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sábado, 27 de fevereiro de 2016

Domingo III da Quaresma - ano C - 28 de fevereiro

       1 – A vida é um mistério que não se dissolve no conhecimento, na ciência, na sabedoria popular ou em qualquer outro apartado da nossa existência. A sua complexidade, por um lado, e a sua simplicidade, por outro, fazem da vida (vegetal, animal, humana) um desafio permanente de procura, de descoberta, de admiração. Para crentes e não crentes é um mistério inabarcável. Os desenvolvimentos da ciência e da tecnologia desvendaram muitos segredos, mostraram a beleza da nossa fragilidade humana. Quanto mais simples é a vida tanto mais difícil decifrá-la.
       Com os avanços da ciência foi possível resolver muitos enigmas e melhorar a qualidade da vida, a saúde do corpo e da mente, mas nem assim foi possível eliminar as doenças crónicas, as depressões, o vazio existencial. Há algo mais para lá das sinapses, das ligações neurológicas, na constituição biológica. Somos muito mais que a soma de cromossomas, ADN, sangue, ossos, músculos, carne. Somos um mistério que quanto mais se desvenda mais complexo se torna.
       Ao longo do tempo, o ser humano procurou compreender e justificar o sofrimento, a doença e a morte. Se a vida é tão bela, como é possível que nos faça sofrer e porque é que temos de morrer? Porque é que a vida não é igual para todos? Porque que é que uns sofrem tanto e outros têm uma vida durável e saudável? Terá a ver (somente) com as escolhas de cada um?
       Uns procuram respostas na fé e na religião, outros no acaso ou na ciência. Muitos aceitaram a doença e as desgraças como vontade dos deuses e controlo oculto das divindades. Outros aceitaram que as doenças e a morte eram consequência do pecado.
       2 – Jesus questiona o sofrimento e o mal, compadecendo-Se. Como em outras ocasiões, Jesus não procura justificações, argumentos ou culpados. É preciso ajudar? Então ajuda-se. Faz-se o que está ao nosso alcance ou recorre-se a quem pode ajudar.
       Na lógica dos antigos, se alguém sofre é porque algum mal praticou. Job questiona tal ligação, pois nada praticou que merecesse tantos sofrimentos. No final, na história de Job, vêm ao de cima a soberania de Deus, o mistério insondável da vida e a grande confiança na bondade de Deus.
       Os mestres de Israel e a gente simples do povo assimilaram que a injustiça, o mal, a doença, a deficiência, o próprio domínio estrangeiro, eram consequência do pecado. Mas de quem? Dos pais, dos próprios, do povo? Jesus desmistifica esta crença ancestral. O pecado é destruidor do tecido social – quando cada um cuida apenas dos seus interesses pessoais ou tribais – e da própria vida – quando nos fazemos mal, acumulando toxidade pela inveja, pelo ódio, pelo desejo desenfreado de vingança. O que nos acontece de mal não é, sem mais, consequência do pecado, a não ser que resulte do mal consciente que outros nos fizeram!
       Pilatos mandou derramar sangue de alguns galileus. A questão era saber que mal tinham feito para merecerem tal castigo. Jesus combate esta lógica: «Julgais que, por terem sofrido tal castigo, esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos do mesmo modo. E aqueles dezoito homens, que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou? Julgais que eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos de modo semelhante».
       Atente-se à interpelação de Jesus, desligando o mal infligido/sofrido de qualquer culpa. Mas, atenção, diz-nos Jesus, é necessário que nos preocupemos com o bem de todos, uns dos outros, aderindo ao Reino de Deus, convertendo-nos. De contrário, pior será a nossa sorte!
       3 – Para que não haja dúvidas, Jesus dá um passo em frente para sublinhar a importância da conversão, a inutilidade de arranjar culpados, apontando mais para nós que para os outros, partindo da misericórdia de Deus. Fácil é olhar para os defeitos e pecados dos outros e, quem sabe, atirar pedras ao telhado do vizinho! Porém, para os seguidores de Jesus, importa deixar-se olhar pela Misericórdia de Deus e a Ele aderir de todo o coração.
       Numa outra ocasião, os discípulos perguntam a Jesus, sobre uma cego de nascença que Ele se prepara para curar, quem é que tinha pecado, o próprio ou os pais. Jesus responde inequivocamente que nem ele nem os pais tiveram culpa alguma que pudesse ter provocado aquela cegueira (cf. Jo 9, 1-5). Nesse episódio, lembra que o importante é que ninguém fique cego diante dos outros e das suas carências e necessidades, pois neles refulge a presença de Deus.
       Jesus conta então a parábola da figueira que não dá frutos. «Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi procurar os frutos que nela houvesse, mas não os encontrou. Disse então ao vinhateiro: ‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira e não os encontro. Deves cortá-la. Porque há de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’. Mas o vinhateiro respondeu-lhe: ‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo. Talvez venha a dar frutos. Se não der, mandá-la-ás cortar no próximo ano».
       Três anos sem dar fruto é muito tempo. Porquê gastar recursos? E porquê ocupar espaço onde se pode plantar outra árvore ou mais vinha? A parábola fala-nos da paciência de Deus e do Seu amor. Deus não desiste de nós. Nunca. Um e outro ano e mais outro e outro ainda. Jesus é o vinhateiro que visualiza o cuidado, a paciência e a misericórdia de Deus. Em Jesus, o Reino de Deus está em ação e já se podem ver os frutos. Cabe-nos transparecer o Reino de Deus que Jesus nos dá.
       4 – "Porventura Me hei de comprazer com a morte do pecador e não com o facto de ele se converter e viver?" (Ez 18, 23). O povo Eleito experimenta na sua história a intervenção de Deus. Ele é um Deus de vivos, de Abraão, de Isaac e de Jacob (cf. Lc 20, 38), não é um ídolo de bronze, de madeira, de prata, de ouro ou de ferro, que não tem olhos nem ouvidos, que não vê e não escuta aqueles que o invocam. Deus olha com amor, com aquele amor compassivo e maternal, isto é, com o amor das entranhas, a Misericórdia. «Eu vi a situação miserável do meu povo no Egipto; escutei o seu clamor provocado pelos opressores. Conheço, pois, as suas angústias. Desci para o libertar das mãos dos egípcios e o levar deste país para uma terra boa e espaçosa, onde corre leite e mel».
       A paciência do vinhateiro não é passiva. Insiste e cuida da figueira que está na sua vinha, tudo fazendo para que possa dar fruto. A Aliança de Deus com o Seu povo não é unilateral, de obediência deste em relação Àquele. Deus OUVE e VÊ a miséria do povo e ATUA para o libertar e conduzir a uma terra de esperança e de vida. Ele conta connosco. Moisés até poderia andar distraído, mas é atraído pelos sinais. Ele VÊ e aproxima-se. Não basta ver, não basta saber, não basta ter um bom coração e boas intenções, é imperioso aproximar-se para VER melhor e mais de perto, e para se deixar COMOVER e ENVIAR. Moisés tinha saído do Egipto e a sua vida era pacata, mesmo com muito trabalho e sacrifícios, pois tornara-se pastor. E a vida do pastor exige uma grande dedicação, procurando proteger o rebanho e procurar as melhores pastagens, afastando-se para longe de casa onde os perigos espreitam, com os salteadores e com os animais selvagens!
       Também Moisés OUVE as angústias do povo sintonizando com a Misericórdia de Deus.
       Descerá ao Egipto para lhes comunicar a mensagem de Deus e os libertar. Deus revela-Se não com adjetivos, como ser distante, como juiz todo-poderoso, mas identificado com a vida de Abraão, de Isaac, de Jacob e de todo o povo.

       5 – Na segunda Leitura, o Apóstolo São Paulo evoca a libertação do Egipto, a nuvem de Deus que envolveu os judeus, a travessia do mar, a bebida espiritual que brotava da rocha e o alimento que Deus lhes mandava do Céu. Nem todos chegaram à Terra prometida. Muitos poderiam ser essa Terra prometida para os outros, mas afastaram-se de Deus e dos seus desígnios de amor. A terra da promessa não é apenas um lugar ainda que haja lugares que nos façam sentir seguros. Deus age em nós e através de nós. Podemos ser terra prometida e lugar de encontro, onde Deus Se deixa ver.
       Moisés desce ao Egipto para lhes levar Deus. Jesus desce até nós e n'Ele podemos VER a misericórdia de Deus, que nos assume como filhos bem-amados.
       Nenhum de nós está excluído do amor e do perdão de Deus. Maior que o nosso pecado é Sua misericórdia. "Ele perdoa todos os teus pecados e cura as tuas enfermidades. / Salva da morte a tua vida e coroa-te de graça e misericórdia. Revelou a Moisés os seus caminhos… O Senhor é clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade. Como a distância da terra aos céus, /assim é grande a sua misericórdia para os que O temem". O salmo reza em nós a misericórdia de Deus.
       Por conseguinte, a Ele nos confiamos: "Deus, Pai de misericórdia e fonte de toda a bondade, que nos fizestes encontrar no jejum, na oração e no amor fraterno os remédios do pecado, olhai benigno para a confissão da nossa humildade, de modo que, abatidos pela consciência da culpa, sejamos confortados pela vossa misericórdia" (oração de coleta).

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano C): Ex 3, 1-8a. 13-15; Sl 102; 1 Cor 10, 1-6. 10-12; Lc 13, 1-9.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Domingo II da Quaresma - ano C - 21 de fevereiro

       1 – Depois do Batismo, Jesus, impelido pelo Espírito Santo, seguiu para o deserto, para orar. O deserto deixa a descoberto o essencial, com as suas forças e as suas fraquezas. Jesus deixa-Se preencher por Deus e pelo Seu Espírito de Amor, superando dessa forma as tentações do poder, do egoísmo, da facilidade, a tentação de renunciar a uma vida vivida em primeira pessoa e de caminhar enfrentando as dificuldades e os obstáculos, não os contornando, não os escondendo debaixo do tapete, mas vivendo comprometido, servindo, fazendo-Se Caminho connosco e para nós.
       Agora sobe ao monte. O monte é também um lugar especial de encontro com o essencial, isto é, de encontro com Deus. Jesus leva-nos com Ele. "Jesus tomou consigo Pedro, João e Tiago e subiu ao monte, para orar. Enquanto orava, alterou-se o aspeto do seu rosto e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente". A subida à montanha permite-nos respirar um ar mais puro, sem poluentes, onde se dissolve a nebulosidade. Como não lembrar aqueles dias em que o nevoeiro permanece sobre a vila, sobre a aldeia, e temos de ir à montanha para vermos o sol e a luminosidade.
       Mas não apenas isso. Jesus vai à montanha com um propósito primeiro: orar ao Pai. O Evangelho de Lucas é particularmente o evangelho da oração de Jesus. Jesus reza, por ocasião do Batismo, e abrem-se os Céus. No alto do monte, Jesus reza e o Seu rosto altera-se, as suas vestes ficam de uma brancura refulgente. A oração faz perceber a presença do Pai. Na oração Jesus, deixa-Se ver tal como É, filho de Deus. É um vislumbre da eternidade de Deus e da ressurreição. O Caminho ainda será longo e de sofrimento, mas uma luz ao fundo do túnel sempre nos incentiva a prosseguir e nos aponta a direção para chegarmos à tona, para chegarmos à luz.
       A oração permite-nos participar da vida de Deus. Jesus ensina-nos a fazê-lo, incentivando-nos: "sede misericordiosos como o Vosso Pai é misericordioso" (Lc 6, 36). É na oração que nos aproximamos do monte, que nos aproximamos de Deus. É na oração que Deus dilata o nosso coração para O acolhermos, para nos identificarmos com Ele. Não há outro caminho, ainda que possam existir alguns atalhos que nos aproximem de Deus.
       2 – Estamos a meio do caminho. Jesus conduz-nos ao monte e, em oração, deixa-Se ver como Filho de Deus, do Seu rosto irradia a Luz da eternidade, o desenlace da Sua e da nossa história na Ressurreição. Mas ainda falta percorrer caminho. Da montanha é possível, estando mais perto dos Céus, olhar o mundo a partir de Deus e do Seu amor de ternura, é possível ver mais longe. Somos agora conduzidos por Jesus, e não pelo demónio, para contemplarmos o mundo não para o subjugar mas para o servir, cuidando de todos os que o habitam, sobretudo os mais frágeis.
       Jesus tinha dito claramente aos seus discípulos que a hora das trevas se aproximava rápida e decididamente. Ecoa ainda a repreensão de Pedro: «Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há de acontecer!». A reposta de Jesus é contundente: «Vai-te daqui, Satanás. Tu és para mim uma ocasião de escândalo, pois não tens em vista as coisas de Deus, mas dos homens» (Mt 16, 22-23). 
       Um balde de água fria nas aspirações e nas expectativas dos discípulos. Agora Jesus revela-lhes o que está para lá da paixão, da entrega, da cruz, do sofrimento. Não lhes esconde as dificuldades, mas aponta para a frente. A oração sincroniza-nos com a eternidade, podemos então ver Moisés e Elias, a Aliança que Deus estabelece com todas as nações através do Povo Eleito. A Aliança é refeita, plenizada e universalizada com a presença, a vida e a mensagem, a morte e a ressurreição de Jesus. A Palavra e a Aliança de Deus com o Seu povo tem agora um ROSTO humano, toda a criação desemboca em Jesus. Lucas ainda tem tempo para nos dizer que Moisés e Elias falavam da morte de Jesus a consumar-se em Jerusalém. Despertando, os discípulos veem a glória de Jesus. Atónito, Pedro, interpretando o sentir dos companheiros, diz a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias».
       A nuvem de Deus guiou Moisés e o povo pelo deserto, agora envolve Jesus e os discípulos. Da nuvem Deus faz-Se ouvir: «Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O».
       Quando os Céus se abriram por ocasião do batismo de Jesus no rio Jordão era-nos revelada a identidade de Jesus. Conhecer a Sua identidade é o início mas não é tudo. Não basta saber Quem é Jesus, há que segui-l’O. "Deus de infinita bondade, que nos mandais ouvir o vosso amado Filho, fortalecei-nos com o alimento interior da vossa palavra, de modo que, purificado o nosso olhar espiritual, possamos alegrar-nos um dia na visão da vossa glória" (oração de coleta).
       3 – Jesus é o Rosto da Misericórdia do Pai. “Quem Me vê, vê o Pai” (Jo 14, 9). O Filho vem iluminar o nosso caminho, aproximando-Se. Não fica ao longe, distante, alheado, como observador! Deus intervém na nossa história. Coloca-Se do nosso lado. Na Transfiguração, Jesus faz-nos vislumbrar a luminosidade de Deus, mostra Quem É, deixando-nos ver a Sua glória. Mais, o próprio Jesus exemplifica, vivendo, o caminho a seguir para entrarmos no Coração de Deus.
       "Ouvi, Senhor, a voz da minha súplica, tende compaixão de mim e atendei-me. Diz-me o coração: «Procurai a sua face». A vossa face, Senhor, eu procuro. Não escondais de mim o vosso rosto, nem afasteis com ira o vosso servo. Não me rejeiteis nem me abandoneis, meu Deus e meu Salvador. Espero vir a contemplar a bondade do Senhor na terra dos vivos".
       A esperança cristã não diz respeito apenas à eternidade, diz respeito à nossa vida atual. A Transfiguração de Jesus acontece a caminho da Cruz, antes, portanto, da ressurreição. Mas são dois acontecimentos entrelaçados. A paixão emerge como oferenda, como entrega, como identificação com os nossos sofrimentos. A ressurreição é a outra face da moeda. Nem tudo está perdido. Com Deus, nada está perdido. Mantemo-nos na corrida. Melhor, Deus mantém-nos na corrida. A Sua misericórdia clama por nós. Espreita-nos por entre as provações inevitáveis da nossa fragilidade humana. Desafia-nos. Escutai o Meu filho e vinde para que Eu reine em vós. Se Deus reina em nós, nada nos derrubará em definitivo. Daí, sublinhe-se uma vez mais, a importância da oração, para que em nós seja visível a presença e o amor de Deus, para que Ele possa transparecer a beleza da eternidade que se inicia connosco no tempo atual. Vamos ressuscitando com Ele. Somos chamados, seguindo Cristo, a ser luz para os outros, a transparecer em nós a Graça e a Bondade de Deus.
       4 – Em Abraão, Deus encontra um interlocutor privilegiado com quem fará uma primeira Aliança. A promessa de uma terra e de uma descendência numerosa. Abraão é posto à prova. A idade avançada aponta para a infertilidade e, no concreto, para a "desonra". Mas Deus não desiste de nós e não Se dá por vencido para que também nós não desistamos. A oferenda de Abraão – «Toma uma vitela de três anos, uma cabra de três anos e um carneiro de três anos, uma rola e um pombinho» – é trespassada pelo fogo divino. Desta forma, Deus sela a Aliança com Abraão. Por sua vez, Abraão vislumbra a presença de Deus por aquele brasido fumegante, e segue adiante!

       5 – "A nossa pátria está no Céu". Naquela montanha, Jesus dá aos seus discípulos um vislumbre da eternidade, como promessa, como desafio, como compromisso. O Céu está ao nosso alcance, ainda que haja um caminho a percorrer, o que implicará esforço, trabalho, sacrifício, com suor e lágrimas, luta, mas vai valer a pena, porque Deus é connosco, e Ele não nos vai deixar mal.
       O Apóstolo São Paulo, nesta missiva aos Filipenses, apresenta-se como referência, não por sobranceria mas para nos incentivar a viver ao jeito de Jesus: "Sede meus imitadores e ponde os olhos naqueles que procedem segundo o modelo que tendes em nós. Porque há muitos, de quem tenho falado várias vezes e agora falo a chorar, que procedem como inimigos da cruz de Cristo".
       São Paulo envolve-se totalmente no anúncio do Evangelho, preocupando-se a sério, prevenindo desvios, alertando para aqueles que semeiam a discórdia, a divisão, a dúvida: "O fim deles é a perdição: têm por deus o ventre, orgulham-se da sua vergonha e só apreciam as coisas terrenas".
       Vivemos no mundo e não fora dele ou alheados da realidade. Deus veio habitar connosco. Fez-Se um de nós. Na Oração Sacerdotal, Jesus reza ao Pai não para que nos tire do mundo mas nos livre do mal, lembrando que nem Ele nem nós somos do mundo, mas da eternidade (cf. Jo 17, 11-16). O Apóstolo Paulo dá-nos um critério de fidelidade ao Evangelho: "A nossa pátria está nos Céus, donde esperamos, como Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará o nosso corpo miserável, para o tornar semelhante ao seu corpo glorioso, pelo poder que Ele tem de sujeitar a Si todo o universo. Portanto, meus amados e queridos irmãos, minha alegria e minha coroa, permanecei firmes no Senhor".

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano C): Gen 15, 5-12. 17-18; Sl 26 (27); Filip 3, 17 – 4, 1; Lc 9, 28b-36.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Paróquia de Tabuaço e a Caminhada Quaresmal 2016

       Inserida no Arciprestado de Moimenta, Sernancelhe, Tabuaço, a nossa Paróquia, segue a CAMINHADA QUARESMAL preparada e proposta para o Arciprestado.
       Seguindo o Ano Santo da Misericórdia, acentuar-se-á, em cada domingo uma das Obras de Misericórdia, em conformidade com a Liturgia da Palavra. Assumir-se-á um gesto, um símbolo ou uma intervenção que ilustre a Obra de Misericórdia ou reflita a Palavra de Deus. De seguida pode ver-se o esquema desta caminhada:
A construção de um DESERTO que evoca as palavras do Primeiro Domingo da Quaresma, os 40 dias de Jesus no deserto, mas também enquadra a Quaresma, como 40 dias de preparação para a celebração festiva da Páscoa.
É luminoso um dos Prefácios para a Quaresma (V):
"Senhor, Pai santo, rico de misericórdia, é verdadeiramente nossa salvação bendizer o vosso nome, no nosso itinerário para a luz pascal, seguindo os passos de Cristo, mestre e exemplo da humanidade reconciliada no vosso amor. Vós abris de novo à Igreja o caminho do Êxodo, através do deserto quaresmal, para que, aos pés da montanha santa, de coração contrito e humilhado, tome consciência da sua vocação como povo da aliança, reunido para cantar o vosso louvor, escutar a vossa palavra e viver a experiência admirável dos vossos prodígios".

Viver a Quaresma ao ritmo da Liturgia e do Jubileu


Viver a Quaresma à luz da Liturgia e do Jubileu

A Quaresma há de ser vivida à luz da Páscoa, de onde nos vem a salvação. Jesus vive, apareceu aos discípulos e faz-Se presente pelos Sacramentos, pela oração e pela caridade, congregando-nos como comunidade crente. Se voltássemos do sepulcro sem a presença luminosa de Jesus, tudo seria uma desilusão que daria lugar à dispersão.

O Papa Francisco lança-nos o desafio: “A Quaresma deste Ano Jubilar seja vivida mais intensamente como tempo forte para celebrar e experimentar a misericórdia de Deus. Quantas páginas da Sagrada Escritura se podem meditar, nas semanas da Quaresma, para redescobrir o rosto misericordioso do Pai!” (Misericordiae Vultus).

Algumas referências breves ao Evangelho da Quarta-feira de Cinzas e dos domingos da Quaresma:

QUARTA-FEIRA DE CINZAS: três práticas para melhor preparar a Páscoa: o jejum, a oração, a esmola, com a discrição e a humildade próprias de quem coloca o Outro no centro e não a si mesmo (cf Mt 6, 1-6.16-18)

PRIMEIRO DOMINGO: As tentações superadas pela proximidade com Deus e com a Sua Palavra. “Nem só de pão vive o homem… Ao Senhor teu Deus adorarás, só a Ele prestarás culto” (Lc 4, 1-13).

SEGUNDO DOMINGO: A transfiguração de Jesus inicia a nossa transfiguração, para transparecermos Jesus Ressuscitado. «Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O» (Lc 9, 28b-36).

TERCEIRO DOMINGO: O arrependimento é o início do caminho para acolhermos a graça de Deus. «Se não vos arrependerdes, morrereis todos do mesmo modo». Maior que o nosso pecado, a misericórdia de Deus. Ele espera por nós, até ao limite: «Senhor, deixa-a ficar ainda este ano… talvez venha a dar frutos» (Lc 13, 1-9).

QUARTO DOMINGO: Misericordiosos como o Pai da Parábola, que não só perdoa como faz festa pelo regresso do filho: «Este teu irmão estava morto e voltou à vida» (Lc 15, 1-3.11-32).

QUINTO DOMINGO: O pecado envergonha-nos, mas não é um problema para Deus. «Vai e não tornes a pecar» (Jo 8, 1-11).

DOMINGO DE RAMOS:
«Bendito o Rei que vem em nome do Senhor» (Lc 19, 28-40).
«Isto é o meu Corpo entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim…
«Este cálice é a nova aliança no meu Sangue, derramado por vós…
«O maior entre vós seja como o menor e aquele que manda seja como quem serve…
«Pai, se quiseres, afasta de Mim este cálice. Todavia, não se faça a minha vontade, mas a tua…
«Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso…
«Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito» (Lc 22, 14 – 23, 56).

Texto publicado na Voz de Lamego, edição de 9 de fevereiro de 2016

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Domingo I da Quaresma - ano C - 14 de fevereiro

       1 – A Quarta-feira de Cinzas dá início à Quaresma com o gesto significativo da imposição das cinzas sobre as nossas cabeças, recordando-nos algo de essencial para continuarmos a ser humanos: a nossa ligação aos outros e a Deus. A fragilidade não é um atributo de menoridade, mas a oportunidade de nos abrirmos aos outros e ao Transcendente. A cinza e a areia, a pequenez e o deserto. Tomar consciência dos nossos limites, dispondo-nos a acolher Deus para acolhermos os nossos semelhantes, especialmente os mais frágeis.
       Nesta semana acentuou-se a discussão à volta da eutanásia, ou melhor, da morte assistida. Depois da facilitação do aborto, sem qualquer controlo nem reflexão, é mais um passo em ordem à raça ariana defendida por Hitler e pelo nazismo: eliminação de todos os seres humanos diminuídos – os não-nascidos, idosos, pessoas portadoras de deficiência, doentes... e, depois, de todos os que nos incomodam, sejam judeus ou turcos ou os nossos vizinhos. Corre já a discussão defendendo o "aborto" dos nascituros. Um casal de cientistas veio defender que um bebé quando nasce é igual a um feto de 12 ou de 24 semanas, ainda não decide por si mesmo, logo não é portador de direitos, logo os pais podem decidir se vive ou se morre, independentemente dos motivos. Mais algum tempo e decidir-se-á sobre qualquer pessoa que não tenha pleno uso da razão!
       Salvaguarde-se o respeito e o acolhimento de todos os que viveram situações traumáticas e, que muitas vezes, não encontraram quem ajudasse positivamente. Por conseguinte, no Jubileu da Misericórdia o Papa Francisco concedeu a todos os sacerdotes a faculdade de absolver as pessoas envolvidas no aborto, para que todos beneficiem da Misericórdia de Deus.
       O gesto, muito expressivo, das cinzas, mas de toda a vivência quaresmal, aviva-nos a consciência sobre a nossa indigência e finitude. Somos vasos de barro nos quais Deus coloca a abundância do Seu amor e da Sua misericórdia. Cabe-nos cuidar uns dos outros, reconhecendo-nos promotores da vida e não causadores de morte, de abandono, de indiferença.
       2 – Jesus, guiado pelo Espírito Santo, vai para o deserto e leva-nos com Ele, para fazermos a experiência do despojamento, da humildade, capacitando-nos para as situações mais adversas.
       A opção de Jesus é inequívoca. Deixa-Se conduzir pelo Espírito, para que n'Ele sobrevenha a vontade do Pai, mesmo quando as tentações se querem sobrepor à Sua missão. Quarenta dias alimentando-Se de outro pão, de uma ligação mais forte que a fome ou que a morte.
       O deserto remete-nos para o essencial, pondo em evidência as nossas fraquezas, libertando-nos do que é acessório. Com o avançar dos dias começam as dúvidas e as incertezas, os suores frios e as alucinações! É possível perder-se não havendo ninguém por perto a quem recorrer. Quando estamos mais frágeis, tudo nos passa pela cabeça!
       Vem o Diabo com um caminho alternativo, caminho do poder e da força, caminho da facilidade e da indiferença, sem tocar o humano, o frágil, a indigência, caminho do milagre e do espetáculo impondo-nos a Sua divindade, caminho de egoísmo, utilizando o poder em benefício próprio, excluindo todo o trabalho e sacrifício, todo o esforço:
A) «Se és Filho de Deus, manda a esta pedra que se transforme em pão»; B) «Eu Te darei todo este poder e a glória destes reinos, porque me foram confiados e os dou a quem eu quiser. Se Te prostrares diante de mim, tudo será teu»; C) «Se és Filho de Deus, atira-Te daqui abaixo, porque está escrito: ‘Ele dará ordens aos seus Anjos a teu respeito, para que Te guardem’; e ainda: ‘Na palma das mãos te levarão, para que não tropeces em alguma pedra’».
       As respostas de Jesus são concludentes: 
A) «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem’»; B) «Está escrito: ‘Ao Senhor teu Deus adorarás, só a Ele prestarás culto’»; C) «Está mandado: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’».
       Seguindo o Caminho de Jesus, decalcando a Sua postura e a Sua intimidade com o Pai, ser-nos-á possível vencer as tentações.
       3 – Tantas situações da vida em que gostaríamos de ter o poder de mudar as coisas, de vencer os adversários, de que nos caísse do céu uma vida facilitada sem procura nem esforço! Como gostaríamos de ter os outros aos nossos pés como se fôssemos as pessoas mais importantes do mundo. A vida de mão beijada! Sim, mas isso não seria a nossa vida! A vida é-nos dada por Deus, em abundância, mas para viver, para nos esforçarmos, para convivermos com as adversidades, mas dando luta, sem desistir.
       Deus é Pai de misericórdia e está connosco, nos nossos desertos, como esteve com Jesus naquele deserto. Mais à frente a tentação virá de enxurrada, no Horto das Oliveiras, um deserto (interior) mais intenso: Jesus queria que tudo passasse rapidamente e de forma indolor. Mas foi só um momento, a tentação. Não é o deserto que nos mata. O que nos mata é não termos Alguém a quem recorrer. O que nos mata é o sem-sentido da vida, o não ter nada por que morrer ou por que viver!
       A vida de Jesus será uma oferenda permanente. Oferecer-Se-á por nós, esgotando-Se. Não usará o poder em benefício próprio. Não Se salvará a Si mesmo. A tentação da cruz – salva-te a ti e a nós também – será superada pela entrega – Pai, perdoa-lhes. Fácil seria transformar as pedras em pão. Mas não seria humano. Humano é trabalhar com honestidade pelo pão de cada dia. Quando necessário Jesus há de transformar a água em vinho de qualidade que sacia a nossa sede e nos permite continuar a festa da vida; multiplicará os pães e converter-nos-á em pessoas solidárias, para que não falte o alimente a ninguém. "Tive fome e deste-me de comer". A fé traduz-se nas obras de misericórdia.
       Em muitas situações seria mais fácil ter poder e ter riqueza e mandar nos outros e ter muitas pessoas a servir-nos. O caminho de Jesus é o serviço, o centro são os pobres, a opção primeira é pelos últimos. O filho do Homem veio para servir e dar a vida por nós!
       D. António Couto, na mensagem para esta Quaresma, desafia-nos: "Façamos, amados irmãos e irmãs, do tempo da Quaresma um tempo de diferença, e não de indiferença. Dilatemos as cordas do nosso coração até às periferias do mundo, e que o nosso olhar seja de Misericórdia para os nossos irmãos de perto e de longe". O mundo não gira à nossa volta, mas dos irmãos mais pequeninos.

       4 – Nem só de pão vive o homem mas de toda a palavra que sai da boca de Deus (Lc 4, 4; Mt 4, 4). Duas partes da mesma equação. Se nos centrarmos apenas no pão corremos o risco de nos esquecermos de tudo o que nos rodeia. Se nos fixarmos na Palavra de Deus, o "risco" do compromisso e da partilha solidária. A Palavra de Deus alimenta-nos e envia-nos aos outros, ao cuidado de todos, mas sobretudo dos mais pobres. O que fizeste ao mais pequeno dos meus irmãos a Mim o fizeste (Mt 25, 40).
       Deus ouve a voz dos oprimidos, do pobre, da viúva e do órfão. Vem em auxílio dos seus eleitos, vem socorrer e salvar o seu povo. "O Senhor Deus dos nossos pais ouviu a nossa voz, viu a nossa miséria, o nosso sofrimento e a opressão que nos dominava".
       Ontem como hoje, somos peregrinos, caminheiros. "Meu pai era um arameu errante". Desde Abraão que moramos como que em terra estrangeira, preparando-nos para a pátria definitiva, quando Deus enxugar todas as nossas lágrimas, quando todos formos irmãos em Cristo.
       Moisés prioriza os bens da terra. Serão oferenda para Deus que nos libertou. Se Ele nos libertou também há de prover à abundância do alimento. Partindo de Deus, chegaremos aos irmãos.
       Por sua vez, o apóstolo São Paulo veicula a precedência da fé e da Palavra de Deus, acessível a todos, acentuando a gratuidade da salvação: «A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração… Esta é a palavra da fé que nós pregamos. Se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor e se acreditares no teu coração que Deus O ressuscitou dos mortos, serás salvo... Não há diferença entre judeu e grego: todos têm o mesmo Senhor, rico para com todos os que O invocam».

       5 – Primeiro o Reino de Deus e o mais virá por acréscimo. Peçamos com fé ao Senhor, para que nos conceda "que, pela observância quaresmal, alcancemos maior compreensão do mistério de Cristo e a nossa vida seja dele um digno testemunho" (Coleta).
       Jesus confia no Pai, pelo que não precisa de O pôr à prova. Com efeito, Jesus é que é provado na Sua confiança. No meio do deserto Ele pode rezar connosco o Salmo: “Na palma das mãos te levarão, para que não tropeces em alguma pedra… Porque em Mim confiou, hei de salvá-lo, hei de atendê-lo, estarei com ele na tribulação, / hei de libertá-lo e dar-lhe glória”.
       Súplica e não usurpação. O Diabo quer obrigar Deus. O Salmo abandona-nos confiantes nas mãos de Deus que virá em nosso auxílio, gratuitamente, não porque sou eu, ou sou o melhor do mundo, mas porque sou Filho e porque Ele é Pai de misericórdia. Para todos.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano C): Deut 26, 4-10; Sl 90 (91); Rom 10, 8-13; Lc 4, 1-13.