quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Novena da Imaculada Conceição 2016 - Primeiro Dia

       A grande festa da comunidade paroquial é a festa da Sua Padroeira, a Imaculada Conceição, no dia 8 de dezembro. Ela é também a Madrinha dos Bombeiros, a Padroeira da Santa Casa da Misericórdia, e a referência de toda a paróquia e dos seus grupos.
       Antes da festa a preparação. Nove dias, uma novena, numa espécie de retiro aberto, com a celebração do Terço, com a celebração da Eucaristia e com a Pregação. Este ano a pregação está a cargo do Pe. Joaquim Dionísio, Reitor do Seminário Maior de Lamego, Diretor da Voz de Lamego.
       O Pregador, neste primeiro dia, começou por nos situar "onde estávamos"... em Tabuaço, na Igreja, na casa de Jesus? Estamos em nossa casa, disse. Em casa sentimo-nos bem. Não estamos a mais. De outros lados podemos ser enxotados, mas não de nossa casa. Vimos e sentimo-nos em casa. Sentimo-nos bem porque viemos a um encontro com Deus, que nos ama.
       O Pe. Joaquim continou a questionar: o que nos deixa felizes? Muitas respostas podíamos dar: estar em família, ter saúde, ter trabalho, viajar... Mas o mais importante é saber que alguém nos ama. Estejamos onde estivermos, se alguém gosta de nós, isso deixa-nos felizes. Claro que há dificuldades... A fé não nos livra dos problemas, mas dá-nos a esperança para não desistir.
       Começamos esta Novena como um encontro, em nossa casa, com Maria, em alegria. Saber que alguém gosta de nós, é motivo para estarmos contentes, como Jesus. "Jesus exultou de alegria pela ação do Espírito Santo...". A alegria de estarmos em casa e de nos sabermos amados. A alegria que queremos partilhar.
       Em novena para escutar. Há diferenças entre escutar e ouvir... ouvimos muitas coisas, escutar é com a consciência, com o coração como Maria, que Deus nos dá por Mãe. A NOVENA há de ser tempo de encontro, de escuta para obedecer. Como Maria, que escuta e se dispõe a fazer a vontade do Senhor: eis a serva. Fazer-se pequenino. "Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos" (Lc 10, 21-24). Fazer-se pequenino para crescer. Quem é grande não tem espaço para crescer. O pecado de Adão e Eva foi quererem ser como Deus ao ponto de O dispensar. Ser pequenino para escutar. Escutar para obedecer a Deus. Seguindo Maria que nos manda fazer tudo o que Jesus nos diz. É o nosso propósito ao iniciarmos esta novena, em casa, com Maria, num encontro com Alguém que nos ama, com Jesus, para experimentarmos a alegria.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do Céu e da terra

Jesus exultou de alegria pela acção do Espírito Santo e disse:
       "Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque isto foi do teu agrado. Tudo Me foi entregue por meu Pai; e ninguém sabe o que é o Filho senão o Pai, nem o que é o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar". Voltando-Se depois para os discípulos, disse-lhes: "Felizes os olhos que vêem o que estais a ver, porque Eu vos digo que muitos profetas e reis quiseram ver o que vós vedes e não o viram e ouvir o que vós ouvis e não o ouviram" (Lc 10, 21-24).
       É bem conhecida esta passagem do Evangelho em que Jesus sublinha a simplicidade do coração para acolher e compreender a mensagem de Deus. A soberba e a sobranceria, o orgulho e a autosuficiência servem apenas para nos afastar dos outros, de Deus e dos grandes mistérios da vida humana. Só pergunta quem está a disposição de escutar, de compreender, de mudar. Ou as questões brotarão de um cinismo mordaz e destrutivo.
       Quem se julga dono da verdade e do mundo, nunca aceitará o que vem dos outros nem do Totalmente Outro, que em Jesus Se faz Totalmente próximo.

sábado, 26 de novembro de 2016

Domingo I do Advento - A - 27 de novembro de 2016

       1 – Iniciamos o Advento, tempo novo de graça e salvação, que nos envolve nos preparativos para celebrarmos o nascimento de Jesus. Parece que ainda ontem celebrámos o Natal anterior e já estamos de volta. O tempo urge, parece escapar-nos como a areia por entre os dedos das mãos, ainda que tentemos retê-lo. No final não adianta calcular as oportunidades desperdiçadas, importa mesmo apanhar o comboio da vida. É inevitável que prossigamos sem apagar o passado, mas também sem ficar prisioneiros, como que num labirinto sem saída.
       Há preocupações, sonhos e projetos que seguem connosco. As árvores precisam de se adentrar pela terra para suster o peso e o crescimento dos ramos. Quanto maior a árvore (por regra) maiores as raízes.
       O Advento não se desfaz de tudo o que está antes, mas dá-lhe o colorido da festa que se aproxima, comprometendo-nos mais, fazendo-nos recordar a razão da nossa esperança e do nosso compromisso com os outros. Preparamo-nos para celebrar o aniversário de Jesus. Não é algo que se repita. Nada se repete na nossa vida. Cada instante conta. Cada segundo. É a minha vida, a tua, é a nossa vida. Todos os momentos são importantes. Todos os minutos valem!
       Um ciclo finda, outro se inicia, entrelaçando-se no anterior e projetando-nos para o futuro. Jesus alerta-nos para estarmos vigilantes, preparados para a vinda do Filho do Homem. Jesus fala da Sua vinda futura. Veio viver connosco, como um de nós. Aos discípulos daqueles dias anuncia-lhes os tempos novos que se aproximam, em que virá o Filho do Homem. Historicamente, aproxima-se a Sua morte. Após a morte advirá a Sua ressurreição, inaugurando, em plenitude, um Reino novo, de paz e esperança, de perdão e compromisso, de justiça, de serviço e de amor. Como nos dias de Noé, a vida pode passar-nos ao lado. A chegada do Filho de Deus poderá passar despercebida. O mistério da Sua morte e da Sua ressurreição passou indiferente para muitos dos seus concidadãos e conterrâneos. Também nos pode passar ao lado. Não podemos deixar o tempo correr. É preciso que saboreemos a vida e nos comprometamos com os que peregrinam connosco na história.
       Ele continua a emergir na nossa vida e a ressuscitar connosco em todo o bem que praticamos. Por ora, preparamos a celebração da Sua primeira vinda, a Encarnação, Deus que Se faz Homem, Jesus, mas em dinâmica futura. Jesus volta. Não tardará. Como nos vai encontrar? Como O vamos receber?
       2 – "Vigiai, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor. Compreendei isto: se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão, estaria vigilante e não deixaria arrombar a sua casa. Por isso, estai vós também preparados, porque na hora em que menos pensais, virá o Filho do homem".
       O que se avizinha não tem de ser atemorizador! A salvação está ao nosso alcance, foi-nos colocada na palma da mão. Jesus viveu e morreu por nós, por mim e por ti. E, por mim e por ti, por nós, ressuscitou. Introduziu-nos na eternidade de Deus. Deixemos que nasça em nós, na nossa vida, que nasça e nos ressuscite, nos desperte para a vida abundante de graça e de misericórdia.
       Nada há a temer quando estamos preparados. Sabendo que Ele vem. Há 2.000 mil anos veio ao mundo. A Sua vinda conjuga-se agora no presente. Vem. E vem para ficar, para criar raízes. E para que n'Ele enraizemos a nossa vida. Lembremo-nos que os ramos crescem à medida que as raízes se fincam na terra. Ou, na imagem da videira e da seiva que alimenta os ramos e as folhas. Quando a vida de Jesus Cristo circula em nós então a nossa vida está garantida, como promessa e como tarefa. Os sustos que apanhamos têm a ver com o facto de estarmos desprevenidos. Jesus previne-nos para estarmos preparados, para O reconhecermos e O acolhermos.
       No "Principezinho", a Raposa sublinha a alegria a crescer com o aproximar do encontro com o Principezinho quando sabe a hora do mesmo. "Teria sido preferível teres voltado à mesma hora. Se vieres, por exemplo, às quatro horas da tarde, eu, a partir das três, já começo a ser feliz. Quanto mais se aproximar a hora, mais feliz me sentirei. Às quatro em ponto já estarei agitada e inquieta; descobrirei o preço da felicidade! Mas se vieres a qualquer hora, ficarei sem saber a que horas hei de vestir o meu coração..."
       Ora, Jesus diz-nos que está a chegar. Revistamo-nos de alegria e de esperança. Preparemo-nos para que não nos surpreenda distraídos. Abramos os ouvidos, os olhos, o coração, a vida por inteiro. Ele está a chegar. Não aqui ou ali. Mas em nós. Em cada pessoa que se aproxima de nós, em cada pessoa de quem nos aproximamos. Em todo o tempo! A qualquer hora!
       3 – Para o Apóstolo São Paulo não há tempo a perder. "Chegou a hora de nos levantarmos do sono, porque a salvação está agora mais perto de nós do que quando abraçámos a fé. A noite vai adiantada e o dia está próximo".
       Ao acordarmos vamos retardando a hora de levantar, até ao limite. É mais fácil erguermo-nos de uma vez. Espreguiçando corremos o risco de voltar a adormecer e acordar fora de horas. Para mais, agora no inverno, quando a cama está quentinha e lá fora faz um temporal. A imagem usada pelo Apóstolo é feliz. Quando o dia desponta e temos um dia de trabalho pela frente, há que levantar-nos com as energias que acumulamos durante o descanso.
       Se é dia, então não precisamos de outras luzes que não a Luz que nos vem do alto, que nos vem de Jesus. "Abandonemos as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz. Andemos dignamente, como em pleno dia, evitando comezainas e excessos de bebida, as devassidões e libertinagens, as discórdias e ciúmes... revesti-vos do Senhor Jesus Cristo".
       A fé, recordemo-lo, não nos afasta dos outros, nem do mundo nem da história. Pelo contrário, é neste mundo atual, aqui e agora, com os outros, que nos preparamos para alcançar a vida eterna. A salvação é dádiva de Deus. Acolher a salvação impele-nos a agregar os outros, amando-os, servindo-os. Não podemos chegar diante do Pai se deixarmos os irmãos pelo caminho, como aconteceu com os irmãos de José (do Egipto) que o venderam a mercadores, deixando o pai, Jacob, inconsolável!
       4 – No Evangelho, Jesus aponta a Sua vinda futura, para a qual devemos estar preparados, pelas obras de misericórdia. São Paulo fala-nos da salvação que se iniciou com a adesão a Jesus Cristo, quando abraçámos a fé, mas também da redenção que se aproxima, comprometendo-nos. Se Jesus está a chegar, há que revestir o nosso coração de alegria e de amor para O receber.
       O profeta Isaías, por sua vez, acalenta a esperança de um tempo de graça e de justiça, em que as trevas darão lugar à luz e em que as armas servirão para cuidar do mundo, transformando-o, e não para destruir os outros. Não mais as nações se levantarão umas contra as outras, viverão em paz.
       O DIA que está a chegar traz-nos a salvação de Deus. Ele próprio virá como Juiz. E lá diz o senso comum que, assim como assim, mais vale que seja Deus o juiz e não um de nós.

       5 – A oração de coleta faz a ponte entre o tempo presente e a vida eterna. "Despertai, Senhor, nos vossos fiéis a vontade firme de se prepararem, pela prática das boas obras, para ir ao encontro de Cristo, de modo que, chamados um dia à sua direita, mereçam alcançar o reino dos Céus".
       Com efeito, a oração dulcifica o nosso coração, tornando-o audaz, atento e decidido no cuidado aos outros, com os quais chegaremos ao Céu, experimentando-o já na nossa vida!

Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia (A): Is 2, 1-5; Sl 121 (122); Rom 13, 11-14; Mt 24, 37-44.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Erguei-vos, a vossa libertação está próxima

       Disse Jesus aos seus discípulos: «Quando virdes Jerusalém cercada por exércitos, sabei que está próxima a sua devastação. Então, os que estiverem na Judeia fujam para os montes, os que estiverem dentro da cidade saiam para fora e os que estiverem nos campos não entrem na cidade. Porque serão dias de castigo, nos quais deverá cumprir-se tudo o que está escrito. Ai daquelas que estiverem para ser mães e das que andarem a amamentar nesses dias, porque haverá grande angústia na terra e indignação contra este povo. Cairão ao fio da espada, irão cativos para todas as nações, e Jerusalém será calcada pelos pagãos, até que aos pagãos chegue a sua hora. Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas e, na terra, angústia entre as nações, aterradas com o rugido e a agitação do mar. Os homens morrerão de pavor, na expetativa do que vai suceder ao universo, pois as forças celestes serão abaladas. Então hão-de ver o Filho do homem vir numa nuvem, com grande poder e glória. Quando estas coisas começarem a acontecer, erguei-vos e levantai a cabeça, porque a vossa libertação está próxima» (Lc 21, 20-28).
       Depois de uma série de avisos sobre o fim dos tempos, as guerras, a destruição da cidade de Jerusalém, os sinais a lua e nas estrelas, Jesus sossega os seus discípulos: "Erguei-vos e levantai a cabeça, a vossa libertação está próxima". É um apelo renovado à confiança em Deus. "Não temais", é a expressão tantas vezes usada por Jesus, para nos dizer que basta confiar. Ainda que tudo nos pareça adverso, Deus está próximo, sempre próximo, tão próximo, que nos habita.

SS. ANDRÉ DUNG-LAC, presbítero, e COMPANHEIROS, mártires

Nota biográfica:
       Nas regiões do Extremo Oriente, antigamente chamadas Tonquim, Annam e Cochinchina, agora integradas na república do Vietnam, foi anunciado o Evangelho desde o séc. XVI, por intermédio de numerosos missionários, que ali fizeram florescer uma fervorosa cristandade.
       Entre os séculos XVII e XIX, frequentes perseguições se levantaram contra os cristãos, apenas intercaladas por breves períodos de paz e tolerância, e uma incalculável multidão de mártires deu o supremo testemunho da fé com o derramamento do seu sangue com os mais diversos géneros de suplícios.
       Entre eles contam se os 117 mártires – 21 missionários europeus e 96 vietnamitas (37 sacerdotes e 59 leigos) – que foram canonizados por João Paulo II a 19 de Julho de 1988.
Oração de colecta:
       Deus, fonte e origem de toda a paternidade, que fortalecestes os mártires Santo André e seus Companheiros na fidelidade à cruz do vosso Filho até ao derramamento de sangue, concedei-nos, por sua intercessão, que, manifestando o vosso amor aos homens nossos irmãos, possamos chamar-nos e ser realmente vossos filhos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
São Paulo Le-Bao-Tinh aos alunos do Seminário de Ke Vinh, 1843

Participação dos mártires na vitória de Cristo, cabeça da Igreja

Eu, Paulo, prisioneiro pelo nome de Cristo, quero falar vos das tribulações que suporto cada dia, para que, inflamados no amor de Deus, comigo louveis o Senhor, porque é eterna a sua misericórdia.
Este cárcere é realmente a imagem do inferno eterno: além de suplícios de todo o género, tais como algemas, grilhões, cadeias de ferro, tenho de suportar o ódio, as agressões, calúnias, palavras indecorosas, repreensões, maldades, juramentos falsos e, além disso, as angústias e a tristeza. Mas Deus, que outrora libertou os três jovens da fornalha ardente, está sempre comigo e libertou me destas tribulações, convertendo as em suave doçura, porque é eterna a sua misericórdia.
Imerso nestes tormentos, que costumam aterrorizar os outros, pela graça de Deus sinto me alegre e contente, porque não estou só, mas estou com Cristo.
O nosso divino Mestre é quem leva todo o peso da cruz, impondo me apenas uma pequena parcela. Ele não é apenas espectador do meu combate, mas também combatente e vencedor em toda esta luta. Por isso é sobre a sua cabeça que se impõe a coroa da vitória, e nela participam todos os seus membros.
Como posso eu suportar este espectáculo, ao ver todos os dias os imperadores, mandarins e seus guardas blasfemar o vosso santo nome, Senhor, que estais sentado sobre os Querubins e os Serafins? Vede como a vossa cruz é calcada aos pés dos pagãos! Onde está a vossa glória? Ao ver tudo isto, sinto inflamar se o meu coração no vosso amor e prefiro ser dilacerado e morrer em testemunho da vossa infinita bondade.
Mostrai, Senhor, o vosso poder, salvai-me e amparai-me, para que na minha fraqueza se manifeste a vossa força e seja glorificada diante dos gentios, não aconteça que eu vacile pelo caminho e os inimigos se orgulhem na sua soberba.
Ouvindo tudo isto, caríssimos irmãos, tende coragem e alegrai-vos, dai graças eternamente a Deus, de quem procedem todos os bens, bendizei comigo ao Senhor, porque é eterna a sua misericórdia.
Louvai o Senhor, todas as nações, aclamai-O, todos os povos, porque Deus escolheu o que é fraco para confundir o forte, escolheu o que é insignificante e desprezível para confundir o que se julga nobre. Pela minha boca e inteligência confundiu os mestres deste mundo, porque é eterna a sua misericórdia.
Escrevo todas estas coisas, para que estejam unidas a vossa e a minha fé. No meio desta tempestade, lanço a âncora que me permitirá subir até ao trono de Deus: a esperança viva que está no meu coração.
Caríssimos irmãos, correi de modo que alcanceis a coroa da vitória, revesti-vos com a couraça da fé, tomai as armas de Cristo e combatei à direita e à esquerda, como ensina São Paulo, meu patrono. É melhor para vós entrar na vida sem os olhos ou debilitados, do que, com todos os membros, serdes lançados fora.
Ajudai-me com as vossas orações, a fim de que possa combater segundo as regras, combater o bom combate, combater até ao fim, de modo que termine felizmente a minha carreira. Se já não nos virmos nesta vida, encontrar-nos-emos na felicidade da vida futura, quando, na presença do Cordeiro imaculado, num só coração e numa só alma, cantarmos eternamente a alegria da vitória. Ámen.

sábado, 19 de novembro de 2016

Solenidade de Cristo Rei do Universo - 20.nov.2016

       1 – Que realeza esta! Um trono, uma cruz! Uma coroa, tecida de espinhos e de amor! Um reino, sem terras nem palácios! Um exército sem armas nem treino militar! Um poder feito de serviço e de perdão! Uma chefia que se coloca de joelhos para Se dar! Uma esperança que é pregada no madeiro! Uma certeza: quem seguir o líder deste Reino não vai ter uma vida facilitada! Um projeto de vida: amar, servir, dar-Se por inteiro, colocar os outros em primeiro lugar, salvar os outros para que os outros me/te salvem, comprometer-se na transformação do mundo, deixar marcas de amor espalhadas por toda a parte, em todos os momentos, seguir Jesus, transparecer Jesus, testemunhar Jesus, dar a vida por Jesus, para que Jesus seja tudo em todos!
       A realeza de Jesus contradiz as realezas do mundo. Estas têm vassalos! Jesus tem discípulos! Os súbditos dos reinos deste mundo têm títulos e honrarias. Os discípulos de Jesus estão comprometidos com a verdade, com o serviço, com a caridade! Os membros dos reinos históricos têm regalias e são premiados com terras e mais títulos pelos serviços prestados. Os seguidores de Jesus são premiados com a alegria e com o sofrimento, com a satisfação de O seguir e com a certeza que serão perseguidos como Ele.
´      O rei veste os melhores trajes, linho fino, seda, com brocados de ouro, com mantos compridos... Adorna-se com fios e anéis, com pedras preciosas. O "Rei dos Judeus" está sem vestes! D'Ele se pode dizer com propriedade: "o rei vai nu". Apenas um pano em volta da cintura. Sem bolsas nem cordões! A túnica é sorteada! As roupas distribuídas! Sem maquilhagens nem adornos reais. Está maquilhado de sangue e de lágrimas, de amor e de confiança em Deus.
       2 – «Salvou os outros: salve-Se a Si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito»... «Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo»... «Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo e a nós também».
       Uma das tentações nas sociedades do nosso tempo é visível diante da cruz de Jesus. Salva-Te a Ti e a nós. Eu, eu e eu! De fora fica o tu e os outros! O mundo é atravessado por uma crise que parece não ter fim: guerras, fome, violência, pobreza, refugiados, exclusão social, fanatismo religioso, nacionalismos cada vez mais acentuados, racismo a florescer. As razões são variadas: interesses económico-financeiros, defesa de valores "religiosos" e da identidade cultural! Mas, no final, a única razão é o egoísmo, o colocar-se a si em primeiro lugar! À frente de todos, além e apesar de todos!
       Os chefes do povo, alguns dos soldados, um dos malfeitores, sintonizam pelo mesmo diapasão. É sempre um risco deixar-nos levar pelos outros quando estamos em grupo!
       O outro malfeitor não se deixa envolver pelos escárnios e pela maledicência. Intervém. Marca posição. Distancia-se da opinião corrente e das vozes sincronizadas contra Jesus. Já não tem muito a perder! Melhor, tem tudo a ganhar! Repreende o companheiro de armas: «Não temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo das nossas más ações. Mas Ele nada praticou de condenável».
       Este malfeitor deixou-se trespassar pelo olhar de Jesus e pelo Seu amor. E, por conseguinte, é para Ele que se dirige em súplica: «Jesus, lembra-Te de Mim, quando vieres com a tua realeza». Em tons de brincadeira, costuma dizer-se que este foi o maior ou melhor ladrão, pois no último momento roubou o Reino de Deus. «Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso». A realeza de Jesus exerce-se na misericórdia, na compaixão, no perdão. Há sempre tempo enquanto estamos no tempo. A misericórdia de Deus não tem limites, a não ser que lhos ponhamos!

       3 – O Rei David foi promessa e esperança para todo o Israel, para Judá e para o reino do Norte. Tornou-se figura de uma realeza perene, eterna, definitiva, universal. As tribos procuram-no para o aclamarem rei, pois já no tempo do rei Saúl era David quem "dirigia as entradas e saídas de Israel".
       O reinado de David será lido como um pastoreio. Com efeito, antes de ser rei era pastor. Tornando-se rei, é o Pastor de todo o Israel, o Povo de Deus. Pastoreia em nome de Deus!
       De Jesus se dirá que é o novo Moisés e, por conseguinte, na montanha nos dá uma lei nova, as Bem-aventuranças, que não anula a anterior, mas a pleniza no amor e no serviço. É Ele também o novo David, Aquele que vem da parte de Deus, é aclamado "Filho de David", para ser acolhido em minha, na tua, em nossa casa, no meu, no teu, em nosso coração, na minha, na tua, na nossa vida! Para que seja Ele a reinar em nós! É o Bom Pastor que nos congrega num só rebanho!
       4 – Um Rei. Um Pastor. Um rei sem coroa nem exército nem palácio, nem vassalos, nem escravos. Um pastor que cuida, ajunta, guia, envolve, avança e recua, para que nenhuma ovelha se perca, para que todas possam integrar o mesmo redil, condu-las em segurança, leva-as às águas refrescantes, às pastagens verdejantes. Um Rei que é Pastor. São os pastores, pobres e simples, os primeiros a louvar a Deus pela Sua chegada. E os magos, vindos do oriente, vindos de longe, estrangeiros e estranhos, os primeiros a reconhecê-l'O na Sua realeza, na sua divindade e na Sua humanidade.
       Um Deus ao alcance do nosso olhar! "Cristo é a imagem de Deus invisível, o Primogénito de toda a criatura". Podemos vê-l'O, podemos persegui-l'O, podemos amá-l'O e, até, podemos matá-l'O. Um Deus que, em Cristo, Se deixa abraçar, beijar, Se deixa ver, Se deixa escutar. Jesus leva tão longe a misericórdia de Deus, que Se deixa crucificar, levando até ao fim o Seu amor por mim, por ti, por nós, por todos. Para nos salvar! Para nos assumir por inteiro. "Aprouve a Deus que n’Ele residisse toda a plenitude e por Ele fossem reconciliadas consigo todas as coisas, estabelecendo a paz, pelo sangue da sua cruz, com todas as criaturas na terra e nos céus".
       Por conseguinte, "damos graças a Deus Pai, que nos fez dignos de tomar parte na herança dos santos, na luz divina. Ele nos libertou do poder das trevas e nos transferiu para o reino do seu Filho muito amado, no qual temos a redenção, o perdão dos pecados".

       5 – A primeira missão de quem é amado é responder (e retribuir). Deus precede-nos no amor, criando-nos e, em Cristo, redimindo-nos, elevando-nos. O amor ama o amor. Amor com amor se paga (São João da Cruz). Quem ama predispõe-se a ser amado (ou odiado, esquecido, recusado, desprezado). O amor de Deus é absoluto, está antes e acima de qualquer condição. Em todo o caso, como sublinha Bento XVI, também Deus espera que Lhe respondamos, que retribuamos o amor com que nos criou e nos salvou. Cria-nos à Sua imagem e semelhança para sermos capazes de Lhe responder. A semelhança está na capacidade de amar e de ser amado.
        Nesta resposta, neste sermos responsáveis pelo amor que recebemos, está a nossa felicidade, o sentido definitivo da nossa vida, a abertura ao transcendente e a dinâmica da fraternidade. O amor impulsiona-nos a sermos criativos, cocriadores, na certeza que perduraremos além do tempo e da história, pois o amor clama por eternidade!
       “Deus eterno e omnipotente, que no vosso amado Filho, Rei do universo, quisestes instaurar todas as coisas, concedei propício que todas as criaturas, libertas da escravidão, sirvam a vossa majestade e Vos glorifiquem eternamente”.
        A glorificação de Deus é a vida do homem, o homem vivo, nas palavras de Santo Ireneu. Quanto mais perto de Deus, mais perto uns dos outros. Quando predomina a realeza de Deus, a certeza de que seremos iguais, seremos irmãos!

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (C): 2 Sam 5, 1-3; Sal 121 (122); Col 1, 12-20; Lc 23, 35-43.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

A minha casa é casa de oração

       Jesus entrou no templo e começou a expulsar os vendedores, dizendo-lhes: «Está escrito: ‘A minha casa é casa de oração’; e vós fizestes dela ‘um covil de ladrões’». Jesus ensinava todos os dias no templo. Os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os chefes do povo procuravam dar Lhe a morte, mas não encontravam o modo de o fazer, porque todo o povo ficava maravilhado quando O ouvia (Lc 19, 45-48).
       O verdadeiro culto, como sublinha Jesus, há de ser em espírito e verdade. O culto que se exterioriza, vivendo-se em comunidade e em lógica de partilha e amadurecimento de fé, é fundamental mas se decorrer do culto interior, da conversão, da adequação da vida aos ideiais do perdão, do amor, da partilha, da paz que nos é dada em Jesus Cristo.
       No entanto, o templo como lugar sagrado é espaço de encontro, de oração, de reflexão, de escuta da palavra e da vontade de Deus. Por conseguinte deverá ser um lugar digno, antecipando e expressando o templo que é cada um de nós, arrumado e arejado, recolhido e à escuta, para sermos lugar de encontro com Deus e para que o expressemos em gestos e palavras.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Hoje a salvação entrou nesta casa!

       Jesus entrou em Jericó e começou a atravessar a cidade. Vivia ali um homem rico chamado Zaqueu, que era chefe de publicanos. Procurava ver quem era Jesus, mas, devido à multidão, não podia vê-l’O, porque era de pequena estatura. Então correu mais à frente e subiu a um sicómoro, para ver Jesus, que havia de passar por ali. Quando Jesus chegou ao local, olhou para cima e disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, que Eu hoje devo ficar em tua casa». Ele desceu rapidamente e recebeu Jesus com alegria. Ao verem isto, todos murmuravam, dizendo: «Foi hospedar-Se em casa dum pecador». Entretanto, Zaqueu apresentou-se ao Senhor, dizendo: «Senhor, vou dar aos pobres metade dos meus bens e, se causei qualquer prejuízo a alguém, restituirei quatro vezes mais». Disse-lhe Jesus: «Hoje entrou a salvação nesta casa, porque Zaqueu também é filho de Abraão. Com efeito, o Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido» ( Lc 19, 1-10).
       O Evangelho deste dia mostra o chamamento interior. Deus suscita em nós a conversão. Zaqueu sentiu necessidade de encontrar Jesus. Ultrapassa os obstáculos, fazendo que a sua pequena estatura não seja impedimento para chegar até Jesus. Jesus olha e vê Zaqueu. Deus vê para lá da nossa estatura, do nosso pecado, mas nós precisamos de caminhar ao Seu encontro e deixarmo-nos ver por Ele, para, a exemplo de Zaqueu, nos deixarmos transformar.

       Alguns desafios do Evangelho proposto para hoje:
- desejo de ver e de encontrar Jesus;
- deixar-nos "ver" por Ele. Não nos escondamos da Sua presença e do Seu chamamento;
- desçamos do nosso "pedestal", do nosso orgulho, e acolhámo-l'O em nossa casa. Façamos do nosso coração e da nossa vida, a Sua casa, morada santa de Deus, pois "hoje entrou a salvação nesta casa";
- acolher a pessoa no seu todo, como ser humano, filho de Deus. Jesus não julga Zaqueu. Chama-o na sua pequenez, quer ir a sua casa..
- que a nossa pequena estatura não nos impeça de ver Jesus, que veio "procurar e salvar o que estava perdido".
Veja a reflexão completa no XXXI Domingo Tempo Comum.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Tabuaço: Magusto e Semana dos Seminários | 2016

       Sábado, 12 de novembro de 2016, um dia depois do São Martinho de Tours, a realização do Magusto Paroquial, proposto a partir da catequese, aberto à participação de toda a comunidade paroquial.
       Este ano dois motivos a relevar: a presença de três seminaristas, o Diogo Martinho, entre nós aos fins de semana, o Marcelo Moutinho, de São João da Pesqueira, e o João Miguel, de Freigil, em Resende, e o facto de mais pessoas terem respondido positivamente ao convite do pároco e das catequistas. Como habitualmente, a jornada iniciou com a celebração da Eucaristia, incluindo o testemunho vocacional do João, seguindo-se o magusto no Centro Paroquial.

       Algumas imagens para recordar e para guardar...

Para visitar o Álbum desta jornada,

Formação Arciprestal de Catequistas - 5 de novembro

       No passado dia 5 de novembro, realizou-se mais um momento de formação para catequistas do Arciprestado de Moimenta da Beira, Sernancelhe, Tabuaço, desta feita na Paróquia de Sernancelhe.
Tendo em conta que em algumas paróquias a catequese está programada para os sábados à tarde, este ano, em Conselho Pastoral Arciprestal, optou-se por dividir este tempo de encontro, de convívio, de oração, de formação, por duas manhãs. No passado dia 5 de novembro, o primeiro momento. O segundo será agendado, em Conselho Pastoral Arciprestal para fevereiro ou março.
       O encontro foi orientado pela Irmã Arminda, que integra o Departamento da Catequese da Diocese de Aveiro.
       A Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, de Tabuaço marcou presença com 5 catequistas: Fernanda Cardoso, Graça Ferraz, Daniela Rodrigues, Mara Longa, Sara Silva.
O encontro iniciou com breves palavras do Arcipreste, seguindo-se a oração da manhã, com a intervenção-reflexão do Pe. Ricardo Barroco, responsável arciprestal da Educação Cristã. A Irmã Arminda orientou os trabalhos. A meio da manhã uma pausa para o café-chá e uns bolinhos, gesto generoso das catequistas de Sernancelhe.
       No final da manhã, o Pe. Jorge Giroto, também responsável arciprestal da Educação Cristã, para agradecer a presença de todos e, em especial, o trabalho da Irmã Arminda.
Algumas fotos deste dia:


Para as outras fotos disponíveis,

sábado, 12 de novembro de 2016

XXXIII Domingo do Tempo Comum - ano C - 13.11.3016

       1 – Para quem vive a vida com intensidade, alegria, desprendimento, com verdade, honestamente, o fim fará parte do processo. Claro que ninguém quer morrer. Muitas vezes o desejo é acabar com o sofrimento ou por não se sentir amado ou por achar que se está a dar demasiado trabalho aos outros. Há situações de um sofrimento físico muito grande, ainda que na atualidade os cuidados paliativos estejam avançados. Vida em abundância é o que todos desejamos. Jesus vem de Deus para que tenhamos vida e vida abundante (cf. Jo 10, 10).
       Quando paramos um pouco para pensar... Quando à nossa volta alguém morre... Quando morre uma pessoa nova... Ou alguém morre de forma surpreendente, por acidente, repentinamente, por uma doença avassaladora... Vêm os medos e as perguntas! Já tem acontecido que pessoas que se diziam preparadas para morrer ou com um desejo (aparente) de morrer, que se sentem vulneráveis por saber que podem morrer. Ou, em muitos casos, quando as pessoas participam no funeral de uma pessoa mais nova ou da mesma idade e logo se questionam pela sua vez que pode estar a chegar.
       Ao olharmos para o mundo atual, outra constatação, o mundo está em convulsão. Estará às portas da destruição, do auto aniquilamento ou será mais uma crise de crescimento? Estaremos no fim do mundo ou no início de um tempo novo?
       Com efeito, para os cristãos o FIM do MUNDO já chegou com Jesus Cristo. Na plenitude dos tempos, Jesus introduziu-nos num tempo novo, no Reino de justiça, de paz e de amor. O fim de cada um, o fim da humanidade, é Cristo Jesus que nos eleva para a glória do Pai, para contemplarmos o Seu amor por nós e vivermos eternamente na alegria divina. Mas antes de chegarmos ao Céu, temos o Céu connosco, Jesus Cristo que, morto e ressuscitado, permanece entre nós, pela força do Espírito Santo, nos Sacramentos, na Palavra de Deus e no bem que façamos em Seu Nome santo. Peregrinos do tempo e da história, com a missão de semearmos a fé, a esperança e a alegria, pelo bem dito e a dizer e pelo bem feito e a fazer.
       2 – O evangelista contextualiza a intervenção de Jesus, dizendo-nos que o templo estava ornado com belas pedras e com piedosas ofertas, o que provoca comentários. Uma nota prévia: também da Igreja se têm feito comentários acerca da sua riqueza material e do ornamento de algumas igrejas. Desde logo alguns sublinhados: a Igreja vive no meio do mundo e em muitas situações deixou vir ao de cima a ostentação da riqueza, a procura do poder pelo poder. Por outro lado, o arranjo, o cuidado, o adorno das igrejas, os paramentos, as talhas douradas, os cálices resultam da fé, da piedade popular, do zelo pelas coisas sagradas. Há pessoas para quem o melhor tem de ser para Deus. E isso também se visualiza, também se exterioriza. Pela experiência pastoral, estou em crer que as pessoas que mais facilmente dão para as igrejas, são as mesmas que mais facilmente dão para causas sociais.
       Todavia, as palavras de Jesus são para nós, para ti e para mim. Como escutamos em domingos anteriores, a ganância e a avareza diabolizam-nos. O dinheiro, os bens materiais, a riqueza, devem servir para vivermos melhor e para facilitar a fraternidade, para nos tornarmos mais próximos, para cuidarmos dos mais frágeis.
       «Dias virão em que, de tudo o que estais a ver, não ficará pedra sobre pedra: tudo será destruído». Ou como dirá Jesus em outro lugar, fazei bolsas que não se desgastem, bens que não corroam, nem se percam (cf. Lc 12, 33). Do que vemos, mais tarde ou mais cedo, tudo desaparecerá. Só não desaparecerá o bem que fizermos, tudo o que por amor nos levar aos outros.

       3 – Se tivéssemos uma varinha de condão por certo a usaríamos em algumas situações para antecipar ou sabermos o que nos reserva o futuro. Aliás, há quem ganhe a vida a tentar adivinhar o futuro. Uns jogando cartas, outros com ossos, outros com os astros, ou lendo as mãos ou perscrutando o olhar!
       Claro que, em parte, podemos adivinhar o futuro e podemos antecipá-lo. O Céu está ao nosso alcance. Jesus trouxe-nos a eternidade, trouxe-nos Deus. Ele é o Céu plantado no mundo, na história, no tempo. O futuro dependerá, em parte, das nossas escolhas, do que fizermos hoje. Há algo intangível e que foge a qualquer projeção e por isso dizemos que "o futuro a Deus pertence". É possível prepararmos o "amanhã", intuirmos e, com alguma criatividade e sensibilidade, vermos no futuro. Há previsões que ajudam a planificar o futuro, ainda que com uma certa margem de imprevisibilidade. O mais importante, porém, é a garantia de Deus que, em plenitude, Se revela em Jesus Cristo. Ele é o nosso futuro, a esperança que a nossa vida tem um FIM que lhe dará sentido.
       «Mestre, quando sucederá isto? Que sinal haverá de que está para acontecer?».
       Esta é uma pergunta que também fazemos! Também tentamos ler os sinais! Vemos o que e quem nos rodeia! Quem nos ajuda a caminhar e quem nos faz tropeçar! Quem seja luz para nós e quem aproveite as trevas para nos roubar a esperança e a vida!
       Jesus deixa-nos um alerta de confiança: «Tende cuidado; não vos deixeis enganar, pois muitos virão em meu nome e dirão: ‘Sou eu’; e ainda: ‘O tempo está próximo’. Não os sigais. Quando ouvirdes falar de guerras e revoltas, não vos alarmeis: é preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim».
       Logo depois Jesus acrescenta o aparecimento de sinais contraditórios, fome, epidemias, guerras, violência, povos contra povos. Muitos se aproveitarão da confusão e dos medos para reinar, para se impor, para subjugar os demais. As ditaduras nascem em tempos de crise, de indecisão e indefinição, de incerteza e de medo. Jesus coloca-nos de sobreaviso. Esses tempos chegarão. Importa não nos deixarmos nem abater nem controlar. Mesmo perseguidos, não temamos os que matam o corpo mas não podem matar o espírito. Só Deus é o nosso FIM. Se formos conduzidos aos tribunais por anunciarmos o NOME de Cristo e o Seu Evangelho de Amor não nos preocupemos com o que dizer em nossa defesa, o Espírito infundir-nos-á as respostas a dar. E por fim, Jesus ainda mostra o cuidado de Deus por cada um de nós, garantindo: «Nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá. Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas».
       4 – Na profecia de Malaquias um alerta semelhante, com o mesmo selo de garantia da parte de Deus: "Há de vir o dia do Senhor, ardente como uma fornalha; e serão como a palha todos os soberbos e malfeitores. O dia que há de vir os abrasará – diz o Senhor do Universo – e não lhes deixará raiz nem ramos. Mas para vós que temeis o meu nome, nascerá o sol de justiça, trazendo nos seus raios a salvação".
       A salvação está aí. Com Jesus chega esse dia, o Dia do Senhor, Dia de graça e de redenção. Por quê ter medo? Vivamos como ressuscitados, inseridos no Corpo de Cristo, como membros vivos, como ramos de videira ligados à vide, à seiva que circula por todas as ramificações! Desta forma, nada tememos, porque o Senhor nos salva!

       5 – Na segunda Epístola de São Paulo à comunidade de Tessalónica, que temos vindo a escutar e refletir, o Apóstolo ensina-nos como estarmos preparados para o fim. Importa viver Jesus, crucificado e ressuscitado. Se sentirmos dificuldade em imitar Jesus comecemos por imitar aqueles e aquelas que viveram para transparecer e testemunhar Jesus, como foi o caso de São Paulo, São Francisco Xavier, Santa Teresa do Menino Jesus.
       "Vós sabeis como deveis imitar-nos, pois não vivemos entre vós na ociosidade, nem comemos de graça o pão de ninguém. Trabalhámos dia e noite, com esforço e fadiga, para não sermos pesados a nenhum de vós. Não é que não tivéssemos esse direito, mas quisemos ser para vós exemplo a imitar. Quando ainda estávamos convosco, já vos dávamos esta ordem: quem não quer trabalhar, também não deve comer. Ouvimos dizer que alguns de vós vivem na ociosidade, sem fazerem trabalho algum, mas ocupados em futilidades. A esses ordenamos e recomendamos, em nome do Senhor Jesus Cristo, que trabalhem tranquilamente, para ganharem o pão que comem".
       Vale a pena fixarmos todo o texto. O Apóstolo põe em evidência que o cristão não deve e não pode viver na ociosidade. A fé encarna-se na vida e no compromisso com os outros e com o mundo. Não se desencarna, não se espiritualiza, não nos torna aluados, fora ou acima dos outros. Faz-nos sujar as mãos, arregaçar as mangas. Já basta os que não podem trabalhar ou aqueles e aquelas cujo trabalho não lhes garante a dignidade que merecem. Cabe-nos trabalhar e ajudar aqueles que não o podem fazer. A fé faz-nos levantar o olhar, o coração e a vida para Deus. Deus, com o Seu olhar, com o Seu coração, com a Sua vida está fito na terra, em mim e em ti, em nós, nos outros. Deus orienta-nos o olhar para os outros que caminham connosco. A nossa pátria é o Céu, mas o Céu inicia-se aqui e agora, inicia-se no tempo, na história, no mundo.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (C): Mal 3, 19-20a; Sal 97 (98); 2 Tes 3, 7-12; Lc 21, 5-19.