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terça-feira, 3 de janeiro de 2017

VL - E tudo se renova… ressuscitando!

       As Portas da Misericórdia encerram-se mas não a Misericórdia divina. Como referiu o nosso Bispo, na Solenidade de Cristo Rei, no passado dia 20 de novembro, o encerrar das Portas recorda-nos a urgência de ir e levar a misericórdia a toda a gente, a todo o mundo.
       No Arciprestado de Moimenta da Beira-Sernancelhe-Tabuaço, a Caminhada do Advento, proposta às paróquias que o constituem, sintonizando com o plano pastoral diocesano e com a liturgia dominical, inicia com uma porta fechada, para impedir os ladrões de entrar. No decorrer da Eucaristia, a porta abre-se para que Jesus entre, deixando que Ele nasça na nossa vida. Fechamo-nos ao mal, a todo o tipo de guerra, dispomo-nos à paz, a construir, a viver as obras de misericórdia, a despertarmos do sono para saborearmos o DIA que irradia com a vinda de Cristo.
       O Advento é tempo de graça e salvação. Sendo um tempo novo, o Advento não se desfaz do que está antes, mas dá-lhe o colorido da festa que se aproxima, comprometendo-nos mais, fazendo-nos recordar a razão da nossa esperança e do nosso compromisso com os outros. Preparamo-nos para celebrar o aniversário de Jesus. Não é algo que se repita. Nada se repete na nossa vida. Cada instante conta. Cada segundo. É a minha, a tua, a nossa vida. Todos os momentos são importantes. Todos os minutos valem!
       Um ciclo finda, outro se inicia, entrelaçando-se no anterior e projetando-nos para o futuro, em espiral. Nos textos da liturgia (cf. Mt 24, 37-44), Jesus a desafia-nos à vigilância para que a Sua vinda não passe despercebida como no tempo de Noé, em que as pessoas comiam e bebiam, casavam-se e davam em casamento e só se aperceberam do dilúvio quando este chegou. Era tarde demais!
       Jesus anuncia aos seus discípulos um tempo novo que está a chegar, aproxima-se a Sua morte. Logo advirá a Sua ressurreição, inaugurando, em plenitude, um Reino novo, de paz e de misericórdia, de justiça e de amor. Naquele tempo, o mistério da Sua morte e da Sua ressurreição passou indiferente para muitos. Também nos pode passar ao lado. Não podemos deixar o tempo correr. É preciso que saboreemos a vida e nos comprometamos uns com os outros.
       Ele continua a emergir na nossa vida e a ressuscitar connosco em todo o bem que praticamos. Por ora, preparamos a celebração da Sua primeira vinda, mas em dinâmica futura. Jesus volta. Não tardará. Como nos vai encontrar? Como O vamos receber?

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4389, de 29 de novembro de 2016

VL – E tudo de renova… ressuscitando! – 2

       «Vigiai, pois, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor. Ficai sabendo isto: Se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão, estaria vigilante e não deixaria arrombar a casa. Por isso, estai também preparados, porque o Filho do Homem virá na hora em que não pensais» (Mt 24, 42-44).
       O que se avizinha não tem de ser atemorizador! A salvação está ao nosso alcance, foi-nos colocada na palma da mão. Jesus viveu e morreu por nós, por mim e por ti. E, por mim e por ti, por nós, ressuscitou. Introduziu-nos na eternidade de Deus. Deixemos que nasça em nós, na nossa vida, que nasça e nos ressuscite, nos desperte para a vida abundante de graça e de misericórdia.
       Nada há a temer quando estamos preparados. Sabendo que Ele vem. Há 2.000 mil anos veio ao mundo. A Sua vinda conjuga-se agora no presente. Vem. E vem para ficar, para criar raízes. E para que n'Ele enraizemos a nossa vida. Lembremo-nos que os ramos crescem à medida que as raízes se fincam na terra. Ou, noutra imagem, a videira e a seiva que alimentam os ramos e as folhas. Quando a vida de Jesus Cristo circula em nós então a nossa vida está garantida, como promessa e como tarefa. Os sustos que apanhamos têm a ver com o facto de estarmos desprevenidos. Jesus previne-nos para estarmos preparados, para O reconhecermos e O acolhermos.
       No "Principezinho", a Raposa sublinha a alegria a crescer com o aproximar do encontro com o Principezinho quando sabe a hora do mesmo. "Teria sido preferível teres voltado à mesma hora. Se vieres, por exemplo, às quatro horas da tarde, eu, a partir das três, já começo a ser feliz. Quanto mais se aproximar a hora, mais feliz me sentirei. Às quatro em ponto já estarei agitada e inquieta; descobrirei o preço da felicidade! Mas se vieres a qualquer hora, ficarei sem saber a que horas hei de vestir o meu coração..."
       Ora, Jesus diz-nos que está a chegar. Revistamo-nos de alegria e de esperança. Preparemo-nos para que não nos surpreenda distraídos. Abramos os ouvidos, os olhos, o coração, a vida por inteiro. Ele está a chegar. Não aqui ou ali. Mas em nós. Em cada pessoa que se aproxima de nós, em cada pessoa de quem nos aproximamos. Em todo o tempo! A qualquer hora!

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4391, de 13 de dezembro de 2016

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Grupo de Jovens de Tabuaço e a vivência do Natal

       As pessoas e os grupos são igualmente importantes na comunidade paroquial. Em alguns momentos grupos e/ou pessoas destacam-se por um trabalho mais comprometido e mais visível... por vezes pontualmente outras vezes ao longo de todo o ano, como as Zeladoras dos altares e da igreja, conselhos de pastoral e para os assuntos económicos, acólitos, grupos corais, grupo de catequistas, leitores...
       Durante a Caminhada do Advento e do Natal, as catequistas e os jovens estiveram em maior relevância. Por sua vez o Grupo de Jovens esteve envolvido em diferentes momentos e celebrações: produção de presépio em tela para colocar no exterior/entrada da igreja, arranjo de cenário para a encenação na Missa do Galo. Dois dias depois Natal, a presença dos jovens no Lar da Santa Casa, com algumas músicas alusivas ao Natal, reposição da encenação feita na Missa do Galo, sobre o nascimento de Jesus e das circunstâncias em que nasceu, beijar do Menino.
       No final, a Santa Casa da Misericórdia ofereceu o lanche aos jovens presentes.
       Segue-se conjunto de fotos destes momentos:

sábado, 31 de dezembro de 2016

Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus - 2017

       1 – Cada novo ano civil se inicia sob o patrocínio de Maria, Mãe de Deus. Renovamos a esperança num mundo em que (re)nasça e cresça a paz e a alegria, a luz e a justiça e a ternura da Virgem Mãe.
       A vida de Jesus é envolvida pela docilidade e delicadeza, pela inclusão e pelo cuidado aos mais frágeis. Como lembra São Pedro, o Senhor Jesus passou fazendo o bem, sem fazer aceção de pessoas. Por certo não será difícil encontrar a doçura, a afetividade, a delicadeza em Maria e em toda a sagrada Família. A entreajuda nas tarefas de casa e nos compromissos sociais, a participação na vida da comunidade, os tempos de festa e de alegria, os momentos de dor, de perda e de luto, as grandes comemorações comunitárias e o ritmo semanal que culmina na reunião familiar, na refeição ritual, na ida à Sinagoga para agradecer a vida, para invocar as bênçãos de Deus para a família, para a aldeia e para o povo, para o trabalho e para os animais, que garantirão parte essencial da alimentação, para recordar a história e a aliança de Deus com o Seu povo e a promessa de novos tempos de prosperidade e de bênção.
       Pelo fruto se vê a árvore. E os frutos que Jesus vive e partilha clarificam e testemunham a vivência na Sua família humana. Em tempos difíceis, sob o domínio do império romano, as famílias e as comunidades apoiam-se mutuamente para sobreviverem. A elevada carga de impostos que têm de pagar às autoridades dificultam a vida mas fortalecem a união. Seguindo a Lei do Senhor, a atenção aos mais pobres, provendo agasalho, alimento e abrigo. Os dias de festa são para todos. Quem pode mais, ajuda quem se encontra em situação periclitante. Os estrangeiros e pedintes são acarinhados, lembrando-se que também foram estrangeiros. Esse auxílio agrada ao Senhor.
        2 – No Principezinho, o narrador inicia a sua história com um desenho: uma jiboia a digerir um elefante. Como os adultos não percebem o desenho, faz um segundo, colocando os contornos do elefante dentro da jiboia. Tinha então seis anos de idade e mostra o desenho 1 e depois o 2 para meter medo, mas para quem vê não passa de um chapéu. Dizem-lhe que deixe de brincar e se dedique à história, à geografia, à matemática e à gramática. Só mais tarde, muito mais tarde, já aviador, perdido no deserto do Saara, alguém, o pequeno Príncipe, percebe espontaneamente o seu desenho: uma jiboia a digerir um elefante! Afinal, as pessoas adultas são esquisitas, andam de um lado para o outro e nem sabem o que procuram!
       «Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado…» (Lc 10, 21).
       Só os pequeninos, os pobres, os simples, os humildes de coração compreendem os mistérios de Deus e, quando não compreendem, confiam. Não admira, portanto, que sejam os pastores os primeiros a escutarem a luz e a voz que vem das alturas e a compreenderem que Aquele Menino é uma bênção de Deus dado à humanidade.
       Os pastores são gente simples, pobre, humilde! Aproximam-se rapidamente de Maria e de José, veem o Menino deitado na manjedoura e extravasam de alegria, relatando tudo o que ouviram acerca d'Aquele Menino. Todos ficam maravilhados. Têm o encanto do encontro e a alegria da partilha. Há de ser assim o nosso encontro com Jesus, contando-Lhe a nossa vida e confiando-Lhe os nossos anseios e preocupações, os nossos sonhos e projetos. Em simultâneo, atraiamos outros com o nosso entusiasmo em falar de Jesus, em viver perto de Jesus, em transparecer Jesus. Sempre que isso acontecer connosco, outros hão de escutar e hão de aproximar-se, farão a experiência do encontro e alegrar-se-ão a partilhar a boa Nova de Jesus.
       Sublinha-se, neste episódio, a importância da dimensão missionária. Os pastores escutam os Anjos. Diante de Jesus, Maria e José, dizem as razões da sua alegria. No regresso a suas casas continuam a anunciar Jesus e o que Deus fez a favor de todo o povo.
       3 – «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38) «A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da sua serva...» (Lc 1, 46-55). As palavras de Maria sublinham a humildade com que acolhe e vive a Sua vocação de Se tornar a Mãe do Salvador. Como sublinhava o então Cardeal Ratzinger / Bento XVI, Maria engrandece o Senhor, não que Deus possa ser engrandecido, mas porque Maria, na Sua humildade e transparência, permite que a grandeza de Deus Se torne manifesta e visível para o mundo. É a Sua missão. Há de ser também a nossa: engrandecermos, com humildade, nas palavras e nos silêncios, nos gestos e nas obras, a presença de Deus, para que Ele, em nós e através de nós, continue a operar maravilhas.
       Maria é a Aurora da Salvação, a Estrela da Manhã, é Mãe de Deus e nossa Mãe, é Mãe da Igreja. É o primeiro sacrário da história, guarda em Si, no Seu ventre e no Seu coração, Aquele que há de ser para todos salvação e luz. É discípula e missionária da alegria, que comunica a Isabel, aquando da visitação, e que presencia no nascimento de Jesus e na visita dos Pastores e, mais tarde, dos Magos vindos do Oriente, vindos de toda a parte. Por vezes as palavras traduzem a alegria, o espanto, a admiração. Os pastores não disfarçam a a alegria deste encontro e têm urgência em comunicar tudo o que ouviram acerca deste Menino. E continuam pelo tempo fora a anunciar as palavras dos Anjos e a agradável surpresa do encontro com a Sagrada Família de Maria, José e Jesus.
       Maria deixa que as palavras saltem do coração, quando se encontra com Isabel. Hoje mantém-se atenta, a escutar com o coração, a meditar nas palavras proferidas pelos pastores. «Maria conservava todos estes acontecimentos, meditando-os em seu coração». Como reiteradamente tem salientado o nosso Bispo, D. António Couto, Maria não apenas escuta mas compõe as palavras e os acontecimentos que lhe chegam ao coração. É uma melodia nova que está a manifestar-Se ao mundo.
       4 – A chegada do Deus-Menino, Deus connosco, Jesus (= Aquele que salva), é a maior das bênçãos para a humanidade tantas vezes perdida em confusões e em conflitos, em que pessoas e povos se afirmam pela força. O primeiro dia do ano é também Dia Mundial da Paz. O Papa Francisco, reconhecendo que vivemos num mundo dilacerado pela violência, pela guerra «aos pedaços», terrorismo, criminalidade, ataques e abusos contra os migrantes e refugiados, tráfico humano, devastação ambiental, desafia: «Sejam a caridade e a não-violência a guiar o modo como nos tratamos uns aos outros nas relações interpessoais, sociais e internacionais… Desde o nível local e diário até ao nível da ordem mundial, possa a não-violência tornar-se o estilo caraterístico das nossas decisões, dos nossos relacionamentos, das nossas ações, da política em todas as suas formas».
       Na primeira leitura, Deus convoca Moisés para comunicar a bênção a todo o povo. Bênção é a mais bela oração que podemos proferir, pois as palavras comprometem a vida. Tornamo-nos fiadores do bem que professamos, pois o bem dito exige o bem a ser feito. "O Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável. O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz".
       Se, com verdade, invocamos a bênção de Deus para nós, então ficamos comprometidos na partilha dessa bênção. Deus não abençoa sob reservas ou condições, com aceção de pessoas, mas abençoa a humanidade inteira. O Antigo Testamento deixa vir ao de cima este compromisso universal. Deus abençoa Abraão para que nele sejam abençoados os povos de toda a terra. Como recorda o velho Simeão, na apresentação de Jesus no Templo: os «meus olhos viram a Salvação que ofereceste a todos os povos, Luz para se revelar às nações» (Lc 2, 30-32).

       5 – Chegada a plenitude do tempo, Deus dá-nos o Seu Filho muito amado, para nos resgatar do pecado e da morte, das trevas e da escravidão da Lei. Faz-Se lei para nos tornar filhos adotivos, como sublinha São Paulo, e assim também nós, libertos das cadeias da injustiça e do mal, possamos trabalhar por um mundo mais humano e fraterno, mais pacífico e solidário, procurando que todos se sintam em casa, em segurança e alegria, confiantes no futuro e sobretudo confiando nos outros, que acolhemos como presença de Deus.
       Será um bom propósito para iniciar e viver este novo ano. Maria acompanha-nos, estimulando-nos a seguir Jesus, a acolher e amar Jesus, a multiplicarmos a graça que Deus nos dá em abundância, ou, como Ela, tornar-nos de tal modo transparentes que as maravilhas de Deus sejam visíveis em nós e em tudo o que façamos. A oração será o ponto de partida e o ambiente para vivermos, como Maria, ao jeito de Jesus. "Senhor nosso Deus, que, pela virgindade fecunda de Maria Santíssima, destes aos homens a salvação eterna, fazei-nos sentir a intercessão daquela que nos trouxe o Autor da vida, Jesus Cristo, vosso filho".
       Se nos predispomos a rezar, predispomo-nos a satisfazer em palavras e obras a vontade de Deus. Só assim a nossa oração é autêntica. Não pedimos a Deus para cumprir a nossa vontade, pedimos que nos ajude a compreender e a realizar a Sua vontade.
       "Deus Se compadeça de nós e nos dê a sua bênção, resplandeça sobre nós a luz do seu rosto… Alegrem-se e exultem as nações, porque julgais os povos com justiça... Deus nos dê a sua bênção e chegue o seu temor aos confins da terra" (salmo).

Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia (A): Num 6, 22-27; Sl 66 (67); Gal 4, 4-7; Lc 2, 16-21.

O Verbo Se fez carne e veio habitar no meio de nós

       "No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. No princípio, Ele estava com Deus. Tudo se fez por meio d’Ele e sem Ele nada foi feito. N’Ele estava a vida e a vida era a luz dos homens. A luz brilha nas trevas e as trevas não a receberam. Apareceu um homem enviado por Deus, chamado João. Veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos acreditassem por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz. O Verbo era a luz verdadeira, que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem. Estava no mundo e o mundo, que foi feito por Ele, não O conheceu. Veio para o que era seu e os seus não O receberam. Mas àqueles que O receberam e acreditaram no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. Estes não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. E o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós. Nós vimos a sua glória, glória que Lhe vem do Pai como Filho Unigénito, cheio de graça e de verdade. João dá testemunho d’Ele, exclamando: «Era deste que eu dizia: ‘O que vem depois de mim passou à minha frente, porque existia antes de mim’». Na verdade, foi da sua plenitude que todos nós recebemos graça sobre graça. Porque, se a Lei foi dada por meio de Moisés, a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo. A Deus, nunca ninguém O viu. O Filho Unigénito, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer" (Jo 1, 1-18).
       O texto do Evangelho que nos é proposto para hoje é o mesmo do dia de Natal, revelando-nos que Jesus Cristo é o Verbo encarnada, a Palavra que Se faz pessoa. A palavra criadora de Deus é também palavra salvadora. É Jesus Cristo que em definitivo nos revela o rosto de Deus. Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida, é por Ele que vamos ao Pai a Quem jamais alguém viu, o Filho é que O dá a conhecer.
       A grande alegria pelo nascimento de Jesus Cristo, o Deus que Se despoja da Sua grandeza, para comungar a humanidade connosco e de novo nos conduzir pelo caminho da vida, deve motivar-nos a viver cada vez melhor, cada vez em maior sintonia com o Senhor Jesus.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Natal de Jesus Cristo - 2016

       1 – O maior poder não é o que se impõe pela força, mas pelo amor. Não o que se consegue pela supremacia, a partir do exterior, mas o que surge livre a partir do interior. O Natal vem de fora, vem da eternidade, mas não se impõe a partir do exterior ou a partir de cima, mas nasce, enraíza-Se, encarna, torna-Se carne da nossa carne e osso dos nossos ossos, identifica-Se e confunde-Se connosco, entranha-Se no mundo, mistura-Se com a humanidade.
       São João Paulo II desafiava os jovens a serem evangelizadores dos outros jovens, pois ninguém como eles estaria tão preparado para evangelizar os jovens da mesma idade: eles percebem os mesmos códigos linguísticos que, por ventura, escapam aos mais velhos. 
       Para compreendermos os outros precisamos de nos sentir próximos. Precisamos de nos colocar no lugar do outro, mesmo que isso seja impossível, pois o tempo e o espaço não são simultâneos para duas pessoas: ocupam espaços e tempos diferentes, não se sobrepõem. Nunca. Como duas linhas retas em paralelo que nunca se fundem uma na outra. Colocar-se no lugar do outro para o perceber, para sentir o seu sofrimento, as suas inquietações. É um esforço meritório, mas só alcançável por Deus. 
       “Põe-te no meu lugar”. Expressão que apela à compreensão, a sintonizar o ponto de vista do outro para tentar compreender as suas palavras, a sua atitude ou os seus gestos. Ninguém nos pede uma sobreposição ao outro, mas sincronização, aceitação, proximidade.
        Deus faz este “esforço” de aproximação. Ao longo dos tempos. Em Jesus, a aproximação de Deus é total, coloca-Se no nosso lugar, do nosso lado, passa a ver a partir de baixo e de dentro, a partir da fragilidade e da limitação humanas, identifica-Se connosco. É a Sua grandeza: faz-Se pequeno, do nosso tamanho, deixa-Se ver e ao mesmo tempo esconde-Se no meio de nós, confundindo-Se connosco. Deixa-Se perseguir e amar, deixa-Se prender e até matar. Tão grande que tem o poder de Se tornar pequeno. É a Sua fraqueza: amar até morrer, morrer para ressuscitar, para viver, amar sem limites. Deus, por amor, não desiste de nós. Nunca desiste. Nós podemos ignorá-l’O, fazer de conta que não existe e, no entanto, Deus continua do nosso lado, a amar-nos, a atrair-nos para Si. São Paulo, na primeira Carta aos Coríntios (9, 19-23), mostra como se fez tudo para todos, para ganhar alguns para Cristo. Assim faz Deus, faz tudo para nos (re)conquistar para o Seu Reino de Amor. Se deixarmos que Ele nos vença, vencemos nós, e será novamente Natal.
        2 – Visitando as páginas da Sagrada Escritura, nos textos propostos para esta solenidade, a acentuação do abaixamento de Deus que, em Cristo, assume a nossa frágil condição humana, com as suas limitações, com os seus sonhos e projetos, com os seus sofrimentos e desilusões.
       "No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. No princípio, Ele estava com Deus. Tudo se fez por meio d’Ele e sem Ele nada foi feito. N’Ele estava a vida e a vida era a luz dos homens. A luz brilha nas trevas e as trevas não a receberam". Este é o mote dado pela Palavra de Deus. Jesus vem ao mundo, pre-existindo-lhe. À Sua frente vem um mensageiro, João Batista, que aponta para a Luz verdadeira, que é o Messias Jesus.
       O Filho de Deus Altíssimo, o Messias, não é de todo um desconhecido! Desde sempre nos conheceu. N’Ele foram criadas todas as coisas e sem Ele nada foi criado. Veio para o meio dos seus. Mas, diz o Evangelho, os seus não O reconheceram. Andavam atarefados com tantas coisas, distraídos, ou cheios de si, com corações de pedra. Quem O reconhece será salvo. A salvação consiste em conhecer Jesus, acolhê-l'O, para O amar e O viver, testemunhando-O, transparecendo-O.
       O profeta Isaías sublinha a beleza, a alegria, a rapidez do mensageiro que anuncia a boa nova da salvação. É tempo de largar as amarras da escravidão, do pecado e da morte. É tempo de júbilo, porque o Senhor está no meio de nós, irrompendo as cadeias das injustiças, restaurando as ruínas de Israel, consolando o Seu povo, "o Senhor descobre o seu santo braço à vista de todas as nações e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus".
       Deus está agora mais visível. É Pessoa, de carne e osso. Está sujeito à determinação do espaço e do tempo, como cada um de nós. Está ao alcance do nosso olhar e das nossas mãos. Podemos vê-l’O, podemos segui-l’O, podemos matá-l’O. Sabemos onde encontrá-l’O.
        Embrulhado em panos, perto dos animais, é irreconhecível para os distraídos, para os que confundem grandeza com ostentação e poder, para os que esperam um Messias saído de um palácio, nascido num berço de ouro. Ele entranha-Se na história dos homens e na própria natureza.
       3 – Com efeito, "muitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aos nossos pais, pelos Profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por seu Filho, a quem fez herdeiro de todas as coisas e pelo qual também criou o universo".
       Ele é o Filho Unigénito de Deus, o Seu Eleito, que transborda da eternidade para o tempo, do seio do Pai para a convivência daqueles que assume como irmãos. Para nos redimir. Para nos elevar. Deus nunca esteve longe de quantos O invocam de coração humilhado e contrito. Com Jesus a distância encurta-se, pois Ele próprio, é Deus connosco, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.
       Deus continua a falar-nos e a falar ao mundo. Hoje Deus fala através de nós, de mim e de ti. Somos os mensageiros que correm velozes a anunciar a paz. Por vales e montanhas, por aldeias e cidades, aquém e além-mar. Uma vez convertidos, restabelecidos pela misericórdia do Senhor, cabe-nos hoje, cabe-nos agora, anunciar o Evangelho, levar Jesus a todo o lado, a todos os ambientes. Deus continua a falar. Não fiquemos na praia, de braços cruzados, a ver as gaivotas a pousar, adentremo-nos na história, envolvamo-nos na transformação do mundo em que vivemos. Levemos o melhor de nós – Deus que nos habita –, para que o mundo possa testemunhar o nascimento de Jesus e a certeza de que Ele está vivo, no meio de nós.
       O mandato divino é para todos, é para mim e para ti, é para hoje, pois amanhã é tarde, demasiado tarde. O futuro a Deus pertence. A nós pertence o presente, para sermos o presente de alegria, de amor e de serviço uns para os outros. Ide e anunciai o Natal, a Boa Notícia, a toda a criatura.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (A): Is 52, 7-10; Sl 97 (98); Hebr 1, 1-6; Jo 1, 1-18.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Quem virá a ser este menino?

       Chegou a altura de Isabel ser mãe e deu à luz um filho. Os seus vizinhos e parentes souberam que o Senhor lhe tinha feito tão grande benefício e congratularam-se com ela. Oito dias depois, vieram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. Mas a mãe interveio e disse: «Não, ele vai chamar-se João». Disseram-lhe: «Não há ninguém da tua família que tenha esse nome». Perguntaram então ao pai, por meio de sinais, como queria que o menino se chamasse. O pai pediu uma tábua e escreveu: «O seu nome é João». Todos ficaram admirados. Imediatamente se lhe abriu a boca e se lhe soltou a língua e começou a falar, bendizendo a Deus. Todos os vizinhos se encheram de temor e por toda a região montanhosa da Judeia se divulgaram estes factos. Quantos os ouviam contar guardavam-nos em seu coração e diziam: «Quem virá a ser este menino?» Na verdade, a mão do Senhor estava com ele (Lc 1, 57-66).
       O Percursor do Messias desponta como a voz que clama no deserto. Ainda antes do nascimento já João experimenta a alegria pela vinda do Messias, saltando de alegria no momento em que a voz da saudação de Maria chega aos ouvidos de Isabel.
       O relato do nascimento de João envolve-nos na mesma alegria da proximidade de Jesus Cristo. Hoje, João, amanhã, o Messias de Deus, Jesus Cristo Salvador.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Domingo II do Advento - ano A - 6 de dezembro

       1 – Um tronco! Uma vida. Uma raiz! Um começo. Um rebento! Vida nova a germinar! Anúncio de primavera! Tempo de esperança! Espera confiante! Aurora de um novo dia, claridade a despontar! E com o dia, mais tempo para viver, para aproveitar, recriando-se. Um tronco! Uma raiz! Uma árvore! Um rebento! O deserto! O vazio ou um espaço a preencher? João Batista a pregar, a anunciar, a provocar! Um Messias para vir! Um profeta novo a chegar!
       De uma raiz, um rebento, que se tornará raiz nova, de onde florescerá uma nova criação, um mundo novo. João Batista, sem peias nem teias: «Arrependei-vos, porque está perto o reino dos Céus». No dizer do profeta Isaías é a VOZ que clama no deserto, que nos interpela a prepararmo-nos para recebermos e reconhecermos a PALAVRA que vem do alto, que vem de Deus. Uma raiz, um rebento, de onde germinará a vida e a salvação! Aprontemo-nos para perceber a Sua chegada. Vontade. Disponibilidade. Fazer pela vida. "Praticai ações que se conformem ao arrependimento que manifestais. Não penseis que basta dizer: ‘Abraão é o nosso pai’, porque eu vos digo: Deus pode suscitar, destas pedras, filhos de Abraão".
       A salvação está aí, a árvore tem de dar fruto. De contrário, apenas servirá para fazer sombra, produzir oxigénio, para deitar ao lume... já é bastante útil e até necessário, mas não se compreende que árvores de fruto não deem fruto, se foram plantadas para esse efeito!
       2 – João e Jesus. Advento. A vinda de um prepara a vinda do outro. João vem primeiro, como Precursor, dulcificar os corações para se deixaram cativar por Jesus. Jesus está antes. Junto do Pai, desde sempre. Vem para salvar, para ajuntar, para redimir. Ele batizará no Espírito Santo e no fogo. Vem depois, mas é perante Ele que João Batista (e cada um nós) se prostrará para O adorar.
       Do tronco de Jessé brotará um rebento. Um enxerto. Do tronco de Jessé, o novo David, o novo Adão, o novo Moisés. O rebento florescerá, dando frutos de misericórdia e de perdão, de justiça e de paz. O enxerto de uma árvore pretende potenciar a qualidade dos frutos que se desejam. Jesus enxerta-se na humanidade, assumindo-nos, Ele mesmo se torna em raiz, em árvore, na qual, doravante somos enxertados. Uma vez enxertados em Cristo, se o enxerto vingar, só podemos produzir bons frutos.
       O profeta Isaías convida-nos a olhar para o Messias que virá, sobre Quem "repousará o espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de inteligência, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de conhecimento e de temor de Deus... não julgará segundo as aparências, nem decidirá pelo que ouvir dizer. Julgará os infelizes com justiça e com sentenças retas os humildes do povo".
       Com Ele, um tempo de paz. em que "o lobo viverá com o cordeiro e a pantera dormirá com o cabrito; o bezerro e o leãozinho andarão juntos e um menino os poderá conduzir... A criança de leite brincará junto ao ninho da cobra e o menino meterá a mão na toca da víbora. Não mais praticarão o mal..." A partir dos frutos saberemos se estamos no caminho certo!
       3 – Um rebento. Uma árvore nova. Uma enxertia divina. Deus que vem, que chega, que irrompe na história. E se Deus desce à história dos homens, a história há de elevar-se para Deus. Hão de olhar para Aquele que trespassaram! Pelo menos, não nos podemos desculpar que não sabíamos.
       Serão dias de alegria e confiança. "Florescerá a justiça... uma grande paz até ao fim dos tempos. Ele dominará até aos confins da terra. Socorrerá o pobre que pede auxílio e o miserável que não tem amparo. Terá compaixão dos fracos e dos pobres e defenderá a vida dos oprimidos. O seu nome será eternamente bendito e durará tanto como a luz do sol; nele serão abençoadas todas as nações, todos os povos da terra o hão-de bendizer".
       Seguindo-O faremos as mesmas opções, vivendo ao Seu jeito. Dóceis para todos. Prestáveis para cada pessoa que encontrarmos. Dando prioridade àqueles que sofrem: os que vivem na pobreza e na solidão, que são vítimas da perseguição e das intempéries da vida, da incompreensão ou da própria fragilidade. Como relembra o Papa Francisco, na recente carta apostólica Misericordia et Misera, "não poderá haver justiça nem paz social enquanto Lázaro jazer à porta da nossa casa (cf. Lc 16, 19-21)".
       O caminho aberto por Jesus – iluminando-nos com a benevolência do Pai, vivendo e dispensando ternura, misericórdia, compaixão, proximidade, serviço, perdão – será o caminho que temos de percorrer, ajustando o nosso ao de Jesus. Será o nosso compromisso com os irmãos, sobretudo com os mais frágeis, terá que ser a nossa profissão de fé entranhada na transformação do mundo, para que este seja casa de todos. Se não ouvirmos os pobres, os famintos, os nus, se não virmos os necessitados de pão e de atenção, estamos a ser infiéis à nossa identidade batismal.

       4 – A vinda de Deus ao mundo, em Pessoa, Ele mesmo, encarnando, tem o propósito de nos reconciliar como família, reconstruindo a fraternidade perdida pelo pecado. Por conseguinte, num tronco já ressequido pela indiferença, pelos ódios e vinganças, pela guerra, pelos laços quebrados, Deus dá-nos o Seu Filho, faz que do tronco surja um rebento que, por sua vez, dará vigor a toda a árvore.
       Veio para permanecer no meio de nós. Tornou-Se homem, sujeitando-se às leis espácio-temporais. A Sua morte foi entrega, a Sua vida um testemunho de fidelidade a Deus Pai e à humanidade, a crucifixão transpareceu o gastar-Se até ao fim por nós, a Sua ressurreição faz-nos comungar da Sua vida para sempre.
       O Apóstolo lembra as Sagradas Escrituras como esperança, como promessa. A vinda de Jesus é a promessa realizada no tempo, na história, na nossa vida. Com a Sua vida mostra-nos o caminho de fidelidade ao Pai, servindo os seus compatriotas. Agora é a nossa vez, é a hora de O imitarmos para que Ele continue a vir, a nascer, a ressuscitar, a dar-nos vida abundante. Ele VIVE quando deixamos que Ele reine. "Acolhei-vos, portanto, uns aos outros, como Cristo vos acolheu, para glória de Deus".
       Amparados pela misericórdia de Deus, esbanjada por Jesus, deixemo-nos, envolver pela oração, pela escuta da Palavra de Deus, pelo acolhimento de Jesus, na Eucaristia e na caridade para com todos.

       5 – A primeira tarefa do crente é o louvor. O louvor faz-nos reconhecer a grandeza de Deus e o Seu mandato de amor. "O Deus da paciência e da consolação vos conceda que alimenteis os mesmos sentimentos uns para com os outros, segundo Cristo Jesus, para que, numa só alma e com uma só voz, glorifiqueis a Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo".
       A Glória de Deus é o homem vivente (Santo Ireneu). O melhor louvor é um coração contrito, uma coração que vê. Vemos bem quando a distância do nosso coração ao coração dos outros não nos impede de os reconhecermos como irmãos.
       "Concedei, Deus omnipotente e misericordioso, que os cuidados deste mundo não sejam obstáculo para caminharmos generosamente ao encontro de Cristo, mas que a sabedoria do alto nos leve a participar no esplendor da sua glória". Com efeito, “os cuidados do mundo” são tudo o que nos distrai da vida: o conjunto de desculpas e justificações para não ajudarmos os outros e não nos comprometermos com a justiça, com a paz, com a partilha solidária, com a comunhão fraterna. Que Deus reze em nós a Sua sabedoria e o Seu amor, para que dóceis à Sua vontade, sejamos construtores de fraternidade.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (A): Is 11, 1-10; Sl 71 (72); Rom 15, 4-9; Mt 3, 1-12.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Paróquia de Pinheiros | Natal | ano pastoral 2015-206

       O ano litúrgico é cadenciado pelos dois grandes acontecimentos na vida de Jesus: o Natal, celebração do Seu nascimento, expressão da Encarnação de Deus na história e no tempo, e Páscoa, mistério da vida nova, oferecida e retomada.
       As comunidades cristãs vivem de forma mais intensa cada um destes momentos. Obviamente que todo o ano litúrgico é importante, pois em todo o tempo se celebra o mistério pascal de Jesus. Mas tal como nas nossas vidas há os tempos dedicados às festas e o tempo ferial, de trabalho e de rotina. Para valorizarmos uns precisamos dos outros. Que sentido tem a festa quando estamos sempre em festa? Cansa! Que sentido têm os dias se são todos iguais, ao longo de todo o ano? Cansa. Não saberíamos apreciar a festa se ela não viesse depois do trabalho, perder-nos-íamos se ao trabalho só se acrescentasse trabalho.
       A paróquia de Santa Eufémia, seguindo o ciclo litúrgico, tem na Páscoa e no Natal, com os tempos preparatórios, dois picos celebrativos, com outro momento importante na Festa de Santa Eufémia, sua Padroeira.
       Advento, Natal e Epifania. No videoporama que se segue, imagens do Avento, com a construção progressiva da coroa do Advento, a solenidade do Natal, com a encenação de vários quadros relacionados com o nascimento de Jesus, e a solenidade da Epifania do Senhor, com a encenação da Adoração dos Magos.
       Vale a pena escutar o música que acompanha o vídeo - No Senhor pus a minha confiança:

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Festa do Batismo do Senhor - ano C - 10 de janeiro

       1 – «Tu és o meu Filho muito amado: em Ti pus toda a minha complacência».
       Atravessámos a Porta da Misericórdia neste ano em que o Papa Francisco quis que toda a Igreja visualizasse de forma mais concreta e explícita a Misericórdia de Deus, que nos ama além de toda a justiça e de todo o pecado. "Misericordiosos como o Pai" foi o lema escolhido para enformar todo o Jubileu, cujo Rosto veio até nós, Jesus Cristo, assumindo a nossa natureza finita e frágil, enfrentando connosco a turbulência do ódio, da violência e do egoísmo, da inveja, da maledicência e do radicalismo desumano, da prepotência, do poder e da sobranceria, para connosco introduzir um tempo novo, de luz e de paz, de vida e salvação, de conciliação e de amor, de serviço e fraternidade, de comunhão e humildade, de justiça e de misericórdia, de esperança e de caridade, de abertura ao Transcendente, a Deus misericordioso que nos ama como Pai, com entranhas de Mãe, um tempo de verdade e de partilha solidária, de inclusão e resiliência, nunca desistindo das pessoas, lutando contra todas as manifestações do mal.
       «Tu és o meu Filho muito amado: em Ti pus toda a minha complacência».
       O Céu abre-se para que a VOZ de Deus se faça ouvir. Com Jesus, Deus está mais perto de nós, tão perto que O podemos ver, tocar, O podemos perseguir, podemos apedrejá-lo e até matá-l'O. Deus está tão perto que Se esconde no meio de nós. Caminha connosco. Percorre ruas e vielas e avenidas que também percorremos, e sonhos e projetos de transformar o mundo e fazer com que todo o mundo seja uma só família e em que todos sejamos irmãos.
       A voz que vem de Deus diz-nos que Aquele Homem da Galileia (e da Judeia e do mundo inteiro) é o Filho, o Amado do Pai. É único para o Pai, pois todos aqueles que amamos são únicos para nós. Ama-O com todo o amor. Deus não Se dá aos pedaços, às prestações, ou sob condição em conformidade com o comportamento futuro. Como a Jesus, também a nós Deus nos ama. Ama-nos primeiro. Antes de o merecermos. Ama-nos por inteiro. Como a Jesus. Seremos, como Ele, filhos únicos e bem-amados.
       2 – A vida pública de Jesus inicia com o Seu Batismo. A nossa vida como filhos de Deus, como membros do Corpo de Cristo que é a Igreja, inicia com a inserção no Batismo de Jesus, tempo novo de graça e de salvação, novas criaturas, beneficiários da Misericórdia de Deus.
       Os textos do Evangelho, no seu conjunto, permitem intuir que Jesus já "testava" a pregação de tal que quando vai ao Jordão para ser batizado por João já a Sua fama se começava a espalhar. Não é uma pregação paralela, mas uma missão única de instaurar o Reino de Deus. João Batista, o Precursor, prepara o caminho. Jesus é o CAMINHO que nos encontra. O batismo marca um ponto de viragem que se acentua ainda mais com a prisão de João Batista. Só então, após o cárcere do Precursor, é que o Messias Se apresenta a todo povo.
       A postura de João Batista, o último na linhagem dos grandes Profetas de Israel do Antigo Testamento, e que nos faz entrar no Novo Testamento, a Aliança Nova e definitiva que se realiza em Jesus Cristo, leva a multidão a pensar que poderá ser ele o Messias há tanto esperado e prometido. João prepara o caminho, é a Voz que torna audível a Palavra de Deus que é Jesus Cristo. Aponta para o Messias: Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Ele está antes, porque desde sempre é o Filho de Deus. É Ele que Eu anuncio. Foi por Ele que eu vim. Agora é necessário que Eu diminua e Ele cresça.
       Importante lição de João Batista. Poderia deixar andar e beneficiar da expetativa e do sucesso granjeado entre a multidão. Mas depressa lhe assenta o estômago: «Eu batizo-vos com água, mas vai chegar quem é mais forte do que eu, do qual não sou digno de desatar as correias das sandálias. Ele batizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo».
       E lição importante de Jesus que se coloca na fila, sem passar à frente, ao largo ou ao longe, indiferente, sem Se colocar acima, à margem ou de fora, coloca-Se em fila e como parte daquele povo que se aproxima de João Batista para ser batizado. Tal como o povo, cuja pertença se torna evidente nesta passagem, também Jesus vai ao encontro de João e é batizado por ele.
       3 – Em todos os momentos significativos da vida de Jesus Cristo, a presença de Deus Pai, pela oração, pela inspiração, pela Voz do Espírito Santo. Nas palavras, nos gestos e nas obras. É um dos fios condutores do Evangelho e da missão evangelizadora de Jesus: sintonia com o Pai. O Meu Alimento, diz Jesus, é fazer a vontade de Meu Pai. Nada faço por Mim mesmo, digo o que Pai me diz, faço as obras de Meu Pai. Como vi fazer ao Pai, assim Eu faço. Mais tarde, no entardecer de Quinta-feira santa, o mandato aos seus discípulos: Como EU fiz, fazei vós também. É o caminho e compromisso com o amor, com o serviço, no cuidado terno ao semelhante que, n'Ele, se torna irmão de cada um de nós.
       Jesus ora. Orar pode ser mais que rezar. Rezar sublinha as palavras e o pensamento que dirigimos para Deus. Orar sublinha a escuta, procurando perceber o que Deus quer de nós, qual a Sua vontade a nosso respeito. Rezamos para Deus nos conceder o que lhe pedimos, mas em lógica de confiança a oração dilata o nosso coração para desejarmos o que Deus quer e acolhermos o que nos pede como filhos bem-amados.
       Enquanto levanta o olhar, o coração, a vida e o mundo para Deus, o céu abre-se e o Espírito Santo assume a forma corporal de uma pomba. E faz-se ouvir uma voz: «Tu és o meu Filho muito amado: em Ti pus toda a minha complacência».
       No Batismo de Jesus, e no nosso também, Deus está por inteiro, Pai e Filho e Espírito Santo, manifesta-Se totalmente e assume-nos por inteiro. Ele coloca em nós todo o Seu amor de Pai.
       4 – O profeta Isaías faz-nos ver e perceber melhor o enlevo, o agrado, o amor de Deus para com o Filho: «Eis o meu servo, a quem Eu protejo, o meu eleito, enlevo da minha alma. Sobre ele fiz repousar o meu espírito, para que leve a justiça às nações. Não gritará, nem levantará a voz, nem se fará ouvir nas praças; não quebrará a cana fendida, nem apagará a torcida que ainda fumega: proclamará fielmente a justiça. Não desfalecerá nem desistirá, enquanto não estabelecer a justiça na terra, a doutrina que as ilhas longínquas esperam. Fui Eu, o Senhor, que te chamei segundo a justiça; tomei-te pela mão, formei-te e fiz de ti a aliança do povo e a luz das nações, para abrires os olhos aos cegos, tirares do cárcere os prisioneiros e da prisão os que habitam nas trevas».
       O servo de Deus é o Povo eleito, que Deus formou para Si e para ser Luz das nações, bênção para todos os povos da terra.
       O Servo de Deus é Jesus, o Filho bem-amado do Pai, cuja missão é trazer a paz e a justiça, abrindo os olhos aos cegos, dando a liberdade aos cativos, iluminando os que habitam nas trevas, sem violência, mas pelo amor, pelo serviço, pela proximidade.
       O Servo de Deus somos nós, filhos bem-amados do Pai. Estamos sob a bênção de Deus, que nos ama e nos protege, que nos procura e nos encontra, fazendo-Se, em Cristo, um de nós, um connosco. Ao amor do Pai, Jesus responde com amor a favor de toda a humanidade, dando a Sua vida, entregando-Se por inteiro para nos devolver ao Coração de Deus Pai. A nossa resposta ao amor de Deus, visualizável e plenizável em Jesus, será para a frente: Deus precede-nos amando-nos, nós amamos Deus amando os irmãos. Só desta forma é verdadeiro o nosso amor para com Deus. Só desta forma respondemos com autenticidade ao amor de Deus esbanjado connosco desde a Encarnação à Cruz, desde o Batismo à Ressurreição.

       5 – São Pedro, na segunda leitura, aponta-nos o CAMINHO a seguir, acessível a todos, já que Deus não faz aceção de pessoas e, portanto, cada um de nós se habilita à Sua herança. Ele enviou-nos Jesus Cristo, Sua palavra, que nos anuncia e nos traz a paz. A condição é o temor/amor a Deus e a prática da justiça.
       A referência, o nosso CAMINHO, é Jesus Cristo, Enviado pelo Pai, ungido com a força do Espírito Santo, «que passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio, porque Deus estava com Ele».
       Deus está connosco! Está no meio de nós. Avancemos fazendo o bem e sendo cura para todos os que vêm até nós. Partamos ao encontro uns dos outros.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano C): Is 42, 1-4. 6-7; Sl 28 (29); Atos 10, 34-38; Lc 3, 15-16. 21-22.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Paróquia de Tabuaço - quadra de Natal 2015

       O Natal é popularmente a Festa mais importante de cariz cristão, abrangendo toda a sociedade civil, com uma componente importante no comércio, potenciando, ao chegar-se ao final do ano, o equilíbrio de contas, podendo dessa forma, com sensatez, fazer circular positivamente a economia.
       Nas comunidades cristãs é um tempo de forte mobilização, da comunidade paroquial e dos seus grupos, mormente da catequese. Na Paróquia de Tabuaço não tem sido diferente. Ao longo do Advento, a presença da Coroa do Advento, sob patrocínio do Grupo de Jovens (GJT); a construção progressiva do Presépio; a Festa de Natal da Catequese; a intervenção especial do GJT na Missa do Galo, este ano com a encenação de quadros relativos ao tempo do Natal - anunciação a Nossa Senhora, Visitação de Maria à Sua prima Isabel, a revelação do mistério da encarnação a São José e o nascimento de Jesus, e por último a Epifania do Senhor, com a representação da Adoração dos Magos, pelos jovens.
       É deste quadro completo o vídeo-diaporama que se segue, com as músicas de fundo que ajudam a envolver-se na sua visualização: Vem Senhor Jesus - José Meneses; Sou um pobre pastorinho - Paulo Emanuel; Jesus é Vida, Glória ao Senhor - J. Rocha Monteiro SDB, e É noite de Natal - Pe. Salvador Cabral.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Solenidade da Epifania do Senhor - ano C - 03.01.2016

       1 – Todos os encontros podem deixar marcas em nós, mas contam verdadeiramente aqueles que nos tocam a alma e mudam a nossa vida. Há encontros casuais, passageiros, que nem chegam a roçar a roupa. Há pessoas que passam por nós e se mantêm ou mantemos à distância. Cruzamos olhares, passamos ao lado, indiferentes ou em atitude de desprezo. Encontros negativos também contam e também deixam as suas marcas.
       Há, porém, encontros que são decisivos e marcam definitivamente o rumo da nossa vida. Tocam o olhar, a pele, o coração, a alma, a vida. Se cada encontro pode influenciar-nos e enriquecer-nos, há aqueles que nos ajudam a ver a vida de um perspetiva diferente, a acreditar no amanhã, a depositar os nossos sonhos no futuro com esperança. Sentimos que chegamos a casa. Há estrelas que brilham no firmamento e nos atraiam para o melhor que a vida tem para nos dar.
       Os Magos vêm de longe. Mas não importa a distância. Deixam os seus livros, a sua casa, as suas coisas, a família e os amigos. Não importa tanto o que se deixa se nos dirigimos para algo maior e "nos" levamos connosco, com a nossa história. Quem fica, não fica perdido, pois se nos ama acompanhar-nos-á para onde formos e se alegrará com a nossa alegria. Ainda que custe! Os magos seguem com leveza e com pressa de chegar. É uma das características destes dias: Maria com pressa de chegar junto de Isabel; os pastores com pressa de chegar ao Presépio, e os Magos com pressa de adorarem o Deus Menino.
       2 – «Onde está – perguntaram eles – o rei dos judeus que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-l’O». Quando não sabemos muito bem a direção é melhor parar e perguntar. O GPS – a estrela – levar-nos-á ao destino, mas a confusão da cidade pode distrair-nos do caminho.
       Herodes fica perturbado. O medo toma conta do seu coração. Habituou-se ao poder e não quer que nada ponha em causa a sua comodidade. Chama os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo, informa-se acerca do local do nascimento do Messias, que segundo as profecias será «em Belém da Judeia, porque assim está escrito pelo Profeta: ‘Tu, Belém, terra de Judá, não és de modo nenhum a menor entre as principais cidades de Judá, pois de ti sairá um chefe, que será o Pastor de Israel, meu povo’».
       O alvoroço provocado pela notícia de que o Messias nasceu mobiliza Herodes e a cidade. Uns com boas intenções e outros nem tanto. A notícia que o Menino nasceu e está entre nós deve inquietar-nos, desinstalar-nos, levar-nos a querer saber mais, a descobrir onde O encontrar, para com os Magos O adorarmos e Lhe levarmos os melhores presentes.
        Na primeira leitura, Isaías convoca toda a cidade: "Levanta-te e resplandece, Jerusalém, porque chegou a tua luz e brilha sobre ti a glória do Senhor. Sobre ti levanta-Se o Senhor e a sua glória te ilumina. As nações caminharão à tua luz e os reis ao esplendor da tua aurora. Olha ao redor e vê: todos se reúnem e vêm ao teu encontro; os teus filhos vão chegar de longe e as tuas filhas são trazidas nos braços. Quando o vires ficarás radiante, palpitará e dilatar-se-á o teu coração, pois a ti afluirão os tesouros do mar, a ti virão ter as riquezas das nações. Invadir-te-á uma multidão de camelos, de dromedários de Madiã e Efá. Virão todos os de Sabá, trazendo ouro e incenso e proclamando as glórias do Senhor".
       O mais triste é se estamos ao pé do sino e não ouvimos as horas, por habituação, por desleixo ou preguiça. Vêm de toda a parte. O alvoroço está instalado. Ficamos com Herodes, comodamente instalados à espera que as notícias nos cheguem aos ouvidos, ou seguimos com os Magos, para fora do palácio e da cidade, e vamos a Belém?
       3 – O Messias que estava para vir está no meio de nós. A esperança de Israel concretiza-se n'Aquele Menino há tanto esperado. Todos se hão de prostrar diante d'Ele porque d'Ele virá todo o bem.
       "Os reis de Társis e das ilhas virão com presentes, os reis da Arábia e de Sabá trarão suas ofertas. Prostrar-se-ão diante dele todos os reis, todos os povos o hão de servir. Socorrerá o pobre que pede auxílio e o miserável que não tem amparo. Terá compaixão dos fracos e dos pobres e defenderá a vida dos oprimidos".
        São Paulo, sintonizado com o Salmo, mas sobretudo com Jesus Cristo, fala-nos desta graça que Deus lhe confiou a nosso favor, o mistério de Cristo. "Nas gerações passadas, ele não foi dado a conhecer aos filhos dos homens como agora foi revelado pelo Espírito Santo aos seus santos apóstolos e profetas: os gentios recebem a mesma herança que os judeus, pertencem ao mesmo corpo e participam da mesma promessa, em Cristo Jesus, por meio do Evangelho".
       O nascimento de Jesus é um acontecimento inaudito, Deus assume-nos por inteiro. A todos. Vem para o Seu povo, mas ao alcance de todos os povos, como relembra o Velho Simeão: «Agora, Senhor, deixareis ir em paz o vosso servo, porque os meus olhos viram a vossa salvação, que pusestes ao alcance de todos os povos: luz para se revelar às nações e glória de Israel, vosso povo» (Lc 2, 22-35).
       Os magos mostram que a Mensagem de Deus e os sinais da Sua presença no meio de nós chegam a toda a parte.
       4 – Logo que os magos se afastam do palácio, da cidade, e das distrações, a Estrela que os guia volta a estar visível. Por vezes precisamos deste exercício, de nos afastarmos um pouco, parando, rezando, refletindo a vida, distanciando-nos da árvore para vermos toda a floresta, fazendo silêncio para ver, para escutar, para perceber o que nos rodeia e que caminho havemos de retomar.
       "Eis que a estrela que tinham visto no Oriente seguia à sua frente e parou sobre o lugar onde estava o Menino. Ao ver a estrela, sentiram grande alegria. Entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se diante d’Ele, adoraram-n’O. Depois, abrindo os seus tesouros, ofereceram-Lhe presentes: ouro, incenso e mirra".
       A alegria é uma realidade que acompanha os magos e todos os que se deixam conduzir pela Estrela. Mas sobretudo, ALEGRIA de nos encontrarmos com Jesus. Os magos chegam finalmente onde se sentem em casa, junto de Jesus. E dão-lhe os presentes, simbólicos, a um tempo: ouro – realeza; incenso – divindade, e mirra – humanidade. Há mais alegria em dar do que em receber. E mais que dar, importa dar-se. É o que fazem os pastores, é o que fazem os magos. Dão o melhor que têm porque se querem dar fazendo-se presentes. E recebem o maior presente: Jesus, Deus Menino. E tudo muda.
        O encontro com Jesus fá-los voltar por outro caminho. "E, avisados em sonhos para não voltarem à presença de Herodes, regressaram à sua terra por outro caminho". Herodes tinha-lhes pedido que regressassem ao palácio e lhe dessem informações precisas sobre o Messias. Inspirados por Deus, pelo encontro com Jesus, voltam mas por outro caminho. Também o nosso encontro com Jesus nos há de levar por outro caminho, não preferentemente ao palácio, mas ao mundo.
       "Senhor Deus omnipotente, que neste dia revelastes o vosso Filho Unigénito aos gentios guiados por uma estrela, a nós que já Vos conhecemos pela fé levai-nos a contemplar face a face a vossa glória".

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia: Is 60, 1-6; Sl 71 (72); Ef 3, 2-3a. 5-6; Mt 2, 1-12.