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segunda-feira, 26 de novembro de 2018

A viúva que deu mais que todos

       Naquele tempo, Jesus levantou os olhos e viu os ricos deitarem na arca do Tesouro as suas ofertas. Viu também uma viúva muito pobre deitar duas pequenas moedas. Então Jesus disse: "Em verdade vos digo: Esta viúva pobre deu mais do que todos os outros. Todos eles deram do que lhes sobrava; mas ela, na sua penúria, ofereceu tudo o que possuía para viver" (Lc 21, 1-4).
       Obviamente que a solidariedade não se quantifica. Também será demasiado complicado qualificar a generosidade desta ou daquela pessoa, desta ou daquela empresa. Quando alguém dá muito, podendo dar muito, beneficiará muitos. Quem dá pouco, ainda que pouco possa dar, vai beneficiar a poucos.
       Mas as contas de Jesus são de outra ordem. Ele qualifica a doação desta mulher. Os que deitam altas quantias no tesouro do templo dão muito, podem dar muito, dão do que não lhes faz falta, e dão à frente de todos para serem bem vistos. Aquela mulher, dá do que lhe faz falta. A sua oferta é genuína: tem pouco, mas quer dar uma oferenda para o tesouro do templo, ainda que lhe venha a faltar.
       Deus não nos pede impossíveis, mas na hora de ajudar, não devemos calcular, mas dar genuinamente. Deus não nos pede muito ou pouco, pede que nos demos a nós mesmos, o nosso tempo, a nossa energia, os nossos dons, ao serviço do outro.

sábado, 14 de julho de 2018

São Camilo de Lellis, Presbítero

Nota biográfica:
       Nasceu perto de Chieti (Itália) no ano 1550; seguiu primeiramente a vida militar e, quando se converteu, consagrou-se ao cuidado dos enfermos. Terminados os seus estudos e ordenado sacerdote, fundou uma Congregação destinada a erigir hospitais e a atender os doentes. Morreu em Roma no ano 1614.

Oração de coleta:
       Senhor, que dotastes São Camilo de admirável caridade para com os doentes, infundi em nós o vosso espírito de amor, para que, tendo-Vos servido nos nossos irmãos, possamos, na hora da morte, ir em paz ao vosso encontro. Por Nosso Senhor.
Da Vida de São Camilo, escrita por um seu companheiro

Servindo o Senhor nos irmãos

Começarei pela santa caridade, raiz e complemento de todas as virtudes, que era familiar a Camilo mais do que qualquer outra. Ele vivia sempre inflamado no fogo desta santa virtude, não só para com Deus, mas também para com o próximo e especialmente para com os enfermos; era tão intensa que o simples facto de ver os enfermos era bastante para se enternecer no mais íntimo do coração e esquecer por completo todas as delícias, prazeres e afectos terrenos. Quando socorria qualquer enfermo, fazia-o com tanta bondade e compaixão que parecia esgotar-se e consumir-se até ao extremo das suas forças. De bom grado aceitaria para si todos os sofrimentos deles e qualquer outro mal, para os aliviar das suas dores ou curar das doenças.
Via nos enfermos a pessoa de Cristo com tão sentida emoção que muitas vezes, quando lhes dava de comer, considerando-os em sua alma como os seus «cristos», chegava a pedir-lhes a graça e o perdão dos pecados. Por isso estava diante deles com tanto respeito como se estivesse realmente na presença do próprio Senhor. De nada falava com tanta frequência e com tanto fervor como da santa caridade. O seu desejo seria infundi-la no coração de todos os homens.
Para inflamar os seus irmãos religiosos na prática desta virtude fundamental, costumava repetir-lhes aquelas dulcíssimas palavras de Cristo: Estava enfermo e viestes Visitar-Me. Parecia que ele tinha estas palavras verdadeiramente gravadas no seu coração, tal era a frequência com que as dizia e repetia.
A caridade de Camilo era tão grande e tornava-se a todos tão evidente que acolhia na piedade e benevolência do seu coração não só os enfermos e moribundos, mas também, de modo geral, todos os outros pobres e miseráveis. Finalmente, era tão forte o seu espírito de caridade para com os indigentes que costumava dizer: «Ainda que não se encontrassem pobres no mundo, conviria que alguém se dedicasse a ir à procura deles e a encontrá-los no seio da terra, a fim de lhes fazer bem e de praticar a misericórdia».

terça-feira, 20 de março de 2018

VL - A pobreza que se transforma em amor

O protagonista da história é um mendigo. Palavras do Papa Francisco na Colômbia, retomando as palavras que dirigiu aos Bispos do México. O protagonista da história da salvação é um mendigo, é Jesus Cristo, é cada um de nós, a partir da mendicidade do amor.
Jesus é o Pobre de Nazaré, tão pobre que não tem onde reclinar a cabeça. Nada tem e por isso pode dar-Se por inteiro, sem calculismos, sem medo. O Seu Tudo é Deus. Como não tem nada pode dar-se inteiramente ao Pai, pode dar-se totalmente aos irmãos.
O “Pobre de Nazaré” é um belíssimo livro de Ignacio Larrañaga sobre Jesus, a vida de Jesus, a mensagem de Jesus. Num dos capítulos apresenta Jesus como “O pobre entre os pobres”. Facilmente percebemos que Jesus Se faz pobre para nos enriquecer com o Sua pobreza. Identifica-Se connosco. Faz-Se um de nós. Assume-nos e assume a nossa frágil condição humana. Esvazia-Se do poder divino e de tudo o que possa afastá-l’O da nossa humanidade.
O caminho da pobreza transforma-se em amor, em entrega, da própria vida. Quem nada tem nem quer ter nada, nada teme, nada tem a perder. Pode dar tudo, dar-Se todo. Ele é o Servo de Javé. É um homem livre. E de um homem livre nasce um homem disponível. Da pobreza nasce o amor, como da morte há de nascer a vida. Torna-Se servidor. Eu não vim para ser servido, mas para servir e dar a vida por todos. Quem quiser ser o primeiro seja o último e o servo de todos.
É o Servo Sofredor que Se compadece perante o sofrimento dos pobres. A primeira atitude de Jesus é a compaixão visceral, a misericórdia. Esquece-Se de Si pelos outros. A compaixão leva-O a dar passos concretos de ajuda solidária aos que vivem prisioneiros do sofrimento. Usa o seu poder para curar, para salvar, para libertar. Os ricos no Reino de Deus são os pobres, são os mendigos, para retomarmos a linguagem do Papa Francisco. São os pobres que salvam os pobres. Os que sabem da sua pobreza, que sabem mendigar amor e colocar a sua confiança em Deus, como fez Jesus, como viveu Jesus.
Os cristãos, onde quer que estejam, na vida política, social, económica, cultural, devem ser pobres ao jeito de Jesus para ajudarem sobretudo os pobres, os que sofrem, os mais frágeis da sociedade. Na proximidade das eleições, fica a pergunta para aqueles que nos assumimos como cristãos: vamos a votos para servir os pobres ou nos servirmos, enriquecendo?

terça-feira, 17 de outubro de 2017

IGNACIO LARRAÑAGA - O POBRE DE NAZARÉ

IGNACIO LARRAÑAGA (2013). O Pobre de Nazaré. O que precisamos de saber sobre Jesus. 4.ª edição. Prior Velho: Paulinas Editora. 400 páginas.
       Durante 3 anos, Jesus espalhou magia por aldeias e cidades da Galileia, fez-Se docilidade, agiu compassivamente, desafiou os grandes deste mundo, mas também os excluídos, aqueles para descobrirem a grandeza e a alegria do serviço, este para se sentirem filhos queridos de Deus, com dons que os tornariam importantes. As lideranças judaicas viram-se acossadas não apenas pelas palavras de Jesus mas sobretudo pela Sua postura. Por inveja e ciúme, porque Ele atraía multidões; por medo e cobardia, porque se sentiram ameaçados no seus postos de conforto e privilégio. Foi entregue por um dos discípulos mais próximos, Judas, preso, violentamente agredido, escarnecido, obrigado a carregar a trave da cruz, para nela ser crucificado, andou de Anás para Caifás, ridicularizado, injuriado, acusado de blasfémia e por instigar a revolução, é morto como uma assassino.
       Entretanto algo de extraordinário deverá ter acontecido, três dias depois de morto apresenta-Se vivo aos Seus discípulos, às mulheres que andavam com o grupo. Os discípulos deixam de se guiar pelo medo, para se guiarem por uma vontade indómita de anunciar Jesus, de mostrar que Ele está vivo, que morreu e ressuscitou, que o Pai não O deixou para sempre no túmulo do esquecimento, para o resgatou para uma vida nova, gloriosa, definitiva, para a qual também somos atraídos.
       A pregação "convincente" e coerente dos Apóstolos geram novos discípulos, à dezenas, às centenas, nem sempre fáceis de gerir, pois trazem interesses e motivações diversas, como ao tempo de Jesus os discípulos e as multidões que O seguiam. Formam-se grupos, comunidades, onde se escutam os Apóstolos, recordando palavras de Jesus, feitos, milagres, gestos, encontros, onde se procura manter viva a recordação de tudo quanto diz respeito a Jesus. Os Evangelhos são uma resposta a esta inquietação de preservar tudo quanto diz respeito a Jesus. Os evangelistas recolhem testemunhos, algumas orações, ou pequenos textos e colocam por escrito. Os Evangelhos, podemos dizer com segurança, são escritos pela comunidade, mais do que por um escritor individual, pois resultam da vivência da mensagem de Jesus numa determinada comunidade, num determinado contexto. Os evangelhos escritos contém as preocupações da comunidade, as suas dificuldades, os seus pontos fortes. Também aqui se pode dizer que não há comunidade sem Evangelho, a Boa Nova de Jesus, mas o Evangelho chega até nós pelo filtro e pela vivência de comunidades concretas.
       A formação dos Evangelhos tem então esta sequência, Jesus é morto e é ressuscitado pelo Pai. Os discípulos anunciam'O vivo, atraem outras a seguir Jesus, formam-se comunidades, onde se recorda tudo o que aconteceu sobretudo naqueles três anos de vida pública de Jesus. Surge a necessidade de colocar por escrito, para que não se percam as Suas palavras e não se corram o risco do esquecimento, pois também um dia os Apóstolos hão de morrer e então já não há como confrontar o que corresponde à mensagem de Jesus e o que não corresponde.
       São quatro as versões do Evangelho, mas ainda assim há muitas "lacunas" na biografia de Jesus, até porque os evangelhos não têm a preocupação de fazer biografias, mas de mostrar o essencial da mensagem de Jesus, concentrados sobretudo no mistério da morte e da ressurreição de Jesus.
       Ao longo do tempo, mas sobretudo a partir do século XVIII houve a preocupação de escrever e publicar a Vida de Jesus, onde se limassem todas as lacunas temporais, reconstituindo a vida de Jesus, tentando fazer concordar os 4 evangelhos, entrelaçando-os. Algumas vidas de Jesus desviam-se dos Evangelho e criam biografias alternativas, baseadas nos evangelhos apócrifos ou em algumas insinuações ou lendas criadas com o decorrer do tempo.
       Hoje o que há mais, e vende muito bem, são biografias alternativas à vida de Jesus.
       Ignacio Larrañaga apresenta de forma brilhante, escorreita, uma narrativa possível da vida de Jesus, tendo como base próxima os 4 evangelhos e os outros escritos neotestamentários, procurando lançar pontes com a história, com descobertas arqueológicas, com outras ciências que nos aproximam dos nossos antepassados.
       É uma escrita fácil de ler, quase se escuta a sua leitura, envolve-nos nos evangelhos, no olhar, nas palavras, nos gestos de Jesus, inclui-nos nas Palavra que também nos dirige a nós, podemos rever-nos nas perguntas que Lhe fazem ou nas respostas que lhes (nos) dá e nos desafios que lhes (nos) lança.
São 400 páginas que parecem 10, tão motivadora e empolgante é a leitura. É uma linguagem acessível para todos.
       Uma nota mais pessoal, mas que tem ganhado terreno: Judas não trai Jesus por dinheiro ou por ânsia de poder (num sentido mais pessoal), mas por zelo, querendo que Jesus Se resolva e apresse o Reino de Deus, eliminando rapidamente todos os corruptores, derrubando as autoridades estrangeiras e restabelecendo a realeza judaica. Judas acredita em Jesus e sabem que Ele vem de Deus e pode fazer mais do que aquilo que estará disposto a mostrar. Quando Jesus anuncia aos Seus discípulos que vai ser morto - contrário do que seria expectável por todos - Judas coloca-se em ação para O obrigar a agir. Judas é um dos discípulos mais próximos de Jesus. A cumplicidade de Judas com Jesus não espanta nenhum dos outros apóstolos, é natural, são bons amigos. O facto de Judas se enforcar denota o seu arrependimento, isto é, se ele fosse traidor (por dinheiro ou para usurpar o poder da liderança), então dar-se-ia por satisfeito. Segundo o autor, Judas é maníaco depressivo. Mais que traição uma tática para obrigar Jesus a ser Deus. Porém, Jesus assume o caminho da pobreza, é o Pobre de Nazaré, aprende a obediência, até à morte e morte de Cruz. Serviço, delicadeza, oferecimento da própria vida, despojamento, amor...

quinta-feira, 16 de março de 2017

O pobre Lázaro e rico avarento...

       Disse Jesus aos fariseus: «Havia um homem rico, que se vestia de linho fino e se banqueteava esplendidamente todos os dias. Um pobre chamado Lázaro jazia junto do seu portão, coberto de chagas. Bem desejava ele saciar-se com os restos caídos da mesa do rico; mas até os cães vinham lamber-lhe as chagas. Ora sucedeu que o pobre morreu e foi colocado pelos Anjos ao lado de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. Na mansão dos mortos, estando em tormentos, levantou os olhos e viu Abraão com Lázaro a seu lado. Então ergueu a voz e disse: ‘Pai Abraão, tem compaixão de mim. Envia Lázaro, para que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nestas chamas’. Abraão respondeu-lhe: ‘Filho, lembra-te que recebeste os teus bens em vida e Lázaro apenas os males. Por isso, agora ele encontra-se aqui consolado, enquanto tu és atormentado. Além disso, há entre nós e vós um grande abismo, de modo que, se alguém quisesse passar daqui para junto de vós, não poderia fazê-lo’. O rico exclamou: ‘Então peço-te, ó pai, que mandes Lázaro à minha casa paterna – pois tenho cinco irmãos – para que os previna, a fim de que não venham também para este lugar de tormento’. Disse-lhe Abraão: ‘Eles têm Moisés e os Profetas: que os oiçam’. Mas ele insistiu: ‘Não, pai Abraão. Se algum dos mortos for ter com eles, arrepender-se-ão’. Abraão respondeu-lhe: ‘Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, também não se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dos mortos’» (Lc 16,19-31).
       Esta parábola de Jesus é ainda mais provocante e significativa nos dias que correm.
       Em todos os tempos, é visível a dicotomia entre os que mandam e os que obedecem, os que têm e os que nada têm, os que vivem abastadamente e os que vivem na indigência.
       Ao tempo de Jesus, existiam os homens livres e os escravos. Uns viviam regaladamente em seus palácios, subjugando súbditos, gozando a vida, dando largas a todos os luxos, vivendo faustosamente, sem se importarem dos que viviam na miséria, não porque não tivessem feito por isso, mas simplesmente porque eram de outra classe e não tinham direito a almejar por melhores condições de vida. Um fosso gigantesco, determinado por nascimento. Quem nascia em família pobre, seria sempre pobre; quem nascesse em berço de ouro, viveria sempre na abundância, a não ser que acontecesse alguma desgraça.
       No nosso tempo, o fosso entre ricos e pobres, entre magnatas e pedintes, alargou-se, muitas vezes não pelo mérito dos primeiros, mas pelo trabalho e inteligência dos segundos. Não está em causa a criação de riqueza, quando resulta do trabalho honesto e recompensa uns e outros, patrões e trabalhadores. O problema é quando a riqueza se faz à custa dos mais pobres, dos que trabalham, dos malabarismos corruptos, da desonestidade. Por isso também se verifica que há cada vez um fosso maior, mas também que há cada vez mais pobres e uma crescente concentração de riqueza num número cada vez mais reduzido de pessoas e de empresas.
       Em tempo de crise vem ao de cima a fragilidade das economias que procuram satisfazer apenas o lucro esquecendo as pessoas e as famílias. Faltou a aposta na formação, habilitação e (re)qualificação) - daria menos lucro -, no investimento em novos produtos, na modernização de equipamentos e gestão, na reconversão de empresas, na promoção do melhor que havia e há nas empresas: as pessoas.
       Certamente que Jesus, naquele e neste tempo, não diaboliza a economia ou a riqueza, mas enquadra-a num contexto mais amplo. A pessoa há-de estar em primeiro lugar. A economia não é um fim em si mesmo, deve estar ao serviço da pessoa, da sua dignidade, do seu desenvolvimento.
       E ainda que por vezes a pobreza se tenha tornado endémica - "pobres sempre os tereis" -, a responsabilidade dos cristãos é permanente, procurar viver solidariamente como irmãos, partilhar com os mais desfavorecidos, não apenas os bens materiais, mas os valores, a cultura, os bens intelectuais e espirituais, lembrando aqui o provérbio japonês: não se deve dar o peixe, mas deve dar-se a cana e ensinar a pescar. Obviamente, que num primeiro momento é necessário também prover ao alimento e aos bens materiais essenciais, dar o peixe e a cana, ensinar a pescar...

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

VL – Santa Mãe dos Pobres

       Madre Teresa de Calcutá nasceu a 26 de agosto de 1910, em Skopje, na Albânia. O nome de batismo é Agnes (Inês). Com 18 anos foi para a Irlanda, tornando-se irmã de Loreto. Em 1928 foi para a Índia, a fim de ensinar (geografia e religião) no colégio de St. Mary, em Entally, Calcutá. Em 1946, sente a "vocação dentro da vocação", para sair ao encontro dos mais pobres dos pobres, daqueles que ninguém quer. Pouco depois solicita ao Vaticano autorização para fundar uma nova Congregação, as Irmãs da Caridade. Até à sua morte entregar-se-á inteiramente a Jesus Cristo no cuidado dos mais desfavorecidos.
       Beatificada por João Paulo II em 19 de outubro de 2003.
       Canonizada por Francisco em 4 de setembro de 2016.
       Partindo de Cristo… "Pela minha missão, pertenço a todo o mundo, mas o meu coração pertence a Jesus Cristo... Quando olhamos para a cruz, compreendemos a grandeza do Seu amor. Quando olhamos para a manjedoira compreendemos a ternura do Seu amor por ti e por mim, pela tua família e por cada família... Nunca estejais tristes. Sorri, pelo menos, cinco vezes por dia. Basta um sorriso, um bom-dia, um gesto de amizade. Fazei pequenas coisas com grande amor... Muitos de vós, antes de partir, vão pedir-me autógrafos. Seria melhor que vos aproximasses de um pobre e, através dele, pudésseis encontrar o autógrafo de Cristo".
       Na oração e na intimidade com Deus, a ousadia para servir os enjeitados deste mundo. «Reza como se tudo dependesse de Deus e age como se tudo dependesse de ti... A verdadeira santidade consiste em fazer a vontade de Deus com um sorriso... É fácil sorrir às pessoas que estão fora da nossa casa. É fácil cuidar das pessoas que não se conhecem bem. É difícil ser sempre solícito e delicado e sorridente e cheio de amor em casa, com os familiares, dia após dia, especialmente quando estamos cansados e irritados. Todos nós temos momentos como estes e é precisamente então que Cristo vem ter connosco vestido de sofrimento».
       O mundo precisa de Deus. E precisa de nós para levarmos Deus aos mais pobres. «Eu sou um lápis nas mãos de Deus. Ele usa-me para escrever o que quer... Demo-nos conta que o que fazemos é apenas uma gota no oceano. Mas sem essa gota, faltaria alguma coisa no oceano. Sejamos capazes de amar uma só pessoa de cada vez, de servir uma pessoa de cada vez... Jesus é o meu tudo. A minha plenitude».

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4377, de 6 de setembro de 2016

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Catequese de Bento XVI sobre São Francisco de Assis


Queridos irmãos e irmãs,

Numa catequese recente, já ilustrei o papel providencial que a Ordem dos Frades Menores e a Ordem dos Padres Pregadores, fundadas respectivamente por São Francisco de Assis e por São Domingos de Gusmão, tiveram na renovação da Igreja do seu tempo. Hoje gostaria de vos apresentar a figura de Francisco, um autêntico "gigante" da santidade, que continua a fascinar muitíssimas pessoas de todas as idades e religiões.

"Nasceu no mundo um sol". Com estas palavras, na Divina Comédia (Paraíso, Canto XI), o sumo poeta italiano Dante Alighieri alude ao nascimento de Francisco, ocorrido entre o final de 1181 e o início de 1182, em Assis. Pertencente a uma família rica – o pai era comerciante de tecidos –Francisco transcorreu uma adolescência e uma juventude tranquilas, cultivando os ideais cavalheirescos da época. Com vinte anos participou numa campanha militar, e foi aprisionado. Adoeceu e foi libertado. Depois do regresso a Assis, começou nele um lento processo de conversão espiritual, que o levou a abandonar gradualmente o estilo de vida mundano, que tinha praticado até então. Remontam a esta época os célebres episódios do encontro com o leproso, ao qual Francisco, descendo do cavalo, deu o ósculo da paz, e da mensagem do Crucifixo na pequena Igreja de São Damião. Três vezes Cristo na Cruz se animou, e disse-lhe: "Vai, Francisco, e repara a minha Igreja em ruínas". Este simples acontecimento da palavra do Senhor ouvida na igreja de São Damião esconde um simbolismo profundo. Imediatamente São Francisco é chamado a reparar esta pequena igreja, mas o estado de ruínas deste edifício é símbolo da situação dramática e preocupante da própria Igreja naquele tempo, com uma fé superficial que não forma e não transforma a vida, com um clero pouco zeloso, com o refrear-se do amor; uma destruição interior da Igreja que implica também uma decomposição da unidade, com o nascimento de movimentos heréticos. Contudo, no centro desta Igreja em ruínas está o Crucifixo e fala: chama à renovação, chama Francisco a um trabalho manual para reparar concretamente a pequena igreja de São Damião, símbolo da chamada mais profunda a renovar a própria Igreja de Cristo, com a sua radicalidade de fé e com o seu entusiasmo de amor a Cristo. Este acontecimento, que aconteceu provavelmente em 1205, faz pensar noutro evento semelhante que se verificou em 1207: o sonho do Papa Inocêncio III. Ele vê em sonhos que a Basílica de São João de Latrão, a igreja-mãe de todas as igrejas, está a desabar e um religioso pequeno e insignificante ampara com os seus ombros a igreja para que não caia. É interessante notar, por um lado, que não é o Papa quem dá ajuda para que a igreja não desabe, mas um religioso pequeno e insignificante, que o Papa reconhece em Francisco que o visita. Inocêncio III era um Papa poderoso, de grande cultura teológica, assim como de grande poder político, contudo não é ele quem renova a Igreja, mas um religioso pequeno e insignificante: é São Francisco, chamado por Deus. Por outro lado, é importante observar que São Francisco não renova a Igreja sem ou contra o Papa, mas em comunhão com ele. As duas realidades caminham juntas: o Sucessor de Pedro, os Bispos, a Igreja fundada na sucessão dos Apóstolos e o carisma novo que o Espírito Santo cria neste momento para renovar a Igreja. Ao mesmo tempo, cresce a verdadeira renovação.

Voltemos à vida de São Francisco. Dado que o pai Bernardone lhe reprovava a demasiada generosidade para com os pobres, Francisco, diante do Bispo de Assis, com um gesto simbólico despojou-se das suas roupas, com a intenção de renunciar assim à herança paterna: como no momento da criação, Francisco nada possui, mas só a vida que Deus lhe doou, em cujas mãos ele se entrega. Depois, viveu como um eremita, até quando, em 1208, teve lugar outro acontecimento fundamental no itinerário da sua conversão. Ouvindo um trecho do Evangelho de Mateus – o sermão de Jesus aos Apóstolos enviados em missão – Francisco sentiu-se chamado a viver na pobreza e a dedicar-se à pregação. Outros companheiros se uniram a ele, e em 1209 veio a Roma, para submeter ao Papa Inocêncio III o projecto de uma nova forma de vida cristã. Recebeu um acolhimento paterno daquele grande Pontífice que, iluminado pelo Senhor, intuiu a origem divina do movimento suscitado por Francisco. O Pobrezinho de Assis tinha compreendido que cada carisma doado pelo Espírito Santo deve ser colocado ao serviço do Corpo de Cristo, que é a Igreja; portanto agiu sempre em plena comunhão com a autoridade eclesiástica. Na vida dos santos não há contraste entre carisma profético e carisma de governo e, se surge alguma tensão, eles sabem esperar com paciência os tempos do Espírito Santo.

Na realidade, alguns historiadores no século XIX e também no século passado procuraram criar por detrás do Francisco da tradição, um chamado Francisco histórico, assim como se procura criar por detrás do Jesus dos Evangelhos, um chamado Jesus histórico. Este Francisco histórico não teria sido um homem de Igreja, mas um homem relacionado imediatamente só com Cristo, um homem que queria criar uma renovação do povo de Deus, sem formas canónicas nem hierarquia. A verdade é que São Francisco teve realmente uma relação muito imediata com Jesus e com a palavra de Deus, que queria seguir sine glossa, tal qual é, em toda a sua radicalidade e verdade. É também verdade que inicialmente ele não tinha a intenção de criar uma Ordem com as formas canónicas necessárias mas, simplesmente, com a palavra de Deus e com a presença do Senhor, ele desejava renovar o povo de Deus, convocá-lo de novo para a escuta da palavra e para a obediência verbal com Cristo. Além disso, sabia que Cristo nunca é "meu", mas é sempre "nosso", que não posso tê-lo "eu" e reconstruir "eu" contra a Igreja, a sua vontade e o seu ensinamento, mas só na comunhão da Igreja construída sobre a sucessão dos Apóstolos é que se renova também a obediência à palavra de Deus.

É também verdade que não tinha a intenção de criar uma nova ordem, mas apenas de renovar o povo de Deus para o Senhor que vem. Mas compreendeu com sofrimento e dor que tudo deve ter a sua ordem, que também o direito da Igreja é necessário para dar forma à renovação e assim inseriu-se realmente de modo total, com o coração, na comunhão da Igreja, com o Papa e com os Bispos. Sabia sempre que o centro da Igreja é a Eucaristia, na qual o Corpo de Cristo e o seu Sangue se tornam presentes. Através do Sacerdócio, a Eucaristia é a Igreja. Onde caminham juntos Sacerdócio de Cristo e comunhão da Igreja, então ali habita também a palavra de Deus. O verdadeiro Francisco histórico é o Francisco da Igreja e precisamente deste modo fala também aos não-crentes, aos fiéis de outras confissões e religiões.

Francisco e os seus frades, cada vez mais numerosos, estabeleceram-se na Porciúncula, ou igreja de Santa Maria dos Anjos, lugar sagrado por excelência da espiritualidade franciscana. Também Clara, uma jovem de Assis, de família nobre, se pôs na escola de Francisco. Assim, teve origem a Segunda Ordem franciscana, a das Clarissas, outra experiência destinada a dar frutos insignes de santidade na Igreja.

Também o sucessor de Inocêncio III, Papa Honório III, com a sua bula Cum dilecti de 1218 apoiou o singular desenvolvimento dos primeiros Frades Menores, que iam abrindo as suas missões em diversos países da Europa, e até em Marrocos. Em 1219 Francisco obteve a autorização para ir falar, no Egipto, com o sultão muçulmano Melek-el-Kamel, para pregar também ali o Evangelho de Jesus. Desejo ressaltar este episódio da vida de São Francisco, que tem uma grande actualidade. Numa época na qual se estava a verificar um confronto entre o Cristianismo e o Islão, Francisco, intencionalmente armado só com a sua fé e com a sua mansidão pessoal, percorreu com eficácia o caminho do diálogo. As crónicas falam-nos de um acolhimento benévolo e cordial recebido do sultão muçulmano. É um modelo no qual também hoje se deveriam inspirar as relações entre cristãos e muçulmanos: promover um diálogo na verdade, no respeito recíproco e na compreensão mútua (cf. Nostra aetate, 3). Parece depois que em 1220 Francisco visitou a Terra Santa, lançando assim uma semente, que teria dado muito fruto: de facto, os seus filhos espirituais fizeram dos Lugares nos quais Jesus viveu um âmbito privilegiado da sua missão. Com gratidão penso hoje nos grandes méritos da Custódia franciscana da Terra Santa.
Tendo regressado à Itália, Francisco entregou o governo da Ordem ao seu vigário, frei Pedro Cattani, enquanto o Papa confiou à protecção do Cardeal Ugolino, futuro Sumo Pontífice Gregório IX, a Ordem, que contava cada vez mais adeptos. Por seu lado o Fundador, totalmente dedicado à pregação que desempenhava com grande sucesso, redigiu uma Regra, depois aprovada pelo Papa.

Em 1224, na ermida de La Verna, Francisco vê o Crucificado na forma de um serafim e do encontro com o serafim crucificado, recebeu os estigmas; ele torna-se assim um com Cristo crucificado: um dom que expressa a sua íntima identificação com o Senhor.
A morte de Francisco – o seu transitus – aconteceu na noite de 3 de Outubro de 1226, na Porciúncula.

Depois de ter abençoado os seus filhos espirituais, ele faleceu, estendido no chão nu. Dois anos mais tarde, foi construída em sua honra uma grande basílica em Assis, que ainda hoje é meta de muitíssimos peregrinos, que podem venerar o túmulo do santo e gozar da visão dos afrescos de Giotto, pintor que ilustrou de modo magnífico a vida de Francisco.

Foi dito que Francisco representa um alter Christus, que era verdadeiramente um ícone vivo de Cristo. Ele foi chamado também "o irmão de Jesus". De facto, era este o seu ideal: ser como Jesus; contemplar o Cristo do Evangelho, amá-lo intensamente, imitar as suas virtudes. Em particular, ele quis dar um valor fundamental à pobreza interior e exterior, ensinando-a também aos filhos espirituais. A primeira bem-aventurança do Sermão da Montanha – bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus (Mt 5, 3) – encontrou uma luminosa realização na vida e nas palavras de São Francisco. Deveras, queridos amigos, os santos são os melhores intérpretes da Bíblia; eles, encarnando na sua vida a Palavra de Deus, tornam-na atraente como nunca, de modo que fala realmente connosco. O testemunho de Francisco, que amou a pobreza para seguir Cristo com dedicação e liberdade totais, continua a ser também para nós um convite a cultivar a pobreza interior para crescer na confiança em Deus, unindo também um estilo de vida sóbrio e um desapego dos bens materiais.

Em Francisco o amor a Cristo expressou-se de modo especial na adoração do Santíssimo Sacramento da Eucaristia. Nas Fontes franciscanas lêem-se expressões comovedoras, como esta: "Toda a humanidade tema, o universo inteiro trema e o céu exulte, quando no altar, na mão do sacerdote, está Cristo, o Filho do Deus vivo. Ó favor maravilhoso! Ó sublimidade humilde, que o Senhor do universo, Deus e Filho de Deus, a tal ponto se humilhe que se esconda para a nossa salvação, sob uma modesta forma de pão" (Francisco de Assis, Escritos, Editrici Franciscane, Pádua 2002, 401).

Neste ano sacerdotal, apraz-me recordar também uma recomendação dirigida por Francisco aos sacerdotes: "Quando quiserem celebrar a Missa, puros de modo puro, façam com reverência o verdadeiro sacrifício do santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo" (Francisco de Assis, Escritos, 399). Francisco mostrava sempre uma grande deferência em relação aos sacerdotes, e recomendava que fossem sempre respeitados, também no caso de serem pessoalmente pouco dignos. Dava como motivação deste profundo respeito o facto de que eles receberam o dom de consagrar a Eucaristia. Queridos irmãos no sacerdócio, nunca esqueçamos este ensinamento: a santidade da Eucaristia pede que sejamos puros, que vivamos de modo coerente com o Mistério que celebramos.

Do amor a Cristo nasce o amor às pessoas e também a todas as criaturas de Deus. Eis outra característica da espiritualidade de Francisco: o sentido da fraternidade universal e o amor pela criação, que lhe inspirou o célebre Cântico das criaturas. É uma mensagem muito atual. Como recordei na minha recente Encíclica Caritas in veritate, só é sustentável um desenvolvimento que respeite a criação e que não danifique o meio ambiente (cf. nn. 48-52) e na Mensagem para o Dia Mundial da Paz deste ano ressaltei que também a construção de uma paz sólida está relacionada com o respeito da criação. Francisco recorda-nos que na criação se manifesta a sabedoria e a benevolência do Criador. A natureza é entendida por ele precisamente como uma linguagem na qual Deus fala connosco, na qual a realidade se torna transparente e nós podemos falar de e com Deus.

Queridos amigos, Francisco foi um grande santo e um homem jubiloso. A sua simplicidade, a sua humildade, a sua fé, o seu amor a Cristo, a sua bondade para cada homem e mulher fizeram-no feliz em todas as situações. De facto, entre a santidade e a alegria subsiste uma relação íntima e indissolúvel. Um escritor francês disse que no mundo só existe uma tristeza: a de não ser santo, isto é, de não estar próximo de Deus. Olhando para o testemunho de São Francisco, compreendemos que é este o segredo da verdadeira felicidade: tornar-nos santos, próximos de Deus!

Que a Virgem, ternamente amada por Francisco, nos obtenha este dom. Confiemo-nos a ela com as mesmas palavras do Pobrezinho de Assis: "Santa Maria Virgem, não existe outra semelhante a ti nascida no mundo entre as mulheres, filha e escrava do altíssimo Rei e Pai celeste, Mãe do nosso santíssimo Senhor Jesus Cristo, esposa do Espírito Santo: interceda por nós... junto do teu santíssimo e dilecto Filho, Senhor e Mestre" (Francisco de Assis, Escritos, 163).

sábado, 24 de setembro de 2016

XXVI Domingo do Tempo Comum - ano C - 25.09.2016

       1 – O que nos distancia de Jesus Cristo e do Seu Evangelho não são os bens materiais, mas a ganância, a avareza, a prepotência, a sobranceria, a autossuficiência, a presunção, a soberba. Tudo o que nos afasta dos outros afasta-nos de Deus.
       O contrário da pobreza de espírito não é a riqueza material mas a avareza. E aqui há cenários variados. Há pobres avarentos, que só não têm tudo porque não podem ou não têm nem inteligência nem ousadia para ultrapassar os outros. Há pobres que são generosos, simples, despojados e até o pouco que têm dá para ajudar os outros, sentindo-se felizes por ajudar, se não com bens, com o tempo, a criatividade e a alegria que preenche as suas vidas. Há ricos avaros, "chupam" tudo quanto lhes é possível, sem olhar a meios, contornando leis, com toda a espécie de maquinações para passarem a perna a todos. Há ricos, cuja riqueza material é fruto do trabalho honesto, esforçado, dedicado, e que lhes permite gerar riqueza, criar emprego, promover maior comodidade para as pessoas e para as empresas; beneficiam dos próprios bens e alargam os benefícios para os outros e para a sociedade.
       A parábola de Jesus responsabiliza-nos com os mais pobres. Refira-se uma vez mais que Jesus não está a falar para o vizinho. É para mim. É para ti. É para nós. Não nos é pedido o impossível. É-nos exigido o máximo, o melhor de nós mesmos. Umas vezes ajudando diretamente, outras envolvendo as pessoas ou as entidades que podem e devem ajudar.
       Jesus contesta o homem rico não pela riqueza que possui mas pela sua cegueira e egoísmo, pela incapacidade de sair do seu castelo e compartir a vida com os outros.
       2 – A descrição do homem rico e do pobre Lázaro, o contraste gritante que existe entre ambos e o muro levantado que protege um e deixa o outro na rua, é visível na atualidade. Também hoje convivem lado a lado a miséria e a opulência, a degradação humana e o luxo escandaloso. Em sociedades democráticas – todos deveriam ter os mesmos direitos, sendo que o exercício dos mesmos precisa de condições prévias –, os governos, por vezes, protegem apenas os poderosos e esquecem-se dos pobres.
         Do homem rico não se conhece o nome. Pode ser qualquer um de nós. Por outro lado, mais que apontar nomes, importa denunciar situações de injustiça e prepotência. Vestia de púrpura e linho fino e banqueteava-se esplendidamente todos os dias, fechado dentro dos portões, alheio ao sofrimento dos outros, alguns bem perto, do lado de fora, impedidos de entrar.
       Um pobre, chamado Lázaro. O nome já diz da sua pobreza. Os pobres não podem ser números. Não servem para usar como arma de arremesso. Não contam apenas por ocasião das eleições. Têm nome e têm rosto. E ainda hoje há tantos Lázaros, excluídos, sem casa, sem pão, sem família. Este jazia junto ao portão do homem rico, e estava coberto de chagas. À pobreza acresce a repugnância das chagas. A pobreza gera pobreza. Não pede muito, apenas as migalhas que caem da mesa do rico. Mas nem a migalhas lhe são permitidas. Se te fixares perto do riacho poderá suceder que a fertilidade das margens de beneficiem e te garantam algum alimento. Mas aqui a proximidade é apenas física e está vedada por um muro e um portão. Bem se pode dizer que por vezes os animais nos ensinam a ser mais humanos, sem absolutizar. Como tem acentuado o Papa Francisco, é um paradoxo escandaloso a defesa intransigente dos animais e o desprezo ou a indiferença diante de um ser humano.
        A descrição feita por Jesus bem pode encaixar nas sociedades modernas. É o mundo em que vivemos. Limitado e finito. Não estamos no Céu, daí as imperfeições. Mas...
        3 – Mas o que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos é a Mim que o fazeis. A salvação é uma garantia de Deus, dom gratuito. A morte e a ressurreição de Jesus agrafa-nos à eternidade de Deus. Assumindo por inteiro o nosso pecado e a nossa fragilidade, Jesus colocou a nossa natureza humana na glória do Pai, onde Ele já Se encontra. Mas cabe-nos acolher a Sua salvação fazendo com que chegue a todos e se expanda cada vez mais.
       O que fizermos agora tem consequências amanhã. As escolhas do tempo influenciam a inserção na vida eterna. Qual efeito borboleta: segundo a teoria do caos, o bater das asas de uma borboleta em Portugal poderá provocar um terramoto do outro lado da terra.
       O relato da parábola continua: «O pobre morreu e foi colocado pelos Anjos ao lado de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. Na mansão dos mortos, estando em tormentos, levantou os olhos e viu Abraão com Lázaro a seu lado».
       Curiosa esta última afirmação. Finalmente este homem rico viu Lázaro. Antes não o tinha visto. A ganância e a superioridade presunçosa cegaram-no. Só se preocupava consigo, com o seu umbigo. Um pobre ali tão perto, junto ao portão, do lado de fora, a padecer, e não foi capaz de o ver e de o ajudar. Agora tão longe, e como as situações se inverteram exponencialmente, já o vê e até deseja que Lázaro, enviado por Abraão, possa vir, entrar, aliviar o seu sofrimento. Enquanto podia alterar as coisas, modificar positivamente a vida, esqueceu-se dos outros. Agora que tudo está concluído quer alterar as regras do jogo, em seu benefício e dos seus, servindo-se de Lázaro a quem não serviu com os seus bens!
       4 – Na continuação da parábola, a insistência do rico: «Então peço-te, ó pai, que mandes Lázaro à minha casa paterna – pois tenho cinco irmãos – para que os previna, a fim de que não venham também para este lugar de tormento».
       Abraão põe-nos de sobreaviso: «Eles têm Moisés e os Profetas: que os oiçam... Se não dão ouvidos a Moisés nem aos Profetas, também não se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dos mortos».
       Mais que nos preocuparmos com o desfecho final, que a Deus confiamos, importa, no tempo presente, aqui e agora – não amanhã ou depois, não em outro lugar ou circunstâncias, mas no concreto dos nossos dias – viver o melhor, gastando a vida em favor de todos os que Deus coloca à nossa beira, testemunhando a beleza e a alegria da Boa Nova que Jesus nos traz com a Sua vida e com a oferenda de Si mesmo. E, como podemos constatar, Jesus ressuscitou dos mortos e, no entanto, ainda são muitos os que O desconhecem, os que não acreditam, os que vivem como se Ele não existisse.

       5 – A certeza que Deus Se coloca ao lado dos mais desfavorecidos deve levar-nos a agir do mesmo modo. "O Senhor faz justiça aos oprimidos, dá pão aos que têm fome e a liberdade aos cativos. O Senhor ilumina os olhos dos cegos, o Senhor levanta os abatidos, o Senhor ama os justos".
       Já o Profeta Amós revelava a vontade de Deus: «Ai daqueles que vivem comodamente em Sião e dos que se sentem tranquilos no monte da Samaria. Deitados em leitos de marfim, estendidos nos seus divãs, comem os cordeiros do rebanho e os vitelos do estábulo. Improvisam ao som da lira e cantam como David as suas próprias melodias. Bebem o vinho em grandes taças e perfumam-se com finos unguentos, mas não os aflige a ruína de José. Por isso, agora partirão para o exílio à frente dos deportados e acabará esse bando de voluptuosos».
       Amós faz eco da destruição do tecido social, cultural e religioso do povo judeu e que se iniciou com a displicência daqueles que tinham responsabilidade de guiar, cuidar, integrar, provendo à união e preparando o próprio povo para se defender dos ataques exteriores. Enquanto se banqueteavam, foram dispersados, assaltados, expulsos de casa e da pátria. Não nos cabe fazer juízo de valor definitivo, instrumentalizando o texto, concluindo que a destruição do povo tenha sido consequência do mau proceder dos seus líderes e, neste propósito, castigo de Deus. Mas, ainda assim, é fácil verificar que o egoísmo e o individualismo conduzem ao conflito, à rutura, à destruição dos laços sociais. Por outro lado, a união faz a força e a cooperação, a solidariedade e a partilha, a entreajuda e a justiça social, equilibram e fortalecem as comunidades.

       6 – São Paulo, na segunda leitura, ao dirigir-se a Timóteo, dita recomendações para os discípulos de Jesus. Hoje é para nós que fala, para mim e para ti: «Tu, homem de Deus, pratica a justiça e a piedade, a fé e a caridade, a perseverança e a mansidão. Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual foste chamado e sobre a qual fizeste tão bela profissão de fé perante numerosas testemunhas. Guarda o mandamento do Senhor, sem mancha e acima de toda a censura, até à aparição de Nosso Senhor Jesus Cristo, a qual manifestará a seu tempo... A Ele a honra e o poder eterno».
       Também em São Paulo se pode atestar que a vida eterna se inicia agora na prática da caridade, da justiça, da mansidão, no cumprimento do mandato de Jesus Cristo, imitando-O, sabendo que só Ele nos garante o futuro, porém, conta connosco para transformar o presente do mundo e da história.
       Auxiliemo-nos mutuamente, a começar na oração: "Senhor, que dais a maior prova do vosso poder quando perdoais e Vos compadeceis, derramai sobre nós a vossa graça, para que, correndo prontamente para os bens prometidos, nos tornemos um dia participantes da felicidade celeste".
       Rezando, tomando consciência dos nossos limites e da grandeza da misericórdia de Deus, dilatando o nosso coração e o nosso compromisso com os outros que connosco formam a família de Deus.


Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia (C): Am 6, 1a. 4-7; Sl 145 (146); 1 Tim 6, 11-16; Lc 16, 19-31.

sábado, 7 de novembro de 2015

XXXII Domingo do Tempo Comum - ano B - 8.11.2015

       1 – Quando o pouco é tudo e quando o muito é insignificante!
       A vida não é quantificável pela quantidade, mas qualificável pela qualidade, pela intensidade, pelos momentos que fazem a história de uma pessoa, de uma família, de uma comunidade. Há vidas cronologicamente longas que se resumem a muito pouco, sem marcas relevantes na história; há vidas cronologicamente curtas em que são precisas muitas páginas e muitas vidas para absorver tudo o que foi vivido e cuja herança humana perdura para lá do tempo presente.
       Do mesmo jeito a generosidade. Não é comensurável em cálculos matemáticos, mas visualizável no envolvimento da pessoa naquilo que dá: está totalmente comprometida com o que dá e a quem dá? Ou é apenas um descargo de consciência? Ou um gesto mecânico de tradição?
       Jesus – segundo São Marcos – colocou-se em frente da arca do tesouro e observa que muito ricos deitam com ostentação avultadas quantias. Aproxima-se uma viúva (pobre) e deita duas pequenas moedas. Antes Jesus alertava-nos: «Acautelai-vos dos escribas, que gostam de exibir longas vestes, de receber cumprimentos nas praças, de ocupar os primeiros assentos nas sinagogas e os primeiros lugares nos banquetes. Devoram as casas das viúvas, com pretexto de fazerem longas rezas».
       Aqueles que tinham a obrigação moral de zelar por todos e sobretudo pelos mais pobres, entre os quais se contavam viúvas e os órfãos, ocupam os lugares para se servirem e usarem de diversas artimanhas para explorar as pessoas mais simples.
       Atento ao gesto daquela viúva pobre, Jesus diz aos seus discípulos: «Em verdade vos digo: Esta pobre viúva deitou na caixa mais do que todos os outros. Eles deitaram do que lhes sobrava, mas ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver».
       O próprio Jesus explica por que é que aquela mulher dando tão pouco deu tanto, deu muito mais que outros. Dizia a Madre Teresa de Calcutá, que "o amor, para ser verdadeiro, tem de doer. Não basta dar o supérfluo a quem necessita, é preciso dar até que isso nos machuque... o importante não é o que se dá, mas o amor com que se dá”. De forma semelhante relembrava o Papa Francisco: "Não esqueçamos que a verdadeira pobreza dói: não seria válido um despojamento sem esta dimensão penitencial. Desconfio da esmola que não custa nem dói" (Mensagem para a Quaresma, 2014).
       2 – Elias, um dos profetas mais ilustres do povo eleito, experimenta a generosidade e a grande fé de um pobre viúva, que na míngua de bens, se prepara, juntamente com o filho, para se entregar à morte.
       Seguindo a Palavra de Deus, Elias afasta-se de Israel, povo ao qual pertence e que se encontra sujeito a um tempo de provação e purificação por se ter afastado de Deus. Elias refugia-se em Sarepta, cidade da Fenícia, onde será acolhido por uma viúva, que sobrevive à custa das esmolas, cada vez mais escassas em tempo de fome, pelo que lhe soa estranho o pedido de Elias: «Por favor, traz-me uma bilha de água para eu beber... Por favor, traz-me também um pedaço de pão».
       Começa a desenhar-se um tempo novo em que a confiança em Deus prevalece além das dificuldades atuais. Responde-lhe a mulher: «Tão certo como estar vivo o Senhor, teu Deus, eu não tenho pão cozido, mas somente um punhado de farinha na panela e um pouco de azeite na almotolia. Vim apanhar dois cavacos de lenha, a fim de preparar esse resto para mim e meu filho. Depois comeremos e esperaremos a morte».
       Certo da promessa de Deus, Elias replica: «Não temas; volta e faz como disseste. Mas primeiro coze um pãozinho e traz-mo aqui. Depois prepararás o resto para ti e teu filho. Porque assim fala o Senhor, Deus de Israel: ‘Não se esgotará a panela da farinha, nem se esvaziará a almotolia do azeite, até ao dia em que o Senhor mandar chuva sobre a face da terra’».
       Genericamente sabemos que contamos sobretudo com a generosidade daqueles e daquelas que passaram ou passam privações, pois sabem melhor o que custa a vida. Refira-se, obviamente, que a pobreza (espiritual) autêntica é, antes de mais, a abertura a Deus e a disponibilidade para cuidar do outro, usando a vida, os dons e os bens, como instrumento beneficente de todos.
       3 – A Deus não escapa o mais pequeno gesto de amor. Nem um copo de água dado em Seu nome ficará sem recompensa (cf. Mt 10, 42).
       Aquela viúva fez conforme Elias lhe pediu. Sentaram-se juntos para comer a mãe e o filho e o profeta. O profeta comprova a promessa de Deus através daquela família que o acolhe, o guarda, protege e o alimenta. E por sua vez, a viúva de Sarepta, com o seu filho, pode comprovar a fidelidade de Deus que não lhe faltará em tempos de carestia. Desde que Elias chegou que não se esgotou nem a farinha nem o azeite.
       Deus não falta àqueles que n'Ele põem a sua confiança.
       A vida, porém, coloca-nos diante de tantas encruzilhadas que em alguns momentos não percebemos de que forma Deus nos manifesta o Seu amor. Na dúvida, prossigamos com o nosso compromisso com os outros. Reconhecendo a nossa pobreza (espiritual), abramo-nos à graça de Deus, deixemos que através de nós Deus chegue a todos e especialmente aos mais frágeis.
       O Salmo com que respondemos à Palavra de Deus fala-nos da atenção que merecem os mais desfavorecidos. O proceder de Deus há de conduzir-nos a agir do mesmo jeito, com o mesmo amor, a mesma delicadeza, a mesma misericórdia. «O Senhor faz justiça aos oprimidos, dá pão aos que têm fome e a liberdade aos cativos. O Senhor ilumina os olhos do cego, levanta os abatidos, ama os justos. O Senhor protege os peregrinos, ampara o órfão e a viúva e entrava o caminho aos pecadores».
       "Eu bem vi a opressão do meu povo... e ouvi o seu clamor... conheço os seus sofrimentos" (Ex 3, 7). "Quando um pobre invoca o Senhor, Ele atende-o e liberta-o das suas angústias" (Sl 34, 7). Deus desce ao Egipto para libertar o povo da opressão e fá-lo por intermédio de Moisés. Deus age na história atual e faz-Se presente aos mais pobres contando connosco: o que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmão a Mim o fareis (cf. Mt 25, 40).

       4 – Jesus Cristo, sendo rico, fez-Se pobre para nos enriquecer com a Sua pobreza (cf. 2 Cor 8,9). Aquela viúva, que na sua penúria, deu tudo quanto tinha, para que o Templo continuasse a ser lugar de encontro com Deus. A viuvez feminina era habitualmente acompanhada com a pobreza, a não ser que tivesse filhos homens, um segundo casamento, ou a família fosse generosa e a acolhesse. Uma e outra viúva confiam em Deus. Pobres, dão o que têm. A viúva depende das esmolas e ainda assim dá do que recebe. E quem dá do que lhe dão é amigo de coração.
       Ora Deus dá-nos o melhor que tem para nos dar, o Seu próprio filho.
       Em Cristo, Deus faz-Se um de nós e oferece-Se por nós. Vem do Céu, vem de Deus, «Cristo não entrou num santuário feito por mãos humanas, figura do verdadeiro, mas no próprio Céu, para Se apresentar agora na presença de Deus em nosso favor».
       Como Sumo-sacerdote, Jesus oferece-Se de uma vez para sempre. Chegada a plenitude dos tempos, destrói o pecado, sacrificando-Se a Si mesmo. Não oferece sacrifícios, oferece-Se, tomando sobre Si os pecados da multidão para a todos nos salvar. Esta é a fonte de toda a caridade e de todo o bem. Como seus seguidores, iluminados pela viúva de Sarepta e pela viúva do Evangelho, a certeza que não basta darmos, será sempre inevitável darmo-nos, entregarmo-nos, colocarmos o melhor de nós mesmos na atenção e no cuidado aos outros.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (B): 1 Reis 17, 10-16; Sl 145 (146); Hebr 9, 24-28; Mc 12, 38-44.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

FRANCISCO: misérias sociais que afetam as famílias

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Nestas quartas-feiras temos refletido sobre família e sigamos adiante neste tema, refletir sobre família. E a partir de hoje, as nossas catequeses se abrem, com a reflexão à consideração da vulnerabilidade que tem a família, nas condições da vida que a colocam à prova. A família tem tantos problemas que a colocam à prova.

Uma dessas provas é a pobreza. Pensemos em tantas famílias que povoam as periferias das megapolis, mas também nas zonas rurais. Quanta miséria, quanta degradação! E depois, para piorar a situação, em alguns lugares chega também a guerra. A guerra é sempre uma coisa terrível. Essa também afeta especialmente as populações civis, as famílias. Realmente a guerra é a “mãe de todas as pobrezas”, a guerra empobrece a família, uma grande predadora de vidas, de almas e dos afetos mais sagrados e mais queridos.

Apesar disso tudo, há tantas famílias pobres que com dignidade procuram conduzir a sua vida quotidiana, muitas vezes confiando abertamente na bênção de Deus. Esta lição, porém, não deve justificar a nossa indiferença, mas sim aumentar a nossa vergonha pelo fato de existir tanta pobreza! É quase um milagre que, mesmo na pobreza, a família continua a se formar e até mesmo a conservar – como pode – a especial humanidade das suas relações. O fato irrita aqueles progrmadores de bem-estar que consideram os afetos, as relações familiares como uma variável secundária da qualidade de vida. Não entendem nada! Em vez disso, nós deveríamos nos ajoelhar diante dessas famílias que são uma verdadeira escola de humanidade que salva a sociedade das barbáries.

O que nos resta, de fato, se cedemos à chantagem de César e do Dinheiro, da violência e do dinheiro, e renunciamos também aos afetos familiares? Uma nova ética civil chegará somente quando os responsáveis da vida pública reorganizarem os laços sociais a partir da luta contra a espiral perversa entre família e pobreza, que nos leva ao abismo.

A economia de hoje muitas vezes é especializada no gozo do bem-estar individual, mas pratica largamente a exploração dos laços familiares. Esta é uma contradição grave! O imenso trabalho da família não é cotado nos balanços financeiros, naturalmente! De fato, a economia e a política são mesquinhas de reconhecimento a tal respeito. No entanto, a formação interior da pessoa e a circulação social dos afetos têm justamente ali o seu pilar. Se os tiram, tudo vem a baixo.

Não é somente questão de dinheiro. Falamos de trabalho, falamos de educação, falamos de saúde. É importante entender bem isso. Ficamos sempre muito comovidos quando vemos imagens das crianças desnutridas e doentes, que nos são mostradas em tantas partes do mundo. Ao mesmo tempo, também nos comove muito o olhar brilhante de muitas crianças, privadas de tudo, que estão em escolas feitas de nada, quando mostram com orgulho sua caneta e o seu caderno. E como olham com amor o seu professor ou a sua professora! Realmente, as crianças sabem que o homem não vive só de pão! Mesmo o afeto familiar; quando há a miséria as crianças sofrem, porque elas querem o amor, as relações familiares.
Nós cristãos devemos estar sempre mais próximos às famílias que a pobreza coloca à prova. Mas pensemos, todos nós, conhecemos alguém: um pai sem trabalho, uma mãe sem trabalho…e a família sofre, as relações se enfraquecem. Isso é ruim. De fato, a miséria social atinge a família e às vezes a destrói. A falta ou a perda de trabalho, ou a sua forte precariedade, incidem pesadamente sobre a vida familiar, colocando à dura prova as relações. As condições de vida nos bairros mais desfavorecidos, com os problemas de habitação e de transportes, bem como a redução dos serviços sociais, de saúde, de escola, causam dificuldades. A estes fatores materiais se soma o dano causado à família pelos pseudo-modelos, difundidos pelos meios de comunicação baseados no consumismo e o culto da aparência, que influenciam as classes sociais mais pobres e incrementam a desagregação das relações familiares. Cuidar das famílias, cuidar do afeto, quando a miséria coloca a família à prova!

A Igreja é mãe e não deve esquecer este drama dos seus filhos. Também essa deve ser pobre, para se tornar fecunda e responder a tanta miséria. Uma Igreja pobre é uma Igreja que pratica uma simplicidade voluntária na própria vida – nas suas próprias instituições, no estilo de vida dos seus membros – para abater todo muro de separação, sobretudo dos pobres. É preciso oração e ação. Rezemos intensamente ao Senhor, que nos sacode, para tornar as nossas famílias cristãs protagonistas desta revolução da proximidade familiar, que agora é tão necessária! Dessa, dessa proximidade familiar, desde o início, é feita a Igreja. E não esqueçamos que o julgamento dos necessitados, dos pequenos e dos pobres antecipa o julgamento de Deus (Mt 25, 31-46). Não esqueçamos isso e façamos tudo aquilo que podemos para ajudar as famílias a seguir adiante na provação da pobreza e da miséria que atingem os afetos, as relações familiares.

Eu gostaria de ler outra vez o texto da Bíblia que escutamos no início e cada um de nós pense nas famílias que são provadas pela miséria e pela pobreza, a Bíblia diz assim: “Meu filho, não negues esmola ao pobre, nem dele desvieis os olhos. Não desprezes o que tem fome, não irrites o pobre em sua indigência. Não aflijas o coração do infeliz, não recuses tua esmola àquele que está na miséria; não rejeiteis o pedido do aflito, não desvieis o rosto do pobre. Não desvieis os olhos do indigente, para que ele não se zangue” (Eclo 4,1-5a). Porque isso será aquilo que fará o Senhor – o diz no Evangelho – se não fazemos essas coisas.

PAPA FRANCISCO
Vaticano, Audiência Geral, 3 de junho de 2015

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Jesus fala com autoridade a partir da verdade

JESUS E O DINHEIRO. José Antonio Pagola:

"Jesus não separou Deus do Seu projeto de transformação do mundo. É possível um mundo diferente, mais justo, mais humano e feliz, precisamente porque Deus o quer assim" (p 19).
"Deus não pode ser Pai de todos sem reclamar justiça para aqueles que são excluídos de uma vida digna. Por isso não O podem servir os que, dominados pelo dinheiro, afogam injustamente os Seus filhos e filhas na miséria e na fome" (p 23).
"Este sistema faz-nos escravos da ânsia de acumular. A História organiza-se, move-se e dinamiza-se a partir desta lógica. Tudo é pouco para nos sentirmos satisfeitos" (p 25).
"Não deis a César o que é de Deus: os pobres. Jesus proclamou repetidamente esta mensagem. Os pequeninos sãos os prediletos do Pai; aos pobres pertence o Reino de Deus. Não se pode sacrificar a vida nem a dignidade dos indefesos a nenhum poder político, financeiro, económico ou religioso. Os humilhados pelos poderosos são de Deus. E de mais ninguém (p 29).
"Chegou o momento de recuperar a compaixão e a misericórdia como herança decisiva que Jesus deixou à humanidade, a força que há de impregnar a marcha do mundo, o princípio de ação que há de mover a história em vista de um futuro mais humano... A misericórdia é o modo de ser de Deus, a Sua maneira de olhar para o mundo e reagir perante as Suas criaturas (pp 33-34).
"O primeiro olhar de Jesus não se dirige ao pecado do ser humano, mas ao sofrimento... Para Jesus, a primeira preocupação foi o sofrimento das pessoas enfermas e subalimentadas da Galileia, a defesa dos aldeões explorados pelos poderosos donos das terras ou o acolhimento dos pecadores e prostitutas, excluídos da religião. Para Jesus, o grande pecado contra o projeto de Deus consiste sobretudo em resistirmos a tomar parte no sofrimento dos outros, fechando-nos no nosso próprio bem-estar" (p 35).
O "sofrimento injusto dos últimos do planeta ajuda-nos a conhecer a realidade do mundo que estamos a construir. Não se conhece o mundo a partir dos centros de poder, mas a partir das massas sem nome nem rosto dos excluídos, os únicos para os quais, paradoxalmente, não há lugar no nosso mundo globalizado. São as vítimas as que mais nos levam a conhecer aquilo que somos" (p 40).
"Os que nada importam são os que mais interessam a Deus. Os que sobejaram dos impérios construídos pelos homens têm um lugar privilegiado no Seu coração. Os que não têm uma religião que os defenda, têm a Deus como Pai (p 45).
"Ser compassivos como o Pai implica lutar contra o esquecimento das vítimas inocentes. Não é possível introduzir no mundo uma cultura da compaixão se não se refletir contra a cultura da amnésia e do esquecimento cruel de milhões de seres humanos que sofrem, vítimas do sistema que hoje conduz a história" (pp 46-47).
"O dinheiro, tendo sido inventado para tornar mais fácil o intercâmbio de bens, há de ser empregue, segundo Jesus, para facilitar a redistribuição, a solidariedade e a justiça fraterna. Só então começa o discípulo a estar em condições de seguir Jesus" (p 57).
"O lema do Governo é claro: «Sabemos o que temos de fazer e fá-lo-emos». Não há alternativa. Nada mais se tem em conta senão cumprir os objetivos económicos que nos são ditados pela troika: o Banco Central Europeu, a Comissão Europeia e o Fundo Monetário Internacional. As decisões estão nas mãos dos tecnocratas. O decisivo é atender às exigência do sistema financeiro internacional. A atividade política, que deveria defender os direitos das pessoas e o bem da sociedade, dilui-se convertendo-se em instrumento dos poderosos do dinheiro" (p 59).
"Era necessária uma 'regulamentação fiscal' que pressiona fortemente os assalariados, mas não toca nas grandes fortunas e oferece uma amnistia injusta aos prevaricadores? (p 60).
"A partir da defesa dos últimos e da vontade de compaixão responsável e solidária, temos de defender e promover a defesa do bem comum exigindo, cuidando e desenvolvendo serviços públicos que garantam as necessidades mais básicas. devemos reagir contra a privatização do individualismo, que nos pode fechar no nosso bem-estar egoísta, deixando indefesos os mais fracos.
Temos de recuperar a importância do que é de todos, a responsabilidade do cuidado de uns pelos outros, a defesa da família como lugar por excelência de relações gratuitas, a comunidade cristã como espaço de acolhimento e de mútuo apoio acolhedor e fraterno" (p 66).
Jesus "fala com autoridade porque fala a partir da verdade" (p 67).
"É um disparate de desumanidade que as três pessoas mais ricas do mundo possuam ativos superiores a toda a riqueza dos quarenta países mais pobres, onde vivem seiscentos milhões de pessoas" (p 75)
"... as tecnologias da comunicação e a mobilidade da política humana torna cada vez mais difícil manter ocultas a fome e a miséria dos empobrecidos do mundo e a destruição progressiva do planeta" (p 76).
in JOSÉ ANTONIO PAGOLA (2014). Jesus e o dinheiro.

sábado, 5 de julho de 2014

XIV Domingo do Tempo Comum - ano A - 6 de julho

       1 – «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, Eu Te bendigo, porque assim foi do teu agrado. Tudo Me foi dado por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar».
       Por certo já nos aconteceu tentarmos explicar um acontecimento, um sentimento, um mistério, procurando as palavras mais adequadas e ficarmos com a sensação que não nos fizemos entender. Quem estava a nossa frente ficou ainda mais confuso, e nós próprios no final não conseguimos também aceder à realidade que queríamos expor.
       Chega alguém, ou até o nosso interlocutor, e de uma forma simples e acessível, usando uma imagem, uma comparação, outra situação do dia-a-dia, diz-nos que e como compreendeu e ajuda-nos a assimilar o que dávamos por adquirido.
       Jesus sublinha a simplicidade do coração para compreender e acolher o mistério que vem de Deus. Os sábios e inteligentes, neste contexto, são todos aqueles que pressupõem que sabem tudo e que não precisam de ninguém para aprender. Os pequeninos são todos aqueles, com qualidades e defeitos, que estão em busca do Céu, em busca do saber, disponíveis para acolher o que vem dos outros, o que vem das alturas e em tudo e todos procuram um sentido, uma lição, um desafio para a sua própria vida.
       Ao mistério de Deus (e do Homem) só acedemos pela humildade, pelo coração. A verdadeira sabedoria será o aceitarmos a nossa limitação e colocar-nos em atitude de contemplação perante o que não compreendemos, sabendo que as palavras são necessárias mas por vezes insuficientes.
       2 – «Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve».
       Há acontecimentos que nos desgastam e nos destroem. Sabemos o quanto nos afetam. Há situações, porém, em que nos sentimos abatidos, desmoralizados, esmagados até, sem sabermos as causas e as razões, sejam físicas ou morais, sendo, por vezes, um acumulado de cansaços, chatices, doença, incompreensão dos amigos, solidão, arrelias na família, no trabalho, o clima, sonhos gorados ou expetativas futuras pouco promissoras.
       A sugestão de Jesus é, também aqui, um desafio à simplicidade, ao despojamento, à humildade. Nem tudo nos é desvendado ao mesmo tempo, nem tudo nos é dado a descobrir e a conhecer na forma como esperamos e merecemos. A leveza perante a vida, nada tem de ligeireza. Leva-nos a confiar em Deus, e no futuro com Deus.
       Jesus faz-Se pequenino, absorvendo a nossa fragilidade e finitude, em clara abertura para Deus. E é nessa postura de obediência a Deus, de escuta, que Jesus Se coloca mais próximo de cada um de nós, mais perto da humanidade que nos irmana.
       A sabedoria autêntica passa por aqui. Confiança. Entrega nas mãos de Deus. Ele sustenta a nossa vida e os nossos anseios. A sua carga é leve e o seu jugo é suave, pois baseia-se no amor, na compaixão, na conciliação, para nos libertar do que nos destrói, o ódio, o ciúme extremo, a violência, a inveja, o rancor, o desejo de vingança, a maledicência. São estes propósitos que nos pesam, que nos fazem andar derreados, espiritual e fisicamente. Ficámos doentes quando nos deixamos vencer por emoções e sentimentos destrutivos. Fazem parte da nossa vida, mas há que os relativizar. Definitivo só Deus. Deixar que uma arrelia domine completamente a nossa vida, é permitir que uma ditadura invada o nosso coração, e nos vá matando aos poucos.

       3 – A encarnação, morte e ressurreição de Jesus marca uma profunda alteração na história da humanidade: o Céu abre-se para nós, ficando mais perto, ao alcance da nossa mão e da nossa vontade! A eternidade entra no tempo e faz-Se história. O divino comprime-se para caber no humano.
       Com Cristo já não estamos "sob o domínio da carne, mas do Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em nós... Se vivermos segundo a carne, morreremos; mas, se pelo Espírito fizermos morrer as obras da carne, viveremos".
       Ora, é precisamente o chamamento de Jesus: vinde a Mim todos vós que andais cansados e oprimidos por tantas preocupações e por vezes sem razões de maior. Vivei segundo o Espírito, como Filhos e não como escravos. Eu liberto-vos para a vida, para o amor, para o bem. Vinde, benditos de Meu Pai. Abri o vosso coração, esvaziai-vos do que vos destrói, enchei-vos do que vos faz bem.
       Temos consciência que há situações das quais não conseguimos libertarmo-nos que não seja pela ajuda de outrem. Este Outro que vem até nós, e Se torna um de nós, para com Ele aprendermos a levantar o olhar, o coração e a vida, e a caminharmos mais seguros, ainda que entre tempestades!
       A ligação a Deus, pela oração confiante e pela obediência (escuta, respeito, amor) filial, liga-nos positivamente aos outros. Ou assim haveria de ser, se de facto a nossa união a Deus é genuína. Amamos o Pai amando os Seus filhos, o nosso semelhante.
       Esta certeza convoca-nos para transformarmos o mundo, a começar pela nossa casa. «Exulta de alegria, filha de Sião, solta brados de júbilo, filha de Jerusalém. Eis o teu Rei, justo e salvador, que vem ao teu encontro, humildemente montado num jumentinho, filho duma jumenta. Destruirá os carros de combate de Efraim e os cavalos de guerra de Jerusalém; e será quebrado o arco de guerra. Anunciará a paz às nações: o seu domínio irá de um mar ao outro mar e do Rio até aos confins da terra».
       O poder e a grandeza de Deus, garantia da justiça e da misericórdia, mostram-se pela humildade, pela pobreza de meios, revelando-Se na compaixão. "O Senhor é clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade. O Senhor é bom para com todos e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas" (Salmo).
       Tendo um chão seguro – Deus em nós –, há que trabalhar, meter as mãos à obra.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano A): Zac 9, 9-10; Sl 144 (145); Rom 8, 9. 11-13; Mt 11, 25-30.

domingo, 13 de abril de 2014

José Antonio Pagola - JESUS E O DINHEIRO

JOSÉ ANTONIO PAGOLA (2014). Jesus e o dinheiro. Uma leitura profética da crise. Lisboa: Paulus Editora. 88 páginas.
       Para quem conhece este sacerdote e teólogo espanhol, sabe que é uma apaixonado por Jesus como fica explicita na contracapa deste livro. Centra-se sobretudo na figura de Jesus Cristo, inserindo-nos junto d'Ele naquele tempo, como seguidores, discípulos, apóstolos, medrosos e renitentes, outras vezes interesseiros e calculistas. Mas afabilidade de Jesus, a Sua compaixão pelos mais frágeis, as palavras carregadas de coerência e autoridade, inquietantes, provocadoras, continuam a ser um desafio para os nossos dias.
       A fé não está desligada da vida. Jesus mantém demasiado perto dos doentes, leprosos, surdos, mudos, invisuais, coxos, os mais pobres, viúvas, galileus, crianças, mulheres, dos pecadores públicos, publicados, mulheres de má vida. Nas suas fileiras tem de tudo e quando chegam as horas decisivas, acobardam-se, protegem-se, resguardam-se dos perigos.
       Este é mais um testemunho que procura trazer-nos Jesus e os Seus ensinamentos, a Verdade que nos salva, a opção clara e inequívoca pelos que são vítimas desta crise que uns criaram e que outros sofrem. A Igreja, seguidora de Jesus Cristo e, por conseguinte, imitadora, terá que ser um voz atenta e comprometida, do lado dos mais pobres, dos desvalidos, dos desempregados, das famílias endividadas, dos trabalhadores e reformados cada vez mais explorados, quando se protegem as finanças, os bancos, as grandes multinacionais, ainda que promotoras de emprego e riqueza. Teremos de viver mais pobres, mas nem por isso menos comprometidos com o vizinho, com os pobres cada vez em maior número.
       A situação que serve de ambiente a Pagola é Espanha, mas em Portugal, como sublinham os editoras, é em tudo idêntica. A intervenção da troika ajuda a equilibrar as contas públicas, financiando os bancos e o estado, mas há cada vez mais pobres, mais desempregados, com os jovens a serem  obrigados a sair do seu país, não podendo gerar riqueza nos países de origem.
       A crise económico-financeira é, antes de mais, uma crise da humanidade.

Algumas frases do autor que sustenta a argumentação e a militância dos cristãos:
"Jesus não separou Deus do Seu projeto de transformação do mundo. É possível um mundo diferente, mais justo, mais humano e feliz, precisamente porque Deus o quer assim" (p 19).
"Deus não pode ser Pai de todos sem reclamar justiça para aqueles que são excluídos de uma vida digna. Por isso não O podem servir os que, dominados pelo dinheiro, afogam injustamente os Seus filhos e filhas na miséria e na fome" (p 23).
"Este sistema faz-nos escravos da ânsia de acumular. A História organiza-se, move-se e dinamiza-se a partir desta lógica. Tudo é pouco para nos sentirmos satisfeitos" (p 25).
"Não deis a César o que é de Deus: os pobres. Jesus proclamou repetidamente esta mensagem. Os pequeninos sãos os prediletos do Pai; aos pobres pertence o Reino de Deus. Não se pode sacrificar a vida nem a dignidade dos indefesos a nenhum poder político, financeiro, económico ou religioso. Os humilhados pelos poderosos são de Deus. E de mais ninguém (p 29).
"Chegou o momento de recuperar a compaixão e a misericórdia como herança decisiva que Jesus deixou à humanidade, a força que há de impregnar a marcha do mundo, o princípio de ação que há de mover a história em vista de um futuro mais humano... A misericórdia é o modo de ser de Deus, a Sua maneira de olhar para o mundo e reagir perante as Suas criaturas (pp 33-34).
"O primeiro olhar de Jesus não se dirige ao pecado do ser humano, mas ao sofrimento... Para Jesus, a primeira preocupação foi o sofrimento das pessoas enfermas e subalimentadas da Galileia, a defesa dos aldeões explorados pelos poderosos donos das terras ou o acolhimento dos pecadores e prostitutas, excluídos da religião. Para Jesus, o grande pecado contra o projeto de Deus consiste sobretudo em resistirmos a tomar parte no sofrimento dos outros, fechando-nos no nosso próprio bem-estar" (p 35).
O "sofrimento injusto dos últimos do planeta ajuda-nos a conhecer a realidade do mundo que estamos a construir. Não se conhece o mundo a partir dos centros de poder, mas a partir das massas sem nome nem rosto dos excluídos, os únicos para os quais, paradoxalmente, não há lugar no nosso mundo globalizado. São as vítimas as que mais nos levam a conhecer aquilo que somos" (p 40).
"Os que nada importam são os que mais interessam a Deus. Os que sobejaram dos impérios construídos pelos homens têm um lugar privilegiado no Seu coração. Os que não têm uma religião que os defenda, têm a Deus como Pai (p 45).
"Ser compassivos como o Pai implica lutar contra o esquecimento das vítimas inocentes. Não é possível introduzir no mundo uma cultura da compaixão se não se refletir contra a cultura da amnésia e do esquecimento cruel de milhões de seres humanos que sofrem, vítimas do sistema que hoje conduz a história" (pp 46-47).
"O dinheiro, tendo sido inventado para tornar mais fácil o intercâmbio de bens, há de ser empregue, segundo Jesus, para facilitar a redistribuição, a solidariedade e a justiça fraterna. Só então começa o discípulo a estar em condições de seguir Jesus" (p 57).
"O lema do Governo é claro: «Sabemos o que temos de fazer e fá-lo-emos». Não há alternativa. Nada mais se tem em conta senão cumprir os objetivos económicos que nos são ditados pela troika: o Banco Central Europeu, a Comissão Europeia e o Fundo Monetário Internacional. As decisões estão nas mãos dos tecnocratas. O decisivo é atender às exigência do sistema financeiro internacional. A atividade política, que deveria defender os direitos das pessoas e o bem da sociedade, dilui-se convertendo-se em instrumento dos poderosos do dinheiro" (p 59).
"Era necessária uma 'regulamentação fiscal' que pressiona fortemente os assalariados, mas não toca nas grandes fortunas e oferece uma amnistia injusta aos prevaricadores? (p 60).
"A partir da defesa dos últimos e da vontade de compaixão responsável e solidária, temos de defender e promover a defesa do bem comum exigindo, cuidando e desenvolvendo serviços públicos que garantam as necessidades mais básicas. devemos reagir contra a privatização do individualismo, que nos pode fechar no nosso bem-estar egoísta, deixando indefesos os mais fracos.
Temos de recuperar a importância do que é de todos, a responsabilidade do cuidado de uns pelos outros, a defesa da família como lugar por excelência de relações gratuitas, a comunidade cristã como espaço de acolhimento e de mútuo apoio acolhedor e fraterno" (p 66)
Jesus "fala com autoridade porque fala a partir da verdade" (p 67).
"É um disparate de desumanidade que as três pessoas mais ricas do mundo possuam ativos superiores a toda a riqueza dos quarenta países mais pobres, onde vivem seiscentos milhões de pessoas" (p 75)
"... as tecnologias da comunicação e a mobilidade da política humana torna cada vez mais difícil manter ocultas a fome e a miséria dos empobrecidos do mundo e a destruição progressiva do planeta" (p 76).
       »» Esta é uma ideia defendida por Gustavo Gutiérrez,que analisando os perigos da globalização, vê nesta uma possibilidade real de "contestação" aos modelos instituído, facilitando a visualização da pobreza e das injustiças cometidas, e da corrupção. Pode ler-se em "Ao lado dos Pobres".

Índice:
1. Apanhados por uma crise global | 2. Degradação sociopolítica da crise | 3. O impacto profético de Jesus | 4. É possível uma alternativa | 5. Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro | 6. Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso | 7. Os últimos serão os primeiros | 8. Seguir Jesus em tempos de crise | 9. Manter viva a esperança de Jesus no meio da crise | 10. Jesus Cristo, nossa esperança.
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quinta-feira, 10 de abril de 2014

Na aldeia global… Vizinhos mas (ainda/já) não irmãos!

       O papa Bento XVI, na encíclica Caritas in Veritate, deixa esta afirmação sucinta mas reveladora: “A sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos” (19), acentuando que “o primeiro capital a valorizar é o homem, a pessoa na sua integridade” (25).
       O atual Papa, Francisco, na Viagem a Lampdusa (8 de julho de 2013), e na Mensagem para o Dia Mundial da Paz (1 de janeiro de 2014) retomou estas palavras de Bento XVI, sublinhando que “esta cultura do bem-estar leva à indiferença a respeito dos outros; antes, leva à globalização da indiferença” (Lampdusa) pois nos “faz habituar ao sofrimento alheio” (Dia Mundial da Paz).
       Contradição absurda: os que estão perto de nós são-nos estranhos de tal forma que nos surpreendem, positiva ou negativamente, sem que esperássemos por tal. Começa a verificar-se aquilo que é ridicularizado no ambiente digital: membros da mesma família, no mesmo espaço físico, usam as redes sociais para poderem falar entre si. Tornamo-nos surdos e cegos aos que estão perto e ávidos das novidades longínquas.
       Tudo o que se passa, em todo o mundo, acessível a uma palavra, um toque, um clique. Por outro lado, como vem a acentuar o Papa Francisco, tanta informação sobre desgraças alheias vão-nos deixando anestesiados contra o que vemos e ouvimos. Gera-se a globalização da indiferença, já nada nos choca, mais desgraça menos desgraça, milhares de pessoas que morrem à fome, famílias destruídas pelos cartéis de droga. E, pelo meio, se globaliza a cultura do descarte. As pessoas são descartáveis se impedem a realização dos meus interesses pessoais ou os objetivos da empresa. Talvez choque mais quando as Bolsas de Valores desvalorizam 1% nas suas ações!
       Rodeados por multidões, nesta aldeia global, e continuamos sozinhos, a remar cada um por si. A informação e o conhecimento são utilizados em benefício próprio, qual Adão e Eva que se apropriam do fruto da árvore, que afinal é dom para todos. O individualismo corre juntamente com a globalização. Por outro lado, alguns esforços de solidariedade protagonizadas pelas redes sociais e que rapidamente se expandem; sendo benéficos e pragmáticos correm também o sério risco da banalização e da indiferença. Tantas causas que “globalizamos”: tanta gente necessitada que todos os esforços são inúteis, pois não conseguimos chegar a todo lado. De que adiantará ajudar uma pessoa que seja senão mudo o mundo? Resta-nos rezar e comover-nos?!
       A oração e a comoção como ponto de partida e referência, mas há que potenciar tudo o que pode aproximar-nos e comprometer-nos…

in VOZ DE LAMEGO, n.º 4259, de 8 de abril de 2014