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sábado, 26 de setembro de 2015

XXVI Domingo do tempo Comum - ano B - 27-09.2015

       1 – "Há um «serviço» que serve aos outros; mas temos que guardar-nos do outro serviço cujo interesse é beneficiar os «meus», em nome do «nosso». Este serviço deixa sempre os «teus» de fora, gerando uma dinâmica de exclusão" (Papa Francisco, em Cuba). O contexto é o de domingo passado, em que Jesus diz claramente aos seus discípulos que quem quiser ser o primeiro seja o servo de todos. A tentação será servir-se, ou servir os seus, excluindo os que não fazem parte da minha família, do meu partido, da minha religião, do meu país, do meu grupo de amigos. Ora para Deus somos irmãos. Ele é Pai de todos. Todos são chamados a formar uma família feliz.
       Acolher os distantes, o estrangeiro, o pobre, o estranho, o refugiado, não nos dispensa de tratar bem os de casa e os da vizinhança.
       O Evangelho mostra os discípulos muito zelosos em relação ao grupo e aos próprios interesses. João diz a Jesus: «Mestre, nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco». Não se põe em causa o bem mas quem o faz. Ou seja, se fizesse parte do grupo, acrescentaria prestígio e estava em sintonia com Jesus. Ora, se não faz parte do grupo não terá direito a fazer o que quer que seja relacionado com Jesus.
       Novamente a questão do protagonismo: quem é o maior?! Resposta clarificadora de Jesus: quem quiser ser o primeiro será o servo de todos. Os discípulos ainda precisam de caminhar muito mais. Veem alguém que lhes pode tirar o protagonismo e logo o afastam.
       2 – Novamente a delicadeza, o serviço, e a opção preferencial pelos mais frágeis. Sem Jesus fisicamente entre nós, Ele realmente Se faz presente pela Palavra proclamada, pelos Sacramentos, particularmente na Eucaristia, e muito especialmente Se faz presente nos pobres.
       Não há privilégios nem privilegiados. A haver discriminação será a favor dos excluídos, menosprezados, esquecidos. Partimos da mesma condição: fazer o bem em nome de Jesus. Homens ou mulheres, crianças ou idosos, europeus ou africanos, todos somos destinatários da recompensa, da salvação que Jesus nos traz. Basta fazer o bem. Em nome de Jesus, para que não nos tornemos vaidosos ao ponto de fazermos depender os outros de nós instrumentalizando-os.
       Responde-lhes Jesus: «Não o proibais; porque ninguém pode fazer um milagre em meu nome e depois dizer mal de Mim. Quem não é contra nós é por nós».
       Estamos habituados a diabolizar quem não pensa como nós. Pior, diabolizamos os que não fazem parte do nosso grupo, mesmo que tenham ideias semelhantes às nossas. Atente-se à campanha eleitoral: nós ou o caos. Combatem-se as pessoas e não os projetos. Ouvindo os diversos candidatos, todos defendem os pobres, a solidariedade social, o pelo emprego jovem, a inclusão dos idosos, a escola pública, dando prioridade à educação, à saúde, à justiça (e talvez à cultura), estarão ao lado das pequenas e médias empresas, combaterão as injustiças, a corrupção, a fuga ao fisco, para aliviar os sacrifícios dos portugueses. A Segurança Social é intocável. Os reformados, pelo menos os que recebem menos, verão um esforço por lhes ser aumentada a reforma. Haverá políticas de apoio às famílias e às empresas, promovendo dessa forma o crescimento económico e o emprego. Em relação às ideias políticas todos estamos de acordo…
       Jesus diz aos seus discípulos que o joio e o trigo crescem em simultâneo até à ceifa (cf. Mt 13, 24-30). Em vez de diabolizar há que integrar. Discutir ideias, mas acolher todas as pessoas. Nem tudo é branco e preto, há que procurar o bem em todos, a presença de Deus em cada um. O caminho de Jesus é o caminho do amor, da paixão, do serviço a todos, sem excluir, preferindo aproximar-se dos afastados. O caminho é amar. Amar sempre. Amar servindo. Não importa a quem. Não importa quem. Retomemos a parábola do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 25-37). Para se ser bom não é preciso ser judeu, ou ser cristão, o que é preciso é fazer o bem sem olhar a quem.
       3 – «Quem vos der a beber um copo de água, por serdes de Cristo não perderá a sua recompensa. Se alguém escandalizar algum destes pequeninos que creem em Mim, melhor seria para ele que lhe atassem ao pescoço uma dessas mós e o lançassem ao mar».
       Os pequeninos – os pobres, a viúva, o órfão, o estrangeiro, o pecador, o refugiado, o doente – hão de merecer a máxima atenção, cuidado e diligência. O que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos a Mim o fazeis. O que deixardes de fazer ao mais pequenino dos meus irmãos a Mim deixareis de o fazer (cf. Mt 25, 31-46).
       No dia em que se faz memória de São Vicente de Paulo, vale a pena meditar nas suas palavras: «O serviço dos pobres deve ser preferido a todos os outros e deve ser prestado sem demora… se tiverdes de deixar a oração… De facto não se trata de deixar a Deus, se é por amor de Deus que deixamos a oração: servir um pobre é também servir a Deus. A caridade é a máxima norma, e tudo deve tender para ela; é uma grande senhora: devemos cumprir o que ela manda».
       Os discípulos discutem lugares e protagonismo: qual de nós será o maior no Reino de Deus? E não satisfeitos, afastam os que possam ocupar um lugar especial no coração de Jesus ou agir em Seu nome. Ora Jesus não discute lugares, mas serviço. Não importa quem brilha! Importa quem faz transparecer Jesus e o Seu Evangelho de amor. No MEIO estará sempre Jesus, ainda que esteja no meio através dos mais pobres.

       4 – Deveríamos ficar felizes quando os outros prosperam! Mas por vezes o sucesso dos outros provoca-nos azia e inveja. Os outros não são, como diria Sarte, o inferno, pelo contrário, são um espelho no qual podemos descobrir a presença de Deus, e reconhecer-nos como irmãos.
       A primeira leitura mostra, como também o evangelho, que a inveja obscurece o olhar sobre os outros. Os líderes sábios e tementes a Deus fazem a diferença.
       Moisés só tem duas mãos e não pode resolver todos os problemas do povo. São escolhidos 70 anciãos para o ajudarem. O Espírito que estava em Moisés é "distribuído" também pelos 70 anciãos, que começam a profetizar. No acampamento ficaram dois homens que, embora estivessem inscritos, não compareceram na tenda. O Espírito também poisou sobre eles. E eles começaram a profetizar no acampamento. Entretanto um jovem correu a dizê-lo a Moisés: «Eldad e Medad estão a profetizar no acampamento». Josué, que mais tarde viria a suceder a Moisés e que estava ao seu serviço, aproveita a deixa: «Moisés, meu senhor, proíbe-os».
       Como se Eldad e Medad pudessem ofuscar a liderança de Moisés ou os padrões instituídos. Deus age além dos limites oficiais que possamos impor a partir dos nossos padrões religiosos. Moisés, que se poderia sentir diminuído, é taxativo: «Estás com ciúmes por causa de mim? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor infundisse o seu Espírito sobre eles!».
       O bem que os outros dizem e fazem deve incentivar-nos a fazer e a dizer bem.

       5 – Mais um domingo com São Tiago, cuja Epístola é uma chamada constante a assumirmos as consequências da fé professada. Todos sabemos, como diz o Apóstolo, que a fé sem obras é morta, mas não nos faz mal avivarmos a nossa consciência e o nosso compromisso.
       São Tiago concretiza com situações reais, recordando-nos que as nossas riquezas materiais e a nossa presunção espiritual nos fazem desviar de Jesus e da vivência do Evangelho.
«As vossas riquezas estão apodrecidas e as vossas vestes estão comidas pela traça. O vosso ouro e a vossa prata enferrujaram-se, e a sua ferrugem vai dar testemunho contra vós… Privastes do salário os trabalhadores que ceifaram as vossas terras. O seu salário clama; e os brados dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor do Universo… Condenastes e matastes o justo».
       Quem vive e enriquece à custa dos mais pobres há de dar contas a Deus. O ideal comunista-marxista era espoliar os ricos para enriquecer os pobres; a lógica do Evangelho é a partilha, o cuidar dos mais frágeis, venham de onde vierem. Privar o trabalhador do seu salário ou não o compensar justamente pelo trabalho realizado é um pecado que brada aos céus. Bem podemos verificar o longo caminho a percorrer. É com pesar que muitas empresas não sobrevivem. Com maior pesar quando não foram acautelados, com honestidade e justiça, os salários daqueles e daquelas que deram o corpo ao manifesto, cujo fruto do seu trabalho deveria ter sido canalizado para o pagamento dos ordenados, investindo na modernização da empresa e na formação dos seus trabalhadores. Não se exclui a justa remuneração dos proprietários e gestores, cujo trabalho e honestidade os faz merecer o seu salário.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (B): Num 11, 25-29; Sl 18 (19); Tg 5, 1-6; Mc 9, 38-43.45.47-48.

sábado, 4 de outubro de 2014

XXVII Domingo do tempo Comum - ano A - 5 de de outubro

       1 – «Havia um proprietário que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e levantou uma torre; depois, arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe. Quando chegou a época das colheitas, mandou os seus servos aos vinhateiros para receber os frutos» (Evangelho).
       Príncipes dos sacerdotes e anciãos do povo na primeira fila para ouvirem Jesus. A multidão está lá também. Aqueles, porém, vão para a frente não com o propósito de seguir Jesus, mas para se apresentarem como líderes e senhores de todo o povo. Jesus utiliza as parábolas da vinha para despertar, para provocar, para nos fazer tomar consciência da realidade, sem Se impor. Ele é a Palavra que Se faz carne. A linguagem é simples e acessível, é direta e frontal, sem pretensões de convencer. Ele propõe. Cabe a cada ouvinte ser discípulo ou ser mero espectador.
       O dono da vinha é o Senhor, que a planta, cuida dela para que venha a dar fruto em abundância.
       Na primeira leitura, o dono da vinha tudo faz para que a vinha, a casa de Israel, produza uvas de boa qualidade. "O meu amigo possuía uma vinha numa fértil colina. Lavrou-a e limpou-a das pedras, plantou-a de cepas escolhidas. No meio dela ergueu uma torre e escavou um lagar. Esperava que viesse a dar uvas, mas ela só produziu agraços" (1.ª Leitura). Então que fazer? Continuar a insistir ou arrancar a vinha e plantar outra em seu lugar? Com efeito, "a vinha do Senhor do Universo é a casa de Israel e os homens de Judá são a plantação escolhida. Ele esperava retidão e só há sangue derramado; esperava justiça e só há gritos de horror".
       2 – No Evangelho, a parábola de Jesus remete para o dono da vinha que arrenda a sua vinha. Os vinhateiros encontram tudo preparado para uma excelente colheita. Pouco precisam de fazer. Logo vem a hora da colheita. Então o proprietário envia mensageiros para receberem em seu nome a parte que lhe cabe pelos frutos. A ganância apodera-se dos vinhateiros. Ao verem os enviados do dono da vinha, matam, agridem, injuriam. Entretanto, o dono da vinha envia o próprio filho, pensando que o respeitarão por ser seu filho. Os arrendatários não querem saber, pelo contrário, matam também o filho para assim ficarem com a herança que lhe pertence.
       Jesus, tal como o profeta, interroga os interlocutores: que fazer àqueles vinhateiros? A resposta compromete-os: «Mandará matar sem piedade esses malvados e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entreguem os frutos a seu tempo».
       No ambiente destas parábolas Jesus coloca em causa aqueles que, embora sempre à volta do templo e da religião, esmagam o seu semelhante, com impostos, com obrigações que eles não cumprem.
       A parábola fala de todos os mensageiros que Deus enviou ao Seu povo. Foram ignorados, perseguidos, acusados injustamente, expulsos das cidades, escorraçados, para não incomodarem, para não denunciarem as injustiças.
       Por último, Deus envia o Seu Filho Unigénito. Nem assim. Aqueles a quem foi dada a missão de cuidar da vinha, de tratar bem as pessoas, de as guiar por caminhos de bem e de verdade, promovendo a justiça solidária, esvaziam os bolsos e a vida das pessoas simples, multiplicando as leis e as obrigações morais e religiosas, cansam, esgotam a vinha e as videiras. Não quiseram saber da raiz, da cepa, quiseram apenas retirar os frutos, sem os partilhar. Tinham a missão de envolver as pessoas, cuidando, tratando das feridas, testemunhando o amor de Deus. Utilizam o poder e a liderança para se servirem, para pisarem, para se sobreporem. É a discussão de ontem e de hoje, dos doutores da lei, dos anciãos do povo, mas também dos discípulos: quem será o maior?
       3 – "Deus dos Exércitos, vinde de novo, olhai dos céus e vede, visitai esta vinha. Protegei a cepa que a vossa mão direita plantou, o rebento que fortalecestes para Vós". A prece do salmista, que é também a nossa prece, assume com humildade a própria pequenez, deixando que Deus, compassivo e bom, possa vir em auxílio da vinha que Ele plantou. É um pedido feito na confiança, na certeza que Deus é fiel às Suas promessas. Ele continua a visitar-nos, e a entrar na nossa vida.
        A vinha exige muito trabalho, ao longo do ano inteiro, escava, adubar, podar, herbicidas, a ampara, o enxofre... é um trabalho permanente. Se a vinha não é cuidada, no final o fruto poderá não ser o esperado. Um mau ano agrícola, pode deitar por terra todo o esforço. Mas não é definitivo. Volta o trabalho e o cuidado, para novos anos de abundância.
       Os textos da Bíblia falam-nos desta esperança. O Senhor não abandonará a Sua vinha. Deus não desiste de nós. Nunca. Deus nunca desiste de nós. Podemos dar apenas agraços, mas Deus dá-nos tempo para refazermos a vinha, para nova poda, novos enxertos. «Nunca lestes na Escritura: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos’? Por isso vos digo: Ser-vos-á tirado o reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos».
       Rejeitado, morto numa Cruz, Jesus, o Filho de Deus, ressuscita e torna-Se pedra angular, a verdadeira cepa, a verdadeira videira, na qual havemos de enxertar a nossa vida, para que possamos produzir fruto com abundância. Se, como ramos, nos mantivermos unidos à videira é possível que a água se transforme no melhor vinho, que Se transformará no Sangue de Cristo, oferecido para salvação de todos. Podemos errar/pecar. Deus continua a creditar em nós, a apostar em nós. Limpemos a folhagem que em nós está a mais e que impede as uvas de amadurecer.

       4 – O Apóstolo testemunha o amor de Deus, a quem podemos sempre apresentar as nossas súplicas, as nossas inquietações: «Não vos inquieteis com coisa alguma. Mas, em todas as circunstâncias, apresentai os vossos pedidos diante de Deus, com orações, súplicas e ações de graças. E a paz de Deus, que está acima de toda a inteligência, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus. O que aprendestes, recebestes, ouvistes e vistes em mim é o que deveis praticar... E o Deus da paz estará convosco».
       Curiosamente, a confiança em Deus, a certeza que Deus sempre vem, que escuta a nossa prece, remete-nos para o compromisso, para o trabalho, para o cuidado da vinha. Deveis praticar o que aprendestes. Confiar em Deus, por certo, não significa sentar-se à sombra da bananeira à espera do alimento e da abundância da vida. Confiar em Deus levar-nos-á a agir com persistência. Há anos que a vinha não produz tanto. O agricultor logo após a vindima volta à vinha para recomeçar todo o processo, com a esperança renovada em novas colheitas.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano A): Is 5, 1-7; Sl 79 (80); Filip 4, 6-9; Mt 21, 33-43.

sábado, 12 de abril de 2014

Domingo de Ramos na Paixão do Senhor - A - 13 de abril

       1 – «Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice. Todavia, não se faça como Eu quero, mas como Tu queres». Oportuna e luminosa síntese da vida e da missão de Jesus: fazer a vontade do Pai, alimentar-se da Sua Presença, procurar em tudo responder aos Seus desígnios. Eis que venho para fazer a Tua vontade. Tenho um alimento maior. Felizes os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática.
       Como qualquer ser humano, Jesus sente a dureza e fragilidade do caminho. Percebe que está próximo um desenlace fatal. Já não há como fugir. Há situações na vida em que enfrentamos ou nos perdemos, acobardando-nos. É preciso ter fibra, ainda que não seja agradável.
       Nas horas de maior aperto, Jesus reza e ensina-nos a rezar. Com toda a devoção. Confiante e confidente. E se a oração é essencial, também a companhia. Cada um sofre à sua maneira, mas partilhar o que nos dói, o que nos faz sofrer, os medos que estamos a enfrentar e os perigos que antevemos, ajudar-nos-á a dar sentido à nossa persistência. Jesus roga aos Seus discípulos: «A minha alma está numa tristeza de morte. Ficai aqui e vigiai comigo». Também assim o desabafo, que não condena, mas alerta: «Nem sequer pudestes vigiar uma hora comigo! Vigiai e orai, para não cairdes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca».
       A consciência do que lá vem, os pés firmes na terra, não retiram o peso daquelas horas. Um pouco antes Jesus diz o que lhe vai na alma, prepara os discípulos, prepara-nos para atravessarmos as trevas, para que não fiquemos sem luz. «Bebei dele todos, porque este é o meu Sangue, o Sangue da aliança, derramado pela multidão, para remissão dos pecados. Eu vos digo que não beberei mais deste fruto da videira, até ao dia em que beberei convosco o vinho novo no reino de meu Pai».
       O medo pode agigantar-se. Havendo alguma centelha de luz – a fé, a confiança em Deus, a presença dos amigos –, isso fará que não nos percamos no meio e apesar das trevas.
       2 – "Não se faça como Eu quero, mas como Tu queres". Vem ao de cima o instinto de sobrevivência, mas há de ser mais forte a obediência. "Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes…"
        O hino recolhido por São Paulo mostra-nos a identidade de Cristo, a Sua Encarnação, a assunção da nossa humanidade, o projeto de nos trazer Deus e nos introduzir num projeto de vida nova que nos projete para a eternidade, mas como Ele, vivendo em lógica de paixão pelos outros. A realeza e a grandeza de Jesus revela-se no despojamento, esvaziando-se de Si – não se faça o que EU quero –, enchendo-se do Amor do Pai – faça-se o que TU queres. Jesus recusa-se a salvar-Se a Si mesmo, livrando a própria pele da Cruz, pelo contrário, estende os braços para o Pai e para a humanidade. Até à morte e para lá da morte vencerá o amor, a obediência, a Presença de Deus.
       3 – Uns dias antes, a entrada triunfal de Jesus na cidade de Jerusalém clarifica o mesmo despojamento. O Rei que aí vem não passa de (mais) um Profeta, e passaria despercebido não fora uma multidão de pobres que O acompanham desde a Galileia. É uma multidão simples. Pessoas de todas as idades, e com intenções diferentes, com propósitos diversos. Pobres, humildes, rudes, deslocam-se em caravana para se protegerem mutuamente. Cada ano, por ocasião da Páscoa, deixam as suas casas, juntam alguns poucos haveres, e deslocam-se para celebrar a sua fé em Deus. É mais forte a fé que os move, com os sacrifícios que terão de fazer e dos perigos que terão que enfrentar.
       "Eis o teu Rei, que vem ao teu encontro, humildemente montado num jumentinho, filho de uma jumenta... Numerosa multidão estendia as capas no caminho; outros cortavam ramos de árvores e espalhavam-nos pelo chão. E, tanto as multidões que vinham à frente de Jesus como as que O seguiam, diziam em altos brados: «Hossana ao Filho de David! Bendito O que vem em nome do Senhor! Hossana nas alturas!».
       Alguns estão à beira do caminho. Perguntam-se e perguntam quem é Ele. "Quando Jesus entrou em Jerusalém, toda a cidade ficou em alvoroço. «Quem é Ele?» – perguntavam. E a multidão respondia: «É Jesus, o profeta de Nazaré da Galileia».
       Faz-nos lembrar o alvoroço com que Herodes recebeu a notícia do nascimento do Messias. Um alvoroço que não foi suficiente para ele sair do seu conforto e ir à procura e ao encontro do Rei-Menino.
       Registe-se a reflexão de Bento XVI acerca desta multidão que acompanha Jesus e que não é coincidente com a multidão que O arrasta até ao Calvário. Pedro é precisamente acusado de ser "um deles" porque fala com os mesmos "tiques" ou nuances dos Galileus. Estes seriam estranhos naquela outra multidão que acusa Jesus, que O persegue, que tenta desacreditá-l’O, por inveja, por medo, por ignorância, por instigação de alguns bem instalados na vida, que empurram outros para o campo de batalha. Não se juntam à multidão que aclama Jesus, juntam-se agora em multidão que condena!
        4 – "Ainda Jesus estava a falar, quando chegou Judas, um dos Doze, e com ele uma grande multidão, com espadas e varapaus, enviada pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo". 
       Tudo parece acontecer demasiadamente rápido. Pela calada da noite. Um silêncio incómodo. Quando o sono ainda é rei. Os próprios discípulos, desgastados, com medo, sem forças, ansiosos, se deixam vencer pelos acontecimentos, não acompanham Jesus na Sua oração e vigília. São horas de luta e de desistência. Lutam para sobreviver àquele momento. Mas desistem de Jesus, desistem de "dar a vida por ele". "Então todos os discípulos O abandonaram e fugiram". Mantêm-se à distância. Vão observando o desenrolar dos acontecimentos. Lamentando-se. Chorando. Bloqueando, sem saber o que fazer. Se dão mais um passo, tudo pode desabar por cima deles. Por outro lado, sentem o olhar envolvente e misericordioso de Jesus que os serena e os desafia.
       Podemos incluir-nos dentro daquela multidão, entre os apóstolos, com a autoridade judaica e com a autoridade romana, com a multidão da Galileia que antes O aclamava, ou com a multidão da Judeia que se deixa levar pela inventiva de alguns poucos. Judas. Pedro. Discípulos. Caifás. Pilatos. Sacerdotes e fariseus. Acusando ou lavando as mãos. Traindo ou negando. Gritando em fúria no meio da multidão anónima ou pegar nos instrumentos de flagelação. Ajudar a levar a cruz ou ser forçado a isso. Quais as mulheres e mães que não arredam, a espreitaram para o caso de as deixarem ajudar Jesus. "Estavam ali, a observar de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galileia, para O servirem. Entre elas encontrava-se Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu. Ao cair da tarde, veio um homem rico de Arimateia, chamado José, que também se tinha tornado discípulo de Jesus. Foi ter com Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus".
        Em todo o caso, no final sobrevêm novas escolhas. Enquanto vivemos, estamos a tempo de nos convertermos e aderirmos a Jesus Cristo e ao Seu Evangelho. Pedro refaz o seu testemunho e o seguimento de Cristo. José de Arimateia não se envergonha e recolhe o corpo de um condenado. O Centurião, e os que por ali estavam, que têm um lampejo da realeza divina de Jesus, e expressa-o de forma audível: «Este era verdadeiramente Filho de Deus».
       5 – Isaías, na primeira leitura, caracteriza o Messias que há de vir, identificando-o com o Servo Sofredor, qual Cordeiro inocente levado ao matadouro, manso e humilde de coração, cuja vida e missão têm o fito único de dar esperança a todos que andam cansados e abatidos. "O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos. O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e, por isso, não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido".
       Abramos bem os ouvidos para ouvir a Palavra de Deus e o grito dos irmãos que buscam razões para viver. Abramos bem os olhos para nos outros descobrirmos a presença de Deus e os acolhermos como se a Ele o acolhêssemos.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano A): Mt. 21, 1-11; Is 50, 4-7; Sl 21; Fl 2, 6-11; Mt 26, 14 – 27, 66.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

CONSELHOS PASTORAIS - Como uma bússola

       Não perder o Norte!”. Esta expressão familiar pode ajudar-nos a compreender a responsabilidade do Conselho Pastoral Paroquial (CPP). Não perder o Norte, para uma comunidade cristã, é não perder de vista a sua razão de ser: a missão que deve realizar no espaço humano que é a paróquia. Esta missão que nos é confiada pelo Cristo e pelo Espírito Santo é única na diversidade de exigências: anunciar a pessoa de Jesus Cristo, experimentar a fraternidade, celebrar a fé e comprometer-se no serviço aos mais pequenos. O CPP, como uma bússola, ajuda a comunidade a manter o rumo da missão.
       Para ser fiel à sua responsabilidade, o CPP dá orientações pastorais, de forma que a equipa pastoral mandatada, formada por responsáveis nomeados pelo bispo (padres, diáconos, responsáveis por diferentes serviços e missões…), conselho económico e outros grupos assumam a responsabilidade das áreas que lhes são confiadas e tenham uma actuação de conjunto.
       Eis um dos maiores desafios do CPP: ser o conselho mais próximo da missão e deixar que os outros intervenientes actuem no seu próprio domínio. Lugar de discernimento, de decisão, de concretização, de coordenação e de avaliação, o CPP é um teste de verdade para os nossos discursos quanto à responsabilidade confiada aos baptizados na construção da Igreja.
       O CPP torna-se um lugar de aprendizagem onde os seus membros praticam o diálogo, o respeito mútuo e, assim, vivem uma experiência eclesial. Permite aos ministros ordenados, às pessoas mandatadas e às forças vivas da comunidade trabalhar sinodalmente no serviço da missão, fazendo em conjunto um pedaço do caminho. Uma oportunidade que pode exigir uma conversão mútua nas nossas maneiras de conceber e de articular as nossas responsabilidades respectivas!
       O CPP está ao serviço da comunidade. Os seus membros (que será vantajoso renovar regularmente) devem ser capazes de trabalhar harmoniosamente, discernir os sinais e apontar pontos da pastoral actual, ser solidários com as outras realidades eclesiais (zona pastoral, arciprestado, diocese…). Assim, é o mesmo espírito missionário que anima o CPP e a comunidade no serviço à paróquia.
       O número dos membros não é uma garantia de sucesso. Antes, o CPP deve ser constituído à imagem da comunidade que quer animar. Será isto utópico ou realizável? Nada melhor do que sermos nós a demonstrá-lo.
 
FONTE: Jornal diocesano VOZ DE LAMEGO, n.º 4252, de 18 de fevereiro de 2014.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

CONSELHOS PASTORAIS - participar e ser sujeito

       O termo “participação” está muito presente nos textos do concílio Vaticano II. Com efeito, encontramo-lo por 133 vezes para falar da participação de todos os baptizados na oração da Igreja (SC 8, 10…; LG 11, 42, 51; CD 30; PO 5; AA 4, 10…) e na missão recebida de Cristo (LG 12, 26…; CD 17; AA 2, 9, 10, 29; AG 41; UR 1, 4). Esta participação designa também a comunhão com Deus à qual os homens são chamados e é a comunhão dos homens entre si que define a Igreja: “Ao participar realmente do corpo do Senhor, na fracção do pão eucarístico, somos elevados à comunhão com Ele e entre nós” (LG 7). Esta união funda-se na escritura e na tradição, de acordo com 1 Cor 10, 17: “Uma vez que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, porque todos participamos desse único Pão”.
       Resumindo, pelo baptismo somos introduzidos numa participação na vida divina que nos abre a uma participação na vida eclesial, alimentada pela nossa participação na liturgia. Através desta participação “todos, segundo o seu modo próprio, cooperam na obra comum” (LG 30).
       Participar, ter consciência de si diante do outro, permite a cada um afirmar-se como sujeito, capaz de dizer e dizer-se, pensar e afirmar, decidir e executar. E isto vale também para o que denominamos “Igrejas locais”, as dioceses, onde a Igreja universal se revê e se concretiza num determinado tempo e espaço.
       Antes do último concílio, a Igreja católica apresentava- -se como uma Igreja uniformemente romana, aparecendo como uma única e vasta diocese, onde o Papa sozinho pensava e decidia por todos e onde os bispos eram meros executantes. A reflexão conciliar, apoiada pelo pensamento de teólogos e pastores que, antes do Concílio, manifestavam outras opções e proponham outros caminhos, proporcionou um ressurgimento das Igrejas locais. Por exemplo, os documentos conciliares confirmam as conferências episcopais existentes e determinam a sua existência por todo o mundo católico (CD 36-38), desejando que mantenham ligações enentre si (CD 38), fazem referência aos conselhos presbiterais (PO 7), aos conselhos pastorais (CD 27) e aos conselhos para o apostolado dos leigos (AA 26), ao mesmo tempo que abordam o ressurgimento dos sínodos e dos concílios provinciais (CD 36) e é neste contexto que aparece também a sugestão de instalar um sínodo dos bispos junto do Papa (CD 5).
       Como escreveu W. Kasper, "a eclesiologia de comunhão põe fim ao modelo de uma pastoral que se entende somente como um cuidar dos fiéis e como uma simples resposta às suas necessidades. Ela visa o ser-sujeito da Igreja e de todos na Igreja" (A Teologia e a Igreja).
       Tal como se reconhece capacidade às dioceses para serem sujeito de opções e ritmos diferenciados dentro da unidade eclesial que sempre se deve manter, também se reconhece o mesmo para os baptizados: todos são convidados a serem membros activos e participativos, a tornarem-se sujeito dentro da Igreja.
 
FONTE: Jornal diocesano VOZ DE LAMEGO, n.º 4249, de 28 de janeiro de 2014.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Conselhos Pastorais - Povo de Deus

       Os conselhos pastorais fazem parte das inovações que modificaram a vida das paróquias depois do Concílio Vaticano II. Para compreendermos tal entusiasmo importa apenas referir a noção de “Povo de Deus” apresentada na constituição dogmática Lumen gentium (LG) e como isso abre uma nova via para pensar o lugar de todos na vida da Igreja.
       O primeiro esquema deste documento (1962) propunha um texto que se identificava com outros anteriores e colocava a hierarquia antes e o laicado no final. Um primeiro debate promove alterações ao texto e, após sugestões sucessivas, é aprovado o texto actual, em 1964. Uma das alterações mais visíveis, e que importa sublinhar aqui, é a colocação do capítulo sobre o Povo de Deus antes da parte que aborda a hierarquia. Há uma inversão da disposição dos capítulos que é muito mais que a mudança na disposição do conteúdo. Colocar antes a realidade do Povo de Deus contribui de forma decisiva para uma procura do equilíbrio eclesiástico do todo. O Povo de Deus é anterior à hierarquia, concebendo-se a Igreja, na sua totalidade, como unidade e permitindo colocar antes a noção de comunidade, ao mesmo tempo que permite situar os ministros. A partir daqui não é o leigo que se define face ao clérigo, mas é o padre que se apresenta com uma função particular em referência ao Povo de Deus.
       É esta nova perspectiva que permite aos Padres conciliares reconhecer que “a todo o discípulo incumbe o encargo de difundir a fé, segundo a própria medida” (LG 17). A Igreja é reconhecida como uma realidade comum que pertence a todos; melhor, que está para lá dos seus membros.
       É o Espírito Santo que move toda a Igreja, todo o povo de Deus, para continuar a obra da criação e da Redenção, “a cooperar para que o desejo de Deus que fez de Cristo o princípio de salvação para todo o mundo se realize totalmente” (LG 17).
       Este aspecto comunitário, que emerge através da introdução da noção de Povo de Deus, revela a pertinência de pensar a Igreja a partir de todos os seus membros. Este “todos” pode ser associado a uma outra noção, particularmente fecunda para o Concílio, a de “participação”.

FONTE: Jornal diocesano VOZ DE LAMEGO, n.º 4248, de 21 de janeiro de 2014.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Conselhos Pastorais: um Presente com Futuro

       Os conselhos pastorais representam um lugar privilegiado para a prática sinodal, já que aí encontramos, sob a forma de um “microcosmos” eclesial, os principais elementos que constituem uma verdadeira parceria entre cristãos: a comunhão vivida no diálogo das diferenças, um sentido global da Igreja, uma diversidade de vocações e ministérios, o funcionamento de uma instância pastoral, a preocupação primeira da missão. E podem existir em diferentes escalas: nas paróquias, nas zonas pastorais, nos arciprestados e na diocese.
       A Igreja não pode passar ao lado da participação alargada dos seus membros se pretender aprofundar e implicar os fiéis leigos na reflexão, no discernimento dos apelos do Evangelho e no compromisso testemunhal dos baptizados neste tempo e neste mundo que são os nossos.
       Por outro lado, há um papel de coordenação que se impõe de forma a valorizar e a manter o ritmo nas diversas realidades humanas e pastorais. Não se trata de substituir ou querer monopolizar, mas atuar para que tudo se faça, para que nada escape à missão de anunciar, celebrar e servir.
       Por último, estes conselhos podem ser vistos como pontos importantes para a observação da realidade paroquial e diocesana e para a renovação pastoral que se pretende implementar.
       Para que a Igreja seja ela mesma, fiel à sua missão, deve, paradoxalmente, tornar-se “outra”: semper ipsa, nunquam eadem (sempre ela mesma, jamais a mesma). A imobilidade pode levar à rigidez mortífera.
       Jesus de Nazaré, rompendo com todo o conformismo e toda a forma de vassalagem proclama com audácia: “Para vinho novo, odres novos” (Mc 2, 22). É preciso escolher entre o “velho fermento” dos hábitos e o Evangelho sempre novo.
       Na caminhada que a nossa Igreja local (diocese) está a fazer, entre outras iniciativas, destaca-se a vontade de formar Conselhos de Pastoral nas paróquias onde ainda não existe, tal como a nível arciprestal e diocesano. Nesse sentido, o nosso jornal, sem pretender tudo dizer, assume a vontade de escrever algo sobre este assunto ao longo destas primeiras semanas do ano.

FONTE: Jornal diocesano VOZ DE LAMEGO, n.º 4246, de 7 de janeiro de 2014