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sábado, 15 de julho de 2017

São Boaventura, Bispo e doutor da Igreja

Nota biográfica:
       Nasceu aproximadamente no ano 1218 em Bagnoregio, na Etrúria; estudou filosofia e teologia em Paris e a seguir ensinou as mesmas disciplinas, com grande aproveitamento, aos seus irmãos da Ordem dos Frades Menores. Foi eleito Ministro Geral da sua Ordem, cargo que exerceu com prudência e sabedoria. Foi nomeado cardeal bispo de Albano e morreu em Lião no ano 1274. Escreveu muitas obras filosóficas e teológicas.

Oração (de colecta):
       Concedei-nos, Deus todo-poderoso, que, celebrando hoje a memória de São Boaventura, aproveitemos a riqueza dos seus ensinamentos e imitemos a sua ardente caridade. Por Nosso Senhor...

A MAIOR DAS CAPACIDADES: AMAR

       «Certa vez, Frei Egídio (um dos companheiros mais queridos de S. Francisco), homem muito simples e piedoso, falou assim ao Ministro General, Frei Boaventura (+ 1274), um dos maiores teólogos da Igreja.
       - Meu Pai, Deus deu-lhe muitos dotes. Eu, pessoalmente, não recebi grandes talentos. O que devemos nós, ignorantes e tolos, fazer para sermos salvos?
       O douto e santo Frei Boaventura elucidou-o dizendo:
       - Se Deus não desse ao homem nenhuma outra capacidade senão a de amar, isto lhe bastaria para se salvar.
       - Quer dizer que um ignorante, pode amar a Deus tanto como um sábio?, perguntou Frei Egídio, tentando entender.
       - Mesmo uma velhinha muito ignorante, disse-lhe com ternura o grande teólogo, pode amar mais a Deus do que um professor de Teologia.
       Dando pulos de alegria, Frei Egídio correu para a sacada do convento e começou a gritar:
       - Ó velhinha ignorante e rude, tu que amas a Deus Nosso Senhor, podes amá-l`O mais do que o grande teólogo Frei Boaventura.
       E, comovido, ficou ali, imóvel, durante três horas.»

(Pe. Neylor J. Tonin, em "Histórias de Sabedoria"), in Abrigo dos Sábios.

São Boaventura, bispo: «Itinerário da alma para Deus»

À sabedoria mística revelada pelo Espírito Santo

Cristo é o caminho e a porta. Cristo é a escada e o veículo; o propiciatório colocado sobre a arca de Deus e o sacramento escondido desde os séculos. Quem olha para este propiciatório, de rosto plenamente voltado para ele, contemplando-o suspenso na cruz, com fé, esperança e caridade, com devoção, admiração e alegria, com veneração, louvor e júbilo, realiza com Ele a Páscoa, isto é, a passagem. E assim, por meio da vara da cruz atravessa o Mar Vermelho, saindo do Egipto e entrando no deserto, onde saboreia o maná escondido. Descansa também no túmulo com Cristo, parecendo exteriormente morto, mas sentindo, quanto lhe é possível no estado de viador, aquilo que na cruz foi dito ao ladrão que aderiu a Cristo: Hoje estarás comigo no paraíso.
Nesta passagem, se for perfeita, é necessário que se deixem todas as operações intelectivas e que o ápice mais sublime do amor seja transferido e transformado totalmente em Deus. Isto porém é uma realidade mística e ocultíssima, que ninguém conhece a não ser quem recebe, nem ninguém recebe senão quem deseja, nem deseja senão aquele que é inflamado, até à medula da alma, pelo fogo do Espírito Santo, que Cristo enviou à terra. Por isso diz o Apóstolo que esta sabedoria mística é revelada pelo Espírito Santo.
Se pretendes saber como isto sucede, interroga a graça e não a ciência, a aspiração profunda e não a inteligência, o gemido da oração e não o estudo dos livros, o esposo e não o professor, Deus e não o homem, a nuvem e não a claridade. Não interrogues a luz, mas o fogo que tudo inflama e transfere para Deus, com unção suavíssima e ardentíssimos afectos. Esse fogo é Deus; a sua fornalha está em Jerusalém. Cristo acendeu-o na chama da sua ardentíssima paixão. Só verdadeiramente o recebe quem diz: A minha alma preferia o estrangulamento, e os meus ossos a morte. Quem ama esta morte pode ver a Deus, porque é indubitavelmente verdade que nenhum homem poderá ver-Me e continuar a viver.
Morramos, pois, e entremos nessa nuvem; imponhamos silêncio às preocupações terrenas, paixões e imaginações; passemos, com Cristo crucificado, deste mundo para o Pai, a fim de que, ao manifestar-se-nos o Pai, digamos com o apóstolo Filipe: Isto nos basta; e ouçamos com São Paulo: Basta-te a minha graça; e exultemos com David, exclamando: Desfalece a minha carne e o meu coração: Deus é o meu refúgio e a minha herança para sempre. Bendito seja o Senhor para sempre. E todo o povo diga: Amen. Amen.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

ANSELM GRÜN - AS OITO BEM-AVENTURANÇAS

ANSELM GRÜN (2010). As oito bem-aventuranças. Caminho para uma vida bem conseguida. Braga: Editorial A.O., 184 páginas.
       Anselm Grün é Monge beneditino, formado em economia e teologia, alemão. Através dos seus livros, conferências, procura testemunhar os tesouros da vida. É por muitos considerado um guia espiritual, reunindo grandes audiências. Já tivemos oportunidade de ler e de recomendar outros títulos, tais como: A sublime arte de envelhecer e tornar-se uma bênção para os outros; O Pai-Nosso. Uma ajuda para a vida autêntica; Que fiz eu para merecer isto? A incompreensível justiça de Deus.
       Este é mais uma belíssimo livro de bolso, que se lê com agrado sobre uma temática essencial da pregação e do proceder de Jesus. As Bem-aventuranças não garantem a vida eterna, mas são um caminho que nos levam a viver melhor e mais próximos do jeito de Jesus.
       O autor parte desde logo do significado de "Bem-aventurança", a procura da felicidade, comum a todos as pessoas, ainda que de maneiras distintas e caminhos diferentes.
       Jesus sobe ao MONTE com os discípulos. O monte aproxima-nos de Deus, da luz. Na cidade, a confusão, o barulho, a poluição. A montanha dissipa o nevoeiro e conduz-nos à calmaria, à natureza em que é possível ouvir os pássaros, o vento, ouvir a Deus. Tal como no Horeb ou Sinai, em que Deus dá a Lei ao Povo através de Moisés, agora Jesus, no monte, dá-nos uma leitura nova da Lei. As leis é para que vivamos harmoniosamente uns com os outros. "É possível uma boa convivência".
       Anselm Grün segue de perto a interpretação de São Gregório de Nisa, lembrando-nos que ele "vê a montanha como o lugar para onde seguimos Jesus, a fim de nos elevarmos para cima das nossas concepções baixas e limitadas «até à montanha espiritual da contemplação mais sublime» (Gregório, 153). O monte está envolvido pela luz de Deus".
       Seguindo o título dos capítulos, o autor faz-nos perceber que as bem-aventuranças são promessa de uma vida em plenitude, acentuando também que "a felicidade não é uma consequência do comportamento, mas é expressão desse comportamento... as oito atitudes das Bem-aventuranças são o lugar onde podemos fazer a experiência de Deus e onde, em Deus, podemos experimentar a nossa verdadeira felicidade... são o caminho para uma vida bem conseguida... aponta um caminho. E podemos ver, no próprio Jesus, como é que Ele percorreu o caminho".

1.ª Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino de Deus.
"Quem é pobre em espírito está aberto a Deus que habita nele... Não usa Deus, a fim de ter alguma coisa para si, a fim de conseguir a satisfação dos seus desejos, ou a fim de se sentir melhor ou mais seguro em Deus. A pobreza em espírito é desinteressada... Para São Gregório de Nisa, a pobreza em espírito é a condição para a pessoa se elevar até Deus, em liberdade... A primeira bem-aventurança é, pois, uma caminho de liberdade interior para a verdadeira felicidade". Por deles é o reino de Deus..."O Reino dos Céus é o lugar onde Deus reina em nós. Quem é pobre em espírito, renuncia a ter as rédeas de tudo e a tudo controlar em si. está aberto ao domínio de Deus. Onde Deus reina nele, encontra o acesso ao próprio eu... se alguém se liberta de toda a dependência das coisas deste mundo, nele reina Deus. E o reinado de Deus faz dele verdadeiramente livre".
2.ª Bem-aventurados os que choram porque serão consolados.
É necessário fazer o luto de tudo o que não podemos ser, para valorizarmos o que somos e o que podemos ser, com as circunstâncias que nos contextualizam com o mundo e com o tempo atual. "Aquele que sou, saúda, tristemente, aquele que eu poderia ser" (Kierkegaard). "Jesus proclama bem-aventurados aqueles que estão dispostos a chorar, os que enfrentam a dor da despedida das ilusões. Só eles continuarão sãos, interiormente... Jesus descreve o luto como uma caminho para a felicidade... o luto é um caminho para eu enfrentar a realidade e para me libertar das ilusões com que encubro a realidade. No luto não me esquivo à dor... Ninguém pode realizar todas as possibilidades da vida... Cada decisão me dá alguma coisa e me priva de algo. Compromete-me. E em cada decisão, excluo alguma coisa. E tenho de fazer luto por aquilo que excluo. Se falho o luto, então encho esse défice que fica em mim com uma qualquer sucedâneo... O luto chora e, desse modo, fecunda a alma. A tristeza, pelo contrário, é apenas chorosa... É Cristo quem nos consola. Sim, Ele mesmo é a consolação. Se pomos o olhar n'Ele, no meio do nosso luto, já experimentamos a consolação... e o luto transforma o seu coração..."
3.ª Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.
"A agressividade está a transformar-se num problema... Tudo tem de ser protegido, para não ser destruído... No terror, pratica-se uma agressividade sem limite. Onde ela é praticada em nome de Deus, não conhece barreiras. O valor do ser humano já não conta. O único objetivo é propagar o medo... As palavras de Jesus sobre a doçura e a mansidão parecem ser, de facto, de um outro mundo". Em contrapartida, "a mansidão nãos e deixa arrastar pelos impulsos, pela ira, ou pelos ciúmes. Permanece arreigada no solo... Jesus não proclama felizes os insensíveis. «Ditosos são, portanto, aqueles que não cedem rapidamente aos movimentos passionais da alma, mas conservam a serenidade no seu íntimo graças à temperança» (São Gregório, 170)... As palavras de Jesus desafiam-me a transmitir, também para fora, a mansidão que experimento dentro de mim... Confio no poder da ternura. Ela é água que amolece a pedra dura... Trabalhamos em nós próprios mas renunciamos a ser perfeitos... A minha terra pertence-me. Expande-se. Herdo a terra, isto é, tenho chão suficiente debaixo dos pés. Deixo de ser dividido... só nos pertencemos a nós próprios se lidamos amistosamente com o que assoma em nós..."
4.ª Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
O autor contextualiza o tempo em que as Bem-aventuranças foram proclamadas por Jesus, o contexto das comunidades que acolheram a mensagem de Jesus, interpretações ao longo da história da Igreja, com pontes à filosofia grega e ocidental, ao ambiente semita, à religiosidade popular. Ponte importante com a atualidade. Começa por referir que "o rendimento médio nos vinte países mais ricos do mundo é 37 vezes superior ao dos vinte países mais pobres... nos últimos 40 anos duplicou a distância... entre as 100 maiores unidades económicas do mundo há 52 empresas mas apenas 48 estados... Não há justiça quanto à igualdade de oportunidades... A injustiça conduz, ultimamente, à guerra". Há, por outro lado, uma «judicialização» cada vez mais abrangente. Tudo está regulamentado. "Os juristas determinam casa vez mais a vida coletiva... já não valem a fidelidade e a confiança, mas unicamente a segurança legal". Anselm Grün constata que "as pessoas anseiam pela verdadeira justiça, por um mundo onde reine a justa distribuição dos bens e das oportunidades, no qual se faz justiça a todos, tanto aos pobres como aos ricos, tanto aos mais fortes como aos mais fracos... existe a convicção de que só onde reina a justiça pode florescer a paz... A fome e a sede de justiça referem-se a todos os homens, a uma ordem justa para todos, à vida em retidão que Deus pensou para todos... As virtudes da justiça, da prudência, da coragem e da temperança põem-nos em contacto com o nosso interior". Segundo São Gregório de Nisa, as virtudes enchem-nos "de doçura e de alegria, em todos os momentos da nossa vida". Com efeito, ainda citando São Gregório, "A bem-aventurança é uma convite a uma vida feliz. Que exercita a justiça não ficará saciado apenas no Além. Será feliz e viverá satisfeito já no meio da luta pela justiça".
5.ª Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
No Jubileu Extraordinário da Misericórdia que decorre (8 de dezembro de 2015 a 20 de novembro de 2016), esta Bem-aventurança coloca-nos em sintonia e em sinfonia com o desejo do Papa Francisco de refletir e viver as Obras de Misericórdia. O Coração misericordioso e compassivo de Deus, que Se faz peregrino connosco, mas que nos Seus gestos encontremos o desafio e o compromisso para vivermos como irmãos, acolhendo e integrando todos, sobretudo os que se encontram em situação mais frágil. Partindo da atualidade, o autor começa por mostrar como o "mercado é implacável. Só o mais forte consegue impor-se, Os outros ficam pelo caminho. O carácter implacável do mercado parece influenciar também a vida social... Quem sabe «vender-se» bem, «vale» alguma coisa... Aqui só contam os números e não a pessoa". Quanto à misericórdia, dela fazem parte a compaixão e o «sofrer com». Segundo alguns, a compaixão é fraqueza (por exemplo o Terceiro Reich). "A falta de misericórdia leva ao endurecimento e à violência na convivência mútua... Só o mais forte consegue impor-se. Os outros extinguem-se". Por conseguinte, "neste mundo frio, cresce a aspiração a um mundo misericordioso... [em que] sejamos respeitados na nossa dignidade humana... Jesus manteve-se fiel à misericórdia. E declarou bem-aventurados os que são misericordiosos. Porque alcançarão. Ele acreditou na vitória da misericórdia e da compaixão... Se somos misericordiosos também experimentamos a misericórdia... É misericordioso o que lida consigo e com os outros... Lido amorosamente com a esta criança em mim, necessitada de ajuda. Confio em que a minha criança interior vá amadurecendo, no meu colo materno e no colo materno de Deus, e que venha a ser o que deve ser a partir de Deus... A misericórdia brota do amor ao próximo... A misericórdia devolve-nos a vida... A compaixão pela nossa doença devolve-nos a saúde... A misericórdia de Deus permite-nos ser mais misericordiosos connosco próprios... Quem é misericordioso compreendeu quem é Deus. E participa de Deus. Está em Deus. A misericórdia é, para nós, os seres humanos, o caminho para o coração de Deus".
6.ª Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.
Olhando para o nosso tempo, o autor conclui que "a desconfiança está na moda". Não se aceitam as palavras sem reservas, crê-se que há sempre segundas intenções. No entanto, "aspiramos à clareza e à pureza de sentimentos, a pessoas que possuem um coração puro, que fazem, sem segundas intenções, o que reconheceram ser reto, e que dizem o que para elas brilha como verdade... aspiramos à pureza do coração... O coração puro é o coração simples, sincero, claro... Jesus exorta-nos a deixarmos que a luz irradie sobre o nosso corpo e expulse todas as trevas. Quando nos encontramos com uma pessoa cujos olhos brilham, sem segundas intenções, então também algo em nós se torna claro e límpido". Na Transfiguração, os discípulos "veem, de repente, claramente, quem é Jesus Cristo. E no espelho de Jesus reconhecem-se a si próprios... A meta do ser humano é ver a Deus, na visão passar a ser um com Deus... Se vemos a Deus esquecemo-nos de nós mesmos. Fazemo-nos um com Deus e, ao mesmo tempo, connosco próprios, Na unidade com Deus tomamos consciência de nós próprios, chegamos ao nosso esplendor original e não falseados... Sentimo-nos luz, iluminados pela luz de Deus. Isto é o ápice da Encarnação, o mais alto a que um ser humano pode aspirar". A pureza do coração faz bem à saúde, pois aquele que se encontrou consigo próprio, com a sua luz interior, "deixa de procurar no exterior a cura das suas feridas. Já não espera, vinda do afeto e da ajuda dos outros, a sua saúde. Encontra-a em si mesmo se, graças à pureza, se tornou inteiramente ele próprio".
7.ª Bem aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus.
Olhando para o mundo atual, vemos como é frágil da paz. São disso exemplo as duas Guerras mundiais, mas igualmente tantas zonas de conflito bélico, em diferentes latitudes. No tempo de Jesus Cristo a paz é periclitante. O povo está sob o domínio romano e aquilo que se chama a paz romana (pax romana) não passava efetivamente de pacificação, de imposição da paz pela força, pelo domínio, pelo controlo apertado, aniquilando todos os focos de resistência e até povos inteiros. "Era uma paz violenta". A paz não é algo de passivo, de deixar correr, sem fazer nada, sem intervir, mesmo quando a violência o atinge. A paz é ativa, implica. "Criar paz significa a disponibilidade ativa para ir ao encontro das pessoas que estão em conflito e reconciliá-las entre si". Também em nós devemos fazer as pazes com os nossos inimigos: o nosso medo, a nossa depressão, a nossa susceptibilidade, a nossa falta de disciplina, e então os nossos inimigos convertem-se em amigos e "a nossa terra, de repente, torna-se maior do que nunca sucedeu antes. Em vez de dez mil soldados, temos à disposição trinta mil (cf. Lc 14, 31ss). Ficamos mais fortes... Só quem está em sintonia consigo próprio, ou pelo menos a caminho dessa meta, pode construir a paz entre as pessoas". Por outro lado, prossegue Anselm Grün, a construção da paz resultará do amor e do diálogo, superando o conflito interior para superar os conflitos exteriores, não pela violência mas pelo diálogo. "Se quero vencer os inimigos, não construirei a paz. O derrotado quer vir a ser, um dia, o vencedor. Assim voltará a levantar-se e a continuar a combater. Só quando se alcança um bom equilíbrio todos podem viver em paz... Construir a paz é um processo criativo... Quem cria paz, participa do poder criador de Deus, que fez tudo bem feito". Dando como exemplo Martin Luther King, o autor sublinha que "só o amor pode construir a paz. «O ódio não pode expulsar o ódio. Só o amor consegue. O ódio multiplica o ódio, a violência aumenta a violência, a dureza faz aumentar a dureza, uma espiral permanente de aniquilamento» (Feldmann, 702). O ódio não destrói apenas a convivência, prejudica também a pessoa".
8.ª Bem-aventurados os que sofrem perseguição, por causa da justiça, porque deles é o reino dos Céus.
"A injustiça no mundo clama ao céu. Mas não há quase ninguém que arrisque a pele pela justiça". No mundo atual parece que são felizes aqueles que estão do lado dos vencedores, dos lobos, daqueles que passam por cima dos outros. "A bem-aventurança desafia-nos, mas não sobrecarrega com coisas impossíveis. O que faz é fortalecer a nossa aspiração à coragem de nos empenharmos pela justiça, custe o que custar... A coragem é a expressão da liberdade interior... mantenho-me firma na justiça, mesmo que isso me cause desvantagens junto dos outros". O que me sucede de mal pode empurrar-se para a frente, para o bem. Seguindo de perto São Gregório de Nisa, o autor evoca a imagem das corridas. Os adversários que correm comigo levam-me a avançar, lutando. Os conflitos em que caio podem ajudar-me a ser mais forte.
"São Mateus compôs as oito Bem-aventuranças de tal modo que a primeira e a última contêm a promessa do Reino dos Céus. Os pobres em espírito são, como os perseguidos por causa da justiça, também pessoas interiormente livres, que não se deixam depender da opinião dos outros... porque encontraram em Deus a sua verdadeira essência. Deus reina nelas. E porque Deus reina nelas são por inteiro elas mesmas, livres do poder dos outros. Porque Deus é o seu centro, são elas próprias, no seu centro, estão em sintonia consigo mesmas".
As bem-aventuranças são um caminho para viver melhor e ser mais saudáveis.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

XXVIII Domingo do Tempo Comum - B - 11 de outubro

       1 – «Falta-te uma coisa: vai vender o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me».
       Jesus responde, exigindo o máximo, desafiando o melhor de cada um. Aceita a nossa limitação, mas também a capacidade de progredirmos. Alguém se aproxima de Jesus, a correr, e ajoelha perguntando: «Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna?».
       É um momento importante que os evangelistas sublinham e que volta a colocar-nos diante da pobreza e do compromisso com os mais pequenos. Aquele homem tem pressa em chegar perto de Jesus e esperança de encontrar respostas para a inquietação que lhe vai na alma. Deixou o que estava a fazer! É uma hipótese. Ou não queria perder tempo porque tinha muitas ocupações! Gera simpatia em Jesus e nos seus discípulos. Jesus responde-lhe com a Sagrada Escritura: «Porque Me chamas bom? Ninguém é bom senão Deus. Tu sabes os mandamentos: Não mates; não cometas adultério; não roubes; não levantes falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe’».
       Só Deus é Deus, só Deus é bom. Como seres humanos estamos a caminho, a amadurecer, a crescer, a aprender. E logo Jesus lhe recorda os mandamentos, sancionando a mensagem mosaica. Porém, cumprir a lei só por cumprir, como obrigação imposta, ou como tradição convencionada, não traz alegria à vida. Há pessoas muito certinhas ao longo de uma vida inteira e que nunca experimentaram o entusiasmo de viver e de servir amando. A vida enfaixada na lei, nos preceitos, nos medos, sem convicção, cumpre-se o que é socialmente recomendável. Falta a chama do amor, da paixão, da vida nova.
       Cumprir regras, em obediência cega, não implica viver. Jesus lança-lhe e lança-nos o repto: «Falta-te uma coisa: vai vender o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me». Nada se pode interpor entre nós e o seguimento. Se temos muitos afazeres, o seguimento de Jesus não é (ainda) para nós.
       2 – «Como será difícil para os que têm riquezas entrar no reino de Deus!»
       Jesus sendo rico fez-Se pobre para nos enriquecer com a Sua pobreza (cf. 2 Cor 8, 9). O chão do Evangelho: serviço aos outros e sobretudo aos mais pobres. Quem quiser ser o maior será o menor de todos e o servo de todos (cf. Mc 9, 30-37).
       Aquele homem, quando Jesus lhe falou na necessidade de vender os bens, não para comprar tesouros, mas para lhe ser dado um tesouro no reino dos Céus, entristeceu-se pois o seu mundo e a sua segurança eram os bens materiais que possuía. Tinha muitos bens para “comprar” a vida eterna! Mas o que há de mais importante na vida não tem preço. Jesus oferece-lhe a vida eterna!
       Apesar de ser "materialmente" um homem muito rico, é espiritualmente um homem muito pobre, que não consegue ser feliz. O que tem dá para ele e sobeja para fazer outros felizes. Há mais alegria em dar do que em receber (cf. Atos 5, 35). A felicidade mede-se mais pelo número de amigos do que pela quantidade de bens. Aprendeu a comprar, não aprendeu a receber e a dar!
       Num primeiro momento Jesus exigiu o mais básico: cumprir os mandamentos. Com o avançar do diálogo compreendeu que aquele homem esperava mais da vida. Faz-lhe um desafio maior, de entrega e de seguimento. Quem preferir a casa, os pais, os filhos, mais que a Mim não é digno de Me seguir (cf. Mt 10, 37-38). Não se trata de excluir, mas de amar. Colocando Deus como prioridade, multiplicar-se-á o amor para amar de verdade o pai, a mãe, os irmãos, o filho e/ou a filha, nunca os reduzindo instrumentalmente aos próprios gostos, apetites ou necessidades, mas tratando-os como filhos de Deus e portanto como irmãos, sem ascendência nem subserviência.
       3 – A opção preferencial pelos mais pobres, o compromisso social, a erradicação da pobreza, estão bem vincadas neste texto. Àquele homem é proposto o despojamento e a partilha; a pobreza como opção de vida, como dinamismo que irmana e enlaça nos outros. Uma pobreza para enriquecer os demais e para se enriquecer com o maior dos tesouros: a vida eterna. "De nenhum fruto queiras só metade" (Miguel Torga). Vive a vida por inteiro, e não à espera; como ator e não como espectador; age, atua, transforma o mundo que habitas. Não guardes somente para ti. Quando partires, segue contigo o que foste e viveste, nunca o que adquiriste. Verdadeiramente teu é o que partilhares com os outros. As coisas que guardas não as possuis, são elas que te possuem.
       «Como será difícil para os que têm riquezas entrar no reino de Deus!».
       Definitivamente, o que está em causa não são os bens ou a riqueza material, mas a avareza, a ganância desmedida. Naquele homem não há espaço para a vida, para a alegria, para a festa, para a partilha. Oportunidade para nos interrogarmos sobre o tempo que dedicamos à família e a apreciar o que nos rodeia. Também por esta razão o DOMINGO faz sentido, pois nos interliga à vida como um TODO, aos outros, ao mundo, às pessoas que passam e habitam a nossa vida.
       Aquele homem tinha os meios e os bens para ajudar outros a viver melhor. E seria muito mais feliz! «Meus filhos, como é difícil entrar no reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus».
       Todos precisamos de bens que configurem certa comodidade e sobretudo permitam viver com dignidade. O trabalho honesto e retribuído com justiça dignifica o trabalhador e o proprietário. Importa não esquecer, parafraseando Jesus Cristo, que o trabalho é para engrandecer a pessoa e nunca para a escravizar. Os escravos do trabalho perderão a vida, depois de perderem a alma.
       4 – «Quem pode então salvar-se?». A pergunta dos discípulos implica-nos também a nós que nos vamos agarrando às coisas, para nos sentirmos "seguros", presos a um lugar, a uma situação, a um aconchego.
       A resposta de Jesus é clarificadora: «Aos homens é impossível, mas não a Deus, porque a Deus tudo é possível». Não somos nós que nos salvamos, é Deus que nos salva para além do tempo e da história. É Deus, somente Deus, que nos resgata na nossa mortalidade e nos abre as portas da eternidade. A promessa de Jesus envolve também as perseguições, as dificuldades. Seguir Jesus exige tomar a sua cruz dia após dia e segui-l'O em todas as situações, favoráveis ou contrárias.
       A nós cabe-nos fazer o que está ao nosso alcance, cada vez com mais exigência, dando sempre o melhor de nós. A negociação dos discípulos – «Vê como nós deixámos tudo para Te seguir» – volta a mostrar como são falíveis e imaturos. Ainda se prendem a disputas, a lugares, a benesses. Ainda não se aperceberam do tempo da salvação, da gratuidade, da partilha, em que se vive o serviço e o amor ao próximo.
       No evangelho é possível encontrar Mateus (cf. Mt 9, 9-13), que deixa a banca dos impostos para seguir Jesus; é possível irmos a casa de Zaqueu, que deixa o seu posto de cobrança para vender o que tem, compensar os que prejudicou e partilhar com os pobres (cf. Lc 19, 1-10).
       Os bens materiais não impedem o seguimento. A atitude face aos mesmos é que pode impedir. Algumas mulheres seguem Jesus, juntamente com os Apóstolos, entre elas, Maria Madalena, Joana, mulher de Cuza, administrador de Herodes, Susana e muitas outras, que servem Jesus com os seus bens (cf. Lc 8, 1-13).

        5 – No meio da nossa fragilidade e do nosso pecado, socorramo-nos da palavra de Deus, que é "viva e eficaz, mais cortante que uma espada de dois gumes… capaz de discernir os pensamentos e intenções do coração… É a ela que devemos prestar contas".
       A oração sintoniza-nos com Deus, com a Sua Palavra, com a Sabedoria que d'Ele nos vem: «Orei e foi-me dada a prudência; implorei e veio a mim o espírito de sabedoria. Preferi-a aos cetros e aos tronos e, em sua comparação, considerei a riqueza como nada… Amei-a mais do que a saúde e a beleza e decidi tê-la como luz, porque o seu brilho jamais se extingue. Com ela me vieram todos os bens e, pelas suas mãos, riquezas inumeráveis».
       Rezemos com a oração (de coleta) proposta hoje na Eucaristia: "Nós Vos pedimos, Senhor, que a vossa graça preceda e acompanhe sempre as nossas ações e nos torne cada vez mais atentos à prática das boas obras".

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (B): Sab 7, 7-11; Sl 89 (90); Hebr 4, 12-13; Mc 10, 17-30.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

XXV Domingo do Tempo Comum - ano B - 20.09.2015

       1 – Morte e Ressurreição. Eis o mistério maior (e único) da nossa fé cristã. Em cada domingo, os cristãos celebram a Páscoa semanal, mas também em cada Eucaristia, sacramento no qual Jesus Se faz presente sob as espécies do vinho e do pão que pelo Espírito Santo Se transformam no Seu Corpo e no Seu Sangue. Oferenda que se torna atual no Sacramento da Eucaristia.
       No Evangelho, Jesus, muito cedo, anuncia este mistério: «O Filho do homem vai ser entregue às mãos dos homens, que vão matá-l’O; mas Ele, três dias depois de morto, ressuscitará».
       Apesar da Confissão de Fé, feita por Pedro em nome de todos, dos discípulos daqueles dias e de hoje, que somos nós, há ainda um longo caminho a percorrer, para amadurecer a fé, para perceber a vontade de Deus, para aperfeiçoar a identificação com Jesus e com o Seu Evangelho de serviço sem fronteiras.
       O anúncio da morte, e a chegada iminente do reino de Deus, leva os discípulos a discutir lugares, para ver quem ganhará a dianteira. Haveria alguns candidatos óbvios: Tiago e João, André e Pedro, Judas Iscariotes (um dos mais próximos de Jesus e com maior preponderância no grupo, sendo o responsável pelas economias e pela gestão logística das jornadas missionárias). Os Evangelhos (cf. Mc 10, 35-45; Lc 22, 24-27; Jo 13, 1-17) mostrar-nos-ão como Tiago e João solicitam a Jesus os lugares à Sua direita e à Sua esquerda. Este facto foi ligeiramente modificado por São Mateus (20, 20-28) que coloca a mãe dos dois a pedir, protegendo-os desta pretensão e ousadia. Esse episódio ser-nos-á apresentado daqui a quatro domingos, na versão de São Marcos.
       2 – O caminho serve para evangelizar. Mas por vezes Jesus deixa que os discípulos conversem e só os interpela em casa. Faz-nos lembrar aquelas famílias, cujos filhos vão discutindo sem que os pais intervenham, a não ser mesmo necessário, e quando chegam a casa aproveitam e esclarecem algum ponto, rebatendo ou alertando para alguma situação menos positiva. Também assim no contexto de um grupo ou uma turma, os reparos quanto possível devem fazer-se discretamente e de preferência individualmente. Neste caso, todo o grupo está em causa. Precisam de amadurecer ideias. Jesus deixa porquanto que discorram entre eles.
       O evangelista refere que os discípulos estavam com receio em interrogar Jesus. Talvez por saberem o que Ele pensava. Mas querem tirar a limpo. Têm que arriscar. Vimos como Pedro repreendeu Jesus quando Ele anuncia a Sua morte para breve. Vê-se agora que a repreensão a Pedro é extensível a todos os discípulos. Se se aproxima a hora da morte de Jesus, há que assegurar o futuro sem Jesus. Pelo caminho vão jogando uns com os outros sobre as cartadas de cada um: qual deles é o maior e que pode assumir um lugar de destaque?
       Enquanto discutem lugares, Jesus chega-lhes a mostarda ao nariz para lhes recordar a missão do Filho do Homem que veio para servir e não para ser servido, veio para dar a vida pela humanidade. O serviço é o único caminho do discípulo. Quem quiser segui-l'O tem de correr atrás de Jesus, seguindo os Seus passos, de serviço e de auto oferenda pelos outros. O caminho do amor passa pela cruz. Aquele que ousar desviar-se da Cruz de Jesus, perde-se a si mesmo, pois não há amor que não acarrete preocupação, serviço, dedicação ao outro e até dar a própria vida pela vida de quem se ama. Qual o pai que não daria a vida pelo seu filho? Qual o pai que amando não sofre?
       Mas se não há caminho cristão sem cruz, também não o há sem serviço, sem humildade, sem a pequenez que deixa transparecer a grandeza de Deus.
       Jesus chama-os, reúne-os à Sua volta – Cristo deve estar sempre no centro, no meio, Ele preside – e senta-se. É a atitude de quem ensina. E diz-lhes: «Quem quiser ser o primeiro será o último de todos e o servo de todos». E, para que não haja dúvidas, Jesus toma uma criança, coloca-a no MEIO deles, abraça-a e sublinha: «Quem receber uma destas crianças em meu nome é a Mim que recebe; e quem Me receber não Me recebe a Mim, mas Àquele que Me enviou».
       Curioso: eles discutem o futuro para o tempo em que Jesus não está; Jesus propõe-lhes um futuro em que estará sempre no MEIO, em carne e osso, pelo Espírito Santo, ou pelos mais pequenos do Reino. Não são os discípulos que devem ocupar o MEIO mas aqueles que eles devem servir.
       3 – Como cristãos, levando a sério a mensagem do Evangelho, o dizer e o fazer de Jesus, conduzir-nos-á a disputar a caridade, o serviço, a atenção, o cuidado aos outros. Assim o rezamos: «Senhor, que fizestes consistir a plenitude da lei no vosso amor e no amor do próximo, dai-nos a graça de cumprirmos este duplo mandamento, para alcançarmos a vida eterna» (coleta).
       Na igreja, a discussão há de andar à volta das situações que é necessário atender.
       São Tiago volta a ser muito pragmático a propósito: «Onde há inveja e rivalidade, também há desordem e toda a espécie de más ações. Mas a sabedoria que vem do alto é pura, pacífica, compreensiva e generosa, cheia de misericórdia e de boas obras, imparcial e sem hipocrisia. O fruto da justiça semeia-se na paz para aqueles que praticam a paz. De onde vêm as guerras? De onde procedem os conflitos entre vós? Não é precisamente das paixões que lutam nos vossos membros? Cobiçais e nada conseguis: então assassinais. Sois invejosos e não podeis obter nada: então entrais em conflitos e guerras. Nada tendes, porque nada pedis. Pedis e não recebeis, porque pedis mal, pois o que pedis é para satisfazer as vossas paixões».
       A inveja desmedida e a ganância são contrárias à sabedoria que vem de Deus. A própria oração pode ser contraproducente quando esquece Deus e esquece os outros. No evangelho o caminho do serviço é o único caminho do discípulo de Jesus. Do mesmo jeito, São Tiago nos vai lembrando que a fé nos compromete com a justiça, com a paz, com as boas obras, com a solidariedade e serviço aos mais desfavorecidos.

       4 – Servidores mas não ingénuos. Seguir Jesus e a vontade de Deus coloca a possibilidade efetiva da cruz, da perseguição. Assim o descreve o sábio: «Armemos ciladas ao justo, porque nos incomoda e se opõe às nossas obras; censura-nos as transgressões à lei e repreende-nos as faltas de educação. Vejamos se as suas palavras são verdadeiras, observemos como é a sua morte. Porque, se o justo é filho de Deus, Deus o protegerá e o livrará das mãos dos seus adversários. Provemo-lo com ultrajes e torturas, para conhecermos a sua mansidão e apreciarmos a sua paciência. Condenemo-lo à morte infame, porque, segundo diz, Alguém virá socorrê-lo».
       A justiça e a verdade, a luz e a retidão, a honestidade e a bondade, podem provocar sentimentos contraditórios e reações diversas. Uma pessoa boa pode ser vista como um ataque a todos aqueles que caminham por caminhos tortuosos de pecado. A luz é inimiga das trevas. As trevas escondem e protegem o mal. A luz não faz mal, sublinha o bem, ainda que possa pôr a claro o mal. Aquele que segue o caminho do bem e da verdade dificilmente se livrará da cruz. Amar, servir, ressuscitar, ser feliz, não são meras conjugações verbais mas opções de vida e que são passíveis de acarretar sofrimento, dor, sacrifício. Quem se sujeita a amar sujeita-se a padecer.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (B): Sab 2, 12. 17-20; Sl 53 (54); Tg 3, 16 – 4, 3; Mc 9, 30-37.

sábado, 30 de maio de 2015

Sabedoria: a alegria do meu coração!

       Eu Vos louvarei e darei graças, meu Deus, bendizendo o nome do Senhor. Na minha juventude, antes de andar errante, busquei abertamente a sabedoria na minha oração. Pedi-a diante do santuário e procurá-la-ei até ao fim da vida. Quando florescia como uva temporã, ela era a alegria do meu coração. Os meus pés andaram por caminho recto e segui na sua esteira desde a juventude. Mal lhe prestei ouvidos, logo a recebi e encontrei para mim abundante instrução. Graças a ela, fiz grandes progressos: darei glória Àquele que me deu a sabedoria. Porque eu decidi pô-la em prática, procurei zelosamente o bem e não serei confundido. A minha alma combateu corajosamente por ela e fui muito diligente na observância da Lei. Levantei as minhas mãos para o alto e compreendi os seus mistérios. Dirigi para ela a minha alma e encontrei-a na pureza de vida. Com ela, desde o princípio, adquiri inteligência; por isso não serei abandonado (Sir 51, 17-27).


       Oração e sabedoria.
       Melhor, a oração que conduz à sabedoria. Ben Sirá dá testemunho do que foi e do que tem sido a sua vida de oração. Desde a juventude, na oração, pediu a sabedoria a Deus, procurando orientar-se, em todas as fases da sua vida, por essa mesma sabedoria dada por Deus.
       Agora é tempo de dar graças a Deus por lhe ter aberto a mente e o coração para acolher a sabedoria e a disponibilidade para viver diante de Deus, observando diligentemente a Sua Lei.
       Deixemo-nos também nós guiar por esta sabedoria que nos vem de Deus e não cessemos de a pedir na nossa oração.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

ANSELM GRÜN - Que fiz eu para merecer isto?

ANSELM GRÜN (2007). Que fiz eu para merecer isto? A incompreensível justiça de Deus. Prior Velho: Paulinas Editora. 160 páginas.
       O sofrimento, físico, psíquico, espiritual, o sofrimento auto-infligido, ou consequência dos outros ou da natureza, é um tema por demais delicado. É precisamente aqui que o monge beneditino, alemão, Anselm Grün, reconhecido pelos seus conselhos, em palestras, livros publicados, aconselhamento espiritual, como pároco, apresenta mais uma reflexão que pretende compreender o sofrimento e dar pistas para o enfrentar, para o superar, para o aceitar, sabendo-se que cada pessoa é única e que por vezes as palavras são insuficientes para ajudar ou outras vezes são inúteis para quem passa por situações de tormenta, culpabilizando-se ou culpando os outros.
       Para os crentes há sempre uma pergunta que vem ao de cima: por quê eu? Porque é que Deus me fez isto? Sendo eu uma pessoa de bem, que vivi sempre de forma saudável, respeitando os outros, cuidando da alimentação, fazendo desporto, por que é que Deus permitiu que se manifestasse em mim esta doença?
       Embora com riscos, o autor procura mostrar que não adianta muito procurar culpados, mas vale muito levar até Deus o protesto, como fez Job, como fez Jesus, rezar-lhe as próprias mágoas, protestando contra Ele. No final, o nosso coração ficará mais preparado para aceitar a nossa fragilidade e para aceitarmos que Deus ultrapassa sempre os nossos conceitos humanos. O sofrimento pode ser oportunidade para desfazermos a imagem que temos de Deus e por outro lado para erguermos a nossa casa, a nossa vida, sobre a rocha firme que é Deus. Quando edificamos a nossa vida sobre a saúde, os bem materiais, os amigos, poderemos desembocar na desilusão, no desencanto. Edificar a nossa vida a partir de Deus, mesmo que por vezes O não entendamos, é a garantia que a nossa casa sobrevirá a todas as intempéries.
       Como em outros livros do autor que aqui já recomendámos, como Pai-nosso, uma ajuda para a vida, e A sublime Arte de envelhecer, também este lança pistas, sugestões, coloca perguntas, procura na Bíblia, na Filosofia, na Psicologia, na experiência pessoal e sacerdotal, apresentando casos concretos com os quais se deparou ao longo da vida... Sem dogmatismos, com forte confiança em Deus e na dimensão espiritual da pessoa.
       Pelo índice: respostas teológicas ao sofrimento; explicação do sofrimento pelos místicos; relação com experiências concretas de sofrimento (sofrimento provocado pelas pessoas, morte de pessoas queridas, quando o corpo ou a alma adoecem, preocupações com os filhos - homossexualidade, doença e deficiência, doença psíquica, anorexia, toxicodependência), fracasso no trabalho e nas relações (desemprego, separação e divórcio); sofrimento auto-infligido, a catástrofes naturais.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

ANSELM GRÜN - A sublime arte de envelhecer

ANSELM GRÜN (2009). A sublime arte de envelhecer e tornar-se uma bênção para os outros. Prior Velho: Paulinas Editora, 176 páginas.
       Voltámos a sugerir um livro de Anselm Grün, o monge beneditino que é considerado um verdadeiro guia espiritual, através dos seus escritos, das conferências e seminários em que participam, refletindo a vida com as complexidades da morte, do sofrimento, do mal, da fé, da doença.
       A reflexão proposta anteriormente: PAI-NOSSO, uma ajuda para a vida: AQUI.
       Neste volume a reflexão sobre a arte de envelhecer. Embora esteja no horizonte de todas as pessoas ir envelhecendo, é necessário adaptar-se, renunciar, lidar com a perda e o sofrimento, com as limitações físicas e mentais, aprender a conviver com a própria morte e transformá-la numa dádiva de comunhão, como fez Jesus Cristo. Na morte, já nada nos separará dos outros. Somos mais iguais.
       O prefácio está a cargo do Pe. Vítor Feytor Pinto, durante muito tempo ligado diretamente às questões da Vida, toxicodependência, Sida,, cuja experiência e sabedoria lhe permitem fazer uma leitura assertiva sobre a temática presente.
       O autor, Anselm Grün, com 64 anos quando escreveu o texto, fala a partir da experiência de outros, recorrendo à filosofia e à teologia, mas também a outras áreas do saber, como a psicologia. Faz-nos, como se diz no prefácio, conhecer o pensamento de Karl Rahner, Teilhard Chardin, Romano Gurdini, Breemen, Hermann Hesse, e tanto outros. É um excelente livro para os mais velhos, mas também para os mais novos.
       O papa Francisco tem insistido na cultura da inclusão, referindo que os dois extremos, jovens e idosos, são frequentemente esquecidos. No entanto, uma sociedade que esquece o saber, a experiência e a memória dos mais velhos, é uma sociedade condenada a desaparecer.
        É precisamente nesta linha que se desenvolve o pensamento de Grün, sobre o contributo dos mais velhos, mas também, dedicando-lhe muito espaço, com os mais velhos a lidarem com as suas limitações, com a doença, com a falta de forças, renunciando ao poder, renunciando a controlar a vida por inteiro, descobrindo novos afazeres, aprendendo a sublime arte de envelhecer, a paciência, o despojamento.
       Veja-se o índice: O significado da velhice; Aceitação da própria existência (reconciliação com o passado, aceitar os seus limites, aprender a viver com a solidão); Renunciar aos bens materiais, à saúde, renunciar às relações, à sexualidade, ao poder, ao ego; Fertilidade; Envelhecer juntos; Virtudes da velhice - serenidade, paciência, mansidão, liberdade, gratidão, amor; Lidar com os medos e com a depressão; o caminho do silêncio; transcender o ego; treino para a morte.
        É mais um daqueles títulos que até pode ser provocador, mas que se lê com facilidade, pois os exemplos concretos ajudam a entrar dentro dos diversos conteúdos.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

HUMILDADE: a última encíclica de BENTO XVI

       Bento XVI não publicará a encíclica sobre a fé – embora em fase avançada – que devia apresentar na primavera. Já não tem tempo. E nenhum sucessor é obrigado a retomar uma encíclica incompleta do próprio predecessor. Mas existe outra encíclica de Bento XVI, escondida no seu coração, uma encíclica não escrita. Ou melhor, escrita não pela sua pena mas pelo gesto do seu pontificado. Esta encíclica não é um texto, mas uma realidade: a humildade.
       A 19 de abril de 2005 um homem que pertence à raça das águias intelectuais, temido pelos seus adversários, admirado pelos seus estudantes, respeitado por todos devido à acutilância das suas análises sobre a Igreja e o mundo, apresenta-se, recém-eleito Papa, como um cordeiro levado para o sacrifício. Utilizará até a terrível palavra «guilhotina» para descrever o sentimento que o invadiu no momento em que os seus irmãos cardeais, na Capela Sistina, ainda fechada para o mundo, se viraram para ele, eleito entre todos, para o aplaudir. Nas imagens da época, a sua figura curvada e o seu rosto surpreendido testemunham-no.
       Depois teve que aprender o mister de Papa. Extirpou, como raízes arraigadas sob o húmus da terra, o eterno tímido, lúcido na mente mas desajeitado no corpo, para o projetar perante o mundo. Foi um choque para ambas as partes. Não conseguia assumir a desenvoltura do saudoso João Paulo II. O mundo compreendia mal aquele Papa sem efeito. Bento XVI nem teve os cem dias de "estado de graça" que se atribuem aos presidentes profanos. Teve, sem dúvida, a graça divina, fina mas pouco mundana. Contudo teve, ainda e sempre, a humildade de aprender sob os olhares de todos.
       Foram sete anos terríveis de pontificado. Nunca um Papa teve, num certo sentido, tão pouco "sucesso". Passou de polémica em polémica: crise com o Islão depois do seu discurso de Ratisbona, onde evocou a violência religiosa; deformação das suas palavras sobre a Sida durante a primeira viagem à África, que suscitou um protesto mundial; vergonha sofrida pelo explodir da questão dos sacerdotes pedófilos, por ele enfrentada; o caso Williamson, onde o seu gesto de generosidade em relação aos quatro bispos ordenados por D. Lefebvre (o Papa revogou as excomunhões) se transformou numa reprovação mundial contra Bento XVI, porque não tinha sido informado sobre os discursos negacionistas da Shoah feitos por um deles; incompreensões e dificuldades de pôr em ação o seu desejo de transparência quanto às finanças do Vaticano; traição de uma parte do seu grupo mais próximo no caso Vatileaks, com o seu mordomo que subtraiu cartas confidenciais para as publicar...
       Não teve nem sequer um ano de trégua. Nada lhe foi poupado. Às violentas provações físicas do pontificado de João Paulo II, ao atentado e ao mal de Parkinson, parecem corresponder as provações morais de rara violência desta litania de contradições sofrida por Bento XVI.
       Ao renunciar, o Papa eclipsa-se. À própria imagem do seu pontificado. Mas só Deus conhece o poder e a fecundidade da humildade.

Jean-Marie Guénois, in Le Figaro Magazine, 15-16.2.2013. Transcrição: L'Osservatore Romano © SNPC | 25.02.13.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

D. Manuel Clemente - Portugal é uma teima

       Pátria marinheira e andarilha, forçosamente assim pela exiguidade da terra, forçosamente assim pela mundialização do mercado, estou realmente em crer que a nossa diáspora é, em boa parte, o nosso futuro. Com as diferenças de hoje, pela potencialidade das comunicações de todo o género. Quase podermos partir ficando e ficar partindo, mas temos portos em todo o lado, nos cinco milhões que somos fora. O que noutros tempos foi forçoso, ganha agora outra força potencialmente criativa.
       O melhor que tempos para o futuro é tanta humanidade acumulada. E este é um futuro onde os outros também cabem, como nós caberemos com os outros, com aquela lucidez que só o tempo apura. Também para a Europa fita o mundo com os olhos portugueses, de mar a mar.

       Sabedoria é saber de experiência feita, ou experiência decantada, assimilada e transformada em vida. Requer um tempo que não é logo dinheiro, assim como induz um conjunto de qualidades e virtudes que não estão hoje em alta: prudência, ponderação, memória histórica, considerações humanistas em geral...

       Sabedoria que requer tempo, muito tempo, para assimilar a experiência, dando-lhe consistência realmente humana, porque refletida, livre e responsável. Perspetiva esta que alterará profundamente o esquema comum de crescimento - plenitude - decadência para o itinerário oposto de ignorância - aprendizagem - sabedoria...

       Portugal culturalmente é uma teima, como geograficamente é uma praia, feita cais de partir e chegar, chegar e partir...
       ... o ficar e o partir se equacionam agora de modo muitíssimo diferente do que ainda há poucos anos nos caraterizava em geral. Mentalmente, ficámos marcados com os êxitos (alguns) e os traumas (muitos) das emigrações forçadas para o Brasil de Oitocentos ou para a França e Alemanha de há meio século e depois....

       Cultura, como aquilo que sabemos antes de aprender tudo o mais e continuamos a saber depois de esquecermos tudo o resto.

in D. Manuel CLEMENTE, O tempo pede uma Nova Evangelização.

sábado, 7 de setembro de 2013

XXIII Domingo do Tempo Comum - ano C - 8 de setembro

       1 – Chamamento. Seguimento. Cruz. Despojamento. Humildade. Coragem. Persistência. Amor. Esperança. Sem promessas. Com as certezas que advêm da fé, do serviço e da verdade. O Mestre e os discípulos. Sempre discípulos, seguidores, aprendizes, alunos. Sempre apóstolos, enviados, em caminho, testemunhas do Evangelho, transparência, rosto e presença de Jesus em cada tempo, em todos os ambientes. A prioridade: amar. O essencial: serviço. O conteúdo: Jesus Cristo. A Mensagem: conciliar, reunir, servir, paz, justiça, bem-dizer e bem-fazer, partilha, comunhão, gratuitidade, verdade, amar servindo, servir amando. A meta: Deus. Em Deus há lugar para todos. A meta: a humanidade inteira. Cada pessoa, a minha tia, o meu sobrinho, o meu marido, a minha cunhada, a minha sogra, a minha enteada, a minha vizinha, o meu colega. Meta: Deus e em Deus a humanidade inteira. Sem Deus serei EU e mais NINGUÉM. Com DEUS, Eu/Nós em comunidade.
       A multidão seguia Jesus. Ia atrás da Sua Palavra, dos Seus gestos, de milagres, à procura, à descoberta de algo de novo e surpreendente. Todos com as mesmas intenções? Certamente que não. Hoje continua a ser assim. Multidões que seguem Jesus, que vão à Igreja, que têm fé, que vivem a religião, que têm fé e não vão à Igreja, e quase deixaram de ser Igreja, mas de vez enquanto ainda se sentem, se afirmam como cristãos, como Igreja, ou a combatem dizendo que também fazem parte dela, mas sentem-se mais seguros estando contra. Como diria um santo teólogo, a Igreja é como a nossa Mãe, velhinha e com a pele enrugada, mas não vamos andar por aí a dizer mal da nossa Mãe. Não. Pelo contrário, vamos dar-lhe mais atenção, dedicar-lhe mais tempo. Cuidar. Para que a Igreja seja sobretudo Mãe, e como Mãe também guia e mestra. A Igreja há de ser SACRAMENTO de salvação, de Jesus Cristo, do Evangelho. Cristo na Igreja. Nós em Cristo, no Seu Corpo que é a Igreja.
       A Igreja, a fé, tem muitos rostos e muitos caminhos, tantos quantos as pessoas, assim o afirmava o Cardeal Joseph Ratzinger, em entrevista concedida em 1996 (O Sal da Terra). Jesus é o CAMINHO, a Verdade e a Vida. É o nosso CENTRO, a referência fundamental, o AMOR maior. Mas cada um de nós tem a sua história, os seus dramas, os seus sonhos, cada um de nós sente à sua maneira. Mas se houver um FAROL que nos congregue será mais fácil carregar a nossa cruz. Se nos encaminhamos para o CAMINHO, que é Jesus, será mais doce a nossa festa e mais serena a nossa alegria e a nossa paz. A companhia ajuda-nos a superar a solidão, e as noites escuras, a apreciar os dias de sol.
       2 – «Se alguém vem ter comigo, e não Me preferir ao pai, à mãe, à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não pode ser meu discípulo. Quem de vós, desejando construir uma torre, não se senta primeiro a calcular a despesa, para ver se tem com que terminá-la? Assim, quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo». 
       Jesus não está pelos ajustes, ou tudo ou nada. Assim soam as suas palavras. Ele ama-nos definitiva e totalmente. A intimidade com Deus Pai mais O envia e compromete.
       Não há cá paninhos quentes. Quem Me quiser seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz, traga a sua vida por inteiro. Nada pode ficar de reserva, ou no condicional (vamos ver o que isto dá… depois logo se vê). A vida toda, o que somos, o bem e o que nos puxa para o mal. Tudo. Vamos inteiros, corpo, alma, espírito. Quem não Me preferir à mãe, ao pai, ou aos filhos, à própria vida, não pode ser Meu discípulo. Sem papas na língua. É assim mesmo! Põe todas as cartas na mesa. Não fica com nenhuma cartada na manga. A vossa linguagem seja, “sim, sim”, e “não, não”. Coração assente. Se O quisermos seguir já sabemos quais as condições. O contrato não têm letras pequeninas, mas garrafais: «QUEM NÃO ME PREFERIR À PRÓPRIA VIDA NÃO PODE SER MEU DISCÍPULO, quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo».
       A minha/nossa resposta não pode ser diferente. Não podemos amar a meias, a prazo, quando nos dá na real gana, ou quando estamos bem-dispostos. Ou quando precisamos. Ou quando a vida nos corre bem e nos sobra tempo. Ou amamos ou não amamos. Ainda que cada um possa manifestar o seu amor (e a sua fé) de maneira específica. Existe um caminho de aperfeiçoamento a construir. Ele não Se impõe. Não faz promessas. Não dá garantias de sucesso. Não faz chantagem, nem negoceia o Seguimento. Ou quereis ou não quereis. Seria um mau assessor e talvez um péssimo político, pelo menos como o entendemos na atualidade. Vinde que sereis compensados por isso. Seria um bom lema de campanha. Jesus, pelo contrário, diz logo à partida que vão ser perseguidos e mortos. Como o Mestre, assim os discípulos. O desfecho da Sua missão será violento, contraditório!
       3 – Será que Jesus quer que eu me isole para O seguir? Que vire as costas à família e aos amigos? Que me torne monge? Será que Ele exige uma vida vazia, sem nada nem ninguém? Quais são as condições para sermos Seus discípulos? Colocá-l'O no centro, preencher todo o nosso coração com o Seu amor. As palavras de Jesus não deixam qualquer folga, não são evasivas. Quem quiser ser Meu discípulo tem de renunciar a uma vida apagada, cómoda, instalada, de indiferença. Pegar na própria Cruz e segui-l'O. Dia após dia. Todos os dias, em todo o tempo. Até quando dormimos somos d'Ele. Até quando descansamos respiramos o Seu Espírito. Em qualquer estado de vida.
       Fique, no entanto, claro que quanto mais formos de Deus mais seremos para os outros, mais comprometidos no serviço, na caridade. De grata memória, um padre (Pe. Manuel Gonçalves da Costa) do Seminário Maior dizia: quando precisares de ajuda pede a quem tem muito que fazer, que ande sempre ocupado, pois arranja tempo e espaço para te ajudar. Se pedires ajuda a alguém que nunca tem nada para fazer, nunca arranjará tempo para te ajudar. É assim o convite de Jesus. Quanto mais ocupados com Deus, mais disponíveis para os outros. Alguém conhece pessoas cheias de si com tempo para os outros?
       Na convocação do Ano Sacerdotal, o Papa Bento XVI evocava uma reflexão do Santo Cura d'Ars, São João Maria Vianney, sublinhando o valor e a necessidade da oração. Para quê? Para que Deus dilate o nosso coração. Somos limitados, amamos limitadamente. A oração coloca-nos no coração ENORME de Deus, a oração faz-nos amar mais, mais, muito mais, o mundo inteiro. Seguindo Deus, amando Deus, servindo Deus, nos outros.
       Olhemos para a história. Quem foram os maiores benfeitores da humanidade? Aqueles que amealharam para si, que cuidaram dos seus amigos, dos seus irmãos, do seu grupinho? Ou aqueles que se esquecerem de si mesmos para se darem inteiramente a Deus? Nesse dar-se a Deus construírem comunidades, lutaram pela justiça, ajudaram as pessoas à sua volta e os povos por onde passaram. Se Deus é a nossa LUZ, de nós irradiará para o mundo inteiro. Este propósito começa sempre em minha e na tua casa. Dentro de mim e de ti. De nós.
       4 – Sabemos qual a exigência do Seguimento, as condições que Jesus coloca para sermos discípulos. Mas como poderemos interpretar cada situação, como colocar Deus em primeiro lugar, como seguir Jesus nas várias dimensões da vida? Na política, no desporto, na convivência social? Na promoção da cultura, no lazer, ou quando me cruzo com a D. Flor?
       “Quem pode sondar as intenções do Senhor? Mal podemos compreender o que está sobre a terra… Quem poderá conhecer, Senhor, os vossos desígnios, se Vós não lhe dais a sabedoria e não lhe enviais o vosso espírito santo?” 
       Peçamos auxílio ao Senhor, para que nos guie com a Sua sabedoria e benevolência. “Ensinai-nos a contar os nossos dias, para chegarmos à sabedoria do coração. Voltai, Senhor! Até quando... Tende piedade dos vossos servos. Saciai-nos desde a manhã com a vossa bondade, para nos alegrarmos e exultarmos todos os dias. Desça sobre nós a graça do Senhor nosso Deus. Confirmai, Senhor, a obra das nossas mãos”.


Textos para a Eucaristia (ano C): Sab 9, 13-19; Flm 9b-10.12-17; Lc 14, 25-33.

sábado, 31 de agosto de 2013

XXII Domingo do Tempo Comum - ano C - 1 de setembro

       1 – “Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado”. Excelente conselho de Jesus, não apenas para a vida religiosa, em sentido estrito, mas para o dia-a-dia, no relacionamento com os outros, na interação social, na relação afetiva e profissional.
       São nossos conhecidos alguns ditados populares semelhantes: “gaba-te cesto que amanhã vais para a vindima”, presunção e água benta cada um toma a que quer, já que ninguém te gaba, gabas-te tu, ninguém é bom juiz em causa própria. A sabedoria popular, como a intervenção de Jesus, diz-nos algo evidente: o bem que fazemos não precisa de ser badalado, por si só produz fruto. Quando uma pessoa tem valor, não precisa de apregoar as suas qualidades aos quatro ventos, a não ser em questões de defesa de honra.
      Não se trata aqui de desvalorizar a autoestima, essencial à saúde psíquica. A pessoa deve estimar-se, sentir-se digna de ser amada pelo que é. Não esqueçamos, num contexto mais cristão, somos amados, somos filhos de Deus e para Deus valemos tudo, cuja valoração devemos exigir aos outros. Não somos dispensáveis, não somos lixo para deixar fora ou calcar aos pés. É benéfica uma dose suficiente de otimismo e autoconfiança.
       A humildade não conflitua com a autoestima. Pelo contrário, quem se valoriza como pessoa, facilmente aceita as suas limitações e insuficiências, não como defeitos de fabrico, mas como contingência inevitável da respetiva humanidade. No plano da fé, a humildade faz-nos reconhecer que não somos deuses, impecáveis, não somos melhores que os outros, somos o que somos, precisamos de amar e de nos sentir amados, de reconhecer os outros como pessoas e de sermos reconhecidos pelo que somos (e pelo que fazemos de bem).
       A prepotência vai noutro sentido: acharmos que somos tão bons que não temos defeitos, somos melhores que os outros, não precisamos de ninguém, e quando precisarmos não é por necessidade nossa mas por obrigação alheia.
       Por outro lado, humildade não é, em meu entender, fazer-se coitadinho, para que os outros tenham pena de mim e me deem mais atenção. Nesse caso seria uma outra forma de imposição, de falsa modéstia, que também não é saudável. Daí que por vezes seja estranho ouvir: ai, eu não tenho qualidades, não sei fazer nada de bom, tudo me corre mal, não presto, não sirvo para nada... quase à espera, em jogo emocional, que o outro diga o contrário, ou que insista ou me peça de joelhos e me convença que eu sou a melhor pessoa do mundo... Por mais desfocada que esteja a nossa vida, continuámos a ser fruto do amor de Deus, por mais desfigurada que seja a nossa história continuamos a ser ROSTO de Jesus Cristo.
        2 – “Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado”, ou como escutámos no domingo passado, “há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos”. Não nos iludamos. Querermos parecer mais que os outros pode não nos trazer felicidade. Pelo contrário, fazermos depender a nossa vida daquilo que os outros dizem pode ser muito confrangedor. Os outros sempre nos hão de desiludir, ou por que não nos dão a atenção devida, ou por que não valorizaram o suficiente o nosso esforço, o nosso talento. Não é culpa dos outros. As nossas elevadas expectativas podem não encontrar o acolhimento devido. Diversamente por que não fizemos mais do que aquilo que outros esperavam de nós, ou simplesmente os outros não sabem como mostrar-se agradecidos da forma como merecemos. É saudável trabalhar pela certeza do bem que fazemos e não tanto pelo que os outros vão opinar. Mesmo sabendo que a todos faz bem o reconhecimento alheio!
       A imagem utilizada por Jesus é muito simples e facilmente experiencial, apesar de hoje, quando há banquetes, bodas, jantares, os lugares já estarem definidos, evitando, assim, que aconteça que alguém tenha de ceder o seu lugar a outro.
       Uma vez mais, Jesus nos desafia a sermos pró-ativos, agindo, lutando, caminhando, sem nos julgarmos mais que os outros e valorizando a nossa atenção sobre os mais necessitados. O que é mais importante, a imagem que os outros fazem de mim ou o que faço para tornar mais fácil e agradável a vida dos que me rodeiam?
       A lógica de Jesus Cristo: para Deus os últimos são os primeiros. É-nos mais fácil valorizar aqueles com quem nos identificamos mais, as pessoas com mais elevado estatuto social. Para Jesus e, consequentemente, para os cristãos, o maior cuidado deverá ser dado aos que valem menos aos olhos deste mundo, precisamente para incluir, para valorizar, para “igualar”. Trata-se de uma descriminação positiva. Não excluímos os primeiros, promovemos os segundos. Desta forma sabemos que agimos ao jeito de Cristo: “Quando ofereceres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te: ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos”.
       3 – “Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado”.
       Tenho para mim que a grandeza de uma pessoa também se avaliza pela postura humilde no momento da vitória. Quando estamos por cima, expressão muito popular, é que mostramos verdadeiramente o que somos. Custa-me muito ver quando alguém ganha uma disputa política, desportiva, cultural, e que na proclamação da vitória tenha necessidade de espezinhar, de acentuar “os podres” dos derrotados, a urgência em denegrir mais os adversários para se engrandecer perante os seus ouvintes. A vitória já diz o suficiente e não garante que as ideias do vencedor sejam as mais nobres. Neste caso, as palavras são desnecessárias a não ser para agradecer, para chamar todos à participação, pondo de lado as disputas, procurando valorizar o que possa ser benéfico para todos. Podem, inclusive, ser assumidas propostas dos adversários.
       Para quem perde, não será diferente. Ou a mensagem não passou. Ou não era ainda o tempo oportuno. Ou os outros têm opiniões divergentes. Mas logo é tempo de trabalhar, na reflexão e nas atitudes, para o maior bem de todos. Não é fácil. Mas não adianta passar o tempo a protestar contra os outros. Será o tempo de ajuntar esforços.
       Eis o conselho sábio de Ben-Sirá: “Filho, em todas as tuas obras procede com humildade e serás mais estimado do que o homem generoso. Quanto mais importante fores, mais deves humilhar-te e encontrarás graça diante do Senhor. Porque é grande o poder do Senhor e os humildes cantam a sua glória. A desgraça do soberbo não tem cura, porque a árvore da maldade criou nele raízes. O coração do sábio compreende as máximas do sábio e o ouvido atento alegra-se com a sabedoria”.
       Um conselho, lido algures: lembra-te de respeitar aqueles que encontrares quando fores a subir, pois serão os mesmos que encontrarás quando vieres a descer.

       4 – Aos discípulos de ontem e de hoje, daquele e deste tempo, Jesus desafia ao serviço: quem entre vós quiser ser o maior seja o servo de todos; se Eu sou Mestre e Senhor e vos lavei os pés… como Eu vos fiz fazei vós também uns aos outros; nisto conhecerão que sóis meus discípulos, se vos amardes uns aos outros como Eu vos amei; o que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos é a Mim que o fazeis… Eu vim não para ser servido mas para servir e dar a vida por todos… o discípulo não é mais que o Mestre!

Textos para a Eucaristia (ano C): Sir 3,19-21.30-31; Heb 12,18-19.22-24a; Lc 14,1.7-14.

sábado, 3 de agosto de 2013

XVIII Domingo do Tempo Comum - ano C - 4 de agosto

       1 – “Saciai-nos desde a manhã com a Vossa bondade para nos alegrarmos e exultarmos todos os dias. Desça sobre nós a graça do Senhor nosso Deus. Confirmai, Senhor, a obra das Vossas mãos”.
         Invocamos a bênção de Deus para que os nossos dias não sejam em vão e para que o nosso tempo tenha sentido, na abertura solidária aos outros, na busca do olhar de Deus sobre nós. Tão atarefados andamos que a vida se escapa entre as mãos, ora o tempo passa depressa de mais, ora demasiado lento. Só em Deus tornamos os nossos dias abençoados. Como popularmente se diz, vale mais quem Deus ajuda do que quem madruga.
       Procuremos Jesus em toda a parte e sobretudo nos irmãos, comprometidos na transformação do mundo, com o coração impelido para as alturas. A nossa pátria é junto de Deus. Vivamos nesta sadia tensão: alavancados pelo amor eterno de Deus, peregrinos com os outros, testemunhando a salvação pela qual Jesus nos introduz na vida de Deus.
“Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. Porque vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Fazei morrer o que em vós é terreno... Não mintais uns aos outros, vós que vos revestistes do homem novo, que se vai renovando à imagem do seu Criador. Aí não há grego ou judeu, escravo ou livre; o que há é Cristo, que é tudo e está em todos”.
       A Ressurreição de Jesus não é apenas a antecipação da nossa, mas um processo que nos envolve, numa relação cósmica com todo o universo. Vivemos renovados pela redenção operada em Cristo. Com a Sua oferenda ao Pai, oferece também a nossa vida. Ele está em todos. A nossa vida está agora escondida com Cristo em Deus. Procuremo-l’O para O encontrarmos em nós, nos outros, no mundo.
       2 – “Vaidade das vaidades – diz Qohélet – vaidade das vaidades: tudo é vaidade. Quem trabalhou com sabedoria, ciência e êxito, tem de deixar tudo a outro que nada fez. Também isto é vaidade e grande desgraça. Mas então, que aproveita ao homem todo o seu trabalho e a ânsia com que se afadigou debaixo do sol? Na verdade, todos os seus dias são cheios de dores e os seus trabalhos cheios de cuidados e preocupações; e nem de noite o seu coração descansa. Também isto é vaidade”.
        Aparentemente Qohélet faz uma confissão de desencanto, de desilusão. Tudo é igual, todos os dias se repetem constantemente. Não há nada de novo debaixo do Céu. Trabalho e canseiras, cuidados e preocupações, tudo é em vão. Nem de noite o coração descansa. Tanta vida que depois tem que se deixar a outros. A experiência não permite grandes voos, pelo contrário, provoca ansiedade. Bons e maus têm o mesmo destino. Por vezes, parece que os que praticam o mal são abençoados, e os que praticam o bem são amaldiçoados.
       O autor, tal como Job, coloca em causa a sabedoria tradicional, onde sobrevinha uma correlação direta entre a bênção e a justiça, os bons eram recompensados e os maus castigados. Job e Qohélet concluem que há homens justos cujos padecimentos são injustificados.
       Começa uma intuição luminosa, a mão invisível de Deus vai agindo na pessoa e no mundo. “Todas as coisas que Deus fez, são boas a seu tempo. Até a eternidade colocou no coração deles, sem que nenhum ser humano possa compreender a obra divina do princípio ao fim” (3,11). Sanciona a solidariedade: “É melhor dois do que um só: tirarão melhor proveito do seu esforço. Se caírem, um ergue o seu companheiro. Mas ai do solitário que cai: não tem outro para o levantar!” (4, 9-10). Aproxima-te de Deus para O escutares, não sejas insensato.
       3 – Jesus liberta-nos do ciclo de violência e de pecado, de sofrimento e de morte, colocando a nossa natureza humana à direita do Pai, atraindo-nos da eternidade, do futuro de Deus. N'Ele descansa verdadeiramente a nossa alma. Se com Ele ressuscitámos, com Ele instauremos o reino de paz, de justiça e de amor.
       Em Cristo a LUZ de Deus ilumina toda a treva, cimentando a nossa esperança. Aquilo que os sábios Qohélet e Job intuíam em luz difusa, Jesus clarifica na abundância do Seu amor, com a Sua vida, e sobretudo no mistério da Sua morte e ressurreição, com a vastidão de Deus a chegar a toda a parte, tudo em todos. A ressurreição não deixa nada nem ninguém de fora. Na fragilidade dos nossos dias advém a certeza que Deus nos guia e levanta o nosso olhar. Se nos abrimos à Sua ternura e companhia, não ficaremos náufragos do pecado, do egoísmo e da morte. Ele ilumina tudo, os nossos medos e sofrimentos, as nossas dúvidas e hesitações, a nossa insuficiência.
       4 – Um homem aproxima-se de Jesus para que Ele resolva uma contenda de irmãos. Jesus questiona: «Amigo, quem Me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?» E logo alerta: «Vede bem, guardai-vos de toda a avareza: a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens». A avareza brota do coração, da inveja descontrolada, do ciúme. Trata-se de uma atitude e não tem correlação direta com os bens que se possuem. Há pobres e ricos avarentos.
        Por outro lado, não peçamos a Deus que resolva o que está ao nosso alcance resolver, quando muito peçamos para nos dar o discernimento para escolhermos o melhor bem, para aceitarmos as nossas limitações e a capacidade generosa de trabalharmos pela justiça e pela paz.
       Como o têm sublinhado a Doutrina Social da Igreja, os bens materiais e a riqueza deverão atender à justiça e à dignidade das pessoas e das famílias, não as sujeitando a jogos de interesses e a um capitalismo selvagem que não leve em conta a pessoa como fim. O que acontece, muitas vezes, é que as pessoas contam como números e enquanto geram riqueza, e riqueza da qual não beneficiam.
        Quem trabalha merece ser compensado com justiça e equidade, ainda que o trabalho também deva gerar capital e investimento, assegurando dessa forma a criação de riqueza e de mais emprego para que muitos mais tenham acesso aos recursos da terra e a oportunidade de viverem com o fruto do trabalho, realizando-se como pessoas. Numa perspetiva cristã, mais se acentua a dignificação da pessoa e do trabalho como forma de cooperar na obra criadora de Deus.
       Importa, desde logo, não descartar a relevância da caridade, da partilha solidária, com quem não tem ou não pode ter, ou que pelas circunstâncias atuais, do ambiente em que nasceu, ou por limitações pessoais ou outras, não pode trabalhar ou simplesmente não tem acesso ao trabalho, ou o trabalho não lhe permite viver com a devida dignidade, e assim à respetiva família.
       5 – Para uns e outros, Jesus reafirma: «Guardai-vos de toda a avareza: a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens...». Importa tornar-se rico aos olhos de Deus. O que acumula apenas para si acabará por se perder. Tarde, por vezes, nos damos conta que dependemos uns dos outros, no bem e no mal. Beneficiamos do bem alheio e somos atingidos pelo mal dos outros.
        Socorramo-nos novamente de Qohélet, noutras passagens: “Aquele que ama o dinheiro nunca se saciará do dinheiro, e aquele que ama a riqueza, a riqueza não virá ao seu encontro... Doce é o sono do trabalhador, quer tenha comido pouco ou muito; mas a abundância do rico não o deixa dormir descansado... Assim como saiu nu do ventre de sua mãe, de novo nu partirá como veio” (5, 9.14). “Então o pó voltará à terra de onde saiu e o espírito voltará para Deus que o concedeu... Deus pedirá contas, no dia de juízo, de tudo o que está oculto, quer seja bom, quer seja mau” (12, 7, 14).
       Aspirando às coisas do alto, o dever do discípulo de Cristo é para com o mundo e para com os outros. De novo e sempre o duplo mandamento do amor. Amamos a Deus, amemos também os irmãos. Lembremo-nos sempre que no final seremos julgados pelo amor, pela prática do bem, pela assunção da caridade, e não pela acumulação de bens e de riqueza.
       O Pão nosso de cada dia nos dai hoje, Senhor. Mas dai-nos também a alegria e a coragem da partilha solidária, valorizando o fruto do nosso trabalho e tornando-o dom. “Ensinai-nos a contar os nossos dias, para chegarmos à sabedoria do coração”. Que as preocupações do tempo presente não nos façam esquecer a nossa origem e o nosso fim comum: em Deus, para Deus, com os outros.


Textos para a Eucaristia (ano C):
 Co (Ecle) 1, 2; 2, 21-23; Sl 89 (90); Col 3, 1-5.9-11; Lc 12, 13-21.