sábado, 29 de abril de 2017

Domingo III da Páscoa - ano A - 30 de abril de 2017

       1 – Há dias num passeio ocasional, caminhando distraído com os meus botões, vejo alguém especado a olhar para mim. "Então, tudo bem contigo? Onde estás?" Poderia ter respondido: "Estou aqui à tua frente? Não vês?" Mas a pergunta remetia para a vida (sacerdotal/paroquial) e não para a localização geográfica. "Há quanto tempo! Já não te via desde o nosso 6.º ano, na Preparatória..." Pois sim, falando para mim, será que me conhece mesmo ou será mais um equívoco?! "Peço desculpa, mas já vai tanto tempo que por ora não te estou a reconhecer!". "Eu reconheci-te logo. Estás mais velho, mais forte, com menos cabelo, mas tens o mesmo sorriso. Mas olha que eu não estou assim tão diferente, pensa lá um pouco, sentávamo-nos lado a lado nas salas de aula do 5.º e do 6.º ano. Depois tu foste para o Liceu e eu para a Sé. Chamo-me (N), também cresci, tenho algumas rugas, casei, tenho 2 filhos, mais altos que eu..."
       Situações como esta não são assim não escassas. O tempo. A memória. As feições. O contexto. A surpresa do encontro. São vários os fatores que influem quando encontramos alguém ou alguém nos encontra e só um se lembra do rosto, da pessoa, do tempo passado!
       Três dias depois, Jesus aparece aos seus discípulos. Estes ficam atónitos e num primeiro momento não O reconhecem. Estranho?! Talvez não. Assim acontece com as mulheres que de manhã cedo foram ao sepulcro. Assim acontecerá quando os discípulos estiverem reunidos e Jesus lhes aparecer e Se colocar no meio deles. Jesus morreu. Ponto final, parágrafo. Embora tenha prometido regressar, vivo, ressuscitar, já passaram três longos dias, inacreditáveis. Ainda parece um sonho que Ele – o Messias de Deus – tenha sido morto. Não devemos estar a ver direito! "Vede as minhas mãos e o meu lado. Sou Eu. Não temais".
       Dois dos discípulos regressam a casa, desencantados. Jesus vem e coloca-Se com eles a caminho. Primeiro momento. Jesus vem ao nosso encontro nas circunstâncias da nossa vida e todos os momentos são propícios. Há de haver um tempo que depende de nós reconhecê-l'O e acolhê-l'O ou ignorá-l'O.
       2 – Pelo caminho, Jesus vai-lhes explicando as Escrituras, preparando-os para o que está para vir, para O reconhecerem (anúncio, catequese, formação). Os discípulos manifestam pesar pelo que aconteceu e fazem o ponto da situação: Jesus de Nazaré, profeta, grandioso em palavras e obras, foi morto e esfumou-se a esperança de ser o libertador de Israel, pois passaram três dias e não aconteceu nada, ainda que algumas mulheres tenham ido ao túmulo e tenham dito que lhes apareceram Anjos a anunciar que Jesus estava vivo. Alguns discípulos foram comprovar o que as mulheres tinham visto, mas não viram o Senhor.
       «Não tinha o Messias de sofrer tudo isso para entrar na sua glória?». A pergunta provocatória de Jesus, lança pontes para a Sua vida pública, em que tinha anunciado o sofrimento e a perseguição se prosseguisse com o seu programa de vida, denunciando a prepotência, a arrogância, o autoritarismo, a intolerância e optando pelos mais pobres, pelos excluídos, pelos mais pequeninos, pelos publicanos e pecadores, pelas mulheres e pelas crianças, incluindo, promovendo, devolvendo a dignidade perdida, revelando-lhes o amor de Deus, tratando-os como irmãos. Esta postura criou inveja, ciúme, gerou ódios que que viriam a custar-Lhe a vida. Como tinha previsto. Chegar à meta sem esforço e sem sacrifícios não é possível. Há provações, obstáculos, dificuldades a vencer. Aquele que perseverar será salvo.
       Vão dialogando e Jesus serve-se da Sagrada Escritura para lhes mostrar as intuições da Lei e dos Profetas no que ao Messias diz respeito. Entretanto aproximam-se da sua povoação e Jesus faz menção de seguir o Seu caminho. Ele vem até nós, mas não Se impõe, dá-nos a liberdade para O acolhermos, ou para O deixarmos prosseguir para outras bandas. Os discípulos de Emaús sentem-se impelidos a deixar que Ele permaneça: «Ficai connosco, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite».
        3 – No domingo anterior víamos como Jesus Se apresenta no meio dos Seus discípulos e Lhes comunica a paz, enviando-os por todo o mundo a anunciar a Boa Nova do Reino de Deus. Na tarde daquele primeiro domingo, Jesus mostra-lhes as mãos e o lado. E assim no segundo domingo, novamente no meio dos discípulos, com a presença de Tomé, ausente da comunidade no primeiro encontro do Ressuscitado com os discípulos reunidos, lhes mostra as marcas da Paixão.
       Tivemos oportunidade de refletir sobre o caminho de cada um. Cada pessoa tem o seu ritmo. A fé não se manifesta para todos da mesma maneira, porque todos somos diferentes. Mas se cada um se orienta para Cristo, Caminho, Verdade e Vida, e se O coloca como centro, mais tarde ou mais cedo vamos estar a caminhar na mesma direção.
        Há momentos de dúvida, de hesitação e até de treva. Mas não desistamos. Deus manifesta-Se também na noite da nossa fé e da nossa vida. Assim no-lo garantem muitos santos. Jesus dá-nos uma sugestão para O encontrarmos: vendo e tocando as Suas chagas presentes nos irmãos. Quando cuidamos dos outros por amor a Jesus Cristo, a nossa fé exprime-se e amadurece, mesmo que com incertezas. A fé fortalece-se com o amor e cuidado aos outros.
       Hoje Jesus mostra-nos outra forma de O reconhecermos. Pôs-se à mesa com eles, "tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho". Abrem-se os olhos, melhor, o entendimento e reconhecem-n’O. A fração do pão, da forma como Jesus no-lo dá, a Eucaristia, faz-nos irmãos, aproxima-nos, abre-nos a compreensão.
       Jesus desaparece da sua presença, está no pão a partilhar e anunciar. Partem imediatamente. À Eucaristia levamos tudo o que arde cá dentro, os nossos projetos e angústias, os nossos sonhos e as nossas alegrias. A Eucaristia abre-nos os olhos e o coração e a vida e envia-nos em missão. Eles vão de imediato ao encontro dos demais discípulos.
       4 – A comunidade garante e fortalece a fé. Os dois discípulos regressam ao seio da comunidade, para testemunharem o encontro com Jesus e para escutarem e absorverem o testemunho dos outros discípulos. Também na dúvida, na incerteza, a comunidade dos crentes deve ser o espaço e o tempo em que descobrimos Jesus. Onde dois ou três estiverem reunidos em Meu nome estarei no meio deles. Estarei convosco até ao fim dos tempos.

       5 – A primeira leitura, dos Atos dos Apóstolos, dá-nos conta do desassombro com que Pedro, com os onze Apóstolos, portanto, não isoladamente, mas com a comunidade dos seguidores de Jesus, fala para os judeus e, tal como os discípulos de Emaús, anuncia o que aconteceu com Jesus, agora com a certeza que Deus Pai O ressuscitou, não O abandonando à mansão os mortos. Pedro relembra que Deus tinha prometido a David que um seu descendente se havia de sentar no seu trono para sempre, antecipando a ressurreição de Cristo.
       Os Apóstolos experimentaram a tristeza e o desencanto da morte de Jesus. Foi um duro golpe. O reencontro com o Ressuscitado e o Dom do Espírito Santo muda-lhes a vida para sempre. Um grupo de pobretanas assume um papel preponderante no anúncio do Evangelho e na propagação do Reino de Deus, instaurado e iniciado por Jesus.

       6 – Na segunda leitura, São Pedro, em missiva que escreve à Igreja, recorda como Cristo morreu para nos salvar. Deus Pai, que não faz aceção de pessoas, ressuscitou-O para que a nossa fé e a nossa esperança estejam em Deus e não em coisas perecíveis. Por conseguinte, devemos viver como peregrinos, exilados neste mundo, praticando as boas obras. Justificados por Cristo, justifiquemos com a nossa vida a Sua entrega e façamos com que tenha valido a pena levar até ao fim o Seu amor por nós, até à morte e morte de Cruz.

       7 – Confiança em Deus é o que Salmo proposto para hoje no ensina: Senhor "Vós sois o meu refúgio. Vós sois o meu Deus. Senhor, porção da minha herança e do meu cálice, está nas vossas mãos o meu destino. Bendigo o Senhor por me ter aconselhado, até de noite me inspira interiormente. O Senhor está sempre na minha presença, com Ele a meu lado não vacilarei. Por isso o meu coração se alegra; e a minha alma exulta e até o meu corpo descansa tranquilo".
       A confiança em Alguém que é fiel, sempre foi e sempre será, e que nos garante o futuro, nos garante que sairemos vencedores, assim acolhamos o Seu amor e a Sua vida, permite-nos arriscar e comprometermo-nos com os outros, e apostar na transformação do mundo, com e apesar dos obstáculos, dificuldades e provações do caminho. Ele segue connosco no nosso caminho. Até ao fim.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano A): Atos 2, 14. 22-33; Sl 15 (16); 1 Pedro 1, 17-21; Lc 24, 13-35.

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