domingo, 30 de março de 2014

Comunicação globalizada » Globalização da Indiferença

       Nunca como hoje os meios de comunicação social, mas também os meios de transporte, nos tornam tão vizinhos e no entanto continuamos distantes, talvez até mais que no passado.
       As pessoas conheciam os vizinhos pelo nome, tinham as portas abertas para quem chegava, e para saírem ao encontro dos outros. Qualquer necessidade poderia ser satisfeita com a ajuda do vizinho. Hoje temos as portas e janelas fechadas, não apenas as de casa mas também as do coração.
       No mesmo instante estamos em contacto com o fim do mundo, com alguém que não conhecemos de parte nenhuma mas que nos faz felizes por o vermos, por vermos o sucesso que tem ou nos entristecemos com os desaires daquele ator, daquela cantora, daquela pessoa que lançou uma campanha para ajudar um cão, ou daqueloutro que andou à batatada com a sogra.
       E à nossa volta? Tão perto e tão distantes. Passamos e andamos. E o “tudo bem” não é uma pergunta, é uma mera formalidade. Cumprimentamos alguém mas não queremos saber da pessoa. Talvez, como já o referimos por aqui, queiramos saber alguma coisa sobre ela, mas não o que sente, o que precisa, o que se passa na sua vida.
       Facilmente estamos em contacto com meio mundo. Trocamos mensagens, informações, o que gostamos, o que lemos, tantas centenas, milhares, de amigos virtuais, gastamos algum ou bastante tempo a postar belas frases, a sugerir pensamentos bem formulados, por vezes para os outros, não para nós, pois não precisamos. Porém, desconhecemos quem mora ao lado, o que faz, o que precisa. Desconhecemos o seu nome. Podemos até cruzar-nos com ele, ou embater contra ele, mas não nos toca. Podemos estar tão perto e tão longe uns dos outros. A aldeia é global, no conhecimento, na informação, na democratização cultural e religiosa, podemos até ser especialistas em bricolage e fabricar a nossa religião e a nossa ideologia. E diga-se que os meios de comunicação social, as redes que nos aproximam virtualmente, são uma oportunidade, um dom de Deus, ajudam a resolver problemas, a diagnosticá-los e formular soluções, a encontrar instrumentos para melhorar a vida uns dos outros, aproximam pessoas, ajudam a encontrar outras que desapareceram, facilitam campanhas de solidariedade, permitem a sensibilização para problemas atuais, de pessoas a animais e à natureza, e por vezes tribalizam-nos em alguns grupos de reflexão, de debate, de acusações, de críticas.
       Também o ambiente digital precisa de conversão e é necessário que não desfoque o nosso coração e o nosso olhar das pessoas que nos rodeiam e das suas necessidades. Porque é que as pessoas gritam, pergunta um discípulo ao seu Mestre. Não é pela surdez de algum deles, mas por terem o coração fechado, distante, alheado. Não conseguem escutar-se. Mutatis mutandis, a globalização económica, política, cultural e até religiosa, não corresponde à melhoria na vida das pessoas e não resolve as suas inquietações existenciais. Por outro lado, tem-se dado também a globalização da indiferença. São tantas as situações discutidas até à exaustão que já não chocam, já não emocionam. Não mobilizam. Já fazem parte do quotidiano. Este é um risco elevado.
       Temos os meios, há que colocar neles o nosso coração, o nosso compromisso. Não esperemos pelo ideal. Localizemo-nos, predispondo-nos a globalizar a caridade, a proximidade física e afetiva. Também isto é ser cristão, também por aqui a nossa conversão. A nossa visão tem diversas focalizações, pode ver bem ao longe e mal ao perto. Pode ver bem ao perto e esquecer o que vem lá. A árvore não nos impeça de ver a floresta, mas por causa desta não esqueçamos só existe porque há muitas árvores…

Publicado (abreviadamente) na VOZ DE LAMEGO, n.º 4257, de 25 de março de 2014

sexta-feira, 28 de março de 2014

Cardeal Gerhard Müller - A verdade leva-nos aos pobres

       "A Igreja, como comunhão dos fiéis, serve a humanidade com a Palavra de Deus, com a realização sacramental da sua salvação vivificante e a prova do ser-para-o-outro de Cristo, no serviço aos pobres, aos desamparados e à generalidade dos que foram defraudados na sua dignidade e justiça...
       A Igreja e, portanto, toda a comunidade cristã e cada cristão individualmente, a partir da fé, deve assumir responsabilidade pela sociedade humana como um todo, nos campos do mundo do trabalho, da economia internacional, da justiça social e individual, da paz no mundo" (p. 47).
       O Teólogo profissional, como perito em religião, não se contrapõe aos fiéis ou não especialistas. Ele entende-se, tal como todos os discípulos, como ouvinte e aprendiz diante do único Mestre e Palavra de Deus, isto é, Cristo. Desse modo, ele penetra no contexto da experiência da fé e da religiosidade da vida do povo, ou seja, da comunidade daqueles que professam a fé em Jesus Cristo e ousam percorrer o caminho do seu seguimento na existência - para os outros. Participa dos seus sofrimentos e das suas esperanças. Desse modo, Teologia da Libertação, no melhor sentido da palavra, é teologia contextual, amadurecida a partir da comunidade (p. 51)

       "A opção pelos pobres não exclui os ricos. De facto, também eles são meta do agir libertador de Deus, dado que são libertados da ansiedade ma qual julgam dever aproveitar a vida somente à custa dos outros. O agir libertador de Deus em relação a pobres e ricos visa a subjetivação do ser humano e, portanto, a sua liberdade perante toda a forma de opressão e de dependência" (p 56).

       "Como se pode falar de Deus, de Cristo, do Espírito Santo, da Igreja, dos sacramentos, da graça e da vida eterna perante a miséria, a exploração e a opressão do sr humano, no terceiro mundo, quando compreendemos o ser humano como uma criatura que é feita à imagem e semelhança de Deus, pela qual Cristo morreu, a fim de que ela, em todos os âmbitos da vida, experimentasse Deus como salvação e vida?... Deus é o Deus da vida e da salvação, na medida em que oferece e realiza a salvação e a vida no interior do único mundo criatural, social e histórico do ser humano, na unidade espiritual-corporal do ser humano" (p 105).

       "A experiência da exploração e a análise das suas circunstâncias históricas e sociais devem ser agora interpretadas à luz da revelação. Os testemunhos bíblicos mostram-nos Deus como o criador que escolhe a história enquanto lugar do seu agir libertador. A sua ação redentora liberta o ser humano não da história, mas para a história, como campo da efetivação das condições materiais adequadas ao ser humano para a sua realização como pessoa espiritual...
       A salvação não jaz simplesmente na interioridade da alma, que não seria atingida pelos chicotes egípcios. Aos israelitas oprimidos, também nãos e promete simplesmente um além-túmulo melhor, pensado objetivamente. Pelo contrário, a salvação acontece no agir libertador real de Deus, na retirada da escravidão... (p. 120).

       "A prática da verdade leva-nos para o lado dos pobres" p 204.

João Paulo II:
       "A fome de pão deve desaparecer, mas a fome de Deus permanecerá" p 53)
       "Que a fome de Deus permaneça e a fome de pão desapareça" p 154

in GUSTAVO GUTIÉRREZ e GERHARD LUDWIG MÜLLER. Ao lado dos Pobres.

Gustavo Gutiérrez - Onde dormirão os pobres?

       "A teologia é um falar de Deus à luz da fé. O discurso acerca do que Ele é e o que Ele é para nós representa o único tema da teologia. Devemos aproximar-nos do mistério de Deus com temor e humildade" (p 30).

       "A teologia afunda sempre as suas raízes na densidade histórica do presente da fé...
       Com efeito, o futuro não chega, constrói-se; fazemo-lo com as nossas mãos e as nossas esperanças, os nossos fracassos e projetos, a nossa obstinação e a nossa sensibilidade ao novo (p 72-73)
Onde dormirão os pobres?
(texto publicado em 1996 e inserido no livro "Ao lado dos pobres", pp 135-198)

       "A fé é graça. Acolher esse dom é colocar-se atrás das pegadas de Jesus, pondo em prática os seus ensinamentos e continuando a sua proclamação do Reino. No ponto de partida de toda a teologia está o ato de fé. Pensar a fé é algo que surge espontaneamente no crente, na reflexão motivada pela vontade de tornar mais profunda e mais fiel a sua vida de fé. Esta, porém, não é assunto puramente individual: a fé é vivida sempre em comunidade. Ambas as dimensões - a pessoal e a comunitária . marcam quer a vivência da fé quer a inteligência dela.
       A tarefa teológica é uma vocação que surge e é exercida no seio da comunidade eclesial. Ela está ao serviço da missão evangelizadora da Igreja. Essa localização e essa finalidade dão-lhe o seu sentido e esboçam os seus alcances. A teologia é falar acerca de Deus animado pela fé. Deus é, na verdade, o primeiro e último tema da linguagem teológica... a abordagem teológica é sempre insuficiente... Evangelizar é anunciar com obras e palavras a salvação de Cristo... libertação do pecado vai ao próprio coração da existência humana, lá onde a liberdade de cada um aceita ou rejeita - em última instância - o amor gratuito e redentor de Deus, nada escapa à ação salvífica de Jesus Cristo. Esta alcança todas as dimensões humanas, pessoais e sociais, e nelas deixa a sua marcas.
       As teologias trazem, necessariamente, a marco do tempo e do contexto eclesial em que nascem" (pp 137-139).

       "Desde os sues começos, a Teologia da Libertação, que nasceu de uma intensa preocupação pastoral, esteve ligada à vida da Igreja, aos seus documentos, à sua celebração comunitária, à sua inquietude evangelizadora e ao seu compromisso libertador com a sociedade latino-americana, particularmente com os mais pobres dos seus membros. As conferências episcopais latino-americanas [CELAM] dessas décadas (Medellín, Puebla, Santo Domingo), numerosos textos de episcopados nacionais e outros documentos referendam esta asseveração, inclusive quando nos convidam a um discernimento crítico diante de afirmações infundadas e de posições que alguns pretendiam deduzir dessa perspetiva teológica...
       A reflexão da Igreja... Parece-me que a sua preocupação fundamental gira em redor da chamada opção preferencial pelo pobre. Ela organiza, aprofunda e, eventualmente, corrige muitos compromissos assumidos nestes anos, bem como as reflexões teológicas a eles vinculados. A opção pelo pobre é radicalmente evangélica, constitui, portanto, um critério importante para operar uma filtragem nos precipitados acontecimentos e nas correntes de pensamento dos nossos dia" (p 141).

       "O nosso é o único continente, maioritária e simultaneamente, pobre e cristão... três aceções do termo pobre: a) a pobreza real (chamada frequentemente de pobreza material), como estado escandaloso, não desejado por Deus; b) pobreza espiritual, como infância espiritual, que tem como uma das suas expressões, - não a única - o desprendimento perante os bens deste mundo; c) a pobreza como compromisso: solidariedade com o pobre e protesto contra a pobreza. (p 142)

       "Na raiz dessa opção está a gratuidade do amor de Deus. Esse é o fundamento último da preferência.
       O próprio termo «preferência» rejeita toda a exclusividade e procura ressalvar os que sevem ser os primeiros - não os únicos - na nossa solidariedade... universalidade do amor de Deus e a sua predileção pelos últimos da história.
       ... a opção pelo pobre é... uma opção pelo Deus do Reino anunciado por Jesus... esse compromisso baseia-se fundamentalmente na fé do Deus de Jesus Cristo. É uma opção teocêntrica e profética, que ficam as suas raízes na gratuidade do amor de Deus e é requerida por ela....
       O pobre deve ser preferido não porque seja necessariamente melhor do que outros, a partir do ponto de vista moral ou religioso, mas porque Deus é Deus. Toda a Bíblia está marcada pelo amor de predileção de Deus pelos fracos e maltratados da história humana" (p 143-144).

       "A economia moderna desafia as normas morais admitidas comummente, e não somente nos círculos que podemos chamar de tradicionais. A inveja, o egoísmo, a cobiça converteram-se em motores da economia; a solidariedade, a preocupação com os pobres são vistas, em contrapartida, como travões ao crescimento económico e são, finalmente, contraproducentes para alcançar uma situação de bem-estar de que todos possam, um dia beneficiar" (p 153)

       "As nações pobres jazem ao lado das nações ricas, ignoradas por estas; no entanto, é preciso acrescentar que o fosso entre ambas é cada vez maior. O mesmo acontece no interior de cada país. A população mundial coloca-se de modo crescente nos dois extremos do espetro económico e social.
       Por outro lado, e de forma surpreendente, no texto lucano (isto é, no Evangelho de São Lucas) o pobre tem um nome: Lázaro; o rico, o poderoso, pelo contrário, não tem. A situação atual é inversa: os pobres são anónimos e parecem fadados a um anonimato ainda maior, pois nascem e morrem sem se fazer notar. Peças descartáveis numa história que se lhes escapa das mãos e os exclui" (p 158).

       "... os pobres, insignificantes e excluídos, não são pessoas passivas, à espera de que alguém lhes estenda a mão. Não têm apenas carências; nelas fervilham muitas possibilidades e riquezas humanas. O pobre e o marginalizado da América Latina é, muitas vezes, possuidor de uma cultura com valores próprios e eloquentes, que vem da sua raça, da sua história, da sua língua. Tem energias como as demonstradas pelas organizações de mulheres, em todo o continente, em luta pela vida da sua família e do povo pobre, com uma imaginação e força criadora impressionantes para enfrentar crises.
       Para a grande parte dos pobres da América Latina, a fé cristã desempenhou um papel decisivo nessa atitude; foi fonte de inspiração e razão poderosa para se negar a perder a esperança no futuro" (p 164).

       "Os pobres viram-se, muitas vezes, manipulados por projetos que se pretendem globais, sem consideração pelas pessoas e pela sua vida quotidina, e que, devido à tensa orientação ao futuro, se esquecem do presente. No entanto, o pensamento pós-moderno não se limita a isso: solapa também todo o sentido da história, e isso repercurte-se sobre o significado a ser conferido a acada exstência humana...
       ... Numa perspetiva cristã, a história tem o seu centro na vinda do Filho, na Encarnação, sem que isso queira signifciar que a história human avança ineludivelmente seguindo os sulcos traçados e dominados por um férreo pensamento regente. Jesus Cristo, como centro da história, é igualmente Caminho (cf. Jo 14, 5) para o Pai, movimento que dá sentido à existência humana a que todos estamos chamados. Essa vocação confere plena densidade ao presente, ao hoje... (pp 170-171).

       "... a razão última do compromisso com os pobres não reside nas suas qualidades morais ou religiosas - posto que elas existem -, mas na bondade de Deus, que deve inspirar a nossa própria conduta" (p 181).

       "O diálogo implica interlocutores conscientes da sua própria identidade. A fé cristã e a teologia não podem renunciar às suas fontes e à sua personalidade para entrar em contacto com outros pontos de vista. Ter convicções firmes não é obstáculo ao diálogo; é, antes, uma condição necessária. Acolher não por mérito próprio, mas por graça de Deus, a verdade de Jesus Cristo nas nossas vidas não somente não invalida o nosso trato com pessoas de outras persptetivas, as confere-lhes o seu autêntico sentido. Perante a perar de referências que alguns parecem viver, é importante recordar que a identidade humilde e aberta, é um componente essencial de uma espiritualidade...
       ...a capacidade de ouvir os outros é tanto maior quanto mais firme for a nossa convicção e mais transparente a nossa identidade cristã" (pp 186-187)

       "Devo confessar que estou menos preocupado pelo interesse ou pela sobrevivência da Teologia da Libertação do que pelos sofrimentos e pelas esperanças do povo a que pertenço, e especialmente pela comunciação da experiência e da mensagem de salvação de Jesus Cristo. Esta última é a matéria da nossa caridade e da nossa fé. Uma teologia, por mais relevante que seja o seu papel, não passa de um meio para o aprofundamento nesse amor e nessa fé. Por essa razão, trata-se, efetivamente, de proclamar a esperança ao mundo no momento que vivemos como Igreja" (p 198).

in GUSTAVO GUTIÉRREZ e GERHARD LUDWIG MÜLLER. Ao lado dos Pobres.

quinta-feira, 27 de março de 2014

LEITURAS: Giulio Viviani - Porque Jejuamos?

GIULIO VIVIANI. Porque Jejuamos? A prática do jejum e da abstinência na Igreja de hoje. Paulus Editora. Lisboa 2013. 112 páginas.
       Um livro é um pouco como as pessoas, não se mede aos palmos. Este é um pequeno livro mas muito curioso, abordando o tema do jejum e da abstinência (de carne) de uma forma simples, fundamentada, acessível, de fácil compreensão. Parte do texto de Isaías, que dá o título ao original italiano: «Para quê jejuar, se Vós não fazeis caso? Para quê humilhar-nos, se não prestais atenção?» (Is 58, 3). A resposta do Senhor é elucidativa: "É porque no dia do vosso jejum só cuidais dos vossos negócios, e oprimis todos os vossos empregados. Jejuais entre rixas e disputas, dando bofetadas sem dó nem piedade... O jejum que me agrada é este: libertar os que foram presos injustamente, livrá-los do jugo que levam às costas, pôr em liberdade os oprimidos, quebrar toda a espécie de opressão, repartir o teu pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não desprezar o teu irmão. Então, a tua luz surgirá como a aurora, e as tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se. A tua justiça irá à tua frente, e a glória do Senhor atrás de ti" (Is 58, 1-12).
       Esta crítica estará também no discurso de Jesus quando se refere a algumas práticas exteriores, rituais, que, embora respeitando a Lei, não aproxima as pessoas. O melhor jejum será sempre a bondade, a misericórdia, o serviço ao irmão. Ou dito de outra maneira, o jejum e a prática da abstinência (bem assim a oração e a esmola) deverão ser acompanhadas por uma conversão efetiva a Deus e de Deus para os irmãos.
       O autor fundamenta a relevância do Jejum e da Abstinência na Sagrada Escritura, na Tradição da Igreja, no Magistério papal. Desde logo o jejum de Jesus, durante 40 dias e 40 noites, no deserto, antes de iniciar a vida pública. Por outro a resposta dada alguns fariseus quando ao facto de os discípulos não jejuarem. A resposta é evidente: não jejuam por agora, enquanto o noivo está com eles, quando o noivo lhes for tirado então jejuarão (cf. Mc 2, 18-22).
       Alguns documentos importantes revisitados pelo autor: Constituição Apostólica Paenitemini, do Papa Paulo VI, Catecismo da Igreja Católica, Código de Direito Canónico, Normas para o jejum e abstinência, da Conferência Episcopal Portuguesa (28 de janeiro de 1985), e Nota Pastoral O sentido cristão do jejum e da abstinência, da Conferência Episcopal Italiana (4 de outubro de 1994).
       Na atualidade verifica-se, de algum modo, uma certa indiferença em relação a estas práticas, que se acentuam sobretudo na Quaresma. Por um lado, a própria Igreja mitigou as orientações, para sublinhar que a salvação era dom de Deus, afastando de novo algumas conceções farisaicas: a salvação resultaria sobretudo do esforço humano e do sacrifício, das práticas instituídas. A Igreja, fiel a Jesus, quis e quer, que as práticas exteriores, do jejum, oração e esmola, seja sobretudo um sinal de conversão, de adesão à vontade de Deus, de mudança efetiva na vida pessoa, familiar, comunitária, sejam oportunidades na Quaresma mas para se estenderem a todo o ano. Por outro lado, o Jejum e a abstinência não podem ser separadas, nunca, do serviço concreto ao próximo. Não se jejua hoje para amanhã comer mais, ou se poupa hoje para amanhã gastar mais, mas que a poupança, no jejum e abstinência possam reverter a favor dos mais necessitados. Aliás, estas práticas visam fazer-nos sensibilizar para as carências de outras, que não têm que comer, que vestir, não têm o mínimo necessário para sobreviver com dignidade.
       Um dos aspetos cuja reflexão me surpreendeu anda à volta da ABSTINÊNCIA e concretamente de CARNE. Obviamente, e o documento da Conferência Episcopal Portuguesa é claro, mas também outras intervenções do magistério episcopal e papal, a abstinência poderá ser de um alimento ou algo que nos agrade muito: do tabaco, de café, de andar de carro, de doces, beber água da torneira e abster-se de beber água engarrafada. Cada família, comunidade, ou cada região, poderá refletir e propor um jejum e/ou abstinência que seja sinal para aquela realidade. No entanto, a Abstinência de Carne poderá ser um sinal com raízes muito significativas.
       Em Sexta-feira Santa, Jesus ofereceu a Sua Carne por nós. A abstinência e o jejum e a oração e a esmola, são práticas pascais, para melhor nos associarem à paixão redentora de Jesus. Daí se recomende a abstinência em todas as sextas-feiras, especialmente na Quaresma. Configurados à oferenda de Jesus, em Sexta-feira só deveríamos COMER a CARNE de Jesus e não outra carne. Belíssimo. Nunca tinha encontrado uma explicação tão justa e luminosa como esta. Até o jejum eucarístico (uma hora antes de comungar) poderá aqui encontrar uma explicação válida: não misturar o ALIMENTO com outros alimentos, valorizando o verdadeiro Pão da Vida.
       Outro argumento, igualmente preponderante, o facto da abstinência de carne poder ser um SINAL cristão no mundo atual. A abstinência pode adquirir outras modalidades, mas havendo uma comum a todos os cristãos e a todas as comunidades funcionará melhor como sinal. Nas cantinas da escola, ou nos restaurantes, há uma alimentação própria para vegetarianos, para judeus. Os muçulmanos sinalizam o Ramadão em público... então por que não os cristãos proporem o SINAL, não comendo carne à sexta-feira, oportunidade para sublinharem as razões da sua fé.
       Obviamente que esta prática não recusa a abstinência de outros alimentos ou situações, a nível pessoal, familiar e/ou comunitário. Mas um SINAL comum dos cristãos seria bem vindo. Parece que só os sinais dos cristãos desaparecem, sem que ninguém se importe com isso. A fundamentação, contudo, está na identificação com Jesus Cristo e com o mistério da Sua morte e ressurreição.
       Diga-se também que o não comer carne não significa que se deva comer peixe... O autor conta uma pequena história em que uma senhora o terá abordado para dizer que as leis da Igreja eram um disparate pois obrigavam a comer peixe nas sextas-feiras da Quaresma, quando o peixe era uma comida cara, uma comida para ricos, não levando em conta as pessoas com menos recursos. Em nenhum documento da Igreja se diz que a carne deva ser substituída por peixe. Hoje há muitos alimentos confeccionáveis que não exigem carne. Leite, ovos, queijo não entram na "proibição"/ recomendação de não se comer carne. E portanto será fácil preparar refeições sem carne.
       A abstinência é recomendada a partir dos 14 anos. O Jejum, a partir dos 21 anos, e em Portugal a partir dos 18 anos, e até aos 60 anos de idade. Dispensadas estão as pessoas doentes, as mulheres a amamentar, ou outras razões que justifiquem a dispensa. As crianças, sobretudo em idade de catequese, e as pessoas com 60 anos ou mais, podem também jejuar. A indicação para todos é que não ponha em causa a saúde da pessoa que jejua.
       Vale a pena uma leitura atenta e descontraída deste pequeno livro. 112 páginas, com o tamanho de um tablet de 7''.

quarta-feira, 26 de março de 2014

A Caridade na Verdade

"O amor - "caritas" - é uma força extraordinária, que impele as pessoas a comprometerem-se com coragem e generosidade no campo da justiça e da paz" (1);
"A verdade é luz que dá sentido e valor á caridade" (3);
"A sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos" (19);
"O primeiro capital a valorizar é o homem, a pessoa na sua integridade" (25);
"A acção é cega sem o saber, e este é estéril sem o amor" (30);
"Os custos humanos são também sempre económicos, e as disfunções económicas acarretam também sempre custos humanos" (32);
"O ser humano está feito para o dom, que exprime e realiza a sua dimensão de transcendência" (34);
"O desenvolvimento económico, social e político precisa, se quiser ser autenticamente humano, de dar espaço ao princípio da gratuidade como expressão da fraternidade" (34).
BENTO XVI, A Caridade na Verdade. Caritas in Veritate.
Recolha da revista Cidade Nova. Outubro 2009.

Ao lado dos Pobres - Teologia da Libertação

GUSTAVO GUTIÉRREZ e GERHARD LUDWIG MÜLLER. Ao lado dos Pobres. A Teologia da Libertação é uma Teologia da Igreja. Paulinas Editora. Prior Velho 2014. 208 páginas.
       Com a eleição do então Cardeal Jorge Mario Bergoglio, em 13 de março de 2013, escolhendo o nome de Francisco, em homenagem a Francisco de Assis, colocando o acento tónico na Igreja pobre e dos pobres, a Teologia da Libertação ganhou nova visibilidade. Longe vão os tempos em que a Teologia da Libertação esteve sob suspeita, sendo acusada, por ignorância e preconceito, de uma teologia marxista, partindo da análise socioeconómica, na persecução do mesmo objetivo da luta de classes.
       Desde logo, no centro da Teologia da Libertação, cuja paternidade tem um rosto de fidelidade à Igreja e ao Magistério, e fidelidade e compromisso com os pobres do Peru, sua terra natal, englobando toda a América Latina e Caribe, a opção preferencial pelos pobres, expressão acarinhada pelos Bispos locais em diversas Assembleias, é uma opção que decorre do amor gratuito e misericordioso de Deus pelos pobres, não pela bondade dos mesmos. Em Jesus, Deus que encarna e Se "localiza", os pobres têm lugar à mesa, hão de ser os primeiros a ser servidos. A Teologia da Libertação é verdadeira teologia, parte de Deus, do Evangelho, acolhe o magistério eclesial, colocando o enfoque precisamente na opção pelos pobres, não como adenda, mas como compromisso irrenunciável. Por outro lado, mesmo servindo-se das ciências humanas e sociais, da análise socioeconómica, não visa, como no marxismo, a troca de uma classe social por outra, mas a dignidade da pessoa humana, de todas as pessoas. A economia de mercado, a globalização da economia, na maioria das vezes não levou a melhorias da vida da maioria, mas sobretudo a abertura dos mercados emergentes para obrigar o escoamento dos produtos das nações mais ricas.
       Vê-se como o autor - não renunciando ao enfoque próprio da Teologia da Libertação, mostrando com clareza que toda a teologia tem em conta a particularidade, a começar pelo próprio Jesus, judeu de nascimento - mantém uma pose de grande humildade e abertura, explicando uma ou outra vez, sublinhando que o mais importância nem é a relevância da Teologia da Libertação, mas o serviço aos mais pobres.
       O Papa Francisco tem precisamente sublinhado como a Igreja deverá ir às periferias geográficas e sobretudo existenciais, tendo vindo também ele de uma periferia.
       A reflexão resultante do Concílio Vaticano II, sobretudo com a Constituição Gaudium et Spes, com a abertura da Igreja ao mundo e a necessidade de uma leitura atenta e atual aos sinais dos tempos, é precisamente berço para o nascimento da Teologia da Libertação, que procura ler e responder aos sinais de uma América Latina pobre, empobrecida, periférica. Gustavo Gutiérrez não se deixou enredar em polémicas e respondeu sempre com abertura às estruturas da Igreja, nomeadamente perante a Congregação para a Doutrina da Fé, com o então Cardeal Ratzinger, como o próprio [Ratzinger] a empenhar-se pessoalmente no diálogo frutuoso com o pai da Teologia da Libertação, acolhendo a riqueza deste património, cuidando para minorar os riscos de desvio e apropriação da Teologia da Libertação por algum regime ditatorial.
       Curiosamente, o parceiro desta publicação é o atual Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal Gerhard Ludwig Müller (feito Cardeal no dia 21 de fevereiro de 2014, pelo Papa Francisco). Outra curiosidade, é que foi nomeado para Prefeito por Bento XVI, a 2 de julho de 2012, para substituir o cardeal norte-americano William Joseph Levada, por limite de idade.
        O próprio Gutiérrez sublinha o risco de alguns desvios teóricos e práticos da Teologia da Libertação, sem que seja essa a sua génese. No livro, Gerhard Müller, deixa claro que "o movimento eclesial e teológico latino-americano conhecido como "Teologia da Libertação", que se espalhou por outras partes do mundo depois do Concílio Vaticano II, deve, em minha opinião, ser incluído entre as correntes mais importantes da teologia católica do século XX".
       Continua a haver muitos críticos da Teologia da Libertação, que o fazem uma e outra vez por ignorância e preconceito. Mas também a polémica se gera do lado dos que arremessam com esta Teologia contra a Igreja e o Magistério. No entanto, a coletânea dos textos recolhidos neste livro, publicada em 2004, na Alemanha, mais os textos do de Gerhard Müller, afastam-se claramente de qualquer polémica, num equilíbrio ímpar. Sublinhe-se também, que durante a reflexão/análise na Congregação para a Doutrina da Fé, sob a batuta do então Cardeal Joseph Ratzinger, nunca o movimento foi criticado. Por outro lado, o Papa João Paulo II recorrerá por diversas vezes à linguagem nova que vem das Conferências Episcopais da América Latina e Caribe, reunidas em Medellín (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992). A "opção preferencial pelos pobres" entra definitivamente no vocabulário da Igreja e a necessidade da Nova Evangelização enraíza-se precisamente nas Assembleias do episcopado latino-americano, sancionando a Teologia da Libertação. Posteriormente, a Assembleia da CELAM (Episcopado Latino-Americano) em Aparecida, no Brasil, em 2007, e tal como o fez João Paulo II, também Bento XVI lhe dirigiu palavras de estímulo num discurso muito cristológico.
       Para melhor compreender o que significa Teologia da Libertação, mas sobretudo a opção preferencial pelos pobres, que ao tempo de Cristo tinham nome - Lázaro -, e que agora são uma maioria sem nome e sem chão, este é um excelente texto, de fácil compreensão. O propósito da Teologia da Libertação, com um enfoque específico, visa o mesmo que toda a Teologia, que Cristo seja tudo em todos.

terça-feira, 25 de março de 2014

Bento XVI - o amor é gratuito

        «O amor é gratuito; não é realizado para alcançar outros fins. [30] Isto, porém, não significa que a acção caritativa deva, por assim dizer, deixar Deus e Cristo de lado. Sempre está em jogo o homem todo. Muitas vezes é precisamente a ausência de Deus a raiz mais profunda do sofrimento. Quem realiza a caridade em nome da Igreja, nunca procurará impor aos outros a fé da Igreja. Sabe que o amor, na sua pureza e gratuidade, é o melhor testemunho do Deus em que acreditamos e pelo qual somos impelidos a amar. O cristão sabe quando é tempo de falar de Deus e quando é justo não o fazer, deixando falar somente o amor. Sabe que Deus é amor (cf. 1 Jo 4, 8) e torna-Se presente precisamente nos momentos em que nada mais se faz a não ser amar. Sabe — voltando às questões anteriores — que o vilipêndio do amor é vilipêndio de Deus e do homem, é a tentativa de prescindir de Deus. Consequentemente, a melhor defesa de Deus e do homem consiste precisamente no amor. É dever das organizações caritativas da Igreja reforçar de tal modo esta consciência em seus membros, que estes, através do seu agir — como também do seu falar, do seu silêncio, do seu exemplo —, se tornem testemunhas credíveis de Cristo.

Bento XVI, Aprender a Acreditar. Carta Encíclica Deus Caritas est, n.º 31

Oração e desenvolvimento

"O desenvolvimento tem necessidade de cristãos
com os braços levantados para Deus
em atitude de oração,
cristãos movidos pela consciência de que o amor
cheio de verdade - caritas in veritate -,
do qual procede o desenvolvimento autêntico,
não o produzimos nós, mas é-nos dado".

Bento XVI, Caritas in Veritate, 79.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Encontro de Formação Juvenil, em Tabuaço

       No passado dia 22 de março, o Sdpj (Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil) de Lamego promoveu a segunda parte do Curso de  Curso de Animadores Juvenis (e não só), com o desafio: "Ide, sem medo, para servir". Se a primeira parte foi em Lamego, no Seminário Maior, esta realizou-se na Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Tabuaço. O programa foi preenchido, das 9h30 às 18h00, com momentos de oração, de reflexão, trabalho de grupo, plenários, almoço. Terminou da melhor forma, com a celebração da Santa Missa, na Igreja Paroquial, com a especial participação dos jovens na animação litúrgica.
       O Grupo de Jovens de Tabuaço (GJT) respondeu, de novo, de forma significativa com entusiasmo, dedicação e alegria nesta atividade juvenil, contando que ajudará a um compromissso mais efetivo na comunidade eclesial e na sociedade.
       Algumas fotos desta jornada:
Pode visualizar as restantes fotografias disponibilizadas na página do
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José Maria Cabral - O desafio da Normalidade

JOSÉ MARIA CABRAL. O Desafio da Normalidade. (Impressões do fim da vida). Rei dos Livros. Lisboa 1994, 2.ª Edição. 296 páginas.
       Ler um bom livro pode ajudar a abrir a mente e o coração, a pensar em ideias positivas, em deixar-se desafiar pela história vivida e contada em momentos de grande provação. Na parte final do livro Manuel Forjaz, Nunca desistas da Vida, que fizemos questão de ler e, após a leitura envolvente, achamos por bem sugerir, cujo testemunho do autor tinha como um dos propósitos incentivar outras pessoas com cancro a manter as rotinas, procurando manter a mesma agenda, fazer o que se costumava fazer, não alterar nem hábitos nem afazeres. Lembramo-nos então destoutro comovente testemunho. Lemo-lo há vários anos, lá para o ano de 1996. Depois disso voltamos a repescar algumas passagens.
       José Maria Cabral é médico, ligado precisamente à oncologia. Familiar e próximo de muitas pessoas com cancros e com cancros de muitas estirpes. No dia 8 de outubro de 1991, às três da tarde, no meio do trabalho, foi-lhe comunicado que sofria de uma doença maligna incurável (linfoma maligno). "O cancro parece representar o princípio do mal, a dissolução da unidade, a desindividualização. Por tudo isto e por razões mais obscuras, o cancro, entre outros males, constitui um verdadeiro desafio à normalidade".
       A primeira reação é de dor, de surpresa, de medo. A reflexão fá-lo fixar-se no outono, o declínio da natureza e do espírito. Como sempre, procura a calma serena. "Preparei a minha esperança para dar sentido a uma nova etapa da vida... Percebi a minha nudez... Sentia-me novo para morrer". 44 anos... "Antes, mais jovem tinha preguiça em deitar-me, agora tinha preguiça em permanecer ativo e só pensava em adormecer"... Os médicos são os doentes mais piegas.
       Com o progredir da doença e dos tratamentos, fica cada vez mais dependente, mais exposto aos outros. Agora está do outro lado. Não é médico, é o doente, com neessidade de atenção, de cuidado, de precauções variadas. Mas insiste com a vida. Não deixa de viver a família, com a mulher e os filhos, e de fazer viagens. Naquele que ele define como "o ano da minha morte", não deixa de ir numa viagem a Roma, embora seja o Porto, a sua cidade, e a família, os espaços onde se sente feliz.
       Perpassa muito sofrimento, certamente. A linha condutora, porém, é de grandeza corajosa, procurando viver bem, fazer as coisas mais normais como ir à casa de banho, apreciar pequenas vitórias, enfrentar os medos, os próprios mas sobretudo os da família. Custa mais ainda o sofrimento que a família possa vir a ter. Tem pouco tempo de vida. Mas quer esgotar as hipóteses que lhe são colocadas para minorar a dor ou a possibilidade de cura, calculando o preço/benefício. Sobrevém uma grande fé em Deus. Há um momento em que a normalidade parece ser aceitar a própria morte como inevitável, para não sofrer e não fazer sofrer os outros. É um testemunho muito lúcido sobre a vida, o amor, a família, a introspecção (o Porto e a família), a beleza, a alegria e a santidade, o trabalho e os amigos. Pedindo emprestado as palavras a Manuel Forjaz, diria que o cancro o matará mas não matará a sua a vida, relacionando-se com os amigos, com a família, com o mundo, com Deus. Enquanto houver tempo, há que viver o melhor possível, procurando viver, com as limitações da doença, a normalidade. Estuda com afinco os tratamentos. Às tantas dão-o como curado, que é sol de pouca dura... Novos tratamentos... transplante da medula óssea... debates acesos... perante 5% de hipótese, valerá a pena submeter-se a novo tratamento? Em Paris, ou em Portugal... sempre o Porto.

Da dedicatória do livro:
"Diverte-me a vida, aprecio a vida com intensidade todos os dias. Todo o tipo de vida: vegetal, animal, humana, espiritual..., a criação!
Agradeço aos que me ajudaram no aprofundamento deste sentimento que me arrebata.
Agradeço a dedico estas considerações em particular à minha mulher e aos meus filhos, à família que me faz viver".

Frases avulso:
"Como custa o silêncio! O silêncio da aceitação e obediência, o silêncio para me encher dos outros e me encher de nada de mim!" (p 58).

"As batalhas do meu temperamento desigual oscilavam assim dentro de uma grande amplitude, entre o fantástico e o péssimo, entre a realidade e o sonho, entre a alegria e a tristeza, entre a amizade e o isolamento, entre a glória e o arrependimento" (p 69)

Sobre Mafalda, a mulher: "Eu sofria por ver a dor dela e ela sofria por ver que sobre a minha dor eu tinha a dor pela dor dela. Cada um de nós como desaparecia na dor do outro" (p 82).

"O mês de janeiro chegou. Entrei no ano da minha morte. Era assim que eu interpretava a minha vocação" (p 100).

"Admirava cada vez mais a criação. Quanto mais sentia que nada do que existia era meu, que as minhas coisas e o meu corpo estavam hipotecados, mais gosto tinha pela vida e pelas coisas, pelas coisa em si, não porque fossem minhas... Eu não tenho nada, mas nada, nada meu! E que importa" (p 101).

"Sempre o tempo, sempre o espaço sem tempo, sempre o espírito sem a morada do tempo, sempre a qualidade sem medida... O homem sem tempo não pode ser homem! O tempo parece a alma do homem. Espaço e tempo, corpo e alma, dor e liberdade, obediência e vontade, ato e desejo, diversidade e unidade, dilemas longos e irreais como essas horas sem ritmo" (p. 125).

"É preciso amar inteiramente sem contrapartidas. Amar é querer estar sempre vivo para morrer. É preciso amar sem ver, sem possuir, viver com o estranho e o doloroso instrumento da fé, não a minha mas a que Deus me oferece" (p 196)

"Não poderei transportar uma árvore para o mar e plantá-la.mas poderei ver Deus face a face, poderei plantar-me na intimidade divina. Deus roçou o universo do querer humano. Deus procurou na pequenez do homem a grandeza divina. Deus quis-se na vontade do homem" (p 290).

sexta-feira, 21 de março de 2014

Manuel Forjaz - doença, vida, escolhas, fé, Deus, morte

       “A doença provavelmente vai matar-me, não sei quando e não me preocupo com isso. O que sei é que o cancro não vai conseguir matar-me a vida” (p. 153)

       “Sei que tenho um cancro e que um dia me vai vencer. Mas esse dia ainda não chegou e até lá tenciono continuar a aproveitar cada momento. Tive várias derrotas na minha vida, mas de todas as vezes caí de pé. É preciso nunca deixar de viver” (p. 155)

       “A minha fé é plástica, irracional, absoluta, converso com Deus enquanto passeio na rua, Ele senta-se ao meu lado à noite antes de adormecer e quando rezo, não papagueio apenas umas ave-marias e um pai-nosso, falo com Ele, discuto, exponho as minhas inquietações. Vou à missa com regularidade e passo pela Igreja dos Mártires rodas as semanas para falar durante uns minutos com o padre João Seabra, que me casou, batizou os meus filhos e continua a ser o meu confessor” (p 149)
       “Não deixar nada para amanhã, não pôr a vida em suspenso à espera do resultado de mais um exame, viver todos os dias, deixou de ser um objetivo e passou a ser um hábito, uma rotina” (p 140)
       "O sofrimento é relativo, podia ser pior, poder ter acontecido ais meus filhos. Vou morrer, sim. Eu e mais 155 mil pessoas no mesmo dia. Mas não é amanhã, e enquanto isso não acontece a vida segue pujante, bela, cheia de amor, de pequenos prazeres, sol e peixe grelhado. A única coisa que quero é seguir a minha vida tal como ela é, manter tudo exatamente na mesma. Sem nunca baixar os braços, sem nunca parar de procurar mais um tratamento, mais uma alternativa, mais uma opção” (p 55-56)


in MANUEL FORJAZ, Nunca te distraias da Vida.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Tabuaço - Festa de São José | Dia do Pai

       A solenidade de São José, esposo da Virgem Maria, Pai adotivo de Jesus, é ocasião paras as diversas comunidades paroquiais assinalarem o DIA do PAI. Assim foi neste espaço pastoral - Carrazedo, Pinheiros, Távora e Tabuaço. Na paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Tabuaço, a celebração da Eucaristia contou com a participação especial da Catequese, catequistas e catequizandos, Grupo Coral da Catequese, Grupo de Acólitos, Grupo de Jovens (GJT). Algumas fotos deste desta celebração:
Para outra fotos visite a página da Paróquia de Tabuaço no Facebook
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quarta-feira, 19 de março de 2014

MANUEL FORJAZ - Não te distraias da vida

MANUEL FORJAZ. Não te distraias da vida. Poderei morrer da doença, mas a doença não me matará. Oficina do Livro. Alfragide 2014. 172 páginas.
       Quase por acaso, ou talvez não, encomendei, via Internet, este livro, sem conhecer o autor. Vi a promoção da publicação e pela descrição seria uma leitura interessante e envolvente afinal era o testemunho de alguém que tem cancro e que já passou por muitas intervenções, tratamentos, por melhoras e por recaídas, por momentos em que o otimismo natural o predispunha a celebrar a vida, outras vezes as notícias que se tornavam desanimadoras sobretudo quando chegavam novos exames a contradizer a esperança de vencer a doença. Num dia seguinte, encontrei o José Alberto Carvalho, na TVI 24, a entrevistar um homem, sem cabelo, que me fez lembrar o economista Vítor Bento (outro Vítor que poderia ter sido Ministro das Finanças). Afinal, pelo desenrolar da conversa, me apercebi que era precisamente o autor do livro que tinha encomendado nas vésperas.
       Como diria Tolstoi, as famílias felizes são todas iguais, as famílias tristes são cada uma à sua maneira. Ou como popularmente se vai dizendo, não há doenças, há doentes, pois cada pessoa reage de maneira específica à manifestação da doença, que pode ter o mesmo nome, mas cuja reação interage com a pessoa. Acrescentaríamos que a doença se faz particular na pessoa, a pessoa "faz" a doença ser diferente que noutras pessoas. Assim também o cancro, no caso concreto num pulmão. Uns querem falar da doença, outros não. Uns reagem com esperança e não quebram as rotinas, a não ser que a isso sejam forçados, outros deixam de viver.
       O livro resulta do desejo de acalentar a esperança para os que enfrentam situações semelhanças e para as pessoas que convivem com doentes oncológicos. Há pouco tempo recomendámos a leitura do livro da Fernanda Serrano - Também há finais felizes -, que viveu momentos de grande aflição e que parece ter superado os anos de maior risco da doença "reincidir". Pelo que se vê no presente testemunho, Manuel Forjaz continua a viver à espera do próximo tratamento, da próxima experiência, sem deixar de procurar, de lutar, de incentivar outros. Além do livro, tem usado várias plataformas para contar a sua experiência, para responder a quem busca respostas, fazendo sugestões para enfrentar a doença, mas também acompanhar, trabalhando na área de empreendedorismo, a criação de empresas.
       É uma história de vida, como filho, como marido, como pai, como católico, como professor, como diretor de empresas de sucesso mas que também passam por dificuldades. O importante é não desistir. Como refere no subtítulo: «poderei morrer da doença, mas a doença não me matará [a vida]». Há tantas coisas que se podem fazer. Não adiar para amanhã. Não desanimar. Pior é ter cancro no Sudão do Sul onde os cuidados médicos são muito deficitários. Não se contente com uma resposta, busque outras.
       Uma das perspetivas, e apesar da doença por vezes o deixar de rastos, é a procura por manter hábitos e rotinas. Veio à memória outro livro, outra história comovente, a de um médico oncologia, José Maria Cabral, em quem se manifestou o cancro. O título - O desafio da Normalidade - mostra como é possível arranjar forças para procurar viver a vida com os amigos e com a família, não deixando que a doença ganhe na qualidade dos afetos e dos sentimentos.
       Conheça ou não alguém com cancro, tenha alguém na família ou não, esta leitura será sempre um desafio, uma provocação. Pode lembrar-nos, no meio das nossas aflições, que há outros cujo sofrimento é bem mais violento e constante. Por outro lado, e numa perspetiva de fé que o autor também expressa, não valerá a pena perguntar: "Porquê eu?", pois pode acontecer a todos. Não é certamente um castigo de Deus. Integra a fragilidade biológica do ser humano. A fé pode abrir outra perspetiva, dando-nos força mas também esperança diante da eminência da morte.
ANEXO 1:
O MEU CANCRO: REGRAS PARA VIVER MELHOR
- Proíba quem quer que seja de lhe falar de quem morreu de cancro; quem tem cancro tem presente que vai morrer provavelmente mais cedo que a maioria, não precisa ser lembrado todos os dias;
- Por outro lado, e em sentido contrário, estimule quem o rodeia a contar histórias de quem venceu, está a vencer ou vive com a doença há muito tempo; inspire-se nas boas histórias, sem nunca perder o bom senso;
- Não tenha pena de si próprio. Isso gera um círculo fechado de tristeza e angústia de que é difícil libertar-se;
- Não tente perceber «porquê eu?». Porque sim. Uns cancros são genéticos, outros são ambientais, outros são profissionais. Acontece, não há razões místicas ou religiosas. Toca a muitas pessoas, aqui e no Sudão do Sul, onde claramente as condições de tratamento são bem piores;
- Se ainda assim tem tendência para ficar a remoer esse tipo de pensamentos, lembre-se (quem, como eu, tiver filhos) que ainda bem que fomos nós e não eles;
- Perceba que vai morrer, mas lembre-se que morrem todos os dias 155 mil pessoas, algumas em circunstâncias bem piores que a sua. E vai morrer, mas não é já amanhã. E até lá, a vida segue, bela, poderosa, pujante, cheia de coisas boas, cheia de amor, de pequenos prazeres, de sol e peixe grelhado;
- Não perca demasiado tempo a pensar na sua morte e no disparate das bucket list (apesar de ser tolerável ir ver o filme de Morgan Freeman e Jack Nicholson). Se o fizer, esquece-se de viver. Manter tudo exatamente na mesma - contactos, vida social e profissional -, praticar exercício físico e seguir uma boa alimentação, é a melhor maneira de continuar a viver;
- Siga as medicinas alternativas que entender, mas só depois de as estudar, de ouvir testemunhos credíveis e certificar-se de que não afetam os tratamentos clássicos que estiver a seguir.
ANEXO II
O CANCRO DOS OUTROS: REGRAS PARA LIDAR COM A DOENÇA
- Lembre-se que ninguém morre logo amanhã; às vezes morre-se em poucas semanas, mas a vastíssima maioria dos doentes com cancro dura bastante mais e alguns sobrevivem além da idade de morrer de velho;
- Prepara-se para possíveis recaídas. Muitos doentes tratam-se à primeira, outros à segunda e outros à terceira (mas nunca desistimos);
- Não dramatize. A medicina evoluiu muito e hoje os doentes vivem com razoável qualidade de vida;
- Há doentes que querem falar do cancro e outros que preferem não tocar no assunto. Respeite essa decisão mas, em qualquer caso, se não está psicologicamente preparado é melhor não se armar em enfermeiro ou psicólogo;
- Esqueça as tragédias alheias e as histórias de quem nãos e safou, disso os doentes já têm chegue. Dê sorrisos, miminhos e amor que é tudo o que um doente com cancro precisa na eterna luta contra a doença;
- A quimioterapia não é um horror de diarreias, enjoos e aftas. Há dois dias de «psicadélicos», ao segundo e ao terceiro dia, mas cada caso é um caso e cada pessoa reage de maneira diferente. O segredo para reforçar a energia é «canja de galinha», muito mar, se possível, e boa disposição à volta;
- Ficar careca acontece a muita gente, mas o cabelo volta a crescer, não há drama nenhum nisso - brinquem com a situação (só os carecas mesmo é que perdem o cabelo para sempre);
- Todos morremos, disso ninguém escapa. O segredo não é por isso falar de morte, que é óbvia e absoluta, mas sim lembrar o outro de não se esquecer de viver a vida, que é fantástica, surpreendente e extraordinária;
- Nunca digam a alguém com cancro que está mal ou vai morrer, sejam, louca e racionalmente positivos e otimistas.
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segunda-feira, 17 de março de 2014

Paróquia: territorialidade, humanidade e fé

       O que dá o seu verdadeiro rosto á realidade paroquial é o tipo de população, os fatores humanos, a herança do passado, as mudanças que se operaram. A relação com o solo (chão) vai unida à relação com as pessoas que tem nele as suas raízes. Há um fundamento da comunidade humana: a convivência. O ser humano é espírito encarnado; por isso enxerta a sua vida nas coordenadas espácio-temporais. Entra-se numa paróquia que existe antes de casa um, que acolhe o que chega, que vincula os que estavam antes, os mais velhos, também os defuntos. Essa base espacial que dizer que a territorialidade da paróquia não é simplesmente um facto geográfico convencional, um meio que se adota para promover as relações de vizinhança, mas que a Igreja está ao serviço das pessoas tal e como vivem num lugar. A missão da paróquia consistirá em assumir o que vive uma população para apresenta-lo diante de Deus e anunciar a todos o Evangelho do Reino.
       Compreende-se assim que a paróquia seja uma instituição internamente heterogénea e mais «lenta», porque leva sobre si a carga dos cristãos não praticantes, dos aleijados, dos que se não crentes mas que não rompem definitivamente a sua vinculação eclesial…

in JOAQUIN PEREIA. Otra iglesia es posible. p. 281

Corresponsabilidade, participação e sinodalidade...

       Os membros provenientes dos diversos grupos eclesiais, ainda que eleitos, não são «representantes» de tipo parlamentário, mas crentes que foram designados para testemunhar a fé e colaborar na missão da Igreja. O termo de representação no domínio eclesial deve traduzir-se por testemunho de fé.
       Esta perspetiva tem uma consequência importante. O voto no interior de um organismo eclesial de corresponsabilidade não tem o mesmo significado que no domínio secular. Na estrutura sinodal da Igreja, na qual o problema da unidade nunca pode resolver-se pela afirmação absoluta da maioria, o voto, não só consultivo, mas inclusivamente deliberativo, tem outro sentido. A votação não se pode entender como vitória do ponto de vista da maioria, nem é um compromisso ou acordo entre uma práxis autoritária e uma democrática (quer dizer, um instrumento para excluir o poder absoluto do bispo ou do pároco).
       A votação é um ato jurídico formal, sim, mas serve sobretudo para fixar a opinião dos crentes que dão testemunho da fé. Esse voto não é um ato de busca da vontade política, mas o reconhecimento de uma realidade. Expressa um componente constitutivo do processo de configuração comunitária do que chamamos um juízo eclesial de comunhão. Por isso corresponde-lhe uma específica força vinculante que expressa a unidade da fé da Igreja.

in JOAQUIN PEREIA. Otra iglesia es posible. p. 255

domingo, 16 de março de 2014

Joaquín Perea - Outra Iglesia es posible

JOAQUIM PEREA. Otra Iglesia es posible. Eclesiologia práctica para cristianos laicos. Edições HOAC. Madrid 2011. 3.ª edição. 336 páginas.
       O título deste livro não é uma pergunta, mas uma afirmação: é possível outra Igreja, isto é, que a Igreja sofra renovação, conversão, novos compromissos eclesiais. É possível uma nova evangelização, com novos métodos e novo ardor, com uma linguagem mais acessível, que resulte do testemunho, do compromisso concreto e efetivo com as pessoas que nos rodeiam.
       Formulado como pergunta, esta afirmação surge muitas vezes numa perspetiva de contestação, de oposição, de substituição de uma por outra Igreja. Não é o caso presente, até porque o autor é um sacerdote com experiência pastoral e empenhado em comunicar a beleza do Evangelho e a presença contagiante de Jesus.
       Partindo da realidade, a verificação que a renovação conciliar muitas vezes não passou de uma mera cartilha de intenções. O Vaticano II foi uma oportunidade para a Igreja, mas as consequências práticas não seguiram os desejos formulados pelos documentos, alguns dos quais terão restringido o que vinha a ser a sensibilidade pré-conciliar.
       Um dos elementos fundamentais foi a concepção da Igreja como Povo de Deus, Corpo de Cristo, acentuando-se a eclesiologia da comunhão, em que serviços e ministérios adquirem novo vigor, surgindo uma maior corresponsabilidade entre todos os membros da Igreja. A pirâmide que sustentava a definição da Igreja, com o clero no topo e os leigos na base, quase como meros espectadores, é alterada para uma fundamentação batismal. Há um POVO ao qual todos pertencemos pelo Batismo, participando na tríplice função de Cristo: sacerdote, profeta e rei. Os ministros ordenados fazem parte do Povo Deus, não estão por cima mas ao serviço.
       Na prática, muitas situações continuam como antes. Dum lado os que mandam, do outro os que obedecem. Por outro lado, embora o apelo à corresponsabilidade, à participação, à sinodalidade seja evidente, não tem concretização no ordenamento prático e jurídico da Igreja.
       A nossa Diocese de Lamego tem no plano pastoral para este ano a criação de Conselhos Pastorais Paroquiais, Arciprestais e Diocesano, perspetivando uma maior participação dos leigos, cuja legitimidade vem da condição de batizados. Sem ser democracia, a Igreja há de buscar formas mais democráticas para viver a fé, testemunhar a esperança, anunciar o Evangelho. Não se procuram maiorias quantitativas, mas a unanimidade de fé em Cristo Jesus. Instrumentos de participação e de corresponsabilidade, e sobretudo com o ensejo de uma Igreja mais sinodal, em que há lugar para os ministros ordenados, sem desprimor da missão laical.
       Também para esta reflexão é muito útil esta leitura. Trata do lugar da Paróquia e da Igreja local, das comunidades eclesiais, enxertadas na comunidade paroquial. Trata da catolicidade da Igreja na paróquia e na Diocese. Avança com propostas. Situa-nos no tempo, na cultura, na realidade dos nossos dias, onde a Igreja é dispensável ou onde se lhe concede um espaço ao lado de outras associações. Uma Igreja sem privilégios que tem de testemunhar a fé, a esperança e a caridade. Igreja pobre e dos pobres. Fala da coordenação do trabalho pastoral, das unidades pastorais, do repensar o papel das paróquias, como comunidades a evangelizar, não para destruir mas para englobar na pastoral da evangelização...
       O autor sublinha que a sensibilidade pré-conciliar aponta para uma reflexão aprofundada sobre a "Opção preferencial pelos pobres", acentuado por exemplo pelos padres operários, em França, dando lugar, durante do Concílio, à reflexão sobre a Igreja e a sua abertura ao mundo, relegando-se para segundo plano a reflexão e o compromisso com os pobres. Sublinha também o autor que só o episcopado latino-americano, onde se incluía o atual Papa, refletiu a opção pelos pobres, uma Igreja pobre para os pobres, produzindo documentos e efetivando práticas.

quarta-feira, 12 de março de 2014

A belíssima oração do camponês

       Um pobre camponês que regressava do mercado a altas horas da noite, percebeu que não levava consigo o seu livro de orações.
       Então, pensou em rezar da seguinte maneira:
- Cometi uma verdadeira estupidez, Senhor. Saí de casa esta manhã sem o meu livro de oração e como tenho pouca memória, agora, não sou capaz de rezar nem sequer uma oração. De maneira que vou fazer uma coisa: vou rezar cinco vezes o alfabeto muito devagar, e tu, que conheces todas as orações, podes juntar as letras e formar essas oração que sou incapaz de recordar.
 
       E o Senhor disse aos seus anjos:
       - De todas as orações que escutei hoje, esta foi, sem dúvida, a melhor, porque brotou de um coração simples e sincero.

Daqui a 40 dias, Nínive será destruída... ou não!

        Jonas entrou na cidade e caminhou durante um dia, apregoando: «Daqui a quarenta dias, Nínive será destruída». Os habitantes de Nínive acreditaram em Deus, proclamaram um jejum e revestiram-se de sacos, desde o maior ao mais pequeno. Logo que a notícia chegou ao rei de Nínive, ele ergueu-se do trono e tirou o manto, cobriu-se de saco e sentou-se sobre a cinza. Depois foi proclamado em Nínive um decreto do rei e dos seus ministros, que dizia: «Os homens e os animais, os bois e as ovelhas, não provem alimento, não pastem nem bebam água. Os homens e os animais revistam-se de sacos e clamem a Deus com vigor; afaste-se cada um do seu mau caminho e das violências que tenha praticado. Quem sabe? Talvez Deus reconsidere e desista, acalmando o ardor da sua ira, de modo que não pereçamos». Quando Deus viu as suas obras e como se convertiam do seu mau caminho, desistiu do castigo com que os ameaçara e não o executou (Jonas 3, 1-10).
       Um olhar mais atento a esta passagem da Escritura e verifica-se que o autor sagrado sublinha sobretudo a misericórdia e benevolência de Deus, bem como a universalidade da salvação. Jonas é enviado a uma cidade estrangeira, onde as relações entre pessoas é pecaminosa, destrutiva, egoística, o que levará á destruição da cidade. Jonas é incumbido por Deus para alertar toda a cidade. As pessoas, a começar pelo rei invertem o seu comportamento, arrependem-se e mudam o seu estilo de vida, o que permitirá preservar a cidade.
       Deus olha para o pecado mas sobretudo para a capacidade e vontade de mudança. Claramente jogam duas visões de Deus: um Deus castigador, pronto a irritar-se e que agrada a Jonas, até porque aquele povo é inimigo, e um Deus misericordioso e compassivo, que quer a salvação de todos.