sexta-feira, 11 de novembro de 2016

São Martinho de Tours, de soldado a bispo

       São Martinho de Tours nasceu em 316, na cidade de Sabaria, Panónima, e era filho de um tribuno romano. Entretanto acompanha o pai para Pavia e logo que atinge a idade de recrutamento, com quinze anos, entra para a armada romana, incorporado a guarda pessoal do imperador.
       O regimento de Martinho desloca-se para a Gália, para Amiens, cenário da lenda da capa. Um inverno rigoroso. Num dia em que transpunha o portão da cidade, deparou com um pobre mendigo esfarrapado. Vendo que ninguém o acudia, ele mesmo, com a espada, rasgou a sua capa militar e deu metade ao pobre mendigo. A capa militar pertencia ao exército, pelo que não podia ser vendida ou dada. O cortá-la a meio foi uma forma de dar conservando a posse militar. Os colegas de armas fizeram troça dele. Nessa noite, teve uma visão em que via Jesus Cristo com a metade da capa vestida. Concluiu que foi com Cristo que dividiu a capa.
       No dia seguinte, em nova visão, ouviu uma voz que lhe disse: "Cada vez que fizeres o bem ao mais pequeno dos meus irmãos é a mim que o fazes". Doravante passou a ver os cristãos com outros olhos.
       Entretanto converteu-se ao cristianismo, fez-se catecúmeno, recebendo depois o baptismo. Apresentou-se ao seu general para lhe dizer que passava a servir a Jesus Cristo. Pouco depois foi liberto do serviço militar.
       Viajou para Poitiers e engrossou o grupo dos discípulos de Santo Hilário, sábio e santo bispo. Para visitar os pais, voltou à Lombardia e pelo percurso terá sido assaltado, tendo conseguido que um dos ladrões se convertesse ao cristianismo.
       Em 361, depois de um exílio forçado de São Hilário, para Oriente, junta-se-lhe em Poitiers. Isolou-se arrastando consigo diversos monges, formando a Abadia Beneditina de Ligugé, mas o isolamento não o impediu de uma pregação constante pela Gália (França). Em 371/372, o segundo bispo de Tours, São Lidório, morreu, quiseram elegê-lo para Bispo, mas manteve-se surdo. Então um certo Rústico, rico cidadão, suplicou-lhe que viesse visitar a esposa gravemente doente. Sem suspeitar de nada entrou na cidade, a aclamação popular forçou-o a aceitar ser bispo de Tours, ainda que com a relutância de alguns dignitários eclesiásticos. Consolidou a fé e diante dos imperadores defendeu sempre a Igreja.
       Em 27 anos de bispo ganhou o carinho de todo o seu povo.
       Numa última visita a Roma, foi a Candes, um dos centros religiosos da diocese de Tours, foi atacado pela doença e aí viria a falecer. Pediu para ser levado ao presbitério da Igreja, morrendo em 397, com 81 anos de idade. O seu corpo foi levado para a cidade de Tours onde chegou a 11 de Novembro.

Oração de coleta:
       Senhor, que fostes glorificado pela vida e pela morte do bispo São Martinho, renovai em nossos corações as maravilhas da vossa graça, de modo que nem a morte nem a vida nos possam separar do vosso amor. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Sulpício Severo (século V)

Martinho, pobre e humilde


Martinho soube com muita antecedência o dia da sua morte e comunicou a seus irmãos que a separação do seu corpo estava iminente. Entretanto, viu-se obrigado a visitar a diocese de Candes. Tinham surgido, com efeito, desavenças entre os clérigos desta igreja e Martinho desejava restaurar a paz. Apesar de não ignorar o fim próximo dos seus dias, não recusou partir perante motivo desta natureza, por considerar como bom termo da sua atividade deixar a paz restabelecida nessa igreja.
Permaneceu algum tempo nessa povoação ou comunidade para onde se dirigia. Depois de feita a paz entre os clérigos, pensou em regressar ao mosteiro. Mas de repente sentiu que lhe faltavam as forças do corpo. Reuniu os irmãos e participou-lhes que ia morrer. Então começou o pranto, a consternação e o lamento unânime de todos: «Pai, porque nos abandonas? A quem nos confias na nossa orfandade? Lobos ferozes assaltam o teu rebanho; quem nos defenderá das suas mordeduras, se nos falta o pastor? Sabemos sem dúvida que suspiras por Cristo, mas a tua recompensa está assegurada e não será diminuída se for adiada. Antes de mais, compadece te de nós, que nos deixas abandonados».
Então, comovido por estes lamentos e transbordando da terna compaixão que sempre sentia no Senhor, diz-se que Martinho se associou ao seu pranto e, voltando se para o Senhor, assim falou diante daqueles que choravam: «Senhor, se ainda sou necessário ao vosso povo, não me recuso a trabalhar; seja feita a vossa vontade».
Oh homem extraordinário, que não fora vencido pelo trabalho nem o haveria de ser pela morte e que, igualmente disposto a uma ou outra coisa, nem teve medo de morrer nem se furtou a viver! Entretanto, com as mãos e os olhos sempre elevados para o céu, o seu espírito invencível não abandonava a oração. Quando os presbíteros, que se tinham reunido à sua volta, lhe pediram para aliviar o seu pobre corpo mudando de posição, disse: «Deixa-me, irmãos, deixai-me olhar antes para o céu do que para a terra, para que a minha alma, ao iniciar a sua marcha para Deus, siga bem o seu caminho». Ao dizer isto, reparou que o diabo se encontrava perto. «Porque estás aqui, disse, besta sanguinária? Nada encontrarás em mim, maldito; o seio de Abraão me recebe».
Depois de pronunciar estas palavras, entregou o seu espírito ao Céu. Martinho, cheio de alegria, foi acolhido no seio de Abraão. Martinho, pobre e humilde, entrou rico no Céu.
BENTO XVI, na Festa de São Martinho, 11 de novembro de 2007
ANGELUS - DOMINGO

Queridos irmãos e irmãs!

A Igreja recorda hoje, 11 de novembro, São Martinho, Bispo de Tours, um dos santos mais célebres e venerados da Europa. Tendo nascido numa família pagã na Panónia, atual Hungria, por volta de 316, foi orientado pelo pai para a carreira militar. Ainda adolescente, Martinho encontrou o Cristianismo e, superando muitas dificuldades, inscreveu-se entre os catecúmenos para se preparar para o Batismo. Recebeu o Sacramento por volta dos vinte anos, mas teve que permanecer ainda por muito tempo no exército, onde deu testemunho do seu novo género de vida: respeitador e compreensivo para com todos, tratava o seu criado como um irmão, e evitava as diversões vulgares. Tendo-se despedido do serviço militar, foi a Poitiers, na França, junto do santo Bispo Hilário. Por ele ordenado diácono e presbítero, escolheu a vida monástica e deu origem, com alguns discípulos, ao mais antigo mosteiro conhecido na Europa, em Ligugé. Cerca de dez anos mais tarde, os cristãos de Tours, tendo ficado sem Pastor, aclamaram-no seu Bispo. Desde então Martinho dedicou-se com zelo fervoroso à evangelização no campo e à formação do clero.
Mesmo sendo-lhe atribuídos muitos milagres, são Martinho é famoso sobretudo por um ato de caridade fraterna. Quando era ainda jovem soldado, encontrou na estrada um pobre entorpecido e trémulo de frio. Pegou no seu manto e, cortando-o em dois com a espada, deu metade àquele homem. Nessa noite apareceu-lhe Jesus em sonho, sorridente, envolvido naquele mesmo manto.
Queridos irmãos e irmãs, o gesto caritativo de São Martinho inscreve-se na mesma lógica que levou Jesus a multiplicar os pães para as multidões famintas, mas sobretudo a deixar-se a si mesmo como alimento para a humanidade na Eucaristia, Sinal supremo do amor de Deus, Sacramentum caritatis. É a lógica da partilha, com a qual se expressa de modo autêntico o amor ao próximo. Ajude-nos São Martinho a compreender que só através de um compromisso comum de partilha, é possível responder ao grande desafio do nosso tempo: isto é, de construir um mundo de paz e de justiça, no qual cada homem possa viver com dignidade. Isto pode acontecer se prevalece um modelo mundial de autêntica solidariedade, capaz de garantir a todos os habitantes do planeta o alimento, as curas médicas necessárias, mas também o trabalho e os recursos energéticos, assim como os bens culturais, o saber científico e tecnológico.
Dirijamo-nos agora à Virgem Maria, para que ajude todos os cristãos a ser, como São Martinho, testemunhas generosas do Evangelho da caridade e incansáveis construtores de partilha solidária.

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