Mostrar mensagens com a etiqueta Lepra. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Lepra. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Levanta-te e segue o teu caminho; a tua fé te salvou

       Indo Jesus a caminho de Jerusalém, passava entre a Samaria e a Galileia. Ao entrar numa povoação, vieram ao seu encontro dez leprosos. Conservando-se a distância, disseram em alta voz: «Jesus, Mestre, tem compaixão de nós». Ao vê-los, Jesus disse-lhes: «Ide mostrar-vos aos sacerdotes». E sucedeu que no caminho ficaram limpos da lepra. Um deles, ao ver-se curado, voltou atrás, glorificando a Deus em alta voz, e prostrou-se de rosto por terra aos pés de Jesus para Lhe agradecer. Era um samaritano. Jesus, tomando a palavra, disse: «Não foram dez os que ficaram curados? Onde estão os outros nove? Não se encontrou quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro?». E disse ao homem: «Levanta-te e segue o teu caminho; a tua fé te salvou» (Lc 17, 11-19).
       Amiúde se verifica que Jesus interrompe o caminho para prestar atenção a quem Lhe suplica. Certamente que a fama de Jesus se tinha espalhado ao ponto de não passar despercebido nas diversas povoações, pessoas que chegavam e pessoas que partiam e que partilhavam informações sobre o que sucedia nas suas terras ou em outras povoações onde tinham passado.
       Se as pessoas se aproximam expondo-se e sujeitando-se à recriminação e até, neste caso, a serem apedrejadas, é porque as notícias que lhes tinham chegado sobre Jesus eram de esperança, sabendo que Ele não deixaria de ter uma palavra amiga ou um gesto curativo. É o que acontece com estes 10 leprosos.
       Sublinhe-se também a delicadeza de Jesus para com os sacerdotes do Templo, no respeito pela Lei de Moisés. Habitualmente os textos evangélicos mostram Jesus a contestar a Lei, ou melhor, as interpretações abusivas da Lei. Neste pormenor se vê como Jesus não põe em causa a Lei quando esta está ao serviço da pessoa.
       Outro aspeto bem vincado no Evangelho é a falta de gratidão. Jesus cura. Sem contrapartidas. Em todo o caso, o que se espera de quem é agraciado pelas bênçãos de Deus é que tenha uma atitude de louvor e de glória para com Deus... A verdadeira cura leva à mudança de vida...

sábado, 8 de outubro de 2016

XXVIII Domingo do Tempo Comum - ano C - 9/10/2016

       1 – O discípulo de Jesus sabe agradecer tudo quanto de bom lhe é dado da parte do Senhor. A gratidão, com efeito, é o caminho da humildade de quem se reconhece mendigo, pronto para aprender, para acolher o bem que vem dos outros, disponível para mudar o que é necessário para se tornar transparência e testemunha de Jesus Cristo.
       Só a humildade nos faz santos. A santidade constrói-se no serviço humilde e dedicado ao seu semelhante, sob a bênção e a proteção de Deus.
       O Evangelho faz-nos ver o caminho de Jesus. Está a caminhar para Jerusalém, onde dará a vida por amor, onde o amor O levará a gastar-Se por inteiro, até à última gota de sangue. A Cruz é expressão do máximo amor e da máxima entrega. Nada nos separa do amor de Deus, nem a espada, nem qualquer poder, nem a morte. Em Jesus Cristo, Deus desceu ao mais humano, ao mais frágil, ao mais vil, para nos elevar com o Seu filho, ressuscitando-nos.
       O caminho de Jesus não é linear, como não é linear a nossa vida. Altos e baixos. Alegrias e tristezas. Festa e luto. Júbilo e lágrimas. A linearidade da vida de Jesus é a entrega, a doação, o cumprimento da vontade do Pai, não Se desviando nem um milímetro deste propósito, mesmo quando a dor é mais profunda e mais aguda. Ao longo do Seu caminho terreno, em que Ele próprio Se faz Caminho para nós, Jesus não segue alheado de quem O rodeia, de quem Se aproxima, de quem pede ajuda, de quem nem sequer pede ajuda porque não tem forças ou porque tem vergonha. Pára. Volta atrás. Desvia-se no trajeto, do caminho para a periferia, para das margens para os recuperar para a vida, para o centro.

       2 – No Evangelho de hoje, 10 leprosos aproximam-se o suficiente para se fazerem ver e ouvir por Jesus. Daqui se infere que a fama de Jesus se espalhara. Os leprosos não se aproximam de um ídolo, de uma estrela, mas de Alguém cuja docilidade, delicadeza, proximidade atrai.
       A lepra é um estigma social. Os leprosos são mantidos à distância, isolados, deixados de fora, até que, por qualquer razão, fiquem bem. Aparte para sublinhar que naquele tempo todas as doentes de pele estão incluídas na lepra e qualquer mancha assusta e, por conseguinte, pelo sim pelo não, há que afastar as pessoas "contagiadas" para não contagiarem os outros.
       Jesus não só não Se afasta como Se aproxima. Veja-se a nuance dos ditos. Os leprosos disseram em alta voz – «Jesus, Mestre, tem compaixão de nós». Jesus simplesmente lhes diz: «Ide mostrar-vos aos sacerdotes». Jesus não precisa de levantar voz, está perto. Levantamos a voz quando estamos distantes, fisicamente, ou quando os nossos corações estão afastados.
       A ordem de Jesus implica os próprios. O milagre acontece quando se colocam a caminhar. O movimento faz-nos bem. Ensimesmados adoecemos, ficamos raquíticos. Já bem basta quem tem mobilidade reduzida. Mexamo-nos pela nossa saúde. Vamos ao encontro dos outros. Prefiro uma Igreja acidentada por sair, que uma Igreja doente, com mofo, estagnada por não sair. São palavras bem conhecidas do Papa Francisco.

       3 – Quando se põem a caminho, os 10 leprosos ficam curados. Como reagem? "Um deles, ao ver-se curado, voltou atrás, glorificando a Deus em alta voz, e prostrou-se de rosto em terra aos pés de Jesus, para Lhe agradecer. Era um samaritano".
       Samaritanos e judeus/galileus não se davam (três regiões distintas, a mesma origem religiosa). É, contudo, um samaritano que regressa, louva a Deus e agradece a Jesus. Talvez não considere que Jesus seja Deus, mas reconhece que Deus Se manifestou através de Jesus. O dom que recebeu leva-o à precedência, à origem da dádiva.
       A reação de Jesus é instintiva, imediata, espontânea: «Não foram dez os que ficaram curados? Onde estão os outros nove? Não se encontrou quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro?». E disse ao homem: «Levanta-te e segue o teu caminho; a tua fé te salvou».
       Quando Jesus intervém com a Sua palavra e ordenando que se ponham a caminho, sabendo o que vai acontecer não foi com o objetivo de ser reconhecido ou aclamado, mas até Deus espera uma resposta. O Seu amor é gratuito, sem reservas nem condições prévias. Mas como lembrava Bento XVI, Deus ao criar-nos por amor, voltando-Se para nós com o Seu olhar misericordioso, enviando mensageiros para nos falarem da fidelidade de Deus e do Seu amor por nós, ao dar-nos Jesus Cristo, espera uma resposta da nossa parte. Dá-nos a liberdade inteira de Lhe virarmos as costas, de O negarmos, de nos mantermos longe d'Ele, mas ao amar-nos, envolve-nos e desafia-nos a uma resposta (positiva).
       Por outro lado, uma das maiores injustiças é a ingratidão. Significa que a pessoa se apossou do dom recebido, é uma usurpação do benefício, um fechamento ao outro e a tudo o que o outro pode dar-nos, enriquecendo-nos. No caso, a ingratidão é para com Deus. É o pecado de Adão e Eva. O que foi dado a todos, como graça, como dom, é escondido, é remetido para o privado. A conversão passa pela gratidão. E também a salvação. Reconhecer-se a caminho. Acolher e agradecer as graças de Deus. Fazer com que o dom possa ser testemunhado, comunicado, partilhado com os outros, em comunidade.

       4 – Na primeira leitura encontramos uma situação similar, lembrando a habitual afinidade entre a primeira leitura e o Evangelho. O general sírio Naamã, obedecendo à ordem de Eliseu, mergulha por sete vezes no rio Jordão e fica curado. Ao ficar curado, volta junto de Eliseu para lhe agradecer. «Agora reconheço que em toda a terra não há outro Deus senão o de Israel. Peço-te que aceites um presente deste teu servo».
       Também Naamã é um homem estrangeiro. Não importa a origem ou o ponto de partida, importante mesmo é a postura que assumimos diante de Deus e dos outros. O Papa Francisco lembra-nos como as três palavrinhas podem modificar o nosso relacionamento em família e em sociedade: "desculpa", "com licença", "obrigado". A gratidão dispõe-nos para os outros.
       Da parte de Eliseu, a humildade, reconhecendo que é para Deus que deve ir o louvor e a gratidão: «Pela vida do Senhor que eu sirvo, nada aceitarei».
       Na continuação do texto vê-se que, apesar da recusa de Eliseu, o sírio Naamã tem um gesto de simpatia, doando uma porção de terra para a construção de um altar em honra do Deus de Israel, partilhando também alguns alimentos com Eliseu.

       5 – A oração de coleta, que nos dispõe à escuta da Palavra de Deus e à partilha do Pão da Eucaristia, interpela-nos a acolhermos a graça de Deus com o compromisso de a colocarmos em marcha, concretizando-a na nossa vida e na relação com os outros. "Nós Vos pedimos, Senhor, que a vossa graça preceda e acompanhe sempre as nossas ações e nos torne cada vez mais atentos à prática das boas obras".

       6 – Na segunda leitura continuamos a escutar as palavras de São Paulo a Timóteo, com as recomendações para que também ele seja imitador de Jesus Cristo.
       O Apóstolo relembra a salvação com que Cristo nos salvou, pela Sua entrega, Paixão e morte, pela Ressurreição com que nos uniu conSigo à eternidade de Deus. Paulo está preso mas isso não é motivo de desespero ou de desistência. Pelo contrário, é oportunidade de glorificar a Deus e testemunhar a sua fidelidade a Cristo, transparecendo-O também nessas circunstâncias.
       Como responder ao amor de Deus por nós, visualizável de forma sublime na morte e ressurreição de Jesus? Paulo aponta o caminho: "Se morremos com Cristo, também com Ele viveremos; se sofremos com Cristo, também com Ele reinaremos; se O negarmos, também Ele nos negará; se Lhe formos infiéis, Ele permanece fiel, porque não pode negar-Se a Si mesmo".
       Fidelidade. Testemunho. Transparência. D. António Couto, a abrir a Carta Pastoral para o novo ano pastoral 2016-2017, na Diocese de Lamego, insiste: "Todo o discípulo missionário, enquanto testemunha e anunciador do Evangelho, não pode ser um simples animador ou monitor, mas transparência ou testemunha fiel da presença viva e operante do próprio Senhor no meio da comunidade".

Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia (C): 2 Reis 5, 14-17; Sl 97 (98); 2 Tim 2, 8-13; Lc 17, 11-19.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Domingo VI do Tempo Comum - ano B - 15.fev.2015

       1 – «Se quiseres, podes curar-me». O primeiro passo para a cura é o desejo de ser curado. A doença é, certamente, uma experiência de fragilidade, de impotência e, muitas vezes, de desencanto. Na presença de pessoas doentes, vem ao de cima, muitas vezes, o protesto contra a vida e contra Deus. Nunca é fácil lidar com a doença dos nossos familiares e amigos e sobretudo quando é prolongada e já não existem possibilidades de cura. Havendo esperança de melhoras, de estabilização ou de cura, então é possível aceitar as dores, os incómodos, os tratamentos. Não havendo, tudo se torna mais difícil, para o próprio e para quem está à volta.
       Outra das consequências da doença, crónica ou prolongada, além do desgaste físico e emocional, é o isolamento e a solidão. Os amigos vão desaparecendo progressivamente. Por esquecimento. Por cansaço. Por não quererem ver ou já não terem paciência para escutar os lamentos. Ou simplesmente por medo, porque se reveem em situações semelhantes.
       Uma pessoa (e a sua família) surpreendida por uma doença incurável poderá sentir-se revoltada e transparecer azedume para com aqueles que estão mais próximos. À doença acrescenta-se a solidão. A pessoa doente não faz vida social, deixa de conviver, pela (in)disposição, ou, em alguns casos, porque a própria doença desaconselha os ajuntamentos. E a falta de vontade; não quer ouvir ninguém; não quer ouvir as mesmas perguntas de sempre nem os olhares compadecidos!
       2 – Imaginemos agora uma doença infectocontagiosa!
       A Bíblia preserva o medo de contágio e as prescrições para evitar qualquer tipo de contacto com um leproso, dando à lei um carácter divino. «Quando um homem tiver na sua pele algum tumor, impigem ou mancha esbranquiçada, que possa transformar-se em chaga de lepra, devem levá-lo ao sacerdote Aarão ou a algum dos sacerdotes, seus filhos. O leproso com a doença declarada usará vestuário andrajoso e o cabelo em desalinho, cobrirá o rosto até ao bigode e gritará: ‘Impuro, impuro!’. Todo o tempo que lhe durar a lepra, deve considerar-se impuro e, sendo impuro, deverá morar à parte, fora do acampamento».
       A lei defende os sãos, mas condena ao isolamento e à exclusão os leprosos.
       Há pouco mais de 50 anos, existiam leprosarias e aldeias isoladas e situações em que os animais tinham um melhor tratamento. Lembremos a parábola de Lázaro, contada por Jesus.
       A propósito seria interessante ler a biografia do Padre Damião, o Santo de Molokai, ou algum dos filmes que se fizeram sobre ele; o galardoado filme Ben-Hur (adaptação do livro com o mesmo nome), e que mostra o tratamento dado aos leprosos, votados ao completo esquecimento, ou o romance de Victoria Hislop, “A Ilha” (Spinalónga), recordando como os leprosos eram obrigados a viver em ilhas, isolados da civilização, com acessos difíceis.
       3 – Se um leproso vem ter com Jesus é porque já ouviu falar d'Ele, já alguém lhe anunciou Jesus. Novamente a dinâmica da evangelização e da intercessão. Sorrateiramente, este homem aproxima-se. Confia no que lhe disseram, mas também no que o seu íntimo lhe diz. Arrisca muito, arrisca tudo, sujeita-se a ser escorraçado, apedrejado e morto.
       «Se quiseres, podes curar-me». O leproso faz a sua profissão de fé de forma simples, humilde e direta. São Marcos deixa-nos ver de perto a postura de Jesus. Há oito dias, víamos que Ele pega na mão da sogra de Simão Pedro e levanta-a. Esta semana, a mesma delicadeza, proximidade, sem meias nem peias, simplesmente, compadecido, Jesus estende a mão, toca-lhe e diz: «Quero: fica limpo». E como no momento da criação, também aqui a palavra de Deus tem efeito: aquele homem fica limpo da lepra.
       Quantas pessoas precisam apenas de um toque, um aperto de mão, um abraço, uma afaço, um beijo, um sorriso, para se sentirem humanas e se sentirem salvas! Ao vermos fístulas numa pessoa, a nosso instinto é, quase sempre, de defesa, desviamos o olhar e mantemo-nos com uma distância de segurança. Jesus arrisca tudo, como aquele homem arriscou tudo.
       4 – Aquele que é abençoado por Deus, quem se encontrou com Jesus, transborda em testemunho a alegria e a bênção desse encontro. A sogra de Pedro, uma vez curada, levanta-se e serve-os, a Jesus e aos discípulos. Hoje, este homem que fica curado, e apesar da recomendação de Jesus – «Não digas nada a ninguém, mas vai mostrar-te ao sacerdote e oferece pela tua cura o que Moisés ordenou, para lhes servir de testemunho» – logo apregoa o que lhe aconteceu. E desta forma a fama de Jesus se espalha, com o risco de O procurarem para ver milagres (o espetáculo) e não para serem curados (conversão, fé, mudança de vida).

       5 – Jesus não se deixa amedrontar pela doença e muito menos por uma tradição que exclui pessoas. Para Jesus, doentes ou sãos, santos ou pecadores, homens ou mulheres, adultos ou crianças, todos são filhos de Deus. Prioridades? Os mais frágeis.
       A lepra foi um flagelo até há bem pouco tempo. Atualmente a cura é possível e está acessível. A vida do Pe. Damião de Malokai traz muitas histórias que falam de abandono, exclusão, famílias desfeitas, em que algum dos seus membros é forçado a embarcar para fora da pátria. Leprosarias, sanatórios, ilhas. Condições desumanas, degradantes.
       O proceder de Jesus não é fácil para nós, que nos queremos proteger. Por um lado, a vida merece que nós cuidemos dela. Por outro, na maioria das vezes as pessoas não têm culpa da doença, ou do flagelo. Bem basta a doença quanto mais a solidão. E um dia destes somos nós!
       Jesus atua de forma diferente. Aquele que se dispõe a dar a vida até à última gota de sangue não recua perante as dificuldades. Se Jesus agiu deste modo, os seus discípulos seguirão no Seu encalço, procedendo do mesmo modo. Como nos recorda São Paulo: "Quer comais, quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus. Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos, nem à Igreja de Deus. Fazei como eu, que em tudo procuro agradar a toda a gente, não buscando o próprio interesse, mas o de todos, para que possam salvar-se. Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo".

       6 – Se o apóstolo é um exemplo vivo para àquelas comunidades, hoje encontramos outros. Como víamos antes, Damião de Malokai, que vai viver no meio dos leprosos, leva o amor de Jesus Cristo, a fé, a Palavra de Deus e luta para que haja condições, como habitações condignas, escola, hospitais, medicamentos e assistência médica, cuidados de higiene, aliviando o sofrimento, devolvendo a dignidade humana, integrando, quanto possível, as pessoas com lepra, fazendo-as sentir-se úteis uns para os outros. Acabará por morrer de lepra, mas com a certeza de ter cumprido o mandato de Cristo. Foi beatificado por João Paulo II a 3 de junho de 1995 e canonizado por Bento XVI a 11 de outubro de 2009.
       E, como não falar da dedicação de Raoul Follereau a favor dos leprosos? E da Associação por ele criada – Amigos de Raoul Follereau – para sensibilizar e ajudar as vítimas desta doença?
       Em Portugal, o Padre Américo é expressão da entrega e dedicação de Jesus, junto dos mais pobres, de crianças abandonadas, meninos de rua, sem pai nem mãe nem casa. A Obra da Rua, ou do Gaiato, continua a acolher crianças carenciadas, a educá-las e a integrá-las na sociedade.
       Madre Teresa de Calcutá que dedicou grande parte da sua vida a cuidar dos mais pobres dos pobres, na Índia; recolhia as pessoas que encontrava na berma da estrada, abandonadas para morrer, algumas com doenças infeciosas, tratava delas como se estivesse a cuidar de Jesus. Foi beatificada por João Paulo II no dia 19 de outubro de 2003.
       E quantas pessoas encontramos nas nossas comunidades paroquiais que são autênticos anjos junto dos doentes, nas palavras que encontram para consolar, nos silêncios que respeitam a dor, na serenidade com que acariciam?!

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano B): Lev 13, 1-2. 44-46; Sl 31 (32); 1 Cor 10, 31– 11, 1; Mc 1, 40-45.

sábado, 12 de outubro de 2013

XXVIII Domingo do Tempo Comum - ano C - 13 de outubro

       1 – O amor exige amor. E o bem realizado provoca a gratidão. A gratidão só é possível partindo da humildade e do reconhecimento do bem que o outro nos faz. Quem agradece abre-se ao dom alheio, disponibiliza-se a valorizar o que recebeu, comunicando. Em muitas situações da vida, o melhor agradecimento está em usar bem o que se recebeu.
       Amar implica relação, coração que se debruça sobre alguém. Tem implícita uma resposta positiva. O Papa Bento XVI, servindo-se de conceitos gregos, apresenta o amor nos seus diversos graus. Agape, é o amor oblativo, o nível superior, que procura o bem do outro, sem esperar nada em troca. Neste sentido, o amor de Deus é sobretudo agape (caritas = caridade). Deus dá-Se totalmente ao ser humano. Noutro polo está o eros, “o amor de quem deseja possuir aquilo que lhe falta, ansiando pela união do amado”. Haverá alguma coisa que o homem é e tem e que Deus não possua já?
       Porém, sublinha Bento XVI, “o amor de Deus também é eros... o Omnipotente espera o «sim» das suas criaturas, tal como um jovem esposo espera o sim da sua esposa… Na Cruz o próprio Deus mendiga o amor da sua criatura: Ele tem sede do amor de cada um de nós… A resposta que o Senhor deseja ardentemente de nós é, antes de mais, que acolhamos o seu amor e nos deixemos atrair por Ele. Aceitar o seu amor não basta. Devemos corresponder a esse amor e, depois, empenharmo-nos em comunicá-lo aos outros”.
       2 – Jesus passa entre a Samaria e a Galileia, a caminho de Jerusalém e encontra 10 leprosos. Está em movimento, a caminhar. Vem ao nosso encontro, ao nosso caminho. Cabe-nos acolher a Sua presença: «Jesus, Mestre, tem compaixão de nós». As condições colocadas por Jesus para a cura estão ao nosso alcance, que no caso dos 10 leprosos, é mostrarem-se ao sacerdote. Pelo caminho ficam curados. A cura coloca-nos a caminhar, e no caminhar, no sair de si, está a cura para muitos dos nossos males físicos e espirituais.
       A narração continua e mostra a atitude de um dos leprosos que, vendo-se curado, glorifica a Deus em alta voz e se prostra aos pés de Jesus para Lhe agradecer. Era um estrangeiro, um samaritano, inimigo dos judeus, impuro como leproso e impuro por ser samaritano. Ainda assim, só ele glorifica a Deus e agradece a Jesus.
       Rapidamente o desabafo de Jesus: «Não foram dez os que ficaram curados? Onde estão os outros nove? Não se encontrou quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro?» Jesus, quando os curou não lhes perguntou pela origem, pela classe social, pela religião, pelas suas histórias passadas. Simplesmente, curou-os. Atendeu aos seus pedidos. Também aqui Jesus dá a Sua vida, dá a Sua graça. Cura. Sem esperar receber nada em troca. É o amor-agape. Brota da Sua benevolência, da Sua compaixão, de um coração que transborda de Amor. Seguindo a reflexão de Bento XVI, seria expectável o agradecimento, manifestação do eros. Uma resposta. Um obrigado. Uma palavra. Um gesto. O amor gera amor.
       Além disso, é um agradecimento mediado, a Jesus, mas pelo DOM de Deus. Não basta, responder ao amor com amor, é necessário comunicá-lo, testemunhá-lo aos outros e daí o envio: «Levanta-te e segue o teu caminho; a tua fé te salvou». Levantar-se. Pôr-se a caminho. De novo. Sempre. A fé como ponto de partida, como condição para nos fazermos caminho.
       3 – A primeira leitura traz-nos uma situação semelhante. Um estrangeiro que vem reconhecer o “poder” do Deus de Israel, através dos seus profetas. Eliseu manda que o sírio Naamã se lave por sete vezes no rio do Jordão. Para sermos curados precisamos de nos reconhecer doentes e de fazermos o que nos compete, seguindo as recomendações do médico. Se ele nos dá uma receita e nós seguimos a nossa, de que adianta ter ido à consulta? (Ainda que na reação a medicamentos e dietas a opinião da pessoa doente seja essencial).
       Após a cura, o reconhecimento: «Agora reconheço que em toda a terra não há outro Deus senão o de Israel». E a gratidão «Peço-te que aceites um presente deste teu servo». O profeta sabe e sente que o que fez não é da sua lavra mas resulta do poder e da intervenção de Deus. Para Eliseu, a sua missão é sobretudo mediação dos dons que Deus lhe concedeu. O agradecimento há de ser dirigido a Deus. Assim o faz compreender a Naamã.
       Note-se, também aqui, que a bênção de Deus, há de dar lugar à mudança de vida, à conversão. Curado, doravante o sírio Naamã só a Deus prestará culto.
       Numa palavra, a iniciativa do amor de Deus que nos precede, há de levar-nos à identificação deste amor, acolhendo-o, vivendo-o, comunicando-o. Diz Paulo a Timóteo: «É digna de fé esta palavra: Se morremos com Cristo, também com Ele viveremos; se sofremos com Cristo, também com Ele reinaremos; se O negarmos, também Ele nos negará; se Lhe formos infiéis, Ele permanece fiel, porque não pode negar-Se a Si mesmo».

       4 – Hoje, 13 de outubro, no Vaticano, diante da imagem da Capelinha das Aparições de Nossa Senhora de Fátima, o Papa Francisco consagrará de novo o mundo à Virgem Maria, Mãe de Deus e Mãe da Igreja, Mãe nossa. Olhando para Maria, primeira discípula de Cristo, a obra que Nela se opera, pelo Espírito Santo, dá lugar ao louvor e à caridade. Ao amor de Deus, Maria responde com o SIM e com o serviço. Corre apressadamente para a montanha, para ajudar a sua prima Isabel. Diante de Isabel, o hino de louvor e de gratidão, o Magnificat. “A minha alma glorifica o Senhor porque olhou para a sua humilde serva…”

       5 – Cientes da palavra de Deus que hoje toca o nosso coração, que propósitos para renovar aspetos da nossa vida? Agradeço o que sou, o que tenho, a minha família? Agradeço o sol ou a chuva de cada manhã? Louvo a Deus por tudo o que de bom me rodeia? Reconheço os dons que Deus dá aos outros, as suas qualidades? E de que forma eu agradeço pelos dons que Ele me dá? Ponho-os a render? Guardo-os para mim?
       Não tenhamos medo de usar muitas vezes o “obrigado”. Agradeçamos a quem nos faz a refeição. Elogiemos este ou aquele prato confecionado. Obrigado a alguém que nos deu a passagem, nos emprestou um lápis, agradeçamos a Deus por cada sorriso que nos predispõe para o bem. Agradeça. Louve. Hoje. Faça um elogio a cada pessoa da sua família. Há sempre oportunidades. Pelo cabelo, pela roupa, pela refeição, pela expressividade do rosto, pelo olhar, pelo sorriso. Um elogio. Um obrigado. Muda o seu olhar. Muda a atitude de quem escuta. Faça o domingo acontecer. Hoje.

Textos para a Eucaristia (ano C): 2 Reis 5, 14-17; 2 Tim 2, 8-13; Lc 17, 11-19.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

VI Domingo do Tempo Comum (ano B) - 12 de fevereiro

       1 – "Jesus ficava fora, em lugares desertos, e vinham ter com Ele de toda a parte". Este é um elemento comum ao evangelho do domingo passado – "Todos Te procuram... Vamos a outros lugares". A fama de Jesus espalha-se, onde quer que vá há alguém que já se cruzou com Ele, já O ouviu, já viu o Seu rosto, já alguém falou d'Ele. Depois da cura de um homem leproso, mais se divulga o Seu nome. Jesus dissera ao leproso para não dizer a ninguém, talvez com a preocupação de que as pessoas não se deixassem fascinar pelos milagres, mas procurassem acolher a Palavra de Deus. "Porém, logo que partiu, começou a apregoar e a divulgar o que acontecera".
       O encontro de Jesus com as pessoas faz-se nos dois sentidos. Jesus que parte, deslocando-se por aldeias, vilas e cidades. Pessoas que se informam do local em que Ele se encontra e vão ter com Ele, de toda a parte, para O escutarem e se deixarem tocar pelas suas palavras, uns em busca de paz ou de um sentido mais definitivo para a vida, outros para serem curados, uns por curiosidade, outros puxados pelos seus pares, deixam-se levar, outros ainda para assistirem às discussões com doutores da lei e fariseus.
       Mas o que se destaca hoje no evangelho é a cura de um leproso.
       Também ele tinha ouvido falar de Jesus, veio ao seu encontro, "prostrou-se de joelhos e suplicou-Lhe: «Se quiseres, podes curar-me». Jesus, compadecido, estendeu a mão, tocou-lhe e disse: «Quero: fica limpo». No mesmo instante o deixou a lepra e ele ficou limpo".
       Curiosa a forma usada por este homem: se quiseres, podes curar-me... não depende (primeiramente) da minha força, da qualidade da minha pessoa, não depende do bem ou do mal que tenha feito na minha vida, depende de Ti, Senhor.
       Só a fé nos coloca frente a frente com Jesus, com o Altíssimo, só a fé alimenta o nosso coração e nos coloca diante do mistério insondável da vida. As palavras do leproso refletem a fé de Maria: faça-se em mim segundo a Tua palavra… Fazei o que Ele vos disser... Ou na consciência de Jesus: o meu alimento é fazer a vontade de meu Pai que está nos céus. Faça-se... E aconteceu. Jesus curou-o. A fé é o ponto de partida, o ponto de encontro com Jesus. Mas tudo se concentra na iniciativa divina, na primazia do Seu sim a favor da humanidade.


       2 – A maior das leis é a caridade, expressão e concretização do Amor de Deus. Não há leis humanas, mesmo que revestidas como leis divinas, que esqueçam, contornem, anulem ou impeçam a vivência da caridade. Certamente que todos já nos deparámos com leis que se tornam injustas, sobretudo na sua aplicação concreta. Nem todas as pessoas são iguais, nem todos têm as mesmas necessidades. A igualdade há de existir na dignidade, no respeito pela identidade de cada um, no acolhimento das especificidades da pessoa e da cultura em que nasce e se desenvolve. No entanto, por que cada um de nós tem uma idiossincrasia, o "fato" pode não servir a todos.
       Por outro lado, há claramente leis que são fruto da cultura, da situação histórico-geográfica, elaboradas naquele tempo, para aquelas pessoas, procurando defender a maioria, mesmo que depois fiquem algumas esquecidas, abandonadas à sua sorte, desprotegidas ou até esmagadas pelas leis.
       É o caso da lepra, ou melhor, dos leprosos. Perante a ameaça de propagação, surge uma lei que se converte em lei religiosa, obtendo uma força extraordinária e para mais com a autoria atribuída ao grande líder de Israel, Moisés. Em nome de Deus, inspirado por Ele, dita a lei a Aarão, o sacerdote: "O leproso com a doença declarada usará vestuário andrajoso e o cabelo em desalinho, cobrirá o rosto até ao bigode e gritará: ‘Impuro, impuro!’ Todo o tempo que lhe durar a lepra, deve considerar-se impuro e, sendo impuro, deverá morar à parte, fora do acampamento".
       É esta lei que Jesus ultrapassa pela proximidade com todo o tipo de pessoas: doentes, andrajosos, sãos, cultos, pecadores e publicanos, mulheres e crianças, pessoas com estatuto social, religioso e político, ou sem qualquer estatuto, estrangeiros e os que estão em nome da potência invasora. Para Jesus todos são igualmente filhos, imagem e semelhança de Deus, todos merecem atenção, disponibilidade, ainda que seja para os doentes, para os pecadores, para os excluídos, que Jesus oriente a Sua máxima atenção. Não são os sãos que precisam de médico. Não para excluir uns em função dos outros. Alguns sistemas recentes procuraram substituir umas classes por outras inferiores, elevando estas e inferiorizando aquelas. Em Jesus a preocupação é a inclusão de todos, por isso tem que ir ao encontro dos excluídos da sociedade e da religião, ou deixar-se encontrar por eles.
       O homem curado de Jesus é integrado na sociedade. Jesus cura-lhe a doença, mas sobretudo introdu-lo na convivência social e religiosa, devolve-se a saúde, mas sobretudo a dignidade, a alma, a vontade de viver. Ele também é filho, também é irmão, também é rosto de Deus. Ninguém é feliz sozinho, isolado.

       3 – "Meu Pai trabalha incessantemente e Eu também trabalho em todo o tempo" (Jo 5, 17-30), dirá um dia Jesus aos judeus, deixando claro que não há leis que possam impedir o serviço da caridade, nem sequer a lei do Sábado, o dia do descanso para os judeus. Moisés prepara o povo para viver em clima de paz, de harmonia, de honestidade. Muitas vezes, contudo, justificam-se outros abusos com a lei mosaica. Jesus não se impressiona com o recurso a Moisés, garantido que a preocupação é a mesma, viver na obediência a Deus.
       Importa, uma vez mais, escutar as palavras do Apóstolo São Paulo: "Quer comais, quer bebais, ou façais qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus. Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos, nem à Igreja de Deus. Fazei como eu, que em tudo procuro agradar a toda a gente, não buscando o próprio interesse, mas o de todos, para que possam salvar-se. Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo".
       A preocupação do cristão não é servir-se, ou usar os outros ou a própria lei em benefício próprio, mas ser instrumento de felicidade para os outros, sabendo que dessa forma se sentirá (re)compensado. Nesta epístola faz-se uma clara defesa do bem comum e também aqui uma provocação para este tempo e para a cultura ocidental, em que muitos se serviram, esqueceram-se dos outros, serviram-se das pessoas e das estruturas. Só que na volta advieram consequências desastrosas e destrutivas. Quando se sobrevaloriza o egoísmo - viver para si - advém a destruição do tecido social, cultural e religioso. Uma sociedade só vive se fizer da solidariedade e da partilha o seu lugar de encontro. Jesus, na Cruz, dá o maior dos testemunhos, não Se salva, não salva a Sua pele. Entrega-Se pelos outros, por todos.

       4 – Trabalhemos incansavelmente pelo reino de Deus e sua justiça. Quer comamos quer durmamos, façamos tudo em nome de Jesus. Tudo para glória de Deus. Todo o bem que fizermos ao nosso semelhante será para glória de Deus. A glória de Deus, como lembrava Santo Ireneu, é o homem vivente, o homem vivo, ou seja, a pessoa com qualidade de vida, a vida em abundância que nos é dada em Jesus Cristo.
       Entreguemo-nos à prática do bem e ao louvor de Deus. Ou, louvemos a Deus também pelas boas obras que realizamos. Isso nos será tido em conta. Não cessemos de confiar no Senhor, como nos ensina o salmista: "Vós sois o meu refúgio, defendei-me dos perigos, fazei que à minha volta só haja hinos de vitória. Alegrai-vos, justos, e regozijai-vos no Senhor, exultai, vós todos os que sois retos de coração". Será esta confiança, como a fé e a abertura do homem com lepra, que nos permitirá acolher a Deus e a todos aqueles e aquelas que Deus colocou na minha, na tua, na nossa vida.

Textos para a Eucaristia (ano B): Lev 13,1-2.44-46; Sl 31 (32); 1 Cor 10,31-11,1; Mc 1,40-45.

sábado, 9 de outubro de 2010

XXVIII Domingo Tempo Comum - 10/outubro

       1 – Uma característica fundamental para se ser feliz é a humildade. Do mesmo modo para se ser santo. Santidade e felicidade, para o cristão, são termos equivalentes. A humildade coloca-nos em comunhão com os outros e em comunhão com o Totalmente Outro (ou melhor, o Totalmente Próximo). Leva-nos a reconhecer a nossa indigência, as nossas limitações, a nossa finitude, não como fatalidade, mas como abertura solidária e aceitação do outro e da sua ajuda.
       A soberba e a arrogância, expressões da auto-suficiência, encerram a pessoa em si mesmo. Com efeito, aquele que se considera independente em relação a tudo e a todos, assume não precisar de ninguém. Fecha o coração ao Outro (como próximo e como Deus). Não precisa de salvação. Fecha-se a novas descobertas, a novos encontros, ao conhecimento que vem dos outros e do mundo, fecha-se à esperança e ao futuro.
       O Mestre dos Mestres, Jesus Cristo, mostra-nos que a humildade nada nos tira, mas pode dar-nos o essencial, a própria vida em abundância que Ele nos traz, o próprio Deus.
       2 – Na liturgia da palavra deste domingo, salienta-se a humildade para acolher a salvação, ainda que esta possa vir de fora, doutra religião e de outra nacionalidade, e sobretudo do Alto, e para agradecer o DOM recebido.
       Na primeira leitura, é-nos apresentada a última parte de um episódio que exige a humildade para se dar a cura/salvação. Um general sírio, chamado Naamã, ouve falar de Deus que Se revela a Israel, e do Seu poder. Estando leproso, depois de recorrer a vários meios, resolve tentar a religião judaica e o profeta Eliseu. Este manda-o lavar-se sete vezes no rio Jordão. Num primeiro momento vem o orgulho e a soberba. O general recusa-se, dizendo que no seu país também existem rios. Esperava uma intervenção imediata e milagrosa de Deus. Eliseu exige-lhe um gesto simples mas que implica a renúncia ao preconceito e à presunção. O próprio servo do general lhe lembra que não é nada de especial, não é nada que não se possa fazer facilmente. E então "o general sírio Naamã desceu ao Jordão e aí mergulhou sete vezes, como lhe mandara Eliseu, o homem de Deus".
       No Evangelho, 10 leprosos vão até Jesus. Desde logo, a humildade para reconhecer a necessidade de cura. Jesus manda-os mostrar-se ao sacerdote. Algo de muito simples. A salvação de Deus é DOM que nos envolve, exige um movimento de aceitação da nossa parte.

       3 – Mas a humildade também nos leva à gratidão, que por sua vez nos abre novas janelas para o futuro. O general Naamã volta para agradecer a Eliseu. Este cumpriu como intermediário da graça de Deus e, por conseguinte, a gratidão deve orientar-se para Deus. Também os dons que Deus nos dá são para colocarmos ao serviço uns dos outros.
       No Evangelho, dos 10 leprosos, só um volta para agradecer a Jesus, glorificando a Deus: "um deles, ao ver-se curado, voltou atrás, glorificando a Deus em alta voz, e prostrou-se de rosto por terra aos pés de Jesus para Lhe agradecer. Era um samaritano. Jesus, tomando a palavra, disse: «Não foram dez que ficaram curados? Onde estão os outros nove? Não se encontrou quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro?»"
       Quantas vezes, bafejados pela vida, não nos damos conta dos bens que recebemos de Deus, na nossa família, dos que nos são próximos!

       4 – A Epístola de São Paulo a Timóteo, ainda que de forma diversa, também nos fala da humildade do testemunho: recebemos de Deus, para darmos do que recebemos. "Se morremos com Cristo, também com Ele viveremos; se sofremos com Cristo, também com Ele reinaremos; se O negarmos, também Ele nos negará; se Lhe formos infiéis, Ele permanece fiel, porque não pode negar-Se a Si mesmo".
       O testemunho é essencial no cristão: aquele que se sabe salvo por Deus, em Jesus Cristo, e que deixa transparecer a alegria, nas palavras e nas obras, para todo o mundo. A LUZ de Deus que irradia em nós torna-nos luminosos. Não opacos. É uma luz que incendeia o nosso coração, que queima, que transforma, que ilumina, e que não podemos encerrar em nós.
______________________
Textos para a Eucaristia (ano C): 2 Reis 5,14-17; 2 Tim 2,8-13; Lc 17,11-19

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A ILHA (de Spinalónga)

       "Finalmente - uma leitura de verão com alma" (The Observer, na capa).
       Recomendar uma leitura, que se fez, é reconhecer nela uma mensagem importante, um texto envolvente, um desafio para melhorar a vida, as concepções, as ideias sobre os outros e sobre o mundo, a aprofundar o conhecimento da natureza humana, a assumir uma maior tolerância para com os erros dos outros e uma maior humildade nas nossas imperfeições. Este livro tem tudo isso.
       É um romance que se lê de uma assentada, cujo pano de fundo é, em primeira instância, a LEPRA, num tempo em que era um estigma social, separando famílias, afastando os amigos, exilando os leprosos. Lembra a autora a referência bíblica aos leprosos, com vestuário andrajoso, e gritando, na proximidade de alguém, que tinha lepra, para as pessoas se isolarem.
       Este romance centra-se numa família à descoberta da sua identidade, em que familiares foram atingidos por este flegelo, e numa ilha, em que pessoas se esforçam por viver com dignidade apesar de terem sido ostracizadas da sociedade e colocadas numa ilha, para que não pudessem contaminar os outros.
       Mas mesmo no meio da tragédia, a vida continua, e a dedicação, competência, a generosidade de muitos alivia o fardo dos outros.
       Em Spinalónga, fazem-se sentir as dificuldades da Segunda Guerra Mundial, abrindo-se depois à esperança da cura, que a guerra entretanto interrompera. Hoje bastam € 25,00 para tratar uma pessoa com lepra...
       No meio de tanta adversidade é possível ser feliz, é possível ser bom. Mas também a possibilidade da maldade, da indiferença, do medo, da fuga, da maledicência.
       É uma leitura extraordinariamente rica:
  • Victoria Hislop, A Ilha, Civilização Editora, Porto: 2009.
       Não deixe também, se possível de efetuar outra leitura sobre este tema, que recomendamos também aqui, Padre Damião, um coração de ouro.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Padre Damião, o Santo de Malokai

       1 – Nasce a 3 de janeiro de 1840, em Tremeloo, na Bélgica, e os pais colocam-lhe o nome de José de Veuster. É o sétimo de oito filhos, de uma família de camponeses, pequenos proprietários, dedicando-se à agricultura e à pecuária. É uma família profundamente católica. Duas irmãs de Damião tornam-se religiosas e o irmão mais velho, Pânfilo, sacerdote dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria (ss.cc.). 
       José segue, na vocação, o irmãos mais velho. Torna-se irmão dos ss.cc., com 18 anos, depois de uma luta acérrima com o latim e com o francês.
       O seu desejo é imitar São Francisco Xavier e tornar-se missionário em terras distantes. A ocasião surge quando o irmão, que ia para o Pacífico Sul, adoece. Imediatamente Damião se oferece para o substituir. Começa a sua saga de missionário.



       2 – A Congregação para a Propagação da Fé encarregou os missionários do ss.cc.; padres e irmãos, das Ilhas Sandwich, conjunto de ilhas que formam o arquipélago do Hawai. A primeira tarefa de Damião, o nome escolhido desde o noviciado, em 2 de fevereiro de 1859, foi aprender a língua kanaca e adaptar-se ao clima e aos costumes. Tarefa fácil para o entusiasmo do jovem missionário.
       Chega a Honolulu a 9 de novembro de 1863. No dia 21 de maio, do ano seguinte, 1864, é ordenado sacerdote e, em 24 de julho, segue para a Missão de Puna.

       3 – Junto dos canacas, os naturais destas ilhas, apresentou-se como o enviado de Jesus, Nosso Senhor, crucificado há muitas luas para salvar todos os homens. Substitui o padre Eustáquio.
       Encontra cerca de 10 católicos. A maioria são adoradores da Pele, deusa dos vulcões, e Maui, deus do fogo. Colhe as informações devidas, na aldeia de Kanopupu. Come e descansa na casa do catequista da aldeia, Oahu. No dia seguinte, coloca quatro estacas, onde edificará uma igreja. Por cima das estacas uma tábua que servirá de altar. Celebra missa para a meia dúzia de católicos.
       Vê entre os arbustos o primeiro leproso. Não descansa enquanto não o encontra, apesar dos conselhos em contrário. Passa a ser uma visita assídua na sua palhota, até que o leproso morre.
       Visita as várias paróquias, fala com os católicos, vê muitos protestantes aproximarem-se do catolicismo, batiza os catecúmenos, deixa catequistas, constrói igrejas, luta silenciosamente com o poder dos feiticeiros que o consideram inimigo.

       4 – É padre, carpinteiro, médico, enfermeiro, arquiteto. Faz o que é preciso. Em Kanopupu surge uma segunda pessoa com lepra. Uma bailarina. O marido escolhe expulsá-la, para não se contaminar e não contaminar os filhos. Damião faz tudo para a encontrar e socorrê-la. Em vão. Ou toda a família abandonava a aldeia, ou a que estivesse com sinais de lepra era expulsa.
       Posteriormente surge o degredo na ilha de Malokai.
       Entretanto troca com o padre Clemente. Deixa o distrito de Puna e vai tomar conta do distrito Kohala, fixando residência em Mahukona, onde o padre Eustáquio deixara uma bela igreja e uma comunidade afável e recetiva. Vai ter tempo para construir mais igrejas, em outras comunidades e de novo se deparar com o flagelo da lepra. Na casa paroquial tem dois retratos: São Francisco Xavier e Santo Cura d’Ars.

       5 – O bispo Monsenhor Maigret, Vigário do Pacífico, manifesta uma enorme vontade de enviar um missionário para Malokai, a ilha para onde são deportados todos os leprosos, arrancados às famílias. O Padre Damião oferece-se como voluntário. Em 1873 chega a Kalawao, aldeia de Malokai. E aí permanece 12 anos, morrendo com 49 anos de idade, leproso, em sofrimento, no dia 15 de abril de 1889.
       Em 3 de junho de 1995, é beatificado por João Paulo II e considerado Servo da Humanidade e, no dia 11 de outubro de 2009, é canonizado por Bento XVI.

Extraído do Boletim Voz Jovem, Outubro 2009
O boletim sairá em formato de papel, mas pode ser lido em: 
Formato PDF

sábado, 24 de outubro de 2009

Padre DAMIÃO, um coração de ouro


No dia 11 de Outubro de 2009, o santo Padre, Bento XVI, canonizou o Padre Damião, o Apóstolo dos Leprosos. Fica aqui uma leitura interessante, expressiva, que abarca a vida de José de Veuster, belga, sétimo de oito filhos. A sua vocação missionária. A sua missão no distritto de Puna, nas ilhas Sandwich, Havai, e depois no distrito de Kohala e, a partir de 1873 em Kalawao, aldeia de Malokai, ilha para onde eram desterrados os leprosos. Vai com saúde e cheio de vontade em ajudar os leprosos. Morrerá em 15 de Abril de 1889, leproso, em sofrimento.


Pelo meio fica a sua enorme dedicação às paróquias que lhe foram confiadas, em Puna, em Kohala e em Molokai, a edificação de igrejas, de orfanatos. Com ele, o testemunho do Padre Modesto, sempre atencioso e pronto a enviar ferramentas, madeira, cimento..., Monsenhor Maigret, Bispo do Pacífico, sempre tão delicado e preocupado com os leprosos, filhos de Deus, e, por fim, o Ir. José, o Ir. Jaime, e Pe. Conrardy, que nunca deixaram de estar por perto, especialmente na agonia que se aproximava, trabalhando, comendo e rezando juntos, e também o padre Wendelino.
Veja ainda como alguns dos inimigos, por inveja e ciúme, acabaram por perceber a generosidade genuína de Damião. Muitos Calvinistas, cristãos protestantes, também se converteram ao catolicismo.

PIERRE CRODYS, Padre Damião. Um Coração de Ouro. Paulinas: Junho 2009.

domingo, 11 de outubro de 2009

São Damião, Apóstolo dos leprosos e da caridade

O papa Bento XVI canonizou 5 novos santos, entre os quais o Padre Damião de Veuster.

Nasceu na Bélgica em 3 de Janeiro de 1840, em Tremeloo, é o sétimo de oito filhos e o nome de batismo é José de Veuster. Em 1860, a 7 de Outubro, faz os seus votos perpétuos.
A 9 de Novembro de 1863, chega a Honolu, nas ilhas do Havai.
A 21 de Maio de 1864, é ordenado sacerdote.
Em 1873 chega a Kalawao, aldeia da ilha de Molokai.
Em 1877, os primeiros sintomas de lepra.
Em 1884, suspeitas que está contaminado.
Em 1885, é aconselhado a regressar à Europa a fim de ser tratado.
Em  15 de Abril de 1889, morre de lepra, mas feliz por ter servido junto dos leprosos.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Dar banho a um leproso

Um jornalista, entrevistando Madre Teresa, disse:
- Nem por um milhão de dólares eu daria banho a um leproso.
Ao que a Madre Teresa respondeu:
- O senhor não daria banho a um leproso nem por um milhão de dólares? Eu também não. Só por amor se pode dar banho a um leproso.

In Alicerces. A Civilização do amor. EMRC. Ensino Secundário.