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sexta-feira, 1 de março de 2019

Pode um homem repudiar a sua mulher?

       Jesus pôs-Se a caminho e foi para o território da Judeia, além do Jordão. Voltou a reunir-se uma grande multidão junto de Jesus e Ele, segundo o seu costume, começou de novo a ensiná-la. Aproximaram-se então de Jesus uns fariseus, que, para O porem à prova, Lhe perguntaram: «Pode um homem repudiar a sua mulher?». Jesus disse-lhes: «Que vos ordenou Moisés?». Eles responderam: «Moisés permitiu que se passasse um certificado de divórcio para se repudiar a mulher». Jesus disse-lhes: «Foi por causa da dureza do vosso coração que ele vos deixou essa lei. Mas, no princípio da criação, ‘Deus fê-los homem e mulher. Por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa, e os dois serão uma só carne’. Deste modo, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu». Em casa, os discípulos interrogaram-n’O de novo sobre este assunto. Jesus disse-lhes então: «Quem repudiar a sua mulher e casar com outra, comete adultério contra a primeira. E se a mulher repudiar o seu marido e casar com outro, comete adultério» (Mc 10, 1-12).
       A pergunta colocada a Jesus tem a sua pertinência e tem certamente muita atualidade. Porém, a resposta não é reactiva, Jesus não apresenta uma solução face à dificuldade que possa existir no relacionamento do casal, do homem e da mulher. Nesta como em outras situações, ao invés de ficar com muitas explicações, justificações, a argumentar, Jesus aponta um ideal a prosseguir: qualidade nas relações, empenho, diálogo, paciência, caridade. O cristão não pode apostar nos mínimos garantidos. Não há uma receita. O desafio é sempre melhorar, na família, na sociedade, na Igreja, dar o máximo, alegrar-se no serviço ao outro, não desistir das pessoas, procurar viver a unidade com os outros, estar atento aos pequenos sinais, dar atenção às pessoas que estão perto, não descurar os pormenores com a desculpa de falta de tempo, não esconder as dificuldades mas assumi-las e procurar que não sejam obstáculo.
       Mas atenção: quando Jesus aponta um ideal não o faz para aligeirar a nossa ambição. Pelo contrário, o ideal apontado é sempre uma possibilidade que deveremos buscar, com a ajuda da oração, com a força da fé, confiantes que Deus sustenta a nossa vida e a nossa relação com os outros. Chegam-nos experiências que servem de testemunho e desafio mas que podem também servir de exemplo para outros. Há casais que terminam o dia de mãos dadas, mesmo que tenham discutido. Não adormecem sem dar as mãos, sem se beijarem e sem rezar uma avé-maria ou um pai-nosso juntos...

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Levanta-te e segue o teu caminho; a tua fé te salvou

       Indo Jesus a caminho de Jerusalém, passava entre a Samaria e a Galileia. Ao entrar numa povoação, vieram ao seu encontro dez leprosos. Conservando-se a distância, disseram em alta voz: «Jesus, Mestre, tem compaixão de nós». Ao vê-los, Jesus disse-lhes: «Ide mostrar-vos aos sacerdotes». E sucedeu que no caminho ficaram limpos da lepra. Um deles, ao ver-se curado, voltou atrás, glorificando a Deus em alta voz, e prostrou-se de rosto por terra aos pés de Jesus para Lhe agradecer. Era um samaritano. Jesus, tomando a palavra, disse: «Não foram dez os que ficaram curados? Onde estão os outros nove? Não se encontrou quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro?». E disse ao homem: «Levanta-te e segue o teu caminho; a tua fé te salvou» (Lc 17, 11-19).
       Amiúde se verifica que Jesus interrompe o caminho para prestar atenção a quem Lhe suplica. Certamente que a fama de Jesus se tinha espalhado ao ponto de não passar despercebido nas diversas povoações, pessoas que chegavam e pessoas que partiam e que partilhavam informações sobre o que sucedia nas suas terras ou em outras povoações onde tinham passado.
       Se as pessoas se aproximam expondo-se e sujeitando-se à recriminação e até, neste caso, a serem apedrejadas, é porque as notícias que lhes tinham chegado sobre Jesus eram de esperança, sabendo que Ele não deixaria de ter uma palavra amiga ou um gesto curativo. É o que acontece com estes 10 leprosos.
       Sublinhe-se também a delicadeza de Jesus para com os sacerdotes do Templo, no respeito pela Lei de Moisés. Habitualmente os textos evangélicos mostram Jesus a contestar a Lei, ou melhor, as interpretações abusivas da Lei. Neste pormenor se vê como Jesus não põe em causa a Lei quando esta está ao serviço da pessoa.
       Outro aspeto bem vincado no Evangelho é a falta de gratidão. Jesus cura. Sem contrapartidas. Em todo o caso, o que se espera de quem é agraciado pelas bênçãos de Deus é que tenha uma atitude de louvor e de glória para com Deus... A verdadeira cura leva à mudança de vida...

sexta-feira, 20 de julho de 2018

O Filho do Homem é também o Senhor do sábado

        Jesus passou através das searas em dia de sábado e os discípulos, sentindo fome, começaram a apanhar e a comer espigas. Os fariseus viram e disseram a Jesus: «Vê como os teus discípulos estão a fazer o que não é permitido ao sábado». Jesus respondeu-lhes: «Não lestes o que fez David, quando ele e os seus companheiros sentiram fome? Entrou na casa de Deus e comeu dos pães da proposição, que não era permitido comer, nem a ele nem aos seus companheiros, mas somente aos sacerdotes. Também não lestes na Lei que, ao sábado, no templo, os sacerdotes violam o repouso sabático e ficam isentos de culpa? Eu vos digo que está aqui alguém que é maior que o templo. Se soubésseis o que significa: ‘Eu quero misericórdia e não sacrifício’, não condenaríeis os que não têm culpa. Porque o Filho do homem é Senhor do sábado» (Mt 12, 1-8).
       Jesus e os seus discípulos passam no meio das searas e estes vão debicando os grãos das espigas, pois sentiram fome. Certamente, em trânsito, entre cidades e aldeias, por vezes não deveriam ter muito que comer, e por vezes nem tempo. E Jesus não faz esperar as pessoas.
       Segundo a tradição, retirar as espigas para comer não é mal e também não prejudica ninguém. Mas o que aqui está em causa, é o apanharem e comerem as espigas ao sábado, o dia de descanso, o dia sagrado. Na volta vemos a resposta firme e clara de Jesus, como em outros lugares do Evangelho.
       As leis hão de ser um ser um serviço para as pessoas, para as ajudar a viver melhor e a organizar-se em sociedade de forma harmoniosa, não tem, ou não deve ter, uma preocupação escravizante. O que é certo é que ao longo dos séculos as leis judaicas se multiplicaram de tal forma que se tornaram incompreensíveis para as pessoas mais simples. Acresce a isto, que muitas das leis foram elaboradas para beneficiar ou justificar a postura dos líderes do povo.
       Sem reservas, Jesus diz que toda a LEI está ao serviço da pessoa humana (e não apenas de uma classe ou corporação). E quanto às leis religiosas, especificamente, têm de ser libertadoras, e não castradoras. "Eu quero a misericórdia e não sacrifícios". Mais importante é a conversão interior e a conduta que se assume perante os outros.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Não cometerás adultério...

        Disse Jesus aos seus discípulos: Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Não cometerás adultério’. Mas Eu digo-vos: Todo aquele que tiver olhado para uma mulher com maus desejos já cometeu adultério com ela em seu coração. Se o teu olho direito é para ti ocasião de pecado, arranca-o e lança-o para longe de ti, porque é melhor perder-se um só dos teus membros, do que todo o teu corpo ser lançado na geena. E se a tua mão direita é para ti ocasião de pecado, corta-a e lança-a para longe de ti, porque é melhor perder-se um só dos teus membros, do que todo o teu corpo ser lançado na geena. Também foi dito: ‘Quem repudiar a sua mulher dê-lhe um certificado de repúdio’. Mas Eu digo-vos: Todo aquele que repudiar a sua mulher, a não ser em caso de união ilegítima, expõe-na a cometer adultério. E aquele que se casar com uma repudiada comete adultério» (Mt 5, 27-32).
       Jesus, di-lo claramente no Evangelho que temos vindo a refletir, não vem para revogar a Lei ou os profetas, mas para levar a Lei à plenitude. E em que conste a plenitude da Lei. O próprio Jesus responde ao longo de todo o Evangelho, consiste em dar a vida, gastar a vida a favor dos outros, assumir gestos de ternura, de compreensão, de tolerância, de partilha e comunhão, procurar a conciliação, perdoar sempre, dar a outra face, agir colocando o outro em primeiro lugar, servir com alegria o próximo, potenciar os talentos pondo-os ao serviço dos outros.
       A lei de Moisés, inspirada por Deus mas encarnada no tempo, na história, na cultura, na especificidade do povo eleito, apresenta algumas "facilidades", ainda que a linha seja a dignificação da pessoa. O homem podia "dispensar" a mulher, mas tinha que lhe passar um certificado, garantindo a possibilidade de ela refazer a vida. Jesus aprofunda a Lei, na linha do amor, do respeito, da dignidade. As pessoas não podem ser descartáveis. Sujeitos a limitações, os discípulos de Cristo devem procurar a pureza de olhar - olhar para a outra pessoa reconhecendo-a como pessoa e não como objeto -, e de intenções, para que no relacionamento com os outros sobrevenha a caridade, a entreajuda, a comunhão.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Damos testemunho do que vimos...

       A Ressurreição é um desafio e um compromisso dos seguidores de Jesus Cristo em mostrá-l'O vivo nas palavras e nos gestos, na organização das comunidades crentes. Jesus coloca-se no MEIO deles e eles perdem o medo, pois Ele sempre estará.
       Na primeira leitura, que atravessa este tempo de Páscoa, do livro dos Atos dos Apóstolos, vamos acolhendo a chama com que os discípulos dão a conhecer o Evangelho de Jesus Cristo, morto e ressuscitado, suscitando entusiasmo mas também ódios e perseguição. O texto de hoje caracteriza a a comunidade, a forma como procurou encarnar o Evangelho:

A multidão dos haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma; ninguém considerava seu o que lhe lhe pertencia, mas tudo entre eles era comum. Os Apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus com grande poder e gozavam todos de muita simpatia. Não havia entre eles qualquer necessitado, porque todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas e traziam o produto das vendas, que depunham aos pés dos Apóstolos, e distribuía-se então a cada um conforme a sua necessidade. José, um levita natural de Chipre, a quem os Apóstolos chamaram Barnabé – que quer dizer «Filho da Consolação» – possuía um campo. Vendeu-o e trouxe o dinheiro, que depositou aos pés dos Apóstolos (Atos 4, 32-37)
No Evangelho, Jesus continua em diálogo com Nicodemos:
Disse Jesus a Nicodemos: «Não te admires por Eu te haver dito que todos devem nascer de novo. O vento sopra onde quer: ouves a sua voz, mas não sabes donde vem nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito». Nicodemos perguntou: «Como pode ser isso?» Jesus respondeu-lhe: «Tu és mestre em Israel e não sabes estas coisas? Em verdade, em verdade te digo: Nós falamos do que sabemos e damos testemunho do que vimos, mas vós não aceitais o nosso testemunho. Se vos disse coisas da terra e não acreditais, como haveis de acreditar, se vos disser coisas do Céu? Ninguém subiu ao Céu, senão Aquele que desceu do Céu: o Filho do homem. Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, também o Filho do homem será elevado, para que todo aquele que acredita tenha n’Ele a vida eterna» (Jo 3, 7b-15).
       São João coloca-nos junto de Jesus e de Nicodemos, doutor da Lei. Jesus diz claramente a Nicodemos que tem de nascer de novo, uma nova vida, que não virá apenas da conversão, mas também da redenção operado por Jesus Cristo. Por outro lado, Jesus coloca a transcendência de Deus em destaque, não O podemos encerrar na nossas concepções muito nossas. A força do Espírito manifesta-se onde quer, é como o vento que não sabemos de onde vem ou para onde vai.
       Por outro lado ainda, Jesus anuncia a elevação do Filho do homem, para que todos O vejam e acreditando tenham a vida eterna. A elevação do filho enquadra a crucifixão de Jesus, a Sua morte redentora, mas também o NOME que é colocado acima de todos os todos e ao qual todos os joelhos se deve dobrar, não como penitência, mas para que a contemplação de Deus os leve ao serviço dos irmãos.

terça-feira, 20 de março de 2018

VL – Descalça-te, o chão que pisas é sagrado

«Não te aproximes daqui; tira as tuas sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é uma terra santa» (Ex 3, 5).

Na Caminhada para a Quaresma 2018, proposta em Arciprestado (Moimenta, Sernancelhe, Tabuaço) e extensível a toda a Diocese de Lamego, ao lado Cruz, somos convidados a colocar caixas de sapatos. Com que propósito? Para descalçarmos os sapatos do pecado, sapatos velhos e apertados que nos impedem de andar ao ritmo de Cristo, para calçarmos as sandálias do Pescador. Cristo calça os sapatos de cada um de nós para caminhar connosco. Cabe-nos agora calçarmo-nos de Cristo na leveza do Seu caminhar, na agilidade do Seu amor, na paixão da Sua entrega, audácia do Seu gastar-Se por cada um de nós.

No monte santo, o Horeb, Moisés aproxima-se da sarça-ardente. Então Deus faz ouvir a Sua voz convidando-o a descalçar-se, pois o chão que pisa é sagrado. Faz-me lembrar a oração sacerdotal quando Jesus reza ao Pai pelos discípulos para que Ele os guarde em Seu Nome, pois estão no mundo. O mundo é sagrado, pois criado por Deus, lugar da vida, da história, do tempo, do encontro entre pessoas e destas com Deus. É aqui que Deus nos salva! É nesta terra que somos chamados a ser humanos, a ser irmãos, a transformar o mundo, tornando-o casa de todos e para todos. Antes, teremos de nos transformar! É um caminho nunca terminado! Temos de nos deixar plasmar pelo Espírito Santo!

Este chão é sagrado! Não podemos pisá-lo ao desbarato. Na mensagem para a Quaresma, o Papa Francisco relembra-nos como fizemos deste mundo um lugar de tragédia, resfriamos o nosso coração, correndo o risco de apagarmos o amor que nos habita. Os outros, continua o Papa, são uma ameaça às nossas certezas: «o bebé recém-nascido, o idoso doente, o hóspede de passagem, o estrangeiro, mas também o próximo que não corresponde às nossas expetativas. A própria criação é testemunha silenciosa deste resfriamento do amor: a terra está envenenada por resíduos lançados por negligência e interesses; os mares, também eles poluídos, devem infelizmente guardar os despojos de tantos náufragos das migrações forçadas; os céus – que, nos desígnios de Deus, cantam a sua glória – são rasgados por máquinas que fazem chover instrumentos de morte». E também as comunidades quando a mentalidade mundana «induz a ocupar-se apenas do que dá nas vistas».

Jesus calçou-se na leveza do perdão e do amor, da ternura e da compaixão. Hoje somos nós os Seus pés com a missão de irmos e fazermos nós também do mesmo modo!

quinta-feira, 15 de março de 2018

João era uma lâmpada que ardia e brilhava...

       O Senhor disse ainda a Moisés: «Tenho observado este povo: é um povo de dura cerviz. Agora deixa que a minha indignação se inflame contra eles e os destrua. De ti farei uma grande nação». Então Moisés procurou aplacar o Senhor seu Deus, dizendo: «Por que razão, Senhor, se há-de inflamar a vossa indignação contra o vosso povo, que libertastes da terra do Egipto com tão grande força e mão tão poderosa... (Ex 32, 7-14).
      Jesus disse aos judeus: «Se Eu der testemunho de Mim mesmo, o meu testemunho não será considerado verdadeiro. É outro que dá testemunho de Mim e Eu sei que o testemunho que Ele dá de Mim é verdadeiro. Vós mandastes emissários a João Baptista e ele deu testemunho da verdade. Não é de um homem que Eu recebo testemunho, mas digo-vos isto para que sejais salvos. João era uma lâmpada que ardia e brilhava e vós, por um momento, quisestes alegrar-vos com a sua luz. Mas Eu tenho um testemunho maior que o de João, pois as obras que o Pai Me deu para consumar – as obras que realizo – dão testemunho de que o Pai Me enviou. E o Pai, que Me enviou, também Ele deu testemunho de Mim. Nunca ouvistes a sua voz, nem vistes a sua figura e a sua palavra não habita em vós, porque não acreditais n’Aquele que Ele enviou. Examinais as Escrituras, pensando encontrar nelas a vida eterna; são elas que dão testemunho de Mim e não quereis vir a Mim para encontrar essa vida. Não é dos homens que Eu recebo glória; mas Eu conheço-vos e sei que não tendes em vós o amor de Deus. Vim em nome de meu Pai e não Me recebeis; mas se vier outro em seu próprio nome, recebê-lo-eis. Como podeis acreditar, vós que recebeis glória uns dos outros e não procurais a glória que vem só de Deus? Não penseis que Eu vou acusar-vos ao Pai: o vosso acusador será Moisés, em quem pusestes a vossa esperança. Se acreditásseis em Moisés, acreditaríeis em Mim, pois ele escreveu a meu respeito. Mas se não acreditais nos seus escritos, como haveis de acreditar nas minhas palavras?» (Jo 5, 31-47).

       A figura de Moisés é-nos apresentada nas duas leituras, no Êxodo e no Evangelho.
       Na primeira leitura, vemo-lo como intercessor junto de Deus, para aplacar a Sua ira contra o povo que se transviou, que se afastou dos caminhos do Senhor. Nas palavras de Moisés escutámos o sentir do próprio Deus que contraria a nossa facilidade em julgar e em condenar. Deus está sempre pronto a perdoar, vindo ao nosso encontro, está à porta e bate...
       Jesus fala em Moisés, para dizer que a fé nas palavras de Moisés levam à fé na Palavra de Deus que encarna em Jesus Cristo. Por outro lado, Jesus apresenta-Se como novo Moisés. Este intervém para que Deus não se ire contra o povo da Aliança; Jesus vem, não para condenar, mas para salvar e dar a vida pela humanidade.
       Testemunham a favor de Jesus, o próprio Moisés, João Baptista, e, mais importante, o próprio Deus, cujas obras Jesus realiza. Ao falar de João Baptista, Jesus fala-nos ao coração. A luz é sempre uma procura... ainda que a nossa treva nos tolde a mente...

quarta-feira, 7 de março de 2018

Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas

       Na liturgia da Palavra proposta para esta quarta-feira, no centro aparecem os Mandamentos, dados por Deus ao povo, através do grande líder de Israel, Moisés. Mandamentos que se torna LEI e, conforme as palavras de Moisés, uma lei que engrandece o povo de Israel, tal a justeza e o equilíbrio dos preceitos emanados por inspiração divina:
Moisés falou ao povo, dizendo: «Agora, Israel, escuta os preceitos que vos dou a conhecer e põe-nos em prática, para que vivais e entreis na posse da terra que vos dá o Senhor, Deus dos vossos pais. Ensinei-vos estas leis e preceitos, conforme o Senhor, meu Deus, me ordenara, a fim de os praticardes na terra de que ides tomar posse. Observai-os e ponde-os em prática, porque eles serão a vossa sabedoria e a vossa prudência aos olhos dos povos, que, ao ouvirem falar de todas estas leis, dirão: ‘Que povo tão sábio e prudente é esta grande nação!’. Qual é, na verdade, a grande nação que tem a divindade tão perto de si como está perto de nós o Senhor, nosso Deus, sempre que O invocamos? E qual é a grande nação que tem mandamentos e decretos tão justos como esta lei que hoje vos apresento? Mas tende cuidado; prestai atenção para não esquecer tudo quanto viram os vossos olhos, nem o deixeis fugir do pensamento em nenhum dia da vossa vida. Ensinai-o aos vossos filhos e aos filhos dos vossos filhos» (Deut 4, 1.5-9).
       No Evangelho, Jesus valida a LEI e os seus mandamentos, dizendo claramente que não veio para pôr em causa, mas para levar à plenitude. Como poderemos verificar, por todo o Evangelho (nas suas quatro versões e visões), a plenitude da Lei é a caridade, o amor sem limites, o amor levado ao limite de dar a vida.
Disse Jesus aos seus discípulos: «Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas completar. Em verdade vos digo: Antes que passem o céu e a terra, não passará da Lei a mais pequena letra ou o mais pequeno sinal, sem que tudo se cumpra. Portanto, se alguém transgredir um só destes mandamentos, por mais pequenos que sejam, e ensinar assim aos homens, será o menor no reino dos Céus. Mas aquele que os praticar e ensinar será grande no reino dos Céus» (Mt 5, 17-19).

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Por causa da dureza do vosso coração

        Aproximaram-se de Jesus alguns fariseus para O porem à prova e disseram-Lhe: «É permitido ao homem repudiar a sua esposa por qualquer motivo?». Jesus respondeu: «Não lestes que o Criador, no princípio, os fez homem e mulher e disse: ‘Por isso o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa e serão os dois uma só carne?’. Deste modo, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu». Eles objectaram: «Porque ordenou então Moisés que se desse um certificado de divórcio para se repudiar a mulher?». Jesus respondeu-lhes: «Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos permitiu repudiar as vossas mulheres. Mas no princípio não foi assim»(Mt 19, 3-12).
        Um tema recorrente na atualidade, mas presente ao longo da história da humanidade é o da relação entre o homem e a mulher e a vivência na exclusividade. Muitas culturas assumem-se poligâmicas. O judaísmo contemplava a relação poligâmica. Veja-se por exemplo o caso do Rei David, que poderia ter mais que uma mulher. Ainda assim com o dever de protecção/pertença. David, no plano moral, tem uma atitude que se lhe condena, o facto de desejar a mulher do próximo, sabendo que não podia desposar tal mulher por esta já ser mulher de Urias. A solução foi arranjar forma de matar Urias para depois tomar a sua mulher.
       No entanto, o judaísmo vai, pouco a pouco, refletindo sobre a relação monogâmica, como correspondendo ao amor exclusivo de Deus para com o seu Povo. Mas numa e noutra situação, a separação, o repúdio (neste caso do homem em relação à mulher), só em casos muito excepcionais. E ainda assim, ao repudiar a mulher, Moisés exigia que os maridos lhes dessem certificados de divórcio para que a mulher pudesse refazer a vida, sem correr o risco de ser apedrejada.
       Na reflexão do Evangelho, Jesus acentua uma vivência anterior em que prevalecia o amor e a união. A dureza do coração é que levou as pessoas à ruptura. Deus criou-nos para vivermos em família, não apenas a união de um homem e de uma mulher, mas também de toda a humanidade. A nossa fragilidade impede-nos de ver mais longe, e para além das limitações alheias, mas o caminho que nos salva é o caminho do amor, do perdão, da unidade.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

VL - Resiliência na oração

       A Quaresma recentra-nos tradicionalmente em três dinâmicas para melhor vivermos a Páscoa do Senhor: a oração, o jejum e a esmola. São vistas como expressões da conversão interior, da adesão decidida a Jesus e ao Seu Evangelho, como concretização do nosso compromisso em nos tornarmos discípulos missionários, identificando-nos com o Mestre da Docilidade para, como Ele e com Ele, nos fazermos próximos dos outros e os acolhermos como irmãos.
       A oração é o ponto de partida e o chão que nos move para Deus. E se a oração é autêntica levar-nos-á a querer o que Deus quer. Na oração predispomo-nos a encontrar a vontade de Deus para nós. A referência é Jesus Cristo, cuja vontade paterna é o Seu programa de vida, o Seu alimento. Eu venho, ó Deus, para fazer a Vossa vontade. Faça-se não o que Eu quero, mas o que Tu queres! A oração não é fácil. Ou nem sempre é fácil, sobretudo quando a vida não corre de feição. Ainda assim não devemos deixar de rezar, de suplicar, de louvar, de agradecer a Deus, a chuva e o sol, o vento e a névoa!
       Alguns modelos de oração combativa: Abraão, Jacob, Moisés, Ana, Job, David, Jesus.
       Abrão “negoceia” com Deus, insistindo até ao limite, com veemência, tentando proteger a cidade de Sodoma e de Gomorra. É um dos exemplos muito queridos ao Papa Francisco. Jacob é aquele que luta com Deus pela noite dentro e, por isso, o seu nome é mudado para Israel, porque lutou com Deus e venceu. Moisés eleva os braços, o coração, a vida para Deus, intercedendo uma e outra vez pelo povo, de dura servis, mas ainda assim o povo que Deus lhe confiou. Ana, mãe de Samuel, que persiste na oração até que Deus lhe concede o que deseja. Job, na imensidão do mistério de Deus, no confronto com a desgraça pessoal e familiar, não desiste de se dirigir a Deus, convocando-O à justiça. E Deus responde-lhe. David, grande Rei – o Papa Francisco invoca-o como São David – apesar do grave pecado contra o próximo, tomando a mulher de Urias e provocando-lhe a morte, não deixa de dialogar com Deus, penitente, arrependido, assumindo as consequências do seu pecado, protegendo o povo. E, claro, a oração de Jesus. Em todos os momentos cruciais da Sua vida, Jesus respira oração, suplicando, louvando, agradecendo, oferecendo. A sua vida faz-se oração, mas Jesus reserva momentos específicos para orar a Deus Pai: antes da vida pública, antes de escolher os apóstolos, na realização de milagres, antes do Calvário… e na Cruz!

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4406, de 4 de abril de 2017

sábado, 11 de março de 2017

Amai os vossos inimigos e rezai por eles

       Apresentamos, neste sábado da primeira semana da Quaresma, dois textos da liturgia, em que se acentua o cumprimento dos Mandamentos por forma a viver de acordo com a vontade de Deus, no caminho da felicidade, da salvação, da vida em abundância.
        O primeiro texto, do livro de Deuteronómio, sublinha a pertença do povo a Deus, pertença essa que exige o cumprimento, por parte do povo, dos mandamentos. São estes que assegura que o povo se mantém fiel ao Senhor. Entremos no texto:
Moisés falou ao povo, dizendo: «O Senhor, teu Deus, ordena-te hoje que cumpras estas leis e mandamentos. Tu os guardarás e cumprirás com todo o teu coração e com toda a tua alma. Hoje obtiveste a promessa do Senhor de que Ele seria o teu Deus; e tu deves seguir os seus caminhos, cumprindo os seus mandamentos, leis e preceitos, e escutando a sua voz. E hoje o Senhor obteve de ti a promessa de que serás o seu povo, como Ele tinha declarado, e cumprirás os seus mandamentos. Ele te elevará pela glória, fama e esplendor, acima de todas as nações que formou, e serás um povo consagrado ao Senhor, teu Deus, como Ele prometeu (Deut 26, 16-19).
       No evangelho, Jesus, o novo Moisés, diz claramente aos seus discípulos - e hoje somos nós - que a plenitude da Lei é o amor sem limites e sem medida. Amar até os inimigos. Será isto que distingue os seguidores de Jesus Cristo:
Disse Jesus aos seus discípulos: «Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus; pois Ele faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos. Se amardes aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem a mesma coisa os publicanos? E se saudardes apenas os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos? Portanto, sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito» (Mt 5, 43-48).

sábado, 26 de setembro de 2015

XXVI Domingo do tempo Comum - ano B - 27-09.2015

       1 – "Há um «serviço» que serve aos outros; mas temos que guardar-nos do outro serviço cujo interesse é beneficiar os «meus», em nome do «nosso». Este serviço deixa sempre os «teus» de fora, gerando uma dinâmica de exclusão" (Papa Francisco, em Cuba). O contexto é o de domingo passado, em que Jesus diz claramente aos seus discípulos que quem quiser ser o primeiro seja o servo de todos. A tentação será servir-se, ou servir os seus, excluindo os que não fazem parte da minha família, do meu partido, da minha religião, do meu país, do meu grupo de amigos. Ora para Deus somos irmãos. Ele é Pai de todos. Todos são chamados a formar uma família feliz.
       Acolher os distantes, o estrangeiro, o pobre, o estranho, o refugiado, não nos dispensa de tratar bem os de casa e os da vizinhança.
       O Evangelho mostra os discípulos muito zelosos em relação ao grupo e aos próprios interesses. João diz a Jesus: «Mestre, nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco». Não se põe em causa o bem mas quem o faz. Ou seja, se fizesse parte do grupo, acrescentaria prestígio e estava em sintonia com Jesus. Ora, se não faz parte do grupo não terá direito a fazer o que quer que seja relacionado com Jesus.
       Novamente a questão do protagonismo: quem é o maior?! Resposta clarificadora de Jesus: quem quiser ser o primeiro será o servo de todos. Os discípulos ainda precisam de caminhar muito mais. Veem alguém que lhes pode tirar o protagonismo e logo o afastam.
       2 – Novamente a delicadeza, o serviço, e a opção preferencial pelos mais frágeis. Sem Jesus fisicamente entre nós, Ele realmente Se faz presente pela Palavra proclamada, pelos Sacramentos, particularmente na Eucaristia, e muito especialmente Se faz presente nos pobres.
       Não há privilégios nem privilegiados. A haver discriminação será a favor dos excluídos, menosprezados, esquecidos. Partimos da mesma condição: fazer o bem em nome de Jesus. Homens ou mulheres, crianças ou idosos, europeus ou africanos, todos somos destinatários da recompensa, da salvação que Jesus nos traz. Basta fazer o bem. Em nome de Jesus, para que não nos tornemos vaidosos ao ponto de fazermos depender os outros de nós instrumentalizando-os.
       Responde-lhes Jesus: «Não o proibais; porque ninguém pode fazer um milagre em meu nome e depois dizer mal de Mim. Quem não é contra nós é por nós».
       Estamos habituados a diabolizar quem não pensa como nós. Pior, diabolizamos os que não fazem parte do nosso grupo, mesmo que tenham ideias semelhantes às nossas. Atente-se à campanha eleitoral: nós ou o caos. Combatem-se as pessoas e não os projetos. Ouvindo os diversos candidatos, todos defendem os pobres, a solidariedade social, o pelo emprego jovem, a inclusão dos idosos, a escola pública, dando prioridade à educação, à saúde, à justiça (e talvez à cultura), estarão ao lado das pequenas e médias empresas, combaterão as injustiças, a corrupção, a fuga ao fisco, para aliviar os sacrifícios dos portugueses. A Segurança Social é intocável. Os reformados, pelo menos os que recebem menos, verão um esforço por lhes ser aumentada a reforma. Haverá políticas de apoio às famílias e às empresas, promovendo dessa forma o crescimento económico e o emprego. Em relação às ideias políticas todos estamos de acordo…
       Jesus diz aos seus discípulos que o joio e o trigo crescem em simultâneo até à ceifa (cf. Mt 13, 24-30). Em vez de diabolizar há que integrar. Discutir ideias, mas acolher todas as pessoas. Nem tudo é branco e preto, há que procurar o bem em todos, a presença de Deus em cada um. O caminho de Jesus é o caminho do amor, da paixão, do serviço a todos, sem excluir, preferindo aproximar-se dos afastados. O caminho é amar. Amar sempre. Amar servindo. Não importa a quem. Não importa quem. Retomemos a parábola do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 25-37). Para se ser bom não é preciso ser judeu, ou ser cristão, o que é preciso é fazer o bem sem olhar a quem.
       3 – «Quem vos der a beber um copo de água, por serdes de Cristo não perderá a sua recompensa. Se alguém escandalizar algum destes pequeninos que creem em Mim, melhor seria para ele que lhe atassem ao pescoço uma dessas mós e o lançassem ao mar».
       Os pequeninos – os pobres, a viúva, o órfão, o estrangeiro, o pecador, o refugiado, o doente – hão de merecer a máxima atenção, cuidado e diligência. O que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos a Mim o fazeis. O que deixardes de fazer ao mais pequenino dos meus irmãos a Mim deixareis de o fazer (cf. Mt 25, 31-46).
       No dia em que se faz memória de São Vicente de Paulo, vale a pena meditar nas suas palavras: «O serviço dos pobres deve ser preferido a todos os outros e deve ser prestado sem demora… se tiverdes de deixar a oração… De facto não se trata de deixar a Deus, se é por amor de Deus que deixamos a oração: servir um pobre é também servir a Deus. A caridade é a máxima norma, e tudo deve tender para ela; é uma grande senhora: devemos cumprir o que ela manda».
       Os discípulos discutem lugares e protagonismo: qual de nós será o maior no Reino de Deus? E não satisfeitos, afastam os que possam ocupar um lugar especial no coração de Jesus ou agir em Seu nome. Ora Jesus não discute lugares, mas serviço. Não importa quem brilha! Importa quem faz transparecer Jesus e o Seu Evangelho de amor. No MEIO estará sempre Jesus, ainda que esteja no meio através dos mais pobres.

       4 – Deveríamos ficar felizes quando os outros prosperam! Mas por vezes o sucesso dos outros provoca-nos azia e inveja. Os outros não são, como diria Sarte, o inferno, pelo contrário, são um espelho no qual podemos descobrir a presença de Deus, e reconhecer-nos como irmãos.
       A primeira leitura mostra, como também o evangelho, que a inveja obscurece o olhar sobre os outros. Os líderes sábios e tementes a Deus fazem a diferença.
       Moisés só tem duas mãos e não pode resolver todos os problemas do povo. São escolhidos 70 anciãos para o ajudarem. O Espírito que estava em Moisés é "distribuído" também pelos 70 anciãos, que começam a profetizar. No acampamento ficaram dois homens que, embora estivessem inscritos, não compareceram na tenda. O Espírito também poisou sobre eles. E eles começaram a profetizar no acampamento. Entretanto um jovem correu a dizê-lo a Moisés: «Eldad e Medad estão a profetizar no acampamento». Josué, que mais tarde viria a suceder a Moisés e que estava ao seu serviço, aproveita a deixa: «Moisés, meu senhor, proíbe-os».
       Como se Eldad e Medad pudessem ofuscar a liderança de Moisés ou os padrões instituídos. Deus age além dos limites oficiais que possamos impor a partir dos nossos padrões religiosos. Moisés, que se poderia sentir diminuído, é taxativo: «Estás com ciúmes por causa de mim? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor infundisse o seu Espírito sobre eles!».
       O bem que os outros dizem e fazem deve incentivar-nos a fazer e a dizer bem.

       5 – Mais um domingo com São Tiago, cuja Epístola é uma chamada constante a assumirmos as consequências da fé professada. Todos sabemos, como diz o Apóstolo, que a fé sem obras é morta, mas não nos faz mal avivarmos a nossa consciência e o nosso compromisso.
       São Tiago concretiza com situações reais, recordando-nos que as nossas riquezas materiais e a nossa presunção espiritual nos fazem desviar de Jesus e da vivência do Evangelho.
«As vossas riquezas estão apodrecidas e as vossas vestes estão comidas pela traça. O vosso ouro e a vossa prata enferrujaram-se, e a sua ferrugem vai dar testemunho contra vós… Privastes do salário os trabalhadores que ceifaram as vossas terras. O seu salário clama; e os brados dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor do Universo… Condenastes e matastes o justo».
       Quem vive e enriquece à custa dos mais pobres há de dar contas a Deus. O ideal comunista-marxista era espoliar os ricos para enriquecer os pobres; a lógica do Evangelho é a partilha, o cuidar dos mais frágeis, venham de onde vierem. Privar o trabalhador do seu salário ou não o compensar justamente pelo trabalho realizado é um pecado que brada aos céus. Bem podemos verificar o longo caminho a percorrer. É com pesar que muitas empresas não sobrevivem. Com maior pesar quando não foram acautelados, com honestidade e justiça, os salários daqueles e daquelas que deram o corpo ao manifesto, cujo fruto do seu trabalho deveria ter sido canalizado para o pagamento dos ordenados, investindo na modernização da empresa e na formação dos seus trabalhadores. Não se exclui a justa remuneração dos proprietários e gestores, cujo trabalho e honestidade os faz merecer o seu salário.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (B): Num 11, 25-29; Sl 18 (19); Tg 5, 1-6; Mc 9, 38-43.45.47-48.

sábado, 29 de agosto de 2015

XXII Domingo do Tempo Comum - ano B - 30 de agosto

       1 – «Escutai-Me e procurai compreender. Não há nada fora do homem que ao entrar nele o possa tornar impuro. O que sai do homem é que o torna impuro; porque do interior do homem é que saem as más intenções: imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, cobiças, injustiças, fraudes, devassidão, inveja, difamação, orgulho, insensatez. Todos estes vícios saem do interior do homem e são eles que o tornam impuro».
       Jesus é perentório: não são as circunstâncias que nos circundam que moralizam as nossas ações, mas o nosso interior, as nossas escolhas. É célebre a expressão de Ortega Y Gasset: somos nós e as nossas circunstâncias. Verdade seja dita que tudo à nossa volta nos influencia, positiva e/ou negativamente. A nossa disposição altera-se se está sol ou chuva., se dormimos bem ou mal, se alguém nos chateou momentos antes, se o pequeno-almoço não nos caiu bem. Uma infinidade de circunstâncias pode alterar o nosso humor e fazer precipitar alguma atitude ou palavra. E ninguém se livra das circunstâncias.
       Contudo, as circunstâncias exteriores não fazem o carácter de uma pessoa. Somos mais que as nossas circunstâncias. Por outro lado, as nossas limitações colocam-nos em linha com as possibilidades de errar e/ou pecar. Por outro e como seres racionais, somos responsáveis por controlar/humanizar o que dizemos e o que fazemos. Um exemplo caricato: algumas pessoas bebem uns copos ou uns shots para depois dizerem "umas verdades" ou fazerem "umas maldades". Têm desculpa porque beberam?! Que não bebam!
       2 – A questão levantada por alguns fariseus e alguns escribas (doutores da Lei) não tem qualquer conotação moral, pelo menos para nós. À primeira vista não passa de uma questão de higiene. Lavar as mãos antes de comer é uma recomendação para todos. Os discípulos de Jesus devem ser exímios em tudo o que os torne mais saudáveis e mais humanos. 
       Para os judeus trata-se de uma tradição e de uma prática religiosa. Ao longo do tempo, os 10 mandamentos deram lugar a uma "catrefada" de preceitos. Quase tudo é revestido de preceito religioso. As leis habitualmente tem uma punição associada. No judaísmo as leis tem uma leitura religiosa, como garantia para ser cumpridas.
       “Os fariseus e os judeus em geral não comem sem ter lavado cuidadosamente as mãos, conforme a tradição dos antigos. Ao voltarem da praça pública, não comem sem antes se terem lavado. E seguem muitos outros costumes a que se prenderam por tradição, como lavar os copos, os jarros e as vasilhas de cobre".
       As questões legais sobre a pureza cultual escraviza as pessoas. As mulheres eram as mais sacrificadas, pois todos os meses tinham dias em que eram consideradas impuras e que não podiam conviver socialmente e muito menos aproximar-se do Templo. Após o parto, a mulher tinha que ir ao Templo para se purificar. A sua impureza cultural estende-se a todos os que com ela convivem diretamente. Faz impressão hoje avaliar assim uma tradição. Não nos passa pela cabeça que um acontecimento "natural" possa excluir, ainda que momentaneamente, as pessoas do convívio social e muito menos da prática religiosa.
       3 – Lavar ou não lavar as mãos antes das refeições?! É uma regra simples de higiene e de saúde. Os discípulos comem sem lavar as mãos! Quando muito poderia provocar algum retraimento ou asco daqueles que estavam à mesa com eles.
       Percebe-se bem que foi um pretexto, mais um, para alguns fariseus e escribas insinuarem acerca da conduta de Jesus e dos seus discípulos. Mesmo que fosse apenas uma questão higiénica, ao dizerem-Lhe que os discípulos não tinham esse cuidado, estariam a dizer-Lhe que eram uns foras-da-lei, uns maltrapilhos desleixados, que não faziam esforço para se integrarem na sociedade. E se são assim tão descuidados e não convivem bem em sociedade, como se pode esperar alguma coisa do Seu Mestre, que vê e nada diz, nada faz?
       Se pensarmos que só no séculos XIX é que alguns médicos começaram a lavar e a recomendar lavar as mãos por ocasião dos partos, dá para perceber como os judeus, também nesta questão, estavam muito à frente, sendo cuidadosos com a saúde.
       Acrescente-se outra nota de reflexão: ao entrarmos nas nossas Igrejas fazemos a ablução com a água benta. Partimos do dia-a-dia para evocar a nossa ligação à Deus, reconhecendo a nossa indigência e acolhendo a misericórdia de Deus. Também os judeus como os muçulmanos têm alguns gestos que acentuam o limite que os faz entrar num espaço sagrado. As abluções são comuns a diferentes religiões, antes de entrar no templo ou de ler os Escritos sagrados.
       4 – «Porque não seguem os teus discípulos a tradição dos antigos, e comem sem lavar as mãos?» Jesus não se faz rogado e diz-lhes: «Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: ‘Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim. É vão o culto que Me prestam, e as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos’. Vós deixais de lado o mandamento de Deus, para vos prenderdes à tradição dos homens».
       Em diversas ocasiões, Jesus chamará à atenção para zelos que não convertem, preceitos que não humanizam, leis que não aproximam e que já perderam o sentido. Quantas vezes nos agarramos a tradições anquilosadas? Sempre foi assim, assim será sempre! E o porquê desta ou daquela tradição? Seja na Igreja ou na sociedade, um dos critérios para validar uma tradição é a bondade da mesma, e se aproxima pessoas e as humaniza.
       Na parábola do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 25-37), Jesus coloca em causa a pureza cultual que esquece a caridade. O sacerdote e o levita que veem aquele homem meio-morto estendido na estrada e não o ajudam porque ficavam impuros ao tocarem-lhe. Para eles o mais importante era a pureza cultual, mesmo abandonando uma pessoa de carne e osso, lugar-tenente de Deus.
       5 – A lei tem a preocupação de regular comportamentos, protegendo as pessoas da lei do mais forte. A perspetiva será sempre proteger os mais frágeis.
       Moisés comunica ao Povo os preceitos de Deus, para que o povo viva como povo: «Agora escuta, Israel, as leis e os preceitos que vos dou a conhecer e ponde-os em prática, para que vivais e entreis na posse da terra que vos dá o Senhor, Deus de vossos pais. Não acrescentareis nada ao que vos ordeno, nem suprimireis coisa alguma... eles serão a vossa sabedoria e a vossa prudência aos olhos dos povos».
       A Lei tem um rosto e um fundamento. Moisés relembra que a Lei é sobretudo a presença próxima e amistosa de Deus: «Qual é, na verdade, a grande nação que tem a divindade tão perto de si como está perto de nós o Senhor, nosso Deus, sempre que O invocamos? E qual é a grande nação que tem mandamentos e decretos tão justos como esta lei que hoje vos apresento?».
       A justiça dos preceitos assenta precisamente na proximidade de Deus.

       6 – A segunda leitura, de São Tiago, que ora iniciamos, vai mostrar-nos com clareza a plenitude da Lei, o amor concretizado em obras, no compromisso com os mais desprotegidos. A fundamentação é a aventada já anteriormente: Deus.
       Diz-nos o apóstolo: "Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vêm do alto, descem do Pai das luzes… Foi Ele que nos gerou pela palavra da verdade… Sede cumpridores da palavra e não apenas ouvintes… A religião pura e sem mancha, aos olhos de Deus, nosso Pai, consiste em visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e conservar-se limpo do contágio do mundo".
       É Deus que nos gera pela palavra da verdade. Mais importante que conhecer a palavra, em nós plantada, é praticá-la. São Tiago dá exemplos concretos: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tripulações não se deixando arrastar pela corrente, qual "maria vai com as outras". Naquele tempo, as viúvas e os órfãos constituíam o grupo mais frágil, mais exposto, mais desfavorecido. Faziam parte das periferias existenciais com as quais os cristãos têm de estar comprometidos. 

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (B):
Deut 4, 1-2. 6-8; Sl 14 (15); Tg 1, 17-18. 21b-22. 27; Mc 7, 1-8. 14-15. 21-23.

sábado, 14 de março de 2015

Domingo IV da Quaresma - ano B - 15 de março

       1 – «Se eu me esquecer de ti, Jerusalém, esquecida fique a minha mão direita / Apegue-se-me a língua ao paladar, se não me lembrar de ti, se não fizer de Jerusalém a maior das minhas alegrias».
       Neste domingo, a liturgia propõe a alegria do Evangelho da Salvação que é manifesta em Jesus Cristo. Já se vislumbra a Páscoa. A Paixão de Jesus é prova maior do amor de Deus para connosco. Desde sempre. No pensamento de Deus existimos desde o início. Deus pensou-nos e chamou-nos, pelos nossos pais, à vida e quer-nos dar a vida abundante e feliz.
       Hoje como ontem, na Igreja como no povo eleito, os tempos são de provação, com dias de sol e dias de chuva. O importante é que de cada situação possamos descobrir e integrar o que nos enlace nos outros, aprender e amadurecer caminhos, aperfeiçoar e corrigir escolhas, discernir o que nos engrandece e nos faz mais humanos, capacitando-nos para enfrentar obstáculos com paciência e misericórdia, iluminando as oportunidades que temos pela frente, fortalecendo o nosso espírito para não nos deixarmos abater nas tempestades nem nos deixarmos endeusar nos momentos de conquista, de vitória e de bonança. A humildade será sempre a força dos que querem avançar e ficar na história como promotores da justiça, da paz e da solidariedade, a alegria daqueles que querem ver os seus nomes inscritos no coração de Deus.
       2 – «Enquanto o país não descontou os seus sábados, esteve num sábado contínuo, durante todo o tempo da sua desolação, até que se completaram setenta anos». A linguagem bíblica da primeira leitura fala-nos daquele SÁBADO contínuo em que DEUS Se coloca em atitude de ESPERA paciente e benevolente.
       O autor sagrado sublinha a iniciativa de Deus que envia mensageiros para poupar o povo e a sua morada. No entanto, o acolhimento das Suas palavras e dos Profetas surte poucos efeitos. Deus não desiste e continua a preparar o seu povo. Passaram-se 70 anos, isto é, um longo tempo de preparação e de gestação para um tempo novo. «Sobre os rios de Babilónia nos sentámos a chorar, com saudades de Sião. Nos salgueiros das suas margens, dependurámos nossas harpas». O tempo de provação aproxima-se do fim. Quem se sentir povo de Deus deverá agora pôr-se a caminho. Esta é a condição do crente: estar a caminho, em processo de conversão contínua, fazendo-Se acompanhar por Deus.
       3 – A história da salvação chega ao seu termo com a chegada de Jesus Cristo. «O Filho do homem será elevado, para que todo aquele que acredita tenha n’Ele a vida eterna». No deserto, tempo de provação do povo de Israel, Moisés levantou uma serpente de bronze. Quem olhasse para a serpente seria salvo. Era uma situação provisória e pontual. O filho do Homem, Jesus, será levantado da terra, e todos os que contemplarem a Sua Cruz, deixando-se trespassar e transformar pelo olhar de Cristo, serão salvos. É um acontecimento pleno e definitivo.
       «Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele». Como prometido e anunciado, Deus continua a dar-nos oportunidades, a última das quais nos é dada com Cristo. Deus dá-nos o melhor que tem para nós: o Seu filho muito amado.
       E o que é necessário para termos direito à vida eterna? Nada. A vida eterna é-nos dada por Jesus Cristo, com a Sua vida, com a Sua morte e ressurreição. Só precisamos de nos dispor a acolher a Luz que d'Ele vem, a acreditar que Ele é a nossa vida, deixando-nos envolver e comprometer pelo amor que nos traz da eternidade, para que pouco a pouco nos possamos identificar com Ele.
       A salvação é dom de Deus, como nos diz o apóstolo São Paulo: «Deus, que é rico em misericórdia, pela grande caridade com que nos amou, a nós, que estávamos mortos por causa dos nossos pecados, restituiu-nos à vida com Cristo – é pela graça que fostes salvos – e com Ele nos ressuscitou e com Ele nos fez sentar nos Céus... é pela graça que fostes salvos, por meio da fé. A salvação não vem de vós: é dom de Deus».
       A condenação é o inverso. É condenado quem não acredita n'Ele, quem ama mais as trevas que a Luz que Deus nos dá por Jesus Cristo. Quem pratica o mal, anda nas trevas. Quem pratica o bem não se esconde da luz que nos envolve.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano B): 2 Cr 36, 14-16. 19-23; Sl 136 (137); Ef 2, 4-10; Jo 3, 14-21.

sábado, 7 de março de 2015

Domingo III da Quaresma - ano B - 8 de março de 2015

       1 – «Destruí este templo e em três dias o levantarei». Resposta de Jesus àqueles que o questionaram sobre a autoridade com que repreende e expulsa os vendilhões do templo.
       Os ouvintes de Jesus replicam com outra questão, fundamentada na experiência e na história: «Foram precisos quarenta e seis anos para se construir este templo e Tu vais levantá-lo em três dias?». Como sublinha o evangelista, são duas leituras diferentes sobre realidades distintas. Os judeus falam do templo de Jerusalém. Jesus fala da Sua vida, anunciando a Sua morte e a Sua ressurreição três dias depois de ser morto. «Quando Ele ressuscitou dos mortos, os discípulos lembraram-se do que tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus».
       Neste terceiro domingo da Quaresma, com Jesus no Templo de Jerusalém, de quê ângulo nos colocamos? Como cambistas ou como Seus seguidores? A casa é lugar, é espaço sagrado, é altar, é sacramento, do nosso encontro com Deus e com os irmãos, seja templo de pedra ou a nossa vida, e, por conseguinte, deverá ser honrado, íntegro, sem barreiras ou tralha que nos impeça de voltar o coração para o alto e abraçar os que prosseguem na mesma caminhada.
       Mais à frente, no diálogo com a Samaritana, Jesus concluirá, com todas as letras, que o verdadeiro culto não se realiza em Jerusalém ou em Gerizim, mas em espírito e verdade, através do nosso corpo, da nossa vida por inteiro. Porém, e como se conclui da atitude de Jesus, os espaços sagrados devem ser respeitados e respeitáveis, pois possibilitam um maior recolhimento para nos encontrarmos connosco, com os outros, com Deus.
       Três domingos e três espaços para encontrar Deus. No deserto, onde as seguranças, os pontos de referência, não existem, ficámos a sós com Deus. Poderá advir a tentação, a prova, o amadurecimento da fé. O monte que nos invita a sair do nosso conforto e comodismo, exigindo que nos ponhamos a caminho e subamos, não para ficarmos envoltos em nuvens, mas para regressarmos e trazermos a luz ao mundo, descendo ao compromisso quotidiano. Hoje é o Templo, espaço sagrado (separado da banalidade, do mundo, ainda que dentro do mundo), para sentirmos que Deus tem lugar e hora marcada connosco, não é simples abstração espiritual.
       2 – «Não façais da casa de Meu Pai, casa de comércio». Nas entrelinhas, os discípulos percebem as palavras da Escritura Sagrada: «Devora-me o zelo pela tua casa». Quem não respeita a casa onde vive... quem não respeita esta casa de todos, o mundo... não respeitará a casa dos outros nem saberá reconhecer que a verdadeira casa, o templo novo, é o nosso corpo, a nossa vida, através da qual comunicamos e nos comunicamos, através da qual estamos diante dos outros e nos podemos encontrar e reconhecer como irmãos.
       Jesus é o TEMPLO que nos acolhe. A Sua vida, feita doação, tornar-se-á LUGAR de encontro e de vida nova. N'Ele seremos uma só família para Deus. Do alto da Cruz, Ele nos assumirá como irmãos e dar-nos-á como referência, como Mãe, a Sua Mãe, para que n'Ela aprendamos a amar-nos uns aos outros. Uma casa só será verdadeiramente humana com a presença de uma Mãe e, por conseguinte, Maria cuidará de nós para que a casa do Pai não seja casa de comércio, mas casa de encontro, de partilha e de comunhão. Uma Mãe tudo fará para que entre os filhos se esbatam quaisquer contendas, rivalidades ou negociatas!
       É preciso muito tempo para construir, edificar, para solidificar. Num edifício como nas nossas vidas, na nossa família e no grupo de amigos. Para destruir por vezes basta uma pequena aragem, uma palavra, um gesto, uma gota de inveja. Um jardim leva uma geração a ficar do agrado de quem dele cuida. Uma família está sempre em aperfeiçoamento, entre alegrias e tristezas.
       E, no entanto, um animal selvagem pode destruir um jardim em alguns minutos, ou uma praga, ou um temporal. Assim na família, assim na Igreja, assim na sociedade. O que muitos em muito tempo edificaram, poucos em pouco tempo podem destruir com a maior das facilidades. E até a madeira mais dura, endurecida pela qualidade, pelos anos e pelo tratamento pode ser carcomida por alguma traça. Todo o cuidado é pouco. Será muito importante não desistir. Deus não desiste de nós. Nunca desiste da humanidade. Não desistamos uns dos outros!
       3 – Jesus edifica este novo Templo sobre rocha firme, sobre a Sua própria vida, que nos dá para que tenhamos, n'Ele, vida abundante. Como os ramos em relação à vide se mantêm viçosos e dão muito fruto também nós se nos mantivermos como membros do Corpo de Cristo formaremos um Templo robusto e durável.
       Neste Templo não há pedras a mais ou desnecessárias. Ele resgata-nos para Deus com a Sua vida e a Sua morte, feita dom. A ressurreição logo chegará; com Ele nos colocará em Deus de onde nos atrai. Mas porquanto é tempo de caminhar, de construir. É necessário descer da montanha, sair do Templo. As cearas ainda não estão prontas para a ceifa. O Filho do Homem vai ser morto. Mas não será uma morte em vão, pois ninguém lhe tira verdadeiramente a vida, Ele no-la oferece, por amor.
       É a maior dádiva. Naquele tempo como neste outros tesouros nos atraem. "Os judeus pedem milagres e os gregos procuram a sabedoria". E continua o apóstolo: "Quanto a nós, pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios; mas para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é poder e sabedoria de Deus. Pois o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens".
       Seguimos um Homem cujo poder se visualiza na Cruz, na fragilidade e na impotência, onde nos revemos. Salvar-nos-á pelo amor e não pela força, gastando-se até à última gota de sangue. Nova e eterna Aliança. Dando-nos a vida, dá-nos o Céu.

       4 – Ao longo de gerações, de Adão a David, de Elias a João Batista, de Eva a Maria, Deus nos desafia, nos interpela, conta connosco para estabelecer um pacto que faça germinar a vida, salvando a humanidade, restaurando a Aliança sempre que é quebrada. Unilateralmente. Em Noé. Em Abraão. O interlocutor deste domingo é Moisés, ou melhor, é o Povo de Deus e Deus especifica de novo as condições, que brotam da Sua misericórdia e nos aponta um caminho de salvação e de felicidade:
«Uso de misericórdia até à milésima geração para com aqueles que Me amam e guardam os meus mandamentos... Durante seis dias trabalharás e levarás a cabo todas as tuas tarefas. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus... Honra pai e mãe, a fim de prolongares os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te vai dar. Não matarás. Não cometerás adultério. Não furtarás. Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo. Não cobiçarás a casa do teu próximo; não desejarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo nem a sua serva, o seu boi ou o seu jumento, nem coisa alguma que lhe pertença».
       Se partirmos de Deus encontraremos o caminho para amar, respeitar e promover a vida dos outros, acolhendo-os como iguais. Como no relembra o salmo, «a lei do Senhor é perfeita, / ela reconforta a alma; / as ordens do Senhor são firmes, / dão sabedoria aos simples». Por outras palavras, a Lei de Deus não tem como preocupação primeira fazer-nos andar na linha, mas conduzir-nos à felicidade duradoura, que mutuamente nos inclui, para que num só coração, sejamos uma só família humana (cf. tema da Semana Nacional Cáritas).

Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia (ano B): Ex 20, 1-17; Sl 18 (19); 1 Cor 1, 22-25; Jo 2, 13-25.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Sede santos, porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo

Moisés dirige a Palavra do Senhor a todo o povo nos seguintes termos:

        "Sede santos, porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo. Não furtareis, não direis mentiras, nem cometereis fraudes uns com os outros. Não prestarás juramento falso, invocando o meu nome, pois profanarias o nome do teu Deus. Eu sou o Senhor. Não oprimirás nem expropriarás o teu próximo. Não ficará contigo até ao dia seguinte o salário do jornaleiro. Não insultarás um surdo nem colocarás tropeços diante de um cego, mas temerás o teu Deus. Eu sou o Senhor. Não cometerás injustiças nos teus julgamentos: não favorecerás indevidamente um pobre, nem darás preferência ao poderoso; julgarás o teu próximo segundo a justiça. Não caluniarás os teus parentes, nem conspirarás contra a vida do teu próximo. Eu sou o Senhor. Não odiarás do íntimo do coração os teus irmãos, mas corrigirás o teu próximo, para não incorreres em falta por causa dele. Não te vingarás, nem guardarás rancor contra os filhos do teu povo. Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor" (Lev 19, 1-2.11-18).
       A referência da nossa vida é Deus. Ainda que no nosso peregrinar possamos encontrar pessoas, que pelo seu testemunho, sejam exemplares, a referência última é Deus. A Ele devemos seguir e imitar. Moisés di-lo claramente, emprestando as suas palavras a Deus: "Sede santos, por Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo". É a primeira motivação, o ponto de partida. O ideal.
       E para sermos santos ao jeito do Senhor nosso Deus, o compromisso sério com o nosso semelhante: não cometer injustiças, não reter o bem alheio, não favorecer ninguém nos julgamentos, não caluniar, não odiar, mas corrigir, não e vingar, não mentir, não levantar falsos testemunhos ou suspeitas em relação aos outros, não prestar julgamentos falsos. Ou seja, amar o próximo como a nós mesmos.

sábado, 23 de novembro de 2013

Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo - 24 novembro

       1 – A realeza de Jesus Cristo que hoje temos a dita de celebrar assenta no Amor, na doação por inteiro, na entrega da vida a favor dos outros. É uma realeza frágil, exposta, carente, dependente do acolhimento e da aceitação alheia. Não é imposta e não vive pela força, pelas armas, pela persuasão coerciva, pelo estatuto social, cultural, político ou religioso. Impõe-se unicamente pelo serviço, pelo testemunho, como lâmpada que se acende para irradiar Luz.
       Hoje são vários os motivos que nos levam/trazem à Eucaristia: solenidade de Cristo Rei, Senhor do Universo, Dia da Igreja Diocesana de Lamego, Encerramento do Ano da Fé, convocado por Bento XVI e concluído pelo Papa Francisco.
        A síntese e o enquadramento do Ano da Fé pode encontrar-se na primeira carta Encíclica do novo Papa, Lumen Fidei, escrita a quatro mãos, preparada por Bento XVI e assumida, com as suas contribuições pessoais, por Francisco. Melhor síntese ainda: a passagem de testemunho de um a outro papa, sublime Evangelho da Humildade. Um, a fé, o serviço e o despojamento, pondo em evidência o que sempre foi: simples trabalhador da vinha do Senhor. Outro, com a temperatura muito latina, próximo, afável, universalizando o que era como sacerdote e cardeal, pastor da proximidade e da clareza, do encontro e da ternura. A Barca, porém, é conduzida, ontem como hoje, pelo Bom Pastor, Cristo Senhor. Outra síntese luminosa, anunciada neste ano, a canonização do Bom Papa João XXIII e do infatigável papa João Paulo II, a realizar em 27 de abril de 2014.
        2 – Curioso o Evangelho que hoje nos é proposto: a coroação de Jesus realiza-se na Cruz, bela expressão do Amor sem fronteiras nem reservas, sem condições prévias.
       Alguns zombam de Jesus: «Salvou os outros: salve-Se a Si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito»; «Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo»; «Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo e a nós também». O próprio letreiro pregado na cruz refere a realeza de Jesus: «Este é o Rei dos judeus».
       A zombaria contrasta com a bondade de Jesus durante a vida pública. Ele prega e vive a proximidade com todos, especialmente com as pessoas mais frágeis e desconsideradas social, política e religiosamente, acerca-se delas, faz-Se caminho para coxos, aleijados, portadores de deficiência, publicanos, crianças, mulheres. Coloca no centro precisamente aqueles que foram colocados (ou se colocaram) nas periferias da vida. Surge como Messias prometido e esperado. São multidões que acorrem à Sua presença, para O ver, para O ouvir, para se encontrarem com Ele. É o Eleito do Senhor, Aquele em Quem Deus pôs todo o Seu enlevo, a Sua complacência.
       Quando entra triunfalmente em Jerusalém (em Domingo de Ramos), faz-nos visualizar uma realeza pobre, despretensiosa, humilde. Não é acompanhado com carros de bois e de cavalos, com forte exército, armado, para O protegerem. Vai em cima de um burrito, símbolo da pobreza, do despojamento, sem adornos nem artifícios. E até o jumento é emprestado. No final, Jesus não tem nada, nem sequer Lhe é permitido ficar com a roupa do corpo. Nada tem. Tudo é para Deus. É todo de Deus. É todo para a humanidade.
       3 – A história de salvação, que nos chega através da Sagrada Escritura, e do Povo da Aliança, no qual nasce Jesus, está marcada pelo desejo de uma realeza agregadora, fazendo com que o povo judeu seja luz para as nações, e nele sejam abençoados todos os povos da terra, como bem expressa o velho Simeão aquando da apresentação de Jesus no Templo.
       É uma promessa constantemente renovada. O próprio Deus exercerá a justiça e o poder sobre Israel e sobre o mundo inteiro. A condição colocada é a observância dos preceitos de Deus, sintetizados nos 10 mandamentos.
       O grande líder é Moisés. Fala com Deus, face a face, e, por seu intermédio, o povo é libertado e chega às portas da terra prometida. A liderança justa e gloriosa de Moisés, após a sua morte, provoca o sonho de um novo Moisés que conduza novamente o povo a uma terra prometida, onde corra leite e mel, terra fértil em paz, unidade e justiça.
       As coisas nem sempre correm como esperado. No horizonte surge um REI cuja sabedoria parece iluminar os seus súbditos. David, o pastor, humilde e pobre, que passa despercebido, e se torna Rei. Não é um rei imposto, mas proposto: governa sobre nós, "somos dos teus ossos e da tua carne". O argumento é sobrenatural: «o Senhor disse-te: ‘Tu apascentarás o meu povo de Israel, tu serás rei de Israel’». David é ungido. A aliança é tripartida, do rei com o povo, diante do Senhor Deus. David congrega todas as tribos de Israel num só povo (para Deus). Ainda em vida assiste a contendas que mais à frente hão de desmoronar a harmonia que ele conseguiu. O sonho prossegue no desejo de um novo David, um pastor de Israel, que conduza o povo a pastagens verdejantes, fundando a nova Jerusalém.
       Para nós, cristãos, Jesus Cristo é, sem dúvida, o novo Moisés, o novo David, o Ungido do Senhor. E mais que isso, é o Filho de Deus entre nós, sem coroa e sem poder. Vem para congregar com a força do perdão e do amor, introduzindo-nos na verdadeira e sempiterna cidade santa, a mais bela morada do Deus altíssimo, para a qual estamos convocados!

       4 – «O meu reino não é deste mundo». Diante de Pilatos Jesus acentua a sobrenaturalidade do Reino de Deus, visível aos simples e humildes de coração, interior e com efeitos na prática do bem e da justiça. Se o meu reino fosse deste mundo, diz Jesus, então os meus guardas viriam para Me proteger. Se fosse uma questão de poder, Deus mandaria os exércitos celestes, e num instante faria desaparecer da face da terra todos os malfeitores. Mas o meu reino não é deste mundo. Não é aqui que se realiza a Jerusalém celeste, mas é aqui que se inicia este projeto de vida nova. A cidade de Deus está no meio dos homens, é Jesus Cristo.
       O grito do bom ladrão chega ao Céu: «Jesus, lembra-Te de Mim, quando vieres com a tua realeza». A resposta dada é também para nós: «Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso». Esta certeza, que nos é revelada por Jesus Cristo, provoca-nos a alegria do salmista: «Alegrei-me quando me disseram: 'Vamos para a casa do Senhor'».
       Com a morte e a ressurreição de Cristo chega até nós a vastidão do Céu. N'Ele somos assumidos, não como súbditos mas como filhos bem-amados, como herdeiros da verdadeira aliança que Se alicerça no sangue e no corpo de Jesus, na Sua vida por inteiro, inteiramente oferecida a nosso favor. Por isso, «damos graças a Deus Pai, que nos fez dignos de tomar parte na herança dos santos, na luz divina. Ele nos libertou do poder das trevas e nos transferiu para o reino do seu Filho muito amado, no qual temos a redenção, o perdão dos pecados. Cristo é a imagem de Deus invisível, o Primogénito de toda a criatura... Ele é a cabeça da Igreja, que é o seu corpo. Aprouve a Deus que n’Ele residisse toda a plenitude e por Ele fossem reconciliadas consigo todas as coisas, estabelecendo a paz, pelo sangue da sua cruz, com todas as criaturas na terra e nos céus».
       A última tentação, na Cruz e na vida, é o “cada um por si”, cada um procurar salvar-se a si mesmo, usando todos os meios, mesmo que à custa de outros. «Salva-te e ti e a nós também». Jesus não quer salvar a pele e muito menos à custa do sacrifício de outros. Ao invés, Jesus oferece-Se como sacrifício, como Amor partilhado, para salvar a todos. No final, Ele não se livra do sofrimento, do suplício e da morte. Mas aprouve a Deus que na Sua oferenda todos fôssemos reconciliados com Ele, eternamente.

Textos para a Eucaristia: 2 Sam 5, 1-3; Sl 121 (122); Col 1, 12-20; Lc 23, 35-43.