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terça-feira, 13 de junho de 2017

VL – Como (não) idolatrar o Papa - 2

       Bento XVI, Papa Emérito, em “Conversas finais” respondeu a uma questão sobre se tinha regredido e exemplo disso era o de dar a comunhão na boca. A resposta é clarificadora: “Sempre dei a Comunhão das duas maneiras. Só que, havendo tanta gente na Praça de São Pedro que o poderia entender mal (havia quem, por exemplo, metesse a hóstia no bolso), pareceu-me que a Comunhão na boca, como sinal, era um gesto muito acertado. Mas que eu fosse nisso de algum modo retrógrado… Devo dizer, aliás, que essas categorias de velho e de novo não se aplicam à liturgia”.
       Guardariam as hóstias para algum tipo de bruxaria ou porque assim tinham uma “relíquia” recebida das mãos do Papa. Um pouco como aqueles que vão a um concerto, a um grande evento, querem tocar no artista, tirar um selfie com ele, assinar um autógrafo para emoldurar. Com a figura do Papa também pode acontecer. Ir ao encontro de João Paulo II a um estádio de futebol ou ir ver um cantor famoso para alguns é a mesma coisa, pois no final o mais importante é que se esteve perto, se trouxe uma recordação, se tocou na figura.
       No Evangelho Jesus depara-se com algo semelhante. Vendo os sinais milagrosos que fazia, alguns queriam fazê-l’O rei (à força). Por isso, Jesus retira-se sozinho para o monte (cf. Jo 6, 14-15). Percebe-se como Jesus recomendava discrição quando realizava alguns prodígios, correndo-se o risco de se perder o essencial, a conversão, a luta diária por um mundo melhor, a resiliência e persistência nas dificuldades e a confiança para prosseguir, a entreajuda solidária. Por outras palavras, o risco de deixarmos a Deus o que nos cabe realizar, ficando de braços cruzados a olhar para o Céu!
       Em Listra, Paulo e Barnabé, depois da cura de um coxo, são aclamados como deuses. Ao saberem disto os apóstolos rasgam as vestes e alertam: «Também nós somos homens da mesma condição que vós, homens que vos anunciam a Boa-Nova de que deveis abandonar os ídolos vãos e voltar-vos para o Deus vivo, que fez o céu, a terra, o mar e tudo quanto neles se encontra». É a custo que impedem que lhes ofereçam um sacrifício (Atos 14, 8-20).
       As palavras de Francisco no regresso ao Vaticano alertam precisamente para este risco: aderirmos a uma jornada e/ou peregrinação, irmos ver o Papa, mas depois na prática deixarmos de lado o que a Igreja nos pede e os valores e princípios que nos identificam como católicos e nos enraízam no Evangelho.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4414, de 30 de maio de 2017

segunda-feira, 12 de junho de 2017

VL – Como (não) idolatrar o Papa

       Ano de 1999: Viagem Apostólica de João Paulo II ao México e à cidade de St. Louis, nos EUA. O Papa apresentava-se já muito desgastado mas atraía cada vez mais multidões. Já não se tratava do que dizia, mas da pessoa e do que representava na Igreja e no mundo. 
       O início do pontificado de João Paulo II não foi fácil. Quando precisava de ser duro, mesmo em público, João Paulo II era-o de facto, como em certa ocasião a um sacerdote da América Latina que se tinha envolvido na política partidária e que se ajoelhou, preparando-se para o cumprimentar e lhe beijar o anel, o Papa passou-lhe uma reprimenda e avançou sem lhe estender a mão. Com os anos e sobretudo depois do atentado que sofreu a 13 de maio de 1981 na Praça de São Pedro, do qual sobreviveu por milagre que o próprio atribui a Nossa Senhora de Fátima, João Paulo II passou a ser seguido cada vez por mais pessoas com uma clara aura de santidade. Afinal tinha sobrevivido a um atentado e a nova tentativa no ano seguinte em Fátima.
       Na Viagem aos EUA entrevistaram alguns jovens acerca da “personalidade” de João Paulo II e porque é que estavam nas ruas para o aclamar e as respostas assentavam precisamente no facto de ser uma figura mundial. Quando perguntaram se estavam sintonizados com as posições do e da Igreja acerca da vida, da moral, da família, a resposta foi perentória: isso já não!
       Na Viagem Peregrina de Francisco a Fátima, no regresso ao Vaticano, a bordo do avião, na habitual conferência de impressa com os jornalistas, foram-lhe colocadas perguntas sobre questões fraturantes na sociedade atual. Sem se querer alongar muito, para que não fossem desvalorizados os motivos e o conteúdo da peregrinação a Fátima, respondeu que “a consciência católica não é, às vezes, uma consciência de pertença total à Igreja, por trás disto não há uma catequese variada, uma catequese humana”, no que concerne a temas sobre a vida e sobre a família.
       Acrescentou o Papa que a Igreja tem de promover a formação, o diálogo, a catequese, a consciencialização de valores humanos.
       O Papa Francisco é, hoje, para a Igreja e para o mundo, uma figura incontornável, com sinais e marcas que envolvem, desafiam, provocam, remetendo para Jesus e o Evangelho da Alegria e do Serviço. Logo no início o Papa Francisco dizia que um Bispo ou um Padre não tem que estar a falar do que o Papa disse ou diz, mas a falar do Evangelho e a apontar para Cristo.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4413, de 23 de maio de 2017