quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Novena da Imaculada Conceição 2016 - Primeiro Dia

       A grande festa da comunidade paroquial é a festa da Sua Padroeira, a Imaculada Conceição, no dia 8 de dezembro. Ela é também a Madrinha dos Bombeiros, a Padroeira da Santa Casa da Misericórdia, e a referência de toda a paróquia e dos seus grupos.
       Antes da festa a preparação. Nove dias, uma novena, numa espécie de retiro aberto, com a celebração do Terço, com a celebração da Eucaristia e com a Pregação. Este ano a pregação está a cargo do Pe. Joaquim Dionísio, Reitor do Seminário Maior de Lamego, Diretor da Voz de Lamego.
       O Pregador, neste primeiro dia, começou por nos situar "onde estávamos"... em Tabuaço, na Igreja, na casa de Jesus? Estamos em nossa casa, disse. Em casa sentimo-nos bem. Não estamos a mais. De outros lados podemos ser enxotados, mas não de nossa casa. Vimos e sentimo-nos em casa. Sentimo-nos bem porque viemos a um encontro com Deus, que nos ama.
       O Pe. Joaquim continou a questionar: o que nos deixa felizes? Muitas respostas podíamos dar: estar em família, ter saúde, ter trabalho, viajar... Mas o mais importante é saber que alguém nos ama. Estejamos onde estivermos, se alguém gosta de nós, isso deixa-nos felizes. Claro que há dificuldades... A fé não nos livra dos problemas, mas dá-nos a esperança para não desistir.
       Começamos esta Novena como um encontro, em nossa casa, com Maria, em alegria. Saber que alguém gosta de nós, é motivo para estarmos contentes, como Jesus. "Jesus exultou de alegria pela ação do Espírito Santo...". A alegria de estarmos em casa e de nos sabermos amados. A alegria que queremos partilhar.
       Em novena para escutar. Há diferenças entre escutar e ouvir... ouvimos muitas coisas, escutar é com a consciência, com o coração como Maria, que Deus nos dá por Mãe. A NOVENA há de ser tempo de encontro, de escuta para obedecer. Como Maria, que escuta e se dispõe a fazer a vontade do Senhor: eis a serva. Fazer-se pequenino. "Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos" (Lc 10, 21-24). Fazer-se pequenino para crescer. Quem é grande não tem espaço para crescer. O pecado de Adão e Eva foi quererem ser como Deus ao ponto de O dispensar. Ser pequenino para escutar. Escutar para obedecer a Deus. Seguindo Maria que nos manda fazer tudo o que Jesus nos diz. É o nosso propósito ao iniciarmos esta novena, em casa, com Maria, num encontro com Alguém que nos ama, com Jesus, para experimentarmos a alegria.

Festa de Santo André, Apóstolo

Nota biográfica:
       André é irmão de Simão Pedro e é natural de Betsaida.
       O nome é de origem grega e não hebraica. Na lista dos Apóstolos aparece em segundo lugar, e outras vezes em quarto. Gozava de um enorme prestígio nas comunidades cristãs do início. É, juntamente com Pedro, dos primeiros a ser chamado por Jesus: "Caminhando ao longo do mar da galileia, Jesus viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar. Disse-lhes: «Vinde comigo e Eu farei de vós pescadores de homens»" (Mt 4, 18-19; Mc 1, 16-17). O quarto Evangelho dá-nos a informação que ele foi primeiramente discípulo de João Baptista e depois seguiu a Cristo, a quem apresentou também seu irmão Pedro (Jo 1, 36-43).
       A Igreja Bizantina honra-o como Protóklitos, isto é o primeiro chamado por Jesus.
       Os Evangelho apresentam André em outras ocasiões: aquando da multiplicação dos pães, dizendo a Jesus que havia um jovem que tinha cinco pães de cevada e dois peixes, mas insuficiente para tanta gente (Jo 6, 8-9); quando Jesus refere que do Templo não ficará pedra sobre pedra, apesar da solidez da construção, então juntamente com Pedro e João, André interroga Jesus: "Diz-nos quando isto acontecerá e qual o sinal de que tudo está para acabar?" (Mc 13, 1-4); próximo da Páscoa, antes da Paixão, vêm à cidade alguns gregos e manifestam o desejo de ver Jesus e é André e Filipe que servem de intérpretes (Jo 12, 23-24). Depois do Pentecostes, segundo uma tradição, pregou em diversas regiões e foi crucificado na Acaia.
       A tradição narra a morte de André em Petrasso, onde sofreu o suplício da crucifixão e à semelhança de Pedro pediu para ser crucificado de maneira diferente á do Mestre, tendo sido crucificado numa cruz decussada, cruzada transversalmente e inclinada, e que ficou conhecida como a "cruz de Santo André".
       Portanto, diz-nos o Papa Bento XVI, "o apóstolo André ensina-nos a seguir Jesus com prontidão (cf (Mt 4,20; Mc 1, 18), a falar com entusiasmo d'Ele a quantos encontrarmos, e sobretudo a cultivar com Ele um relacionamento de verdadeira familiaridade, bem conscientes de que só n'Ele podemos encontrar o sentido último da nossa vida e da nossa morte".

Oração de coleta:
       Nós Vos suplicamos, Deus omnipotente, que, assim como o apóstolo Santo André foi na terra pregador do Evangelho e pastor da vossa Igreja, seja também no Céu poderoso intercessor junto de Vós. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo

BENTO XVI SOBRE SANTO ANDRÉ, o Protóklitos 
Queridos irmãos e irmãs!
Nas últimas duas catequeses falámos da figura de São Pedro. Agora queremos, na medida em que as fontes o permitem, conhecer mais de perto também os outros onze Apóstolos. Portanto, falamos hoje do irmão de Simão Pedro, Santo André, também ele um dos Doze. A primeira característica que em André chama a atenção é o nome: não é hebraico, como teríamos pensado, mas grego, sinal de que não deve ser minimizada uma certa abertura cultural da sua família. Estamos na Galileia, onde a língua e a cultura gregas estão bastante presentes. Nas listas dos Doze, André ocupa o segundo lugar, como em Mateus (10, 1-4) e em Lucas (6, 13-16), ou o quarto lugar como em Marcos (3, 13-18) e nos Actos (1, 13-14). Contudo, ele gozava certamente de grande prestígio nas primeiras comunidades cristãs.
O laço de sangue entre Pedro e André, assim como a comum chamada que Jesus lhes faz, sobressaem explicitamente nos Evangelhos. Neles lê-se: "Caminhando ao longo do mar da Galileia, Jesus viu os dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. Disse-lhes: "Vinde comigo e Eu farei de vós pescadores de homens"" (Mt 4, 18-19; Mc 1, 16-17). Do Quarto Evangelho tiramos outro pormenor: num primeiro momento, André era discípulo de João Baptista; e isto mostra-nos que era um homem que procurava, que partilhava a esperança de Israel, que queria conhecer mais de perto a palavra do Senhor, a realidade do Senhor presente. Era verdadeiramente um homem de fé e de esperança; e certa vez, de João Baptista ouviu proclamar Jesus como "o cordeiro de Deus" (Jo 1, 36); então ele voltou-se e, juntamente com outro discípulo que não é nomeado, seguiu Jesus, Aquele que era chamado por João o "Cordeiro de Deus". O evangelista narra: eles "viram onde morava e ficaram com Ele nesse dia" (Jo 1, 37-39). Portanto, André viveu momentos preciosos de familiaridade com Jesus.
A narração continua com uma anotação significativa: "André, o irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram João e seguiram Jesus. Encontrou primeiro o seu irmão Simão, e disse-lhe: "Encontramos o Messias" que quer dizer Cristo. E levou-o até Jesus" (Jo 1, 40-43), demonstrando imediatamente um espírito apostólico não comum. Portanto, André foi o primeiro dos Apóstolos a ser chamado para seguir Jesus. Precisamente sobre esta base a liturgia da Igreja Bizantina o honra com o apelativo de Protóklitos, que significa exactamente "primeiro chamado". E não há dúvida de que devido ao relacionamento fraterno entre Pedro e André a Igreja de Roma e a Igreja de Constantinopla se sentem irmãs entre si de modo especial. Para realçar este relacionamento, o meu Predecessor, o Papa Paulo VI, em 1964, restituiu as insignes relíquias de Santo André, até então conservadas na Basílica Vaticana, ao Bispo metropolita Ortodoxo da cidade de Patrasso na Grécia, onde segundo a tradição o Apóstolo foi crucificado.
As tradições evangélicas recordam particularmente o nome de André noutras três ocasiões, que nos fazem conhecer um pouco mais este homem. A primeira é a da multiplicação dos pães na Galileia. Naquele momento foi André quem assinalou a Jesus a presença de um jovem que tinha cinco pães de cevada e dois peixes: era muito pouco observou ele para todas as pessoas reunidas naquele lugar (cf. Jo 6, 8-9). Merece ser realçado, neste caso, o realismo de André: ele viu o jovem portanto já se tinha perguntado: "mas o que é isto para tantas pessoas?" (ibid.) mas apercebeu-se da insuficiência dos seus poucos recursos. Contudo, Jesus soube fazê-los bastar para a multidão de pessoas que vieram ouvi-lo. A segunda ocasião foi em Jerusalém. Saindo da cidade, um discípulo fez notar a Jesus o espectáculo dos muros sólidos sobre os quais o Templo se apoiava. A resposta do Mestre foi surpreendente: disse que não teria ficado em pé nem sequer uma pedra daqueles muros. Então André, juntamente com Pedro, Tiago e João, interrogou-o: "Diz-nos quando tudo isto acontecerá e qual o sinal de que tudo está para acabar" (Mc 13, 1-4).
Para responder a esta pergunta Jesus pronunciou um importante discurso sobre a destruição de Jerusalém e sobre o fim do mundo, convidando os seus discípulos a ler com atenção os sinais do tempo e a permanecer sempre vigilantes. Podemos deduzir deste episódio que não devemos ter receio de fazer perguntas a Jesus, mas ao mesmo tempo devemos estar prontos para receber os ensinamentos, até surpreendentes e difíceis, que Ele nos oferece.
Por fim, nos Evangelhos está registrada uma terceira iniciativa de André. O Cenário ainda é Jerusalém, pouco antes da Paixão. Para a festa da Páscoa narra João tinham vindo à cidade santa alguns Gregos, provavelmente prosélitos ou tementes a Deus, que vinham para adorar o Deus de Israel na festa da Páscoa. André e Filipe, os dois apóstolos com nomes gregos, servem como intérpretes e mediadores deste pequeno grupo de Gregos junto de Jesus. A resposta do Senhor à sua pergunta parece como muitas vezes no Evangelho de João enigmática, mas precisamente por isso revela-se rica de significado. Jesus diz aos dois discípulos e, através deles, ao mundo grego: "Chegou a hora de se revelar a glória do Filho do Homem. Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto" (12, 23-24).
O que significam estas palavras neste contexto? Jesus quer dizer: sim, o encontro entre mim e os Gregos terá lugar, mas não como simples e breve diálogo entre mim e algumas pessoas, estimuladas sobretudo pela curiosidade. Com a minha morte, comparável à queda na terra de um grão de trigo, chagará a hora da minha glorificação. A minha morte na cruz originará grande fecundidade: o "grão de trigo morto" símbolo de mim crucificado tornar-se-á na ressurreição pão de vida para o mundo; será luz para os povos e para as culturas. Sim, o encontro com a alma grega, com o mundo grego, realizar-se-á naquela profundidade à qual faz alusão a vicissitude do grão de trigo que atrai para si as forças da terra e do céu e se torna pão. Por outras palavras, Jesus profetiza a Igreja dos gregos, a Igreja dos pagãos, a Igreja do mundo como fruto da sua Páscoa.
Tradições muito antigas vêem em André, o qual transmitiu aos gregos esta palavra, não só o intérprete de alguns Gregos no encontro com Jesus agora recordado, mas consideram-no como apóstolo dos Gregos nos anos que sucederam ao Pentecostes; fazem-nos saber que no restante da sua vida ele foi anunciador e intérprete de Jesus para o mundo grego. Pedro, seu irmão, de Jerusalém, passando por Antioquia, chegou a Roma para aí exercer a sua missão universal; André, ao contrário, foi o apóstolo do mundo grego: assim, eles são vistos, na vida e na morte, como verdadeiros irmãos uma irmandade que se exprime simbolicamente no relacionamento especial das Sedes de Roma e de Constantinopla, Igrejas verdadeiramente irmãs.
Uma tradição sucessiva, como foi mencionado, narra a morte de André em Patrasso, onde também ele sofreu o suplício da crucifixão. Mas, naquele momento supremo, de modo análogo ao do irmão Pedro, ele pediu para ser posto numa cruz diferente da de Jesus. No seu caso tratou-se de uma cruz decussada, isto é, cruzada transversalmente inclinada, que por isso foi chamada "cruz de Santo André". Eis o que o Apóstolo dissera naquela ocasião, segundo uma antiga narração (início do século VI) intituladaPaixão de André: "Salve, ó Cruz, inaugurada por meio do corpo de Cristo e que se tornou adorno dos seus membros, como se fossem pérolas preciosas. Antes que o Senhor fosse elevado sobre ti, tu incutias um temor terreno.
Agora, ao contrário, dotada de um amor celeste, és recebida como um dom. Os crentes sabem, a teu respeito, quanta alegria possuis, quantos dons tens preparados. Portanto, certo e cheio de alegria venho a ti, para que também tu me recebas exultante como discípulo daquele que em ti foi suspenso... Ó Cruz bem-aventurada, que recebestes a majestade e a beleza dos membros do Senhor!... Toma-me e leva-me para longe dos homens e entrega-me ao meu Mestre, para que por teu intermédio me receba quem por ti me redimiu. Salve, ó Cruz; sim, salve verdadeiramente!".
Como se vê, há aqui uma profundíssima espiritualidade cristã, que vê na Cruz não tanto um instrumento de tortura como, ao contrário, o meio incomparável de uma plena assimilação ao Redentor, ao grão de trigo que caiu na terra. Nós devemos aprender disto uma lição muito importante: as nossas cruzes adquirem valor se forem consideradas e aceites como parte da cruz de Cristo, se forem alcançadas pelo reflexo da sua luz. Só daquela Cruz também os nossos sofrimentos são nobilitados e adquirem o seu verdadeiro sentido.
Portanto, o apóstolo André ensina-nos a seguir Jesus com prontidão (cf. Mt 4, 20; Mc 1, 18), a falar com entusiasmo d'Ele a quantos encontramos, e sobretudo a cultivar com Ele um relacionamento de verdadeira familiaridade, bem conscientes de que só n'Ele podemos encontrar o sentido último da nossa vida e da nossa morte.
Saudação em Língua portuguesa:
Amados irmãos!
Nossa Catequese de hoje se centra na figura do Apóstolo André, irmão de Pedro. A Igreja bizantina honra-o com o nome deProtóklitos, ou seja o que foi "chamado por primeiro", por ter sido o primeiro entre os apóstolos a seguir o Senhor. Depois dele viriam todos os demais, antes de mais Pedro, a quem o Messias confiara a sua Igreja. André foi o apóstolo do mundo grego; por isso, ele exprime uma simbólica aliança entre a Igreja de Roma e a de Constantinopla.
Ao recorrer à intercessão deste grande apóstolo, peço a todos os peregrinos presentes de língua portuguesa, especialmente aos grupos vindos de Portugal e do Brasil, que rezem pela unidade da Igreja e pela comunhão de todos os cristãos. Com a minha Bênção Apostólica.

BENTO XVI, Os Apóstolos e os Primeiros Discípulos de Cristo. As origens da Igreja. Editorial Franciscana: Braga 2008.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do Céu e da terra

Jesus exultou de alegria pela acção do Espírito Santo e disse:
       "Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque isto foi do teu agrado. Tudo Me foi entregue por meu Pai; e ninguém sabe o que é o Filho senão o Pai, nem o que é o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar". Voltando-Se depois para os discípulos, disse-lhes: "Felizes os olhos que vêem o que estais a ver, porque Eu vos digo que muitos profetas e reis quiseram ver o que vós vedes e não o viram e ouvir o que vós ouvis e não o ouviram" (Lc 10, 21-24).
       É bem conhecida esta passagem do Evangelho em que Jesus sublinha a simplicidade do coração para acolher e compreender a mensagem de Deus. A soberba e a sobranceria, o orgulho e a autosuficiência servem apenas para nos afastar dos outros, de Deus e dos grandes mistérios da vida humana. Só pergunta quem está a disposição de escutar, de compreender, de mudar. Ou as questões brotarão de um cinismo mordaz e destrutivo.
       Quem se julga dono da verdade e do mundo, nunca aceitará o que vem dos outros nem do Totalmente Outro, que em Jesus Se faz Totalmente próximo.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Não encontrei ninguém em Israel com tão grande fé

       Ao entrar Jesus em Cafarnaum, aproximou-se d’Ele um centurião, que Lhe suplicou, dizendo: «Senhor, o meu servo jaz em casa paralítico e sofre horrivelmente». Disse-lhe Jesus: «Eu irei curá-lo». Mas o centurião respondeu-Lhe: «Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa; mas diz uma só palavra e o meu servo ficará curado. Porque eu, que não passo dum subalterno, tenho soldados sob as minhas ordens: digo a um ‘Vai’ e ele vai; a outro ‘Vem’ e ele vem; e ao meu servo ‘Faz isto’ e ele faz». Ao ouvi-lo, Jesus ficou admirado e disse àqueles que O seguiam: «Em verdade vos digo: Não encontrei ninguém em Israel com tão grande fé. Por isso vos digo: Do Oriente e do Ocidente virão muitos sentar-se à mesa, com Abraão, Isaac e Jacob, no reino dos Céus» (Mt 8, 5-11).
       O encontro de Jesus com o Centurião mostra como é fundamental a tolerância e a colaboração com aqueles que não fazem parte da nossa religião, da nossa ideologia, do nosso partido, do nosso grupo. Por um lado a abertura do Centurião, um homem justo, honesto, crente, que recorre a Jesus, depois de ter ouvido maravilhas acerca d'Ele, pedindo auxílio, não para si ou para a sua família, mas para um dos seus criados a quem ele estima.
       Por outro lado, Jesus mostra claramente que não é preciso ser judeu, pertencer a esta ou àquela religião para se ser bom e para fazer o bem. É um convite à tolerância, à compreensão, ao acolhimento do bem que nos chega dos outros, uma vez que todo o bem nos aproxima de Deus. Mas isso não alivia a nossa responsabilidade, todos podem ser bons, mas pelo facto de sermos cristãos a nossa consciência deve estar ainda mais apurada...
       O testemunho que Jesus dá acerca do centurião foi assumido e sublinhado pela Igreja, incluindo na Eucaristia a sua profissão de fé: "Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa; mas diz uma só palavra e o meu servo ficará curado". (Na Liturgia: "Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei um palavra e eu serei salvo").

sábado, 26 de novembro de 2016

Domingo I do Advento - A - 27 de novembro de 2016

       1 – Iniciamos o Advento, tempo novo de graça e salvação, que nos envolve nos preparativos para celebrarmos o nascimento de Jesus. Parece que ainda ontem celebrámos o Natal anterior e já estamos de volta. O tempo urge, parece escapar-nos como a areia por entre os dedos das mãos, ainda que tentemos retê-lo. No final não adianta calcular as oportunidades desperdiçadas, importa mesmo apanhar o comboio da vida. É inevitável que prossigamos sem apagar o passado, mas também sem ficar prisioneiros, como que num labirinto sem saída.
       Há preocupações, sonhos e projetos que seguem connosco. As árvores precisam de se adentrar pela terra para suster o peso e o crescimento dos ramos. Quanto maior a árvore (por regra) maiores as raízes.
       O Advento não se desfaz de tudo o que está antes, mas dá-lhe o colorido da festa que se aproxima, comprometendo-nos mais, fazendo-nos recordar a razão da nossa esperança e do nosso compromisso com os outros. Preparamo-nos para celebrar o aniversário de Jesus. Não é algo que se repita. Nada se repete na nossa vida. Cada instante conta. Cada segundo. É a minha vida, a tua, é a nossa vida. Todos os momentos são importantes. Todos os minutos valem!
       Um ciclo finda, outro se inicia, entrelaçando-se no anterior e projetando-nos para o futuro. Jesus alerta-nos para estarmos vigilantes, preparados para a vinda do Filho do Homem. Jesus fala da Sua vinda futura. Veio viver connosco, como um de nós. Aos discípulos daqueles dias anuncia-lhes os tempos novos que se aproximam, em que virá o Filho do Homem. Historicamente, aproxima-se a Sua morte. Após a morte advirá a Sua ressurreição, inaugurando, em plenitude, um Reino novo, de paz e esperança, de perdão e compromisso, de justiça, de serviço e de amor. Como nos dias de Noé, a vida pode passar-nos ao lado. A chegada do Filho de Deus poderá passar despercebida. O mistério da Sua morte e da Sua ressurreição passou indiferente para muitos dos seus concidadãos e conterrâneos. Também nos pode passar ao lado. Não podemos deixar o tempo correr. É preciso que saboreemos a vida e nos comprometamos com os que peregrinam connosco na história.
       Ele continua a emergir na nossa vida e a ressuscitar connosco em todo o bem que praticamos. Por ora, preparamos a celebração da Sua primeira vinda, a Encarnação, Deus que Se faz Homem, Jesus, mas em dinâmica futura. Jesus volta. Não tardará. Como nos vai encontrar? Como O vamos receber?
       2 – "Vigiai, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor. Compreendei isto: se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão, estaria vigilante e não deixaria arrombar a sua casa. Por isso, estai vós também preparados, porque na hora em que menos pensais, virá o Filho do homem".
       O que se avizinha não tem de ser atemorizador! A salvação está ao nosso alcance, foi-nos colocada na palma da mão. Jesus viveu e morreu por nós, por mim e por ti. E, por mim e por ti, por nós, ressuscitou. Introduziu-nos na eternidade de Deus. Deixemos que nasça em nós, na nossa vida, que nasça e nos ressuscite, nos desperte para a vida abundante de graça e de misericórdia.
       Nada há a temer quando estamos preparados. Sabendo que Ele vem. Há 2.000 mil anos veio ao mundo. A Sua vinda conjuga-se agora no presente. Vem. E vem para ficar, para criar raízes. E para que n'Ele enraizemos a nossa vida. Lembremo-nos que os ramos crescem à medida que as raízes se fincam na terra. Ou, na imagem da videira e da seiva que alimenta os ramos e as folhas. Quando a vida de Jesus Cristo circula em nós então a nossa vida está garantida, como promessa e como tarefa. Os sustos que apanhamos têm a ver com o facto de estarmos desprevenidos. Jesus previne-nos para estarmos preparados, para O reconhecermos e O acolhermos.
       No "Principezinho", a Raposa sublinha a alegria a crescer com o aproximar do encontro com o Principezinho quando sabe a hora do mesmo. "Teria sido preferível teres voltado à mesma hora. Se vieres, por exemplo, às quatro horas da tarde, eu, a partir das três, já começo a ser feliz. Quanto mais se aproximar a hora, mais feliz me sentirei. Às quatro em ponto já estarei agitada e inquieta; descobrirei o preço da felicidade! Mas se vieres a qualquer hora, ficarei sem saber a que horas hei de vestir o meu coração..."
       Ora, Jesus diz-nos que está a chegar. Revistamo-nos de alegria e de esperança. Preparemo-nos para que não nos surpreenda distraídos. Abramos os ouvidos, os olhos, o coração, a vida por inteiro. Ele está a chegar. Não aqui ou ali. Mas em nós. Em cada pessoa que se aproxima de nós, em cada pessoa de quem nos aproximamos. Em todo o tempo! A qualquer hora!
       3 – Para o Apóstolo São Paulo não há tempo a perder. "Chegou a hora de nos levantarmos do sono, porque a salvação está agora mais perto de nós do que quando abraçámos a fé. A noite vai adiantada e o dia está próximo".
       Ao acordarmos vamos retardando a hora de levantar, até ao limite. É mais fácil erguermo-nos de uma vez. Espreguiçando corremos o risco de voltar a adormecer e acordar fora de horas. Para mais, agora no inverno, quando a cama está quentinha e lá fora faz um temporal. A imagem usada pelo Apóstolo é feliz. Quando o dia desponta e temos um dia de trabalho pela frente, há que levantar-nos com as energias que acumulamos durante o descanso.
       Se é dia, então não precisamos de outras luzes que não a Luz que nos vem do alto, que nos vem de Jesus. "Abandonemos as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz. Andemos dignamente, como em pleno dia, evitando comezainas e excessos de bebida, as devassidões e libertinagens, as discórdias e ciúmes... revesti-vos do Senhor Jesus Cristo".
       A fé, recordemo-lo, não nos afasta dos outros, nem do mundo nem da história. Pelo contrário, é neste mundo atual, aqui e agora, com os outros, que nos preparamos para alcançar a vida eterna. A salvação é dádiva de Deus. Acolher a salvação impele-nos a agregar os outros, amando-os, servindo-os. Não podemos chegar diante do Pai se deixarmos os irmãos pelo caminho, como aconteceu com os irmãos de José (do Egipto) que o venderam a mercadores, deixando o pai, Jacob, inconsolável!
       4 – No Evangelho, Jesus aponta a Sua vinda futura, para a qual devemos estar preparados, pelas obras de misericórdia. São Paulo fala-nos da salvação que se iniciou com a adesão a Jesus Cristo, quando abraçámos a fé, mas também da redenção que se aproxima, comprometendo-nos. Se Jesus está a chegar, há que revestir o nosso coração de alegria e de amor para O receber.
       O profeta Isaías, por sua vez, acalenta a esperança de um tempo de graça e de justiça, em que as trevas darão lugar à luz e em que as armas servirão para cuidar do mundo, transformando-o, e não para destruir os outros. Não mais as nações se levantarão umas contra as outras, viverão em paz.
       O DIA que está a chegar traz-nos a salvação de Deus. Ele próprio virá como Juiz. E lá diz o senso comum que, assim como assim, mais vale que seja Deus o juiz e não um de nós.

       5 – A oração de coleta faz a ponte entre o tempo presente e a vida eterna. "Despertai, Senhor, nos vossos fiéis a vontade firme de se prepararem, pela prática das boas obras, para ir ao encontro de Cristo, de modo que, chamados um dia à sua direita, mereçam alcançar o reino dos Céus".
       Com efeito, a oração dulcifica o nosso coração, tornando-o audaz, atento e decidido no cuidado aos outros, com os quais chegaremos ao Céu, experimentando-o já na nossa vida!

Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia (A): Is 2, 1-5; Sl 121 (122); Rom 13, 11-14; Mt 24, 37-44.

Portanto, vigiai e orai em todo o tempo

       Disse Jesus aos seus discípulos: «Tende cuidado convosco, não suceda que os vossos corações se tornem pesados com a intemperança, a embriaguês e as preocupações da vida e esse dia não vos surpreenda subitamente como uma armadilha; porque ele atingirá todos os que habitam sobre a face da terra. Portanto, vigiai e orai em todo o tempo, para que possais livrar-vos de tudo isto que está para acontecer e comparecer sem temor diante do Filho do homem» (Lc 21, 34-36).
        No último dia do ano litúrgico, o Evangelho apresenta-nos a recomendação de Jesus - com que se iniciará o novo tempo litúrgico, o Advento -, vigiai e orai. Viver com alegria, com sentido, não esperar por tempos melhores ou mais favoráveis, viver em todo o tempo e em todas as circunstâncias dar o melhor de si. Orar para que o nosso coração não se torne pesado pelas situações do tempo actual mas nos abra à generosidade e à esperança.
       Ao olharmos à nossa volta, neste mundo em que vivemos, o nosso coração poderá tornar-se insensível, ou amargurado, pelo mal, pelo sofrimento, pelas diversas situações de injustiça e conflitualidade. A oração coloca-nos em Deus, na certeza que Ele, em Jesus Cristo já venceu, por nós e para nós, o mal. Cabe-nos agora prosseguir para construir à nossa volta, com palavras, gestos, obras, um ambiente mais saudável, sabendo que o mal não dura para sempre, mas sem cruzarmos resignadamente os braços à espera que as injustiças desapareçam por si mesmo...

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

O Reino de Deus está próximo...

       Vi, então, um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham desaparecido e o mar já não existia. E vi descer do céu, de junto de Deus, a cidade santa, a nova Jerusalém, já preparada, qual noiva adornada para o seu esposo (Apo 20, 1-4.11  - 21,2).
       Jesus contou-lhes a seguinte parábola: «Reparai na figueira e nas restantes árvores. Quando começam a deitar rebentos, ao vê-los, ficais a saber que o Verão está próximo. Assim também, quando virdes essas coisas, conhecereis que o Reino de Deus está próximo. Em verdade vos digo: Não passará esta geração sem que tudo se cumpra. O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão-de passar» (Lc 21, 29-33).

       O texto do Apocalipse continua a apresentar-nos a visão/revelação de São João. (Apocalipse = revelação). Anunciam-se tempos de dificuldade, grandes sinais contraditórios, grandes convulsões. Mas o texto sempre conclui com os tempos de salvação. São os novos céus e a nova terra que sofrem as dores da maternidade, mas que logo, ao darem à luz o tempo novo, trarão a alegria e a salvação de Deus.
       Por outro lado, Jesus, no Evangelho, utiliza uma linguagem semelhante, dizendo aos seus discípulos para se não alarmarem, pois o que está para acontecer é oportunidade de salvação, o Reino de Deus está próximo. Os sinais não são de desgraça, mas são sinais que falam da proximidade do Reino de Deus. O reino que se avizinha é um Reino de verdade, de justiça e de paz. Chega com o próprio Jesus Cristo, já está em ebulição. As palavras proféticas do Mestre dos Mestres são um desafio à confiança. Entretanto muitas coisas acontecerão, guerras, conflitos, destruição, morte, mas aqueles que perseverarem salvar-se-ão em Cristo Jesus.
       A Sua vinda é um encontro que nos redime, nos salva, nos insere na comunhão com Deus. Ele ilumina o nosso caminho e as nossas opções. As suas palavras elevam-nos até à eternidade. Por ora é tempo de colocarmos mãos à obra e transformarmos o mundo em que vivemos, cuja responsabilidade Deus nos concedeu.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Erguei-vos, a vossa libertação está próxima

       Disse Jesus aos seus discípulos: «Quando virdes Jerusalém cercada por exércitos, sabei que está próxima a sua devastação. Então, os que estiverem na Judeia fujam para os montes, os que estiverem dentro da cidade saiam para fora e os que estiverem nos campos não entrem na cidade. Porque serão dias de castigo, nos quais deverá cumprir-se tudo o que está escrito. Ai daquelas que estiverem para ser mães e das que andarem a amamentar nesses dias, porque haverá grande angústia na terra e indignação contra este povo. Cairão ao fio da espada, irão cativos para todas as nações, e Jerusalém será calcada pelos pagãos, até que aos pagãos chegue a sua hora. Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas e, na terra, angústia entre as nações, aterradas com o rugido e a agitação do mar. Os homens morrerão de pavor, na expetativa do que vai suceder ao universo, pois as forças celestes serão abaladas. Então hão-de ver o Filho do homem vir numa nuvem, com grande poder e glória. Quando estas coisas começarem a acontecer, erguei-vos e levantai a cabeça, porque a vossa libertação está próxima» (Lc 21, 20-28).
       Depois de uma série de avisos sobre o fim dos tempos, as guerras, a destruição da cidade de Jerusalém, os sinais a lua e nas estrelas, Jesus sossega os seus discípulos: "Erguei-vos e levantai a cabeça, a vossa libertação está próxima". É um apelo renovado à confiança em Deus. "Não temais", é a expressão tantas vezes usada por Jesus, para nos dizer que basta confiar. Ainda que tudo nos pareça adverso, Deus está próximo, sempre próximo, tão próximo, que nos habita.

SS. ANDRÉ DUNG-LAC, presbítero, e COMPANHEIROS, mártires

Nota biográfica:
       Nas regiões do Extremo Oriente, antigamente chamadas Tonquim, Annam e Cochinchina, agora integradas na república do Vietnam, foi anunciado o Evangelho desde o séc. XVI, por intermédio de numerosos missionários, que ali fizeram florescer uma fervorosa cristandade.
       Entre os séculos XVII e XIX, frequentes perseguições se levantaram contra os cristãos, apenas intercaladas por breves períodos de paz e tolerância, e uma incalculável multidão de mártires deu o supremo testemunho da fé com o derramamento do seu sangue com os mais diversos géneros de suplícios.
       Entre eles contam se os 117 mártires – 21 missionários europeus e 96 vietnamitas (37 sacerdotes e 59 leigos) – que foram canonizados por João Paulo II a 19 de Julho de 1988.
Oração de colecta:
       Deus, fonte e origem de toda a paternidade, que fortalecestes os mártires Santo André e seus Companheiros na fidelidade à cruz do vosso Filho até ao derramamento de sangue, concedei-nos, por sua intercessão, que, manifestando o vosso amor aos homens nossos irmãos, possamos chamar-nos e ser realmente vossos filhos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
São Paulo Le-Bao-Tinh aos alunos do Seminário de Ke Vinh, 1843

Participação dos mártires na vitória de Cristo, cabeça da Igreja

Eu, Paulo, prisioneiro pelo nome de Cristo, quero falar vos das tribulações que suporto cada dia, para que, inflamados no amor de Deus, comigo louveis o Senhor, porque é eterna a sua misericórdia.
Este cárcere é realmente a imagem do inferno eterno: além de suplícios de todo o género, tais como algemas, grilhões, cadeias de ferro, tenho de suportar o ódio, as agressões, calúnias, palavras indecorosas, repreensões, maldades, juramentos falsos e, além disso, as angústias e a tristeza. Mas Deus, que outrora libertou os três jovens da fornalha ardente, está sempre comigo e libertou me destas tribulações, convertendo as em suave doçura, porque é eterna a sua misericórdia.
Imerso nestes tormentos, que costumam aterrorizar os outros, pela graça de Deus sinto me alegre e contente, porque não estou só, mas estou com Cristo.
O nosso divino Mestre é quem leva todo o peso da cruz, impondo me apenas uma pequena parcela. Ele não é apenas espectador do meu combate, mas também combatente e vencedor em toda esta luta. Por isso é sobre a sua cabeça que se impõe a coroa da vitória, e nela participam todos os seus membros.
Como posso eu suportar este espectáculo, ao ver todos os dias os imperadores, mandarins e seus guardas blasfemar o vosso santo nome, Senhor, que estais sentado sobre os Querubins e os Serafins? Vede como a vossa cruz é calcada aos pés dos pagãos! Onde está a vossa glória? Ao ver tudo isto, sinto inflamar se o meu coração no vosso amor e prefiro ser dilacerado e morrer em testemunho da vossa infinita bondade.
Mostrai, Senhor, o vosso poder, salvai-me e amparai-me, para que na minha fraqueza se manifeste a vossa força e seja glorificada diante dos gentios, não aconteça que eu vacile pelo caminho e os inimigos se orgulhem na sua soberba.
Ouvindo tudo isto, caríssimos irmãos, tende coragem e alegrai-vos, dai graças eternamente a Deus, de quem procedem todos os bens, bendizei comigo ao Senhor, porque é eterna a sua misericórdia.
Louvai o Senhor, todas as nações, aclamai-O, todos os povos, porque Deus escolheu o que é fraco para confundir o forte, escolheu o que é insignificante e desprezível para confundir o que se julga nobre. Pela minha boca e inteligência confundiu os mestres deste mundo, porque é eterna a sua misericórdia.
Escrevo todas estas coisas, para que estejam unidas a vossa e a minha fé. No meio desta tempestade, lanço a âncora que me permitirá subir até ao trono de Deus: a esperança viva que está no meu coração.
Caríssimos irmãos, correi de modo que alcanceis a coroa da vitória, revesti-vos com a couraça da fé, tomai as armas de Cristo e combatei à direita e à esquerda, como ensina São Paulo, meu patrono. É melhor para vós entrar na vida sem os olhos ou debilitados, do que, com todos os membros, serdes lançados fora.
Ajudai-me com as vossas orações, a fim de que possa combater segundo as regras, combater o bom combate, combater até ao fim, de modo que termine felizmente a minha carreira. Se já não nos virmos nesta vida, encontrar-nos-emos na felicidade da vida futura, quando, na presença do Cordeiro imaculado, num só coração e numa só alma, cantarmos eternamente a alegria da vitória. Ámen.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Na perseverança salvareis as vossas almas

       Disse Jesus aos seus discípulos: "Deitar-vos-ão as mãos e hão-de perseguir-vos, entregando-vos às sinagogas e às prisões, conduzindo-vos à presença de reis e governadores, por causa do meu nome. Assim tereis ocasião de dar testemunho. Tende presente em vossos corações que não deveis preparar a vossa defesa. Eu vos darei língua e sabedoria a que nenhum dos vossos adversários poderá resistir ou contradizer. Sereis entregues até pelos vossos pais, irmãos, parentes e amigos. Causarão a morte a alguns de vós e todos vos odiarão por causa do meu nome; mas nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá. Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas" (Lc 21, 12-19).
       As palavras de Jesus aos seus discípulos são de alerta, mas igualmente de confiança. Alerta-os para as dificuldades que enfrentarão no cumprimento da missão de pregar a boa-nova, serão perseguidos e alguns deles sofrerão o martírio. O seguimento de Jesus não traz facilidades, mas há-de trazer a felicidade até à eternidade.
       Com efeito, Deus não nos pede impossíveis e, por isso, Jesus sossega os seus discípulos para que tenham confiança, Deus acompanhá-los-á, protegê-los-á, nem um só cabelo se perderá.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Não vos alarmeis... não será logo o fim!

       Jesus disse-lhes: «Dias virão em que, de tudo o que estais a ver, não ficará pedra sobre pedra: tudo será destruído». Eles perguntaram-Lhe: «Mestre, quando sucederá isto? Que sinal haverá de que está para acontecer?». Jesus respondeu: «Tende cuidado; não vos deixeis enganar, pois muitos virão em meu nome e dirão: ‘Sou eu’; e ainda: ‘O tempo está próximo’. Não os sigais. Quando ouvirdes falar de guerras e revoltas, não vos alarmeis: é preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim». Disse-lhes ainda: «Há-de erguer-se povo contra povo e reino contra reino. Haverá grandes terramotos e, em diversos lugares, fomes e epidemias. Haverá fenómenos espantosos e grandes sinais no céu» (Lc 21, 5-11).
       Ao olharmos para os textos litúrgicos sugeridos para hoje, constatámos como é fácil alguém utilizar a Bíblia para fomentar o medo, a ameaça, a pregação cataclítica do fim do mundo, de destruição de todo o que nos é visível, e até mesmo de uma grande castigo da parte de Deus.
       Mas sem necessidade de grandes teorizações, basta ler com atenção o texto sagrado para vermos que as palavras proferidas são sobretudo de esperança e de confiança em Deus. Diz Jesus, "não vos alarmeis" com estas coisas e se aparecerem os profetas da desgrala, "não vos deixeis enganar". Mesmo que o mundo esteja a ruir, tende confiança, "Eu venci o mundo".
       Aquilo que parecem profecias da desgraças, são anúncio do julgamento de Deus e Deus vem, em Jesus Cristo, para julgar recuperando o que estava perdido.
       A plenitude dos tempos, para nós crentes, chega com Jesus Cristo. Ele insere-nos no Seu mundo de justiça, de perdão, de amor e de paz. Com Ele, o reino de Deus chegou, ainda que não se tenha manifestado totalmente no tempo, impele-nos para a eternidade de Deus.
       Jesus caminha connosco. Não há nada a temer. E muito menos a morte. A nossa missão e o nosso compromisso é com a vida.

Santa Cecília, Virgem e Mártir

Nota biográfica:
       O culto de S. Cecília, que deu o nome a uma basílica construída em Roma no século V, difundiu se amplamente a partir da narração do seu martírio em que ela é exaltada como exemplo perfeitíssimo de mulher cristã, que abraçou a virgindade e sofreu o martírio por amor de Cristo.
Oração de coleta:
       Ouvi, Senhor, benignamente as nossas súplicas e, por intercessão de Santa Cecília, concedei nos as graças que Vos pedimos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo Vosso Filho na unidade do Espírito Santo.

Comentários de Santo Agostinho, bispo, sobre os Salmos

Cantai a Deus com arte e com júbilo

Dai graças ao Senhor com a cítara, tocai em sua honra o saltério de dez cordas. Cantai-Lhe um cântico novo. Despojai-vos do homem velho, pois conheceis já o cântico novo. Homem novo, testamento novo, cântico novo. O cântico novo não é para homens velhos. Só o aprendem os homens novos, que foram renovados pela graça despojando se do pecado e pertencem já ao novo testamento que é o reino dos Céus. Por ele suspira todo o nosso amor e lhe canta um cântico novo. Cante lhe um cântico novo, não a nossa língua, mas a nossa vida.
Cantai-Lhe um cântico novo, cantai-Lhe com arte e com alma. Cada qual pergunta como há de cantar ao Senhor. Canta para Ele, mas não cantes mal. Deus não quer ouvir um cântico que ofenda os seus ouvidos. Cantai bem, irmãos. Se te pedem que cantes para um bom apreciador de música de modo que lhe agrade, não te atreves a cantar se não tens preparação musical, pelo receio de lhe desagradar, porque um bom artista notará os defeitos que a qualquer outro passam despercebidos. Quem se atreverá a cantar para Deus, tão excelente conhecedor de cantores, juiz tão completo e tão bom apreciador de música? Como poderás oferecer Lhe tão excelente audição de canto que em nada ofendas ouvidos tão perfeitos?
Mas eis que Ele mesmo te sugere a maneira como Lhe hás de cantar. Não andes à procura de palavras, como se com elas pudesses expressar aquilo que agrada a Deus. Canta com júbilo. Cantar bem para Deus é cantar com júbilo. Que é cantar com júbilo? Compreender e não poder explicar com palavras o que se canta com o coração. Os que cantam na colheita, na vindima ou em qualquer trabalho intenso, começam a exultar de alegria com as palavras do cântico; mas depois, quando cresce a emoção, sentem que já não podem explicá la por palavras, desprendem se da letra das palavras e entregam se totalmente à melodia jubilosa.
O «júbilo» é aquela melodia que traduz a incapacidade de exprimir por palavras o que sente o coração. E a quem pode consagrar se este cântico de júbilo senão ao Deus inefável? É realmente inefável Aquele que não podes dar a conhecer por palavras. E se não tens palavras para O dar a conhecer e não deves permanecer calado, nada mais te resta senão cantar com júbilo. Sim, para que o coração possa expandir a imensidade superabundante da sua alegria sem se ver coarctado pelas sílabas das palavras, cantai ao Senhor com arte e com júbilo.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Apresentação de Nossa Senhora

Nota histórica:
       Neste dia da dedicação (ano 543) da igreja de Santa Maria a Nova, construída perto do templo de Jerusalém, celebramos, juntamente com os cristãos da Igreja Oriental, a «dedicação» que Maria fez de Si mesma a Deus, já desde a infância, movida pelo Espírito Santo que a encheu de graça desde a sua Imaculada Conceição.
Oração de coleta:
       Ao celebrarmos a memória gloriosa da Santíssima Virgem Maria, nós Vos pedimos, Senhor: concedei nos, por sua intercessão, que mereçamos participar da plenitude da vossa graça. Por Nosso Senhor.
Santo Agostinho, bispo

Acreditou pela fé e concebeu pela fé

Peço-vos que repareis no que diz o Senhor ao estender a mão para os seus discípulos: Estes são minha mãe e meus irmãos e Quem fizer a vontade de meu Pai, que Me enviou, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe. Porventura não fez a vontade do Pai a Virgem Maria, que acreditou pela fé e concebeu pela fé, que foi escolhida para que d’Ela nascesse a salvação entre os homens e que foi criada por Cristo antes de Cristo ter sido criado n’Ela? Maria cumpriu, e cumpriu perfeitamente, a vontade do Pai; e, por isso, Maria tem mais mérito por ter sido discípula de Cristo do que por ter sido mãe de Cristo; mais ditosa é Maria por ter sido discípula de Cristo do que por ter sido mãe de Cristo. Portanto, Maria era bem-aventurada, porque, antes de dar à luz o Mestre, trouxe-O no seio.
Vê se não é como digo. Passava o Senhor, acompanhado da multidão e fazendo milagres divinos. E uma mulher exclamou: Bem-aventurado o ventre que Te trouxe. Ditoso o ventre que Te trouxe. E o Senhor, para que se não buscasse a felicidade na natureza material da carne, que respondeu? Mais felizes os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática. Por isso também Maria era feliz porque ouviu a palavra de Deus e a pôs em prática; guardou mais a verdade de Cristo na sua mente do que o corpo de Cristo no seu seio. Cristo é verdade; Cristo é carne. Cristo é verdade no espírito de Maria, Cristo é carne no seio de Maria; é mais o que está no espírito do que o que se traz no seio.
Maria é santa, Maria é bem aventurada. Mas é mais importante a Igreja do que a Virgem Maria. Porquê? Porque Maria é uma parte da Igreja, membro santo, membro excelente, membro supereminente, mas apesar disso membro do corpo total. Se é membro do corpo, é certamente mais o corpo do que o membro. A cabeça é o Senhor, e Cristo total é a cabeça e o corpo. Que mais direi? Temos no corpo da Igreja uma cabeça divina, temos a Deus por cabeça.
Reparai portanto em vós mesmos, irmãos caríssimos. Também vós sois membros de Cristo, também vós sois corpo de Cristo. Vede como o sois, quando Ele diz: Eis minha mãe e meus irmãos. Como sereis mãe de Cristo? Todo aquele que ouve e pratica a vontade de meu Pai que está nos Céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe. Quando diz «irmãos» e «irmãs», fala evidentemente da mesma e única herança.
É uma só, na verdade, a herança. Por isso, a misericórdia de Cristo, que sendo único não quis ficar só, fez de nós herdeiros do Pai e herdeiros consigo.

sábado, 19 de novembro de 2016

Solenidade de Cristo Rei do Universo - 20.nov.2016

       1 – Que realeza esta! Um trono, uma cruz! Uma coroa, tecida de espinhos e de amor! Um reino, sem terras nem palácios! Um exército sem armas nem treino militar! Um poder feito de serviço e de perdão! Uma chefia que se coloca de joelhos para Se dar! Uma esperança que é pregada no madeiro! Uma certeza: quem seguir o líder deste Reino não vai ter uma vida facilitada! Um projeto de vida: amar, servir, dar-Se por inteiro, colocar os outros em primeiro lugar, salvar os outros para que os outros me/te salvem, comprometer-se na transformação do mundo, deixar marcas de amor espalhadas por toda a parte, em todos os momentos, seguir Jesus, transparecer Jesus, testemunhar Jesus, dar a vida por Jesus, para que Jesus seja tudo em todos!
       A realeza de Jesus contradiz as realezas do mundo. Estas têm vassalos! Jesus tem discípulos! Os súbditos dos reinos deste mundo têm títulos e honrarias. Os discípulos de Jesus estão comprometidos com a verdade, com o serviço, com a caridade! Os membros dos reinos históricos têm regalias e são premiados com terras e mais títulos pelos serviços prestados. Os seguidores de Jesus são premiados com a alegria e com o sofrimento, com a satisfação de O seguir e com a certeza que serão perseguidos como Ele.
´      O rei veste os melhores trajes, linho fino, seda, com brocados de ouro, com mantos compridos... Adorna-se com fios e anéis, com pedras preciosas. O "Rei dos Judeus" está sem vestes! D'Ele se pode dizer com propriedade: "o rei vai nu". Apenas um pano em volta da cintura. Sem bolsas nem cordões! A túnica é sorteada! As roupas distribuídas! Sem maquilhagens nem adornos reais. Está maquilhado de sangue e de lágrimas, de amor e de confiança em Deus.
       2 – «Salvou os outros: salve-Se a Si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito»... «Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo»... «Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo e a nós também».
       Uma das tentações nas sociedades do nosso tempo é visível diante da cruz de Jesus. Salva-Te a Ti e a nós. Eu, eu e eu! De fora fica o tu e os outros! O mundo é atravessado por uma crise que parece não ter fim: guerras, fome, violência, pobreza, refugiados, exclusão social, fanatismo religioso, nacionalismos cada vez mais acentuados, racismo a florescer. As razões são variadas: interesses económico-financeiros, defesa de valores "religiosos" e da identidade cultural! Mas, no final, a única razão é o egoísmo, o colocar-se a si em primeiro lugar! À frente de todos, além e apesar de todos!
       Os chefes do povo, alguns dos soldados, um dos malfeitores, sintonizam pelo mesmo diapasão. É sempre um risco deixar-nos levar pelos outros quando estamos em grupo!
       O outro malfeitor não se deixa envolver pelos escárnios e pela maledicência. Intervém. Marca posição. Distancia-se da opinião corrente e das vozes sincronizadas contra Jesus. Já não tem muito a perder! Melhor, tem tudo a ganhar! Repreende o companheiro de armas: «Não temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo das nossas más ações. Mas Ele nada praticou de condenável».
       Este malfeitor deixou-se trespassar pelo olhar de Jesus e pelo Seu amor. E, por conseguinte, é para Ele que se dirige em súplica: «Jesus, lembra-Te de Mim, quando vieres com a tua realeza». Em tons de brincadeira, costuma dizer-se que este foi o maior ou melhor ladrão, pois no último momento roubou o Reino de Deus. «Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso». A realeza de Jesus exerce-se na misericórdia, na compaixão, no perdão. Há sempre tempo enquanto estamos no tempo. A misericórdia de Deus não tem limites, a não ser que lhos ponhamos!

       3 – O Rei David foi promessa e esperança para todo o Israel, para Judá e para o reino do Norte. Tornou-se figura de uma realeza perene, eterna, definitiva, universal. As tribos procuram-no para o aclamarem rei, pois já no tempo do rei Saúl era David quem "dirigia as entradas e saídas de Israel".
       O reinado de David será lido como um pastoreio. Com efeito, antes de ser rei era pastor. Tornando-se rei, é o Pastor de todo o Israel, o Povo de Deus. Pastoreia em nome de Deus!
       De Jesus se dirá que é o novo Moisés e, por conseguinte, na montanha nos dá uma lei nova, as Bem-aventuranças, que não anula a anterior, mas a pleniza no amor e no serviço. É Ele também o novo David, Aquele que vem da parte de Deus, é aclamado "Filho de David", para ser acolhido em minha, na tua, em nossa casa, no meu, no teu, em nosso coração, na minha, na tua, na nossa vida! Para que seja Ele a reinar em nós! É o Bom Pastor que nos congrega num só rebanho!
       4 – Um Rei. Um Pastor. Um rei sem coroa nem exército nem palácio, nem vassalos, nem escravos. Um pastor que cuida, ajunta, guia, envolve, avança e recua, para que nenhuma ovelha se perca, para que todas possam integrar o mesmo redil, condu-las em segurança, leva-as às águas refrescantes, às pastagens verdejantes. Um Rei que é Pastor. São os pastores, pobres e simples, os primeiros a louvar a Deus pela Sua chegada. E os magos, vindos do oriente, vindos de longe, estrangeiros e estranhos, os primeiros a reconhecê-l'O na Sua realeza, na sua divindade e na Sua humanidade.
       Um Deus ao alcance do nosso olhar! "Cristo é a imagem de Deus invisível, o Primogénito de toda a criatura". Podemos vê-l'O, podemos persegui-l'O, podemos amá-l'O e, até, podemos matá-l'O. Um Deus que, em Cristo, Se deixa abraçar, beijar, Se deixa ver, Se deixa escutar. Jesus leva tão longe a misericórdia de Deus, que Se deixa crucificar, levando até ao fim o Seu amor por mim, por ti, por nós, por todos. Para nos salvar! Para nos assumir por inteiro. "Aprouve a Deus que n’Ele residisse toda a plenitude e por Ele fossem reconciliadas consigo todas as coisas, estabelecendo a paz, pelo sangue da sua cruz, com todas as criaturas na terra e nos céus".
       Por conseguinte, "damos graças a Deus Pai, que nos fez dignos de tomar parte na herança dos santos, na luz divina. Ele nos libertou do poder das trevas e nos transferiu para o reino do seu Filho muito amado, no qual temos a redenção, o perdão dos pecados".

       5 – A primeira missão de quem é amado é responder (e retribuir). Deus precede-nos no amor, criando-nos e, em Cristo, redimindo-nos, elevando-nos. O amor ama o amor. Amor com amor se paga (São João da Cruz). Quem ama predispõe-se a ser amado (ou odiado, esquecido, recusado, desprezado). O amor de Deus é absoluto, está antes e acima de qualquer condição. Em todo o caso, como sublinha Bento XVI, também Deus espera que Lhe respondamos, que retribuamos o amor com que nos criou e nos salvou. Cria-nos à Sua imagem e semelhança para sermos capazes de Lhe responder. A semelhança está na capacidade de amar e de ser amado.
        Nesta resposta, neste sermos responsáveis pelo amor que recebemos, está a nossa felicidade, o sentido definitivo da nossa vida, a abertura ao transcendente e a dinâmica da fraternidade. O amor impulsiona-nos a sermos criativos, cocriadores, na certeza que perduraremos além do tempo e da história, pois o amor clama por eternidade!
       “Deus eterno e omnipotente, que no vosso amado Filho, Rei do universo, quisestes instaurar todas as coisas, concedei propício que todas as criaturas, libertas da escravidão, sirvam a vossa majestade e Vos glorifiquem eternamente”.
        A glorificação de Deus é a vida do homem, o homem vivo, nas palavras de Santo Ireneu. Quanto mais perto de Deus, mais perto uns dos outros. Quando predomina a realeza de Deus, a certeza de que seremos iguais, seremos irmãos!

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (C): 2 Sam 5, 1-3; Sal 121 (122); Col 1, 12-20; Lc 23, 35-43.

Deus é um Deus de vivos e não de mortos!

      Aproximaram-se de Jesus alguns saduceus – que negam a ressurreição – e fizeram-lhe a seguinte pergunta: «Mestre, Moisés deixou-nos escrito: ‘Se morrer a alguém um irmão, que deixe mulher, mas sem filhos, esse homem deve casar com a viúva, para dar descendência a seu irmão’. Ora havia sete irmãos. O primeiro casou-se e morreu sem filhos. O segundo e depois o terceiro desposaram a viúva; e o mesmo sucedeu aos sete, que morreram e não deixaram filhos. Por fim, morreu também a mulher. De qual destes será ela esposa na ressurreição, uma vez que os sete a tiveram por mulher?». Disse-lhes Jesus:  «Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento. Mas aqueles que forem dignos de tomar parte na vida futura e na ressurreição dos mortos, nem se casam nem se dão em casamento. Na verdade, já não podem morrer, pois são como os Anjos, e, porque nasceram da ressurreição, são filhos de Deus. E que os mortos ressuscitam, até Moisés o deu a entender no episódio da sarça ardente, quando chama ao Senhor ‘o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob’. Não é um Deus de mortos, mas de vivos, porque para Ele todos estão vivos». Então alguns escribas tomaram a palavra e disseram: «Falaste bem, Mestre» (Lc 20, 27-40).
       No tempo de Jesus existiam vários grupos, fações. Um desses grupos, os saduceus, classe dos comerciantes, preocupava-se sobretudo com o que era material, com o que poderia dar dinheiro. Era um grupo materialista. Os seus membros não acreditavam na ressurreição dos mortos.
       Aproximam-se de Jesus e colocam-lhe um "problema" muito da tradição judaica. Se um irmão tivesse casado e morrido sem descendência, o irmão a seguir desposaria a mesma mulher para desse modo lhe dar descendência, e se este, por sua vez, também não deixasse descendência, o seguinte assumia a responsabilidade de casar com a mesma mulher a fim de lhe dar a descendência. Ora sucedeu que sete desposaram a mulher, mas todos morreram sem descendência, com qual deles ficaria ela na vida eterna?
       A resposta de Jesus é clara e inequívoca, na vida eterna nem se casam nem se dão em casamento. É uma realidade distinta da terrena e história.
       Por outro lado, Jesus evoca a Sagrada Escritura, na ocasião em que Moisés vai falar com Deus, tratando Deus como o "Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob", ou seja, um Deus de vivos e não de mortos. Como Moisés é uma referência fundante e fundamental para todos os judeus, esta referência de Jesus é conclusiva e não merece reparos.
       Jesus di-lo de forma clara, quando invocamos o nome de Deus é porque reconhecemos que Ele vive, e que a Sua referência é aos vivos, mesmo que tenham morrido há centenas de anos. A fé na ressurreição abre a nossa vida à eternidade, abre-nos à esperança de um sentido último e definitivo.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

A minha casa é casa de oração

       Jesus entrou no templo e começou a expulsar os vendedores, dizendo-lhes: «Está escrito: ‘A minha casa é casa de oração’; e vós fizestes dela ‘um covil de ladrões’». Jesus ensinava todos os dias no templo. Os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os chefes do povo procuravam dar Lhe a morte, mas não encontravam o modo de o fazer, porque todo o povo ficava maravilhado quando O ouvia (Lc 19, 45-48).
       O verdadeiro culto, como sublinha Jesus, há de ser em espírito e verdade. O culto que se exterioriza, vivendo-se em comunidade e em lógica de partilha e amadurecimento de fé, é fundamental mas se decorrer do culto interior, da conversão, da adequação da vida aos ideiais do perdão, do amor, da partilha, da paz que nos é dada em Jesus Cristo.
       No entanto, o templo como lugar sagrado é espaço de encontro, de oração, de reflexão, de escuta da palavra e da vontade de Deus. Por conseguinte deverá ser um lugar digno, antecipando e expressando o templo que é cada um de nós, arrumado e arejado, recolhido e à escuta, para sermos lugar de encontro com Deus e para que o expressemos em gestos e palavras.

Dedicação das Basílicas de São PEDRO e São PAULO

       Dedicação das Basílicas de S. PEDRO e S. PAULO, Apóstolos
       Nota Histórica
       Já no século XII se celebrava na basílica vaticana de São Pedro e na de São Paulo na Via Ostiense o aniversário das respectivas dedicações, feitas pelos papas Silvestre e Sirício no século IV. Esta comemoração estendeu se posteriormente a todas as igrejas do rito romano. Assim como no aniversário da dedicação da basílica de Santa Maria Maior (5 de Agosto) se celebra a Maternidade da Santíssima Virgem Mãe de Deus, assim neste dia se veneram os dois principais Apóstolos de Cristo.

Guardai, Senhor, a vossa Igreja
sob a protecção dos apóstolos São Pedro e São Paulo,
de modo que, tendo recebido deles o primeiro anúncio do Evangelho,
receba também, por sua intercessão,
o constante auxílio da graça celeste até ao fim dos tempos.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Dos Sermões de São Leão Magno, papa

Pedro e Paulo, germes da semente divina

É preciosa aos olhos do Senhor a morte dos seus santos, e nenhuma espécie de crueldade pode destruir a religião que foi fundada pelo mistério da cruz de Cristo. A Igreja não diminui com as perseguições, mas aumenta; e o campo do Senhor reveste se sempre com uma seara mais abundante quando os grãos, caídos um a um, nascem multiplicados.
Por isso estes dois ilustres germes da semente divina deram origem a uma inumerável descendência, como testemunham os milhares de mártires bem aventurados, que, rivalizando com o triunfo dos Apóstolos, rodearam a nossa cidade de multidões purpuradas e resplandecentes ao longe e ao largo, como se a coroassem com um diadema entrelaçado de muitas e belas pedras preciosas.
Devemos certamente alegrar-nos, irmãos caríssimos, na comemoração de todos os Santos, que são para nós um dom de Deus, protecção da nossa fraqueza, exemplo de paciência e confirmação da nossa fé. Mas ao celebrarmos a memória dos apóstolos São Pedro e São Paulo, com razão nos devemos gloriar mais jubilosamente, pois a graça de Deus os elevou tão alto entre todos os membros da Igreja que os constituiu como a luz dos dois olhos no corpo de que Cristo é a cabeça.
Nos seus méritos e virtudes, que superam toda a eloquência humana, nada devemos considerar diferente ou distinto num e noutro, porquanto a eleição os tornou semelhantes, o trabalho parecidos e o fim da vida iguais.
Tal como nós já experimentámos e os nossos maiores demonstraram, cremos e confiamos que no meio de todas as dificuldades desta vida seremos sempre ajudados pela oração dos nossos principais protectores para obter a misericórdia de Deus. Deste modo, se os nossos pecados nos abatem, elevam nos os méritos dos Apóstolos.
Fonte: Secretariado Nacional da Liturgia.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Jesus chorou sobre a cidade de Jerusalém

       Quando Jesus Se aproximou de Jerusalém, ao ver a cidade, chorou sobre ela e disse: "Se ao menos hoje conhecesses o que te pode dar a paz! Mas não. Está escondido a teus olhos. Dias virão para ti, em que os teus inimigos te rodearão de trincheiras e te apertarão de todos os lados. Esmagar-te-ão a ti e aos teus filhos e não deixarão em ti pedra sobre pedra, por não teres reconhecido o tempo em que foste visitada" (Lc 19, 41-44).
       Ao olharmos para o Médio Oriente deparamos, na maioria da vezes, com notícias de atentados terroristas, de respostas bélicas às ameaças, suicídios para matar grupos de pessoas, conflitos, muros físicos que dividem, suspeitos em todas as esquinas, famílias destroçadas pela morte de algum familiar. Jerusalém é um foco de divisão. Três religiões presentes na Terra Santa: judaísmo, islamismo e cristianismo. Certamente outras pessoas com outros credos religiosos ou sem credo nenhum. A religião que deveria "re-ligare", deveria ser ponte, tornou-se muro intransponível entre os judeus e os muçulmanos, mas onde, no passado, o cristianismo também esteve presente nas guerras e guerrilhas pela posse da Terra sagrada.
       Jesus chora sobre Jerusalém sabendo que a salvação está próxima, basta abrir o coração ao perdão e ao amor. Mas chegar ao coração?

Santa Isabel da Hungria

Nota biográfica:
       Isabel era filha de André II, rei da Hungria, e nasceu no ano 1207. Ainda muito jovem foi dada em matrimónio a Luís IV, landgrave da Turíngia, e teve três filhos. Dedicou-se a uma vida de intensa meditação das realidades celestes e de caridade para com o próximo. Depois da morte de seu marido, renunciou aos seus títulos e bens e construiu um hospital onde ela mesma servia os enfermos. Morreu em Marburgo no ano 1231.
Oração de coleta:
       Senhor, que destes a Santa Isabel da Hungria o dom de conhecer e venerar a Cristo nos pobres, concedei nos, por sua intercessão, a graça de servirmos com caridade sem limites os pobres e os atribulados. Por Nosso Senhor, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Conrado de Marburgo,
diretor espiritual de Santa Isabel da Hungria
ao Sumo Pontífice, no ano 1232

Isabel conheceu e amou a Cristo nos pobres

Isabel começou muito cedo a distinguir se na virtude. Em toda a sua vida foi consoladora dos pobres; a dada altura dedicou se inteiramente aos famintos e, junto de um castelo seu, mandou construir um hospital onde recolhia muitos enfermos e estropiados. Distribuía largamente os dons da sua beneficência, não só a quantos ali acorriam a pedir esmola, mas em todos os territórios da jurisdição de seu marido, chegando ao ponto de gastar nessas obras de assistência todas as rendas provenientes dos quatro principados e vendendo por fim, para utilidade dos pobres, todos os objectos de valor e vestes preciosas.
Costumava visitar duas vezes por dia, de manhã e à tarde, todos os seus doentes, ocupando se pessoalmente dos que apresentavam aspeto mais repugnante. Dava de comer a uns, deitava outros na cama, transportava outros aos ombros e dedicava se a todo o género de serviço humanitário. Em todas estas coisas nunca ela encontrou má vontade em seu marido de grata memória. Finalmente, depois da morte deste, no desejo da suma perfeição, pediu me com lágrimas que a autorizasse a pedir esmola de porta em porta.
Precisamente no dia de Sexta-Feira Santa, estando desnudados os altares, numa capela da sua cidade, onde acolhera os Frades Menores, na presença de testemunhas e postas as mãos sobre o altar, renunciou à sua própria vontade, a todas as pompas do mundo e ao que o Salvador no Evangelho aconselha a deixar. Feito isto e vendo que poderia ser absorvida pelo tumulto do século e pela glória mundana naquela terra, em que no tempo do marido vivera com tanta grandeza, veio para Marburgo contra minha vontade. Nesta cidade construiu um hospital para receber doentes e aleijados dos quais sentou à sua mesa os mais miseráveis e desprezados.
Além destas atividades caritativas, diante de Deus o afirmo, raras vezes encontrei mulher mais dada à contemplação. Algumas religiosas e religiosos viram muitas vezes que, quando voltava do recolhimento da oração, o seu rosto resplandecia maravilhosamente e os seus olhos brilhavam como raios de sol.
Antes de morrer ouvi a de confissão. Perguntando-lhe o que se devia fazer dos seus haveres e mobiliário, respondeu me que tudo quanto parecia possuir era já dos pobres desde há muito tempo e pediu-me que distribuísse tudo por eles, exceto a pobre túnica com que estava vestida e com a qual desejava ser sepultada. Depois recebeu o Corpo do Senhor e, seguidamente, até à hora de Vésperas, falou muitas vezes do que mais a tinha impressionado na pregação. Por fim, encomendou devotamente a Deus os que lhe assistiam e expirou como quem adormece suavemente.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Fiel no pouco, receberás o governo de dez cidades

       Então Jesus disse: «Um homem nobre foi para uma região distante, a fim de ser coroado rei e depois voltar. Antes, porém, chamou dez dos seus servos e entregou-lhes dez minas, dizendo: ‘Fazei-as render até que eu volte’...
       Quando voltou, investido do poder real, mandou chamar à sua presença os servos a quem entregara o dinheiro, para saber o que cada um tinha lucrado...
       Apresentou-se o primeiro e disse: ‘Senhor, a tua mina rendeu dez minas’. Ele respondeu-lhe: ‘Muito bem, servo bom! Porque foste fiel no pouco, receberás o governo de dez cidades’. Veio o segundo e disse-lhe: ‘Senhor, a tua mina rendeu cinco minas’. A este respondeu igualmente: ‘Tu também, ficarás à frente de cinco cidades’. Depois veio o outro e disse-lhe: ‘Senhor, aqui está a tua mina, que eu guardei num lenço, pois tive medo de ti, que és homem severo: levantas o que não depositaste e colhes o que não semeaste’. Disse-lhe o senhor: ‘Servo mau, pela tua boca te julgo. Sabias que sou homem severo, que levanto o que não depositei e colho o que não semeei. Então, porque não entregaste ao banco o meu dinheiro?...
       A todo aquele que tem se dará mais, mas àquele que não tem, até o que tem lhe será tirado. Quanto a esses meus inimigos, que não me quiseram como rei, trazei-os aqui e degolai-os na minha presença’». 
       Dito isto, Jesus seguiu, à frente do povo, para Jerusalém (Lc 19, 11-28).
       A parábola que Jesus nos apresenta, aqui na versão do Evangelho de São Lucas, corresponde à parábola dos Talentos, do Evangelho de São Mateus e que nos foi proposta no domingo passado. O reino de Deus é comparado a um senhor ou um rei que vai de viagem e se ausenta por um tempo determinado. Na sua volta ajusta contas com aqueles a quem confiou os seus bens, o seu dinheiro, os talentos. Com satisfação há quem multiplique o que recebeu e assim aquele senhor confiará bens maiores. Porém, um deles, temendo a severidade do seu senhor não produz, esconde com medo os bens que recebeu. O senhor retira-lhe tudo pois se não foi fiel no pouco, muito menos o será no muito.
       Deus entrega-nos o mundo. "Ausenta-Se" e deixa-nos ao comando. Cabe-nos a nós, na Sua "ausência", edificar, construir, transformar o mundo em que vivemos. Quando chegar a hora do ajuste de contas, será a hora da misericórdia de Deus, então como queremos apresentar-nos diante do Senhor?

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Hoje a salvação entrou nesta casa!

       Jesus entrou em Jericó e começou a atravessar a cidade. Vivia ali um homem rico chamado Zaqueu, que era chefe de publicanos. Procurava ver quem era Jesus, mas, devido à multidão, não podia vê-l’O, porque era de pequena estatura. Então correu mais à frente e subiu a um sicómoro, para ver Jesus, que havia de passar por ali. Quando Jesus chegou ao local, olhou para cima e disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, que Eu hoje devo ficar em tua casa». Ele desceu rapidamente e recebeu Jesus com alegria. Ao verem isto, todos murmuravam, dizendo: «Foi hospedar-Se em casa dum pecador». Entretanto, Zaqueu apresentou-se ao Senhor, dizendo: «Senhor, vou dar aos pobres metade dos meus bens e, se causei qualquer prejuízo a alguém, restituirei quatro vezes mais». Disse-lhe Jesus: «Hoje entrou a salvação nesta casa, porque Zaqueu também é filho de Abraão. Com efeito, o Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido» ( Lc 19, 1-10).
       O Evangelho deste dia mostra o chamamento interior. Deus suscita em nós a conversão. Zaqueu sentiu necessidade de encontrar Jesus. Ultrapassa os obstáculos, fazendo que a sua pequena estatura não seja impedimento para chegar até Jesus. Jesus olha e vê Zaqueu. Deus vê para lá da nossa estatura, do nosso pecado, mas nós precisamos de caminhar ao Seu encontro e deixarmo-nos ver por Ele, para, a exemplo de Zaqueu, nos deixarmos transformar.

       Alguns desafios do Evangelho proposto para hoje:
- desejo de ver e de encontrar Jesus;
- deixar-nos "ver" por Ele. Não nos escondamos da Sua presença e do Seu chamamento;
- desçamos do nosso "pedestal", do nosso orgulho, e acolhámo-l'O em nossa casa. Façamos do nosso coração e da nossa vida, a Sua casa, morada santa de Deus, pois "hoje entrou a salvação nesta casa";
- acolher a pessoa no seu todo, como ser humano, filho de Deus. Jesus não julga Zaqueu. Chama-o na sua pequenez, quer ir a sua casa..
- que a nossa pequena estatura não nos impeça de ver Jesus, que veio "procurar e salvar o que estava perdido".
Veja a reflexão completa no XXXI Domingo Tempo Comum.

Santo Alberto Magno, Bispo e Doutor da Igreja

Nota biográfica: 
       Nasceu em Lauingen, junto do Danúbio (Alemanha), cerca do ano 1206. Fez os seus estudos em Pádua e em Paris. Entrou na Ordem dos Pregadores e exerceu o magistério em vários lugares com grande competência. Ordenado bispo de Ratisbona, pôs todo o seu empenho em estabelecer a paz entre os povos e cidades. É autor de muitas e importantes obras, tanto de cultura sagrada como profana. Morreu em Colónia no ano 1280.
Oração de coleta:
       Senhor, que tornastes grande Santo Alberto na arte de conciliar a sabedoria humana com a fé divina, concedei nos que, seguindo os seus ensinamentos, possamos, através dos progressos da ciência, conhecer Vos melhor e amar Vos cada vez mais. Por Nosso Senhor.
Santo Alberto Magno, bispo, sobre o Evangelho de São Lucas

Pastor e doutor para edificação do Corpo de Cristo

Fazei isto em memória de Mim. Nestas palavras de Cristo há a notar duas coisas. A primeira é o mandato de celebrarmos este sacramento, quando diz: Fazei isto. A segunda é a afirmação de que se trata do memorial do Senhor que vai morrer por nós.
Fazei isto. Com efeito, não pôde mandar fazer nada mais útil, mais agradável, mais salutar, mais apetecível nem mais semelhante à vida eterna. Vejamos isto ponto por ponto.
O que é mais útil para a nossa vida é o que serve para nos dar o perdão dos pecados e a plenitude da graça. O Pai das almas, ensina nos tudo o que é útil para receber a sua santificação. Mas a sua santificação consiste no sacrifício de seu filho, isto é, na oblação sacramental, na qual Se ofereceu por nós ao Pai e Se ofereceu a nós para que O celebrássemos no sacramento. Por eles Me santifico a Mim próprio. Cristo, que pelo Espírito Santo Se ofereceu a Deus como sacrifício imaculado, purificará a nossa consciência das obras mortas, para servirmos o Deus vivo.
Nada mais agradável podemos fazer. Na verdade, que há de mais agradável do que o sacramento que contém todas as delícias divinas? Enviastes ao vosso povo um pão do Céu, já preparado, contendo em si todas as delícias e bom para todos os gostos. Este alimento revelava a doçura que tendes para com os vossos filhos, adaptava se ao gosto de quem o comia e acomodava se ao desejo de cada um.
Não pôde mandar fazer nada mais salutar. Este sacramento é fruto da árvore da vida e quem o recebe com fé sincera e devota jamais provará a morte. É árvore da vida para quem a alcançar; feliz o homem que a possuir. O que Me come viverá por Mim.
Não pôde mandar fazer nada mais apetecível. Este sacramento é fonte de amor e de união. Ora a maior prova de amor é dar se a si mesmo em alimento. Diziam os homens do meu acampamento: Quem nos dará a sua carne para nos saciarmos? É como se dissesse: Amei-os tanto a eles e eles a Mim que Eu ansiava por estar no seu interior e eles ansiavam por Me receberem, de modo que se incorporassem em Mim como membros do meu Corpo. Era impossível um modo de união mais íntimo e natural entre Mim e eles.
Também não podia mandar fazer nada de mais semelhante à vida eterna. Pois a permanência da vida eterna vem de Deus, que, com a sua doçura, Se infunde a Si mesmo nos bem aventurados. Este sacramento é a mais perfeita aproximação da vida eterna, porque esta consiste em saborear a doçura de Deus que Se comunica a Si mesmo e aos bem aventurados.