A terceira Carta Encíclica de Bento XVI empresta o título a este blogue. A Caridade na Verdade. Agora permanecem a fé, a esperança e a caridade, mas só esta entra na eternidade com Deus. Espaço pastoral de Tabuaço, Távora, Pinheiros e Carrazedo, de portas abertas para a Igreja e para o mundo...
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sexta-feira, 26 de julho de 2019
domingo, 16 de junho de 2019
sábado, 19 de maio de 2018
terça-feira, 29 de agosto de 2017
VL – Só Deus é Deus. A intimidade de Jesus com o Pai
Ao longo da Sua vida e de maneira mais clarividente na Sua Paixão e Morte na Cruz, Jesus mostra a Sua grande ligação ao Pai. É uma intimidade de todas as horas, visível nos momentos mais intensos, mais importantes e mais dramáticos. Se a Sua vida é uma oração constante, Jesus reserva tempos específicos para uma maior proximidade com o Deus: antes da vida pública retira-Se em oração para o deserto; antes de escolher os apóstolos passa a noite em oração; antes do processo da Sua morte, retira-Se para o horto das Oliveiras para orar; na Cruz mantém um diálogo vivo com o Pai: Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste?! Pai, nas Tuas mãos entrego o meu espírito.
É percetível na vida de Jesus o Amor primeiro e único: o Pai. Mas é também dessa forma que Ele tem disponibilidade para as pessoas, sobretudo as mais frágeis, pois não desperdiça nem forças nem tempo com intrigas, com lamentações, com suspeição, com estratégias para Se afirmar ou para assegurar poder ou vantagem sobre os demais.
Com efeito, a soberania de Deus garante a verdadeira solidariedade entre pessoas. Garante a igualdade, a inclusão, a pessoa como "absoluto", isto é, não reduzível a mim nem descartável. Colocar Deus em primeiro lugar evita a instrumentalização e a idolatria. Se o primeiro lugar for ocupado por alguém ou pelos nossos interesses, há um risco provável de instrumentalizarmos as pessoas: importam-nos enquanto nos são úteis, são descartáveis quando não nos servem. Na mesma perspetiva, o auto endeusamento: queremos e assumimo-nos como centro do universo, tudo há de funcionar para nos servir. No inverso, não tendo Deus como Deus, que está acima e além de toda a possessão, mais tarde ou mais cedo lá colocaremos alguém ou alguma coisa, preenchendo dessa forma o lugar de Deus.
A prioridade e a precedência de Deus liberta-nos da ansiedade e da perda definitiva, pois Ele nos garante a vida. Aqueles que perdemos, pela vida, Ele os guarda na eternidade. Reconhecermos que não somos deuses, ou que alguém ou alguma coisa o é, faz-nos relativizar as perdas e os insucessos, mas também que o céu não é definitivo na vida histórica, pelo que estamos a caminho. Se acharmos que somos deuses então não poderemos repousar nem equilibrar o nosso cérebro, temos que resolver tudo. Se colocarmos essa esperança em alguém vamos exigir-lhe que resolva tudo o que queremos. Ainda bem que não somos deuses e que só Deus é Deus.
Publicado na Voz de Lamego, n.º 4420, de 11 de julho de 2017
sábado, 10 de junho de 2017
Santíssima Trindade - ano A - 11 de junho de 2017
1 – Somos poucos trinitários na Igreja e na sociedade.
Um professor numa sala de aula, em alguns momentos, pode ter a tentação de fazer algum exercício em vez de explicar como se faz, sobretudo se já esgotou a paciência. Um explicador a mesma coisa, explica, explica, às tantas faz e assunto arrumado; o explicando pode regressar a casa satisfeito com os TPC's feitos e prontos a mostrar ao professor, mesmo que não tenha percebido nada do trabalho. Talvez isso aconteça cada vez menos. Os pais mandam o filho a um recado ou fazer alguma tarefa. Mas depois o filho demora muito ou é preciso gastar o mesmo tempo a explicar e então mais vale fazer do que pedir. Lá diz o ditado que “quem quer anda e quem não quer manda”.
Em Igreja a tentação é semelhante. Para fazermos melhor e mais depressa é melhor não contar com os outros que só atrapalham, atrasam, ou fazem as coisas com pouco zelo e com pouca perfeição. Há um princípio em pastoral que é difícil de cumprir com alegria: mais vale muitos fazerem pouco do que poucos fazerem muito. Ainda que seja acender uma vela, cada pessoa conta e todos devem estar envolvidos. Por parte de quem orienta, a capacidade para chamar, pedir, solicitar ajuda, distribuir tarefas. Por parte de cada batizado, oferecer-se para ajudar, disponibilizar para qualquer tarefa, em qualquer tempo, "chegar-se à frente". A única condição é a de batizado. Se me assumo como batizado então não são os outros que têm obrigação para fazer, sou eu. Posso não ter "jeito", mas pior que não ter jeito é não ter vontade!
As chefias e as ditaduras alimentam um célebre princípio que se tornou lei: eu posso, quero e mando. As discussões surgem precisamente nesta procura de mostrar que sou mais forte e melhor que os outros. Parece que tudo assenta numa questão de poder. Brincadeira de crianças que assumimos em adultos: o meu pai é mais forte que o teu... eu vou chamar o meu irmão e tu já vais ver!
2 – A sociedade do nosso tempo é altamente individualista. A cultura do "eu" está na mó de cima. Verificável também no meu grupo, partido, no clubismo, na ideologia. Imersos num mundo global, mas cujas referências e gostos nos comprometem, não com o diferente, mas com quem tem o mesmos gostos que nós. Nas redes sociais aderimos aos grupos com os quais temos afinidade e excluímos rapidamente quem pensa diferente. Eu e o meu grupo.
O grupo dos apóstolos faz esta experiência até ao fim. De diferentes origens e com temperamentos diversos. João e André, filhos do trovão; Pedro, impulsivo; Judas Iscariotes tendencialmente revolucionário; Mateus, cobrador de impostos. Filipe letrado. Tão diferentes mas todos lutam por se colocar acima e disputar o lugar cimeiro na futura hierarquia do Reino de Deus.
Como grupo fecha-se e impede que outras pessoas entrem. Afastam as crianças (cf. Mt 19, 13-15). Quando encontram um homem a pregar em nome de Jesus e a curar, proíbem-no: "ele não andam connosco" (cf. Mc 9, 38-41). A resposta de Jesus é clarificadora: deixai vir a mim as crianças, é delas o reino de Deus; não o proibais, quem não é contra nós é por nós.
Olhamos a vida a partir da nossa janela. O outro vê-nos partir da sua. São olhares que não se anulam, não veem o mesmo, não são fundíveis. Duas linhas retas, paralelas, nunca se tocam. Também a nossa vida. O problema não está em sermos diferentes, o problema está em não nos aceitarmos como diferentes, cuja diferença enriquecem, porque nos faz ver, ouvir, saborear, saber outras realidades.
Não é fácil deixarmos alguém entrar no nosso grupo. Não é fácil sentir-nos em casa num grupo que não é o nosso grupo de origem. Somos como invasores, já existia quando chegamos. E quando chega alguém ao nosso grupo parece que vai dividir a atenção que tínhamos uns para com os outros, vem desestabilizar os equilíbrios que construímos ao longo do tempo.
3 – Só o amor consegue unir sem destruir. Expressão do teólogo, padre, cosmólogo, Theilhard de Chardin. O grupo em si mesmo não é um mal. Muito pelo contrário. O grupo só é mau quando se fecha num círculo fechado, sectário, excludente. Deus chama-nos em povo e em povo nos salva. Jesus chama uns quantos, forma um grupo, o grupo dos 12. É um grupo heterogéneo, mas ainda assim restrito e, para quem vê de fora, um grupo esquisito. Jesus não desiste de nenhum; procura gerir os "egos", as discussões e os conflitos, que a seu tempo servem para balizar as dificuldades e para treinar o diálogo e a comunhão, integrando os dons de cada um.
Na oração sacerdotal, Jesus reza ao Pai para que aquele grupo, mas também os que a Ele vão aderir, se mantenham unidos. «Não rogo só por eles, mas também por aqueles que hão-de crer em mim, por meio da sua palavra, para que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em mim e Eu em ti» (Jo 17, 20-21). A oração é intercessão mas também desafio para os discípulos. Deus proverá a unidade dos discípulos de Jesus, mas estes terão que ser criativos e generosos para edificar a fraternidade em Cristo.
Ao longo do tempo, Jesus mostra que o caminho a seguir passa pelo amor, pela compaixão, pelo serviço. Quem quiser ser o maior terá de ser servo de todos. Por outro lado, não se pense que Jesus defende a anulação da personalidade de cada um. Desengane-se quem pensa assim. O grupo que O segue tem características muito distintas, que se mostram também no início da Igreja. Também nessa ocasião se verá que os temperamentos de cada um hão de ser temperados pela força do Espírito Santo, na oração comunitária. "Da discussão nasce a luz". Oração, reflexão partilhada, decisão!
O Apóstolo Paulo insistirá com as comunidades para que os dons sejam trabalhados a favor de todos, pois todos os dons foram dados por Deus. «Sede alegres, trabalhai pela vossa perfeição, animai-vos uns aos outros, tende os mesmos sentimentos, vivei em paz. E o Deus do amor e da paz estará convosco. Saudai-vos uns aos outros com o ósculo santo. Todos os santos vos saúdam. A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco».
4 – Deus é um mistério inefável. Cabe-nos acolhê-l'O. Não de qualquer jeito, mas com amor, orando e refletindo. Por conseguinte, precisamos de tentar compreendê-l'O através das categorias humanas, mas sempre com a humildade de sabermos que continua a ser Deus. E Deus é inabarcável, senão não era Deus. Como lembra Santo Agostinho, compreendes, então não é Deus. Há, porém, um esforço que nos compromete, pois o próprio Deus, em Cristo, vem até nós. Abaixa-Se, por amor, até à nossa condição humana e finita, familiariza-se connosco.
Mais que esmiuçar o mistério da Santíssima Trindade, um só Deus em três Pessoas, importa viver num estilo trinitário. Em Deus prevalece o amor que gera vida e comunhão, sem atropelos. O Amor de Deus é tão imenso que extravasa e nos cria. É tão imenso que nos recria para termos vida abundante. Como recorda Jesus a Nicodemos, «Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele».
O Amor que é Deus, que circula na Santíssima Trindade, expande-se para o Universo. Desde sempre. A plenitude chegará com o Seu próprio Filho que, por ação do Seu Espírito Santo fecunda a Virgem Maria. Enxertado na humanidade, para nos enxertar de vida divina.
Porém, Deus nunca esteve ausente ou distante. Moisés é um líder que tem a missão de comunicar o amor de Deus ao povo e fazer com que o povo se liberte para amar, ou seja, para viver em harmonia como povo. De Deus vem a certeza: «O Senhor, o Senhor é um Deus clemente e compassivo, sem pressa para Se indignar e cheio de misericórdia e fidelidade». De Moisés a súplica: «Se encontrei, Senhor, aceitação a vossos olhos, digne-Se o Senhor caminhar no meio de nós. É certo que se trata de um povo de dura cerviz, mas Vós perdoareis os nossos pecados e iniquidades e fareis de nós a vossa herança».
A súplica de Moisés revela a grande confiança que tem em Deus, apesar das próprias fragilidades e das do povo. A misericórdia de Deus supera e purifica a nossa miséria.
Pe. Manuel Gonçalves
segunda-feira, 24 de abril de 2017
VL – Deus da Páscoa, da criação e da salvação
Deus. Amor. Criação. Vida. Humanidade. Harmonia. Cumplicidade. Diálogo. Alegria.Homem e Mulher. Fragilidade. Pecado. Egoísmo. Discussão. Violência. Inveja. Morte.Chamamento. Promessa. Aliança. Profecia. Conversão. Perdão. Misericórdia.Jesus Cristo. Abaixamento. Compaixão. Vida nova. Nova criação. Salvação. Ressurreição.Chamamento. Vocação. Seguimento. Discípulos. Missionários. Espírito Santo. Igreja.Fraternidade. Humildade. Escuta. Obediência. Verdade. Libertação. Caridade.
Deus criou-nos por amor. Desde toda a eternidade e para sempre, Deus nos ama, como Pai e sobretudo como Mãe. A Páscoa de Jesus, a Sua ressurreição entre os mortos, clarifica, ilumina, torna percetível e pleniza a Encarnação, mistério de abaixamento, Ele que era de condição divina não se valendo da Sua igualdade com Deus, assumiu a condição de servo, humilhou-se a Si mesmo, obedecendo até à morte e morte de Cruz. Por isso Deus O exaltou e lhe deu o NOME que está acima de todos os nomes.
A vinda do Filho Unigénito de Deus aproxima a eternidade do tempo. Deus que nunca Se afastou nem Se distanciou, tornou-Se visível em Jesus Cristo. Não há como voltar atrás. Ele está no meio de nós como Quem serve, sempre e para sempre. Ao longo da Sua vida, sobretudo, ao longo dos três anos de vida pública, Jesus viveu para servir, para amar, para gastar a vida, para salvar, integrar, redimir, incluir todos os que andavam dispersos pelo pecado, pelas trevas e pela morte.
Foi crescendo em graça e sabedoria, diante de Deus e dos homens e chegada a Sua hora espalhou bondade e doçura, procurando os que andavam cansados e abatidos, como ovelhas sem pastor, indo às margens para Se encontrar com os que se tinham perdido pela solidão, pela pobreza, pela exclusão social, cultural e religiosa. Contundente contra os que usavam de artimanhas e hipocrisias, escravizando pessoas e perpetuando situações de pecado, de abuso, de corrupção; dócil, próximo, misericordioso para leprosos, cegos, coxos, crianças, mulheres, publicanos, pecadores, estrangeiros. Veio para incluir, revelando a Misericórdia de Deus Pai. O Seu projeto e o Seu propósito, o Seu alimento e a Sua vida: em tudo fazer a vontade do Pai. E a vontade do Pai é que todos se salvem.
Qual manso Cordeiro levado ao matadouro, inocente, arrastado para julgamento, condenado à morte, à ignomínia da Cruz, como malfeitor. Da Sua boca não se ouviram injúrias! Procurando-nos com o Seu olhar compassivo para nos manter vivos, como a Pedro ou a Judas; elevando o olhar, o coração e a vida para o Pai, nas mãos de Quem Se coloca por inteiro e em Quem nos coloca.
Publicado na Voz de Lamego, n.º 4408, de 18 de abril de 2017
VL – O Jejum que Eu quero é a Misericórdia
É mais importante não comer carne à sexta-feira ou ir à Missa ao Domingo?
Há tradições que são expressão da religiosidade mais popular. Mas, por vezes, parecem não passar de uma superstição entre outras como ver um gato preto, passar debaixo de uma escada, sentar-se a uma mesa com treze pessoas. É crucial não comer carne nas sextas-feiras da Quaresma porque é pecado e, pelo sim pelo não, mais vale prevenir e cumprir, não vá Deus chatear-Se. Temor sim, medo não. Deus ama-nos. É Pai de Misericórdia. Um Pai por certo não está à espera que o filho erre para o castigar, quando muito educa-o, dá-lhe ferramentas, aponta direções, caminhos…
Perguntam-me se comer carne às sextas-feiras da Quaresma é pecado! Apetecia-me responder: é mais importante ir à Missa ao Domingo. Uma pessoa não vai à Missa há dois ou três anos, só entra na Igreja num funeral, e depois pergunta se é pecado comer carne à sexta-feira? Claro que há muitas outras coisas essenciais, cuidar da família, comprometer-se com a justiça e com a verdade, ser honesto, ajudar os mais frágeis… Mas se falamos numa proposta feita pela Igreja, de abster-se de alguma coisa que se gosta muito, e que pode muito bem ser a carne, e que esse gesto (sacrifício) possa beneficiar uma causa, pessoas mais carenciadas, então talvez faça sentido interrogar-se sobre o que é essencial na vivência e expressão da fé!
Dois belíssimos textos no início da Quaresma. «Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes, convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo, paciente e rico em misericórdia» (Joel 2, 12-13). «O jejum que me agrada é este: libertar os que foram presos injustamente, livrá-los do jugo que levam às costas, pôr em liberdade os oprimidos, quebrar toda a espécie de opressão, repartir o teu pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não desprezar o teu irmão» (Is 58, 6-7).
Pergunta o Papa Francisco: como se pode pagar um jantar de duzentos euros e depois fazer de conta que não se vê um homem faminto à saída do restaurante? «Sou justo, pinto o coração mas depois discuto, exploro as pessoas… Eu sou generoso, darei uma boa oferta à Igreja… diz-me: tu pagas o justo às tuas colaboradoras domésticas? Aos teus empregados pagas o salário não declarado? Ou como a lei estabelece, para que possam dar de comer aos filhos?».
Desafia Jesus: «Ide aprender o que significa: prefiro a misericórdia ao sacrifício» (Mt 9, 13).
Publicado na Voz de Lamego, n.º 4405, de 28 de março de 2017
VL – Eu Sou o Caminho que vos conduz ao Pai – 2
O Cardeal Joseph Ratzinger (Bento XVI), há uma vintena de anos, sublinhava que para o reino de Deus há tantos caminhos quantas as pessoas, o que obviamente não anula o facto de Jesus ser o Caminho, a Verdade e a Vida (cf. Jo 14, 6). Com efeito, o meu caminho, o teu caminho, há de levar-nos a Jesus, há de levar-nos ao Pai. Sendo assim, quanto mais perto eu estiver de Jesus e quanto mais perto tu estiveres de Jesus, mais perto vamos estar um do outro. E se estamos próximos poderemos apoiar-nos mutuamente, ajudar-nos, incentivar-nos quando um de nós estiver a fraquejar.
A Quaresma é reconhecidamente tempo de conversão e de penitência, tempo de esperança e de mudança de vida. É caminho de santidade, de aperfeiçoamento, ou seja, caminho de humanização. Preparamo-nos ao longo de toda a vida para entrarmos na morada eterna no Pai. Caminhamos mas não sozinhos. Seguem connosco todos os que Deus colocou à nossa beira e que coincidem connosco no tempo e no espaço. Mas também nos acompanham os santos, aqueles que vieram antes de nós e nos ensinaram, imitando Jesus, o caminho da docilidade, da bondade, do serviço à pessoa e à humanidade e, agora junto de Deus, atraem-nos e desafiam a viver no bem que nos irmana. Com a ajuda de Deus e dos irmãos eles chegaram lá, nós também havemos de lá chegar. E o caminho começa AGORA na nossa vida diária.
No Reino de Deus não há excluídos (à partida), todos fomos criados por amor, para vivermos em abundância e sermos felizes (=santos). Por conseguinte, estamos "condenados" a aproximar-nos uns dos outros. Na verdade, diz-nos Jesus, Deus é Pai de todos e «faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos» (Mt 5, 45). A bênção recai sobre todos. Temos afinidades, mas nem por isso estamos dispensados de amarmos até os nossos inimigos, os que nos são indiferentes, os que desprezamos. Aliás, questiona Jesus, que vantagem haveria em amar aqueles que nos amam? Isso todos podem fazer. Os discípulos de Jesus são desafiados ao máximo. E o máximo é Deus. «Portanto, sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito» (Mt 5, 48).
A vinda de Jesus ao mundo, Deus que Se faz Homem, tem como missão reconciliar-nos uns com os outros e com Deus. Pelo mistério da Sua morte e da Sua ressurreição, Jesus resgata-nos das trevas, do pecado e da morte, para nos reconduzir ao Coração do Pai.
Publicado na Voz de Lamego, n.º 4402, de 7 de março de 2017
VL – Eu Sou o Caminho que vos conduz ao Pai
No diálogo bem conhecido com os discípulos (cf. Jo 14, 1-6), Jesus responde diretamente a Tomé: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por Mim. Se Me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai. Mas desde agora já O conheceis e já O vistes». E logo de seguida a Filipe: «Quem Me vê, vê o Pai».
Iniciamos o ciclo da Páscoa neste ano pastoral 2016-2017. O tempo santo da Quaresma encaminha-nos e prepara-nos para a Páscoa, envolvendo-nos na vivência mais consciente da Liturgia da Palavra, comprometendo-nos com o mundo atual em que vivemos, para chegarmos a ser, nas palavras de Jesus, sal da terra e luz do mundo.
No caminho da Quaresma a oração, o jejum e a esmola (cf. Mt 6, 1-18). A oração para nos sintonizar com Deus e com a Sua palavra, na certeza que a proximidade a Deus nos impele ao encontro dos irmãos.
O jejum como gesto e oportunidade de tomarmos consciência que a vida não depende só daquilo que comemos, mas tem como referencial e fundamento o próprio Deus (cf. Mt 6, 25ss). A vida é um dom inalienável. Recebemo-la de Outro, através dos nossos pais, pelo que o direito sobre a vida, a nossa e a dos outros, não nos pertence. O que nos pertence é a missão de viver e viver em abundância (cf. Jo 10, 10). O jejum não é dieta, o jejum balança-nos para outros. «Tornando mais pobre a nossa mesa aprendemos a superar o egoísmo para viver na lógica da doação e do amor; suportando as privações de algumas coisas – e não só do supérfluo – aprendemos a desviar o olhar do nosso «eu», para descobrir Alguém ao nosso lado e reconhecer Deus nos rostos de tantos irmãos nossos. Para o cristão o jejum nada tem de intimista, mas abre em maior medida para Deus e para as necessidades dos homens, e faz com que o amor a Deus seja também amor ao próximo (cf. Mc 12, 31)» (Bento XVI).
Decorrente da vivência do Jejum, que nos recorda que o pão de cada dia deve chegar a todos, a prática da caridade, cuja esmola continua a ser uma belíssima tradição que não dispensa de refletir e lutar por mais justiça social e pela transformação das estruturas, humanizando-as. «A prática da esmola é uma chamada à primazia de Deus e à atenção para com o próximo, para redescobrir o nosso Pai bom e receber a sua misericórdia» (Bento XVI).
Publicado na Voz de Lamego, n.º 4401, de 28 de fevereiro de 2017
sábado, 23 de julho de 2016
XVII Domingo do Tempo Comum - ano C - 24 de julho
1 – A vocação primeira do cristão é apaixonar-se por Cristo e segui-l'O pelos caminhos por Ele propostos. Ele segue à frente e será curial que sigamos os Seus passos. Outras vezes, segue lado a lado connosco. Adianta-Se para que nos esforcemos por alcancá-l'O. Aponta-nos a meta, a direção e o quanto temos ainda que percorrer, para não afrouxarmos! Quando os nossos passos se tornam vacilantes, inseguros, Jesus volta-Se, espera por nós, vem até nós dar-nos ânimo para retomarmos o caminho. Importa não O perder de vista. Ele nunca nos deixa à deriva, mesmo quando parece que vai a dormir na nossa barca…
A oração é o combustível que nos dá a vitalidade para enfrentarmos as adversidades, a humildade para nos reconhecermos pecadores, a sabedoria para aceitarmos que é a Sua mão que nos leva à felicidade, a pobreza para nos enriquecermos com a Sua graça e nos deixarmos preencher pelo Seu amor.
O Evangelho de Lucas mostra-nos Jesus, recolhido, a orar. Orar é deixar que Deus fale em nós, rezar é falarmos a Deus da nossa vida, das nossas dificuldades e anseios. Se usarmos este sentido restrito, então, mais importante que rezar importa orar, deixar que Deus nos reze, que Deus diga em nós. A ligação de Jesus ao Pai é constante. A Sua vida é oração ao Pai, oferta, procurando perscrutar a vontade paterna, traduzindo-a nas palavras, nos gestos, no encontro com as pessoas. Porém, Jesus reserva momentos específicos para orar/rezar. Sem mais. Sem outro afazeres.
Os discípulos percebem a importância da oração na vida de Jesus e deixam-se contagiar por esta postura, pedindo-Lhe que lhes ensine a rezar. O estilo de oração de Jesus leva à imitação. Jesus deixa claro que não são precisas muitas palavras, é imprescindível sintonizar o coração – pensamentos, intenções, propósitos – e a vida – serviço aos outros, luta pela justiça e pela paz, compromisso com os mais frágeis, caridade – com o coração e a vida de Deus.
2 – A oração torna-nos íntimos de Deus e cúmplices uns dos outros. Rezai assim: «Pai, santificado seja o vosso nome; venha o vosso reino; dai-nos em cada dia o pão da nossa subsistência; perdoai-nos os nossos pecados, porque também nós perdoamos a todo aquele que nos ofende; e não nos deixeis cair em tentação».
Percebe-se na oração do Pai-nosso, a prioridade de "orar" e não apenas "rezar". Explico: o fundamental é que a vontade do Pai se realize em nós e em todo o mundo, em todo o tempo. Começamos por reconhecer que Deus é Pai, Pai de todos, nosso Pai. E se todos o temos por Pai, todos procuramos ser-Lhe fiéis, fazendo por concretizar, aqui e agora, a Sua vontade: que todos se salvem!
Se reconhecemos Deus como Pai e queremos que a Sua vontade se realize em mim, em ti, em nós, tornar-nos-emos mensageiros da alegria e da paz, fazedores de pontes, partidários do diálogo e da reconciliação, da partilha solidária e do perdão, do amor e da humildade, assumindo as próprias fragilidades para aceitar as dos outros. Se rezamos ao Pai, assumimo-nos como filhos, comprometidos uns com os outros, com todos os irmãos. Encaixa aqui o pedido do Pão nosso de cada dia. Se o pedimos ao nosso Pai, não o pedimos só para nós, teremos que o pedir para todos os Seus filhos, para os nossos irmãos.
Jesus faz-Se Pão e Vida para nós. Por todos. Para todos. Jesus é partilhável. Melhor, se tento açambarcá-l'O, perco-O e traio a Sua mensagem de amor. Como Seus discípulos, como seguidores Seus, também nós teremos de nos fazermos pão e vida uns para os outros e cuidar que a ninguém falte o necessário para viver com dignidade e em segurança.
3 – Deus não nos deixará sem resposta. A oração ajuda-nos a descobrir o que pedimos a Deus, isto é, que a Sua vontade Se realize no mundo (também) através de nós. A oração dilata o nosso coração e sintoniza-nos com Deus. Coloca-nos em atitude de escuta. A oração é um diálogo com Deus. Falamos a Deus e Deus fala-nos. Deus conhece-nos intimamente. Melhor que nós mesmos. Sabe do que precisamos. Não precisamos de dizer muito. Precisamos de nos dizer. Precisamos de perceber a vontade de Deus, escutando-O, estando atentos ao que nos quer dizer.
Haverá ocasiões em que sobrevirá a dúvida e a incerteza sobre qual a vontade de Deus para nós e como realizarmos o que nos pede. Desde logo, a certeza que Deus é Pai. A Sua vontade e desejos descem aos nossos desejos e à nossa vontade em sermos felizes. Deus não atenta contra nós. Não nos exige sacrifícios que nos anulem e nos desumanizem, exige-nos, isso sim, dedicação, esforço, e, como Pai, que nos tratemos como irmãos cuidando sobretudo dos mais pequeninos. Nessa ocasião estaremos a cuidar de Jesus Cristo. “Sempre que fizeste isto a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizeste” (Mt 25, 40).
O exemplo usado por Jesus convida-nos a resistir na oração, confiando em Deus. Se um amigo nos atende pela amizade ou pelo incómodo, quanto mais Deus que é nosso Pai. «Pedi e dar-se-vos-á; procurai e encontrareis; batei à porta e abrir-se-vos-á. Porque quem pede recebe; quem procura encontra e a quem bate à porta, abrir-se-á».
Deus responder-nos-á como Pai. Podemos não gostar da resposta. Como por vezes não compreendemos as negas e os reparos dos nossos pais. Mas como Pai também Deus tudo fará para nos abençoar, nos proteger e nos guiar à verdadeira felicidade que a todos integra numa só família.
4 – É expressiva a oração de intercessão de Abraão a favor do povo de Sodoma e Gomorra. Em primeiro lugar, vê-se com clareza como Abraão confia em Deus e na Sua misericórdia. Pede. Sugere. Negoceia. Não para si, mas para os outros. Em segundo lugar, a oração irmana-nos e leva-nos a querer o bem de todos.
Abraão não cessa de interceder, apelando à compreensão e à benevolência de Deus. E se houver 50 justos na cidade? E se houver 40? «Se o meu Senhor não levar a mal, falarei mais uma vez: talvez haja lá trinta justos... vinte justos... talvez lá não se encontrem senão dez». A resposta de Deus é elucidativa: «Em atenção a esses dez, não destruirei a cidade». No final nem 5 justos! Uma cidade onde impere a injustiça, o egoísmo, a corrupção e a prepotência desembocará inevitavelmente em desgraça e destruição!
A justiça de Deus é a Sua misericórdia. Deus adia o "castigo" até ao limite, melhor, prorroga todos os prazos para que sejamos salvos pelo Seu amor. A misericórdia de Deus "falha" quando o nosso pecado não Lhe abre qualquer brecha. Só nós podemos, com a liberdade com que Ele nos criou, impedir que a Sua misericórdia nos redima do pecado e da morte.
5 – A Cruz de Cristo, reafirma São Paulo, cancela a dívida contraída pelo nosso pecado. No batismo configuramo-nos com a morte de Jesus. Com Ele sepultados, no pecado e na morte, para n'Ele e com Ele nos tornarmos novas criaturas, ressuscitando.
Esta é uma página belíssima do Apóstolo: o documento da nossa dívida foi anulado ao ser cravado na cruz. Em Cristo, Deus perdoa-nos todas as faltas e faz-nos regressar à vida.
6 – Peçamos a Deus o dom da sabedoria, para que em nós se multiplique a Sua misericórdia e, conduzidos por Ele, “usemos de tal modo os bens temporais que possamos aderir desde já aos bens eternos”. Complete Deus, na Sua bondade, a obra que em nós iniciou.
Pe. Manuel Gonçalves
Textos para a Eucaristia (C): Gen 18, 20-32; Sl 137 (138); Col 2, 12-14; Lc 11, 1-13.
sábado, 5 de março de 2016
Domingo IV da Quaresma - ano C - 6 de março de 2016
1 – Para saborearmos a palavra de Deus, comecemos por dirigir o nosso coração e a nossa vida para Ele: «Deus de misericórdia, que, pelo vosso Filho, realizais admiravelmente a reconciliação do género humano, concedei ao povo cristão fé viva e espírito generoso, a fim de caminhar alegremente para as próximas solenidades pascais» (Oração de coleta).
A alegria que buscamos reforça-se pela conciliação, em Deus, com os outros e com o mundo. Contagiados pela Sua misericórdia infinita, façamos emergir a delicadeza, o cuidado e a compaixão para com aqueles que peregrinam connosco neste tempo e neste mundo.
A liturgia da Palavra que hoje temos a dita de refletir, mormente o Evangelho de São Lucas, coloca a descoberto a compaixão de Deus Pai. É grandiloquente a parábola tradicionalmente conhecida como "do filho pródigo", ainda que seja o Pai misericordioso que preenche todo o texto. O Papa Francisco, com a convocação do Jubileu da Misericórdia, quer que a Igreja transpareça mais claramente a Misericórdia do Pai que resplandece em Jesus, nas Suas palavras e no Seu agir. As parábolas da misericórdia ganham assim uma maior relevância. E esta é uma parábola que ilumina todo o Evangelho, pela qual Jesus nos revela o coração misericordioso do Pai.
2 – Os publicanos e os pecadores, os doentes, as mulheres e as crianças, os leprosos, os surdos e os coxos, os pobres, são os amigos mais próximos de Jesus. Atrai-os pela simplicidade, pela transparência, pela afabilidade. Procura-os. Vai ter com eles, senta-se a conversar e, o gesto mais sublime, come com eles. A refeição não é apenas uma momento para se alimentar, é um momento de encontro, de convívio, de festa. Um judeu senta-se à mesa para comer com a família e com os amigos. Se Jesus come com publicanos e pecadores e com as pessoas não recomendáveis é por considerá-los amigos, com quem quer partilhar o tempo e a vida.
Este proceder não agrada a todos. Jesus anuncia o Reino de Deus, onde todos têm lugar, optando por se encontrar com os mais desvalidos. Alguns grupos, que se consideram privilegiados, puros, abençoados por Deus, acham que se Ele é profeta então deve circunscrever-se ao Templo e às Sinagogas e conviver com pessoas de bem e não com pessoas de honra duvidosa.
Perante o murmúrio, a desconfiança e a crítica, Jesus conta-lhes uma parábola: «Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’. O pai repartiu os bens pelos filhos. Alguns dias depois, o filho mais novo, juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante».
Jesus mostra-nos a figura do Pai que ama com amor de Mãe. A Sua casa e o Seu trabalho, o Seu coração e a Sua vida orientam-se para os dois filhos, para lhes proporcionar alegria e segurança. É um Pai que parte a cara e perde a vergonha, mas não quer perder os filhos e não desiste deles. O mais novo deseja-lha a morte, pois a herança vem com a morte do pai. Este filho afasta-se, para ele o pai morreu, deixou de ser pai, porque não quer continuar a ser filho. Por sua vez o Pai não o força, mas é com tristeza que o vê partir. Confia que ele regresse e, por conseguinte, o seu olhar perde-se no horizonte à espera que o filho volte. «Ainda ele estava longe, quando o pai o viu: encheu-se de compaixão e correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos». Encheu-se de compaixão (revolveram-se-lhes as entranhas), quando vislumbrou o filho à distância. Não hesitou. Correu. Lançou-lhes ao pescoço, encheu-o de beijos. Tal como uma Mãe quando se reencontra com o filho ausente há algum tempo. O filho saiu de casa, esbanjou os bens, regressa por indigência, pois gastou tudo o que tinha, ficando na miséria. Está convencido que o Pai o aceitará como empregado mas não como filho. O Pai nem lhe deixa terminar o discurso preparado, enche-o de beijos, recebe-o como filho, manda que lhe ponham o anel, as sandálias, a melhor túnica, manda matar o vitelo gordo, faz-lhe uma grande festa. A miséria (do filho) é absorvida pela misericórdia (do Pai)!
3 – Mas a provação não fica por aqui. Quando o Pai se delicia com o regresso do Seu filho que estava perdido, aproxima-se o filho mais velho. Cumpridor. Sempre perto do Pai. Mais que filho, é um servo obediente, trabalhador. «Há tantos anos que eu te sirvo, sem nunca transgredir uma ordem tua». Não questiona as ordens. Faz o tem que fazer. Fica fora, a observar. Fora de casa e da festa!
«Ora o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças. Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. O servo respondeu-lhe: ‘O teu irmão voltou e teu pai mandou matar o vitelo gordo, porque ele chegou são e salvo’. Ele ficou ressentido e não queria entrar».
O Pai põe-se novamente em campo. Sai da festa e de casa e vai ao encontro do filho. O Pai renuncia à sua autoridade e humilha-se pelos filhos. Os que estão à volta, os servos, são testemunhas destas coisas. O Pai expõe-se aos olhares e aos cochichos. Assim como Jesus Se expõe ao nosso sussurro e à nossa crítica por se atrever a conviver com pessoas de má índole.
Apesar de Se expor, o Pai não deixa de ser Pai e Mãe, cujas entranhas se revolvem, cuja compaixão (misericórdia) O conduz para fora do seu espaço de conforto. Não se preocupa com os costumes ou as ideias preconcebidas acerca da figura hierática da paternidade. Não mantém distâncias, não fica no seu canto à espera que os filhos regressem. Dá-lhes a liberdade necessária para que decidam, mas faz-lhes sentir o Seu amor, a Sua delicadeza. «Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado».
Mais que filhos, um e outro, assumem-se como assalariados. Quando regressa, o filho mais novo quer ser tratado como um dos servos, porque até os servos em sua casa são bem tratados. O filho mais velho sente-se um servo cumpridor, nunca se sentiu filho nem considera o seu irmão. Veja-se o trato: "esse teu filho"! Só quando nos sentimos filhos nos poderemos considerar irmãos!
4 – O perigo também está dentro de nós. A dracma perdida (no conjunto das três parábolas: Pai misericordioso, pastor à procura da ovelha perdida, mulher que perde e encontra a dracma) mostra que em casa também podemos perder-nos. Jesus responde com as três parábolas ao murmúrio, à crítica, à desconfiança e à suspeita que recaem sobre Ele por se misturar com pecadores e publicanos.
A lermos a parábola, como em outras, devemos procurar o melhor ângulo acolhermos o essencial da mensagem de Jesus: a partir do filho mais novo, do filho mais velho, ou do Pai! Porém, para que a parábola possa levar-nos à conversão, devemos situar-nos, como insiste D. António Couto, Bispo de Lamego, na assembleia ouvinte, como fariseus e doutores da lei, a quem Jesus se dirige. Contestam o proceder de Jesus, porque não conhecem o Pai, a Quem consideram patrão, juiz, todo-poderoso, a Quem temem e, por isso, procuram cumprir um conjunto de regras e de tradições para serem merecedores da compaixão de Deus.
Ora, para Jesus a salvação de Deus é DOM, é gratuita. Nenhum dos filhos fez nada que mereça os cuidados e a ternura complacente do Pai. A misericórdia alcança-os para lá dos méritos. Um sai de casa e assume-se como filho sem Pai. O outro, ainda que em casa, considera-se servo, mas não filho e não considera como irmão o outro filho de Seu Pai. Aqueles fariseus e doutores da lei, do lado de quem devemos colocar-nos, terão de fazer a experiência de Deus como Pai que ama com amor de Mãe, que quebra a cara mas não quer perder nenhum dos Seus filhos.
Sentindo a nossa fragilidade, mas sabendo-nos filhos, acolhamos em verdade a misericórdia de Deus. O primeiro passo para a cura é o reconhecimento de que estamos doentes e precisamos de tratamento. Deus toma a iniciativa de nos AMAR de todo o coração. Cabe-nos responder-Lhe. Quando é que nos assumimos como filhos bem-amados?!
5 – A revelação de Deus como Pai vai sendo desenhada ao longo do Antigo Testamento, na história da Primeira Aliança. O penitente, o orante, o crente confia a Sua vida a Deus, esperando compaixão, graça, misericórdia. A libertação do Egipto tem a marca de Deus, que não Se mantém indiferente às súplicas do Seu povo. «Hoje tirei de vós o opróbrio do Egipto», diz Deus a Josué. O Povo pode então celebrar na planície a paz e a libertação, a bênção de Deus. O deserto fica para trás para que na terra da promessa experimentem a abundância dos frutos da terra.
O Apóstolo São Paulo faz-nos ver como em Cristo, a nossa Terra Prometida, se manifesta a justiça e a misericórdia de Deus, que nos salva e nos renova: «Deus que em Cristo reconcilia o mundo consigo, não levando em conta as faltas dos homens e confiando-nos a palavra da reconciliação… A Cristo, que não conhecera o pecado, Deus identificou-O com o pecado por causa de nós, para que em Cristo nos tornemos justiça de Deus».
Pe. Manuel Gonçalves
sábado, 30 de maio de 2015
Solenidade da Santíssima Trindade - B - 31 de maio
1 – Somos seres sociais mas nem sempre lidamos bem com os outros. Em todas as áreas do saber e em todas as dimensões da vida se constata que fomos criados uns para os outros, para vivermos em povo, solidariamente. Sempre que a solidariedade acontece, há vida, felicidade, o mundo pula e avança. Sempre que vem ao de cima o isolamento solitário, o egoísmo, a prepotência desmedida, a ambição doentia, o mundo conhece dias maus, tempos de crise, angústia e devastidão.
Alguém poderá dizer que não é a sociedade que faz avançar a história, mas a genialidade de pessoas que surgem de longe a longe, grandes líderes, inventores, descobridores. Porém, o inventor deve as suas descobertas a outros anteriores, que possibilitaram o ambiente, as condições, os avanços técnicos e até os instrumentos para que novas invenções pudessem emergir. Por outro lado, o génio “cria” para melhorar a vida e/ou para deixar o seu nome inscrito na história (precisa dos outros para ser reconhecido). Se um "criador" agisse apenas por brincadeira, não daria a conhecer as suas descobertas e nunca seria considerado génio ou inventor.
Um génio que "trabalhe" sem raízes (os que estão antes), desligado de tudo e de todos, que viva cinicamente como se o mundo lhe fosse contrário, lhe fosse repugnável, engana-se a si mesmo, pois a genialidade nasce da pertença a uma família, à humanidade, com quem aprendeu a falar, a compreender, a abstrair, a tentar algo a partir do que existe. Já todos vimos (ou ouvimos falar) como pessoas consideradas inteligentes usaram o seu saber e o seu poder para destruir, anular, esquecendo a dívida para com quem lhes proporcionou a vida, o contexto e as condições.
2 – Somos seres sociais mas nem sempre funcionamos bem com as diferenças, com as limitações, com a fragilidade, com as qualidades dos outros. Anunciamos a tolerância, dizemo-nos compreensivos, capazes de ceder, mas quando as nossas ideias, opiniões ou projetos prevalecem. Em grupos, em Igreja, no dirigismo político, cultural, desportivo, há sempre a tentação de fazer sozinho, porque mais rápido e (aparentemente) melhor. Defendemos o trabalho em grupo mas se não puserem em causa a nossa forma de trabalhar e/ou o que propomos.
Claro que, em contraponto, há quem promova a integração, o respeito mútuo, o trabalho conjunto, solicitando o contributo de todos, incentivando a participação, abdicando das próprias ideias e sugestões quando percebe que dessa forma haverá uma maior colaboração, mais alargada e responsabilizadora. É necessário uma dose elevada de humildade e de sabedoria para aceitar os dons dos outros, para distinguir o essencial do acessório, o imprescindível do dispensável e secundário. Há quem imponha pormenores apenas para se impor. Há que saber distinguir aquilo por que vale a pena discutir, refletir, dialogar, ou até mesmo chatear-se!
A história conheceu pessoas muito "inteligentes" (mas pouco sábias) que impuseram as suas ideias, contra tudo e contra todos, Reis e imperadores, secando a manifestação das qualidades de outros que poderiam trazer mais paz e frutos de justiça duradouros.
Celebrar a solenidade da Santíssima Trindade é acolher Deus como comunidade de vida e de amor, Deus Uno e Trino, comunhão que integra Três Pessoas, prevalecendo o AMOR que circula em Deus. Sem confusões, anulação ou sobreposição. O que se diz do Pai, assim do Filho e do Espírito Santo. O que se diz do Filho, assim do Pai e do Espírito. O que se diz do Espírito Santo, assim do Pai e do Filho. «Com o vosso Filho Unigénito e o Espírito Santo, sois um só Deus, um só Senhor, não na unidade de uma só pessoa, mas na trindade de uma só natureza» (oração eucarística). É um DESAFIO e um COMPROMISSO para cada um de nós e para a comunidade. Sem cair em relativismos simpáticos – tudo vale, tudo é igual ao litro – mas na procura sincera e humilde de constituirmos uma só família, integradora, inclusiva de diferentes sensibilidades, potenciando o melhor de cada um para o bem de todos.
3 – Ressurreição de Jesus e Ascensão aos Céus, Pentecostes, com a dádiva do Espírito Santo, solenidade da Santíssima Trindade. Várias acentuações de uma realidade que nos convoca, nos provoca, nos envolve e nos compromete. Deus vem para ficar connosco, em definitivo. Criando-nos por amor, por amor nos salva, revelando-Se em definitivo em Jesus Cristo. Com a Páscoa, somos introduzidos numa VIDA NOVA, na vida de Deus, para sermos cada vez mais o que sempre fomos, imagem e semelhança de Deus, irmãos em Jesus para sermos um só povo, um só rebanho, enriquecendo-nos na multicolaridade das nossas vidas.
Precisamos de escutar. Gostamos de nos ouvir. Precisamos que nos escutem. Devemos gostar de ouvir os outros. Não poderemos compreender, amar, amadurecer, alargar os nossos horizontes, sem escutarmos, tentado colocar-nos nas situações dos outros, interagindo socialmente.
Seguindo Jesus, vamos perceber que Ele não É só, não vive sozinho, não Se dá inteiramente sozinho. Ele o Pai são UM, o Pai n'Ele e Ele no Pai. O Seu alimento, a Sua vontade, não segue o que mais Lhe apraz a cada momento, mas procura fazer-Se coincidir com a vontade do Pai. Retira-Se em silêncio, para que o Espírito Lhe traga a vontade, a intimidade, a cumplicidade do Pai.
Com a Páscoa, Jesus agrafa os seus discípulos à missão trinitária: «Todo o poder Me foi dado no Céu e na terra. Ide e ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo o que vos mandei. Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos».
Anunciar em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo não é, e não pode ser, anunciar-se a si mesmo. Levar-se demasiado a sério, dar-se demasiada importância, pode gerar artistas, mas não gera discípulos, nem gera Filhos, nem missionários, nem irmãos.
4 – Aquele povo precisou de escutar! Quando se encerrou nos seus egoísmos, fazendo desaparecer a solidariedade, acentuou os conflitos e deixou que estranhos minassem a familiaridade, entreajuda e a proximidade que o tornava povo de Deus.
Moisés relembra a sabedoria em escutar e cumprir a Lei do Senhor, sublinhando também a proximidade de Deus: «Que povo escutou como tu a voz de Deus a falar do meio do fogo e continuou a viver? Considera hoje e medita em teu coração que o Senhor é o único Deus, no alto dos céus e cá em baixo na terra, e não há outro. Cumprirás as suas leis e os seus mandamentos, que hoje te prescrevo, para seres feliz, tu e os teus filhos depois de ti, e tenhas longa vida na terra que o Senhor teu Deus te vai dar para sempre».
Somos seres sociais, mas por vezes preferimos experimentar seguir sozinhos, sem a gratidão dos que nos precederam, sem a sabedoria dos que nos acompanham. Popularmente reconhece-se que é preciso bater com a cabeça para valorizarmos o que nos dizem. Cada um terá que assumir e fazer o seu caminho. Jesus é o caminho, a verdade e a vida. Mas como fazer d’Ele o nosso próprio caminho?
Diz-nos São Paulo: “Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Vós não recebestes um espírito de escravidão para recair no temor, mas o Espírito de adoção filial, pelo qual exclamamos: «Abá, Pai». O próprio Espírito dá testemunho, em união com o nosso espírito, de que somos filhos de Deus. Se somos filhos, também somos herdeiros, herdeiros de Deus e herdeiros com Cristo; se sofrermos com Ele, também com Ele seremos glorificados”.
Recebemos de Jesus o Espírito Santo que nos encaminha para o Pai e nos aproxima dos outros, revelando-nos o nosso parentesco humano e espiritual.
5 – Sintonizados com Moisés, dóceis ao Espírito Santo que Cristo nos dá em abundância, confiemo-nos a Deus Pai, acolhendo a Sua misericórdia infinita. O salmista ajuda-nos nesta sintonia e nesta sinfonia:
A palavra do Senhor é recta,
da fidelidade nascem as suas obras.
Ele ama a justiça e a rectidão:
a terra está cheia da bondade do Senhor.
A palavra do Senhor criou os céus,
o sopro da sua boca os adornou.
Ele disse e tudo foi feito,
Ele mandou e tudo foi criado.
Os olhos do Senhor estão voltados
para os que O temem,
para os que esperam na sua bondade,
para libertar da morte as suas almas
e os alimentar no tempo da fome.
A nossa alma espera o Senhor:
Ele é o nosso amparo e protector.
Venha sobre nós a vossa bondade,
porque em Vós esperamos, Senhor.
Pe. Manuel Gonçalves
Textos para a Eucaristia (B): Deut 4, 32-34. 39-40; Sl 32; Rom 8, 14-17; Mt 28, 16-20.
sábado, 14 de junho de 2014
Festa da Santíssima Trindade - 15 de junho de 2014
1 – “Sede alegres, trabalhai pela vossa perfeição, animai-vos uns aos outros, tende os mesmos sentimentos, vivei em paz. E o Deus do amor e da paz estará convosco. Saudai-vos uns aos outros com o ósculo santo. Todos os santos vos saúdam. A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco”.
São Paulo, partindo da realidade das comunidades e das tensões próprias de grupos humanos, sabendo que não é fácil conjugar as variadas sensibilidades, remete para a origem e fundamento da fé e da comunidade: o Deus de Jesus Cristo – o amor do Pai, a graça do Filho, Jesus Cristo, e a comunhão do Espírito Santo. Que todos, embora diferentes, procurem viver com os mesmos sentimentos, em dinâmica de paz.
2 – Somos pouco trinitários, na Igreja e na sociedade. Existem muitas pessoas e grupos que promovem a corresponsabilidade, a participação de todos, procurando as melhores soluções, criando as condições para que todos se sintam em casa. Porém, o ideal "eu quero, posso e mando" está muito vincado e são demasiadas as situações que vem ao de cima a prepotência, o egoísmo, a imposição das próprias ideias pela chantagem, pelo poder, pelo controlo dos instrumentos de decisão.
São conhecidos os totalitarismos do passado, as ditaduras derrubadas que em muitos países foram substituídas por outras mais sofisticadas, por vezes mudando o extremo. Para já não falar na ditadura do mercado, a economia, a inflação e os lucros em crescendo, muitas vezes à custa de trabalho escravo. Melhorar os objetivos de produção. Novos objetivos. Mais horas de trabalho, secundarizando a família, a saúde, os tempos de descanso e de lazer, os tempos dedicados a outras atividades humanizadoras, cultura, desporto, religião... Há dias ouvi um comentário que me faz refletir. Uma empresa aumenta o lucro, o funcionário faz mais trabalho pelo mesmo ordenado, então é possível dispensar alguns trabalhadores, ou substituí-los por máquinas automáticas, para que o lucro seja maior. A lógica expectável seria: maior lucro para manter os postos de trabalho e eventualmente empregar mais pessoas, melhorando as condições de trabalho e a sustentabilidade da empresa.
Olhando para as últimas eleições europeias, em que a maioria simplesmente ficou em casa, indiferente ou como protesto, uma das leituras possíveis é o cansaço e a desconfiança das pessoas em relação àqueles que nos governam, prevalecendo minorias que se impõem pelo radicalismo de posições. O descontentamento beneficiou os partidos e ideologias mais fixistas, mais radicais, mais extremistas, onde prevalece o líder como o único a decidir e a pensar e todos os outros seguem atrás, ou diluindo as ideias próprias num projeto impessoal do partido. Reclama-se por uma refundação da democracia, mas o desejo, expresso em votos, é promover alguém que obrigue, imponha, expulse, exclua, vire costas aos que não são da família ou não têm a mesma ideologia ou a mesma nacionalidade. E lembrar-nos que o Hitler foi eleito…
3 – O papa Francisco, tal como fazia em Buenos Aires, tem insistido na cultura do encontro, na cultura do diálogo. Esta cultura implica dar e receber. Todos temos algo de útil e positivo a dar. Todos temos a ganhar recebendo dos outros. Se parto para um diálogo para impor a minha vontade, decidido a não fazer cedências, esperando que os outros renunciem às suas ideias e convicções, pois as minhas propostas são as melhores que se podem encontrar no mercado, não será possível encontrar-me verdadeiramente com o outro. Em vez de diálogo temos monólogo, em vez de encontro, submissão, em vez de compromisso, imposição.
Em grupos eclesiais, associações, partidos políticos, clubes desportivos, vem muitas vezes ao de cima a prevalência de uma pessoa, ou de um conjunto de ideias que rejeitam tudo o mais, mesmo antes de escutar e/ou avaliar. Veja-se, por exemplo, uma disputa eleitoral. Aquele que ganha, ilude-se, muitas vezes, pensando que as suas ideias são as melhores do mundo. Ora, o eleito pode vencer por diversos motivos, simpatia, competência reconhecida, capacidade de liderança.
Na cultura do encontro, o diálogo fala e escuta, acolhe e contribui, interage para melhorar propostas, as relações pessoais, familiares, comunitárias, empresariais, profissionais. Se eu sei tudo e ninguém me pode ensinar, em nenhum aspeto, fecho-me a toda a novidade e a toda a riqueza que outros me tragam, deixo de progredir. Um sonho sonhado sozinho não passa de um sonho, um sonho sonhado com os outros torna-se realidade (frase atribuída a John Lennon).
A evolução humana, social, política, cultural e religiosa, passa pelo diálogo, pelo encontro, pelo contributo de várias pessoas e povos. Há génios e descobertas extraordinárias. Mas ainda assim contam com os outros, a começar pelos genes, pela vida, e por intuições anteriores. Dessa forma, a humanidade avança. O "criador" humano não parte do nada, do vazio, ou de um início absoluto, avança a partir de alguma coisa, de outros, de outras invenções.
4 – Viver trinitariamente, assumir na vida quotidiana o que professamos na nossa fé cristã coloca-nos imensos desafios, mas que nos engrandecem, descobrindo o melhor de nós e dos outros. Em Deus, a perfeita comunhão de vida e de amor. Três Pessoas, UM só Deus, como Jesus revela na oração sacerdotal: Eu e o Pai somos UM, para que vós sejais UM. Um só Deus, Trindade de Pessoas.
Quando nos guiamos só por nós, pela nossa intuição, pelo nosso instinto, não passamos de animais entre animais. Também as outras espécies animais se regulam pelo instinto de sobrevivência e proteção dos da sua espécie. Há, a esse propósito, espécies animais que conseguem ser mais eficazes na entreajuda e na sobrevivência, trabalhando em grupo. A nossa inteligência pode e deve levar-nos mais longe. Celebrar o Pentecostes, celebrar a Santíssima Trindade é assumir que o caudal de Amor que circula em Deus se estende e se ramifica em nós e, através de nós, no mundo.
A vida humana não se reduz à biologia, mas floresce na vida interior, na vida espiritual, na vontade, na reflexão. Somos um TODO, corpo, alma e espírito. Somos corpo que se situa no tempo e no espaço, somos espírito que se enlaça, afetiva e espiritualmente, nos outros.
O Evangelho mostra-nos como Jesus vive trinitariamente. Dirige-Se ao Pai, evocando a força do Espírito Santo. Em situações concretas desafia os seus discípulos a acolher a novidade do Espírito e o bem que vem dos outros. Como não lembrar aquela missão em que os discípulos foram enviados a anunciar a Boa Nova, com o poder de curar e de expulsar demónios. Ao regressarem, dizem a Jesus o que viram e ouviram e como proibiram outros de agir do mesmo modo, só porque não faziam parte do grupo. A resposta de Jesus é clarificadora: quem não está contra nós, está por nós. Deixai que eles continuem. Não podem fazer algo em Meu nome e estarem contra Mim. O próprio grupo dos discípulos é heterogéneo, na origem, nos interesses, na maneira de ser. Une-os o mesmo amor ao Mestre, ou o poder que esperavam alcançar.
5 – A cultura do diálogo e do encontro há de conduzir à civilização do amor, de que falava Paulo VI, tema retomado muitas vezes por João Paulo II. É a o AMOR, o Espírito Santo, que une o Pai e o Filho. O Pai que ama, o Filho que é amado, e o Espírito Santo, o Amor que faz a comunhão. É na Trindade que nasce a Igreja. É por amor, para nos salvar, que, em Jesus, Deus assume a nossa frágil condição humana. É por amor que Jesus vai até ao fim, dando a última gota de sangue. É por amor que Deus faz permanecer Jesus, através do Espírito Santo.
Diz Jesus a Nicodemos: «Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele».
A condenação não é querida por Deus. Resulta da nossa liberdade. Podemos recusar o amor, podemos destruir a esperança. Podemos fechar-nos em oposição aos outros. A vontade de Deus é a vida dos homens, a sua salvação. Moisés faz essa experiência de proximidade: invoca Deus que desce da nuvem e vem ao seu encontro. A oração de Moisés ajuda-nos a colocar-nos diante de Deus: «O Senhor, o Senhor é um Deus clemente e compassivo, sem pressa para Se indignar e cheio de misericórdia e fidelidade... Se encontrei, Senhor, aceitação a vossos olhos, digne-Se o Senhor caminhar no meio de nós. É certo que se trata de um povo de dura cerviz, mas Vós perdoareis os nossos pecados e iniquidades e fareis de nós a vossa herança».
Apesar da dureza do caminho, e também por isso, Moisés, em nome de todo o povo, pede que Deus caminhe no meio, perdoando os seus, os nossos, pecados.
Pe. Manuel Gonçalves
Reflexão Dominical na página da Paróquia de Tabuaço.
sábado, 7 de junho de 2014
Solenidade de Pentecostes - 8 de junho de 2014
1 – Em Deus circula a vida, na plenitude do AMOR. Celebrar o Pentecostes é celebrar a vida nova que nos é dado por Jesus Cristo. Três dias depois da crucifixão e morte, o PRIMEIRO DIA da semana, o primeiro dia da NOVA CRIAÇÃO, o túmulo reenvia-nos, do lugar da morte, para o mundo, ao encontro de Jesus, ao encontro das pessoas para lhes dar Jesus. Ele vive e apresenta-Se no meio de nós, entre os discípulos. Nova presença, espiritual, gloriosa, pelo Espírito Santo.
Páscoa: Ressurreição. Ascensão do Senhor. Pentecostes. Santíssima Trindade. O mesmo mistério, aprofundado na liturgia por festas e solenidades. O mesmo AMOR de Deus por nós, que nos envolve, criando-nos, apostando em nós, esperando, pacientemente, pelas nossas escolhas de bem e de verdade, de justiça e de paz, de perdão e de amor, não para lhe agradarmos – se bem que quando amamos tudo fazemos para ser agradáveis com a pessoa amada – mas por que nos faz bem, pois dessa forma nos encontramos com a nossa identidade mais profunda, o que nos faz felizes e verdadeiramente humanos. Aí nos encontraremos com Deus. O melhor louvor a Deus é tratar bem todos os seus filhos, sobretudo os mais pobres, não porque sejam moralmente melhores, mas por que lhe devemos essa atenção e cuidado, imitando Jesus Cristo, e correspondendo ao Seu mandato: o que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos, a Mim o fazeis.
2 – Diz Jesus: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos».
Tarde do primeiro DIA da semana. Ainda não refeitos das horas amargas da Paixão e já Jesus Se coloca no meio deles, VIVO, deixando-Se ver e tocar. É Ele, não é nenhum fantasma. O medo encerra-nos, a alegria e a paz dão-nos confiança, provocam em nós o desejo de comunicar e de partilhar a vida. A surpresa inicial dá lugar à missão: IDE. Como o Pai Me enviou também vos envio. Ide. Ide, confiantes, pois não ides sós. Eu estarei sempre convosco, até ao fim dos tempos. Recebei o Espírito Santo e sentireis que Eu estou convosco.
Curiosamente, dias antes, Jesus tinha-lhes dito que todos O abandonariam, deixando-O só. Só não, porque o Pai não O deixa só. É a mesma garantia que lhes dá agora: não ficareis sós, Eu estarei convosco. Como o Pai Me ama, também vos amo. Eu e o Pai somos UM. Quem Me ama, cumpre os Mandamentos. Eu e o Pai viremos a ele e nele faremos a nossa morada. É o mistério da Santíssima Trindade muito vincado nesta solenidade. Jesus dá-lhes o Espírito Santo em abundância, ou como refere são Lucas, nos Atos dos Apóstolos, de junto do Pai, o Filho envia o Espírito Santo, como vento forte que arrasta o mundo à sua passagem, como fogo que queima, inquieta, provoca, exige resposta!
3 – O Pentecostes, com efeito, ilustra a presença de um Deus que não é estático, distante, impassível, mas que circula e faz circular a vida, é um Deus próximo, que Se mexe ao encontro da humanidade. O Filho foi morto. O Pai ressuscitou-O. Jesus ascende para a eternidade, colocando à direita do Pai a nossa natureza humana. Envia-nos o Espírito Santo.
A passagem é bem nossa conhecida. O medo apoderara-se dos discípulos, que levam tempo a assimilar que Jesus está VIVO. Os seus olhos duvidam, mas não o coração. Ele está de volta, assumindo uma PRESENÇA NOVA que só pode ser percebida através da fé, da disposição para O ver e tocar.
"Subitamente, fez-se ouvir, vindo do Céu, um rumor semelhante a forte rajada de vento, que encheu toda a casa onde se encontravam. Viram então aparecer uma espécie de línguas de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem".
Toda a casa fica CHEIA do ESPÍRITO SANTO. As línguas de fogo dividem-se por cada um. É tempo de deixar fluir o Espírito Santo. É HORA de espalhar a BOA NOTÍCIA. Ainda que o Espírito seja invisível, faz-Se notar, faz barulho, agita as águas, atrai. Uma multidão se ajunta para VER e para OUVIR. E alguns deles, a residir em países vizinhos, já não sabiam falar aramaico ou hebraico, mas ENTENDEM. A linguagem do bem, do amor, da conciliação compreende-se para lá das palavras, ainda que estas possam ajudar. «Ouvimo-los proclamar nas nossas línguas as maravilhas de Deus». As maravilhas de Deus são audíveis em todas as línguas, por todas as pessoas, cujo coração está vazio de si e pronto a encher-se de Deus e do Seu amor.
4 – Por experiência sabemos que as nossas intuições nem sempre nos conduzem a bom termo. Quantas vezes seguimos com firmeza um intuição, refletida e ponderada, mas passado algum ou muito tempo verificamos que foi um erro, ou então de que as coisas não eram bem como se pintavam!
Diz-nos o Apóstolo São Paulo que na fé não atua apenas a nossa dimensão pessoal – eu cá tenho a minha fé – atua, antes de mais o Espírito Santo, que me impele para a comunidade. O discernimento do Espírito exige o diálogo e o encontro com os outros, a oração pessoal e a comunitária.
"Ninguém pode dizer «Jesus é o Senhor» a não ser pela ação do Espírito Santo".
Logo de seguida, o Apóstolo lembra o que nos une e fundamenta a nossa fé: o Espírito atua em todos, ainda que os dons e os serviços sejam diversos, como o corpo com os seus diferentes membros:
"Há diversidade de dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo. Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. Há diversas operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. Em cada um se manifestam os dons do Espírito para o bem comum. Assim como o corpo é um só e tem muitos membros e todos os membros, apesar de numerosos, constituem um só corpo, assim também sucede com Cristo. Na verdade, todos nós – judeus e gregos, escravos e homens livres – fomos batizados num só Espírito, para constituirmos um só Corpo".
Há dois mil anos, São Paulo alertava para o facto de alguns se acharem mais importantes pelos dons que tinham ou pela missão que assumiam na comunidade. O Apóstolo esclarece: tudo seja para glória de Deus. Tudo seja a favor do bem comum. Deus age em nós a favor de todos.
Recebemos o Espírito Santo e tornarmo-nos filhos de Deus, e como o Filho assumimos os outros como irmãos a quem queremos todo bem e de quem queremos cuidar sabendo que o fazemos ao próprio Pai. Quem meus filhos beija minha boca adoça.
Pe. Manuel Gonçalves
Textos para a Eucaristia: Atos 2, 1-11; Sl 103 (104); 1 Cor 12, 3b-7. 12-13; Jo 20, 19-23.
Reflexão Dominical na página da Paróquia de Tabuaço.
domingo, 23 de fevereiro de 2014
Creio em Deus Pai, Filho e Espírito Santo
"O Pai é o amor originário,
a fonte de todo o amor. Ele começa o amor. «Só Ele começa a amar sem
motivos; mais é Ele quem, desde sempre, começou a amar (Eberhard
Jüngel). O Pai ama desde sempre e para sempre, sem ser obrigado nem
motivado a partir de fora. É o «Eterno amante». Ama e continuará a amar
sempre. Nunca nos reinará o Seu amor e fidelidade. D'Ele só brota amor. Consequência: criados à Sua imagem, estamos feitos para amar. Só amando acertamos na existência.
O ser Filho consiste em receber o amor do Pai. Ele
é o «Amado eternamente», antes da criação do mundo. O Filho é o amor
que acolhe, a resposta eterna do amor do Pai. O mistério de Deus
consiste, pois, em dar e também em receber amor. Em Deus, deixar-se amar
não é menos que amar. Receber é também divino! Consequência: criados à imagem de Deus estamos feitos não só para amar, mas também para ser amados.
O Espírito Santo é a comunhão do Pai e do Filho. Ele é
o AMOR eterno entre o Pai amante e o Filho amado, é Ele que revela que o
amor divino não é possessão ciumenta do Pai nem apropriação egoística
do Filho. O amor verdadeiro é sempre abertura, dom, comunicação
transbordante. Por isso, o amor de Deus não se fica em si mesmo, mas
comunica-se e estende-se às Suas criaturas. «O amor de Deus foi
derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rom
5,5). Consequência: criados à imagem de Deus, estamos feitos para amar, sem nos apropriarmos, nem nos encerrarmos em amores fictícios e egoístas".
José ANTONIO PAGOLA, O Caminho aberto por Jesus: Mateus.
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sexta-feira, 11 de outubro de 2013
Bento XVI - a Alegria da Fé
BENTO XVI. A Alegria da Fé. Paulinas Editora. Prior Velho 2012
O Papa Bento XVI é uma comunicador por excelência, porque comunica o que lhe vai na alma, fruto de uma experiência profunda de fé, na proximidade com Jesus Cristo, enxertado e mergulhado na história da Igreja, como estudioso, sacerdote, professor, catedrático, pastor, bispo, e como "humilde servidor da vinha do Senhor", desde 19 de abril de 2005 a 28 de fevereiro de 2013. Depois de convocar o Ano Paulino (2000 anos do nascimento de São Paulo) , de convocar o Ano Sacerdotal, convocou o Ano da Fé, a estender-se de 11 de outubro de 2012 (50 anos após o início do Vaticano II e 20 anos após a publicação do Catecismo da Igreja Católica) a 24 de novembro de 2013, solenidade do Cristo Rei do Universo.
Num ambiente largamente fragmentado, em que ideias/ideologias, convicções, religiões, tudo é igual, marcado por doses significativas de indiferença em relação aos outros, de marginalização e privatização da fé e do fenómeno religioso, sobretudo na Europa e no mundo ocidental ou ocidentalizado, em que as prioridades na sua maioria são novas e velhas formas de escravização, colocando a economia no lugar de Deus, liberalizando e mercantilizando a vida, destruindo os mais frágeis, ser humanos por nascer e idosos vulneráveis arrumados para não incomodar... a convocação do Ano da Fé traz consigo o propósito de mostrar como a Luz da Fé clarifica o que é verdadeiramente importante. Para os cristãos a Porta da Fé é Jesus Cristo, que nos traz Deus, que nos abre a mente e o coração para os valores da vida, para a dinàmica e a essencialidade do amor e da verdade, para a prioridade da pessoa face ao mercado liberalizado e utilitarista.
Um dos desideratos sublinhados por Bento XVI é a ALEGRIA da fé, a alegria de nos sabermos amados por Deus, nos descobrimos filhos no Filho, redimidos na morte e na ressurreição de Jesus, vastidão do Amor de Deus que clama por amor. Reconhecendo que vivemos no amor de Deus, a urgência de comunicá-lo aos outros para que que todos caminhemos como irmãos, na descoberta constante dos laços de ternura e de amizade que nos unem, na edificação do reino de justiça, de paz e de bem.
Nesta publicação, Giuliano Vigini faz um apanhado de diversos textos de Bento XVI, homilias, mensagens, discursos, intervenções, cartas encíclicas, ajeitando-os nos grandes temas que nos remetem para o Credo, do Credo para a comunidade, da comunidade para o mundo inteiro: Creio em Deus Pai, Jesus Cristo, Espírito Santo, Igreja, Vida Eterna, Ressurreição dos mortos e comunhão Santos, Sacramentos, Eucaristia, Confirmação, Penitência, Batismo.
Para aqueles que estão familiarizados com a escrita de Bento XVI têm aqui mais uma oportunidade de se deixarem tocar pela leveza, simplicidade, envolvência, como se estivesse a ouvir e não a ler, tal é a intensidade do texto, a clareza, assomando uma fé profunda, vivida, partilhada, com diversas experiências de vida, dentro da Igreja e em ambientes diversificados. É certo que nestes dias o olhar se fixa mais facilmente no Papa Francisco e na fluidez e espontaneidade do seu discurso e dos seus gestos, mas, para quem não for preconceituoso (em relação ao Papa alemão), não há antagonismo. Estou em crer que quem apreciar ao forma de comunicar de Francisco não terá dificuldade em entender a mensagem de Bento XVI, ainda que aqui ou acolá possam relevar a especificidade de cada um dos Papas, mas a leveza é demasiado similar.
Para quem se tem deixado tocar pela presença, pelas palavras, pelos gestos do Papa Francisco, e que sempre se sentiu mais distante de Bento XVI, e se calhar nunca o escutou com atenção, com o coração, ou não o leu, terá aqui uma excelente oportunidade para de fazer uma juízo de valor mais equilibrado. São pedaços de uma vida preenchido, transparecendo a Luz de Jesus Cristo, pelo Espírito Santo, na Igreja que formamos.
Vai valer a pena deixar-se contagiar pela alegria da Fé, que irradia das intervenções de Bento XVI.
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sábado, 14 de setembro de 2013
XXIV Domingo do Tempo Comum - ano C - 15 de setembro
1 – «Ainda ele estava longe, quando o pai o viu: Enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos. O pai disse aos servos: ‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha. Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o. Comamos e festejemos, porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’».
São Lucas presenteia-nos com uma parábola de Jesus que é uma pérola, sem menosprezar outras parábolas muito significativas para bem perceber e sobretudo acolher a mensagem de Jesus. Há poucas semanas, através da parábola do Bom Samaritano, Jesus mostrava-nos o Pai. Assim o Pai, assim o Filho, assim os discípulos, que hoje somos nós. Servir. Amar. Sem olhar a quem. Está alguém caído à beira do caminho? Alguém à beira do abismo? Alguém a precisar de uma palavra, de um abraço, de uma ajuda? De que estamos à espera?
Deus faz-Se próximo, tão próximo que reduz a Omnipotência para caber dentro da humanidade. Em Jesus, Deus assume-nos na nossa fragilidade e finitude.
Tendo presente a parábola do Filho Pródigo, e que deveria ser conhecida como parábola do Pai misericordioso, Deus é Aquele que parte a cara, perde a vergonha, humilhando-Se diante dos filhos. Espera, respeita, acredita, liberta. Dá a vida e a herança, toda a herança. Não fica com nada e no entanto nada Lhe falta, nada Lhe faz falta. Só a distância e/ou a morte dos filhos O deixa de rastos.
2 – Este Pai faz tudo ao contrário do que é expectável. O filho mais novo deseja-lhe a morte e nem assim deixa de o respeitar como filho, procurando fazer-lhe a vontade. A herança é por morte. Pedir a herança aos pais, ou a pessoas mais velhas, é desejar que nos deixem o que é seu, que morram rápido para podermos beneficiar dos seus haveres. Naquele tempo, e naquelas civilizações, a herança nem sequer era direito dos filhos. Quando muito ficava com o filho mais velho, para que não se dispersasse o património. Ainda assim, o Pai faz a vontade ao filho, quando se espera que sejam os filhos a obedecer aos pais. Dá-lhe parte da herança. Dá-lhe do que é seu. Sem calculismos. A tristeza não vem do ficar sem os bens, vem da desfeita do filho, do querer sair de casa, abandonando a casa paterna, em troca de uma vida desconhecida, de uma casa alheia. O filho pode perder-se para sempre. Pode não saber o caminho de regresso e morrer antes de voltar.
O Pai confia. Dá-lhe os bens. Deixa-o partir. Fica de coração despedaçado. Com a fuga do filho morre uma parte importante dentro de si, e que não pode ser substituída. Ama-o totalmente. Um filho não substitui o outro. Os pais sabem isso. Deus é Pai e é Mãe, como referia o papa João Paulo I. Os seus olhos estão pregados no horizonte. Todos os dias. A todas as horas. Em todos os momentos. O coração fica bem apertadinho. Em espera constante e confiante. Do horizonte um dia o filho há de voltar. É o coração que lho diz. Amou-o tanto, tanto o ama, que um dia o filho vai lembrar-se desse amor, desse olhar, daquele abraço e terá saudades de casa e sobretudo do amor do Pai/Mãe.
Quando o filho mais novo regressa, o Pai renasce. Recupera os anos perdidos em consumação. Com o filho nos braços, tudo o mais se torna relativo. O melhor vitelo para a festa. Devolve-lhe a dignidade de filho, colocando-lhe o anel no dedo, e vestindo-o com as roupas de príncipe. Não olha a gastos, porque tudo vale a recuperação do filho.
3 – É tão grande o amor do Pai, que até custa compreender e aceitar. O filho mais velho estranha. Como é possível que o Pai esqueça tudo o que de mal o filho mais novo lhe causou?! Primeiro um pedido estranho. Depois os anos de sofrimento. O filho mais velho tinha o pai só para si, sem o dividir com ninguém. Não sente como o Pai (como a Mãe). O Pai tem o coração dilacerado. Mesmo que não se fale no filho ausente, para o Pai está sempre presente.
Não bastava acolhê-lo de volta em casa, e perdoá-lo, e, ainda por cima, uma festa grandiosa para o filho regressado?! Não pode ser! Nós a trabalhar, a poupar, a tentar amealhar mais algumas poupanças, e vem este teu filho e gastas uma fortuna com uma festa? Como é possível! E se um dia destes ele voltar a sair de casa? E se vier a dar-te um desgosto? Seja, mas ele é meu filho, como tu és meu filho. Amo cada um com todo o meu coração. O meu amor por vós não se divide. Amo-vos por inteiro. Nenhum de vós substitui o outro. Amo-te do mesmo jeito de sempre, da única forma que sei amar, totalmente. Este teu irmão estava morto e voltou à vida. Estava perdido, e agora está connosco. Vem alegrar-te com o regresso do teu irmão. Partilha da minha alegria. A minha alegria também é tua. Tudo o que é meu é teu. Não há nada que pague a vossa vida.
O contexto desta e das parábolas anteriores é a resposta à crítica, mais ou menos clara, feita a Jesus por Ele comer com publicanos e pecadores, não fazendo distinção de pessoas. Para alguns grupos, fariseus e doutores da lei, era um ultraje, pois tinham como adquirido que Deus enviaria o Messias apenas para eles que estavam no bom caminho. Presunção e água benta... No entanto, Jesus vem sobretudo para os que precisam de cura e salvação. É Este o Deus revelado em Jesus, Deus próximo e que Se humaniza para todos recuperar.
O reino de Deus está de portas abertas. Não se impõe. As portas por onde sair, estão sempre abertas para regressar. Há que ir ao encontro da ovelha perdida. Como tem vindo a acentuar o papa Francisco, a Igreja, voltada para si mesma, corre o sério risco de se tranquilizar com a ovelha que está dentro, quando no exterior já estão as 99 ovelhas. Outra parábola outra pérola. Dona de casa que perde uma das 10 dracmas. Procura-a. Encontra-a. Faz uma festa com amigas. Gasta mais do que o que recuperou. Assim é Deus, gasta tudo para nos encontrar. Envia o Seu próprio Filho. Sempre que alguém se converte, Deus faz uma festa enorme, coloca todos os anjos e santos a cantar e a dançar.
4 – O Deus de Jesus Cristo é o mesmo Deus que Moisés nos revela: pronto a perdoar. Lento para a ira, rico de misericórdia e de paciência. Deus fala a Moisés: «Desce depressa, porque o teu povo, que tiraste da terra do Egipto, corrompeu-se… Tenho observado este povo: é um povo de dura cerviz. Agora deixa que a minha indignação se inflame contra eles e os destrua. De ti farei uma grande nação».
O primeiro impulso de Moisés é desistir e destruir todo o povo. As palavras que Moisés coloca em Deus não são mais que o seu desejo imediato. A oração, o diálogo íntimo com Deus, fá-lo descobrir o povo e as suas gentes através do olhar misericordioso de Deus. Tal como Abraão tinha descoberto, pela oração, que Deus quer a vida e não morte do seu filho. Tal como Jonas que esperava que Deus destruísse toda a cidade de Nínive, vem a descobrir que Deus tão só quer a salvação de todos os seus filhos. Assim também Moisés descobre a vontade misteriosa de Deus. O discernimento vem-lhe da oração: «Por que razão, Senhor, se há de inflamar a vossa indignação contra o vosso povo, que libertastes da terra do Egipto com tão grande força e mão tão poderosa? Lembrai-Vos dos vossos servos Abraão, Isaac e Israel…».
Deus desiste do castigo. De notar a força da oração, não para convencer Deus, mas para acolhermos a Sua bondade, predispondo-nos a contruir, a edificar, a encontrar razões para amar, para perdoar, para envolver os outros.
5 – Percorrendo as páginas da Sagrada Escritura encontramos um fio condutor que desemboca na Encarnação de Deus. Deus cria por amor e por amor envia mensageiros, por amor nos entrega o Seu próprio Filho. Entrelaçada com a história – com os seus dramas e sonhos, com os conflitos, as divisões e as guerras, as suas descobertas, conquistas e sucessos –, a Presença de Deus.
Ontem como hoje. Abrão e Moisés, Elias e Jeremias, JESUS CRISTO, Pedro e Paulo, Bento e Francisco, a tia Rosa e o tio José, eu e tu, Deus continua a querer fazer-Se AMOR em cada coração, em cada casa, em cada comunidade. A morte de Jesus tem o condão de redimir do pecado e da morte, para que mortos para o pecado com Ele possamos viver como ressuscitados.
Paulo testemunha com a sua conversão e com o chamamento. Fui blasfemo, perseguidor e violento, mas Deus, em Jesus Cristo, achou-me digno de confiança. A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo superabundou em mim e n'Ele alcancei misericórdia. "Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores e eu sou o primeiro deles".
Textos para a Eucaristia (ano C): Ex 32,7-11.13-14; 1 Tim 1,12-17; Lc 15,1-32.
Reflexão dominical na página da Paróquia de Tabuaço.
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