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segunda-feira, 24 de abril de 2017

VL – O Jejum que Eu quero é a Misericórdia

É mais importante não comer carne à sexta-feira ou ir à Missa ao Domingo?
       Há tradições que são expressão da religiosidade mais popular. Mas, por vezes, parecem não passar de uma superstição entre outras como ver um gato preto, passar debaixo de uma escada, sentar-se a uma mesa com treze pessoas. É crucial não comer carne nas sextas-feiras da Quaresma porque é pecado e, pelo sim pelo não, mais vale prevenir e cumprir, não vá Deus chatear-Se. Temor sim, medo não. Deus ama-nos. É Pai de Misericórdia. Um Pai por certo não está à espera que o filho erre para o castigar, quando muito educa-o, dá-lhe ferramentas, aponta direções, caminhos…
       Perguntam-me se comer carne às sextas-feiras da Quaresma é pecado! Apetecia-me responder: é mais importante ir à Missa ao Domingo. Uma pessoa não vai à Missa há dois ou três anos, só entra na Igreja num funeral, e depois pergunta se é pecado comer carne à sexta-feira? Claro que há muitas outras coisas essenciais, cuidar da família, comprometer-se com a justiça e com a verdade, ser honesto, ajudar os mais frágeis… Mas se falamos numa proposta feita pela Igreja, de abster-se de alguma coisa que se gosta muito, e que pode muito bem ser a carne, e que esse gesto (sacrifício) possa beneficiar uma causa, pessoas mais carenciadas, então talvez faça sentido interrogar-se sobre o que é essencial na vivência e expressão da fé!
       Dois belíssimos textos no início da Quaresma. «Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes, convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo, paciente e rico em misericórdia» (Joel 2, 12-13). «O jejum que me agrada é este: libertar os que foram presos injus­tamente, livrá-los do jugo que levam às cos­tas, pôr em liberdade os oprimidos, quebrar toda a espécie de opres­são, repartir o teu pão com os esfo­meados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não des­prezar o teu irmão» (Is 58, 6-7).
       Pergunta o Papa Francisco: como se pode pagar um jantar de duzentos euros e depois fazer de conta que não se vê um homem faminto à saída do restaurante? «Sou justo, pinto o coração mas depois discuto, exploro as pessoas… Eu sou generoso, darei uma boa oferta à Igreja… diz-me: tu pagas o justo às tuas colaboradoras domésticas? Aos teus empregados pagas o salário não declarado? Ou como a lei estabelece, para que possam dar de comer aos filhos?».
       Desafia Jesus: «Ide aprender o que significa: prefiro a misericórdia ao sacrifício» (Mt 9, 13).

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4405, de 28 de março de 2017

VL - Resiliência na oração

       A Quaresma recentra-nos tradicionalmente em três dinâmicas para melhor vivermos a Páscoa do Senhor: a oração, o jejum e a esmola. São vistas como expressões da conversão interior, da adesão decidida a Jesus e ao Seu Evangelho, como concretização do nosso compromisso em nos tornarmos discípulos missionários, identificando-nos com o Mestre da Docilidade para, como Ele e com Ele, nos fazermos próximos dos outros e os acolhermos como irmãos.
       A oração é o ponto de partida e o chão que nos move para Deus. E se a oração é autêntica levar-nos-á a querer o que Deus quer. Na oração predispomo-nos a encontrar a vontade de Deus para nós. A referência é Jesus Cristo, cuja vontade paterna é o Seu programa de vida, o Seu alimento. Eu venho, ó Deus, para fazer a Vossa vontade. Faça-se não o que Eu quero, mas o que Tu queres! A oração não é fácil. Ou nem sempre é fácil, sobretudo quando a vida não corre de feição. Ainda assim não devemos deixar de rezar, de suplicar, de louvar, de agradecer a Deus, a chuva e o sol, o vento e a névoa!
       Alguns modelos de oração combativa: Abraão, Jacob, Moisés, Ana, Job, David, Jesus.
       Abrão “negoceia” com Deus, insistindo até ao limite, com veemência, tentando proteger a cidade de Sodoma e de Gomorra. É um dos exemplos muito queridos ao Papa Francisco. Jacob é aquele que luta com Deus pela noite dentro e, por isso, o seu nome é mudado para Israel, porque lutou com Deus e venceu. Moisés eleva os braços, o coração, a vida para Deus, intercedendo uma e outra vez pelo povo, de dura servis, mas ainda assim o povo que Deus lhe confiou. Ana, mãe de Samuel, que persiste na oração até que Deus lhe concede o que deseja. Job, na imensidão do mistério de Deus, no confronto com a desgraça pessoal e familiar, não desiste de se dirigir a Deus, convocando-O à justiça. E Deus responde-lhe. David, grande Rei – o Papa Francisco invoca-o como São David – apesar do grave pecado contra o próximo, tomando a mulher de Urias e provocando-lhe a morte, não deixa de dialogar com Deus, penitente, arrependido, assumindo as consequências do seu pecado, protegendo o povo. E, claro, a oração de Jesus. Em todos os momentos cruciais da Sua vida, Jesus respira oração, suplicando, louvando, agradecendo, oferecendo. A sua vida faz-se oração, mas Jesus reserva momentos específicos para orar a Deus Pai: antes da vida pública, antes de escolher os apóstolos, na realização de milagres, antes do Calvário… e na Cruz!

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4406, de 4 de abril de 2017

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos!

       «Convertei-vos a Mim de todo o coração, com jejuns, lágrimas e lamentações. Rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos. Convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo, paciente e misericordioso, pronto a desistir dos castigos que promete...» (Joel 2, 12-18).

       "Nós somos embaixadores de Cristo; é Deus quem vos exorta por nosso intermédio. Nós vos pedimos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus. A Cristo, que não conhecera o pecado, identificou-O Deus com o pecado por amor de nós, para que em Cristo nos tornássemos justiça de Deus... Porque Ele diz: «No tempo favorável, Eu te ouvi; no dia da salvação, vim em teu auxílio». Este é o tempo favorável, este é o dia da salvação" (2 Cor 5, 20 - 6, 2).

Disse Jesus aos seus discípulos: «Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Aliás, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está nos Céus. Assim, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita, para que a tua esmola fique em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. Quando rezardes, não sejais como os hipócritas, porque eles gostam de orar de pé, nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a ecompensa. Quando jejuardes, não tomeis um ar sombrio, como os hipócritas, que desfiguram o rosto, para mostrarem aos homens que jejuam. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que os homens não percebam que jejuas, mas apenas o teu Pai, que está presente em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa».
       És pó da terra e à terra hás-de voltar.
       É a condição de todos os seres humanos. O início da Quaresma relembra-nos a nossa condição igual. Donde vimos e para onde vamos. Mas diz-nos muito mais. Numa perspectiva mais científica é hoje afirmado que no início do Universo haveria apenas "poeira". E desta "poeira" nasceu o Universo. Neste sentido, a Bíblia é explicitada pelos dados da ciência. Numa palavra, temos todos a mesma origem: vida vegetal, animal, vida humana. Para nós crentes, vimos todos de Deus. Esta solidariedade na origem há-de catapultar-nos para a solidariedade no caminho, para que no fim nos reencontremos todos em Deus.
       A expressão que se sublinha neste dia, lembra-nos a nossa fragilidade. A miséria do ser humano, mas que é também a sua grandeza. Não fomos criados para vivermos sozinhos, ou uns contra os outros, ou independentemente dos outros. Fomos criados para vivermos como família, em Deus. De novo, recordemos a nossa origem comum. Por outro lado, o saber que não estamos cá para sempre, deve levar-nos a aproveitar bem o tempo que Deus nos dá para sermos felizes, para fazermos alguém feliz, para deixarmos o mundo melhor que o encontramos.
       Quaresma é este tempo favorável, como nos diz São Paulo, para a conversão, para a mudança de vida. Não uma mudança qualquer, mas mudarmos as nossas atitudes e o nosso comportamento para seguirmos imitando o Mestre dos Mestres, reconciliando-nos com Deus.
       Neste tempo santo, a Igreja recomenda diversas práticas: o jejum, a conversão, a confissão, a abstinência, a leitura mais frequente da Sagrada Escritura, a participação mais activa na Eucaristia, a partilha mais efetiva com os mais necessitados. Hão-de ser expressão da conversão interior. O gesto da imposição da cinzas, nesta Quarta-feira de Cinzas, mais não é que um fortíssimo sinal do nosso despojamento interior, que deverá significar adesão firme a Deus. Importa "rasgar o nosso coração"... os gestos exteriores só vale se nos mobilizarem interiormente...

sábado, 6 de dezembro de 2014

Domingo II do Advento - ano B - 7 de dezembro

       1 – "Consolai, consolai o meu povo... Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas".
       Preparar. Consolar. Converter-se. Anunciar. Caminhar. Antecipar.
       São algumas atitudes próprias do tempo de Advento e, particularmente, deste segundo domingo. É notório, sobretudo na primeira leitura e no Evangelho, o desafio da preparação que se acentua com a chegada do Precursor, Aquele que vem antes com a missão específica de preparar o caminho do Senhor.
       O profeta Isaías é perentório quanto às promessas de Deus, de nos visitar. Já se vislumbra a chegada de Deus, já irrompe a voz do mensageiro: «Preparai no deserto o caminho do Senhor, abri na estepe uma estrada para o nosso Deus. Sejam alteados todos os vales e abatidos os montes e as colinas; endireitem-se os caminhos tortuosos e aplanem-se as veredas escarpadas. Então se manifestará a glória do Senhor... Eis o vosso Deus. O Senhor Deus vem com poder, o seu braço dominará... Como um pastor apascentará o seu rebanho e reunirá os animais dispersos; tomará os cordeiros em seus braços, conduzirá as ovelhas ao seu descanso».
       Novos tempos de justiça e de paz, de concórdia e unidade. Deus vem para resgatar o Seu povo, para ajuntar os seus membros como o pastor reúne o seu rebanho. O convite de Deus é envolvente: «Falai ao coração de Jerusalém e dizei-lhe em alta voz que terminaram os seus trabalhos e está perdoada a sua culpa... Grita com voz forte, arauto de Jerusalém! Levanta sem temor a tua voz!» A voz que clama deve ser audível, falar ao coração, mas com firmeza e em alta voz, subindo ao monte para que a mensagem ressoe em toda a terra.
       2 – No Evangelho, o arauto que clama com voz forte é João Batista. Se do alto monte a voz se pode ouvir à distância sobre as cidades e as aldeias, a partir do deserto alarga-se sem fronteiras para entrar na cidade fortificada a partir de baixo, a partir do interior.
       Recorde-se, porém, que o deserto, onde se encontra habitualmente João Batista, nas proximidades do rio Jordão, no qual batizará Jesus, situa-se nas cercanias de Israel. Tal como o povo caminhou pelo deserto, purificando-se para entrar na Terra Prometida, também agora os crentes terão que fazer um caminho de deserto, de penitência e de conversão, para reentrarem na Promessa de Deus, plenizada com a chegada do Messias.
       A missão de João Batista é precisamente "proclamar um batismo de penitência para remissão dos pecados". É dele que estava escrito, como refere São Marcos no Evangelho, «Vou enviar à tua frente o meu mensageiro, que preparará o teu caminho. Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas’». A missão é predispor-nos a acolher o Messias, a caminhar, purificando o nosso coração a fim de percebermos a chegada de Deus às nossas vidas.
       Na sua pregação, intui-se a brevidade, a novidade e a grandeza do Eleito de Deus que vem: «Vai chegar depois de mim quem é mais forte do que eu, diante do qual eu não sou digno de me inclinar para desatar as correias das suas sandálias. Eu batizo-vos na água, mas Ele batizar-vos-á no Espírito Santo».
       Registe-se, por agora, que cada um de nós, e as comunidades cristãs no seu conjunto, deve assumir esta missão e esta pregação, preparando-nos e clamando para que os outros se predisponham a receber o reino de Deus. Transformamos a nossa vida, deixamo-nos batizar no arrependimento, na conversão e na penitência, aplanando tudo o que na nossa vida nos impede de abraçar os outros e de acolher o Senhor. Ponhamo-nos a caminho. O caminho faz-se caminhando e não apenas olhando para o caminho que temos pela frente. Há que dar o primeiro passo, para que a um, outros passos nos aproximem de Jesus Cristo, arrastando os outros connosco.
       3 – O tempo do Advento é o tempo de sermos precursores do Filho de Deus, dilatando o nosso coração para que um CORAÇÃO maior possa caber dentro de nós. Este é um tempo favorável, de graça e de salvação. Deus é paciente e dá-nos todo o tempo que precisamos para nos pormos a caminho e para modificarmos a nossa vida em todos os aspetos que nos afastam ou nos mantêm à distância dos nossos semelhantes. O caminho do Céu faz-se nos caminhos da história, da nossa história pessoal, familiar, comunitária. Aqui e agora. Se a plenitude finaliza na eternidade, é ativada, vivida e antecipada na atualidade. Vamos saboreando o que havemos de ser. O reino de Deus, instaurado na morte e ressurreição de Cristo, está em ebulição no mundo histórico-temporal.
       São Pedro escreve-nos dizendo:
«O Senhor não tardará em cumprir a sua promessa... Mas usa de paciência para convosco e não quer que ninguém pereça, mas que todos possam arrepender-se... Entretanto, o dia do Senhor virá como um ladrão... Nós esperamos, segundo a promessa do Senhor, os novos céus e a nova terra, onde habitará a justiça. Portanto, caríssimos, enquanto esperais tudo isto, empenhai-vos, sem pecado nem motivo algum de censura, para que o Senhor vos encontre na paz».
       Lembra-nos que o Senhor virá, não tarda muito. Reassume as palavras de Jesus: o Senhor virá sem contarmos, como um ladrão. Então, há que estar preparados, vigilantes. E que significa ESPERAR e estar vigilantes? Concretiza o Apóstolo: EMPENHAI-VOS...

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (B): Is 40,1-5.9-11; Sl 84 (85); 2 Ped 3,8-14; Mc 1,1-8.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Papa Francisco - quem de vós sabe a data o batismo?

 Prezados irmãos e irmãs, bom dia!
       No Credo, através do qual cada domingo fazemos a nossa profissão de fé, nós afirmamos: «Professo um só baptismo, para o perdão dos pecados». Trata-se da única referência explícita a um Sacramento no contexto do Credo. Com efeito, o Baptismo constitui a «porta» da fé e da vida cristã. Jesus Ressuscitado deixou aos Apóstolos esta exortação: «Ide pelo mundo inteiro e pregai o Evangelho a toda a criatura. Quem crer e for baptizado será salvo» (Mc 16, 15-16). A missão da Igreja é evangelizar e perdoar os pecados através do sacramento baptismal. No entanto, voltemos às palavras do Credo. Esta expressão pode ser dividida em três pontos: «professo»; «um só baptismo»; e «para o perdão dos pecados».
       «Professo». O que quer dizer isto? É um termo solene, que indica a grande importância do objecto, ou seja, do Baptismo. Com efeito, pronunciando estas palavras, nós afirmamos a nossa verdadeira identidade de filhos de Deus. Num certo sentido, o Baptismo é o bilhete de identidade do cristão, a sua certidão de nascimento e o acto de nascimento na Igreja. Todos vós conheceis o dia em que nascestes e festejais o vosso aniversário, não é verdade? Todos nós festejamos o aniversário. Dirijo-vos uma pergunta, que já formulei outras vezes, mas volto a apresentá-la: quem de vós se recorda da data do seu próprio Baptismo? Levantem a mão: são poucos (e não o pergunto aos Bispos, para que não se envergonhem...). Mas façamos uma coisa: hoje, quando voltardes para casa, perguntai em que dia fostes baptizados, procurai, porque este é o vosso segundo aniversário. O primeiro é do nascimento para a vida e o segundo é do nascimento na Igreja. Fareis isto? É um dever que deveis fazer em casa: procuremos descobrir o dia em que nascemos na Igreja e demos graças ao Senhor porque no dia do Baptismo nos abriu a porta da sua Igreja. Ao mesmo tempo, ao Baptismo está ligada a nossa fé na remissão dos pecados. Com efeito, o Sacramento da Penitência ou Confissão é como um «segundo baptismo», que se refere sempre ao primeiro, para o consolidar e renovar. Neste sentido, o dia do nosso Baptismo é o ponto de partida de um caminho extremamente bonito, um caminho rumo a Deus que dura a vida inteira, um caminho de conversão que é continuamente fortalecido pelo Sacramento da Penitência. Pensai nisto: quando vamos confessar-nos das nossas debilidades, dos nossos pecados, vamos pedir o perdão de Jesus, mas vamos também renovar o Baptismo com este perdão. E isto é bom, é como festejar o dia do Baptismo em cada Confissão. Portanto, a Confissão não é uma sessão numa sala de torturas, mas é uma festa. A Confissão é para os baptizados, para manter limpa a veste branca da nossa dignidade cristã!

       Segundo elemento: «um só baptismo». Esta expressão evoca as palavras de são Paulo: «Um só Senhor, uma só fé, um só baptismo» (Ef 4, 5). Literalmente, a palavra «baptismo» significa «imersão» e, com efeito, este Sacramento constitui uma verdadeira imersão espiritual na morte de Cristo, da qual renascemos com Ele como criaturas novas (cf. Rm 6, 4). Trata-se de um lavacro de regeneração e iluminação. Regeneração, porque realiza aquele nascimento da água e do Espírito, sem a qual ninguém pode entrar no reino dos céus (cf. Jo 3, 5). Iluminação porque, através do Baptismo, a pessoa humana se torna repleta da graça de Cristo, «a verdadeira luz que a todo o homem ilumina» (Jo 1, 9), dissipando as trevas do pecado. Por isso na cerimónia do Baptismo, aos pais dá-se um círio aceso, para significar esta iluminação; o Baptismo ilumina-nos a partir de dentro com a luz de Jesus. Em virtude deste dom, o baptizado é chamado a tornar-se ele mesmo «luz» — a luz da fé que ele recebeu — para os irmãos, especialmente para quantos estão nas trevas e não vislumbram espirais de claridade no horizonte da própria vida.

       Podemos interrogar-nos: para mim, o Baptismo constitui um acontecimento do passado, isolado numa data, aquela que hoje vós procurareis, ou uma realidade viva, que diz respeito ao meu presente, a cada momento? Tu sentes-te forte, com o vigor que Cristo te oferece com a sua morte e ressurreição? Ou sentes-te abatido, esgotado? O Baptismo dá-te força e luz. Sentes-te iluminado, com aquela luz que vem de Cristo? És homem e mulher de luz? Ou és uma pessoa obscura, sem a luz de Jesus? É preciso assimilar a graça do Baptismo, que constitui uma dádiva, e tornar-se luz para todos!

       Finalmente, uma breve referência ao terceiro elemento: «para o perdão dos pecados». No sacramento do Baptismo são perdoados os pecados, o pecado original e todos os nossos pecados pessoais, assim como todas as penas do pecado. Mediante o Baptismo abre-se a porta a uma novidade de vida concreta, que não é oprimida pelo peso de um passado negativo, mas já pressente a beleza e a bondade do Reino dos céus. Trata-se de uma intervenção poderosa da misericórdia de Deus na nossa vida, para nos salvar. Esta intervenção salvífica não priva a nossa natureza humana da sua debilidade — todos nós somos frágeis, todos somos pecadores — e também não nos priva da responsabilidade de pedir perdão cada vez que erramos! Não me posso baptizar várias vezes, mas posso confessar-me e deste modo renovar a graça do Baptismo. É como se eu fizesse um segundo Baptismo. O Senhor Jesus é deveras bondoso e nunca se cansa de nos perdoar. Inclusive quando a porta que o Baptismo nos abriu para entrar na Igreja se fecha um pouco, por causa das nossas fraquezas e dos nossos pecados, a Confissão volta a abri-la precisamente porque é como um segundo Baptismo que nos perdoa tudo e nos ilumina para irmos em frente com a luz do Senhor. Vamos em frente assim, cheios de alegria, porque a vida deve ser vivida com o júbilo de Jesus Cristo; e esta é uma graça do Senhor!
 

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

São João Crisóstomo: 5 vias de Penitência

São João Crisóstomo ensina-nos:
       “Queres que cite as vias da penitência? São muitas, é certo; variadas e diferentes; mas todas levam ao céu:

PRIMEIRA VIA DA PENITÊNCIA: a reprovação dos pecados
       Sê tu o primeiro a dizer os teus pecados para seres justificado. O Profeta tão bem dizia: ‘Confessei contra mim mesmo a minha injustiça ao Senhor, e Ele perdoou a impiedade do meu coração’. Reprova também tu aquilo em que pecaste; basta isto ao Senhor para desculpar-te. Quem reprova aquilo em que pecou, custará mais a recair. Estimula o acusador interno, a tua consciência, para que não venhas a ter acusador lá adiante no tribunal do Senhor. Esta primeira, é ótima via de penitência.

SEGUNDA VIA DA PENITÊNCIA: o perdão das faltas do próximo
       Não guardemos lembrança das injúrias recebidas dos inimigos, dominemos a cólera, perdoemos as faltas dos companheiros. Esta segunda via não é nada inferior à primeira. Com esta via, aquilo que se cometeu contra o Senhor será perdoado. Eis outra expiação dos pecados. ‘Se perdoardes aos vossos devedores, também vos perdoará o vosso Pai celeste’.

TERCEIRA VIA DA PENITÊNCIA: a oração
       Nesta via, a oração deve ser muito ardente e bem feita; uma oração que brote do mais fundo do coração.

QUARTA VIA DA PENITÊNCIA: a esmola
       A esmola possui muita e poderosa força no caminho para a conversão e transformação do coração. Leva à prática da caridade e ao desprendimento dos bens e de si mesmo.

QUINTA VIA DA PENITÊNCIA: a humildade
       Ser modesto no agir e humilde, não menos que tudo o mais, destrói os pecados. Testemunha disto é o publicano que não podia dizer a seu favor nada feito com retidão, mas em vez disso ofereceu a humildade e depôs pesada carga de pecados.

       Estão indicadas assim, as cinco vias da penitência. Não sejas preguiçoso, meu irmão, mas caminha todos os dias por elas. São fáceis e portanto, não podes nem sequer objetar a pobreza, pois ainda que pela indigência leves vida dura, renunciar à ira e mostrar humildade está em teu poder, bem como rezar assiduamente, condenar os teus pecados e perdoar os dos outros. Em parte alguma a pobreza é impedimento. O que digo aqui, naquela via de penitência que consiste em dar dinheiro (falo de esmola) ou em observar os mandamentos, será obstáculo à pobreza? A viúva que deu dois tostões já respondeu. Tendo, pois, aprendido o meio de curar as nossas chagas, usemos deste remédio. E com isso, recuperada a saúde, vamos com confiança à mesa sagrada e corramos gloriosos ao encontro de Cristo, Rei da glória; e alcançaremos os eternos bens, por graça, misericórdia e benignidade de nosso Senhor Jesus Cristo.”

FONTE: Vida Espiritual Católica, in Repórter de Cristo.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Sacramento da Reconciliação

(reposição deste post...)
        No tempo da Quaresma, valoriza-se o Sacramento da Penitência (da reconciliação). Diga-se, antes de mais, que a preocupação maior não deve ser a confissão dos pecados, mas sobretudo a descoberta da graça de Deus, deixando que o Seu Espírito nos faça entrar numa nova vida. O vídeo da Canção Nova é expressivo a falar deste Sacramento: é Deus quem perdoa. O sacerdote é intermediário da graça de Deus... Quando temos sede bebemos a água, ainda que a torneira não seja de ouro..

       Para reflectir um pouco mais sobre este Sacramento valerá a pena ler e meditar o texto que segue e que propomos:

1. O QUE É A CONFISSÃO?
       Confissão ou Penitência é o Sacramento instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo, para que os cristãos possam ser perdoados de seus pecados e receberem a graça santificante. Também é chamado de sacramento da Reconciliação.

2. QUEM INSTITUIU O SACRAMENTO DA CONFISSÃO OU PENITÊNCIA?
       O sacramento da Penitência foi instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo nos ensina o Evangelho de São João: "Depois dessas palavras (Jesus) soprou sobre eles dizendo-lhes: Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem vocês perdoarem os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos" (Jo 20, 22-23).

3. A IGREJA TEM A AUTORIDADE PARA PERDOAR OS PECADOS ATRAVÉS DO SACRAMENTO DA PENITÊNCIA?
       Sim, a Igreja tem esta autoridade porque a recebeu de Nosso Senhor Jesus Cristo: "Em verdade vos digo: tudo o que ligardes sobre a terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes sobre a terra será também desligado no céu" (Mt 18,18).

4. POR QUE ME CONFESSAR E PEDIR O PERDÃO PARA UM HOMEM IGUAL A MIM?
       Só Deus perdoa os pecados. O Padre, mesmo sendo um homem sujeito às fraquezas como outros homens, está ali em nome de Deus e da Igreja para absolver os pecados. Ele é o ministro do perdão, isto é, o intermediário ou instrumento do perdão de Deus, como os pais são instrumentos de Deus para transmitir a vida a seus filhos; e como o médico é um instrumento para restituir a saúde física, etc.

5. OS PADRES E BISPOS TAMBÉM SE CONFESSAM?
       Sim, obedientes aos ensinamentos de Cristo e da Igreja, todos os Padres, Bispos e mesmo o Papa se confessam com frequência, conforme o mandamento: "Confessai os vossos pecados uns aos outros" (Tg 5,16 ).

6. O QUE É NECESSÁRIO PARA FAZER UMA BOA CONFISSÃO?
       Para se fazer uma boa confissão são necessárias 5 condições:
       a) um bom e honesto exame de consciência diante de Deus;
       b) arrependimento sincero por ter ofendido a Deus e ao próximo;
       c) firme propósito diante de Deus de não pecar mais, mudar de vida, se converter;
       d) confissão objetiva e clara a um sacerdote;
       e) cumprir a penitência que o padre nos indicar.

7. COMO DEVE SER A CONFISSÃO?
       Diga o tempo transcorrido desde a última confissão. Acuse (diga) seus pecados com clareza, primeiro os mais graves, depois os mais leves. Fale resumidamente, mas sem omitir o necessário. Devemos confessar os nossos pecados e não os dos outros. Porém, se participamos ou facilitamos de alguma forma o pecado alheio, também cometemos um pecado e devemos confessá-lo (por exemplo, se aconselhamos ou facilitamos alguém a praticar um aborto, somos tão culpados como quem cometeu o aborto).

8. O QUE PENSAR DA CONFISSÃO FEITA SEM ARREPENDIMENTO OU SEM PROPÓSITO DE CONVERSÃO, OU SEJA, SÓ PARA "DESCARREGAR" UM POUCO OS PECADOS?
       Além de ser uma confissão totalmente sem valor, é uma grave ofensa à Misericórdia Divina. Quem a pratica comete um pecado grave de sacrilégio.

9. QUE PECADOS SOMOS OBRIGADOS A CONFESSAR?
       Somos obrigados a confessar todos os pecados graves (mortais). Mas é aconselhável também confessar os pecados leves (veniais) para exercitar a virtude da humildade.

10. O QUE SÃO PECADOS GRAVES (MORTAIS) E SUAS CONSEQUÊNCIAS?
       São ofensas graves a Deus ou ao próximo. Eles apagam a caridade no coração do homem e o desviam de Deus. Quem morre em pecado grave (mortal) sem arrependimento, merece a morte eterna, conforme diz a Escritura: "Há pecado que leva à morte" (1Jo 5,16b).

11. O QUE SÃO PECADOS LEVES (ou também chamados de VENIAIS)?
       São ofensas leves a Deus e ao próximo. Embora ofendam a Deus, não destroem a amizade entre Ele e o homem. Quem morre em pecado leve não merece a morte eterna. "Toda iniquidade é pecado, mas há pecado que não leva à morte" (1Jo 5, 17).

12. PODEIS DAR ALGUNS EXEMPLOS DE PECADOS GRAVES?
       São pecados graves, por exemplo: O assassinato, o aborto provocado, assistir ou ler material pornográfico, destruir de forma grave e injusta a reputação do próximo, oprimir o pobre, o órfão ou a viúva, fazer mau uso do dinheiro público, o adultério, a fornicação, entre outros.

13. QUER DIZER QUE TODO AQUELE QUE MORRE EM PECADO MORTAL ESTÁ CONDENADO?
       Merece a condenação eterna. Porém, somente Deus, que é justo e misericordioso e que conhece o coração de cada pessoa, pode julgar.

14. E SE TENHO DÚVIDAS SE COMETI PECADO GRAVE OU NÃO?
       Para que haja pecado grave (mortal) é necessário:
       a) conhecimento, ou seja, a pessoa deve saber, estar informada que o ato a ser praticado é pecado;
       b) consentimento, ou seja, a pessoa tem tempo para refletir, e escolhe (consente) cometer o pecado;
       c) liberdade, isto é, significa que somente comete pecado quem é livre para fazê-lo; 
       d) matéria, ou seja, significa que o ato a ser praticado é uma ofensa grave aos Mandamentos de Deus e da Igreja.

       Estas 4 condições também são aplicáveis aos pecados leves, com a diferença que neste caso a matéria é uma ofensa leve contra os Mandamentos de Deus.

15. SE ESQUECI DE CONFESSAR UM PECADO QUE JULGO GRAVE?
       Se esquecestes realmente, o Senhor te perdoou, mas é preciso acusá-lo ao sacerdote em uma próxima confissão.

16. E SE NÃO SINTO REMORSO, COMETI PECADO?
       Não sentir peso na consciência (remorso) não significa que não tenhamos pecado. Se nós cometemos livremente uma falta contra um Mandamento de Deus, de forma deliberada, nós cometemos um pecado. A falta de remorso pode ser um sinal de um coração duro, ou de uma consciência pouco educada para as coisas espirituais (por exemplo, um assassino pode não ter remorso por ter feito um crime, mas seu pecado é muito grave).

17. A CONFISSÃO É OBRIGATÓRIA?
       O católico deve confessar-se no mínimo uma vez por ano, ao menos a fim de se preparar para a Páscoa. Mas somos também obrigados toda vez que cometemos um pecado mortal.

18. QUAIS OS FRUTOS DE SE CONFESSAR CONSTANTEMENTE?
       Toda confissão apaga completamente nossos pecados, até mesmo aqueles que tenhamos esquecido. E nos dá a graça santificante, tornando-nos naquele instante uma pessoa santa. Tranquilidade de consciência, consolo espiritual. Aumenta nossos méritos diante do Criador. Diminui a influência do demônio em nossa vida. Faz criar gosto pelas coisas do alto. Exercita-nos na humildade e nos faz crescer em todas as virtudes.

19. E SE TENHO DIFICULDADE PARA CONFESSAR UM DETERMINADO PECADO?
       Se somos conhecidos de nosso pároco, devemos neste caso fazer a confissão com outro padre para nos sentirmos mais à vontade. Em todo caso, antes de se confessar converse com o sacerdote sobre a sua dificuldade. Ele usará de caridade para que a sua confissão seja válida sem lhe causar constrangimentos. Lembre-se: ele está no lugar de Jesus Cristo!

20. O QUE SIGNIFICA A PENITÊNCIA DADA NO FINAL DA CONFISSÃO?
       A penitência proposta no fim da confissão não é um castigo; mas antes uma expressão de alegria pelo perdão celebrado.


  •      A propósito de Confissão surgem muitos textos interessantes e sugestivos. Recomedaríamos uma leitura atenta de Confissão e Oração, no blogue da Dulce que seguimos: Degrau de Silêncio.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Quaresma e seus diferentes significados

       Este foi mais um dos temas da Semana de Formação Bíblica, que decorreu na nossa paróquia de Tabuaço, há um ano, entre os dias 13 e 18 de Fevereiro de 2011, seguindo um texto de Roberta Taverna. Aqui são referidos textos do Antigo e Novo Testamento, as origens da Quaresma, os seus significados, símbolos,... o deserto, a oração, o jejum, o encontro com Deus, a escuta de Deus e do próximo, a conversão, a penitência...
(clicar sobre a imagem de Jesus, sentado, recolhido, quando esta aparecer)

sábado, 12 de novembro de 2011

Deixando-me perdoar, aprendo a perdoar...

       "Importante é também o sacramento da Penitência. Ensina a olhar-me do ponto de vista de Deus e obriga-me a ser honesto comigo mesmo; leva-me à humildade. Uma vez o Cura d’Ars disse: Pensais que não tem sentido obter a absolvição hoje, sabendo entretanto que amanhã fareis de novo os mesmos pecados. Mas – assim disse ele – o próprio Deus neste momento esquece os vossos pecados de amanhã, para vos dar a sua graça hoje. Embora tenhamos de lutar continuamente contra os mesmos erros, é importante opor-se ao embrutecimento da alma, à indiferença que se resigna com o facto de sermos feitos assim. Na grata certeza de que Deus me perdoa sempre de novo, é importante continuar a caminhar, sem cair em escrúpulos mas também sem cair na indiferença, que já não me faria lutar pela santidade e o aperfeiçoamento.
       E, deixando-me perdoar, aprendo também a perdoar aos outros; reconhecendo a minha miséria, também me torno mais tolerante e compreensivo com as fraquezas do próximo".

quarta-feira, 16 de março de 2011

Nínive será destruída...

       Jonas entrou na cidade e caminhou durante um dia, apregoando: «Daqui a quarenta dias, Nínive será destruída». Os habitantes de Nínive acreditaram em Deus, proclamaram um jejum e revestiram-se de sacos, desde o maior ao mais pequeno. Logo que a notícia chegou ao rei de Nínive, ele ergueu-se do trono e tirou o manto, cobriu-se de saco e sentou-se sobre a cinza. Depois foi proclamado em Nínive um decreto do rei e dos seus ministros, que dizia: «Os homens e os animais, os bois e as ovelhas, não provem alimento, não pastem nem bebam água. Os homens e os animais revistam-se de sacos e clamem a Deus com vigor; afaste-se cada um do seu mau caminho e das violências que tenha praticado. Quem sabe? Talvez Deus reconsidere e desista, acalmando o ardor da sua ira, de modo que não pereçamos». Quando Deus viu as suas obras e como se convertiam do seu mau caminho, desistiu do castigo com que os ameaçara e não o executou (Jonas 3, 1-10).
       A misericórdia de Deus é infinita.
       Ele não desiste de nós, mesmo que nós nos afastemos dos Seus mandamentos e do Seu caminho.
       Deus não cessa de vir ao nosso encontro e nos desafiar a uma vida nova.
       Neste texto de Jonas, como a reflexão que hoje Jesus deixa no Evangelho, aludindo a este episódio de conversão, Deus não quer a condenação nem do justo nem do pecador mas que todos se convertam e convertendo-se se salvem, neste tempo e na eternidade futura.
       O povo de Nínive soube responder claramente às palavras de Deus, arrependeu-se do seu mau caminho, penitenciando-se com gestos concretos, na perspectiva de mudarem os seus hábitos, para entrarem no caminho do Senhor.

sábado, 9 de outubro de 2010

O ferreiro diante de Deus

       Era uma vez um ferreiro que, após uma juventude cheia de excessos, resolveu entregar sua alma a Deus.
       Durante muitos anos trabalhou com afinidade, praticou a caridade, mas, apesar de toda sua dedicação, nada parecia dar certo na sua vida.
       Muito pelo contrário: seus problemas e dívidas acumulavam-se cada vez mais.
       Uma bela tarde, um amigo que o visitara - e que se compadecia de sua situação difícil - comentou:
       - É realmente estranho que, justamente depois que você resolveu se tornar um homem temente a Deus, sua vida começou a piorar. Eu não desejo enfraquecer sua fé, mas apesar de toda a sua crença no mundo espiritual, nada tem melhorado.
       O ferreiro não respondeu imediatamente. Ele já havia pensado nisso muitas vezes, sem entender o que acontecia em sua vida. Entretanto, como não queria deixar o amigo sem resposta, começou a falar e terminou encontrando a explicação que procurava. Eis o que disse o ferreiro:
       - Eu recebo nesta oficina o aço ainda não trabalhado e preciso transformá-lo em espadas. Você sabe como isto é feito? Primeiro eu aqueço a chapa de aço num calor infernal, até que fique vermelha. Em seguida, sem qualquer piedade, eu pego o martelo mais pesado e aplico golpes até que a peça adquira a forma desejada. Logo, ela é mergulhada num balde de água fria e a oficina inteira se enche com o barulho do vapor, enquanto a peça estala e grita por causa da súbita mudança de temperatura. Tenho que repetir esse processo até conseguir a espada perfeita: uma vez apenas não é suficiente.
       O ferreiro deu uma longa pausa, e continuou:
       - Às vezes, o aço que chega até minhas mãos não consegue aguentar esse tratamento. O calor, as marteladas e a água fria terminam por enchê-lo de rachaduras. E eu sei que jamais se transformará numa boa lâmina de espada. Então, eu simplesmente o coloco no monte de ferro-velho que você viu na entrada de minha ferraria.
       Mais uma pausa e o ferreiro concluiu:
       - Sei que Deus está me colocando no fogo das aflições. Tenho aceito as marteladas que a vida me dá, e às vezes sinto-me tão frio e insensível como a água que faz sofrer o aço. Mas a única coisa que peço é: "Meu Deus, não desista, até que eu consiga tomar a forma que o Senhor espera de mim. Tente da maneira que achar melhor, pelo tempo que quiser - mas jamais me coloque no monte de ferro-velho das almas".

Mensagem do Dia, de Pe. Marcelo Rossi, in Só por Agora.

terça-feira, 30 de março de 2010

Um Jovem Galileu!...

       A maior história do mundo contada através da música de Pe. Zezinho e imagens do filme "A Paixão de Cristo" Simplesmente emocionante e verdadeira, impressiona a forma como os nossos sentimentos podem ser traduzidos em forma de canções e por alguém tão marcante! Um vídeo maravilhoso que nos transmite uma forte e grande mensagem do amor de Deus para connosco.Nesta Semana Maior não nos esqueçamos de "Orar"pelo mundo inteiro.

terça-feira, 9 de março de 2010

70 x 7: perdoar sempre

       "Por amor do vosso nome, Senhor, não nos abandoneis para sempre e não anuleis a vossa aliança. Não nos retireis a vossa misericórdia, por amor de Abraão vosso amigo, de Isaac vosso servo e de Israel vosso santo, ...tratai-nos segundo a vossa bondade e segundo a abundância da vossa misericórdia. Livrai-nos pelo vosso admirável poder e dai glória, Senhor, ao vosso nome" (Dan 3, 25.34-43).
       "Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe: «Se meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?» Jesus respondeu: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete»" (Mt 18, 21-35).

       A resposta de Jesus dada a Pedro é expressiva. A nossa conduta deve orientar-se, sempre, em todas as circusntâncias, pelo bem, pela caridade, expressa e testemunhada pelo perdão e pela justiça. Quem ama perdoa. Quem sabe perdoar aprofunda a sua capacidade de amar.
       É inequívoca a Mensagem de Jesus: perdoar sempre, por mais difícil que possa ser. Sabemos disso, há situações que dizemos que seria uma grande humilhação perdoar. E, no entanto, Jesus insite, só o perdão a quem nos ofende nos torna "merecedores" do perdão de Deus. Ou, por outra, o amor e perdão de Deus conduzem-nos ao amor e perdão ao próximo. A medida do nosso perdão é Jesus Cristo. Na cruz, perdoa os seus algozes.
       Diaga-se, ainda a este propósito, e parafraseando o célebre psiquiatra brasileiro, Augusto Cury, que o perdão não beneficia o infractor, mas a pessoa que se sente ofendida. de contrário, se não perdoamos, dormimos com inimigo, levamo-la para a mesa, para o trabalho, para o descanso, não o largamos, está sempre no nosso pensamento, minando-nos, afectando-nos. Perdoar ao outro é reconhecer que o outro errou, mas que o aceitamos, que queremos que ele viva e seja feliz, e que não nos deixamos ir ao fundo só porque alguém nos ofendeu. É difícil, mas é compensador. Trata-se de fé, mas é também uma questão de saúde.

sábado, 6 de março de 2010

Compromisso quaresmal

       Vitorino, funcionário de um ministério, decidiu passar a Quaresma sem fumar. Pareceu-lhe que seria uma boa maneira de 'ganhar' o Céu. E foi cumprindo, dia após dia, embora com muito custo. A esposa, muito paciente, foi notando que ele se tornava cada vez mais insuportável.
       Quando chegou à noite da Segunda-feira Santa, já com a Quaresma prestes a terminar, deitou-se mais uma vez nervoso e de mau-humor. Exclamou:
       - Esta noite não vou conseguir dormir!
       A esposa, pacientemente, não o contradisse:
       - Não vamos dormir, nem tu nem eu!
       Ao longo da Quaresma, este homem, de facto, não fumou mas foi ficando cada vez mais azedo.
       Entretanto, a sua esposa ia tendo cada vez mais paciência para o aturar.
       Pouco tempo depois da Páscoa, o homem teve uma síncope cardíaca e foi bater à porta do Céu.
       Quando chegou, São Pedro levou-o para um modesto lugar junto da porta. O homem resmungou:
       - Então andei uma Quaresma inteira sem fumar e fico aqui num dos piores lugares?
       São Pedro voltou a consultar o ficheiro e disse:
       - Vitorino: Aqui está a tua ficha. Nela está escrito: «Tem uma esposa santa; aguentou o seu marido sem fumar a Quaresma inteira»".
in Juvenil, n.º 535, Março 2010.

A parábola do filho pródigo

       "Não guarda para sempre a sua ira, porque prefere a misericórdia. Ele voltará a ter piedade de nós, pisará aos pés as nossas faltas, lançará para o fundo do mar todos os nossos pecados" (Miq 7, 14-15.18-20).

       «Disse-lhe o pai: ‘Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque o teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’».
(Lc 15, 1-3.11-32).
       A liturgia da Palavra para este Sábado apresenta-nos a face misericordiosa de Deus. Deus é compassivo e justo, prefere o arrependimento, que o pecador se converta e viva, usa de misericórdia até à milésima geração.
       A primeira leitura acentua o perdão de Deus diante da infidelidade do povo. Ele esquece os nossos pecados em nome do Seu amor por nós.
       No Evangelho, Jesus conta a parábola do filho pródigo, ou melhor, do pai misericordioso. O filho mais novo pede a sua herança, sai de casa, esbanja os seus bens, cai na miséria. Ele que pensava que a felicidade estava longe da casa paterna. Regressa. O pai há muito está à sua espera. Faz uma festa. Deus sempre faz festa quando voltámos. A misericódia de Deus supera o nosso pecado.
       O filho mais velho sente ciúme pelo acolhimento pronto do Pai. Mas também Ele é convidado a participar da festa. Devemos alegrar-nos por todos os que voltam e não pela desgraça alheia.

segunda-feira, 1 de março de 2010

A medida que usardes com os outros

       "Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados. Não condeneis e não sereis condenados. Perdoai e sereis perdoados. Dai e dar-se-vos-á: deitar-vos-ão no regaço uma boa medida, calcada, sacudida, a transbordar. A medida que usardes com os outros será usada também convosco" (Lc 6, 36-38).
       A medida do nosso amor e do nosso perdão é Deus. Por isso Jesus nos diz: sede perfeitos como o vosso Pai celestial é perfeito, sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso. Se a medida fôssemos nós e cada uma fosse a sua própria medida, deixaria de haver um referencial comum e abundaria a parcialidade. Ainda que alguém fosse extremamente justo e generoso, poderia em certas ocasiões inclinar-se mais para aqui ou para ali.
       O tempo de Quaresma é também tempo de ultrapassarmos as nossas limitações humanas com a graça divina, procurando que os nossos juízos e as nossas acções seja concordes com a Palavra de Deus.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Cristo, a justiça de Deus (II)

       Compreende-se então como a fé não é um facto natural, cómodo, óbvio: é necessário humildade para aceitar que se precisa que um Outro me liberte do “meu”, para me dar gratuitamente o “seu”. Isto acontece particularmente nos sacramentos da Penitência e da Eucaristia. Graças à acção de Cristo, nós podemos entrar na justiça “ maior”, que é a do amor (cfr Rom 13,8-10), a justiça de quem se sente em todo o caso sempre mais devedor do que credor, porque recebeu mais do que aquilo que poderia esperar.
       Precisamente fortalecido por esta experiência, o cristão é levado a contribuir para a formação de sociedades justas, onde todos recebem o necessário para viver segundo a própria dignidade de homem e onde a justiça é vivificada pelo amor.
       Queridos irmãos e irmãs, a Quaresma culmina no Tríduo Pascal, no qual também este ano celebraremos a justiça divina, que é plenitude de caridade, de dom, de salvação. Que este tempo penitencial seja para cada cristão tempo de autêntica conversão e de conhecimento intenso do mistério de Cristo, que veio para realizar a justiça.