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terça-feira, 9 de agosto de 2016

GOMES MACHADO. Edith Stein - Pedagoga e Mística.

António José GOMES MACHADO. Edith Stein: Pedagoga e Mística. Editorial A.O., Braga 2008, 304 páginas.
        António José Gomes Machado dá à estampa este livro correspondente à dissertação de Mestrado em Ciências Religiosas, sobre Edith Stein que viria a converter-se em Teresa Benedita da Cruz. Nasceu em Breslau, na Alemanha, em 12 de outubro de 1981. Este dia coincidia com o Dia do Perdão, para os judeus, uma das festas judaicas mais significativas.
       Como é sabido, o século XX é marcado pelas duas grandes guerras e também Edith Stein, como judia e como alemã, estará no centro destes dois conflitos. Na primeira, voluntariando-se como enfermeira para ajudar os muitos feridos que chegavam aos hospitais. Na segunda, como vítima da perseguição nazi. Pelo meio fica uma história de procura, de descoberta, de encontro, de conversão, de luta, de persistência.
       A sua família é judia. As festas principais são oportunidades para a família estar mais ligada ao povo da primeira Aliança, promovendo ritos, tradições, costumes. Cedo verificará que a vida não é consequente com a fé professada e celebrada, sendo que as festas judaicas se tornam sobretudo encontro com a família mas não tendo uma tradução prática na vida quotidiana. Por volta dos 14/15 anos chega assaltam em definitivo as dúvidas e a busca pela verdade, por um sentido mais pleno para a vida. Deixa a escola e passa por um tempo em que se mistura o agnosticismo, o indiferentismo religioso, e até o ateísmo, mas sem uma clara animosidade em relação à religião judaica ou outra.
       Como nos mostra o autor, a sua busca levá-la-á a Santa Teresa de Ávila (Teresa de Jesus), a mística que renovou o Carmelo. Nunca deixando de procurar um sentido para a vida, a verdade, Edith Stein volta a estudar, entra em contacto com o pai da Fenomenologia, tornando-se sua discípula, mas não se fixando aí. Contacta com outros filósofos como Max Scheler, católico. Lê a autobiografia de Santa Teresa de Jesus e dá-se o clique: é esta a verdade. A partir de então, embora continuando a investigar, a dar aulas, explicações, na área da educação e da pedagogia, procura assumir a conversão, compra o Catecismo da Igreja Católica e um Missal, pede a um sacerdote para ser batizada e torna-se católica. A sua busca continuará sempre. As suas investigações terão um ponto de apoio, Jesus Cristo, o Messias anunciando pela Sagrada Escritura, esperado pelos judeus, e que ela descobre em Jesus. Concorre para uma cátedra na universidade mas, por ser mulher, é impedida. Então resolve seguir em definitivo a sua vocação, torna-se religiosa, procurando imitar Santa Teresa de Jesus.
       Entramos na segunda guerra mundial. As religiosas acham por bem que se mude para a Holanda, para outro Carmelo. Os Bispos holandeses acharam por bem emitir uma Carta Pastoral denunciando as atrocidades cometidas pelos nazis. Esta carta foi lida em 24 de julho de 1942 em todas as Igrejas católicas da Holanda. Como resposta, os representantes do Reich ordenaram a deportação de todos os judeus católicos, arrancando-os dos conventos. Também Edith foi detida a 2 de agosto de 1942, juntamente com a irmã Rosa Stein. Passaram por alguns campos de concentração, até que no dia 7 de agosto foram deportadas para o mais famoso campo de extermínio Auschwitz-Birkenau, onde chegara no dia nove do mesmo mês. Nesse dia, as que chegaram nesta leva, foram conduzidas para uma câmara de gás para serem mortas. Durante a noite os seus corpos foram queimados.
       O livro apresenta os dados biográficos de Santa Teresa Benedita da Cruz, mas também os frutos da sua investigação acerca da educação e da pedagogia, sendo que ela própria procurar colocar em prática o que ensinava.
       É uma leitura que permite conhecer melhor a co-padroeira da Europa (ao lado de Santa Brígida da Suécia e Santa Catarina de Sena), com muitos textos da própria Edith Stein. O livro é um extraordinário testemunho de vida, na procura permanente pela verdade, pelo bem, por um sentido para a vida.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Naquele dia, haverá mais tolerância para Sodoma!

       Naquele tempo, começou Jesus a censurar duramente as cidades em que se tinha realizado a maior parte dos seus milagres, por não se terem arrependido: «Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque se em Tiro e em Sidónia se tivessem realizado os milagres que em vós se realizaram, há muito teriam feito penitência, vestindo-se de cilício e cobrindo-se de cinza. Mas Eu vos digo que no dia do Juízo haverá mais tolerância para Tiro e Sidónia do que para vós. E tu, Cafarnaum, serás exaltada até ao céu? Até ao inferno é que descerás. Porque se em Sodoma se tivessem realizado os milagres que em ti se realizaram, ela teria permanecido até hoje. Mas Eu vos digo que no dia do Juízo haverá mais tolerância para a terra de Sodoma do que para ti» (Mt 11, 20-24).
       A censura de Jesus, feita sobre as cidades, ou melhor, sobre as pessoas que fazem as cidades, não é uma censura condenatória definitiva, como facilmente se poderá concluir do Evangelho no seu conjunto, mas é uma censura provocatória a fim de despertar as consciências, o arrependimento, a mudança de vida. Relembremos o episódio de Níneve, em que o profeta Jonas é enviado à cidade para anunciar a sua destruição e no final sobrevém a salvação. O aviso foi em ordem a salvar e não a condenar.
       Muitos foram os sinais dados por Jesus, em palavras, gestos e milagres. Sente-se em Jesus um certo dissabor muito humano por encontrar dificuldades no acolhimento da Palavra de Deus e na consequente conversão ao Reino de Deus. Em todo o caso, não deixa de ser uma fortíssima interpelação para as pessoas daquele tempo e para nós que vivemos neste tempo. É a conversão do coração que pode construir uma humanidade mais justa e solidária.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Solenidade de São Pedro e São Paulo - 29 de junho

       1 – Pedro e Paulo: dois rostos bem conhecidos do cristianismo, no início da Igreja e na atualidade, ensinando-nos HOJE a necessidade de conversão – permanente – a Jesus Cristo, respeitando contextos, pessoas e culturas. O ambiente em que nascem e se convertem é distinto, como o tempo em que acontece; diferentes estilos e temperamentos, e a missão de cada um.
       O essencial é comum: confronto com Jesus Cristo, diante do Qual colocam a própria vida para se aproximarem d'Ele e do Seu projeto de amor e de vida nova; conversão; fidelidade ao Evangelho, de tal forma que há de prevalecer o mandato de Cristo e não as sensibilidades pessoais; inculturação do Evangelho, respeitando as culturas onde anunciam Jesus Cristo. Um e outro dão a vida pela causa do Evangelho, sofrendo a perseguição, a calúnia, a prisão e a morte.
       Cedo a Igreja começou a celebrar conjuntamente o martírio dos dois apóstolos, na cidade eterna, Roma, que se torna, também por isso, a referência para as outras Igrejas, pois é sustentada pelo seu sangue. O chão de Roma foi coberto e encobriu o sangue de muitos mártires. Pedro e Paulo visualizam o sacrifício de muitos cristãos, que, como eles, na vida e na morte, anunciaram Jesus Cristo.
       2 – São Pedro é um dos apóstolos da primeira hora. André e o discípulo amado seguem Jesus, depois de João Batista os desafiar a seguirem o Messias. Pergunta-lhes Jesus: "Que procurais?". Eles respondem com outra pergunta: "Rabi, onde moras?" Jesus convida-os a ir e ver com os próprios olhos Quem é o Messias, a Sua identidade, a Sua missão, onde habita, ou Quem O habita. Logo depois, André foi ter com o seu irmão Simão Pedro dizendo-lhe que encontraram o Messias (cf. Jo 1,35-42). Desde então e até ser martirizado, Pedro não mais se afasta de Jesus, a não ser no momento do julgamento e morte, cujo medo o paralisa e o leva a negar o Mestre.
       Pedro é um dos apóstolos mais genuínos. Tem o coração ao pé da boca. Diz o que lhe dá na real gana, merecendo o reparo de Jesus. Está sempre pronto. O que diz nem sempre tem a devida correspondência nas atitudes. A sua espontaneidade traz-lhe alguns dissabores, facilmente se espalha. Gera simpatia, ainda que com muita ingenuidade. É um homem de ação, de trabalho. Confia nas pessoas. Não necessita de muito para lançar as redes ao mar, mesmo sendo um pescador experiente e sabendo que a pesca já se tinha concluído naquele dia; lança-se ao encontro de Jesus, ainda os barcos não estão em terra firme. Caminha sobre as águas, mas logo se afunda, pois a sua fé é transparente, mas não muito firme. É impulsivo. Reage por tudo e por nada. Fere um dos guardas que prendem Jesus. E mais um reparo do Mestre. Jesus anuncia que vai ser morto e logo se dispõe a defendê-lo com a própria vida. Depois, na hora mais difícil, vacilará.
       Quando advêm as dificuldades, com a mesma facilidade com que confessa Jesus, também O nega e se afasta dos perigos. Terá de ser temperado pela experiência, pela luz da fé, revendo a sua própria vida e as suas escolhas, para que seja efetivo o amor a Jesus, procurando segui-l'O de perto (cf. Jo 21, 15-19).

       3 – O Evangelho traz-nos a primeira Profissão de Fé do Apóstolo sobre quem Jesus sustentará a Sua Igreja. Não é uma confissão de fé da antiguidade cristã, é atual, há de ser a afirmação da nossa fé em Cristo Jesus. Pedro não responde apenas em nome pessoal, responde em nome dos Doze, em nome da comunidade. E hoje? Hoje a pergunta bate-nos diretamente. Não podemos assobiar para o lado como se não fosse nada connosco.
       Num primeiro momento, Jesus pergunta sobre o que se ouve acerca d'Ele. Ambienta a pergunta seguinte: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Que importância tenho na vossa vida? De que forma se alteram as vossas escolhas por serdes meus discípulos?
       O que dizem os outros pode ajudar a compreender e até a procurar novas respostas. Mas não chega. É necessário o encontro com Ele e uma resposta pessoal, ainda que voltada para a comunidade.
       Pedro, sem hesitações, responde, também em nosso nome: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo». Veremos, por vários incidentes, que a firmeza de Pedro não é definitiva, ele terá que corrigir algumas vezes a ligação a Jesus Cristo. Em todo o caso, Jesus aposta nele, com as suas limitações e com as suas possibilidades. Deus não chama santos. Deus chama pessoas, de carne e osso, que podem e devem tornar-se santos, isto é, fazer com que as suas vidas valham a pena.
«Também Eu te digo: Tu és Pedro; sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus».
Curiosamente, logo à frente Jesus repreenderá Pedro por se ocupar mais dos próprios interesses do que da vontade de Deus. Como não nos revermos na vida de Pedro?! Como ele, estamos a caminho, umas vezes hesitando, outras vezes, e na prática, negando conhecer Jesus, outras tantas, procurando identificar-nos com o Seu amor.
       4 – São Paulo é um apóstolo mais tardio, não faz parte do grupo dos Doze, nem sequer está entre os discípulos que acompanham Jesus na Sua vida terrena, nem tampouco é discípulo dos apóstolos. Inicialmente é perseguidor de cristãos.
       Na primeira leitura, podemos constatar como os discípulos e a Igreja se submetem à perseguição e à prisão. Pedro é um dos que vai parar à prisão. A figura de Paulo surge a primeira vez no julgamento e morte de Estêvão, que ele testemunha e aprova (cf. Atos 8, 1-3).
       A conversão não é igual para todos e poderá ocorrer em diferentes idades. Enquanto vivermos, estamos sempre a tempo de nos convertermos a Jesus Cristo. Pedro vai amadurecendo perto de Jesus. Paulo vai amadurecendo, na procura da verdade, longe de Jesus. Melhor, perto de Jesus, mas em sinal contrário, perseguindo-O nos seus discípulos. Quando se dá a conversão, que nos é apresentada como espontânea e repentina (cf. Atos 22, 3-16), vê-se como Paulo está perto de Jesus. Jesus responde-lhe: Eu sou Aquele a Quem tu persegues. A perseguição de Paulo leva-o a encontrar-se com o Perseguido. Num sentido positivo, devemos ter o mesmo cuidado em (per)seguir Jesus, para que nos alcance o coração, por inteiro, como aconteceu com Paulo.
       Zelo na perseguição, zelo na pregação. A partir de Damasco, nunca mais descansará, oportuna e inoportunamente pregará Cristo, indo sempre mais à frente, mais longe, onde humanamente lhe é possível. Inverte completamente a lógica anterior, tornando-se, como Cristo, perseguido, em diversas ocasiões. Não desiste. Nem a espada, nem a morte, o hão de separar do amor de Deus que quer que todos conheçam.

       5 – Na segunda leitura, vemos como o Apóstolo da Palavra confessa uma vida dedicada à causa do Evangelho, procurando em tudo a glória de Deus:
«Eu já estou oferecido em libação e o tempo da minha partida está iminente. Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. E agora já me está preparada a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me há-de dar naquele dia; e não só a mim, mas a todos aqueles que tiverem esperado com amor a sua vinda. O Senhor esteve a meu lado e deu-me força, para que, por meu intermédio, a mensagem do Evangelho fosse plenamente proclamada e todos os pagãos a ouvissem; e eu fui libertado da boca do leão. O Senhor me livrará de todo o mal e me dará a salvação no seu reino celeste. Glória a Ele pelos séculos dos séculos».
       No final, o Apóstolo tem consciência que gastou a sua vida para viver e testemunhar Jesus Cristo. Por isso nada teme. Confia. Na vida como na morte, conta com o amor de Deus.
       6 – Que mais nos poderão dizer Pedro e Paulo? Como cristãos, sendo diferentes uns dos outros, na idade, na sensibilidade, na formação, todos podemos ser santos, discípulos e apóstolos. Todos temos algo a dar, se antes recebermos Jesus, acolhendo-O também nos outros.
       A determinada altura houve uma discussão entre os dois, sobretudo na forma como o cristianismo deveria expandir-se, levando as tradições judaicas, ou criando novas formas de vivência. O testemunho, o diálogo, e até o confronto entre as duas sensibilidades, mostra a profundidade da fé e o valor da oração. Prevalece a Palavra de Deus. Prevalece o Evangelho. Prevalece Jesus Cristo.
       O ponto de partida pode ter sido diferente. Pedro de início, Paulo já depois da morte e ressurreição de Jesus. A missão de cada um foi diversa. Pedro primeiramente junto dos judeus. Paulo sobretudo junto dos pagãos. No final, os dois apóstolos dão a vida por Jesus. Por inteiro.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia: Atos 12, 1-11; Sl 33; 2 Tim 4, 6-8. 17-18; Mt 16, 13-19.

Reflexão dominical na página da Paróquia de Tabuaço.
(REPOSIÇÃO)

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Angelo Comastri - Onde está o teu Deus?

ANGELO COMASTRI (2006). Onde está o teu Deus? Histórias de conversões do século XX. Prior Velho: Paulinas Editora. 152 páginas.
(Angelo Comastri, à direita de Bento XVI, à esquerda na foto)

       Na aquisição de um outro livro, no caso de Tomás Halík, vinha este como oferta. Primeiro pensamento quando surge um livro como oferta para promover outro: não há de ser muito bom, ou não teve muita saída, e estão a aproveitar para despachar. Mas cedo nos apercebemos, folheando, que seria uma leitura interessante. Já me tinha acontecido com outro livro: SONALI DERANIYAGALA (2015). Vida Desfeita. Também vinha como oferta e foi uma leitura empolgante, sabendo, para mais, que correspondia a uma situação real.
       Angelo Comastri, Vigário do Papa Bento XVI para a cidade de Roma, recolhe alguns testemunhos de pessoas que se converteram ao cristianismo, vindos do ateísmo, do comunismo, do judaísmo, ou de uma cristianismo apagado e indiferente.
       A conversão é uma realidade que a todos diz respeito. Ao longo de toda a vida há de merecer a nossa atenção. Todos nos encontramos em processo de conversão, com dúvidas e questionamentos. Há depois aqueles cuja conversão foi mais repentina, mais acentuada, mais luminosa. Figuras como a de São Paulo ou Santo Agostinho de Hipona, mas também de outros, como Santa Teresa de Jesus, fervorosa criança e adolescente crente, que se distanciou, mas que a determinada altura da sua vida, percebeu, viu, que teria que alterar a sua vida de forma radical, deixando as modas, as intrigas da alta sociedade, para se entregar inteiramente a Jesus Cristo.
       O autor apresenta-nos as figuras de Adolfo Retté, André Frossard, giovanni Papini, Edith Stein, Eugénio Zolli, Serjej Kourdakov e Pietro Cavallero. Ao falar a conversão de cada um, apresenta outros testemunhos semelhantes. No final de cada "biografia" o convite à oração.

  • Adolphe Retté - testemunhos semelhantes de Josué Carduci e Aldo Brandirali -, em 1907, tornou pública a sua conversão, com o diário "Do diabo a Deus". Cresceu e foi educado na fé, mas numa família dividida. Em adulto tornou-se ateu e inimigo da religião, dedicando-se a mostrar que Deus não existia. No final de uma conferência, um jardineiro interpela-o, dizendo que sabia que Deus não existe, mas perguntando que se o mundo não foi criado por ninguém, como é que tudo começou, o que é que a ciência sabe sobre o assunto. Intrigado por esta questão e sabendo que a ciência não tem uma resposta, começou a buscá-la, mormente quando lê a Divina Comédia, os cantos do Purgatório. Começa então a escutar uma voz interior que o desafia. Pouco a pouco vai descobrindo que a fé é luz e caminho, é verdade e vida. Ainda resiste, escrevendo contra a religião, mas já não havia volta a dar...
  • André Frossard - exemplo próximo, vindo das luzes de Paris, Paul Claudel -, era um ateu perfeito, como o próprio confessa, anticlerical, escarnecendo da religião como se fora um conto de fadas. Quando completou 15 anos de idade, pegou numa mão cheia de dinheiro e ia passar a noite com uma prostituta. No comboio viu um mendigo magríssimo e percebeu que não iria mais longe, o dinheiro seria para aquele mendigo... começava a conversão. Um dia entra numa Igreja, porque o amigo de quem estava a espera, estava a demorar demasiado, e decidiu entrar... cético, ateu convicto... e saiu de lá católico, romano, apostólico, atraído, levantado, retornado, ressuscitando por uma alegria inexplicável...
  • Giovanni Papini - exemplo semelhante, Marco Pisetta, ex-terrorista que se converteu a Jesus Cristo -. Contra a vontade do pai, mação convicto e republicano feroz, a mãe fê-lo batizar. No entanto, Giovanni tornou-se um fervoroso anticatólico. Em 1911, publicou as Memórias de Deus cheio de blasfémias. Mas as dúvidas assolam-no. Quer certezas que não encontra. Vários momentos o conduzem à conversão, a comunhão da sua menina, a doçura cristã da esposa, as censuras dos amigos, as leituras daquela altura, com Santo Agostinho, Pascal e os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loiola, a Imitação de Cristo... o coração já gravitava à volta de Cristo... e depois tudo era pouco para falar de Jesus Cristo!
  • Edith Stein - busca pela verdade condu-la a Cristo. Judia, longe de algum dia imaginar converter-se ao cristianismo. Com um temperamento independente em relação à família e às tradições judaicas, decide buscar a verdade, através do estudo. Terá como professores Husserl e mais tarde Max Scheler, filósofo judeu convertido aos cristianismo. Em 1915, trabalha como voluntária na Cruz Vermelha para tratar soldados vítimas do tifo e da cólera e aprende que a última palavra não é da ciência mas da dedicação. No verão de 1921, em casa de uma família amiga, para passar o tempo lê a autobiografia de Santa Teresa de Jesus (Teresa de Ávila), até de madrugada, concluindo: "Esta é a verdade". Tornando-se católica, viria a ser religiosa carmelita, e depois deportada pelos nazis da Holanda, vindo a ser morta por ser religiosa de origem judaica.
  • Eugénio Zolli - Israel Zolli era o grande rabino da comunidade israelita de Roma durante os dramáticos acontecimentos da 2.ª Guerra Mundial. Acabada a guerra tornou-se cristão-católico, testemunhando a sua fé e adesão a Jesus Cristo e ao Evangelho. Um terramoto. Sendo uma figura proeminente do judaísmo, a sua conversão trouxeram-lhe fortes ataques, além de ficar sem as condições económicas e financeiras, mas persistiu o chamamento de Cristo, a visão de Cristo a pousar-lhe a mão sobre os ombros. Também a esposa e posteriormente a filha se viriam a tornar cristãs. Esta conversão é também um testemunho favorável ao Papa Pio XII, muitas vezes acusado de silêncio sobre os ataques nazis, mas por muitos judeus reconhecido o seu papel em salvar milhares de judeus ao abrir-lhes, por exemplo, igrejas e conventos para os proteger.
  • Sergei Kourdakov - nasceu em 1 de março de 1951, na Sibéria. Os avós paternos morreram de inanição e fome, o pai foi fuzilado em 1955 e a mãe morreu de desgosto pouco depois. Até aos seis anos algumas famílias de amigos acolheram-no, depois foi para os colégios do Estado, saltando de um para outro. Aprendeu a lutar para se defender. Os seus educadores tinham horror a Deus. Foi-lhe inculcado que a religião não era inimiga mas os crentes e era estes que era preciso silenciar, perseguir, destruir. Viria a ser responsável de um grupo sempre à cata de grupos de cristãos reunidos para os ameaçar, bater, prender. Pelo meio encontra uma jovem persistente, é agredida com violência, numa reunião seguinte volta a encontrá-la e depois novamente, Fica admirado como é que alguém pode correr tantos riscos em nome da religião... um dia a arrumar a cave da esquadra, enquanto arrumava material confiscado aos crentes, para queimar e destruir, depara-se com uma página do evangelho manuscrita... e começa a fuga para o cristianismo. Na noite de 3 para 4 de setembro de 1971, a pouquíssimos quilómetros do Canadá, abandona o barco em que seguia e é-lhe dado azilo no Canadá... para procurar Deus... dando testemunho da sua vida crente... será morto a 1 de janeiro de 1973... já se tinha encontrado com Cristo.
  • Pietro Cavallero - é preso a 3 de outubro de 1967, depois de uma fuga de 8 dias, após a matança no largo Zandonai, na Itália. Ficou conhecido como o "bandido que ri", apesar de nunca se rir, apenas quando foi preso quando disparou o último tiro, pois não tinha mais balas... depois de encontrar Cristo passou a ter motivos para sorrir. Converteu-se... mas nunca arranjou atenuantes para o seu comportamento, tendo consciência dos erros cometidos...

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Encontros que (nos) salvam…

       Encontros. Nem todos têm a mesma profundidade. Cada encontro deveria ser único, provocando mudança. Quando nos encontramos, a nossa vida enriquece-se.
       Encontrar o outro não é tarefa fácil. O encontro implica-nos, compromete-nos, responsabiliza-nos. No Principezinho mostra-se essa clarividência: somos responsáveis pelas pessoas que cativamos. O outro, quando deixo que me encontre, quando o quero encontrar, torna-se especial, torna-se único, muda a minha vida para sempre e muda a qualidade do meu relacionamento com todos os outros.
       Fazemos esta experiência todos os dias: quando amuámos com alguém, a expressão do nosso rosto muda para todas as pessoas. Quando descobrimos a alegria e a paz com esta ou com aqueloutra pessoa, o nosso rosto adquire luz para todas as pessoas que encontrarmos durante o dia.
Quem se encontra com Jesus Cristo descobre um sentido novo para a sua vida:
A Samaritana (Jo 4, 1-42). Um diálogo de descoberta. Jesus interpela-a na sua vida pessoal mas também na sua maneira de se colocar diante de Deus. A Samaritana é desafiada a descobrir a verdade. Converte-se a Jesus e anuncia-O.
A mulher adúltera (Jo 8, 1-11). Vai e não voltes a pecar.
Zaqueu (Lc 19, 1-11). O cobrador de impostos, ao serviço do império romano, traidor para os judeus. Jesus encontra-O e Ele muda: compensa os que roubou e dá aos pobres, com generosidade.
A mulher que toca no manto de Jesus (Mt 9, 20-22). No meio de uma multidão, a mulher encontra-se. Basta-nos o olhar de Jesus e deixarmo-nos envolver pela luz que brota do Seu rosto.
Apóstolos. Jesus cruza-se com eles, no meio da multidão, nos seus postos de trabalho. Interpela-os. Vinde e vereis. Tornam-se discípulos missionários.
João Batista (Lc 1, 39-45). Ainda no seio materno encontra Jesus e rejubila!
Também o Jovem rico (Lc 18, 18-27) não fica indiferente à figura de Jesus, mas naquele momento não está preparado para O seguir.
       Ao longo da História da Igreja os exemplos multiplicam-se.
Paulo de Tarso (Atos 9,1-30), depara-se com a figura de Jesus (cai do cavalo) e a sua vida dá uma volta de 180 graus. De Perseguidor a Apóstolo.
Santo Agostinho. O encontro com Jesus transforma-o. A sua vida doravante é dedicada ao estudo, à oração, à reflexão, à pregação da Palavra de Deus.
Francisco de Assis. Da riqueza material à pobreza, à simplicidade, para que o Evangelho passe pela sua vida, em todos os seus gestos.
Inácio de Loyola, Francisco Xavier, Madre Teresa de Calcutá, João Paulo II, Padre Américo e tantos homens e mulheres.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4360 , de 26 de abril de 2016

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

WALDEMAR TUREK - A Quaresma com Santo Agostinho

WALDEMAR TUREK (2015). História de uma conversão. A Quaresma com Santo Agostinho. Lisboa: Paulus Editora. 128 páginas.

       Há livros que procuramos, pelo conteúdo, pelo autor, por uma sugestão. Há livros que encontramos sem procurar, mas que saltam à vista por algum motivo: o título, a capa, o tema, a referência a um autor. É o caso deste livro. A Gráfica de Lamego, livraria da Diocese de Lamego, procura diversificar nos livros e nos autores, acolhendo também as sugestões das Editoras (sobretudo cristãs). Semana a semana, ou conforme vamos passando, a verificação se há novidades. A capa não chamou à atenção, mas a referência a Santo Agostinho saltou logo à vista, por se um dos teólogos mais brilhantes do cristianismo.
       Ainda hesitamos, o tema era interessante, a Quaresma, com reflexões para todos os dias, da Quarta-feira de Cinzas até Sexta-feira Santa, e a reflexão dos Domingos, seguindo os três ciclos A, B e C; a referência a Santo Agostinho e às suas Confissões, eram sugestivas, mas o autor desconhecido. Quando um autor se vale de alguém do estatuto de Santo Agostinho, poderá ter o propósito de vender bem. Obviamente que ninguém escreve e publica um livro para ficar apenas exposto em prateleiras.
       Folheando o livro percebemos, na nossa opinião, que é um livro agradável, com reflexões muitos sugestivas para todos os dias da Quaresma, e as referências a Santo Agostinho fazem-nos entrar na sua busca espiritual, na sua conversão, na preocupação constante de conhecer e acolher Deus.
       Para quem leu as Confissões, tem aqui um prestimosa ajuda para relembrar alguns dos momentos comoventes na vida de Santo Agostinho. Para quem não leu esta importantíssima obra do Bispo de Hipona, aqui está uma ajuda e um incentivo.
       A vida de Santo Agostinho mostra como é possível passar da presunção de que se atinge a verdade pelo esforço pessoal, pelo estudo, pela filosofia, para a humildade de quem se aceita nas suas limitações, confiando na misericórdia de Deus.
       Nestes dias em que o Papa Francisco anunciou o Jubileu da Misericórdia (a iniciar no dia 8 de dezembro de 2015 e a encerrar no dia 20 de novembro de 2016), a leitura deste livro far-nos-á perceber melhor a misericórdia de Deus, numa reflexão agostiniana tão atual, hoje como nos seus dias terrenos. A misericórdia de Deus é transversal a todas as reflexões, e às Confissões do Santo de Tagaste. 

Veja a sugestão pelos olhos do

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos!

       «Convertei-vos a Mim de todo o coração, com jejuns, lágrimas e lamentações. Rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos. Convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo, paciente e misericordioso, pronto a desistir dos castigos que promete...» (Joel 2, 12-18).

       "Nós somos embaixadores de Cristo; é Deus quem vos exorta por nosso intermédio. Nós vos pedimos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus. A Cristo, que não conhecera o pecado, identificou-O Deus com o pecado por amor de nós, para que em Cristo nos tornássemos justiça de Deus... Porque Ele diz: «No tempo favorável, Eu te ouvi; no dia da salvação, vim em teu auxílio». Este é o tempo favorável, este é o dia da salvação" (2 Cor 5, 20 - 6, 2).

Disse Jesus aos seus discípulos: «Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Aliás, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está nos Céus. Assim, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita, para que a tua esmola fique em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. Quando rezardes, não sejais como os hipócritas, porque eles gostam de orar de pé, nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a ecompensa. Quando jejuardes, não tomeis um ar sombrio, como os hipócritas, que desfiguram o rosto, para mostrarem aos homens que jejuam. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que os homens não percebam que jejuas, mas apenas o teu Pai, que está presente em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa».
       És pó da terra e à terra hás-de voltar.
       É a condição de todos os seres humanos. O início da Quaresma relembra-nos a nossa condição igual. Donde vimos e para onde vamos. Mas diz-nos muito mais. Numa perspectiva mais científica é hoje afirmado que no início do Universo haveria apenas "poeira". E desta "poeira" nasceu o Universo. Neste sentido, a Bíblia é explicitada pelos dados da ciência. Numa palavra, temos todos a mesma origem: vida vegetal, animal, vida humana. Para nós crentes, vimos todos de Deus. Esta solidariedade na origem há-de catapultar-nos para a solidariedade no caminho, para que no fim nos reencontremos todos em Deus.
       A expressão que se sublinha neste dia, lembra-nos a nossa fragilidade. A miséria do ser humano, mas que é também a sua grandeza. Não fomos criados para vivermos sozinhos, ou uns contra os outros, ou independentemente dos outros. Fomos criados para vivermos como família, em Deus. De novo, recordemos a nossa origem comum. Por outro lado, o saber que não estamos cá para sempre, deve levar-nos a aproveitar bem o tempo que Deus nos dá para sermos felizes, para fazermos alguém feliz, para deixarmos o mundo melhor que o encontramos.
       Quaresma é este tempo favorável, como nos diz São Paulo, para a conversão, para a mudança de vida. Não uma mudança qualquer, mas mudarmos as nossas atitudes e o nosso comportamento para seguirmos imitando o Mestre dos Mestres, reconciliando-nos com Deus.
       Neste tempo santo, a Igreja recomenda diversas práticas: o jejum, a conversão, a confissão, a abstinência, a leitura mais frequente da Sagrada Escritura, a participação mais activa na Eucaristia, a partilha mais efetiva com os mais necessitados. Hão-de ser expressão da conversão interior. O gesto da imposição da cinzas, nesta Quarta-feira de Cinzas, mais não é que um fortíssimo sinal do nosso despojamento interior, que deverá significar adesão firme a Deus. Importa "rasgar o nosso coração"... os gestos exteriores só vale se nos mobilizarem interiormente...

sábado, 24 de janeiro de 2015

Domingo III do Tempo Comum - ano B - 25 de janeiro

       1 – "A glória de Deus é o homem vivo; e a vida do homem é a visão de Deus". Esta afirmação pertence a Santo Ireneu, Bispo e Mártir (nasceu por volta do ano 130 e foi morto no ano 200). Quando nos confrontamos com a prática religiosa, com as vivências crentes, a partir de fora, vêm ao de cima exigências, sacrifícios, renúncias. "Porque vais à Missa? Vem daí, vamos tomar um café, deixa lá a Missa, podes ir noutros dias. Com este tempo, já viste o sacrifício que vais fazer?"
       Uma visão utilitarista da religião, num ambiente consumista, onde domina a liquidez de ideias e de convicções, o bem-estar a qualquer preço, eliminando tudo o que possa cheirar a esforço, a persistência, a paciência. Desde logo se diga que a vida é multicolor, e não apenas a preto e branco, luz e trevas, deserto e oásis, é uma paleta de cores, com matizes diferentes conforme as circunstâncias que nos envolvem. Até a chuva e o sol alteram a nossa interação com os outros.
       Hoje, a Palavra de Deus traz-nos, envolvendo-nos, provocando-nos, um forte apelo à conversão. A Bíblia faz assomar violências e ódios, conflitos e disputas, guerras e vinganças. E, no entanto, entrelaça-nos em histórias de bênção, de aliança, de amizade, histórias de luta, de compromisso, de vida e de esperança, de luz. Algumas tramas fazem-nos pensar que Deus é "vingativo" quando não cumprimos, quando nos desviamos e transviámos. A dualidade da aliança: Deus ama-nos se vivermos segundo as Suas leis. Numa leitura rápida e superficial somos levados a olhar para Deus como um Ser caprichoso, cioso, que nos castiga à primeira falta. É, aliás, uma conceção que ainda voga nas nossas comunidades, em muitos cristãos.
       Uma leitura mais atenta, generosa, abrangente da Bíblia, põe em evidência Deus como criador e redentor. Está presente em todos os momentos da nossa vida e da nossa história, sobretudo nas adversidades, na míngua, no exílio e até na morte. A Sua maior glória é o Homem vivo, feliz. Cumprir os Mandamentos é garantia que nos tornamos mais irmãos, mais próximos, mais felizes connosco e com os outros. Deus ama-nos primeiro e sem condições prévias ou reservas futuras.
       2 – Entremos agora no Evangelho de São Marcos que nos faz escutar as primeiras palavras de Jesus. Antes, a voz do Pai que dá testemunho acerca de Jesus. Depois, a voz de João Batista que nos aponta o Cordeiro de Deus. Hoje é Cristo que em definitivo assume a missão de evangelizar o mundo.
       Depois de João Batista ter sido preso, Jesus parte para a Galileia, a Galileia dos gentios, onde se cruzam crenças e nacionalidades, numa abertura original a todos os que buscam e se deixam interpelar. A salvação está agora acessível a todos, está ao nosso alcance. Jesus vem à nossa aldeia, à nossa vida. É para nós que Ele dirige a Sua pregação: «Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».
       Com Jesus, o tempo cumpre-se, chega ao seu fim. O reino está próximo, está no meio de nós, Jesus abre-nos os Céus. É Ele verdadeiramente o reino de Deus, a vida de Deus, a comunhão que nos enlaça para sempre. Podemos viver já sob o olhar amoroso de Deus, sob a Sua luz. Jesus vem porque Deus nos quer, Deus nos quer bem, nos quer vivos, nos quer verdadeiramente humanos, refletindo-O em nós, não por capricho Seu, mas para felicidade nossa.
       Caminhando junto de nós, junto do mar da Galileia, Jesus repara em nós. Vê-nos com olhos de ver, com o coração. Lançamos as redes ao mar! Quantas vezes andamos à pesca, à procura, sem saber onde encontraremos bom peixe, se a maré nos trará a fortuna ou a desgraça! A Simão e a André e a nós, Jesus lança o desafio: «Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens».
       Eles deixam tudo, muito rapidamente, e seguem Jesus. Mais adiante, vê também Tiago e João, filhos de Zebedeu, que consertavam as redes. Jesus chama-os e também eles largam os seus afazeres e seguem-n’O. Serão pescadores de homens, preparam-se para ajudar a consertar o mundo, a história, a vida, contribuindo para que o tempo se cumpra para todos.
       3 – Página belíssima e luminosa nos traz o livro de Jonas. Também Jonas é chamado por Deus. A missão para o qual é enviado não se afigura muito fácil. É enviado a outra Galileia dos gentios, a uma nação estrangeira, a Nínive. Um povo que não é o seu, mas que Deus quer salvar: «Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive e apregoa nela a mensagem que Eu te direi». Para Jonas o melhor seria que Deus fizesse o favor de quanto antes destruir a cidade. Recusa-se, inclusive, a dirigir-se àquela povoação para cumprir a missão que lhe está confiada. Jonas, contrafeito, engolido por uma baleia, desembarca em Nínive para que a vontade de Deus se realize.
       O autor dá-nos a informação preciosa de que Nínive era uma grande cidade, em extensão, mas sobretudo aos olhos de Deus. A mensagem é direta: «Daqui a quarenta dias, Nínive será destruída». Jonas intuiu a bondade de Deus e daí a recusa em anunciar o castigo. Percebe que se avisar os ninivitas estes podem ter tempo de se converter. Ainda assim não pôde fugir à sua missão.
       A pregação surte efeito, "Os habitantes de Nínive acreditaram em Deus, proclamaram um jejum e revestiram-se de saco, desde o maior ao mais pequeno. Quando Deus viu as suas obras e como se convertiam do seu mau caminho, desistiu do castigo com que os ameaçara".
       Vendo bem, o propósito de Deus, nesta como outras páginas da Escritura e da história, não é eliminar pessoas, mas eliminar o pecado, o mal, o que é diabólico, ou seja, o que nos afasta dos outros ou nos coloca contra eles. Há lugar para todos. O castigo é preparado por nós. Quando cada um só se preocupa com o seu umbigo, mais tarde ou mais cedo, a comunidade deixa de existir.
       No seguimento da leitura, vemos um Jonas revoltado, mal-humorado, levando-se demasiado a sério. Para Ele Deus deveria cumprir com o desiderato original e destruir a cidade, independentemente do número de pessoas que perecesse. "Por isso é que, precavendo-me, quis fugir para Társis, porque sabia que és um Deus misericordioso e clemente, paciente, cheio de bondade e pronto a renunciar aos castigos" (Jn 4, 2). Vendo que Deus não cumpre com (o que Jonas julgava ser) o prometido, manifesta-se desencantado e quer que Deus lhe dê a morte, já que a não deu aos ninivitas. A reposta de Deus é eloquente. Jonas descansa debaixo de um ricínio, que nasceu da noite para o dia, mas que morre do mesmo jeito. Jonas lamenta-se de novo. Chega a resposta de Deus: «E não hei de Eu compadecer-me da grande cidade de Nínive, onde há mais de cento e vinte mil pessoas, que não sabem distinguir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda, e um grande número de animais?» (Jn 4, 11).

       4 – São Paulo segue de perto a missão do contrariado Jonas e sobretudo a missão do convicto Jesus. À comunidade de Corinto e às nossas comunidades:
"O que tenho a dizer-vos, irmãos, é que o tempo é breve. Doravante, os que têm esposas procedam como se as não tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que andam alegres, como se não andassem; os que compram, como se não possuíssem; os que utilizam este mundo, como se realmente não o utilizassem. De facto, o cenário deste mundo é passageiro".
       O tempo é breve. Demasiado breve. É urgente que cumpramos o nosso tempo, preenchendo-o com o melhor de nós, com o que perdura para lá deste mundo, iniciando já a realeza de Jesus. Se é Ele que age em nós, é possível que todos os esforços valham a pena.
       A conversão é a condição de todos os que se abrem à graça de Deus, mendigando o amor de Deus, deixando-Se iluminar pela Sua benevolência.
       Na conclusão do Oitavário de Oração pela Unidade dos Cristãos (18 a 25 de janeiro), coincidindo com a conversão de São Paulo, a evidente certeza que todos precisamos de nos converter a Jesus Cristo, bebendo do mesmo caudal de água viva que jorra d’Ele e nos sacia até à eternidade.

       5 – Jonas, Jesus, São Paulo, mostram-nos a conversão como caminho para Deus, cientes da Sua misericórdia infinita, mas que promove a nossa liberdade, as nossas escolhas.
       Do mesmo jeito, o salmista nos convoca à oração, respondendo à Palavra de Deus:
"Mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos, / ensinai-me as vossas veredas. / Guiai-me na vossa verdade e ensinai-me, / porque Vós sois Deus, meu Salvador. / Lembrai-Vos, Senhor, das vossas misericórdias / e das vossas graças, que são eternas. / Lembrai-Vos de mim segundo a vossa clemência, / por causa da vossa bondade, Senhor".
       A oração é-nos favorável, inicia com a certeza confiante da bondade de Deus. Cabe-nos, no seguimento, a predisposição para nos convertermos a Ele de todo o coração, para que a nossa vida prossiga até à eternidade, comunhão plena com Ele e com os irmãos, visualizável na partilha solidária e na comunhão fraterna.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano B): Jonas 3, 1-5. 10; Sl 24 (25); 1 Cor 7, 29-31; Mc 1, 14-20.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Domingo II do Advento - ano B - 7 de dezembro

       1 – "Consolai, consolai o meu povo... Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas".
       Preparar. Consolar. Converter-se. Anunciar. Caminhar. Antecipar.
       São algumas atitudes próprias do tempo de Advento e, particularmente, deste segundo domingo. É notório, sobretudo na primeira leitura e no Evangelho, o desafio da preparação que se acentua com a chegada do Precursor, Aquele que vem antes com a missão específica de preparar o caminho do Senhor.
       O profeta Isaías é perentório quanto às promessas de Deus, de nos visitar. Já se vislumbra a chegada de Deus, já irrompe a voz do mensageiro: «Preparai no deserto o caminho do Senhor, abri na estepe uma estrada para o nosso Deus. Sejam alteados todos os vales e abatidos os montes e as colinas; endireitem-se os caminhos tortuosos e aplanem-se as veredas escarpadas. Então se manifestará a glória do Senhor... Eis o vosso Deus. O Senhor Deus vem com poder, o seu braço dominará... Como um pastor apascentará o seu rebanho e reunirá os animais dispersos; tomará os cordeiros em seus braços, conduzirá as ovelhas ao seu descanso».
       Novos tempos de justiça e de paz, de concórdia e unidade. Deus vem para resgatar o Seu povo, para ajuntar os seus membros como o pastor reúne o seu rebanho. O convite de Deus é envolvente: «Falai ao coração de Jerusalém e dizei-lhe em alta voz que terminaram os seus trabalhos e está perdoada a sua culpa... Grita com voz forte, arauto de Jerusalém! Levanta sem temor a tua voz!» A voz que clama deve ser audível, falar ao coração, mas com firmeza e em alta voz, subindo ao monte para que a mensagem ressoe em toda a terra.
       2 – No Evangelho, o arauto que clama com voz forte é João Batista. Se do alto monte a voz se pode ouvir à distância sobre as cidades e as aldeias, a partir do deserto alarga-se sem fronteiras para entrar na cidade fortificada a partir de baixo, a partir do interior.
       Recorde-se, porém, que o deserto, onde se encontra habitualmente João Batista, nas proximidades do rio Jordão, no qual batizará Jesus, situa-se nas cercanias de Israel. Tal como o povo caminhou pelo deserto, purificando-se para entrar na Terra Prometida, também agora os crentes terão que fazer um caminho de deserto, de penitência e de conversão, para reentrarem na Promessa de Deus, plenizada com a chegada do Messias.
       A missão de João Batista é precisamente "proclamar um batismo de penitência para remissão dos pecados". É dele que estava escrito, como refere São Marcos no Evangelho, «Vou enviar à tua frente o meu mensageiro, que preparará o teu caminho. Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas’». A missão é predispor-nos a acolher o Messias, a caminhar, purificando o nosso coração a fim de percebermos a chegada de Deus às nossas vidas.
       Na sua pregação, intui-se a brevidade, a novidade e a grandeza do Eleito de Deus que vem: «Vai chegar depois de mim quem é mais forte do que eu, diante do qual eu não sou digno de me inclinar para desatar as correias das suas sandálias. Eu batizo-vos na água, mas Ele batizar-vos-á no Espírito Santo».
       Registe-se, por agora, que cada um de nós, e as comunidades cristãs no seu conjunto, deve assumir esta missão e esta pregação, preparando-nos e clamando para que os outros se predisponham a receber o reino de Deus. Transformamos a nossa vida, deixamo-nos batizar no arrependimento, na conversão e na penitência, aplanando tudo o que na nossa vida nos impede de abraçar os outros e de acolher o Senhor. Ponhamo-nos a caminho. O caminho faz-se caminhando e não apenas olhando para o caminho que temos pela frente. Há que dar o primeiro passo, para que a um, outros passos nos aproximem de Jesus Cristo, arrastando os outros connosco.
       3 – O tempo do Advento é o tempo de sermos precursores do Filho de Deus, dilatando o nosso coração para que um CORAÇÃO maior possa caber dentro de nós. Este é um tempo favorável, de graça e de salvação. Deus é paciente e dá-nos todo o tempo que precisamos para nos pormos a caminho e para modificarmos a nossa vida em todos os aspetos que nos afastam ou nos mantêm à distância dos nossos semelhantes. O caminho do Céu faz-se nos caminhos da história, da nossa história pessoal, familiar, comunitária. Aqui e agora. Se a plenitude finaliza na eternidade, é ativada, vivida e antecipada na atualidade. Vamos saboreando o que havemos de ser. O reino de Deus, instaurado na morte e ressurreição de Cristo, está em ebulição no mundo histórico-temporal.
       São Pedro escreve-nos dizendo:
«O Senhor não tardará em cumprir a sua promessa... Mas usa de paciência para convosco e não quer que ninguém pereça, mas que todos possam arrepender-se... Entretanto, o dia do Senhor virá como um ladrão... Nós esperamos, segundo a promessa do Senhor, os novos céus e a nova terra, onde habitará a justiça. Portanto, caríssimos, enquanto esperais tudo isto, empenhai-vos, sem pecado nem motivo algum de censura, para que o Senhor vos encontre na paz».
       Lembra-nos que o Senhor virá, não tarda muito. Reassume as palavras de Jesus: o Senhor virá sem contarmos, como um ladrão. Então, há que estar preparados, vigilantes. E que significa ESPERAR e estar vigilantes? Concretiza o Apóstolo: EMPENHAI-VOS...

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (B): Is 40,1-5.9-11; Sl 84 (85); 2 Ped 3,8-14; Mc 1,1-8.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Quem era eu para poder opor-me a Deus?

Disse-lhes Pedro:
       Quando comecei a falar, o Espírito Santo desceu sobre eles, como sobre nós ao princípio. Lembrei-me então das palavras que o Senhor dizia: ‘João baptizou com água, mas vós sereis baptizados no Espírito Santo’. Se Deus lhes concedeu o mesmo dom que a nós, por terem acreditado no Senhor Jesus Cristo, quem era eu para poder opor-me a Deus?» Quando ouviram estas palavras, tranquilizaram-se e deram glória a Deus, dizendo: «Portanto, Deus concedeu também aos gentios o arrependimento que conduz à vida» (Atos 11, 1-18).
       São Pedro regressa à comunidade judaica depois de ter estado entre pagãos. A reacção da comunidade é, de início, apreensiva, desconfiada, cautelosa. A salvação em Cristo é manifestada aos judeus, como é que Pedro vai até junto dos incircuncisos, os pagãos?
       Pedro, inspirado pelo Espírito Santo fala-lhes do sonho que teve e como Deus lhe manifestou a necessidade de alargar a mensagem para os pagãos e, ao mesmo tempo, a recepção positiva dos pagãos à mensagem pregada por Pedro, em nome de Jesus Cristo.
       Finalmente, a comunidade compreende que a salvação não é exclusiva de um povo, de uma nação, de um grupo de pessoas, mas destina-se à humanidade inteira... ainda que episódios destes se repitam pela história da Igreja...

quinta-feira, 27 de março de 2014

LEITURAS: Giulio Viviani - Porque Jejuamos?

GIULIO VIVIANI. Porque Jejuamos? A prática do jejum e da abstinência na Igreja de hoje. Paulus Editora. Lisboa 2013. 112 páginas.
       Um livro é um pouco como as pessoas, não se mede aos palmos. Este é um pequeno livro mas muito curioso, abordando o tema do jejum e da abstinência (de carne) de uma forma simples, fundamentada, acessível, de fácil compreensão. Parte do texto de Isaías, que dá o título ao original italiano: «Para quê jejuar, se Vós não fazeis caso? Para quê humilhar-nos, se não prestais atenção?» (Is 58, 3). A resposta do Senhor é elucidativa: "É porque no dia do vosso jejum só cuidais dos vossos negócios, e oprimis todos os vossos empregados. Jejuais entre rixas e disputas, dando bofetadas sem dó nem piedade... O jejum que me agrada é este: libertar os que foram presos injustamente, livrá-los do jugo que levam às costas, pôr em liberdade os oprimidos, quebrar toda a espécie de opressão, repartir o teu pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não desprezar o teu irmão. Então, a tua luz surgirá como a aurora, e as tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se. A tua justiça irá à tua frente, e a glória do Senhor atrás de ti" (Is 58, 1-12).
       Esta crítica estará também no discurso de Jesus quando se refere a algumas práticas exteriores, rituais, que, embora respeitando a Lei, não aproxima as pessoas. O melhor jejum será sempre a bondade, a misericórdia, o serviço ao irmão. Ou dito de outra maneira, o jejum e a prática da abstinência (bem assim a oração e a esmola) deverão ser acompanhadas por uma conversão efetiva a Deus e de Deus para os irmãos.
       O autor fundamenta a relevância do Jejum e da Abstinência na Sagrada Escritura, na Tradição da Igreja, no Magistério papal. Desde logo o jejum de Jesus, durante 40 dias e 40 noites, no deserto, antes de iniciar a vida pública. Por outro a resposta dada alguns fariseus quando ao facto de os discípulos não jejuarem. A resposta é evidente: não jejuam por agora, enquanto o noivo está com eles, quando o noivo lhes for tirado então jejuarão (cf. Mc 2, 18-22).
       Alguns documentos importantes revisitados pelo autor: Constituição Apostólica Paenitemini, do Papa Paulo VI, Catecismo da Igreja Católica, Código de Direito Canónico, Normas para o jejum e abstinência, da Conferência Episcopal Portuguesa (28 de janeiro de 1985), e Nota Pastoral O sentido cristão do jejum e da abstinência, da Conferência Episcopal Italiana (4 de outubro de 1994).
       Na atualidade verifica-se, de algum modo, uma certa indiferença em relação a estas práticas, que se acentuam sobretudo na Quaresma. Por um lado, a própria Igreja mitigou as orientações, para sublinhar que a salvação era dom de Deus, afastando de novo algumas conceções farisaicas: a salvação resultaria sobretudo do esforço humano e do sacrifício, das práticas instituídas. A Igreja, fiel a Jesus, quis e quer, que as práticas exteriores, do jejum, oração e esmola, seja sobretudo um sinal de conversão, de adesão à vontade de Deus, de mudança efetiva na vida pessoa, familiar, comunitária, sejam oportunidades na Quaresma mas para se estenderem a todo o ano. Por outro lado, o Jejum e a abstinência não podem ser separadas, nunca, do serviço concreto ao próximo. Não se jejua hoje para amanhã comer mais, ou se poupa hoje para amanhã gastar mais, mas que a poupança, no jejum e abstinência possam reverter a favor dos mais necessitados. Aliás, estas práticas visam fazer-nos sensibilizar para as carências de outras, que não têm que comer, que vestir, não têm o mínimo necessário para sobreviver com dignidade.
       Um dos aspetos cuja reflexão me surpreendeu anda à volta da ABSTINÊNCIA e concretamente de CARNE. Obviamente, e o documento da Conferência Episcopal Portuguesa é claro, mas também outras intervenções do magistério episcopal e papal, a abstinência poderá ser de um alimento ou algo que nos agrade muito: do tabaco, de café, de andar de carro, de doces, beber água da torneira e abster-se de beber água engarrafada. Cada família, comunidade, ou cada região, poderá refletir e propor um jejum e/ou abstinência que seja sinal para aquela realidade. No entanto, a Abstinência de Carne poderá ser um sinal com raízes muito significativas.
       Em Sexta-feira Santa, Jesus ofereceu a Sua Carne por nós. A abstinência e o jejum e a oração e a esmola, são práticas pascais, para melhor nos associarem à paixão redentora de Jesus. Daí se recomende a abstinência em todas as sextas-feiras, especialmente na Quaresma. Configurados à oferenda de Jesus, em Sexta-feira só deveríamos COMER a CARNE de Jesus e não outra carne. Belíssimo. Nunca tinha encontrado uma explicação tão justa e luminosa como esta. Até o jejum eucarístico (uma hora antes de comungar) poderá aqui encontrar uma explicação válida: não misturar o ALIMENTO com outros alimentos, valorizando o verdadeiro Pão da Vida.
       Outro argumento, igualmente preponderante, o facto da abstinência de carne poder ser um SINAL cristão no mundo atual. A abstinência pode adquirir outras modalidades, mas havendo uma comum a todos os cristãos e a todas as comunidades funcionará melhor como sinal. Nas cantinas da escola, ou nos restaurantes, há uma alimentação própria para vegetarianos, para judeus. Os muçulmanos sinalizam o Ramadão em público... então por que não os cristãos proporem o SINAL, não comendo carne à sexta-feira, oportunidade para sublinharem as razões da sua fé.
       Obviamente que esta prática não recusa a abstinência de outros alimentos ou situações, a nível pessoal, familiar e/ou comunitário. Mas um SINAL comum dos cristãos seria bem vindo. Parece que só os sinais dos cristãos desaparecem, sem que ninguém se importe com isso. A fundamentação, contudo, está na identificação com Jesus Cristo e com o mistério da Sua morte e ressurreição.
       Diga-se também que o não comer carne não significa que se deva comer peixe... O autor conta uma pequena história em que uma senhora o terá abordado para dizer que as leis da Igreja eram um disparate pois obrigavam a comer peixe nas sextas-feiras da Quaresma, quando o peixe era uma comida cara, uma comida para ricos, não levando em conta as pessoas com menos recursos. Em nenhum documento da Igreja se diz que a carne deva ser substituída por peixe. Hoje há muitos alimentos confeccionáveis que não exigem carne. Leite, ovos, queijo não entram na "proibição"/ recomendação de não se comer carne. E portanto será fácil preparar refeições sem carne.
       A abstinência é recomendada a partir dos 14 anos. O Jejum, a partir dos 21 anos, e em Portugal a partir dos 18 anos, e até aos 60 anos de idade. Dispensadas estão as pessoas doentes, as mulheres a amamentar, ou outras razões que justifiquem a dispensa. As crianças, sobretudo em idade de catequese, e as pessoas com 60 anos ou mais, podem também jejuar. A indicação para todos é que não ponha em causa a saúde da pessoa que jejua.
       Vale a pena uma leitura atenta e descontraída deste pequeno livro. 112 páginas, com o tamanho de um tablet de 7''.

sábado, 30 de novembro de 2013

Domingo I do Advento - ano A - 1 de dezembro

       1 – Final de tarde. Viagem para a capital. Carro pronto para fazer-se à estrada. Bagagem acomodada. Férias de verão. Mãos no volante, pronto a arrancar. Irmã. Sobrinho. A criança é sentada na respetiva cadeirinha, no banco de trás. Menos de nada adormece sereno. A mãe ocupa o lugar de pendura, faz companhia ao condutor, para que este se mantenha desperto e atento à estrada, pondo-se a conversa em dia. Mãe sempre com o ouvido apurado e o olhar sorrateiro sobre o filho. Entretanto vem caindo a noite, escurece progressivamente. Do nada, a criança começa numa choradeira desalmada. Para-se o carro, a mãe passa para junto da criança que logo volta a sossegar, adormecendo novamente. Afinal a escuridão é a mesma, mas com a mãe ao lado, tudo é calmaria, nada assusta.
       Entramos num salão em total escuridão. Queremos passar de um para o outro extremo. Tateamos e nada. Nem um palmo vemos à frente do nariz. O medo de darmos uma canelada em algum móvel é maior, já antecipamos a dor, com a possibilidade de destruirmos algo de valioso que encontremos pela frente. Alguém entreabre a porta para a qual nos dirigimos, apenas uma nesga, uma luz ténue. E já nós avançamos seguros, ainda que nos circundem muitas trevas, uma vez que se vislumbra a direção e já podemos distinguir formas e objetos, avançamos. E quanto mais nos aproximamos da luz melhor vemos à nossa volta. É esta a dimensão de confiança que Jesus nos traz. A luz da fé orienta-nos no caminho a percorrer, a voz de Jesus atrai-nos.
       Ainda que envolvidos em trevas, mas o sabermos que uma mão nos segura, uma luz nos aponta a meta, Alguém caminha ao nosso lado, é chão seguro para acalmar a nossa dor, para antecipar a Alegria do encontro e da vida. Como reafirma o papa, na Sua primeira Exortação Apostólica, A Alegria do Evangelho (Evangelii Gaudium), mesmo nas circunstâncias mais adversas, a alegria “sempre permanece pelo menos como um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de, não obstante o contrário, sermos infinitamente amados”.
       2 – Percorremos um ciclo completo, de um Advento ao outro. É uma espiral, o círculo quase se fecha, com a solenidade de Cristo Rei, conclusão do ano litúrgico, mas logo outro tempo se apresenta, como dom, em continuidade, pois é um e o mesmo mistério da salvação, morte e ressurreição de Jesus, em cada Eucaristia renovando-nos e renovando a Igreja.
       Curiosamente ou não, os textos são muito próximos, falam-nos do fim/plenitude dos tempos e da vinda de Jesus, do desfecho mas sobretudo da confiança no amor de Deus que vive entre nós. Jesus fala abertamente, muitas coisas irão suceder. Os discípulos não estão isentos de sofrimentos, de perseguição, de injúrias, e morte. Guerras, cataclismos, violência, tumultos. Erguei-vos, levantai a cabeça, não temais, está perto a vossa salvação. O medo é próprio do desconhecido e do que vem aí, mas sabermo-nos apoiados por Alguém que vem do futuro e que antecipa a nossa salvação, dá-nos ganas para prosseguir com a segurança necessária. Melhor, e mais uma vez, como filhos que se lançam ao encontro dos braços delicados da mãe, ou dos braços fortes do pai, sem calcular a distância, ou a altura, olhando apenas para os olhos, o sorriso, o rosto, os braços abertos de quem lhes quer bem.
       Esta é a garantia de Jesus. Não é tempo para paralisarmos, é HORA de vivermos, uns com os outros e para os outros. “Portanto, vigiai, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor. Compreendei isto: se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão, estaria vigilante e não deixaria arrombar a sua casa. Por isso, estai vós também preparados, porque na hora em que menos pensais, virá o Filho do homem”.
       No final não interessa tanto a cronologia, mas a vivência quotidiana, entre alegrias e esperanças, tristezas e angústias, procurando o feixe de Luz e de Vida que nos vem de Deus, e nos enlaça e entrelaça com os irmãos. Não caminhamos sozinhos. Ele vai connosco e, se Ele nos acompanha, outros connosco se fazem à estrada.
       3 – Quando caímos na realidade nem tudo é como sonhámos. As certezas que vêm do nosso empenho por uma sociedade mais justa e humana colidem, nas mais variadas situações, com outras vontades e correntes, com indiferenças e conformismos, com ambientes contrários nos quais prevalecem injustiças, egoísmos, o "salve-se quem puder". Porém, para o cristão é sempre HORA de se fazer à estrada, é caminhando que se faz caminho. É no caminho que Jesus nos encontra. É no nosso caminhar que Deus vem até nós.
       Aí está o profeta a gritar às multidões: «Vinde, subamos ao monte do Senhor, ao templo do Deus de Jacob. Ele nos ensinará os seus caminhos e nós andaremos pelas suas veredas. De Sião há de vir a lei e de Jerusalém a palavra do Senhor».
       E a voz do profeta também a nós nos garante: “Ele será juiz no meio das nações e árbitro de povos sem número. Converterão as espadas em relhas de arado e as lanças em foices. Não levantará a espada nação contra nação, nem mais se hão de preparar para a guerra. Vinde, ó casa de Jacob, caminhemos à luz do Senhor”.
       Já não são horas para nos escusarmos com os outros ou com as circunstâncias (talvez pouco favoráveis). “Chegou a hora de nos levantarmos do sono, porque a salvação está agora mais perto de nós do que quando abraçámos a fé. A noite vai adiantada e o dia está próximo. Abandonemos as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz. Andemos dignamente, como em pleno dia, evitando comezainas e excessos de bebida, as devassidões e libertinagens, as discórdias e ciúmes; não vos preocupeis com a natureza carnal para satisfazer os seus apetites, mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo”. 

       4 – A vigilância não é passiva. Vigiar implica trabalhar pelo bem, irradiar a Boa Notícia, semear a paz, potenciar a concórdia, revestir-se de Jesus, por inteiro e em todo o tempo, e não apenas quando é mais fácil ou quando dá mais jeito. Não sabemos a hora de irmos em definitivo à presença do Senhor. E que importa? Importante é vivermos intensamente, procurando dar o melhor de nós mesmos, deixando marcas positivas no mundo, na relação com a família, com os colegas de trabalho, com os vizinhos, com os moradores do nosso bairro, com os que frequentam o mesmo café, a escola, o ambiente digital.
       E quando pecarmos, isto é, quando deixarmos vir ao de cima algo de menos bom, não desistamos, recorramos ao perdão de Deus e procuremos emendar o mal feito, aumentando ainda mais o nosso compromisso com o bem, com a luz, com a verdade. Parafraseando o nosso Bispo, no Encerramento do Ano da Fé, e Dia da Igreja Diocesana de Lamego: mais pertinho de Deus, mais pertinho dos irmãos. Não nos deixemos vencer pelas dificuldades, «quando as condições são adversas, não basta acender uma luz e mantê-la; é preciso aumentar constantemente a luz. Mais luz. Mais luz. Mais luz» (D. António).


Textos para a Eucaristia (ano A): Is 2, 1-5; Rom 13, 11-14; Mt 24, 37-44.