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quinta-feira, 20 de junho de 2013

Aprendendo a agradecer e a pedir desculpa

       A atitude de ‘saber agradecer’ é uma das vertentes com que revelamos quer a nossa educação quer a nossa capacidade de atenção aos outros. Quando dizemos ‘obrigado’ a alguém estamos a envolver e a deixar-nos envolver por este sinal de que a outra pessoa é para nós e a quem dizemos ‘obrigado’, sendo digna da nossa estima e da nossa correlação com ele. Aliás, o uso da palavra ‘obrigado’ é o resumo dessa frase mais longa: ‘sinto- -me muito obrigado a agradecer’. Deste modo, dizer ‘obrigado’ não é uma expressão de obrigação, mas manifesta a nossa dedicação a esse/a quem dizemos simplesmente ‘obrigado’.
       De facto, hoje vivemos, infeliz e desgraçadamente, marcados pela ausência em dizer ‘obrigado’ e em ‘pedir desculpa’... uns aos outros. Parece que estes dois mínimos conceitos e actos de educação foram banidos do nosso trato social... Quem os exercita, a começar em sua casa, no trabalho e no convívio social? Quem os cultiva para com os outros? Haverá honrosas excepções!

       1. Mesmo que de forma simples poderemos apresentar alguns aspectos para uma cultura do saber agradecer:
       Gratidão – ser grato é uma qualidade que exprime o reconhecimento daquilo que nos fazem, de forma directa ver todos em família solidária. ou indirecta, pois a ingratidão é, hoje, mais cultivada do que a gratidão pelos pequenos ou pelos grandes gestos, feitos e factos.
       Simplicidade – para quem recebe gestos e sinais de carinho, desde os mais simples até aos mais complexos, agradecendo a Deus o que d’Ele vamos recebendo e da descoberta de como Ele nos ama... mesmo sem disso estarmos totalmente conscientes, quando Ele se esconde nos rostos de quem nos rodeia.
       Atenção aos outros – na medida em que pensamos mais neles do que em nós mesmos, atendendo mais às suas necessidades e qualidades do que, como acontece agora, nas nossas ‘virtudes’ e aos seus defeitos.
       Valorização mútua – quando agradecemos olhamos mais para aquilo que recebemos do que para aquilo que damos, e, na medida em que damos é para que o que recebemos seja para maior contentamento dos nossos interlocutores habituais, ocasionais ou de convívio mais difícil.
       2. Ao agradecimento está conexa a atitude em pedir desculpa, valorizando a quem podemos ter desagradado ou mesmo ofendido. Também aqui há vertentes simples para que ‘pedir desculpa’ possa ser natural no nosso dia a dia:
- Humildade em reconhecer os seus erros, aceitando-os e querendo corrigi- -los com a ajuda dos outros;
- Sinceridade no trato sem hipocrisias nem aproveitamento dos outros;
- Verdade sem nada esconder nem fazer-se vítima ou réu, sendo leal e vivendo de cabeça levantada por nada ter a esconder a não ser a boa harmonia para com todos... a começar pelos que nos estão mais próximos.
       Será que ainda vamos a tempo de reconstruir a sociedade, dizendo ‘obrigado’ e pedindo ‘desculpa’?

Pe. Sílvio Couto, in Voz de Lamego, 18 de junho de 2013.
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quinta-feira, 7 de março de 2013

Aprender o caminho, caminhando... rumo à Páscoa

       A nossa vida é caracterizada pela dimensão do caminhar: de muitas e variadas formas fazemos essa experiência do caminho – umas vezes a sós, outras acompanhados; nalguns casos com gosto, noutras situações a custo e em sofrimento; umas vezes com ritmo e leveza, outras com sabor a luta; por vezes tendo em vista a meta, noutras titubeando em tropeções; umas vezes descalços e noutros casos usando um calçado mais ou menos consentâneo com o percurso...
       É sobre a vivência do nosso caminhar – sobretudo em contexto quaresmal – que deixamos breves referências ao nosso itinerário de via-sacra, lendo, analisando e interpretando a nossa condição de caminhantes e segundo o calçado que de nós revela as condições psicológicas e espirituais da caminhada... rumo à Pascoa

       = Pé direito/pé esquerdo – neste equilíbrio de ritmo podemos enquadrar as coisas correctas (pé direito) e os aspectos menos bons (pé esquerdo), que nos acontecem e que nós fazemos acontecer, onde Deus está, de quantas formas e feitios, a conduzir-nos ou a corrigir-nos... sempre numa leitura teológica do nosso existir. Quantos passos bem-andados e quantos outros por maus caminhos! Tudo faz parte da história de cada um!...

       = Pé descalço/pé calçado – estamos a nu sempre que experimentamos a rudeza do chão que pisamos, seja de terra dura e fria ou o fofo e alcatifado, sem precalços ou pejado de tropeços... O pé descalço sente as agruras do caminho, mesmo que ele seja mais ou menos sem obstáculos, enquanto o calçado com que envolvemos os nossos pés tem de estar à altura do momento que vivemos, sentimos ou percorremos... pois, sem o calçado apropriado, corremos o risco de não sermos capazes de caminhar correctamente.

       = Cada categoria de calçado revela, no entanto, quem o usa, muito para além das possibilidades económicas, ele revela a personalidade que através dele se manifesta... mesmo que de forma inconsciente:
  • Sandálias traduzem uma certa fragilidade, despojamento e leveza, que, por vezes, se usam em épocas de lazer, como em férias, ou ainda em espaços de maior exposição ao sol, deixando que os pés andem mais soltos e sem constrangimento;
  • Botas, embora envolvendo alguma rudeza relacionada com o trabalho e com as condições para enfrentarmos as condições da vida, do tempo, do ambiente adverso e mesmo das modas – sobretudo no contexto feminino – ou dos espaços onde se desenrolada a tarefa da vida... podemos ver a força e a segurança, na diversidade de acções, de momentos e de condicionamentos;
  • Sapatos – masculinos ou femininos – são mais do que meros adereços de circunstância, pois podem ser factor de afirmação no contexto social em que cada um está inserido, tornando-se recurso muito para além das capacidades económicas... Parafraseando, diremos: ‘Diz-me o que calças, que te direi quem és’ – poderia ser o aforisma para nos entendermos, nos enquadrarmos e nos reconhecermos na sociedade actual;
  • Sapatilhas ou ‘ténis’ – numa alusão à prática desportiva, pois também nesta área podemos encontrar uma razoável diversidade de tipologias... Bastará observar um jogo de futebol, onde nem todos calçam da mesma forma, quase parecendo mais um desfile de marcas do que a constituição de uma equipa;
  • Pantufas e chinelos – próprios para o conforto de casa e inseridos num ambiente de descontração e de intimidade, podemos relacionar estas formas de calçado com a pacatez de uma vida quase recatada no lar ou num espaço de maior recolhimento... que poderá ser mais do que o final da vida, mas antes uma oportunidade de meditação sobre o sentido último (que não meramente derradeiro) da existência humana e social.
       Ora, na nossa caminhada de via-sacra... rumo à celebração da Páscoa temos, segundo os vários intervenientes uma multiplicidade de referências, atendendo à sua forma da calçar: os pés descalços de Jesus crucificado, as botas rudes dos soldados romanos, as sandálias frágeis do pescador envergonhado Pedro, a subtileza feminina na consolação das mulheres de Jerusalém, a capacidade de seguimento (mais do que atlético) de Simão cireneu... para além do pé esquerdo da traição de Judas ou ainda os pés arrastados após a morte e sepultura de Jesus...
       Caminhemos com serenidade e exigência até à Pascoa da ressurreição, anunciando Jesus vivo ao mundo de hoje!

Pe. António Sílvio Couto, in AQUI & AGORA, também publicado na Voz de Lamego.