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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

CONSELHOS PASTORAIS - Como uma bússola

       Não perder o Norte!”. Esta expressão familiar pode ajudar-nos a compreender a responsabilidade do Conselho Pastoral Paroquial (CPP). Não perder o Norte, para uma comunidade cristã, é não perder de vista a sua razão de ser: a missão que deve realizar no espaço humano que é a paróquia. Esta missão que nos é confiada pelo Cristo e pelo Espírito Santo é única na diversidade de exigências: anunciar a pessoa de Jesus Cristo, experimentar a fraternidade, celebrar a fé e comprometer-se no serviço aos mais pequenos. O CPP, como uma bússola, ajuda a comunidade a manter o rumo da missão.
       Para ser fiel à sua responsabilidade, o CPP dá orientações pastorais, de forma que a equipa pastoral mandatada, formada por responsáveis nomeados pelo bispo (padres, diáconos, responsáveis por diferentes serviços e missões…), conselho económico e outros grupos assumam a responsabilidade das áreas que lhes são confiadas e tenham uma actuação de conjunto.
       Eis um dos maiores desafios do CPP: ser o conselho mais próximo da missão e deixar que os outros intervenientes actuem no seu próprio domínio. Lugar de discernimento, de decisão, de concretização, de coordenação e de avaliação, o CPP é um teste de verdade para os nossos discursos quanto à responsabilidade confiada aos baptizados na construção da Igreja.
       O CPP torna-se um lugar de aprendizagem onde os seus membros praticam o diálogo, o respeito mútuo e, assim, vivem uma experiência eclesial. Permite aos ministros ordenados, às pessoas mandatadas e às forças vivas da comunidade trabalhar sinodalmente no serviço da missão, fazendo em conjunto um pedaço do caminho. Uma oportunidade que pode exigir uma conversão mútua nas nossas maneiras de conceber e de articular as nossas responsabilidades respectivas!
       O CPP está ao serviço da comunidade. Os seus membros (que será vantajoso renovar regularmente) devem ser capazes de trabalhar harmoniosamente, discernir os sinais e apontar pontos da pastoral actual, ser solidários com as outras realidades eclesiais (zona pastoral, arciprestado, diocese…). Assim, é o mesmo espírito missionário que anima o CPP e a comunidade no serviço à paróquia.
       O número dos membros não é uma garantia de sucesso. Antes, o CPP deve ser constituído à imagem da comunidade que quer animar. Será isto utópico ou realizável? Nada melhor do que sermos nós a demonstrá-lo.
 
FONTE: Jornal diocesano VOZ DE LAMEGO, n.º 4252, de 18 de fevereiro de 2014.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Audiência Geral de Bento XVI...


Palavras de Bento XVI na Audiência Geral

Na habitual Audiência Geral das quartas-feiras, hoje, Quarta-feira de Cinzas, 13 de fevereiro, Bento XVI voltou a explicar as razões da resignação:
"Caros irmãos e irmãs,
Como sabeis, decidi renunciar ao ministério que o Senhor me confiou a 19 de abril de 2005. Fi-lo em plena liberdade, para o bem da Igreja, depois de ter rezado longamente e de ter examinado diante de Deus a minha consciência, bem consciente da gravidade desse ato, mas também consciente de já não estou em condições de prosseguir o ministério petrino com aquela força que ele exige. Sustenta-me e ilumina-me a certeza de que a Igreja é de Cristo, O qual nunca fará faltar a sua guia e o seu cuidado. Agradeço a todos pelo amor e pela oração com que me tendes acompanhado. Obrigado, senti quase fisicamente nestes dias nada fáceis para mim, a força da oração que o amor da Igreja, a vossa oração, me traz. Continuai a rezar por mim, pela Igreja, pelo futuro Papa. O Senhor o guiará".
 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Resignação de Bento XVI como Papa

Caríssimos Irmãos,
        convoquei-vos para este Consistório não só por causa das três canonizações, mas também para vos comunicar uma decisão de grande importância para a vida da Igreja. Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idóneas para exercer adequadamente o ministério petrino. Estou bem consciente de que este ministério, pela sua essência espiritual, deve ser cumprido não só com as obras e com as palavras, mas também e igualmente sofrendo e rezando. Todavia, no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado. Por isso, bem consciente da gravidade deste acto, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de Bispo de Roma, Sucessor de São Pedro, que me foi confiado pela mão dos Cardeais em 19 de Abril de 2005, pelo que, a partir de 28 de Fevereiro de 2013, às 20,00 horas, a sede de Roma, a sede de São Pedro, ficará vacante e deverá ser convocado, por aqueles a quem tal compete, o Conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice.

Caríssimos Irmãos, verdadeiramente de coração vos agradeço por todo o amor e a fadiga com que carregastes comigo o peso do meu ministério, e peço perdão por todos os meus defeitos. Agora confiemos a Santa Igreja à solicitude do seu Pastor Supremo, Nosso Senhor Jesus Cristo, e peçamos a Maria, sua Mãe Santíssima, que assista, com a sua bondade materna, os Padres Cardeais na eleição do novo Sumo Pontífice. Pelo que me diz respeito, nomeadamente no futuro, quero servir de todo o coração, com uma vida consagrada à oração, a Santa Igreja de Deus.

Vaticano, 10 de Fevereiro de 2013.

Bento XVI - Um humilde trabalhador da vinha






HUMILDADE: a última encíclica de BENTO XVI

       Bento XVI não publicará a encíclica sobre a fé – embora em fase avançada – que devia apresentar na primavera. Já não tem tempo. E nenhum sucessor é obrigado a retomar uma encíclica incompleta do próprio predecessor. Mas existe outra encíclica de Bento XVI, escondida no seu coração, uma encíclica não escrita. Ou melhor, escrita não pela sua pena mas pelo gesto do seu pontificado. Esta encíclica não é um texto, mas uma realidade: a humildade.
       A 19 de abril de 2005 um homem que pertence à raça das águias intelectuais, temido pelos seus adversários, admirado pelos seus estudantes, respeitado por todos devido à acutilância das suas análises sobre a Igreja e o mundo, apresenta-se, recém-eleito Papa, como um cordeiro levado para o sacrifício. Utilizará até a terrível palavra «guilhotina» para descrever o sentimento que o invadiu no momento em que os seus irmãos cardeais, na Capela Sistina, ainda fechada para o mundo, se viraram para ele, eleito entre todos, para o aplaudir. Nas imagens da época, a sua figura curvada e o seu rosto surpreendido testemunham-no.
       Depois teve que aprender o mister de Papa. Extirpou, como raízes arraigadas sob o húmus da terra, o eterno tímido, lúcido na mente mas desajeitado no corpo, para o projetar perante o mundo. Foi um choque para ambas as partes. Não conseguia assumir a desenvoltura do saudoso João Paulo II. O mundo compreendia mal aquele Papa sem efeito. Bento XVI nem teve os cem dias de "estado de graça" que se atribuem aos presidentes profanos. Teve, sem dúvida, a graça divina, fina mas pouco mundana. Contudo teve, ainda e sempre, a humildade de aprender sob os olhares de todos.
       Foram sete anos terríveis de pontificado. Nunca um Papa teve, num certo sentido, tão pouco "sucesso". Passou de polémica em polémica: crise com o Islão depois do seu discurso de Ratisbona, onde evocou a violência religiosa; deformação das suas palavras sobre a Sida durante a primeira viagem à África, que suscitou um protesto mundial; vergonha sofrida pelo explodir da questão dos sacerdotes pedófilos, por ele enfrentada; o caso Williamson, onde o seu gesto de generosidade em relação aos quatro bispos ordenados por D. Lefebvre (o Papa revogou as excomunhões) se transformou numa reprovação mundial contra Bento XVI, porque não tinha sido informado sobre os discursos negacionistas da Shoah feitos por um deles; incompreensões e dificuldades de pôr em ação o seu desejo de transparência quanto às finanças do Vaticano; traição de uma parte do seu grupo mais próximo no caso Vatileaks, com o seu mordomo que subtraiu cartas confidenciais para as publicar...
       Não teve nem sequer um ano de trégua. Nada lhe foi poupado. Às violentas provações físicas do pontificado de João Paulo II, ao atentado e ao mal de Parkinson, parecem corresponder as provações morais de rara violência desta litania de contradições sofrida por Bento XVI.
       Ao renunciar, o Papa eclipsa-se. À própria imagem do seu pontificado. Mas só Deus conhece o poder e a fecundidade da humildade.

Jean-Marie Guénois, in Le Figaro Magazine, 15-16.2.2013. Transcrição: L'Osservatore Romano © SNPC | 25.02.13.

Pontificado do Papa Bento XV


Bento XVI: Pontificado do silêncio


Momentos divertidos com Bento XVI


Grandes momentos do pontificado de Bento XVI


quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

CONSELHOS PASTORAIS - participar e ser sujeito

       O termo “participação” está muito presente nos textos do concílio Vaticano II. Com efeito, encontramo-lo por 133 vezes para falar da participação de todos os baptizados na oração da Igreja (SC 8, 10…; LG 11, 42, 51; CD 30; PO 5; AA 4, 10…) e na missão recebida de Cristo (LG 12, 26…; CD 17; AA 2, 9, 10, 29; AG 41; UR 1, 4). Esta participação designa também a comunhão com Deus à qual os homens são chamados e é a comunhão dos homens entre si que define a Igreja: “Ao participar realmente do corpo do Senhor, na fracção do pão eucarístico, somos elevados à comunhão com Ele e entre nós” (LG 7). Esta união funda-se na escritura e na tradição, de acordo com 1 Cor 10, 17: “Uma vez que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, porque todos participamos desse único Pão”.
       Resumindo, pelo baptismo somos introduzidos numa participação na vida divina que nos abre a uma participação na vida eclesial, alimentada pela nossa participação na liturgia. Através desta participação “todos, segundo o seu modo próprio, cooperam na obra comum” (LG 30).
       Participar, ter consciência de si diante do outro, permite a cada um afirmar-se como sujeito, capaz de dizer e dizer-se, pensar e afirmar, decidir e executar. E isto vale também para o que denominamos “Igrejas locais”, as dioceses, onde a Igreja universal se revê e se concretiza num determinado tempo e espaço.
       Antes do último concílio, a Igreja católica apresentava- -se como uma Igreja uniformemente romana, aparecendo como uma única e vasta diocese, onde o Papa sozinho pensava e decidia por todos e onde os bispos eram meros executantes. A reflexão conciliar, apoiada pelo pensamento de teólogos e pastores que, antes do Concílio, manifestavam outras opções e proponham outros caminhos, proporcionou um ressurgimento das Igrejas locais. Por exemplo, os documentos conciliares confirmam as conferências episcopais existentes e determinam a sua existência por todo o mundo católico (CD 36-38), desejando que mantenham ligações enentre si (CD 38), fazem referência aos conselhos presbiterais (PO 7), aos conselhos pastorais (CD 27) e aos conselhos para o apostolado dos leigos (AA 26), ao mesmo tempo que abordam o ressurgimento dos sínodos e dos concílios provinciais (CD 36) e é neste contexto que aparece também a sugestão de instalar um sínodo dos bispos junto do Papa (CD 5).
       Como escreveu W. Kasper, "a eclesiologia de comunhão põe fim ao modelo de uma pastoral que se entende somente como um cuidar dos fiéis e como uma simples resposta às suas necessidades. Ela visa o ser-sujeito da Igreja e de todos na Igreja" (A Teologia e a Igreja).
       Tal como se reconhece capacidade às dioceses para serem sujeito de opções e ritmos diferenciados dentro da unidade eclesial que sempre se deve manter, também se reconhece o mesmo para os baptizados: todos são convidados a serem membros activos e participativos, a tornarem-se sujeito dentro da Igreja.
 
FONTE: Jornal diocesano VOZ DE LAMEGO, n.º 4249, de 28 de janeiro de 2014.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Conselhos Pastorais - Povo de Deus

       Os conselhos pastorais fazem parte das inovações que modificaram a vida das paróquias depois do Concílio Vaticano II. Para compreendermos tal entusiasmo importa apenas referir a noção de “Povo de Deus” apresentada na constituição dogmática Lumen gentium (LG) e como isso abre uma nova via para pensar o lugar de todos na vida da Igreja.
       O primeiro esquema deste documento (1962) propunha um texto que se identificava com outros anteriores e colocava a hierarquia antes e o laicado no final. Um primeiro debate promove alterações ao texto e, após sugestões sucessivas, é aprovado o texto actual, em 1964. Uma das alterações mais visíveis, e que importa sublinhar aqui, é a colocação do capítulo sobre o Povo de Deus antes da parte que aborda a hierarquia. Há uma inversão da disposição dos capítulos que é muito mais que a mudança na disposição do conteúdo. Colocar antes a realidade do Povo de Deus contribui de forma decisiva para uma procura do equilíbrio eclesiástico do todo. O Povo de Deus é anterior à hierarquia, concebendo-se a Igreja, na sua totalidade, como unidade e permitindo colocar antes a noção de comunidade, ao mesmo tempo que permite situar os ministros. A partir daqui não é o leigo que se define face ao clérigo, mas é o padre que se apresenta com uma função particular em referência ao Povo de Deus.
       É esta nova perspectiva que permite aos Padres conciliares reconhecer que “a todo o discípulo incumbe o encargo de difundir a fé, segundo a própria medida” (LG 17). A Igreja é reconhecida como uma realidade comum que pertence a todos; melhor, que está para lá dos seus membros.
       É o Espírito Santo que move toda a Igreja, todo o povo de Deus, para continuar a obra da criação e da Redenção, “a cooperar para que o desejo de Deus que fez de Cristo o princípio de salvação para todo o mundo se realize totalmente” (LG 17).
       Este aspecto comunitário, que emerge através da introdução da noção de Povo de Deus, revela a pertinência de pensar a Igreja a partir de todos os seus membros. Este “todos” pode ser associado a uma outra noção, particularmente fecunda para o Concílio, a de “participação”.

FONTE: Jornal diocesano VOZ DE LAMEGO, n.º 4248, de 21 de janeiro de 2014.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Conselhos Pastorais: um Presente com Futuro

       Os conselhos pastorais representam um lugar privilegiado para a prática sinodal, já que aí encontramos, sob a forma de um “microcosmos” eclesial, os principais elementos que constituem uma verdadeira parceria entre cristãos: a comunhão vivida no diálogo das diferenças, um sentido global da Igreja, uma diversidade de vocações e ministérios, o funcionamento de uma instância pastoral, a preocupação primeira da missão. E podem existir em diferentes escalas: nas paróquias, nas zonas pastorais, nos arciprestados e na diocese.
       A Igreja não pode passar ao lado da participação alargada dos seus membros se pretender aprofundar e implicar os fiéis leigos na reflexão, no discernimento dos apelos do Evangelho e no compromisso testemunhal dos baptizados neste tempo e neste mundo que são os nossos.
       Por outro lado, há um papel de coordenação que se impõe de forma a valorizar e a manter o ritmo nas diversas realidades humanas e pastorais. Não se trata de substituir ou querer monopolizar, mas atuar para que tudo se faça, para que nada escape à missão de anunciar, celebrar e servir.
       Por último, estes conselhos podem ser vistos como pontos importantes para a observação da realidade paroquial e diocesana e para a renovação pastoral que se pretende implementar.
       Para que a Igreja seja ela mesma, fiel à sua missão, deve, paradoxalmente, tornar-se “outra”: semper ipsa, nunquam eadem (sempre ela mesma, jamais a mesma). A imobilidade pode levar à rigidez mortífera.
       Jesus de Nazaré, rompendo com todo o conformismo e toda a forma de vassalagem proclama com audácia: “Para vinho novo, odres novos” (Mc 2, 22). É preciso escolher entre o “velho fermento” dos hábitos e o Evangelho sempre novo.
       Na caminhada que a nossa Igreja local (diocese) está a fazer, entre outras iniciativas, destaca-se a vontade de formar Conselhos de Pastoral nas paróquias onde ainda não existe, tal como a nível arciprestal e diocesano. Nesse sentido, o nosso jornal, sem pretender tudo dizer, assume a vontade de escrever algo sobre este assunto ao longo destas primeiras semanas do ano.

FONTE: Jornal diocesano VOZ DE LAMEGO, n.º 4246, de 7 de janeiro de 2014

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Bento XVI - ninguém crê sozinho

«... Ninguém crê por si próprio. Nós cremos sempe em e com a Igreja. O credo é sempre um ato partilhado, um deixar-se inserir numa comunhão de caminho, de vida, de palavra, de pensamento. Nós não 'fazemos' a fé, no sentido de que é antes de tudo Deus que a dá. Mas não a 'fazemos' também no sentido de que ela deve ser inventada por nós. Devemos deixar-nos cair, por assim dizer, na comunhão de fé, da Igreja. Crer é um ato católico em si. É a participação nesta grande certeza, que está presente no sujeito vivo da Igreja. Só assim podemos também compreender a Sagrada Escritura na diversidade de uma leitura que se desenvolve por mil anos».

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Bento XVI - centro do culto da Igreja: Sacramento

       O centro do culto da Igreja é o Sacramento. Sacramento significa que o primeiro a intervir não somos nós homens, mas Deus que primeiro vem ao nosso encontro com o seu agir, olha-nos e nos conduz até junto de si. E, existe ainda outra coisa extraordinária: Deus nos toca por meio de realidades materiais, através de dons da criação que Ele assume ao seu serviço, fazendo deles instrumentos do encontro entre nós e Ele mesmo. Quatro são os elementos da criação com os quais o universo dos Sacramentos é construído: a água, o pão de trigo, o vinho e o azeite. A água, como elemento básico e condição fundamental de toda a vida, é o sinal essencial do Batismo, o ato através do qual uma pessoa torna-se cristã; o ato do nascimento para uma vida nova. Enquanto a água é o elemento vital em geral e, por isso, representa o acesso comum ao novo nascimento de todos como cristãos, os outros três elementos pertencem à cultura do ambiente mediterrâneo. Deste modo aludem ao ambiente histórico concreto, no qual o cristianismo se desenvolveu. Deus agiu num lugar bem determinado da terra, verdadeiramente fez história com os homens. Estes três elementos, por um lado, são dons da criação e, por outro, são também indicações dos lugares da história de Deus junto de nós. São uma síntese entre criação e história: dons de Deus que sempre nos ligam com aqueles lugares do mundo onde Deus quis atuar conosco no tempo da história, fazendo-se um de nós.
       Nestes três elementos há novamente uma graduação. O pão faz referência à vida quotidiana. É o dom fundamental da vida de todos os dias. O vinho recorda a festa, o primor da criação, em que se pode ao mesmo tempo expressar de modo singular a alegria dos redimidos. O azeite possui um amplo significado. Serve de nutrimento, medicamento, alindamento, adestra para a luta e dá vigor. Os reis e os sacerdotes são ungidos com este óleo, que assim torna-se sinal de dignidade e responsabilidade e ainda da força que vem de Deus. No nosso nome de “cristãos”, está presente o mistério do óleo. Com efeito, a palavra “cristãos”, com que foram denominados os discípulos de Cristo, já no início da Igreja formada a partir dos pagãos, deriva da palavra “Cristo” (At 11, 20-21) – tradução grega da palavra “Messias”, que significa “Ungido”. Ser cristão significa: provir de Cristo, pertencer a Cristo, ao Ungido de Deus, Àquele a quem Deus entregou a realeza e o sacerdócio. Significa pertencer Àquele a quem Deus mesmo ungiu – não com um óleo material, mas com Aquele que é representado pelo óleo: com o seu Espírito Santo. Assim, o azeite simboliza de um modo muito particular a permeabilização do Homem Jesus pelo Espírito Santo.  
       Na Missa Crismal de Quinta-feira Santa, os santos óleos estão no centro da ação litúrgica. São consagrados pelo Bispo na catedral para o ano inteiro. Assim, exprimem também a unidade da Igreja, garantida pelo Episcopado e aludem a Cristo, o verdadeiro “pastor e guarda das nossas almas”, como o chama São Pedro (cf. 1 Pd 2,25). E, ao mesmo tempo, mantêm unido todo o ano litúrgico, ancorado no mistério de Quinta-feira Santa. Enfim, os óleos aludem ao Horto das Oliveiras, onde Jesus aceitou interiormente a sua Paixão. Contudo, o Horto das Oliveiras é também o lugar donde Jesus subiu ao Pai, tornando-se, assim, o lugar da Redenção: Deus não deixou Jesus na morte. Jesus vive para sempre junto do Pai, e por isso mesmo é onipresente, está sempre junto de nós. Este duplo mistério do Monte das Oliveiras também está “ativo” no óleo sacramental da Igreja. Em quatro sacramentos, o óleo é sinal da bondade de Deus que nos toca: no Batismo; na Confirmação, como sacramento do Espírito Santo; nos vários graus do Sacramento da Ordem; e, finalmente, na Unção dos Enfermos, na qual o óleo nos é oferecido, por dizer assim, como medicamento de Deus – como o medicamento que agora nos torna seguros da sua bondade e deve-nos revigorar e consolar, mas ao mesmo tempo aponta para além do momento da enfermidade, para a cura definitiva, a ressurreição (cf. Tg 5,14). Assim o óleo, nas suas diversas formas, nos acompanha ao longo de toda a vida, desde o catecumenato e o Batismo até ao momento em que nos preparamos para o encontro com Deus Juiz e Salvador. Em suma, a Missa Crismal, na qual o sinal sacramental do óleo nos é apresentado como linguagem da criação de Deus, fala de modo particular a nós, sacerdotes: fala-nos de Cristo, que Deus ungiu como Rei e Sacerdote; dele, que nos torna participantes do seu sacerdócio, da sua “unção”, na nossa ordenação sacerdotal.
       Procurarei agora explicar brevemente o mistério deste sinal sagrado na sua referência essencial à vocação sacerdotal. Já na antiguidade, etimologias populares associaram a palavra grega “elaion” – óleo – com a palavra “eleos” – misericórdia. De fato, nos vários Sacramentos, o óleo consagrado é sempre sinal da misericórdia de Deus. Por isso, a unção para o sacerdócio significa sempre também a missão de levar a misericórdia de Deus aos homens. Na lâmpada da nossa vida, não deveria jamais faltar o óleo da misericórdia. Não nos cansemos de procurá-lo a tempo junto do Senhor – no encontro com a sua Palavra, recebendo os Sacramentos, demorando-nos em oração junto dele.
        Através da história da pomba com o ramo de oliveira, que anunciava o fim do dilúvio e, desse modo, a nova paz de Deus com o mundo dos homens, tanto a pomba, como o ramo de oliveira e o mesmo óleo tornaram-se símbolos da paz. Os cristãos dos primeiros séculos gostavam de ornamentar as tumbas dos seus defuntos com a coroa da vitória e o ramo de oliveira, símbolo da paz. Sabiam que Cristo venceu a morte e que os seus defuntos repousavam na paz de Cristo. Eles mesmos sabiam que Cristo os esperava, que lhes tinha prometido a paz que o mundo não é capaz de dar. Lembravam-se de que a primeira palavra do Ressuscitado aos seus discípulos fora: “A paz esteja convosco!” (Jo 20,19). Por assim dizer, Ele mesmo traz o ramo de oliveira, introduz a sua paz no mundo. Anuncia a bondade salvífica de Deus. Ele é a nossa paz. Portanto, os cristãos deverão ser pessoas de paz, pessoas que reconhecem e vivem o mistério da Cruz como mistério da reconciliação. Cristo não vence com a espada, mas por meio da Cruz. Vence, superando o ódio. Vence em virtude daquele amor maior que é o seu. A Cruz de Cristo diz “não” à violência. E, justamente assim, ela é o sinal da vitória de Deus, que anuncia o novo caminho de Jesus. A vítima foi mais forte que os detentores de poder. Na sua auto-doação na Cruz, Cristo venceu a violência. Como sacerdotes, somos chamados a ser, na comunhão com Jesus Cristo, homens de paz, somos chamados a opor-nos à violência e a confiar no poder maior do amor.
       Também pertence ao simbolismo do óleo o fato de que este robustece para a luta. Isto não contradiz o tema da paz; é, antes, uma parte deste. A luta dos cristãos consistia, e consiste, não no uso da violência, mas no fato de que estes estavam, e ainda estão, prontos a sofrer pelo bem, por Deus. Consiste no fato de que os cristãos, como bons cidadãos, respeitam o direito e fazem aquilo que é justo e bom. Consiste no fato de que rejeitam fazer aquilo que, nos ordenamentos jurídicos em vigor, não é direito, mas injustiça. A luta dos mártires consistia no seu “não” concreto à injustiça: rejeitando a participação no culto idolátrico, na adoração do imperador, recusaram-se a ajoelhar-se diante da falsidade, da adoração de pessoas humanas e do seu poder. Com o seu “não” à falsidade e a todas as suas conseqüências, exaltaram o poder do direito e da verdade. Assim, serviram a verdadeira paz. Também hoje, é importante para os cristãos seguir o direito, que é o fundamento da paz. Também hoje, é importante para os cristãos não aceitar uma injustiça que é elevada a direito – por exemplo, quando se trata do assassinato de crianças inocentes ainda por nascer. É justamente assim que servimos a paz e vivemos seguindo os passos de Jesus Cristo, de quem São Pedro diz: “Quando injuriado, não retribuía as injúrias; atormentado, não ameaçava; antes, colocava a sua causa nas mãos daquele que julga com justiça. Sobre sua cruz, carregou nossos pecados em seu próprio corpo a fim de que, mortos para os pecados, vivamos para a justiça” (1 Pd 2, 23s).
       Os Padres da Igreja sentiam-se fascinados por uma palavra do Salmo 45 (44) – segundo a tradição, o salmo nupcial de Salomão – que era considerado pelos cristãos como Salmo para as núpcias do novo Salomão, Jesus Cristo com a sua Igreja. Ali, diz-se ao Rei, Cristo: “Amas a justiça e odeias a iniqüidade; por isso Deus, o teu Deus, te consagrou com óleo da alegria, de preferência a teus iguais” (v. 8). O que é este óleo da alegria com o qual foi ungido o verdadeiro Rei, Cristo? Os Padres não tinham qualquer dúvida a este respeito: o óleo da alegria é o próprio Espírito Santo, infundido sobre Jesus Cristo. O Espírito Santo é a alegria que vem de Deus. A partir de Jesus, esta alegria se derrama sobre nós no seu Evangelho, na Boa Nova de que Deus nos conhece, que Ele é bom e que a sua bondade é um poder superior a todos os poderes; que somos queridos e amados por Ele. A alegria é fruto do amor. O óleo da alegria, que foi derramado sobre Cristo e dele passa para nós, é o Espírito Santo, o dom do Amor que nos torna felizes porque existimos. Porque conhecemos Cristo e, em Cristo, o verdadeiro Deus, sabemos que é bom ser homem. É bom viver, porque somos amados. Porque a verdade mesma é boa.
       Na Igreja antiga, o óleo consagrado foi considerado, particularmente, como sinal da presença do Espírito Santo, que se comunica a nós a partir de Cristo. O Espírito é o óleo da alegria. Esta alegria é uma realidade diversa do divertimento ou da alegria exterior que a sociedade moderna deseja. No seu justo lugar, o divertimento é certamente uma coisa boa e agradável. É bom poder rir. Mas, o divertimento não é tudo. É somente uma pequena parte da nossa vida; e, quando pretende ser tudo, torna-se uma máscara por detrás da qual se esconde o desespero ou pelo menos a dúvida acerca da vida se realmente é boa ou não seria melhor não existir. A alegria, que nos vem de Cristo, é diferente. Essa também nos dá contentamento, mas pode sem dúvida coexistir com o sofrimento. Dá a capacidade de sofrer e, no sofrimento, de permanecer também intimamente felizes. Dá-nos a capacidade de compartilhar o sofrimento dos outros e assim tornar perceptível, na disponibilidade recíproca, a luz e a bondade de Deus. Sempre me faz refletir a passagem dos Atos dos Apóstolos segundo a qual os Apóstolos, depois terem sido flagelados a mando do Sinédrio, saíram de lá “contentes por terem sido considerados dignos de injúrias por causa do nome de Jesus” (At 5,41). Quem ama está pronto a sofrer pelo amado e por causa do seu amor, e precisamente por isso experimenta uma alegria mais profunda. A alegria dos mártires era mais forte do que os tormentos infligidos. No fim, esta alegria venceu e abriu a Cristo as portas da história. Como sacerdotes, somos – diz São Paulo – “colaboradores da vossa alegria” (2 Co 1,24). No fruto da oliveira, no óleo consagrado, toca-nos a bondade do Criador, o amor do Redentor. Rezemos para que a sua alegria nos inunde sempre mais profundamente e peçamos para sermos capazes de levá-la novamente a um mundo tão urgentemente necessitado da alegria que brota da verdade. Amém.
 
Bento XVI, A Alegria da Fé.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Bento XVI - A verdade não é uma imposição

«A verdade não é uma imposição. Nem é simplesmente um conjunto de regras. É a descoberta de Um que nunca nos trai; de Um no qual podemos sempre confiar. Ao procurar a verdade chegamos a viver fundamentados na fé porque, em definitivo, a verdade é uma pessoa: Jesus Cristo. É esta a razão pela qual a liberdade autêntica não é uma escolha de "desobrigação". É uma opção de "compromisso"; nada menos que sair de si mesmo e permitir ser envolvidos no "ser paea os outros" de Cristo»

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Bento XVI - a teologia da Cruz não é uma teoria

       Começa portanto com a ressurreição o anúncio do Evangelho de Cristo a todos os povos começa o Reino de Cristo, este novo Reino que não conhece outro poder a não ser o da verdade e do amor. A ressurreição e a extraordinária estrutura do Crucificado. Uma dignidade incomparável e elevadíssima: Jesus é Deus! Para São Paulo a identidade secreta de Jesus, ainda mais do que na encarnação, revela-se no mistério da ressurreição. Enquanto o título de Cristo, isto é de "Messias", "Ungido", em São Paulo tende a tornar-se o nome próprio de Jesus e o do Senhor especifica a sua relação pessoal com os crentes, agora o título de Filho de Deus ilustra a íntima relação de Jesus com Deus, uma relação que se revela plenamente no acontecimento pascal. Pode-se dizer, portanto, que Jesus ressuscitou para ser o Senhor dos mortos e dos vivos (cf. Rm 14, 9; 2 Cor 5, 15) ou, por outras palavras, o nosso Salvador (cf. Rm 4, 25).
       ... A teologia da Cruz não é uma teoria é a realidade da vida cristã. Viver na fé em Jesus Cristo, viver a verdade e o amor obriga a renúncias todos os dias, a sofrimentos. O cristianismo não é o caminho do conforto, mas antes uma escalada exigente, mas iluminada pela luz de Cristo e pela grande esperança que nasce d'Ele. Santo Agostinho diz: Aos cristãos não é poupado o sofrimento, aliás, a eles cabe um pouco mais, porque viver a fé expressa a coragem de enfrentar a vida e a história mais em profundidade. Contudo só assim, experimentando o sofrimento, conhecemos a vida na sua profundidade, na sua beleza, na grande esperança suscitada por Cristo crucificado e ressuscitado. Portanto, o crente encontra-se situado entre dois pólos: por um lado, a ressurreição que de certa forma já está presente e activa em nós (cf. Cl 3, 1-4; Ef 2, 6); por outro, a urgência de se inserir naquele processo que leva todos e tudo à plenitude, descrita na Carta aos Romanos com uma imagem ousada: assim como toda a criação geme e sofre como que dores de parto, também nós gememos na expectativa da redenção do nosso corpo, da nossa redenção e ressurreição (cf. Rm 8, 18-23).
Bento XVI, A Alegria da Fé.
Audiência Geral, 5 de novembro de 2008.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Bento XVI - somos Luz na Luz que é Cristo

       Ao nosso redor pode haver a escuridão e as trevas, e todavia vemos uma luz: uma chama pequena, minúscula, que é mais forte do que a escuridão, aparentemente tão poderosa e insuperável. Cristo, que ressuscitou dos mortos, brilha neste mundo, e fá-lo de modo mais claro precisamente onde tudo, segundo o juízo humano, parece lúgubre e sem esperança. Ele venceu a morte – Ele vive – e a fé n’Ele penetra, como uma pequena luz, tudo o que é escuro e ameaçador. Certamente quem acredita em Jesus não é quem vê sempre só o sol na vida, como se fosse possível poupar-lhe sofrimentos e dificuldades, mas há sempre uma luz clara que lhe indica um caminho, o caminho que conduz à vida em abundância (cf. Jo 10, 10). Os olhos de quem acredita em Cristo vislumbram, mesmo na noite mais escura, uma luz e vêem já o fulgor dum novo dia.
       A luz não fica sozinha. Ao seu redor, acendem-se outras luzes. Sob os seus raios, delineiam-se de tal modo os contornos do ambiente que nos podemos orientar. Não vivemos sozinhos no mundo. Precisamente nas coisas importantes da vida, temos necessidade de outras pessoas. Assim, de modo particular na fé, não estamos sozinhos, somos anéis da grande corrente dos crentes. Ninguém chega a crer, senão for sustentado pela fé dos outros; mas, por outro lado, com a minha fé contribuo para confirmar os outros na sua fé. Ajudamo-nos mutuamente a ser exemplo uns para os outros, partilhamos com os outros o que é nosso, os nossos pensamentos, as nossas acções, a nossa estima. E ajudamo-nos mutuamente a orientar-nos, a identificar o nosso lugar na sociedade.
       Queridos amigos, diz o Senhor: «Eu sou a luz do mundo; vós sois a luz do mundo». É uma coisa misteriosa e magnífica que Jesus tenha dito de Si próprio e de todos nós juntos a mesma coisa, ou seja, que «somos luz». Se acreditarmos que Ele é o Filho de Deus que curou os doentes e ressuscitou os mortos, antes, que Ele mesmo ressuscitou do sepulcro e está verdadeiramente vivo, então compreenderemos que Ele é a luz, a fonte de todas as luzes deste mundo. Nós, ao contrário, não cessamos de experimentar a falência dos nossos esforços e o erro pessoal, apesar das nossas boas intenções. Não obstante o seu progresso técnico, o mundo onde vivemos, em última análise – ao que parece – não se tem tornado melhor. Existem ainda guerras, terror, fome e doença, pobreza extrema e desalmada repressão. E mesmo aqueles que, na história, se consideraram «portadores de luz», mas sem ter sido iluminados por Cristo que é a única verdadeira luz, não criaram paraíso terrestre algum, antes instauraram ditaduras e sistemas totalitários onde até a mais pequena centelha de humanismo foi sufocada.
       Neste ponto, não devemos calar o facto de que o mal existe. Vemo-lo em tantos lugares deste mundo; mas vemo-lo também – e isto assusta-nos – na nossa própria vida. Sim, no nosso próprio coração, existe a inclinação para o mal, o egoísmo, a inveja, a agressividade. Com uma certa autodisciplina, talvez isto se possa, em certa medida, controlar. Caso diverso e mais difícil se passa com formas de mal mais escondido, que podem envolver-nos como um nevoeiro indefinido, tais como a preguiça, a lentidão no querer e no praticar o bem. Repetidamente, ao longo da história, pessoas atentas fizeram notar que o dano para a Igreja não vem dos seus adversários, mas dos cristãos tíbios. «Vós sois a luz do mundo». Só Cristo pode dizer «Eu sou a luz do mundo»; todos nós somente somos luz, se estivermos naquele «vós» que, a partir do Senhor, se torna incessantemente luz. E, tal como o Senhor, num sinal de advertência, diz do sal que poderia tornar-se insípido, assim também nas palavras sobre a luz Ele incluiu uma pequena advertência: em vez de colocar a luz num candelabro, pode-se cobri-la com um alqueire. Perguntemo-nos: quantas vezes teremos coberto de tal modo a luz de Deus com a nossa inércia, com a nossa obstinação, que ela não pôde brilhar, por nosso intermédio, no mundo?

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Bento XVI - O coração de Deus vive inquieto...

«O coração inquieto é o coração que, em última análise, não se satisfaz com nada menos do que Deus, e é precisamente assim que se torna um coração que ama. O nosso coração vive inquieto por Deus, e não pode ser de outro modo, embora hoje se procure, com "narcóticos" muito eficazes, libertar o homem desta inquietação. Mas não somos só nós, seres humanos, que vivemos inquietos relativamente a Deus. Também o coração de Deus vive inquieto relativamente ao homem. Deus espera-nos. Anda à nossa procura. Também Ele não descansa enquanto não nos tiver encontrado. O coração de Deus vive inquieto e foi por isso que Se pôs a caminho até junto de nós - até Belém, até ao Calvário, de Jerusalém até à Galileia e aos confins do muno. Deus vive inquieto connosco, anda à procura de pessoas que se deixam contagiar por esta sua inquietação, pela sua paixão por nós; pessoas que vivem a busca que habita no seu coração e, ao mesmo tempo, se deixam tocar nos coração pela busca de Deus a nossa respeito»