do cinto...
       Imaginemos um pai compreensivo, dialogante, carinhoso com os filhos, estabelece regras explica-as, negoceia fronteiras e limites...
       Passados 30 anos, quais os filhos estarão mais próximos dos pais?
       Há pessoas que se atêm à religião mais pelo medo, pela presença demoníaca, pela escrupulosidade do pecado, que pelo convite acolhedor de Jesus e do Seu Evangelho de Paixão e de Misericórdia.
       O Ano Jubilar acentuou a dinâmica do amor de Deus para com a humanidade, assumido e plenizado na vida de Jesus, na Sua morte e ressurreição, e o desafio à Igreja para ser Casa da Misericórdia, assomando a beleza e a alegria da Boa Nova da redenção. 
       Há um caminho importante a fazer. O caminho de cada um – lembrando as palavras do então cardeal Ratzinger: há tantos caminhos quantas as pessoas – há de aproximar-nos de Jesus, Caminho, Verdade e Vida. Com Ele experimentamos libertação, docilidade, prontidão, serviço. Não ameaça, atemorização. Jesus não olha para o inferno mas para o Céu, para o Pai.
       Ao longo dos séculos, muitos círculos eclesiais acentuaram o medo e à ameaça. As descrições do inferno pareciam ser testemunhos de quem lá tinha estado. O inferno era garantia da nossa vida. Era preciso fazer tudo para ganhar o céu, pelo sacrifício, pela mortificação, anulando-se como pessoas e colocando-se em atitude de subserviência, à espera que à custa de tantos sofrimentos Deus pudesse compadecer-se. É o contrário, o Céu é garantia e a vida eterna está aí como dom que nos responsabiliza com os outros.
       A vida, a pregação e a oração dos cristãos há de estar preenchida com ternura e o amor de Deus. Nãos se trata de negar a doutrina da Igreja, assente nas palavras e nos gestos de Jesus. Porém, seguindo-O, veremos a bondade e a filiação amistosa com o Pai. O inferno é uma possibilidade real. Deus leva-nos a sério, respeita a nossa liberdade e o nosso não. Mas como cristãos e como Igreja vivemos do amor de Deus. Jesus procura libertar, elevar, envolver. A Cruz é a assunção do amor levado até à última gota de sangue. Com a Sua ressurreição, Jesus coloca a nossa natureza humana na glória do Pai, de onde nos atrai e desafia.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4380, de 27 de setembro de 2016

Esforçai-vos por entrar pela porta estreita

       «Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir. Uma vez que o dono da casa se levante e feche a porta, vós ficareis fora e batereis à porta, dizendo: ‘Abre-nos, senhor’; mas ele responder-vos-á: ‘Não sei donde sois’. Então começareis a dizer: ‘Comemos e bebemos contigo e tu ensinaste nas nossas praças’. Mas ele responderá: ‘Repito que não sei donde sois. Afastai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade’. Aí haverá choro e ranger de dentes, quando virdes no reino de Deus Abraão, Isaac e Jacob e todos os Profetas, e vós a serdes postos fora. Virão muitos do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa no reino de Deus. Há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos» (Lc 13, 22-30)
        A Deus nada é impossível. Ele dá-nos a salvação. Introduz-nos, por meio do Seu Filho, Jesus Cristo, na Sua comunhão, nesta vida e na eternidade. A cada um de nós cabe acolher (ou não) o projeto de vida e de amor que nos é dado. A preocupação, porém, é darmos o melhor de nós, fazermos a nossa parte, esforçarmo-nos por entrar pela porta estreita, praticar o bem, procurar a conciliação e a paz, promover a justiça, comprometermo-nos, em concreto, com os outros e com a transformação do mundo. As obras devem traduzir as nossas palavras e a nossa profissão de fé.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

VL – Um Deus bom destrói a religião?!

       A religião tem-se imposto pelo medo, pela ameaça, pela certeza de forças ocultas, poderosas, capazes de aniquilar o ser humano para sempre. Parece que quando maior o medo e o desconhecimento, maior o número dos que engrossam as fileiras da religião.
       Esta servirá para aplacar a ira dos deuses, para compensar, pelo sacrifício, as ofensas para com um deus-supremo, Juiz, Vigilante, Patrão, Todo-poderoso. 
       Será sempre mais fácil dizer que os padres destroem a religião.
       Quando se dispensam ou alteram certas tradições populares, logo as pessoas sublinham que os padres hão de destruir a religião. Bem entendido, nem seria assim tão mal, se estivermos a falar da religião assente mais nos méritos humanos do que na gratuidade da salvação de Deus oferecida a todos os homens.
       Neste ano jubilar tem-se acentuado o atributo maior de Deus, a Misericórdia, cujo Rosto é Jesus Cristo, nas palavras e nas obras, na vida e na morte, entendida como entrega até ao fim. Na Ressurreição de Jesus, a certeza do amor de Deus e da Sua misericórdia, que está acima de qualquer limitação.
       Para alguns, sublinhar demasiado a misericórdia de Deus pode levar à desconstrução da religião composta por uma série de exigências, sacrifícios, sujeita a ameaças, anúncios de cataclismos sempre e quando o ser humano não cumprir com a vontade de Deus.
       Por um lado, na Igreja como em outros movimentos religiosos, sempre que nos aproximamos do fim dos séculos ou do milénio, o medo que o mundo acabe gera mais pessoas à procura da proteção da religião. Se a ameaça termina, parece que as pessoas voltam às suas vidas e se esquecem de Deus e sobretudo se esquecem das suas obrigações com a comunidade. Poder-se-á agrafar aqui a máxima, só nos lembramos de santa Bárbara quando troveja.
       Por outro lado, Jesus Cristo destruiu efetivamente a religião passada e do passado. Aproximou-nos de Deus e fez com que Deus chegasse tão perto de nós que pudesse ser perseguido, maltratado, injuriado, e morto. Em Jesus, Deus assume as chagas da nossa fragilidade e as limitações do tempo e do espaço. Ao mesmo tempo, ultrapassa as fronteiras das religiões e do templo. Com Jesus, Deus está ao alcance da mão. É um Deus bom, misericordioso, compassivo. Mas quem disse que ternura não pode exigir e pressupor a justiça? A misericórdia de Deus acaricia-nos além do perdão dos pecados. Com efeito, o amor afasta o temor, como diz Santa Faustina no seu diário.
       No final, prender-nos-á mais o amor que o temor!

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4379, de 20 de setembro de 2016

O reino de Deus é semelhante a...

       Disse Jesus: «A que é semelhante o reino de Deus, a que hei-de compará-lo? É semelhante ao grão de mostarda que um homem tomou e lançou na sua horta. Cresceu, tornou-se árvore e as aves do céu vieram abrigar-se nos seus ramos». Jesus disse ainda: «A que hei-de comparar o reino de Deus? É semelhante ao fermento que uma mulher tomou e misturou em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado» (Lc 13, 18-21).
       O reino de Deus, instaurado por Jesus, por Ele anunciado e vivido, está em crescimento constante. Para nós, crentes cristãos, o reino de Deus está entre nós, veio em Jesus Cristo, é Ele o rosto de Deus Pai, é o Reino de Deus que seguimos e que queremos acolher em nossas vidas.
       Nestas duas parábolas, Jesus envolve-nos na confiança: Deus vai guiando a história e o tempo. Por vezes não se dá por isso, mas o reino de Deus cresce dia e noite, é semente lançada à terra, é fermento que leveda a massa. No meio da incerteza, Deus garante o nosso futuro.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

VL – Deslizar na vida como no tango

       Somos diferentes. No corpo e na mente. Lidar com os sentimentos e com os infortúnios. Diferentes a amar e a deixar-nos amar. Por vezes complicamos as situações mais simples e desvalorizamos o que tem de essencial. O essencial, como nos lembra Antoine de Saint Exupéry, no Principezinho, é invisível aos olhos, radica no coração, que tem razões, segundo Pascal, que a razão desconhece.
       Para nós cristãos, a referência é Jesus Cristo: a docilidade à voz do Pai, a delicadeza para com todos, o gastar a vida até à última gota de sangue em benefício da humanidade, transparecendo a misericórdia do Pai, envolvendo-nos como irmãos… É um desafio e um compromisso. Dá-nos as ferramentas para nos descobrirmos como filhos do mesmo Pai e nos assumirmos, em definitivo, como irmãos.
       No início, Caim não compreendeu que a fraternidade o humanizava. E matou o seu irmão. Quando as coisas não nos correm bem, sobretudo na relação com as pessoas que amamos, e seguindo a tendência do tempo, desistimos. Parece ser mais fácil voltar as costas aos problemas. Ou eliminar aqueles que consideramos rivais. Infelizmente não são apenas palavras. Cinco minutos de notícias e quantas quezílias que dão em violência e em morte!
       Vivendo ao jeito de Jesus, Rosto e Presença da Misericórdia do Pai, vivamos nós também predispostos a dar/gastar a vida pelos outros, pela família, pelos amigos, pelos vizinhos, por aqueles de quem não gostamos tanto. Deslizar pela vida como no tango.
       No tango, cada um dança em função do outro, deslizando de encontro ao seu corpo, a sua agilidade, segurando o outro, e ao mesmo tempo confiando e por isso deixando-se cair, deslizando, procurando sintonizar cada movimento, escutando a música, mas sobretudo a melodia do outro. São dois. Não um. Dois mas que quase se fundem como em um. A identidade de cada um. A agilidade de cada um. Cada um tem que conhecer os movimentos do outro, as possibilidades, limites. Até onde pode ir e onde não chega. Esforço, dedicação, treino, diálogo. Alguns atropelos. Recomeços. Voltar a tentar uma e outra vez, sem desistir, até que os passos e movimentos estejam de tal modo sintonizados e sincronizados que quem vê de fora lhe pareça natural e para os próprios extravase alegria, num diálogo de corpos, de emoções, centrando-nos no outro, no olhar, nas nuances, prevendo algum deslize ou alguma alteração, para se adaptar, corrigindo movimentos, para amparar o outro ou se deixar ir.
       E no tango, como na vida, precisamos do outro.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4378, de 13 de setembro de 2016

A prática do bem não tem horas definidas...

        Estava Jesus a ensinar ao sábado numa sinagoga. Apareceu lá uma mulher com um espírito que a tornava enferma havia dezoito anos; andava curvada e não podia de modo algum endireitar-se. Ao vê-la, Jesus chamou-a e disse-lhe: «Mulher, estás livre da tua enfermidade»; e impôs-lhe as mãos. Ela endireitou-se logo e começou a dar glória a Deus. Mas o chefe da sinagoga, indignado por Jesus ter feito uma cura ao sábado, tomou a palavra e disse à multidão: «Há seis dias para trabalhar. Portanto, vinde curar-vos nesses dias e não no dia de sábado». O Senhor respondeu: «Hipócritas! Não solta cada um de vós do estábulo o seu boi ou o seu jumento ao sábado, para o levar a beber? E esta mulher, filha de Abraão, que Satanás prendeu há dezoito anos, não devia libertar-se desse jugo no dia de sábado?». Enquanto Jesus assim falava, todos os seus adversários ficaram envergonhados e a multidão alegrava-se com todas as maravilhas que Ele realizava (Lc 13, 10-17).
       Em mais um diálogo/confronto de Jesus com as classes predominantes do judaísmo sobressai o legalismo à volta da religião. Com efeito, esta justifica situações que deveria corrigir. Cumpre-se com a lei, ainda que se esqueça o semelhante. E com a mesma Lei se protegem trabalhos mais ou menos pesados, mas recusa-se a caridade.
       Jesus certamente não menospreza as tradições judaicas. Também Ele é judeu. Mas a religião não pode servir apenas para os interesses pessoais, nem como desculpa para não fazer o bem. Mais, o bem não tem dia nem hora para se realizar, todos os segundos são bons para praticar o bem.

sábado, 22 de outubro de 2016

XXX Domingo do Tempo Comum - ano C - 23 de outubro

       1 – Oração. Fé. Humildade. Confiança. Despojamento. Entrega. Abertura. Sabedoria do coração. Compaixão. Ternura. Amor. Alegria. Felicidade. Partilha. Comunhão. Fidelidade. Entreajuda. Caridade. Cuidado. Serviço. Fraternidade. Perdão. Paz. Reconciliação. Vida.
       Com um jeitinho, conseguiremos conjugar estas diferentes palavras, interligando-as e tornando-as realidade. No domingo passado, Jesus convidava-nos, como discípulos, a uma oração persistente, baseada na confiança em Deus como Pai de Misericórdia. Ainda que uma Mãe pudesse esquecer o seu filho amado, Deus jamais se esquece de nós, nem deixa sem resposta a nossa súplica.
       A oração, sincera, compromete-nos com os outros, enlaça-nos, conduz-nos ao serviço, à partilha solidária. A firmeza da fé transparece na firmeza da caridade.
        Oração. Sinceridade. Arrependimento. Conversão. Esperança. Felicidade. Inevitavelmente, a oração dilata o nosso coração para acolhermos o outro, perdoando-o e servindo-o; dilata-nos o coração para reconhecermos a nossa fragilidade e a interdependência aos outros. A lógica é sempre a mesma: se a oração nos faz elevar o olhar, o coração e a vida para Deus, para o alto, em sentido ascendente e vertical, de imediato nos faz voltar o olhar, o coração e a vida para os outros, para o mundo que nos rodeia, num sentido fraterno e horizontal.
       2 – O Evangelista contextualiza a parábola de Jesus, dizendo que tem como destinatários os que se consideram justos e desprezam os outros. Como outras parábolas e palavras de Jesus, vale a pena juntarmo-nos aqueles a quem a parábola se dirige, para que nos diga algo, para que mexa connosco. Em algum momento já nos considerámos melhores que os outros, mantendo-nos distantes e não querendo misturar-nos com os outros ou sujar as mãos, pois considerámo-nos de um nível distinto.
        Paremos. Escutemos Jesus. Com atenção e docilidade. Não é um propagandista qualquer ou um qualquer palrador. É o Profeta da Nova Aliança, é Rosto e Presença da Misericórdia de Deus. O que incomoda Jesus não é tanto o pecado, as imperfeições ou defeitos. O que verdadeiramente O incomoda é a hipocrisia, a sobranceria, a soberba de quem não é capaz de se dar, de amar, de se compadecer com os mais frágeis. Não combina com Jesus. Ele não é assim. Nas palavras e nos gestos, nos encontros e nos prodígios, Jesus é assertivo, acolhendo com docilidade, a todos, mas com especial ternura e afeição aqueles que estão à margem, excluídos, doentes, mulheres, crianças, pobres, os últimos do povo e aqueles cujas profissões os renegam para a periferia. Jesus não pergunta pelo Cartão de Cidadão, pela origem social ou religiosa, pela condição moral ou profissional. Pergunta pelo coração, pela disponibilidade em acolher Deus, Boa Nova da salvação. Todos estão no mesmo patamar.
         Diz assim Jesus: «Dois homens subiram ao templo para orar; um era fariseu e o outro publicano. O fariseu, de pé, orava assim: ‘Meu Deus, dou-Vos graças por não ser como os outros homens, que são ladrões, injustos e adúlteros, nem como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de todos os meus rendimentos’. O publicano ficou a distância e nem sequer se atrevia a erguer os olhos ao Céu; mas batia no peito e dizia: ‘Meu Deus, tende compaixão de mim, que sou pecador’. Eu vos digo que este desceu justificado para sua casa e o outro não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado».
       3 – A sobranceria e a prepotência estagnam-nos, não nos deixam crescer. E o que não avança diminui. O que irrita Jesus é a hipocrisia, pois esta fecha-nos como numa concha, afasta-nos dos outros. A autossuficiência não nos permite acolher o bem alheio. Definhamos num círculo que começa em nós e em nós acaba. O centro está no nosso umbigo. Como Narciso (mito que dá origem ao narcisismo), corremos o risco de adormecermos na nossa vaidade e beleza. Narciso era tão belo que não achou ninguém que estivesse à sua altura. Preferiu ficar só. Admirando a sua imagem e a sua beleza no reflexo das águas, e como não conseguia alcançar a imagem refletida, deixou-se morrer na relva junto ao lago, onde nasceria uma flor (narciso). Os narcisos nascem na primavera, em solos húmidos, são autossuficientes, o caule faz inclinar a flor para baixo, debruçando-se sobre si mesmo como no mítico Narciso.
       Deus conhece o nosso íntimo. Precisamos apenas de ser transparentes, com a nossa insuficiência e com a nossa miséria, com o nosso pecado e a nossa fragilidade. Quando sou fraco então é que sou forte, como nos lembra São Paulo, pois Deus fortalece-nos com a Sua graça. Não está em causa, em nenhum momento, a dignidade e a grandeza humanas, pois somos únicos e irrepetíveis, criados à imagem e semelhança de Deus. O que somos e o que escolhemos. A abertura do coração permite-nos aprender com os outros, acolher Deus, na Sua misericórdia infinita, e percorrer um caminho, com os outros, que nos fortalece como seres humanos e como irmãos em Jesus Cristo.
       4 – Na verdade, situando-nos perante Deus, como crentes cristãos, a certeza que para Ele todos somos filhos (de primeira). Ele é Pai e ainda mais Mãe (João Paulo I), não considera uns filhos e outros enteados. Jesus morreu por todos, não pelos "melhores", mas sobretudo pelas pecadores. Tratar-nos uns aos outros com indiferença, com desprezo ou sobranceria é contrário à nossa filiação divina e à nossa condição de irmãos em Cristo Jesus.
      Na linguagem veterotestamentária, "o Senhor é um juiz que não faz aceção de pessoas. Não favorece ninguém em prejuízo do pobre e atende a prece do oprimido. Não despreza a súplica do órfão, nem os gemidos da viúva. Quem adora a Deus será bem acolhido e a sua prece sobe até às nuvens. A oração do humilde atravessa as nuvens e não descansa enquanto não chega ao seu destino. Não desiste, até que o Altíssimo o atenda, para estabelecer o direito dos justos e fazer justiça".
       Com efeito, a oração do humilde sobe aos céus. Essa experiência fazemo-la uns com os outros: quando pedimos com delicadeza e humildade provocamos abertura e resposta; quando exigimos com rudeza afastamos os outros que poderão atender-nos porque tem de ser, mas fazendo-o com má vontade. Como sói dizer-se, as moscas caçam-se com mel e não com fel.
        O salmo garante-nos que Deus nos atende. Ele está perto especialmente dos mais frágeis: "o Senhor está perto dos que têm o coração atribulado e salva os de ânimo abatido. O Senhor defende a vida dos seus servos, não serão castigados os que n’Ele confiam".
       Confiança na misericórdia de Deus, caminho aberto para que Ele nos cumule de bênçãos. Como nos dizia Jesus: rezar sem desistir. Deus é Pai que nos responderá e nos fará justiça.

       5 – "Deus eterno e omnipotente, aumentai em nós a fé, a esperança e a caridade; e para merecermos alcançar o que prometeis, fazei-nos amar o que mandais". A oração, feita com sinceridade, como abertura a Deus, une-nos ao Seu projeto de amor, manifesto, em plenitude, em Jesus Cristo, na Sua vida e sobretudo na Sua paixão redentora, ressuscitando-nos para a vida, para o serviço, para o cuidado a favor dos outros.
       O Apóstolo, dirigindo-se a Timóteo, mostra como manteve viva a fé, sobretudo nos momentos de perseguição e durante a prisão. Procurou cumprir com fidelidade – "combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. E agora já me está preparada a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me há de dar naquele dia; e não só a mim, mas a todos aqueles que tiverem esperado com amor a sua vinda" – sabendo que dessa forma entraria na vida eterna, na glória de Deus.
       Nos momentos de aperto não pôde contar com ninguém, a não ser com o próprio Deus. "Na minha primeira defesa, ninguém esteve a meu lado: todos me abandonaram. Queira Deus que esta falta não lhes seja imputada. O Senhor esteve a meu lado e deu-me força, para que, por meu intermédio, a mensagem do Evangelho fosse plenamente proclamada e todas as nações a ouvissem; e eu fui libertado da boca do leão. O Senhor me livrará de todo o mal e me dará a salvação no seu reino celeste. Glória a Ele pelos séculos dos séculos".
       Para Paulo a adversidade também serviu para testemunhar o Evangelho, enfrentando os acusadores, anunciando Jesus Cristo. Prevaleceu a força que encontrou em Cristo Jesus, pela oração confiante.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (C): Sir 35, 15b-17. 20-22a; Sl 33 (34); 2 Tim 4, 6-8. 16-18; Lc 18, 9-14.

São JOÃO PAULO II, Papa

Nota biográfica
      Karol Józef Wojtyła nasceu a 18 de maio de 1920, no lugar de Wadowice, na Polónia. O mais novo de três irmãos. Filho de Karol Wojtyła e Emilia Kaczorowska. A sua mãe morreu em 1929. O seu irmão mais velho, (médico) morreu em 1932 e o seu pai (suboficial do exército) em 1941. A sua irmã, Olga, morreu antes dele nascer.
       Foi batizado por Franciszek Zak, em 20 de junho de 1920 na Igreja paroquial de Wadowice; aos 9 anos fez a Primeira Comunhão. Aos 18, recebeu o Sacramento da Confirmação
       Em 1938 matriculou-se na Universidade Jagellónica de Cracóvia e numa escola de teatro.
       Com a ocupação nazi, e com o encerramento da Universidade, em 1939, começou a trabalhar numa pedreira e logo numa fábrica de químicos, para ganhar a vida e evitar ser deportado para a Alemanha.
       A partir de 1942, ao sentir a vocação para o sacerdócio, começou a formação do seminário clandestino de Cracóvia, dirigido pelo Arcebispo de Cracóvia, Cardeal Adam Stefan Sapieha. Ao mesmo tempo, foi um dos promotores da "Teatro Rapsódico", também clandestino. 
       Após a Segunda Guerra Mundial, continuou seus estudos no Seminário Maior de Cracóvia, e na Faculdade de Teologia da Universidade Jagiellonian, até à sua ordenação sacerdotal em Cracóvia em 1 de novembro de 1946 pelo Arcebispo Sapieha. Seguiram-se estudos em Roma, onde, sob a direção do dominicano francês Garrigou-Lagrange, se doutorou, em 1948, em teologia, com uma tese sobre o tema da fé nas obras de São João da Cruz. Naquele período, durante as férias, exerceu o seu ministério pastoral entre os imigrantes polacos da França, Bélgica e Holanda. 
       Em 1948, regressou à Polónia e foi vigário de diversas paróquias de Cracóvia, bem como capelão universitário até 1951, retomando os estudos filosóficos e teológicos. Em 1953, apresentou, na Universidade Católica de Lublin, uma tese sobre "Avaliação da possibilidade de fundar uma ética católica sobre o sistema ético de Max Scheler". Tornou-se, então, professor de Teologia Moral e Ética Social no Seminário Maior de Cracóvia e na Faculdade de Teologia de Lublin.
       Em 4 de julho de 1958, foi nomeado, pelo Papa Pio XII, Bispo titular de Olmi e auxiliar de Cracóvia. Recebeu a Ordenação Episcopal em 28 de setembro de 1958, na Catedral de Wawel (Cracóvia) pelo arcebispo Eugeniusz Baziak. 
       Em 13 de janeiro de 1964, foi nomeado Arcebispo de Cracóvia pelo Papa Paulo VI, que o fez cardeal 26 de junho de 1967, com o título de São César em Palatio. 
       Além de participar do Concílio Vaticano II (1962-1965), com uma contribuição importante para a elaboração da Constituição Gaudium et spes, o Cardeal Wojtyla participou em todas as assembleias do Sínodo dos Bispos, antes de seu pontificado.
       Depois da morte prematura do papa João Paulo I, os Cardeais elegeram-no Papa, o 263.º, em 16 de outubro de 1978, escolhendo o nome de João Paulo II, e começou o seu pontificado petrino no dia 22 de outubro, data em que agora se celebra a Sua memória litúrgica.
       Foi um dos pontificados mais longos, durou quase 27 anos.
       Distinguiu-se pela extraordinária solicitude apostólica, em particular para com as famílias, os jovens e os doentes, o que o levou a realizar numerosas visitas pastorais a todo o mundo. Entre os muitos frutos mais significativos deixados em herança à Igreja, destaca-se o seu riquíssimo Magistério e a promulgação do Catecismo da Igreja Católica e do Código de Direito Canónico para a Igreja latina e oriental, a criação das Jornadas Mundiais da Juventude, reflexão sobre a família e sobre o corpo humano, sobre o trabalho e a dignidade da mulher... 
       Outros marcos no seu pontificado: promoção do diálogo ecuménico e inter-religioso, encontro de oração em Assis pela paz, com membros de outras religiões; grande Jubileu do Ano 2000 do nascimento de Jesus Cristo; Ano da Redenção; Ano Mariano; Ano da Eucaristia; proclamou Santa Teresa do Menino Jesus como Doutora da Igreja, além dos muitos santos e beatos elevados aos altares.
       Documentos principais: 14 Encíclicas; 15 Exortações Apostólicas; 11 Constituições Apostólicas e 45 Cartas Apostólicas.
       A título mais pessoal, publicou 5 livros: Atravessando o Limiar da Esperança (outubro de 1994); Dom e Mistério - 50.º aniversário da ordenação sacerdotal (novembro de 1996); Tríptico romano - Meditações, livro de poesias (março de 2003); Levantai-vos, vamos (maio de 2004), e Memória e Identidade (fevereiro de 2005).
       Morreu piedosamente, em Roma, a 2 de Abril de 2005, na Vigília do II Domingo de Páscoa ou da Divina Misericórdia.
       No dia 8 de abril, a celebração da Exéquias, sob a presidência do Cardeal Joseph Ratzinger, conhecido como Seu braço direito e que viria a ser Seu sucessor, como Papa Bento XVI. Mais de três milhões de pessoas que passaram junto do Seu corpo, para prestar uma última homenagem.
       Bento XVI, a 28 de abril, poucos dias de assumir o pontificado petrino, dispensou os 5 anos de espera depois da morte para se abrir o processo de beatificação e canonização, causa aberta em 28 de junho de 2005, pelo Cardeal Camillo Ruini, Vigário-Geral para a Diocese de Roma.
       Foi beatificado em 1 de maio de 2011, pelo Papa Bento XVI, e canonizado conjuntamente com o Papa João XXIII, em 27 de abril de 2014, pelo Papa Francisco. A concelebrar esteve o Papa Emérito Bento XVI.

Oração de coleta:
Deus, rico de misericórdia, que colocastes o papa João Paulo II à frente da vossa Igreja, fazei que, instruídos pelos seus ensinamentos, abramos confiadamente os nossos corações à graça salvadora de Cristo, único salvador do mundo. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
  • Será interessante ler também:

Página Oficial da Santa Sé, Vaticano (seguimos a versão em castelhano)

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Discernir os sinais dos tempos...

       Dizia Jesus à multidão: «Quando vedes levantar-se uma nuvem no poente, logo dizeis: ‘Vem chuva’; e assim acontece. E quando sopra o vento sul, dizeis: ‘Vai fazer muito calor’; e assim sucede. Hipócritas, se sabeis discernir o aspecto da terra e do céu, porque não sabeis discernir o tempo presente? Porque não julgais por vós mesmos o que é justo?». E acrescentou: «Quando fores com o teu adversário ao magistrado, esforça-te por te entenderes com ele no caminho, para que ele não te arraste ao juiz e o juiz te entregue ao oficial de justiça e o oficial de justiça te meta na prisão. Eu te digo: Não sairás de lá, enquanto não pagares o último centavo» (Lc 12, 54-59).
        É necessário ler os sinais dos tempos e agir em conformidade. Ter conhecimentos, porém, sejam eles quais forem, só fará sentido e só terá importância na medida que nos aproximarem dos outros, se nos mobilizarem para os irmãos. Assim, o verdadeiro conhecimento é aquele que nos congrega e nos compromete com os nossos semelhantes.
       Como é costume dizer-se, quem melhor conhece a Deus é o Diabo e no entanto não é crente, não é cristão. Obviamente, para amarmos precisamos de conhecer, não amamos que que ignoramos. Ainda que o conhecimento (sobretudo) acerca das pessoas seja progressivo. Partir do conhecimento para adquirirmos a sabedoria que nos leva a utilizar a inteligência para viver melhor, para dar qualidade aos nossos dias, para nos aproximarmos uns dos outros.
Por outro lado, a evolução científica e tecnológica, o desenvolvimento dos meios de comunicação aproximou-nos uns dos outros, mas como recordou Bento XVI numa das Mensagens para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, não nos tornou irmãos. Não basta saber muito de história, de filosofia, de matemática, ou ter esta ou aquela licenciatura. É preciso amar. É preciso conhecer o nosso semelhante, o nosso vizinho (e não apenas aquele ator, ou aquele cantor).