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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

As Cinco Chagas do Senhor

Nota histórica:
       O culto das Cinco Chagas do Senhor, isto é, as feridas que Cristo recebeu na cruz e manifestou aos Apóstolos depois da ressurreição, foi sempre uma devoção muito viva entre os portugueses, desde os começos da nacionalidade. São disso testemunho a literatura religiosa e a onomástica referente a pessoas e instituições. Os Lusíadas sintetizam (I, 7) o simbolismo que tradicionalmente relaciona as armas da bandeira nacional com as Chagas de Cristo. Assim, os Romanos Pontífices, a partir de Bento XIV, concederam para Portugal uma festa particular, que ultimamente veio a ser fixada neste dia.
Oração de colecta:
       Deus de infinita misericórdia, que por meio do vosso Filho Unigénito, pregado na cruz, quisestes salvar todos os homens, concedei-nos que, venerando na terra as suas santas Chagas, mereçamos gozar no Céu o fruto redentor do seu Sangue. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Leitura de Isaías:
       "Desprezado e repelido pelos homens, homem de dores, acostumado ao sofrimento, era como aquele de quem se desvia o rosto, pessoa desprezível e sem valor para nós. Ele suportou as nossas enfermidades e tomou sobre si as nossas dores. Mas nós víamos nele um homem castigado, ferido por Deus e humilhado. Ele foi trespassado por causa das nossas culpas e esmagado por causa das nossas iniquidades. Caiu sobre ele o castigo que nos salva: pelas suas chagas fomos curados. Todos nós, como ovelhas, andávamos errantes, cada qual seguia o seu caminho. E o Senhor fez cair sobre ele as faltas de todos nós. Maltratado, humilhou-se voluntariamente e não abriu a boca. Como cordeiro levado ao matadouro, como ovelha muda ante aqueles que a tosquiam, ele não abriu a boca" (Is 53, 1-10).
São João Crisóstomo, bispo, sobre o Evangelho de São João

Cristo manifesta-Se com as suas chagas após a ressurreição

Se é pueril acreditar ao acaso e sem motivo, também é muito insensato querer examinar e inquirir tudo demasiadamente. E esta foi a sem-razão de Tomé. Perante a afirmação dos Apóstolos: Vimos o Senhor, recusa-se a acreditar: não porque descresse deles, mas porque julgava impossível o que afirmavam, isto é, a ressurreição de entre os mortos. Não disse: «Duvido do vosso testemunho», mas: Se não meter a minha mão no seu lado, não acreditarei.
Jesus aparece segunda vez e não espera que Tomé O interrogue, ou Lhe fale como aos discípulos. O Mestre antecipa-se aos seus desejos, fazendo-lhe compreender que estava presente quando falou daquele modo aos companheiros. Na censura que lhe faz serve-Se das mesmas palavras e ensina como deverá proceder para o futuro. Depois de dizer: Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; mete a tua mão no meu lado, acrescenta: Não sejas incrédulo, mas crente. Tomé duvidou por falta de fé. Ainda não tinham recebido o Espírito Santo. Mas isso não voltaria a acontecer; a partir de então manter-se-iam firmes na fé. Cristo, porém, não Se ficou nesta admoestação e insistiu novamente. Tendo o discípulo caído em si e exclamado: Meu Senhor e meu Deus, disse-lhe Jesus: Porque Me viste, acreditaste. Felizes os que, sem terem visto, acreditaram.
É próprio da fé crer no que não se vê. A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das que não se vêem. Com efeito, o divino Mestre chama felizes, não só os discípulos, mas também todos aqueles que no decurso dos tempos acreditarão n’Ele. Dirás talvez: Mas na verdade, os discípulos viram e creram. É certo; no entanto, não precisaram de ver para acreditarem. Sem quaisquer exigências, bastou-lhes ver o sudário para logo aceitarem o acto da ressurreição e acreditarem plenamente, antes mesmo de verem o corpo glorioso de Jesus. Portanto, se alguém disser: «Quem dera ter vivido no tempo de Jesus e contemplado os seus milagres», recorde as palavras: Felizes os que, sem terem visto, acreditaram.
E aqui surge uma pergunta: Como pôde o corpo incorruptível conservar as cicatrizes dos cravos e ser tocado por mão mortal? Não é caso para espanto, pois se trata de pura condescendência da parte de Cristo. O seu corpo era tão puro, subtil e livre de qualquer matéria, que podia entrar numa casa com as portas fechadas. Quis, porém, manifestar-Se deste modo, para que acreditassem na ressurreição e soubessem que era Ele mesmo que fora crucificado, e não outro, quem tinha ressuscitado. Por este motivo conserva, na ressurreição, os estigmas da cruz, e come na presença dos Apóstolos, circunstância esta que eles especialmente recordariam: Nós que comemos e bebemos com Ele. Quer dizer: Antes da paixão, ao vermos Jesus caminhando sobre as ondas, não considerávamos o seu corpo de natureza diferente da nossa; também agora, ao vê-l’O com as cicatrizes, após a ressurreição, devemos crer na sua incorruptibilidade.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

O Espírito do Senhor está sobre Mim

       Jesus voltou para a Galileia, com a força do Espírito, e a sua fama propagou-se por toda a região. Ensinava nas sinagogas e era elogiado por todos. Foi então a Nazaré, onde Se tinha criado. Segundo o seu costume, entrou na sinagoga a um sábado e levantou-Se para fazer a leitura. Entregaram-Lhe o livro do profeta Isaías e, ao abrir o livro, encontrou a passagem em que estava escrito: "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres; Ele Me enviou a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos opri¬midos e a proclamar o ano da graça do Senhor".
       Depois enrolou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-Se. Estavam fixos em Jesus os olhos de toda a sinagoga. Começou então a dizer-lhes: "Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir". Todos davam testemunho em seu favor e se admiravam da mensagem da graça que saía da sua boca (Lc 4, 14-22a).
       Jesus volta para a Galileia, à cidade que o viu crescer, Nazaré. Entra na Sinagoga, como era costume ao Sábado, entregam-Lhe o livro do profeta Isaías e na profecia aí anunciada, Jesus revela que Se cumpre n'Ele próprio. É Ele o Messias anunciado e esperado pelo povo judeu. É d'Ele que as Sagradas Escrituras falam ao longo de várias gerações.
       A primeira reação é positiva: todos davam testemunhos e se admiravam...

sábado, 21 de julho de 2018

Muitos O seguiram e Ele curou-os a todos...

       Os fariseus reuniram conselho contra Jesus, a fim de O fazerem desaparecer. Mas Jesus, ao saber disso, retirou-Se dali. Muitos O seguiram e Ele curou-os a todos, mas intimou-os que não descobrissem quem Ele era, para se cumprir o que o profeta Isaías anunciara, ao dizer: «Eis o meu servo, a quem Eu escolhi, o meu predileto, em quem se compraz a minha alma. Sobre ele farei repousar o meu Espírito, para que anuncie a justiça às nações. Não discutirá nem clamará, nem se fará ouvir a sua voz nas praças. Não quebrará a cana já fendida, nem apagará a torcida que ainda fumega, enquanto não levar a justiça à vitória; e as nações colocarão a esperança no seu nome» (Mt 12, 14-21).
        Obviamente ninguém quer morrer. Nas escolhas de Jesus, a morte está como horizonte, a aguardar. No final parece que Jesus procura a sua própria morte. Ele próprio chega a dizer que ninguém lhe tira a vida, Ele dá-a a favor de todos. Nestas palavras entende-se que Jesus tem o poder de Se livrar da morte provocada por outros, mas sobretudo uma opção de vida, a Sua vida será uma oferta que nem morte anulará.
       Neste texto, como em outros, Jesus segue o Seu caminho, com descrição, sem levantar ondas, sem provocações gratuitas, a Sua missão é levar a justiça a todas as gentes, curando, levando a paz, restabelecendo a esperança...

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Continuou o caminho, cheio de alegria, anunciando...

       Vale a pena ler todo o texto da primeira leitura, proposta para esta Quinta-feira da 3.º Semana da Páscoa, dos Atos dos Apóstolos. A perseguição à Igreja leva à deslocalização da missão da primeira comunidade cristã, a de Jerusalém. Na mesma perspetiva, havendo uma clara oposição e perseguição aos cristãos, só por si é já divulgação, chega facilmente aos ouvidos de mais pessoas. Uma "notícia" ruim corre veloz. Neste texto, porém, a evangelização de Filipe é suscitada pelo Espírito Santo.
O Anjo do Senhor disse a Filipe: «Levanta-te e dirige-te para o sul, pelo caminho deserto que vai de Jerusalém para Gaza». Filipe partiu e dirigiu-se para lá. Quando ia a caminho, encontrou-se com um eunuco etíope, que era alto funcionário de Candace, rainha da Etiópia, e administrador geral do seu tesouro. Tinha ido a Jerusalém para adorar a Deus e regressava ao seu país, sentado no seu carro, a ler o livro do profeta Isaías. O Espírito de Deus disse a Filipe: «Aproxima-te e acompanha esse carro». Filipe aproximou-se do carro e, ouvindo o etíope a ler o profeta Isaías, perguntou-lhe: «Entendes, porventura, o que estás a ler?». Ele respondeu: «Como é que eu posso entender sem ninguém me explicar?» Convidou então Filipe a subir para o carro e a sentar-se junto dele. A passagem da Escritura que ele ia a ler era a seguinte: «Como cordeiro levado ao matadouro, como ovelha muda ante aqueles que a tosquiam, ele não abriu a boca. Foi humilhado e não se lhe fez justiça. Quem poderá falar da sua descendência? Porque a sua vida desapareceu da terra». O eunuco perguntou a Filipe: «Diz-me, por favor: de quem é que o profeta está a falar? De si próprio ou de outro?». Então Filipe tomou a palavra e, a partir daquela passagem da Escritura, anunciou-lhe Jesus. Ao passar por um lugar onde havia água, o eunuco exclamou: «Ali está água. Que me impede de ser baptizado?». Mandou parar o carro, desceram ambos à água e Filipe baptizou-o. Quando saíram da água, o Espírito do Senhor arrebatou Filipe e o eunuco deixou de o ver. Mas continuou o seu caminho cheio de alegria. Filipe encontrou-se em Azoto e foi anunciando a boa nova a todas as cidades por onde passava, até que chegou a Cesareia (Atos 8, 26-40)
       O processo de evangelização: a pessoa sente-se "tocada" pelo Espírito Santo (como os discípulos de Emaús - "não ardia cá dentro..."); a leitura da Sagrada Escritura, e a explicação da mesma (aqui por Filipe, e com os discípulos de Emaús, Jesus explica...); conversão a Jesus Cristo (batismo; nos discípulos de Emaús, o reconhecimento de Jesus ao partir do pão); a alegria e o anúncio (também em Emaús, os discípulos correm a anunciar, com grande alegria, o que lhes sucedeu no encontro com Jesus...).
       O Evangelho que nos é proposto nestes dias torna claro o mistério da redenção: Jesus é o Pão que desce do Céu como alimento para vida dos homens. A Sua morte e ressurreição não é um acontecimento ocasional nem um acontecimento passado. É vontade de Deus, assumida por Jesus, e que nos mostra que o Seu amor vai até ao fim. Ele entrega a Sua vida para nossa salvação, que acontece também HOJE. Estamos em dinâmica de ressuscitados em Cristo.

Disse Jesus à multidão: «Ninguém pode vir a Mim, se o Pai, que Me enviou, não o trouxer; e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia. Está escrito no livro dos Profetas: ‘Serão todos instruídos por Deus’. Todo aquele que ouve o Pai e recebe o seu ensino vem a Mim. Não porque alguém tenha visto o Pai; só Aquele que vem de junto de Deus viu o Pai. Em verdade, em verdade vos digo: Quem acredita tem a vida eterna. Eu sou o pão da vida. No deserto, os vossos pais comeram o maná e morreram. Mas este pão é o que desce do Céu, para que não morra quem dele comer. Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que Eu hei-de dar é a minha carne que Eu darei pela vida do mundo» (Jo 6, 44-51).

quinta-feira, 29 de março de 2018

Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura

       O espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu e me enviou a anunciar a boa nova aos infelizes, a curar os corações atribulados, a proclamar a redenção aos cativos e a liberdade aos prisioneiros, a proclamar o ano da graça do Senhor e o dia da acção justiceira do nosso Deus; a consolar todos os aflitos, a levar aos aflitos de Sião uma coroa em vez de cinza, o óleo da alegria em vez do trajo de luto, cânticos de louvor em vez de um espírito abatido. Vós sereis chamados «Sacerdotes do Senhor» e tereis o nome de «Ministros do nosso Deus» (Is 61, 1-3a.6a.8b-9).

       Entregaram-Lhe o livro do profeta Isaías e, ao abrir o livro, encontrou a passagem em que estava escrito: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Ele me enviou a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos, a proclamar o ano da graça do Senhor». Depois enrolou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-Se. Estavam fixos em Jesus os olhos de toda a sinagoga. Começou então a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir» ( Lc 4, 16-21).
       O profeta Isaías anuncia a unção para a missão. Com o Ungido, o anúncio da salvação, o ano da graça, a liberdade aos prisioneiros, a cura dos corações atribulados, a redenção dos cativos, a consolação dos filhos de Israel.
       Jesus vai a Nazaré, entra na Sinagoga, como habitualmente fazia ao Sábado, entregam-Lhe o livro de Isaías e proclama a passagem que hoje nos é também apresentada na primeira leitura. Terminada a leitura, chega o momento da reflexão, de meditar sobre a palavra proferida e Jesus sem mais delongas declara que o tempo anunciado pelo profeta chegou: Cumpriu-se hoje mesmo este passo da Escritura.
       Em Quinta-feira Santa, a Liturgia inicia-se com a Missa Crismal, com o presbitério reunido à volta do Seu Bispo, sucessor dos Apóstolos, em que são benzidos os Óleos santos, a usar nos diversos Sacramentos, do Baptismo, da Unção dos Enfermos, do Crisma, da Ordenação: Óleo dos Catecúmenos, Óleo dos Enfermos, Óleo do Crisma....

quarta-feira, 28 de março de 2018

Que estais dispostos a dar-me para vos entregar Jesus?

       A liturgia da Palavra para esta quarta-feira da SEMANA MAIOR apresenta-nos mais um texto do profeta Isaías, na primeira leitura, e do Evangelho de São Mateus. Um e outro nos falam da entrega do justo. Os cristãos, como o próprio Jesus, veem nesta passagem profética um relato antecipado do que irá acontecer com o Messias, que para nós é Jesus Cristo. No evangelho de São Mateus, a figura em discussão é Judas, que procura forma de entregar Jesus.
Vejamos o texto de Isaías:
O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos. O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e por isso não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido. O meu advogado está perto de mim. Pretende alguém instaurar-me um processo? Compareçamos juntos. Quem é o meu adversário? Que se apresente! O Senhor Deus vem em meu auxílio. Quem ousará condenar-me? (Is 50, 4-9a).
       Isaías não esconde as dificuldades que tem de atravessar para se manter fiel à verdade, mas na certeza e confiança que Deus permanece com ele. E se Deus está por ele, quem poderá estar contra?
       A confiança que anima Isaías, será a mesma que guia Jesus até às últimas horas de vida.
Um dos Doze, chamado Iscariotes, foi ter com os príncipes dos sacerdotes e disse-lhes: «Que estais dispostos a dar-me para vos entregar Jesus?» Eles garantiram-lhe trinta moedas de prata. A partir de então, Judas procurava uma oportunidade para O entregar. No primeiro dia dos Ázimos, os discípulos foram ter com Jesus e perguntaram-Lhe: «Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?» Ele respondeu: «Ide à cidade, a casa de tal pessoa, e dizei-lhe: ‘O Mestre manda dizer: O meu tempo está próximo. É em tua casa que Eu quero celebrar a Páscoa com os meus discípulos’». Os discípulos fizeram como Jesus lhes tinha mandado e prepararam a Páscoa. Ao cair da tarde, sentou-Se à mesa com os Doze. Enquanto comiam, declarou: «Em verdade, em verdade vos digo: Um de vós Me entregará». Profundamente entristecidos, começou cada um a perguntar Lhe: «Serei eu, Senhor?» Jesus respondeu: «Aquele que meteu comigo a mão no prato é que vai entregar-Me. O Filho do homem vai partir, como está escrito acerca d’Ele. Mas ai daquele por quem o Filho do homem vai ser entregue! Melhor seria para esse homem não ter nascido». Judas, que O ia entregar, tomou a palavra e perguntou: «Serei eu, Mestre?» Respondeu Jesus: «Tu o disseste» (Mt 26, 14-25).
       Mateus mostra, como nos demais evangelhos, a tristeza profunda de Jesus, pela aproximação das horas finais, mas também por saber que não pode contar com os seus. A primeira igreja, dos apóstolos e algumas mulheres, ficarão a dormir enquanto o Mestre reza.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Seis dias antes da Páscoa, Jesus em Betânia

       "Eis o meu servo, a quem Eu protejo, o meu eleito, enlevo da minha alma. Sobre ele fiz repousar o meu espírito, para que leve a justiça às nações. Não gritará, nem levantará a voz, nem se fará ouvir nas praças; não quebrará a cana fendida, nem apagará a torcida que ainda fumega: mas proclamará fielmente a justiça. Não desfalecerá nem desistirá, enquanto não estabelecer a justiça na terra, a doutrina que as ilhas longínquas esperam" (Is 42, 1-7).
       Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a Betânia, onde vivia Lázaro, que Ele tinha ressuscitado dos mortos. Ofereceram-Lhe lá um jantar: Marta andava a servir e Lázaro era um dos que estavam à mesa com Jesus. Então Maria tomou uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, ungiu os pés de Jesus e enxugou-Lhos com os cabelos; e a casa encheu-se com o perfume do bálsamo... (Jo 12, 1-11).

       Iniciámos a Semana Santa, com o Domingo de Ramos e com a Entrada Triunfal de Jesus em Jerusalém. Nesta segunda-feira as leituras ajudam-nos a reflectir o mistério pascal de Jesus, nosso Salvador. Isaías fala-nos do Servor sofredor, que identificamos com Jesus, o Messias esperado/prometido. É como o Cordeiro inocente, sem mancha, levado ao matadouro, não gritará, não levantará a voz. N'Ele está o espírito de Deus.
       No Evangelho, encontrámos Jesus em Betânia, em casa de Maria, Marta e Lázaro. Maria unge Jesus, como antecipação da unção pós-morte. Nas palavras do próprio Jesus, vemos que Maria tinha preparado aquele perfume para o dia da Sua sepultura... Encaminhamo-nos rapidamente para o desenlace final...

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Respeitai o direito, protegei, fazei justiça, defendei

       A palavra de Deus proposta para esta terça feira acentua a misericórdia de Deus. Jesus colocava a misericórdia de Deus como ideal comparativo para nos centrarmos na vivência da misericórdia. Hoje, na primeira leitura, a bondade de Deus, e o Seu perdão, estão ao alcance de todos, importa, antes de mais, iniciar um caminho positivo, de honestidade, de atenção ao semelhante, de prática da justiça e da caridade. Uma vez mais, as boas obras testam e aprofunda a fé.

Mas atentemos ao texto:
       Escutai a palavra do Senhor, chefes de Sodoma; dai ouvidos à lei do nosso Deus, povo de Gomorra: «Lavai-vos, purificai-vos, afastai dos meus olhos a malícia das vossas acções, deixai de praticar o mal e aprendei a fazer o bem. Respeitai o direito, protegei o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva. Vinde então para discutirmos as nossas razões, – diz o Senhor. Ainda que os vossos pecados sejam como o escarlate, ficarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como a púrpura, ficarão brancos como a lã. Se fordes dóceis e obedientes, comereis os bens da terra. Mas se recusardes e fordes rebeldes, sereis devorados pela espada» (Is 1, 10.16-20).
       No Evangelho, Jesus remete-nos para a necessidade das boas obras confirmarem o que professamos pelas palavras, procurando a correspondência entre o que nos exigimos e o que exigimos ao nosso irmão, optando por um caminho de humildade, e não de sobranceria. É no reconhecimento da nossa limitação, que podemos abrir-nos aos outros e a Deus.

Vejamos as palavras de Jesus aos discípulos e à multidão:
       «Na cadeira de Moisés sentaram-se os escribas e os fariseus. Fazei e observai tudo quanto vos disserem, mas não imiteis as suas obras, porque eles dizem e não fazem. Atam fardos pesados e põem-nos aos ombros dos homens, mas eles nem com o dedo os querem mover. Tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens: alargam as filactérias e ampliam as borlas; gostam do primeiro lugar nos banquetes e dos primeiros assentos nas sinagogas, das saudações nas praças públicas e que os tratem por ‘Mestres’. Vós, porém, não vos deixeis tratar por ‘Mestres’, porque um só é o vosso Mestre e vós sois todos irmãos. Na terra não chameis a ninguém vosso ‘Pai’, porque um só é o vosso pai, o Pai celeste. Nem vos deixeis tratar por ‘Doutores’, porque um só é o vosso doutor, o Messias. Aquele que for o maior entre vós será o vosso servo. Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado» (Mt 23, 1-12).

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

O Jejum que Me agrada: quebrar as cadeias injustas...

       O jejum que Me agrada não será antes este: quebrar as cadeias injustas, desatar os laços da servidão, pôr em liberdade os oprimidos, destruir todos os jugos? Não será repartir o teu pão com o faminto, dar pousada aos pobres sem abrigo, levar roupa aos que não têm que vestir e não voltar as costas ao teu semelhante? Então a tua luz despontará como a aurora e as tuas feridas não tardarão a sarar. Preceder-te-á a tua justiça e seguir-te-á a glória do Senhor. Então, se chamares, o Senhor responderá; se O invocares, dir-te-á: «Estou aqui» (Is 58, 1-9a).
       Os discípulos de João Baptista foram ter com Jesus e perguntaram-Lhe: «Por que motivo nós e os fariseus jejuamos e os teus discípulos não jejuam?» Jesus respondeu-lhes: «Podem os companheiros do esposo ficar de luto, enquanto o esposo estiver com eles? Dias virão em que o esposo lhes será tirado e nessa altura hão-de jejuar» (Mt 9, 14-15).

       O jejum, com a oração e com com a esmola, é um sinal, uma oportunidade e uma vivência que valem como expressão da conversão interior, da adesão firme à Palavra/vontade de Deus, no seguimento do caminho do Senhor. O jejum, sem mais, tornar-se-á insignificante, quando muito uma dieta que pode ajudar o organismo a ser mais saudável. O jejum, na vivência da fé, há-de ser acompanhado da oração e da caridade, das boas obras.
       Jesus, no Evangelho, não o desvaloriza, mas dá prioridade ao acolhimento e ao seguimento: "enquanto o noivo estiver com eles...". Neste sentido, também nós devemos valorizar as práticas penitenciais como incentivo e como expressão da conversão, mas ligadas, sempre, à caridade e à oração.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

A sabedoria foi justificada pelas suas obras

       Eis o que diz o Senhor, o teu redentor, o Santo de Israel: «Eu sou o Senhor, teu Deus, que te ensino o que é para teu bem e te conduzo pelo caminho que deves seguir. Se tivesses atendido às minhas ordens, a tua paz seria como um rio e a tua justiça como as ondas do mar. A tua descendência seria como a areia e como os seus grãos a tua posteridade. Nunca o teu nome seria tirado nem riscado da minha presença» (Is 48, 17-19).
        Disse Jesus à multidão: «A quem poderei comparar esta geração? É como os meninos sentados nas praças, que se interpelam uns aos outros, dizendo: ‘Tocámos flauta e não dançastes; entoámos lamentações e não chorastes’. Veio João Bptista, que não comia nem bebia, e dizem que tinha o demónio com ele. Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizem: ‘É um glutão e um ébrio, amigo de publicanos e pecadores’. Mas a sabedoria foi justificada pelas suas obras» (Mt 11, 16-19)

       Dois textos muito sugestivos para esta sexta-feira. Isaías apresenta as palavras do Senhor: Ensino-te o que é para teu bem, conduzo-te pelo caminho a seguir. A Palavra de Deus é uma garantia, seguir os Seus mandamentos traz-nos a paz, a salvação. Com efeito, os ensinamentos de Deus conduzir-se-ão ao bem, à justiça, à verdade.
        No texto do Evangelho, Jesus fala do Seu desalento referindo a missão de João Batista e comparando a não aceitação da Sua mensagem aos meninos que não se deixam envolver nem pelo choro nem pela a alegria. Pior que dizer não, ou dizer sim, é não ter opções, não tomar partido, não decidir, nem quente nem morno.
       Jesus evoca os jogo das crianças, para nos desafiar à comunhão com a Sua mensagem. É uma desilusão alguém tudo fazer por nós e nós, por nossa vez, virarmos as costas, ou ficarmos indiferentes. A criança quando embirra é complicado, quer fazer andar todos ao sabor dos seus caprichos, independentemente do que deseja...

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Deus enxugará as lágrimas de todas as faces

       Sobre este monte, o Senhor do Universo há-de preparar para todos os povos um banquete de manjares suculentos, um banquete de vinhos deliciosos: comida de boa gordura, vinhos puríssimos. Sobre este monte, há-de tirar o véu que cobria todos os povos, o pano que envolvia todas as nações; Ele destruirá a morte para sempre. O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces e fará desaparecer da terra inteira o opróbrio que pesa sobre o seu povo. Porque o Senhor falou. Dir-se-á naquele dia: «Eis o nosso Deus, de quem esperávamos a salvação; é o Senhor, em quem pusemos a nossa confiança. Alegremo-nos e rejubilemos, porque nos salvou. A mão do Senhor pousará sobre este monte» (Is 25, 6-10a).
       "Jesus  foi para junto do mar da Galileia e, subindo ao monte, sentou-Se. Veio ter com Ele uma grande multidão, trazendo coxos, aleijados, cegos, mudos e muitos outros, que lançavam a seus pés. Ele curou-os, de modo que a multidão ficou admirada, ao ver os mudos a falar, os aleijados a ficar sãos, os coxos a andar e os cegos a ver; e todos davam glória ao Deus de Israel. Então Jesus, chamando a Si os discípulos, disse-lhes: «Tenho pena desta multidão, porque há três dias que estão comigo e não têm que comer. Mas não quero despedi-los em jejum, pois receio que desfaleçam no caminho». Disseram-Lhe os discípulos: «Onde iremos buscar, num deserto, pães suficientes para saciar tão grande multidão?» Jesus perguntou-lhes: «Quantos pães tendes?» Eles responderam-Lhe: «Sete, e alguns peixes pequenos». Jesus ordenou então às pessoas que se sentassem no chão. Depois tomou os sete pães e os peixes e, dando graças, partiu-os e foi-os entregando aos discípulos e os discípulos distribuíram-nos pela multidão. Todos comeram até ficarem saciados. E com os pedaços que sobraram encheram sete cestos" (Mt 15, 29-37).
       O profeta Isaías é, sem dúvida, o que mais claramente anuncia a chegada do Messias de Deus, caracterizando esse tempo de salvação. A vinda de Deus até nós reveste-se de esperança e envolve-nos em salvação. Ele vem salvar, Ele vem para nos reconduzir à abundância da felecidade. A imagem do banquete é sugestiva. Deus sacia-nos na nossa ânsia de viver.
       Jesus Cristo é verdadeiramente o Messias que estava para vir. Vem da parte de Deus, acolhendo e salvando os que andam perdidos, os aleijados, os paraliticos, os pobres, os surdos, os mudos, todos os doentes. N'Ele se revela um Deus compassivo, próximo das pessoas. Ele sente compaixão por aquela multidão, faminta de pão e de um sentido para a vida. Na multiplicação dos pães a certeza que em Jesus Cristo encontramos o alimento que nos salva e que sobeja, chega para todos.
       Pode ver-se aqui a figura da Eucaristia, banquete que nos alimenta até à vida eterna.

sábado, 17 de dezembro de 2016

Domingo IV do Advento - ano A - 18.dezembro.2016

       1 – O sonho comanda a vida. O Sonho é uma constante da vida. Sempre que o homem sonha, o mundo pula e avança (António Gedeão). Deus quer, o homem sonha e a obra nasce (Fernando Pessoa). A vida acaba quando o sonho acaba, quando já não há esperança, nem aquém nem além. Sonhos e projetos, confiança no futuro, promessa de eternidade a iniciar-se na história. A esperança é a última a morrer, faz-nos passar ao outro mar.
       Há pessoas que já há muito deixaram de sonhar. Dizem elas, como desabafo, como desilusão, mas com a réstia de esperança que o que desdizem afinal não se confirme. Para os adeptos de futebol, quando a equipa está a perder, até ao último minuto vivem num misto de realidade e esperança... ainda falta um minuto, alguém vai marcar! A vida é mesmo assim. É claro que muitas pessoas vivem voltadas para o passado e esquecem-se de viver o presente e projetar o futuro. Mas mesmo em situações mais extremas, a saudade do passado é a forma de se manterem vivas, sonhando/esperando que voltem esses tempos. Seria ótimo que a presença do passado as levasse a procurar apreciar e viver novas situações.
       Outros há, que sonham o tempo todo, sempre com ganas de viver, de sugerir, de projetar. Por vezes, colam-se apenas aos sonhos e esquecem-se que os sonhos precisam de ser concretizados no tempo e na história e não apenas projetados na mente. Há sonhos que nunca realizaremos mas que, ainda assim, nos puxam para a frente, para o futuro. Há o sonho de deixar marcas positivas no mundo. Mesmo aqueles que deixam marcas negativas é com o sonho de não serem esquecidos. Sonhamos a dormir e sonhamos acordados. Quando jovens sonhamos mudar o mundo. Quando entrados na idade, sonhamos que outros sonhem em mudar o mundo.
       José teve um sonho. Não foi um sonho qualquer. Foi um sonho para mudar o mundo, a história, a sua e a nossa, a história da humanidade. O sonho de José faz dele uma personagem importante para a história da salvação, Deus entre nós, Deus connosco. Não há que ter medo de sonhar. Os sonhos equilibram a mente, por um lado, e, por outro, ajudam-nos a levantar-nos cada dia com um sorriso.
       2 – José teve um sonho. Outro José, noutro contexto, conhecido como José do Egipto, e antepassado de São José, tornou-se importante à custa dos sonhos que interpretou para o Faraó, ganhando relevância, o que lhe permitiu salvar a sua família e o seu povo da miséria. São José tem um sonho que, do mesmo modo, faz com que se assuma guardião da Família sagrada.
       São Mateus apresenta-nos o nascimento de Jesus, sublinhando o mistério de Deus que age em nós e através de nós. A Virgem Imaculada concebeu por virtude do Espírito Santo. José, tomando consciência da gravidez de Maria, sem que tivesse convivido com Ela, decide repudiá-la em segredo, evitando difamá-la e açambarcando com a responsabilidade. Ao fugir assumia-se por culpado de "desonrar" Maria e impedia que Ela fosse condenada e quem sabe apedrejada.
       Mas os nossos pensamentos nem sempre são os de Deus e as nossas decisões nem sempre são as mais justas, ainda que assim o julguemos. Deus, também aqui, impele a escrever a história de uma maneira nova. Em sonho, Deus envia o Seu Anjo que revela a missão que José há de assumir: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. Ela dará à luz um Filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados».
       O sonho altera a decisão de José, que recebe Maria por esposa, tornando-se o protetor da Sagrada Família, dando o nome a Jesus, assegurando que Maria e José terão um lar seguro e confortável para viver.
       3 – O sonho vem de longe e a promessa também. A primeira leitura recorda-nos essa promessa feita ao povo eleito, através do rei Acaz, a quem Isaías desafia a pedir um sinal. Acaz não se sente confortável o suficiente para pedir um sinal ao Senhor, considerando uma tentação ou mesmo uma blasfémia. Quando pedem um sinal a Jesus, Este repreende-os por testarem a Deus, dizendo que é uma geração perversa, que não está atenta aos verdadeiros sinais nem ao tempo novo que está a emergir com a Sua vida.
       Agora, contudo, é o próprio Deus que sanciona o sinal. Isaías, em nome de Deus, diz a Acaz: «Escutai, casa de David: Não vos basta que andeis a molestar os homens para quererdes também molestar o meu Deus? Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: a virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será Emanuel».
       São Mateus, ao concluir o relato do sonho de São José, diz claramente que a promessa se cumpre agora. Logo que José desperta do sonho, age em conformidade com as palavras do Anjo do Senhor.
       O sonho é verdadeiramente importante se nos faz acordar e nos leva a agir. Por si mesmo, o sonho é pouco relevante se não tiver consequência, se não conduzir à mudança de vida. Os sonhos, com efeito, não são nem positivos nem negativos, mesmo que pareçam pesadelos. Quando muito fazem sobressair a necessidade da nossa mente ordenar o que pensamos, os conhecimentos que vamos armazenando ao longo da vida, as sensações e emoções que vivemos. Mas, havendo algum sonho a que demos mais importância, que seja para nos ajudar a melhorar a nossa vida e a vida dos irmãos.
       Do mesmo jeito, os sonhos, os projetos, as promessas, sejam um catalisador para nos envolver-nos na transformação positiva do mundo, empenhando-nos em transparecer e testemunhar a misericórdia de Deus, plenizada e encarnada em Jesus Cristo.

       4 – O Apóstolo Paulo, tal como São José, também foi surpreendido por Deus. As suas certezas e convicções são postas em causa com o surgimento de Deus na sua vida. A caminho de Damasco, em busca da verdade, Paulo é "apanhado" por Jesus e de perseguidor passa a seguidor.
       Em mais esta belíssima missiva, aos Romanos, o Apóstolo aponta para Jesus, que nasceu, segundo a carne, da descendência de David mas, segundo o Espírito, foi constituído Filho de Deus. A missão do Apóstolo é transparecer, testemunhar, anunciar Jesus Cristo, levá-l'O a todo o mundo, pregando o Evangelho da santidade, o mesmo é dizer, o Evangelho da caridade.
       A referência primeira, para o apóstolo, e para nós também, é a ressurreição de Jesus Cristo. Ele torna-Se para sempre o nosso Salvador. O Filho de Deus nasceu como um de nós, da nossa carne e dos nossos ossos, para nos ressuscitar para Deus, elevando-nos com Ele para a eternidade.
       A oração de coleta resume bem este mistério da nossa fé: "Infundi, Senhor, a vossa graça em nossas almas, para que nós, que pela anunciação do Anjo conhecemos a encarnação de Cristo, vosso Filho, pela sua paixão e morte na cruz alcancemos a glória da ressurreição".
       Pela oração predispomo-nos a acolher o sonho de Deus, o Seu projeto de amor, de vida nova, em que todos nos reconheçamos como irmãos e nos tratemos como tal.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (A): Is 7, 10-14; Sl 23 (24); Rom 1, 1-7; Mt 1, 18-24.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Domingo II do Advento - ano B - 7 de dezembro

       1 – "Consolai, consolai o meu povo... Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas".
       Preparar. Consolar. Converter-se. Anunciar. Caminhar. Antecipar.
       São algumas atitudes próprias do tempo de Advento e, particularmente, deste segundo domingo. É notório, sobretudo na primeira leitura e no Evangelho, o desafio da preparação que se acentua com a chegada do Precursor, Aquele que vem antes com a missão específica de preparar o caminho do Senhor.
       O profeta Isaías é perentório quanto às promessas de Deus, de nos visitar. Já se vislumbra a chegada de Deus, já irrompe a voz do mensageiro: «Preparai no deserto o caminho do Senhor, abri na estepe uma estrada para o nosso Deus. Sejam alteados todos os vales e abatidos os montes e as colinas; endireitem-se os caminhos tortuosos e aplanem-se as veredas escarpadas. Então se manifestará a glória do Senhor... Eis o vosso Deus. O Senhor Deus vem com poder, o seu braço dominará... Como um pastor apascentará o seu rebanho e reunirá os animais dispersos; tomará os cordeiros em seus braços, conduzirá as ovelhas ao seu descanso».
       Novos tempos de justiça e de paz, de concórdia e unidade. Deus vem para resgatar o Seu povo, para ajuntar os seus membros como o pastor reúne o seu rebanho. O convite de Deus é envolvente: «Falai ao coração de Jerusalém e dizei-lhe em alta voz que terminaram os seus trabalhos e está perdoada a sua culpa... Grita com voz forte, arauto de Jerusalém! Levanta sem temor a tua voz!» A voz que clama deve ser audível, falar ao coração, mas com firmeza e em alta voz, subindo ao monte para que a mensagem ressoe em toda a terra.
       2 – No Evangelho, o arauto que clama com voz forte é João Batista. Se do alto monte a voz se pode ouvir à distância sobre as cidades e as aldeias, a partir do deserto alarga-se sem fronteiras para entrar na cidade fortificada a partir de baixo, a partir do interior.
       Recorde-se, porém, que o deserto, onde se encontra habitualmente João Batista, nas proximidades do rio Jordão, no qual batizará Jesus, situa-se nas cercanias de Israel. Tal como o povo caminhou pelo deserto, purificando-se para entrar na Terra Prometida, também agora os crentes terão que fazer um caminho de deserto, de penitência e de conversão, para reentrarem na Promessa de Deus, plenizada com a chegada do Messias.
       A missão de João Batista é precisamente "proclamar um batismo de penitência para remissão dos pecados". É dele que estava escrito, como refere São Marcos no Evangelho, «Vou enviar à tua frente o meu mensageiro, que preparará o teu caminho. Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas’». A missão é predispor-nos a acolher o Messias, a caminhar, purificando o nosso coração a fim de percebermos a chegada de Deus às nossas vidas.
       Na sua pregação, intui-se a brevidade, a novidade e a grandeza do Eleito de Deus que vem: «Vai chegar depois de mim quem é mais forte do que eu, diante do qual eu não sou digno de me inclinar para desatar as correias das suas sandálias. Eu batizo-vos na água, mas Ele batizar-vos-á no Espírito Santo».
       Registe-se, por agora, que cada um de nós, e as comunidades cristãs no seu conjunto, deve assumir esta missão e esta pregação, preparando-nos e clamando para que os outros se predisponham a receber o reino de Deus. Transformamos a nossa vida, deixamo-nos batizar no arrependimento, na conversão e na penitência, aplanando tudo o que na nossa vida nos impede de abraçar os outros e de acolher o Senhor. Ponhamo-nos a caminho. O caminho faz-se caminhando e não apenas olhando para o caminho que temos pela frente. Há que dar o primeiro passo, para que a um, outros passos nos aproximem de Jesus Cristo, arrastando os outros connosco.
       3 – O tempo do Advento é o tempo de sermos precursores do Filho de Deus, dilatando o nosso coração para que um CORAÇÃO maior possa caber dentro de nós. Este é um tempo favorável, de graça e de salvação. Deus é paciente e dá-nos todo o tempo que precisamos para nos pormos a caminho e para modificarmos a nossa vida em todos os aspetos que nos afastam ou nos mantêm à distância dos nossos semelhantes. O caminho do Céu faz-se nos caminhos da história, da nossa história pessoal, familiar, comunitária. Aqui e agora. Se a plenitude finaliza na eternidade, é ativada, vivida e antecipada na atualidade. Vamos saboreando o que havemos de ser. O reino de Deus, instaurado na morte e ressurreição de Cristo, está em ebulição no mundo histórico-temporal.
       São Pedro escreve-nos dizendo:
«O Senhor não tardará em cumprir a sua promessa... Mas usa de paciência para convosco e não quer que ninguém pereça, mas que todos possam arrepender-se... Entretanto, o dia do Senhor virá como um ladrão... Nós esperamos, segundo a promessa do Senhor, os novos céus e a nova terra, onde habitará a justiça. Portanto, caríssimos, enquanto esperais tudo isto, empenhai-vos, sem pecado nem motivo algum de censura, para que o Senhor vos encontre na paz».
       Lembra-nos que o Senhor virá, não tarda muito. Reassume as palavras de Jesus: o Senhor virá sem contarmos, como um ladrão. Então, há que estar preparados, vigilantes. E que significa ESPERAR e estar vigilantes? Concretiza o Apóstolo: EMPENHAI-VOS...

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (B): Is 40,1-5.9-11; Sl 84 (85); 2 Ped 3,8-14; Mc 1,1-8.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

NOVENA DA IMACULADA CONCEIÇÃO | 3.º dia

sábado, 29 de novembro de 2014

Domingo I do Advento - ano B - 30 de novembro

       1 – Um tempo novo nos dá Deus. O tempo não é, primeiramente, uma conquista, mas um dom, que não solicitámos e, por conseguinte, não é mérito nosso ou resultado dos nossos esforços. Para o crente, o tempo que Deus dá, é dom que se transforma em tarefa e compromisso. É a oportunidade de realizarmos a vida, transformando positivamente o mundo. Na liturgia, como na nossa vida, há acontecimentos, datas, momentos, cuja relevância centram a nossa atenção, envolvem o nosso coração, fazem-nos sentir vivos, levam-nos a trazer à tona o que nos identifica como pessoas, a partir do âmago, do mais profundo de nós mesmos, onde encontramos Deus, balançam-nos para o futuro, com esperança, na certeza que também aí encontraremos Deus, pois é Deus que nos guia, nos conduz pela mão, apesar de haver situações que nos levam a duvidar, a temer, a vacilar.
       Tempo novo! Como uma nova estação em que tudo germina e volta à vida. E tudo se renova. Novos tempos, oportunidades novas. Deus dá-nos tempo para amarmos, para vivermos, e, pelo meio, o amar e o viver trazer-nos-ão sofrimento. Deus limpará as nossas lágrimas.
       A Palavra de Deus engloba-nos na tensão do que está para vir e do que se experimenta já. Para um e outro polo, o desafio de Jesus é idêntico: converter-se de todo o coração ao amor e ao perdão que vêm de Deus, vigiando constantemente por darmos o melhor de nós mesmos para que o fim, o encontro com Deus, não nos surpreenda.
       Diz Jesus aos seus discípulos: «Acautelai-vos e vigiai, porque não sabeis quando chegará o momento. Será como um homem que partiu de viagem: ao deixar a sua casa, deu plenos poderes aos seus servos, atribuindo a cada um a sua tarefa, e mandou ao porteiro que vigiasse. Vigiai, portanto, visto que não sabeis quando virá o dono da casa: se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se de manhãzinha; não se dê o caso que, vindo inesperadamente, vos encontre a dormir. O que vos digo a vós, digo-o a todos: Vigiai!».
       Nos últimos domingos do ano litúrgico que terminou, o desafio da vigilância já estava bem presente: as 10 virgens, 5 das quais se preparam para receber o noivo e 5 que se desleixam e perdem a chegada do noivo (Evangelho que não foi proclamado pela precedência da Dedicação da Basílica de Latrão); os talentos que o senhor ao partir de viagem confiou aos seus servos, a um 5, a outro 2 e a outro 1 talento. Víamos então como Deus nos confia o mundo inteiro para cuidarmos, dando-nos talentos diversos para potenciar.
       2 – Brilhante a página que o Apóstolo São Paulo nos traz hoje:
«Fostes enriquecidos em tudo: em toda a palavra e em todo o conhecimento; e deste modo, tornou-se firme em vós o testemunho de Cristo. De facto, já não vos falta nenhum dom da graça, a vós que esperais a manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele vos tornará firmes até ao fim, para que sejais irrepreensíveis no dia de Nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é Deus, por quem fostes chamados à comunhão com seu Filho, Jesus Cristo, Nosso Senhor».
       Depois da saudação inicial, o apóstolo fala-nos da riqueza que recebemos de Cristo. A fidelidade amorosa de Deus, dá-nos o maior dom, o próprio Filho, Jesus Cristo, que nos resgata, inserindo-nos na comunhão com o Pai, pelo Espírito Santo.
       Não nos falta nada de essencial. No meio das adversidades Ele está connosco. O mais importante da nossa vida não é ausência de dificuldades, ou uma história vivida por outros na qual seríamos meros espetadores, sem termos de arregaçar os braços, o essencial mesmo é que compreendamos que as dificuldades também têm um sentido, um propósito, não são consequência do nosso pecado, mas fazem parte do nosso agir humano. Não somos deuses, ainda que a nossa origem e o nosso fim estejam em Deus.
       Uma vida sem cor, ou acinzentada, sem altos nem baixos, sem pedras ou mato para desbravar, sem o frio ou o quente, a luz ou a sombra, o dia e a noite... que vida seria? Se não tivéssemos que esticar os músculos, estes atrofiavam. Já bem basta quem não o pode fazer! Colocar os talentos a render, vigiar, trabalhar em todo o tempo, não deixar que os músculos do nosso cérebro e do nosso coração atrofiem. E saber que ao regressarmos a casa temos alguém que nos ama, nos apoia, nos faz sorrir, nos anima, ou nos desafia a levantar no dia seguinte. É isso mesmo que Deus faz connosco. É a nossa casa. Ele torna-nos firmes até ao fim.
       3 – O profeta do Advento, Isaías, coloca-se na nossa pele, interrogando Deus, sobretudo em relação aos momentos adversos: "Porque nos deixais, Senhor, desviar dos vossos caminhos e endurecer o nosso coração, para que não Vos tema? Voltai, por amor dos vossos servos e das tribos da vossa herança. Oh se rasgásseis os céus e descêsseis! Ante a vossa face estremeceriam os montes!"
       É um protesto como o bebé faz em relação à mãe, chora, esperneia, agita-se quando vê a mãe a afastar-se pensando que se vai embora. Mas a mãe está atenta, com o olhar do coração, e não baixa a guarda. O choro, porém, fá-la pegar no seu bebé ao colo, apertá-lo contra o peito, beijá-lo, falando com meiguice. O profeta coloca-nos nesta interação filial, fazendo-nos compreender que Deus não Se afasta, não nos deixa sós, abandonados à nossa sorte, mas aproxima-Se ao máximo:
"Vós descestes e perante a vossa face estremeceram os montes. Nunca os ouvidos escutaram, nem os olhos viram que um Deus, além de Vós, fizesse tanto em favor dos que n’Ele esperam. Vós saís ao encontro dos que praticam a justiça e recordam os vossos caminhos. Estais indignado contra nós, porque pecámos e há muito que somos rebeldes, mas seremos salvos... Todos nós caímos como folhas secas, as nossas faltas nos levavam como o vento. Ninguém invocava o vosso nome, ninguém se levantava para se apoiar em Vós, porque nos tínheis escondido o vosso rosto e nos deixáveis à mercê das nossas faltas. Vós, porém, Senhor, sois nosso Pai e nós o barro de que sois o Oleiro; somos todos obra das vossas mãos".
       Façamos uma pausa. Voltemos a ler o texto de Isaías. Se primeiro parece que Deus Se afastou, agora percebe-se que, como filhos pródigos, nos escondemos da Sua presença, através dos nossos pecados, das injustiças praticadas, esquecemo-nos do Seu Nome, esquecemo-nos do Seu odor, do Seu olhar de Pai, do Seu carinho de Mãe. Como estávamos errados! Quisemos logo sair debaixo das Suas asas e logo nos perdemos e nos tresmalhamos como ovelhas desgarradas!

       4 – Quando a criança cai e se magoa, a mãe ou o pai pegam-lhe ao colo, não lhe retiram a ferida que sangrou, nem a dor que sofreu, mas embalam-na, fazem-na sentir segura, ou pelo menos, tem alguém com quem partilha o medo e a dor, já não está e não se sente sozinha, desprotegida. Assim connosco, não precisamos de quem viva a vida por nós ou nos impeça de cair, mas precisamos de alguém que nos ajude a levantar, a caminhar, a sentir que não estamos sós, que a nossa vida tem sentido mesmo quando não corre bem, apontando para a luz quando as trevas não nos largam, nos mostram um caminho quando estamos abatidos, desanimados, sem saber para onde ir.
       Sabemos agora que Deus é Pai, em Quem podemos confiar. Quando sentirmos que o chão nos foge debaixo dos pés, quando nos sentirmos perdidos, rezemos-lhes, como a criança que pede o colo da mãe: “Deus dos Exércitos, vinde de novo, olhai dos céus e vede, visitai esta vinha. Protegei a cepa que a vossa mão direita plantou, o rebento que fortalecestes para Vós. Estendei a mão sobre o homem que escolhestes, sobre o filho do homem que para Vós criastes; e não mais nos apartaremos de Vós: fazei-nos viver e invocaremos o vosso nome”.
       Ele que nos criou, Ele nos salvará. Vem Senhor, habita-nos para que possamos dar frutos em abundância.

Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia (ano B): Is 63, 16b-17. 19b; 64, 2b-7; Sl 79 (80); 1 Cor 1, 3-9; Mc 13, 33-37.

sábado, 11 de outubro de 2014

XXVIII Domingo do Tempo Comum - ano A - 12 de outubro

       1 – Em muitas situações da vida, quando convidamos alguém, mesmo que a motivação seja outra, incluímos uma refeição, um lanche, um almoço, um jantar. Por vezes o convite é esse mesmo, para um café, para um copo. “Passa por aqui”, subentende-se, passa por aqui, bebemos um copo e metemos a conversa em dia. Reunimos, aproveitamos a oportunidade e jantamos e, mais informalmente, poderemos tratar de outros assuntos, ou continuar o que ficou incompleto. A refeição não visa (apenas) a satisfação da necessidade de comer, mas tem uma dimensão social e cultural, mas também religiosa. A refeição aproxima-nos. Facilita negócios, ou o empenho em atividades.
       Quando nos sentamos à mesa, pressupõe-se que o fazemos com os amigos e com a família, ou com o intuito de aprofundar amizades ou aproximar opiniões. No mundo semítico é um dado inequívoco: comer implica comunhão de vida, sintonia (familiar, religiosa, cultural, nacional). Não nos sentamos à volta da mesa se somos inimigos, ou desconhecidos, ou se pura e simplesmente não nos damos. Entrar em casa do outro, sentar à sua mesa, postar-se diante do seu olhar, no seu espaço, é entrar na sua vida, é colocar o próprio coração em frequência com o coração do outro (pessoa ou família). Ou, entenda-se, é fazer parte da família do outro.
       2 – A linguagem da Bíblia recorre às realidades concretas, do dia-a-dia, para melhor nos fazer compreender e acolher a vontade de Deus. Depois de três parábolas sobre a vinha, Jesus compara agora o reino de Deus a um banquete, ou a um rei que oferece um banquete. Para este banquete, e como seria expectável, convida os seus amigos, ou, pelo menos, aqueles que julga seus amigos e que se sentiriam honrados com o convite e fariam questão em estar presentes diante do seu rei. No entanto, um a um vão-se desculpando, apresentando todo o tipo de justificações ou de desculpas.
       Alguns não apenas recusam o convite, mas ainda tratam mal os emissários. Então o rei manda os seus exércitos para lhes dar uma lição definitiva, destruindo a cidade.
       De seguida, alarga o convite: «O banquete está pronto, mas os convidados não eram dignos. Ide às encruzilhadas dos caminhos e convidai para as bodas todos os que encontrardes». Os seus servos reuniram todas as pessoas que encontraram pelo caminho, bons e maus.
       Quando o rei entrou viu que a sala do banquete estava cheia de (novos) convidados. Reparou, contudo, que havia um homem que não estava com o traje nupcial: «Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?». Como não obtivesse resposta, o rei mandou os criados que lhe amarrassem as mãos e os pés e o lançassem no exterior.
       Jesus conclui o seu relato, dizendo: «Muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos».
       3 – Certamente nos lembramos na última parábola de Jesus sobre o proprietário que arrenda/confia a sua vinha a uns vinhateiros. Chegado o tempo da vindima, manda os seus servos para receber o que lhe cabe nos frutos da colheita. Os vinhateiros respondem com insultos, agressões e morte. Matam o filho do proprietário, para ficaram com a herança que lhe pertencia. Na parábola desta semana, algo de semelhante se passa. O rei convida. Envia os seus servos a dizerem aos convidados que está tudo pronto – tempo da colheita e da festa. Os seus servos são maltratados e alguns são mortos. O destino dos convidados é semelhante ao dos vinhateiros. São mortos. A vinha é confiada a outros vinhateiros. O banquete tem outros convidados.

       4 – Esquecendo a parte bélica da parábola, o rei é o próprio Deus que convida. Aqueles que se julgam salvos (poderão ser, leitura imediata do texto, os judeus, ou os grupos que recusaram Jesus e o Seu Evangelho), afinal estão a cavar a própria sepultura.
       Jesus, na Sua missão evangelizadora, vem pelos caminhos e encruzilhadas da vida, do mundo, da história, e chama maus e bons. A salvação é para todos. A condição é deixar o que se está a fazer, isto é, deixar a vida anterior, toda a vida que nos distancia de Deus e dos outros, para entrar no banquete nupcial, na alegria da salvação, entrar na lógica do reino de Amor que Jesus inaugura. Ninguém está a mais. A sala enche-se a partir do momento em que todas as ruelas e vielas ficam vazias, a partir do momento em que as periferias vêm para o centro, vêm para Jesus, ou no momento em que o amor, Jesus, a vida em abundância, chega a todos os recônditos.
       Uma aviso apenas: quando seguimos Jesus devemos segui-l'O por inteiro. Temos de vestir o traje nupcial. Precisamente, deixar a roupagem anterior, pesada, suja, ou menos limpa, para albergar um traje luminoso, que nos torne transparentes, afáveis, próximos, mais iguais, mais irmãos, dóceis, mais justos, mais amigos, mais família; um traje ágil, leve, atraente, que nos permita acariciar, dar as mãos, beijar, afagar o rosto do outro; trajes que não nos afastem e não nos cataloguem em categorias que nos dividam, nos afastam, nos levam a ter gestos mecânicos com muita etiqueta mas com pouco amor, com pouco à vontade, com pouca vivacidade. Precisamos de meter mãos ao trabalho e deixarmos que a nossa vida, atravessada pelo Espírito Santo, se converta e transpareça Jesus Cristo.
       5 – A linguagem do Evangelho é sugestiva. Quem não se sente bem entre iguais, entre irmãos, num banquete, sem formalismos vazios, mas com a dignidade de se sentir convidado, de se sentir em família, de se sentir como príncipe ou princesa?! Somos mais que isso. Somos filhos. É um tratamento de qualidade. Vida abundante. Se somos filhos, estamos em casa, sentimo-nos mais descontraídos.
       Vejamos a descrição de Isaías sobre este banquete:
"Sobre este monte, o Senhor do Universo há de preparar para todos os povos um banquete de manjares suculentos, um banquete de vinhos deliciosos: comida de boa gordura, vinhos puríssimos. Sobre este monte, há de tirar o véu que cobria todos os povos, o pano que envolvia todas as nações; destruirá a morte para sempre. O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces e fará desaparecer da terra inteira o opróbrio que pesa sobre o seu povo"
       É um banquete para todos, com os melhores manjares, à discrição. O melhor que pode haver. É motivo para aclamar: «Eis o nosso Deus, de quem esperávamos a salvação; é o Senhor, em quem pusemos a nossa confiança. Alegremo-nos e rejubilemos, porque nos salvou. A mão do Senhor pousará sobre este monte». «O Senhor é meu pastor: nada me falta. Leva-me a descansar em verdes prados, conduz-me às águas refrescantes e reconforta a minha alma. / Para mim preparais a mesa à vista dos meus adversários; com óleo me perfumais a cabeça e o meu cálice transborda».

       6 – A promessa do Senhor cumpre-se e visualiza-se em Jesus Cristo. É Ele o Bom Pastor. Traz-nos Deus. Abre-nos o Céu. Mostra-nos a eternidade. Antecipa a glória do amanhã. Salva-nos, aqui e agora. Convida-nos para o banquete. A todos. Sem exceção. E, ao mesmo tempo, nos envia, para que vamos, aos caminhos e encruzilhadas, e chamemos mais. Há lugar para todos. Com efeito, a sala do banquete só se encherá quando não houver ninguém fora, a não ser que se recuse a entrar.
       Na quinta-feira santa, Jesus prepara o depois da Sua morte e ressurreição, instituindo a Eucaristia, memorial, banquete que torna presente o Seu corpo e o Seu sangue, a Sua vida dada e partilhada connosco. Na Eucaristia, saboreamos a presença de Deus que desce e nos eleva, e nos compromete. Quanto mais em Deus, mais disponíveis para amar, mais apressados para sermos com os outros. A Eucaristia faz-nos Igreja, faz-nos Corpo de Cristo, faz-nos irmãos. Identificando-nos com Jesus, entrando em comunhão com Ele, só podemos tornarmo-nos cada vez mais parecidos com Ele.

       7 – Sabendo que o tempo presente ainda não é o definitivo, nem por isso deixaremos de viver com o olhar fito em Deus, com os pés bem assentes na terra, com as mãos abertas para os outros, para, como Cristo, do nascimento à cruz, acolhermos, abraçarmos, ajudarmos, transformarmos o mundo em que vivemos no melhor dos mundos que nos é possível.
       Belíssimo o testemunho do Apóstolo:
"Sei viver na pobreza e sei viver na abundância. Em todo o tempo e em todas as circunstâncias, tenho aprendido a ter fartura e a passar fome, a viver desafogadamente e a padecer necessidade. Tudo posso n’Aquele que me conforta. No entanto, fizestes bem em tomar parte na minha aflição. O meu Deus proverá com abundância a todas as vossas necessidades, segundo a sua riqueza e magnificência, em Cristo Jesus. Glória a Deus, nosso Pai, pelos séculos dos séculos".
       Quer vivamos, quer morramos, tendo muito ou pouco, homens ou mulheres, gregos ou troianos, procuremos em tudo a vontade de Deus.

Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia (ano A): Is 25, 6-10a; Sl 22 (23); Filip 4, 12-14. 19-20; Mt 22, 1-14.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Nem um copo de água ficará sem recompensa

       "Ainda que multipliqueis as vossas preces, não lhes darei atenção, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, afastai dos meus olhos a malícia das vossas acções, deixai de praticar o mal e aprendei a fazer o bem. Respeitai o direito, protegei o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva" (Is Is 1, 10-17). 
       Disse Jesus aos seus apóstolos:
      "Disse Jesus aos seus apóstolos: «Não penseis que Eu vim trazer a paz à terra. Não vim trazer a paz, mas a espada. De facto, vim separar o filho de seu pai, a filha de sua mãe, a nora da sua sogra, de maneira que os inimigos do homem são os de sua casa. Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim, não é digno de Mim. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não é digno de Mim. Quem encontrar a sua vida há-de perdê-la; e quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la. Quem vos recebe, a Mim recebe; e quem Me recebe, recebe Aquele que Me enviou. Quem recebe um profeta por ele ser profeta, receberá a recompensa de profeta; e quem recebe um justo por ele ser justo, receberá a recompensa de justo. E se alguém der de beber, nem que seja um copo de água fresca, a um destes pequeninos, por ele ser meu discípulo, em verdade vos digo: não perderá a sua recompensa». Depois de ter dado estas instruções aos seus doze discípulos, Jesus partiu dali, para ir ensinar e pregar nas cidades daquela gente" (Mt 10, 34 - 11, 1).
       Na primeira leitura da liturgia da palavra deste dia, do profeta Isaías, acentua-se que o essencial aos olhos de Deus não é o cumprimento de ritos, de leis, de tradições, mas a vivência solidária com os outros, a conversão de coração, a justiça, a solidariedade, o bem. Os ritos, como a religião, têm sentido quando nos ajudam a ajudar os outros.
       No Evangelho, por sua vez, Jesus alerta os seus discípulos para a inquietação que devem sentir na transformação do mundo, gastar a vida para a ganhar, viver na dedicação permanente ao próximo, não esperar tranquilidade na missão. A paz conquista-se pelo compromisso com os outros. Paulo VI lembrava que o desenvolvimento é outro nome para a paz, pois esta não é alcançável quando existe pobreza, guerra, dependência, corrupção, quando lei do mais forte impera, escravizando, controlando, retirando aos outros a liberdade e a capacidade de autodeterminação. A paz exige escolhas ativas a favor da transformação do mundo e das estruturas de pecado, para que a injustiça, as desigualdades sociais, o défice de acesso à saúde, à educação e à cultura, sejam minoradas em ordem à fraternidade.
       O caminho para Jesus é o serviço, a caridade, a atenção e cuidado sobretudo às pessoas que se encontram em situações de desfavor, num mundo paralelo, deficitário, de exclusão social, política e religiosa. Aos seus discípulos diz claramente qual é o caminho: serviço, caridade. Nem um copo de água dado em nome de Jesus ficará sem recompensa.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Domingo V do Tempo Comum - ano A - 9 de fevereiro

       1 – Disse Jesus aos seus discípulos: «Vós sois o sal da terra. Mas se ele perder a força, com que há de salgar-se? Não serve para nada, senão para ser lançado fora e pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem se acende uma lâmpada para a colocar debaixo do alqueire, mas sobre o candelabro, onde brilha para todos os que estão em casa. Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus».

       2 – Jesus continua a abrir a mente e o coração dos seus discípulos, com ensinamentos, gestos, encontros, situações que exigem respostas concretas e, por vezes, imediatas. Hoje, utiliza duas analogias, duas imagens, para fazer compreender aos seguidores a sua missão no mundo, na vida, na história. Vós sois para o mundo o que o sal é na comida: tempero, sabor, sentido. Sois no mundo o que a luz é no meio das trevas: caminho, orientação, transparência.
       Já todos fomos surpreendidos, em alguma ocasião, por uma refeição insossa, sem sal, sem sabor, intragável. É certo que por questões de saúde alguns têm de reduzir ao sal, mas leva tempo até o paladar se habituar a uma comida que parece não saber a nada. Curiosamente, a sabor está nos alimentos, na carne, no peixe, na hortaliça, nas batatas, no arroz, nos ovos. O sal permite-nos apreciar as diferentes dietas alimentares. Se falta sal nada sabe bem. (Por questões de saúde a cozinha substitui o sal por outros condimentos, mas é o referencial simbólico mantém-se).
       O sal, como o fermento, dá forma, textura, potencia o sabor dos alimentos. Não se dá conta do sal ou do fermento. Só a sua falta se faz notar. Assim, mutatis mutandis, os discípulos de Jesus. Mesmo que de forma impercetível deverão levar sabor e sentido ao mundo, atuando com eficácia e persistência, como o sal, como o fermento, nos alimentos.
       Habituados que estamos à eletricidade, quando falha logo ficamos desnorteados. Para alguns é o acesso à internet, a televisão, a rádio, os eletrodomésticos que permitem confecionar os alimentos, o aquecimento ou o ar condicionado. Mas de imediato, e estamos a falar da tarde-noite, procuramos resolver o problema da luz, com uma vela, uma lanterna, com a luz do telemóvel, prosseguindo com dificuldade às apalpadelas com o medo de chocar contra algum objeto. É um transtorno. Mesmo conhecendo o local em que nos movemos é com muita dificuldade que saímos do sítio. Esperamos um pouco a ver se a luz volta ou se os olhos se habituam à escuridão.
       Mas basta um lampejo de claridade e já nos orientamos. E se cada um de nós for essa pequena luz para os outros? E se juntarmos a nossa à luz do vizinho?
        3 – O discípulo de Jesus não pode seguir na correnteza da moda ou da opinião pública, pois esta tanto pode ser positiva e inclusiva, como destrutiva e desagregadora. Podemos até não pisar terra firme e encontrarmo-nos sobre as águas nos mares das Galileias do nosso tempo, podemos até ser apanhados por vendavais e tempestades, mas a referência, a LUZ, o farol que nos guia, é Jesus Cristo, e Ele garante-nos que nada nos separará do Seu amor. Ele estende-nos a mão. Atrai-nos com o Seu olhar. Não nos safa das dificuldades. Porém, sabermos que Alguém está por perto, nos conforta e nos dá ânimo para prosseguir, permite-nos enfrentar o que nos assusta e o que nos faz sofrer. Precisamos dos amigos, dos pais, da família, para que nos deem coragem, nos animem, estejam connosco e nos amem, independentemente das variáveis da nossa vida. O maior dos sofrimentos e das doenças do nosso tempo é precisamente a solidão.
       Vivemos numa época com diversos riscos: cada um querer salvar-se sozinho; seguir por atalhos, facilidades imediatas sem meta nem objetivos; querer apenas o que os outros querem, fazendo coro com a opinião generalizada; afastamento de tudo o que possa sugerir esforço, sacrifício, sofrimento. Obviamente que deveremos combater todo o mal, e livrar-nos do sofrimento, mas este é inevitável. Quem se sujeita a amar, sujeita-se a padecer. Mas só o amor nos livra do cinismo, nos livra de uma vida sem sal, sem luz, sem sentido, e da solidão. A vida não é um descafeinado permanente. Como alguns filósofos sublinham, queremos o sabor mas sem as respetivas consequências: comidas e bebidas light, café sem cafeína, adoçante sem açúcar. Amor livre, ocasional, sem amarras, sem compromissos duradouros, sem porto. Quando nos damos conta estamos sós. E a vida perde o seu encanto. Há pessoas que ficam imediatamente doentes quando pensam que vão ficar sozinhas. Outras lamentam-se quando é demasiado tarde para cultivar amizades, para valorizar a família, para dar prioridade aos afetos e à proximidade. Não se isole! Quem se encerra no seu casulo acabará por se afastar da luz, a que vem de dentro e a que vem do alto.
        4 – E como ser luz e sal, que dá tempero e ilumina a vida, no nosso dia-a-dia?
       A belíssima página de Isaías mostra-nos o caminho, revelando-nos as palavras de Deus: «Reparte o teu pão com o faminto, dá pousada aos pobres sem abrigo, leva roupa ao que não tem que vestir e não voltes as costas ao teu semelhante. Então a tua luz despontará como a aurora e as tuas feridas não tardarão a sarar... Se tirares do meio de ti a opressão, os gestos de ameaça e as palavras ofensivas, se deres do teu pão ao faminto e matares a fome ao indigente, a tua luz brilhará na escuridão e a tua noite será como o meio-dia».
       Na mesma sequência o salmista nos envolve na resposta à palavra de Deus: «O justo deixará memória eterna. Ele não receia más notícias: seu coração está firme, confiado no Senhor. O seu coração é inabalável, nada teme; reparte com largueza pelos pobres, a sua generosidade permanece para sempre e pode levantar a cabeça com altivez».
       Como sublinha Jesus no Evangelho: as vossas/nossas boas obras serão a luz que brilha diante dos homens e iluminam o mundo.

       5 – O cristianismo não é um exercício intelectual, uma abstração, ou uma generalidade. É uma realidade concreta, situada no tempo e no espaço. O ponto de partida e de chegada, o chão que nos ampara, é Deus e o Deus de Jesus Cristo. Deus connosco. Próximo, e que Se faz estrada e vem sujar as mãos na terra, envolvendo-se com a nossa fragilidade e finitude. Procura-nos.
       A fé cristã tem um ROSTO vivo, Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Não é, como em alguns ambientes religiosos se crê, uma religião do Livro. É uma Pessoa, um Acontecimento, que se traduz e atualiza na nossa vida, na nossa história. É Jesus Cristo, numa VIDA de entrega, de amor, numa história que se mistura com a nossa. É mistério. É dádiva. Ele entrega a Sua vida para que nós tenhamos vida e vida em abundância (cf. Jo 10,10). É na Sua morte e ressurreição que ancoramos a nossa fé, a nossa militância crente.
       É isto mesmo que sublinha o apóstolo, que não se anuncia a si mesmo ou alguma doutrina especial, que não tenta iludir com bonitas palavras, mas apresenta Jesus Cristo: “Irmãos, pensei que, entre vós, não devia saber nada senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado. A minha palavra e a minha pregação não se basearam na linguagem convincente da sabedoria humana, mas na poderosa manifestação do Espírito Santo, para que a vossa fé não se fundasse na sabedoria humana, mas no poder de Deus”.
       A fé une-nos uns aos outros e compromete-nos com o bem de todos. Não é possível, sob pena de nos tornarmos mentirosos, separar a fé das obras e da vida. A fé faz-nos olhar para Deus com amor. Se olhamos para Deus com Amor, acolhendo-O na nossa vida, não poderemos desprezar a vida dos nossos irmãos, que são ROSTO e PRESENÇA de Deus, aqui e agora (hic et nunc).

Textos para a Eucaristia (ano A): Is 58, 7-10; Sl 111 (112); 1 Cor 2, 1-5; Mt 5, 13-16.