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sábado, 20 de maio de 2017

Domingo VI da Páscoa - ano A - 21 de maio de 2017

– Dizes que gostas de mim e fazes o que eu te digo?
– Sim, mas eu procuro escutar-te com atenção e fazer tudo o que me pedes, mas por vezes dá-me a preguiça, outras vezes esqueço-me, outras vezes procuro fazer o que acho que te vai fazer feliz.
– Mas se realmente me amas, faz o que te peço! Não peço mais nada. Agora, dizes que és meu amigo, mas parece que fazes as coisas para me arreliar, fazes o contrário do que te peço para fazer.
– Olha que não. Quando isso acontece não é por mal. Eu gosto muito de ti. Tu és a minha vida, a minha a alegria, o brilho dos meus olhos, o palpitar do meu coração. Deves compreender, nem sempre é fácil fazer o que me pedes. Como te disse umas vezes por preguiça outras por esquecimento e outras porque nem sei se o que me pedes é o queres mesmo!
– Caramba. Não é preciso explicar tim-tim por tim-tim. Há tanto tempo que me conheces como podes desconhecer o que eu quero? Nem preciso de to explicar, basta que prestes atenção. É o mínimo que te posso pedir...

       1 – «Se Me amardes, guardareis os meus mandamentos... . Se alguém aceita os meus mandamentos e os cumpre, esse realmente Me ama. E quem Me ama será amado por meu Pai e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele».
       Jesus vai partir. Antes da partida, o Seu testamento. Amar, servir, dar a vida, permanecer. Ele não nos deixará órfãos. Permanecerá connosco, se permanecermos n'Ele. Vai partir, vai ser morto, mas ao terceiro dia ressuscitará. Irá para a Casa do Pai, para onde nos levará também. Vai preparar-nos um lugar, pois na Casa do Pai há muitas moradas. Precede-nos no tempo, preceder-nos-á na eternidade. Mas enquanto não vamos para a casa paterna, enquanto caminhamos como peregrinos, como discípulos missionários, temos em nós o Espírito Santo Paráclito que o Pai nos envia em nome de Jesus. Ele estará connosco até ao fim dos tempos.
       O que há de mais importante na vida não se vê. A inteligência, os afetos, o amor, o que nos liga aos outros. É algo de intangível. Sabemos que amamos e somos amados, mas não vemos e, na maioria das vezes, não conseguimos explicar porquê, por que amamos esta pessoa e odiamos aqueloutra, por que alguém nos ama e aqueloutra nos odeia.
       O Espírito que o Pai nos dá, através de Jesus Cristo, é Espírito de verdade. O mundo não O conhece, nem O vê. Mas nós, discípulos do Senhor, já O conhecemos. Como? Porquê? Porque Ele nos habita. Voltamos à dinâmica do amor: podemos não saber explicar, mas sabemos que esta pessoa nos ama, sabemos que amamos aquela pessoa!
       Por outro lado, a separação física de alguém não implica de todo o fim da ligação! Também o sabemos por experiência. Quando alguém se ausenta para trabalhar, quando os filhos vão para a universidade, quando o pai vai para o outro lado do mundo, a ligação acentua-se e a necessidade de comunicar é mais premente, utilizando-se hoje as redes sociais que permitem um contacto diário, pela voz e pela imagem. Jesus não Se serve das tecnologias de comunicação, mas do Espírito Santo. Jesus permanecerá e ve-l'O-emos, porque Ele vive, pois estando no Pai está com todo aquele que O acolher, pelo Espírito Santo.

       2 – A pessoa não é divisível. É corpo, alma e espírito. Dizemos que a pessoa é mais do que aquilo que come ou que veste, é mais do que aquilo que diz ou que faz. Por certo. Mas o que veste e sobretudo o que diz e o que faz revelam o seu carácter e, por maioria de razão, se o que diz e o que faz são uma constante. Claro que não podemos julgar a pessoa por uma palavra ou por um gesto, pois a pessoa está (sempre) a crescer, a amadurecer, a progredir, a peregrinar. Vai limando as imperfeições, procurando superar as limitações, com a consciência que pode falhar, mas com a coragem de prosseguir, porque só dessa forma realiza a vida.
       A consistência da vida Jesus visualiza-se e concretiza-se no Seu dizer e no Seu fazer. O que diz e o que faz revelam-n'O como pessoa dócil e bondosa, preocupada com todos, empenhada em curar os que andam abatidos pelo cansaço, pela doença e pelo pecado. Há, como víamos na semana passada, continuidade entre o Filho e o Pai. Jesus, em tudo e em todos os momentos, procura transparecer, mostrar e realizar a vontade do Pai. Os discípulos devem agir da mesma forma. A ligação é possível pelo cumprimento dos mandamentos, pela vivência das obras da misericórdia. Se fizerdes o que vos mando, permanecereis em Mim e Eu em vós, como Eu permaneço no Pai e o Pai em Mim. É também esse o melhor testemunho. As palavras que proferimos, as obras que realizamos, confirmam se amamos ou não amamos Jesus. Ainda que falhemos. Não podemos, contudo, dizer que amamos e nem nos preocupamos em sintonizar com a Sua santíssima vontade.

       3 – Jesus morreu e ressuscitou. Ele vive e está no meio de nós, está connosco. Continua a agir na história, de um modo novo, através do Espírito Santo e com a nossa cooperação. Os discípulos completam a sua identidade ao tornarem-se também missionários, transparecendo a presença de Jesus.
       A primeira leitura, dos Atos dos Apóstolos, continua a mostrar-nos como os discípulos da primeira hora e as primeiras comunidades acolhem e vivem Jesus e como O dão aos outros. Filipe, um dos Doze, em terras da Samaria, prega a Palavra de Deus e realiza prodígios em nome de Jesus Cristo. «De muitos possessos saíam espíritos impuros, soltando enormes gritos, e numerosos paralíticos e coxos foram curados. E houve muita alegria naquela cidade». As palavras de Filipe são sancionadas pelos milagres que Deus continua a operar através dele, como Jesus lhes tinha prometido, «fareis obras maiores do que estas».

       4 – Nem o Evangelho nem a Fé são de uso privado, como se cada um a seu gosto fizesse o que lhe dá na real gana, isso não é fé, é fanatismo, mesmo que com muita tolerância. A Fé não é minha, não é tua, não é nossa, é dom de Deus que nos desafia, nos envia, nos congrega. A fé faz-nos pertença. É como o amor, não amamos para nos isolarmos e escondermos, amamos para nos darmos. Ou, dito de outra forma, o amor impele-nos para aqueles que amamos. A fé no Pai compromete-nos com os irmãos, com todos os Seus filhos. Pedro e João são enviados pela comunidade de Jerusalém para confirmarem na fé os samaritanos que aderiram ao Evangelho. "Quando chegaram lá, rezaram pelos samaritanos, para que recebessem o Espírito Santo, que ainda não tinha descido sobre eles: só estavam batizados em nome do Senhor Jesus. Então impunham-lhes as mãos e eles recebiam o Espírito Santo".
       É visível a sacramentalidade da Igreja, dispensadora dos bens de Deus. Filipe pregou. Os que acreditaram foram batizados e, depois, Pedro e João, confirmam/crismam, rezando e impondo-lhes as mãos, para que recebam o Espírito Santo.

       5 – São Pedro serve-nos a sua epístola e recorda-nos como Jesus, o Justo, dá a vida por nós, os pecadores, para nos conduzir a Deus. Por conseguinte, como discípulos, devemos proceder do mesmo modo, dando testemunho d'Ele em toda a parte e em todas as situações, com brandura e respeito, dando razões da nossa esperança.
       Sabendo as provações a que estamos sujeitos, o Apóstolo anima-nos a não vacilar, a manter-nos fiéis à vontade Deus. Mesmo padecendo, mais vale fazer o bem que o mal.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano A): Atos 8, 5-8. 14-17; Sl 65 (66); 1 Pedro 3, 15-18; Jo 14, 15-21.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Domingo VII do Tempo Comum - ano A - 19.02.2017

       1 – «Sede santos, porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo». Deus manda Moisés convocar o povo para a santidade, não por capricho, mas para que viva e progrida como povo. A santidade é um compromisso de bondade e de serviço. "Não odiarás do íntimo do coração os teus irmãos, mas corrigirás o teu próximo, para não incorreres em falta por causa dele. Não te vingarás, nem guardarás rancor contra os filhos do teu povo. Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor".
       Só Deus é Deus e se o mandamento vem d'Ele então não há que temer pois não vem armadilhado, não tem letras pequeninas, nem condições escondidas ou disfarçadas. Deus não tem a pretensão de concorrer connosco ou de nos dominar ou de nos fazer escravos. Ele é o Senhor. Está acima e além de nós. Não nos faz sombra. Não tem a preocupação de nos mostrar que é melhor do que nós, como por vezes nos acontece, competimos tanto que nos esquecemos de viver, de nos apreciarmos mutuamente nos dons e nas qualidades e na entreajuda. "Onde Deus reina como Pai, os homens já não podem reinar uns sobre os outros" (J. Antonio Pagola). Ser santo, aperfeiçoar-se como pessoa, tornar-se melhor, é um desafio e um compromisso de cumprirmos com a nossa humanidade. Quanto mais aprendermos, quando mais nos aproximarmos uns dos outros, quanto mais desenvolvermos as nossas capacidades para deixar marcas positivas no mundo, tanto mais seremos humanos, criados à imagem e semelhança de Deus.
       A Lei dada por Deus ao povo através de Moisés prepara-nos para a grandeza! Atenção, não nos prepara para a sobranceria, para a arrogância, para prepotência! Mas para a grandeza que nos embeleza e nos humaniza, que nos aproxima uns dos outros e nos irmana, levando-nos a gastar-nos pelos outros, a persistir nas dificuldades, a solidarizar-nos nas aflições e a caminhar juntos!
       2 – Jesus faz-nos passar dos mínimos garantidos para o máximo. Não contra os outros ou apesar deles. Mas em relação a nós próprios. O caminho é superar-nos constantemente. Não desistir. Insistir. Dando o melhor. No Sermão da Montanha Jesus exige de nós. Não exige pouco ou muito. Exige tudo. E a acrescentar a isto, a superação visa sintonizar-nos com o sofrimento dos outros, com o seu peregrinar, com as suas lutas. Melhorar a minha performance para ser mais prestável aos outros. Sou abençoado na medida em que me torno bênção para os outros.
       Hoje pudemos escutar novamente a contraposição de Jesus, pela positiva. «Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Olho por olho e dente por dente’. Eu, porém, digo-vos: Não resistais ao homem mau. Mas se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda». De enxurrada, intenso e imenso. Jesus já tinha surpreendido com as Bem-aventuranças, invertendo a lógica do poder e da felicidade. Agora, à lei de talião, apõe a não-violência e o perdão. Diga-se que a lei de talião já era preventiva, olho por olho e dente por dente promovia uma justiça (popular) equitativa. Se me partem um dente, eu não tenho o direito a partir dois!
       Mas Jesus vai mais longe. «Se alguém quiser levar-te ao tribunal, para ficar com a tua túnica, deixa-lhe também o manto. Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, acompanha-o durante duas. Dá a quem te pedir e não voltes as costas a quem te pede emprestado. Ouvistes que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus».
       3 – O caminho da santidade, do aperfeiçoamento funda-se e fundamenta-se em Deus. Relembrando sempre as palavras sábias do então Cardeal Joseph Ratzinger (Bento XVI): para o Reino de Deus há tantos caminhos como as pessoas. Porém, Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida. O meu caminho, o teu caminho, há de levar-nos a Jesus, há de levar-nos ao Pai. Sendo assim, quanto mais perto eu estiver de Jesus e quanto mais perto tu estiveres de Jesus, mais perto vamos estar um do outro. E se estamos próximos poderemos apoiar-nos mutuamente, ajudar-nos, incentivar-nos quando um de nós estiver a fraquejar.
       No Reino de Deus não há excluídos, pois os nossos caminhos hão de desembocar em Jesus. Por conseguinte, estamos "condenados" a aproximar-nos uns dos outros. Na verdade, diz-nos Jesus, Deus é Pai de todos e «faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos». A bênção recai sobre todos. Temos afinidades. Por certo. Mas nem por isso estamos dispensados de amarmos até os nossos inimigos, os que nos são indiferentes, os que desprezamos. Aliás, questiona Jesus, que vantagem haveria em amar aqueles que nos amam? Isso todos podem fazer. Os discípulos de Jesus são desafiados ao máximo. E o máximo é Deus. «Portanto, sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito».
       A vinda de Jesus ao mundo, Deus que Se faz Homem, tem como missão reconciliar-nos a todos com Deus. Pelo mistério da Sua morte e da Sua ressurreição, Jesus resgata-nos das trevas, do pecado e da morte, para nos reconduzir ao Coração do Pai. "Ele perdoa todos os teus pecados e cura as tuas enfermidades; salva da morte a tua vida e coroa-te de graça e misericórdia. / O Senhor é clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade; não nos tratou segundo os nossos pecados, nem nos castigou segundo as nossas culpas. / Como o Oriente dista do Ocidente, assim Ele afasta de nós os nossos pecados; como um pai se compadece dos seus filhos, assim o Senhor Se compadece dos que O temem" (Salmo).
       4 – Também em São Paulo descortinamos esta corresponsabilidade pela salvação, que nos é dada por Jesus Cristo, mas que nos impele a sermos instrumentos redentores uns para os outros. O outro é Presença de Deus, é Rosto que nos desafia e interpela, na sensibilidade de Emmanuel Levinas, é Rosto que irrompe e me chama, é um apelo da eternidade, do Infinito, que não é redutível a mim, mas me provoca, me interpela, pois no face a face encontro-me com o divino e então é mais forte o mandamento "não matarás". Se nos recordarmos do crime de Caim contra o seu irmão Abel, a sentença de Deus questiona-nos e responsabiliza-nos pelo sangue dos nossos irmãos, pelas suas vidas. Somos guardas dos nossos irmãos ou seremos Caim uns para os outros!
       O Apóstolo interroga-nos: «Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o templo de Deus é santo, e vós sois esse templo. Ninguém tenha ilusões. Se alguém entre vós se julga sábio aos olhos do mundo, faça-se louco, para se tornar sábio. Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus». É a nossa grandeza: na nossa pobreza e humildade, deixarmo-nos guiar pela sabedoria de Deus, mesmo que pareçamos loucos. O decisivo é que Cristo reine em nós. “Onde o reinado de Deus vai abrindo caminho, vai-se construindo comunicação, solidariedade, comunhão e fraternidade” (Pagola).
       Em Maria encontramos uma modelo de humildade ao ponto de n’Ela se gerar o próprio Deus. Como Ela, também nós possamos dizer: a minha alma engrandece o Senhor. Traduzindo: que em nós se manifeste a grandeza de Deus. Para isso precisamos de ser templo e transparência e respiração de Deus.
       Na Carta aos Coríntios, que temos vindo a escutar, São Paulo insiste na necessidade de viver Jesus, transparecer Jesus, testemunhar Jesus. Em tudo. Em toda a parte. Com todos. Para louvor e glória de Deus Pai. «Tudo é vosso: Paulo, Apolo e Pedro, o mundo, a vida e a morte, as coisas presentes e as futuras. Tudo é vosso; mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus». O apóstolo alerta-nos para não confundirmos o mensageiro (eu, tum, cada um de nós) com a Mensagem (Jesus e o Seu Evangelho de Amor). Não nos anunciamos. Anunciamos Jesus Cristo, morto e ressuscitado!

Pe. Manuel Gonçalves

Textos para a Eucaristia (A): Lev 19, 1-2. 17-18; Sl 102 (103); 1 Cor 3, 16-23; Mt 5, 38-48.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Leitura: TOMÁŠ HALÍK - QUERO QUE TU SEJAS

TOMÁŠ HALÍK (2016). Quero que Tu sejas! Podemos acreditar no Deus do Amor. Prior Velho: Paulinas Editora. 272 páginas.
       "Tomáš Halík nasceu emm Praga atual República Checa, no ano de 1948. Licenciou-se em Sociologia, Filosofia e Psicologia na Universidade de Charles, Praga, nos inícios dos anos 70. Estudou Teologia, clandestinamente, na mesma cidade, estudo que continuou na Universidade Lateranense, em Roma, e na Faculdade Pontifícia de Teologia, em Wroclaw (Polónia). Durante a ocupação comunista, sendo perseguido como «inimigo do regime», trabalhou como psicoterapeuta de toxicodependentes. Foi clandestinamente ordenado sacerdote em Erfurt (Alemanha do Leste, em 1978, e trabalhou na «Igreja subterrânea», onde foi um dos assessores mais próximos do cardeal Tomášek".
       Na lombada interior da capa, breve apresentação, de Tomáš Halík, de quem já sugerimos outro belíssimo título - O MEU DEUS É UM DEUS FERIDO. Depois de ter escrito sobre fé e esperança, alguém lhe perguntou porque não escrevia sobre o amor. 
       O autor começa por fazer uma pergunta que habitualmente vamos fazendo, mas para a qual nem sempre encontramos uma resposta satisfatória: deonde vem o mal?. "É possível que hoje em dia nos tenhamos acostumado tanto ao mal, à violência e ao cisnismo, que façamos a nós próprios, com surpresa, outra pergunta: donde provém a ternura e a bondade?
       Ao longo do livro, enraizado na Sagrada Escritura, mas também na história, na experiência, na cultura, o autor vai mostrando que o amor é fonte de todo o bem e em todo o bem é possível encontra Deus de amor. Um dos fios condutores é apresentar o duplo mandamento, a interligação entre o amor a Deus e ao próximo como a si mesmo. Amar a Deus, amando o próximo. Deus está em nós. O amor habita-nos na identidade mais profunda, onde podemos encontrar Deus.
       Mais que uma resposta, Deus é pergunta. Não é um dado adquirido, mas sempre me transcende. Vai além de toda a compreensão humana, ainda que Se deixe ver em Jesus Cristo. "Os meus livros não são destinados àqueles que têm certeza absoluta de que compreendem perfeitamente o que significa o mandamento do amor a Deus. Esses certamente já têm a sua recompensa. Eu dirigo-me àqueles que buscam o significado dessas palavras, quer se considerem crentes... quase-crentes ou «antigos crentes»... incrédulos e agnósticos ou não crentes".

Algumas expressões:
"Associar os mandamentos do amor a Deus e o mandamento do amor uns aos outros - o núcleo do Evangelho - é a forma de redescobrir o Deus que «desapareceu», especificamente, na nossa relação com o próximo. Deus acontece onde quer que nós amemos as pessoas, o nosso próximo".
"Deus não pode ser obejeto de amor porque Deus não é um obejeto; a perceção objetiva de Deus conduz à idolatria. Eu não posso amar a Deus da mesma maneira que amo outro ser humano, a minha cidade, a minha paróquia ou o meu trabalho. Deus não está diante de mim, tal como a luz também não está diante de mim: eu não consigo ver a luz, só posso ver as coisas iluminadas pela luz".
"Deus acontece ali onde nós amamos".
"É necessário despir a própria alma, porque só quando já nada restar entre nós e a vontade de Deus, se poderá dar aquela união com Deus a que se chama Amor. Nesse momento somos «transformados em Deus por amor»".
"Há vários anos que me sinto fascinado com um definição do amor que é atribuída a Santo Agostinho: amo: volo ut sis (Amo-te, quero que Tu seja!)... «Eu quero que tu sejas». Esta frase exprime a ausência de dúvidas acerca da existência do amado; a sua existência é óbvia para mim, e o meus sentidos podem prová-la. esta frase exprime a minha confirmação fundamental da existência do meu amado, a minha alegria por ele existir. Eu não me limito a notar a sua existência, experimento-a como gratidão, como qualquer coisa que enriquece fundamentalmente a minha própria vida, sem o meu amado, o meu eu profundo perderia a sua integridade, sem ele o meu mundo ficaria desolado e terrivelmente cinzento.
No amor eu abro um lugar de segurança dentro de mim para a pessoa que amo, no qual ela pode ser plena e livremente quem é. Não precisa de representar nem de fingir para mim, nem de tentar merecer continuamente o meu amor através das suas ações. Além disso, só messe lugar seguro de amor é que uma pessoa se pode tornar aquilo que até então só era em potência. Só agora se pode aperceber do seu pleno potencial, que, sem amor, ficaria atrofiado, murcho e sufocado nas suas próprias raízes.
Estou contente por te ter conhecido; alegro-me pelo milagre do amor; quero que a pessoa a quem amo continue a estar comigo. Sim, gostaria que vivêssemos juntos para sempre. A frase «Eu amo-te, quero que Tu sejas» de Agostinho conduz a outra frase, ou seja, à definição magnífica de Gabriel Marcel: «Amar alguém é dizer-lhe: "Tu não morrerás"»... Dentro do verdadeiro amor há sempre uma fonte de eternidade".
"Deus não é «uma terceira pessoa» na relação entre duas pessoas; Deus é a base e a fonte dessa relação".
"Amar a Deus significa sentirmo-nos profundamente gratos pelo milagre da vida e exprimir essa gratidão ao longo da própria vida, aceitando a minha sorte mesmo quando esta não condiz com os meus planos e expectativas. Amar a Deus significa aceitar com paciência e atenção os encontros humanos como mensagens de Deus cheias de sentido - mesmo quando sou incapaz de as compreender devidamente. Amar a deus significa confiar que até os momentos difíceis e obscuros me revelarão um doa o seu significado".
"Deus não pode forçar os seres humanos a aceitar a salvação, o perdão e a misericórdia. Teoricamente é possível que alguém, pelo seu profundo desejo de que «Deus não seja», manifeste esse perverso desejo de forma tão consistente que acabe por se esquivar fatalmente a Deus e por se condenar a si próprio ao eterno afastamento de Deus e separação em relação a Ele".
"Aquilo que Deus traz para a história, onde nós o devemos procurar, é o amor. Eu sou cristão porque aprendi a acreditar nesse amor".
"A fé requer a coragem de escolher e de confiar".
Citando Teilhard de Chardin, "O amor é a única força capaz de unificar as coisas sem as destruir"

sábado, 23 de abril de 2016

5.º Domingo da Páscoa - ano C - 24 de abril de 2016

       1 – «Meus filhos, é por pouco tempo que ainda estou convosco. Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como Eu vos amei, amai-vos também uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros».
       Durante a Última Ceia, Jesus fala-lhes do tempo em que não estará materialmente entre eles, deixando-lhes a síntese e o essencial da Sua mensagem. Para serem Seus discípulos, e reconhecidos como tal, terão de se amar uns aos outros como Ele os amou. É a única condição. Para eles e para nós, discípulos do mundo atual.
       2 – Um Pai, vendo aproximar-se a hora da morte, chamou os seus 10 filhos para lhes revelar os últimos desejos. Todos os filhos vieram para junto do seu leito. Pediu que cada um pegasse num vime, a começar pelo mais novo, e o partisse. Um a um, todos partiram facilmente o vime que lhe calhou em sorte. Depois pediu ao filho mais velho que pegasse em 10 vimes, os juntasse e os partisse ao meio. Tentou uma e outra vez, mas não conseguiu. Pediu que os outros filhos tentassem, mas nenhum obteve melhor resultado. Perguntou-lhes que lição a tirar desta experiência. Uma única conclusão: juntos é possível enfrentar os maiores obstáculos. A união faz a força!
       Quando um pai vai para longe, durante um certo período de tempo, chama os filhos e pede-lhes para se portarem bem e ajudarem nas tarefas de casa, para fazer os trabalhos da escola, para ajudarem a mãe. Ao mais velho pedir-lhe-á para ajudar a mãe a tomar conta dos irmãos e da casa.
       Quando alguém está para morrer, e sabe disso, chama os que que são mais próximos e manifesta-lhes o que ainda gostava de fazer e quais as suas últimas vontades. Quem lhe quer bem, tudo fará para concretizar os seus pedidos. Outra forma de o fazer é através do testamento, como partilha dos seus bens mas também de projetos que gostaria de ver realizados. Por exemplo, os Papas Paulo VI ou João Paulo II deixaram testamentos sobre alguns os poucos bens materiais e sobretudo os seus escritos, mensagens, o que gostariam que permanecesse do Seu ministério.
        O Testamento de Jesus é este: Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei.
       3 – O que diz no final, Jesus viveu-o, amadureceu-o, experimentou-o ao longo de toda a sua vida. A família de Nazaré, como tantas famílias naquele tempo e naquela região, passou por diferentes situações que, por certo, ajudaram a amadurecer a união e a entreajuda, o acolhimento dos estrangeiros e a delicadeza para com os vizinhos. Durante algum tempo, Maria e José, e o Menino Jesus, refugiaram-se no Egito, regressando a Nazaré. Uma cidade-aldeia em que todos são vizinhos, e talvez todos com laços de sangue, e se auxiliam para sobreviver e enfrentar as dificuldades.
       Intuímos, facilmente, uma vida honrada, simples, com poucas coisas, de trabalho e muitas vezes de sacrifício. Vive-se com pouco. Os elevados impostos do Templo e do Império e das autoridades locais não permitem uma vida desafogada. Jesus cedo percebe as dificuldades mas também as injustiças infligidas às famílias de Nazaré, bem como a sobrecarga de leis e de preceitos. 613 Mandamentos, 365 negativos (correspondem aos dias do ano solar) e 248 positivos, tantos como os órgãos do corpo humano. Não seria fácil cumprir tantos preceitos, ainda que em Nazaré a influência do Templo e dos seus dirigentes não fosse tão sufocante como em Jerusalém.
       A delicadeza e a docilidade de Jesus vêm-lhe de um ambiente de fraterna entreajuda. Todos se envolvem nos problemas uns dos outros para ajudar. A sobrevivência, o pão de cada dia, depende desta solidariedade. Também aí se manifesta a fé e a confiança em Deus, o que lhes traz paz diante da prepotência dos dirigentes e os motiva para enfrentar as dificuldades. Lidam com estrangeiros que passam e que precisam de abrigo e de pão. A Lei "obriga" a acolher o peregrino, alimentando-o e, se estiver a cair a noite, abrigando-o, pois também eles foram estrangeiros em terras estrangeiras.
       4 – Durante os três anos de vida pública, Jesus age em conformidade com a educação recebida, com a cultura e a religiosidade do seu povo. A graça de Deus, a sabedoria, levam a valorizar a palavra dada, a ternura e compaixão como formas de criar laços de amizade. Percebendo as injustiças e a inutilidade de muitas leis, terá tudo isso em conta na hora de falar e sobretudo de agir. Coloca-Se do lado dos mais frágeis. Fez isso connosco. Como nos recorda o apóstolo, Ele deu a vida por nós quando éramos pecadores. Com efeito, a própria Encarnação significa a identificação com a humanidade, fez-Se pobre para nos enriquecer com a Sua pobreza, assumindo a nossa fragilidade, gastando-Se na nossa finitude, para nos resgatar ao poder do pecado e da morte.
        Percorrendo os caminhos da Galileia e da Judeia, e da Samaria, indo às suas periferias, Jesus deixa um rasto de perfume, de atenção, de cuidado, de misericórdia. Não se assusta com o mal, com o pecado, ou com o sofrimento, cada pessoa que encontra Lhe lembram o Pai. A miséria das pessoas e das famílias continuam a ser um contraponto para lhes conceder paz, bênção e alegria. Tantos que são espoliados, escravizados, explorados, tantos que não têm lugar nos reinos deste mundo! Jesus dá-lhes prioridade. Agora choram e são perseguidos, mas serão bem-aventurados, porque Deus os ama acima de tudo e os quer no Seu Reino.
       Toda a mensagem de Jesus está condensada no mandamento do amor. Amar, servir, dar a vida, compaixão, proximidade, abaixamento. Modos de agir e de viver. Quem não serve para servir, não serve para viver. Eis que venho, ó Pai, para fazer a Tua vontade. Não vim para ser servido, mas para servir e dar a vida por todos. Quem de entre vós quiser ser o maior, seja o servo de todos. Estou no meio de vós como quem serve. Quem não se tornar como criança, não entrará no Reino de Deus. O que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos a Mim o fazeis. Até ao fim, em todas as horas. Até na Cruz Jesus tem tempo para nós: hoje mesmo estarás comigo no Paraíso. A glorificação de Jesus é a Sua paixão por nós. Tudo se encaixa na Sua entrega. A Sua ressurreição diz-nos que a Sua vida é o Caminho, a Verdade e a Vida se queremos alcançá-l'O e entrar na vida eterna.
       5 – Paulo e Barnabé prosseguem na missão de evangelizar. Permanecem em Antioquia durante um ano. Os membros desta comunidade, inspirados pelo Espírito Santo, enviam-nos para outras terras para anunciarem o Evangelho e formarem discípulos, cumprindo desse modo o mandato de Jesus: ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho as todas as gentes.
        Serão muitas as provações a que estão sujeitos os que se convertem a Cristo e ao Seu Evangelho. Paulo e Barnabé exortam à fidelidade em Deus. Nas comunidades, para que estas não fiquem abandonadas, estabelecem anciãos, sob a ambiência da oração. Atravessam a Psídia e a Panfília, anunciam a Palavra em Perga e descem a Atalia, para regressarem a "Antioquia, de onde tinham partido, confiados na graça de Deus, para a obra que acabavam de realizar. À chegada, convocaram a Igreja, contaram tudo o que Deus fizera com eles e como abrira aos gentios a porta da fé".
       A palavra de Deus que nos é dado escutar neste domingo mostra como a obra da evangelização é de Deus. Mas Deus conta connosco, com a nossa vida, o nosso compromisso, a nossa alegria, o nosso empenho. Deus comunica-Se através de nós.
       Confiemo-nos ao Senhor nosso Deus, que nos enviou o Salvador e nos fez Seus filhos adotivos. Peçamos-Lhe: "Atendei com paternal bondade as nossas súplicas e concedei que, pela nossa fé em Cristo, alcancemos a verdadeira liberdade e a herança eterna".
        6 – São João, no Apocalipse, faz-nos ver um novo céu e uma nova terra, "a cidade santa, a nova Jerusalém, que desce do Céu, da presença de Deus, bela como noiva adornada para o seu esposo”. É «a morada de Deus com os homens. Deus habitará com os homens: eles serão o seu povo e o próprio Deus, no meio deles, será o seu Deus. Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; nunca mais haverá morte nem luto, nem gemidos nem dor, porque o mundo antigo desapareceu»
       Com Jesus, Deus renova todas as coisas e faz-nos participantes da Sua vida. Acolhendo a Sua Palavra, realizando as Suas obras, assumindo-nos como discípulos, cabe-nos, seguidamente, levar a outros esta Boa Notícia, para que todos se encontrem, se descubram e vivam como filhos bem-amados de Deus, novas criaturas, identificáveis pela caridade e pelo perdão, pelo serviço e auto doação, transparecendo o Mestre da Docilidade.

Pe. Manuel Gonçalves

Textos para a Eucaristia (C): Atos 14, 21b-27; Sal 144 (145); Ap 21, 1-5a; Jo 13, 31-33a. 34-35.