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sábado, 26 de setembro de 2015

XXVI Domingo do tempo Comum - ano B - 27-09.2015

       1 – "Há um «serviço» que serve aos outros; mas temos que guardar-nos do outro serviço cujo interesse é beneficiar os «meus», em nome do «nosso». Este serviço deixa sempre os «teus» de fora, gerando uma dinâmica de exclusão" (Papa Francisco, em Cuba). O contexto é o de domingo passado, em que Jesus diz claramente aos seus discípulos que quem quiser ser o primeiro seja o servo de todos. A tentação será servir-se, ou servir os seus, excluindo os que não fazem parte da minha família, do meu partido, da minha religião, do meu país, do meu grupo de amigos. Ora para Deus somos irmãos. Ele é Pai de todos. Todos são chamados a formar uma família feliz.
       Acolher os distantes, o estrangeiro, o pobre, o estranho, o refugiado, não nos dispensa de tratar bem os de casa e os da vizinhança.
       O Evangelho mostra os discípulos muito zelosos em relação ao grupo e aos próprios interesses. João diz a Jesus: «Mestre, nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco». Não se põe em causa o bem mas quem o faz. Ou seja, se fizesse parte do grupo, acrescentaria prestígio e estava em sintonia com Jesus. Ora, se não faz parte do grupo não terá direito a fazer o que quer que seja relacionado com Jesus.
       Novamente a questão do protagonismo: quem é o maior?! Resposta clarificadora de Jesus: quem quiser ser o primeiro será o servo de todos. Os discípulos ainda precisam de caminhar muito mais. Veem alguém que lhes pode tirar o protagonismo e logo o afastam.
       2 – Novamente a delicadeza, o serviço, e a opção preferencial pelos mais frágeis. Sem Jesus fisicamente entre nós, Ele realmente Se faz presente pela Palavra proclamada, pelos Sacramentos, particularmente na Eucaristia, e muito especialmente Se faz presente nos pobres.
       Não há privilégios nem privilegiados. A haver discriminação será a favor dos excluídos, menosprezados, esquecidos. Partimos da mesma condição: fazer o bem em nome de Jesus. Homens ou mulheres, crianças ou idosos, europeus ou africanos, todos somos destinatários da recompensa, da salvação que Jesus nos traz. Basta fazer o bem. Em nome de Jesus, para que não nos tornemos vaidosos ao ponto de fazermos depender os outros de nós instrumentalizando-os.
       Responde-lhes Jesus: «Não o proibais; porque ninguém pode fazer um milagre em meu nome e depois dizer mal de Mim. Quem não é contra nós é por nós».
       Estamos habituados a diabolizar quem não pensa como nós. Pior, diabolizamos os que não fazem parte do nosso grupo, mesmo que tenham ideias semelhantes às nossas. Atente-se à campanha eleitoral: nós ou o caos. Combatem-se as pessoas e não os projetos. Ouvindo os diversos candidatos, todos defendem os pobres, a solidariedade social, o pelo emprego jovem, a inclusão dos idosos, a escola pública, dando prioridade à educação, à saúde, à justiça (e talvez à cultura), estarão ao lado das pequenas e médias empresas, combaterão as injustiças, a corrupção, a fuga ao fisco, para aliviar os sacrifícios dos portugueses. A Segurança Social é intocável. Os reformados, pelo menos os que recebem menos, verão um esforço por lhes ser aumentada a reforma. Haverá políticas de apoio às famílias e às empresas, promovendo dessa forma o crescimento económico e o emprego. Em relação às ideias políticas todos estamos de acordo…
       Jesus diz aos seus discípulos que o joio e o trigo crescem em simultâneo até à ceifa (cf. Mt 13, 24-30). Em vez de diabolizar há que integrar. Discutir ideias, mas acolher todas as pessoas. Nem tudo é branco e preto, há que procurar o bem em todos, a presença de Deus em cada um. O caminho de Jesus é o caminho do amor, da paixão, do serviço a todos, sem excluir, preferindo aproximar-se dos afastados. O caminho é amar. Amar sempre. Amar servindo. Não importa a quem. Não importa quem. Retomemos a parábola do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 25-37). Para se ser bom não é preciso ser judeu, ou ser cristão, o que é preciso é fazer o bem sem olhar a quem.
       3 – «Quem vos der a beber um copo de água, por serdes de Cristo não perderá a sua recompensa. Se alguém escandalizar algum destes pequeninos que creem em Mim, melhor seria para ele que lhe atassem ao pescoço uma dessas mós e o lançassem ao mar».
       Os pequeninos – os pobres, a viúva, o órfão, o estrangeiro, o pecador, o refugiado, o doente – hão de merecer a máxima atenção, cuidado e diligência. O que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos a Mim o fazeis. O que deixardes de fazer ao mais pequenino dos meus irmãos a Mim deixareis de o fazer (cf. Mt 25, 31-46).
       No dia em que se faz memória de São Vicente de Paulo, vale a pena meditar nas suas palavras: «O serviço dos pobres deve ser preferido a todos os outros e deve ser prestado sem demora… se tiverdes de deixar a oração… De facto não se trata de deixar a Deus, se é por amor de Deus que deixamos a oração: servir um pobre é também servir a Deus. A caridade é a máxima norma, e tudo deve tender para ela; é uma grande senhora: devemos cumprir o que ela manda».
       Os discípulos discutem lugares e protagonismo: qual de nós será o maior no Reino de Deus? E não satisfeitos, afastam os que possam ocupar um lugar especial no coração de Jesus ou agir em Seu nome. Ora Jesus não discute lugares, mas serviço. Não importa quem brilha! Importa quem faz transparecer Jesus e o Seu Evangelho de amor. No MEIO estará sempre Jesus, ainda que esteja no meio através dos mais pobres.

       4 – Deveríamos ficar felizes quando os outros prosperam! Mas por vezes o sucesso dos outros provoca-nos azia e inveja. Os outros não são, como diria Sarte, o inferno, pelo contrário, são um espelho no qual podemos descobrir a presença de Deus, e reconhecer-nos como irmãos.
       A primeira leitura mostra, como também o evangelho, que a inveja obscurece o olhar sobre os outros. Os líderes sábios e tementes a Deus fazem a diferença.
       Moisés só tem duas mãos e não pode resolver todos os problemas do povo. São escolhidos 70 anciãos para o ajudarem. O Espírito que estava em Moisés é "distribuído" também pelos 70 anciãos, que começam a profetizar. No acampamento ficaram dois homens que, embora estivessem inscritos, não compareceram na tenda. O Espírito também poisou sobre eles. E eles começaram a profetizar no acampamento. Entretanto um jovem correu a dizê-lo a Moisés: «Eldad e Medad estão a profetizar no acampamento». Josué, que mais tarde viria a suceder a Moisés e que estava ao seu serviço, aproveita a deixa: «Moisés, meu senhor, proíbe-os».
       Como se Eldad e Medad pudessem ofuscar a liderança de Moisés ou os padrões instituídos. Deus age além dos limites oficiais que possamos impor a partir dos nossos padrões religiosos. Moisés, que se poderia sentir diminuído, é taxativo: «Estás com ciúmes por causa de mim? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor infundisse o seu Espírito sobre eles!».
       O bem que os outros dizem e fazem deve incentivar-nos a fazer e a dizer bem.

       5 – Mais um domingo com São Tiago, cuja Epístola é uma chamada constante a assumirmos as consequências da fé professada. Todos sabemos, como diz o Apóstolo, que a fé sem obras é morta, mas não nos faz mal avivarmos a nossa consciência e o nosso compromisso.
       São Tiago concretiza com situações reais, recordando-nos que as nossas riquezas materiais e a nossa presunção espiritual nos fazem desviar de Jesus e da vivência do Evangelho.
«As vossas riquezas estão apodrecidas e as vossas vestes estão comidas pela traça. O vosso ouro e a vossa prata enferrujaram-se, e a sua ferrugem vai dar testemunho contra vós… Privastes do salário os trabalhadores que ceifaram as vossas terras. O seu salário clama; e os brados dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor do Universo… Condenastes e matastes o justo».
       Quem vive e enriquece à custa dos mais pobres há de dar contas a Deus. O ideal comunista-marxista era espoliar os ricos para enriquecer os pobres; a lógica do Evangelho é a partilha, o cuidar dos mais frágeis, venham de onde vierem. Privar o trabalhador do seu salário ou não o compensar justamente pelo trabalho realizado é um pecado que brada aos céus. Bem podemos verificar o longo caminho a percorrer. É com pesar que muitas empresas não sobrevivem. Com maior pesar quando não foram acautelados, com honestidade e justiça, os salários daqueles e daquelas que deram o corpo ao manifesto, cujo fruto do seu trabalho deveria ter sido canalizado para o pagamento dos ordenados, investindo na modernização da empresa e na formação dos seus trabalhadores. Não se exclui a justa remuneração dos proprietários e gestores, cujo trabalho e honestidade os faz merecer o seu salário.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (B): Num 11, 25-29; Sl 18 (19); Tg 5, 1-6; Mc 9, 38-43.45.47-48.

sábado, 9 de março de 2013

IV Domingo da Quaresma - ano C - 10 de fevereiro

       1 – O evangelho deste dia apresenta-nos uma das mais extraordinárias parábolas de Jesus, um exclusivo de São Lucas, conhecida como a Parábola do Filho Pródigo, mais adequado seria Parábola do Pai Misericordioso. Veremos por quê. É uma verdadeira pérola que nos fala de um Deus que ama sempre, sem reservas, absolutamente.
       Jesus prossegue o seu ministério, nem sempre bem compreendido, com o Seu jeito de se relacionar com as pessoas, sem privilegiar classes, ou melhor, privilegiando precisamente os que estão abaixo das classes. Para Jesus o menos é MAIS. Os desprotegidos pelo poder, pela riqueza, ou até pela religião, os que têm menos, merecem de Jesus maior atenção, maior cuidado, mais tempo e delicadeza, para que se sintam chamados, amados, se sintam filhos queridos de Deus.
       Jesus come com pecadores, maltrapilhos, doentes, pedintes, publicanos. Esta constatação envolve uma acusação grave feita pelos fariseus a Jesus. Ele dá-Se com todos aqueles que a sociedade se encarregou de excluir, a escumalha que não deveria ter lugar à mesa. Ele acolhe-os e come com eles. E comer com alguém implica e significa comunhão, proximidade. Senta-se à mesa comigo quem considero amigo, ou da família.
       2 – Jesus conta-lhes então uma parábola.
       Um homem tinha dois filhos. Para os quais vivia. Sem que nada o fizesse prever, o mais novo decide pôr cobro aos laços familiares, abandonando a casa. Pede a parte da herança que lhe caberá em sorte. Sai de casa. Tem tudo, mas não se sente completamente feliz. Vai em busca de algo mais. Uma razão maior. O homem ultrapassa infinitamente o homem. A ambição (com conta, peso e medida) leva a procurar o melhor dos outros e a dar o melhor de nós mesmos. A ganância destrói-nos, mais cedo ou mais tarde, e destrói os que estão à nossa beira.
       À medida que se afasta da casa paterna, sem saber ainda, afasta-se da felicidade e de quem suporta a sua vida. Investe em novas amizades. Experimenta tudo. Esbanja o que tem. Diverte-se. Gasta e desgraça a vida, sempre em busca de mais. Uma sede sem fim. Ávido de prazeres, ocupa todo o tempo cronológico para não pensar em mais nada. Ocupa o lugar dos afetos com muitas coisas. Abafa a voz que o liga ao pai. Procura ir além de tudo o que já antes viveu em sua casa.
       Logo se apercebe que a felicidade não está longe, ou no exterior, ou nas coisas, ou nas facilidades, ou nos outros. Sente-se abandonado. Cada vez mais só. Cai em si. O dinheiro não compra a felicidade, nem os amigos, nem a alegria de se sentir amado. A vida parece ter-se esquecido dele. Melhor, ele abandonou o sonho, entregou-se à perdição.
       Há, porém, dentro dele, algo mais forte, tão forte que é impossível não encontrar, a ligação ao PAI. Recorda-se como era feliz, tendo tudo, mas sobretudo tendo um Pai que o amava, o respeitava, o compreendia, o apoiava nas suas decisões.
       Vence o orgulho e o sentimento de culpa por ter abandonado a casa paterna. Regressa. À sua casa. Aos braços do pai. Nem se importa de ser tratado como um dos criados, pois mesmo o mais insignificante tem mais do que ele tem agora, tem a atenção do pai, uma casa, um refúgio, um ombro amigo, um olhar compassivo. Não se importa de não recuperar os direitos de filho.
       Se nos centrássemos na figura do filho mais novo – há momentos em que também nós nos afastamos do Pai, dos outros, de nós mesmos, da nossa consciência – veríamos, ainda assim, um homem em busca da felicidade. Procura ser feliz por todos os meios. Precisou de se afastar para descobrir que a verdadeira felicidade estava dentro (dele), em casa, ao pé do pai. Por vezes só reconhecemos o valor do que temos quando o perdemos. E às vezes é tarde para recuperar e para regressar. Este filho ainda foi a tempo de descobrir a razão maior da sua felicidade, o amor do Pai.
       3 – Aquele pai tinha outro filho. Mais velho. Mais responsável. Com menos tempo para a diversão. Tinha que tomar conta do irmão mais novo. E aborrecer-se com ele. Começou a trabalhar com o pai, muito antes do irmão. Quando o irmão nasceu, os mimos dos pais passaram para ele. É fácil perceber como se sentiria ao ver todas as atenções colocadas no mais pequeno, mesmo que soubesse que o carinho tinha sido exclusivo para ele durante alguns meses ou anos. E nunca recuperável pelo mais novo.
       Fica triste com a partida do irmão. Habituara-se a ele. Algumas tarefas eram divididas. Já não tinha que fazer tudo. Fica triste com a tristeza do pai, com o seu desgosto e a sua melancolia. Mas doravante terá a atenção do pai só para si, sem comparações. Os bens materiais divididos nem lhe fazem moça. Dividir as atenções e cuidados do pai era muito mais violento.
       Casa, trabalho, (pouco) descanso. Muito tempo passa sem se lembrar do irmão que está perdido pelo mundo. Sabe que o pai não esquece, mas que pouco a pouco a dor será menor e ele terá o pai só para si. Passam-se dias em que quase nem falam. Nem se veem. O pai está garantido. Não precisa de conquistar a sua atenção. O chão é seguro. Não pergunta pelo irmão. Não pergunta pelos sentimentos do pai. Tudo está na ordem natural das coisas. Tem para si que o pai tudo fará para o compensar por ter ficado em casa. Não precisa de investir nos afetos. Não precisa de agradar ao pai. Este não se habilitará a perder outro filho. O pai é que tem a obrigação de se curvar diante dele e é se o quer junto de si.
       Como está enganado! O pai não pode esquecer nenhum dos filhos. Conhece-os e ama-os nas suas limitações. Saíram do seu coração. Há espaço para os dois. O lugar do filho foragido não é preenchido. É deste filho. Não pode ser compensado. Mesmo que morra, o lugar no coração do pai não será ocupado.
       O irmão mais novo regressa. Já pouco se lembrava dele. E para mais, o pai faz-lhe uma festa, perdoa-o, passa uma borracha no sucedido, não quer saber da ofensa, ou dos pecados passados. Está tão feliz que só quer festejar. O mais velho não entende tanta algazarra. Tinha como adquirido que o irmão estava morto, para si e para o pai também. Como é possível que o pai o acolha de volta? E o perdoe? E lhe faça uma festa? E lhe devolva a dignidade de filho? Veste-lhe roupas novas, sandálias, coloca-lhe o anel no dedo. Gastou tudo e ainda é compensado! Não compreende a atitude do pai. O amor do Pai. Não aceita. Fica profundamente magoado tanto com o regresso do irmão como com a benevolência do Pai.
       4 – Fixemos agora o olhar no PAI. Como faz Jesus. Nesta parábola a figura principal é Ele. Depois de algumas murmurações, Jesus deixa claro que Deus é Pai, e ama como Pai e como Mãe, no mais profundo de Si mesmo, é um AMOR entranhado na vida, na história do ser humano. Por mais que nos afastemos, Deus não nos desampara, não nos abandona à nossa sorte. Está sempre pronto a dar-nos a mão. Assim nos é mostrada a história de Israel. Deus alia-Se com a humanidade, pelos patriarcas, pelos profetas.
       Ao longo de toda a parábola Jesus está centrado no pai e em Deus como Pai que não Se incomoda em partir a cara, acolhendo, perdoando, sem respeitos humanos. Não teme o comentário, ou a desonra. Os filhos valem tudo, toda a riqueza, toda a vida, todo o amor.
       Aquele pai cria as condições para os filhos (e para os servos). Trabalha em função dos filhos. Quer que eles sejam alguém, mas acima de tudo que não lhes falte um abraço, a presença dos amigos, a alegria de desfrutar da vida, diariamente, no meio das fragilidades, em dias mais alegres e em dias mais sombrios. Quer que os filhos aprendam a trabalhar, a ser responsáveis, a cuidar da casa, para que outros possam usufruir, viver. Os filhos acompanham-no nos negócios. Partilha com eles a responsabilidade. Não se esconde nas preocupações do trabalho ou na acumulação de fortunas. Os filhos vão para ao campo. Misturam-se com a criadagem, pois para o Pai também contam, também precisam de casa, de amigos, de apreciar a vida.
       Tudo corre bem. Mais ou menos. Os filhos já estão crescidos. Os cuidados são os mesmos, mas agora são os filhos que orientam a sua vida, assumem as suas responsabilidades e as consequências dos seus atos. Conhece os filhos como a palma das suas mãos. Ainda antes do próprio, deteta sinais de alarme no filho mais novo. Dá-lhe espaço, mas está mais vigilante. Vê-o inquieto, ansioso. Não vê motivos para isso. Mas sabe que os filhos têm de viver a sua vida e passar por momentos menos bons. Também assim se cresce. Que andará a turbar-lhe a mente? Com a naturalidade de sempre pergunta-lhe sobre o que lhe vai na alma. Não obtém resposta satisfatória. Vê que o filho se mantém distante e a fazer perguntas e mais perguntas aos servos e aos viajantes. O pai vê o filho mais sisudo, já não se diverte como antes. Já tem preguiça de o acompanhar para o campo ou para os negócios.
       Está a desligar-se. Está a crescer. Está a pensar pela sua cabeça. Há que esperar e dar tempo ao tempo. Eis que o filho mais novo se abeira cheio de si mesmo: "Pai, dá-me a parte da herança que me toca". E parte. O pai sente que lhe falta o ar. Uma parte de si é-lhe arrancada. Não quer acreditar. Morre um pouco. O pedido do filho é um desejo de morte. A herança herda-se pela morte dos pais, e não em vida. O filho deseja que o pai morra. O que mais importa é sair de casa.
        5 – Debrucemo-nos um pouco mais sobre a postura do pai. Respeita a opção dos filhos. Dá parte dos seus bens – para ele não existem bens que paguem o amor aos filhos, tudo é para os filhos –, não reclama com o filho mais novo. Não o repreende. Não o castiga. Poderia, ao menos, deixá-lo partir mas de mãos vazias. Os bens são seus, enquanto viver, não dos filhos…
       Durante a ausência do filho, cuida da casa, para que o outro filho se sinta protegido, amado, e aos servos não falte o zelo do Pater familias. O tempo cura as maleitas dos afetos e dos sentimentos. Pelo menos dilui. Não desiste. Fora está alguém que torna a sua casa incompleta. Por ora não pode fazer muito. Não desiste. Cada dia, o seu olhar se fixa no horizonte, aguardando que o AMOR profundo que nutre pelo filho o faça regressar. A sua aposta não é defraudada. Demorou demasiado tempo. Vê uma sombra ainda distante. Não tem dúvidas. Só pode ser o seu filho que “estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado”. Lança-se ao seu encontro. Abraça-o. Devolve-lhe a dignidade de filho. Para ele, continuou a ser filho. Não o avalia pelos desaires, mas pelo coração. O amor não tem preço. Não há nada que pague o regresso do filho. É a vez de esbanjar a sua riqueza com o regresso do filho. A sua maior riqueza é o amor. Pelos filhos. Não importa o que tem de fazer. “Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha. Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o. Comamos e festejemos”.
       A mesma atitude diante da intransigência do filho mais velho. Procura entender as razões que lhe assistem. Sempre esteve em casa. Certinho. Cumpridor. Fiel. De tão zeloso que não quer desculpar a safadeza e a rebeldia do irmão. Como é possível o regresso à normalidade? Como é possível que o Pai o trate como se nunca tivesse ido para longe, como se nunca lhe tivesse desejado a morte? Será que o pai perdeu o juízo e a vergonha? Só o amor do Pai/Mãe entende como o coração tem razões que toda a razão desconhece.
       O amor não permite cálculos. Quando é verdadeiro, genuíno. Também o filho mais velho não entende a predileção pelos filhos. Dá-lhes toda a atenção do mundo. O cuidado com o filho mais novo, não o desvia da delicadeza para com o filho mais velho. Tudo é para os filhos. Não importa os sacrifícios que tenha que fazer ou os gastos que tenha que efetuar. Tudo será para eles.
       Jesus mostra-nos como é imenso o amor de Deus por nós. Muito maior que a nossa fragilidade, gigantesco em relação ao nosso pecado. Se nós quisermos, não há nada que nos possa separar do amor de Deus.
       6 – Como outrora, também hoje Deus nos tira do opróbrio, da miséria. Deus vem para nos resgatar de toda a escravidão (primeira leitura). Dá-nos como herança, não uma parte, mas dá-Se todo, em Jesus Cristo, o Seu bem mais precioso, para que no Seu filho muito amado descubramos o caminho de regresso à Casa do Pai, onde jorra a vida.
       Deixemo-nos inebriar com as palavras do apóstolo:
“Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. As coisas antigas passaram; tudo foi renovado. Tudo isto vem de Deus, que por Cristo nos reconciliou consigo e nos confiou o ministério da reconciliação. Na verdade, é Deus que em Cristo reconcilia o mundo consigo, não levando em conta as faltas dos homens e confiando-nos a palavra da reconciliação. Nós somos, portanto, embaixadores de Cristo… A Cristo, que não conhecera o pecado, Deus identificou-O com o pecado por causa de nós, para que em Cristo nos tornemos justiça de Deus”.


Textos para a Eucaristia (ano C): Jos 5, 9a.10-12; 2 Cor 5, 17-21 ; Lc 15, 1-3.11-32.

sábado, 25 de agosto de 2012

XXI Domingo do Tempo Comum - ano B - 26 de agosto

       1 – “Muitos discípulos, ao ouvirem Jesus, disseram: «Estas palavras são duras. Quem pode escutá-las?»... A partir de então, muitos dos discípulos afastaram-se e já não andavam com Ele”.
       Continuamos com o texto de São João, no qual Jesus Se apresenta como o verdadeiro Pão da Vida, o Pão de Deus. A afirmação de Jesus – o meu corpo é verdadeira comida, o meu sangue é verdadeira bebida... quem não comer a minha carne e não beber o meu sangue não terá a vida... – gera polémica na população, nos judeus e nos discípulos. Nesta parte final do capítulo 6, são os discípulos que se interrogam, duvidam e dispersam.
       Perante a dispersão dos judeus e dos discípulos, Jesus questiona os Doze sobre as disposições: «Também vós quereis ir embora?». Pedro, em nome dos outros Apóstolos, responde inequivocamente: «Para quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós acreditamos e sabemos que Tu és o Santo de Deus».
       A dissidência dá lugar à firmeza, à convicção, ao seguimento consciente e livre. O projeto de Jesus Cristo é um projeto de salvação, de vida nova, desafiando os limites do tempo e do espaço, dando o melhor que cada um possui em favor de todos, para que o que se dá se multiplique e atravesse o próprio Céu. É um projeto arrojado e libertador. Jesus não quer que os seus discípulos, e ninguém, viva no medo do passado ou sob o peso de leis castradoras e injustas, mas que todos possam apreciar a VIDA como dom, transformando a dádiva recebida em dádiva oferecida a favor dos outros.
       2 – Jesus Cristo, Deus entre nós, é o Pão que nos dá ânimo (alma) para vivermos confiantes, em momentos favoráveis como em ocasiões de tormenta, com alegria, sabendo que, como a mãe/pai em relação aos filhos, Ele, em relação ao nós, é o OLHAR que nos eleva, a mão que nos segura, é a COMPANHIA que nos fortalece, é a VIDA nova que oxigena o nosso coração, por inteiro.
       Não Se impõe. Vive no tempo e na história. Habita a humanidade. Caminha nas nossas buscas. Insere-Se nos nossos sonhos. Bebe e come connosco. Sofre e diverte-se com os nossos filhos e irmãos e pais. Chora e ri nas praças e nas vielas dos nossos corações. Não Se impõe. Tem a força e o poder que Lhe vêm do alto, de DEUS, mas faz-Se pobre, frágil, mendigo da nossa vontade, ajoelha-Se diante do nosso olhar. Carrega na Cruz todo o mundo, com todo o AMOR. Até ao fim. Para sempre. Até à última gota de sangue. Até à eternidade. Até Deus. Junto de Deus, connosco, pelo Espírito Santo, nos Sacramentos e nos Pobres deste tempo. À direita de Deus Pai atrai-nos com a Sua bondade.
       Não Se impõe. Testemunha. Vive. Exemplifica. Mostra como viver em qualidade. Dá-Se por inteiro. Dá-nos o Seu CORPO, a Sua VIDA. Precede-nos no peregrinar temporal. Encaminha-nos para o CORAÇÃO do PAI.
       “Quereis ir embora?” 
       A liberdade integra o plano salvador de Deus. Sem ameaças. Apela à decisão. A proposta está feita, as cartas lançadas! Cabe a cada um, ainda que com a ajuda generosa dos irmãos, decidir. É este o jeito de Deus, como os pais em relação aos filhos seus. Quer o melhor para nós, como os nossos pais o querem. Mas cabe-nos a nós viver a nossa vida, com as escolhas que fizermos.
“Josué disse então a todo o povo: «Se não vos agrada servir o Senhor, escolhei hoje a quem quereis servir: se os deuses que os vossos pais serviram no outro lado do rio, se os deuses dos amorreus em cuja terra habitais. Eu e a minha família serviremos o Senhor». Mas o povo respondeu: «Longe de nós abandonar o Senhor para servir outros deuses; porque o Senhor é o nosso Deus, que nos fez sair, a nós e a nossos pais, da terra do Egipto, da casa da escravidão”.
       3 – Quando uma criança descobre que não pode ter dois brinquedos, opta pelo que lhe parece melhor. O buscador de pérolas, ou de pedras preciosas, nas parábolas de Jesus sobre o Reino de Deus, quando encontra a mais bela pérola, ou a pedra mais preciosa, deixa/vende tudo o que tem de valioso para ficar com a que é mais preciosa e bela.
       As escolhas podem exigir renúncia. Não podemos ter todos os brinquedos. Há escolhas que devem fazer-nos sentir preenchidos, a transbordar de paz e de júbilo. Se escolho este marido, esta esposa, se escolho este caminho, não fico a chorar pelo que deixo, ou será que não encontrei o amor maior, a melhor das pérolas?! Quando escolho Jesus Cristo, escolho a vida, a verdade, escolho ser livre e, em consequência, escolho não ficar refém do tempo e da finitude e abrir-me ao futuro, à graça de Deus, a uma vida sem fim, com o fim na eternidade de Deus.
       Quando crescemos, dá-mo-nos conta que aqueloutro brinquedo já não nos satisfaz, ou já diz muito pouco. No plano da fé temos que dar o salto, como Pedro e os Apóstolos, apostar em Deus, nada perderemos, ganharemos o essencial, a VIDA que nos abre os horizontes de Deus. Quando lançamos as mãos ao arado para lavrar a terra, olhamos para o campo que se estende à nossa frente, para a beleza do campo depois de lavrado e semeado.
       Faz mais sentido acentuar o que temos, o caminho a percorrer, do que ficar a moer-se com o que se deixou para trás ou arrependidos na incerteza do que o tempo nos trará. Deus está à nossa frente, e ao nosso lado, e em nós. Confiemos. Não nos deixemos levar pela multidão ou pelos muitos discípulos que seguiram outro caminho ou se desviaram por atalhos. Vivamos. Neste concreto, não importa tanto a maioria, mas saber que o CAMINHO é verdade e vida para nós. E na certeza que os outros continuarão a ser atraídos por Deus, ainda que por meio da Sua luz em nós.

       4 – Ele é o Pão vivo. A Sua carne e o Seu sangue são alimento que nos salva. Se O acolhemos como Pão de Deus, se Ele tem para nós palavras de vida eterna, se Ele é o Santo de Deus, consideramo-nos como Corpo Seu. Comungamos o mesmo corpo, constituímos um só Corpo de Cristo. Daí a certeza que a Eucaristia, mistério maior da nossa fé, nos implica e compromete com os outros. Recebemos para dar, para partilhar, para entrar em comunhão.
       Como nos diz o Papa Bento XVI, “o pão é para mim e também para o outro. Assim Cristo une todos nós a Si mesmo e une-nos todos uns aos outros. Na comunhão recebemos Cristo. Mas Cristo une-se de igual modo ao meu próximo: Cristo e o próximo são inseparáveis na Eucaristia. E assim todos nós somos um só pão, um só corpo. Uma Eucaristia sem solidariedade com os outros é uma Eucaristia abusada... Na Eucaristia, Cristo entrega-nos o Seu corpo, doa-se a Si mesmo no Seu corpo e assim faz-nos Seu corpo, une-nos ao Seu corpo ressuscitado”.
       O caminho da Eucaristia é o caminho de Jesus, de Deus à terra, do nascimento à Cruz, da morte à vida nova de graça e ressurreição. É o caminho do amor. É uma escolha que nos liberta, preenchendo os nossos vazios e anseios. Só na caridade descobrimos a beleza e a grandeza de sermos gente, de sermos irmãos, de sermos filhos de Deus.
       A este propósito vale a pena mastigar as palavras de São Paulo, exemplificado o amor entre marido e mulher, expressão do AMOR único de Cristo à Igreja e pela humanidade, paradigma do amor que nos há de mobilizar uns para os outros e para Deus:
“Quem ama a sua mulher ama-se a si mesmo. Ninguém, de facto, odiou jamais o seu corpo, antes o alimenta e lhe presta cuidados, como Cristo à Igreja; porque nós somos membros do seu Corpo. Por isso, o homem deixará pai e mãe, para se unir à sua mulher, e serão dois numa só carne. É grande este mistério, digo-o em relação a Cristo e à Igreja”.

Textos para a Eucaristia (ano B): Jos 24, 1-2a.15-17.18b; Ef 5, 21-32; Jo 6, 60-69.