terça-feira, 11 de março de 2014

Diante das dificuldades: cenoura, ovo e café...

       Uma filha queixou-se à mãe que sua vida era difícil. Já não sabia o que fazer. Estava cansada de lutar contra as dificuldades.
       A mãe, em vez de lhe responder com palavras de ânimo, conviou a acompanhá-la à cozinha. Depois encheu três panelas com água e colocou-as ao fogão. Numa delas pôs cenouras; na outra, ovos, e na última, pó de café.
       Sem nada dizer, deixou que tudo fervesse.
       Cerca de vinte minutos depois, desligou o fogão. Retirou cuidadosamente o que estava dentro e colocou cada coisa na sua tigela.
       Em seguida, voltando-se para a filha, perguntou-lhe:
       - o que vês aqui?
       Ela disse:
       - Cenouras, ovos e café.
       A mãe pediu-lhe que pegasse nas cenouras. Ela notou que estavam macias.
       Pediu-lhe depois que descascasse um ovo. Ela verificou que ele endurecera com a fervura.
       Finalmente, pediu-lhe que bebesse um pouco de café. Ela gostou e sorriu. Depois perguntou:
       - Mãe, o que é que significa tudo isto?
       A mãe explicou que cada um desses produtos tinha enfrentando a mesma adversidade, mas cada um deles tinha reagido de maneira diferente.
       Perguntou-lhe então:
       - Qual deles és tu? És como a cenoura que, perante as dificuldades amolece? És como o voo, que se torna duro? Ou és como o café, que se torna saboroso?
       A filha não precisou de responder. Percebeu imediatamente que não devia ser como a cenoura ou como o ovo. O ideal sera ser como o café. A adversidade deve tornar-nos mais saborosos, mais compreensivos, mais perfeitos no amor.

in Revista JUVENIL, n.º 571. Março 2014

segunda-feira, 10 de março de 2014

Aniversário dos Bombeiros Voluntários de Tabuaço

       No passado dia 3 de março, os Bombeiros Voluntários de Tabuaço completaram 82 anos de existência nesta Vila e neste Concelho, passando a celebração oficial do aniversário para o domingo seguinte, 9 de março, com uma homenagem aos Bombeiros e membros dos corpos sociais já falecidos, numa oração no Cemitério orientada pelo Sr. Zé Carlos Soares, Ministro Extraordinário da Comunhão, prosseguindo a Eucaristia de Ação de Graças, com a solenização a cargo dos Bombeiros, com os cânticos por eles sugeridos e interpretados, efetuando as leituras, e com um ofertório mais solene, salientado instrumentros evocativos e utilizados no serviço de Bombeiros. No momento de ação de graças, uma oração de compromisso e súplica:
Senhor, toma-me, por instrumento de tua misericórdia. Faz tuas as minhas mãos e orienta meus passos para que eu possa levar, no momento preciso, o ansiado salvamento a quantos estejam em perigo. Multiplica, como fizeste aos pães e aos peixes, o meu vigor físico e a minha agilidade para que eu nunca esmoreça ante os maiores obstáculos e para que eu possa vencê-los sempre que disso dependa a missão de salvar os que clamam por socorro. Faz-me paciente, perseverante, inteligente, abnegado e ensina-me a amar o próximo mais ainda do que a mim mesmo para que eu nunca falhe no cumprimento de meus deveres de bombeiro. Dá-me, sobretudo, Senhor, total desprendimento, para que jamais eu hesite no ato de salvar e, se necessário, sacrifique a minha própria vida pela do meu semelhante.
 Para ver mais fotografias visitar o perfil do Sr. Rui de Carvalho no facebook: AQUI, de onde foram retiradas estas fotos, ou da página da Paróquia de Tabuaço no facebook: AQUI.

Sede santos, porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo

Moisés dirige a Palavra do Senhor a todo o povo nos seguintes termos:

        "Sede santos, porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo. Não furtareis, não direis mentiras, nem cometereis fraudes uns com os outros. Não prestarás juramento falso, invocando o meu nome, pois profanarias o nome do teu Deus. Eu sou o Senhor. Não oprimirás nem expropriarás o teu próximo. Não ficará contigo até ao dia seguinte o salário do jornaleiro. Não insultarás um surdo nem colocarás tropeços diante de um cego, mas temerás o teu Deus. Eu sou o Senhor. Não cometerás injustiças nos teus julgamentos: não favorecerás indevidamente um pobre, nem darás preferência ao poderoso; julgarás o teu próximo segundo a justiça. Não caluniarás os teus parentes, nem conspirarás contra a vida do teu próximo. Eu sou o Senhor. Não odiarás do íntimo do coração os teus irmãos, mas corrigirás o teu próximo, para não incorreres em falta por causa dele. Não te vingarás, nem guardarás rancor contra os filhos do teu povo. Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor" (Lev 19, 1-2.11-18).
       A referência da nossa vida é Deus. Ainda que no nosso peregrinar possamos encontrar pessoas, que pelo seu testemunho, sejam exemplares, a referência última é Deus. A Ele devemos seguir e imitar. Moisés di-lo claramente, emprestando as suas palavras a Deus: "Sede santos, por Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo". É a primeira motivação, o ponto de partida. O ideal.
       E para sermos santos ao jeito do Senhor nosso Deus, o compromisso sério com o nosso semelhante: não cometer injustiças, não reter o bem alheio, não favorecer ninguém nos julgamentos, não caluniar, não odiar, mas corrigir, não e vingar, não mentir, não levantar falsos testemunhos ou suspeitas em relação aos outros, não prestar julgamentos falsos. Ou seja, amar o próximo como a nós mesmos.

domingo, 9 de março de 2014

Dormir bem... em suave cama!

"Quem determina a suavidade da cama é o nível de ansiedade da nossa mente. Só dorme bem quem aprende primeiro a repousar dentro de si".

Augusto Cury, O Vendedor de Sonhos. O chamamento.

Servir a dois senhores...

"Não é possível servir a dois senhores: ou vendemos sonhos ou nos preocupamos com a nossa imagem social; ou somos fiéis à nossa consciência ou gravitamos na órbita do que os outros pensam e dizem de nós".

Augusto Cury, O Vendedor de Sonhos.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Quaresma 2014 - Mensagem do Papa Francisco

Fez-Se pobre, para nos enriquecer com a sua pobreza

(cf. 2 Cor 8, 9)

Queridos irmãos e irmãs!
       Por ocasião da Quaresma, ofereço-vos algumas reflexões com a esperança de que possam servir para o caminho pessoal e comunitário de conversão. Como motivo inspirador tomei a seguinte frase de São Paulo: «Conheceis bem a bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, Se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza» (2 Cor 8, 9). O Apóstolo escreve aos cristãos de Corinto encorajando-os a serem generosos na ajuda aos fiéis de Jerusalém que passam necessidade. A nós, cristãos de hoje, que nos dizem estas palavras de São Paulo? Que nos diz, hoje, a nós, o convite à pobreza, a uma vida pobre em sentido evangélico?

A graça de Cristo 

       Tais palavras dizem-nos, antes de mais nada, qual é o estilo de Deus. Deus não Se revela através dos meios do poder e da riqueza do mundo, mas com os da fragilidade e da pobreza: «sendo rico, fez-Se pobre por vós». Cristo, o Filho eterno de Deus, igual ao Pai em poder e glória, fez-Se pobre; desceu ao nosso meio, aproximou-Se de cada um de nós; despojou-Se, «esvaziou-Se», para Se tornar em tudo semelhante a nós (cf. Fil 2, 7; Heb 4, 15). A encarnação de Deus é um grande mistério. Mas, a razão de tudo isso é o amor divino: um amor que é graça, generosidade, desejo de proximidade, não hesitando em doar-Se e sacrificar-Se pelas suas amadas criaturas. A caridade, o amor é partilhar, em tudo, a sorte do amado. O amor torna semelhante, cria igualdade, abate os muros e as distâncias. Foi o que Deus fez connosco. Na realidade, Jesus «trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-Se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado» (CONC. ECUM. VAT. II, Const. past. Gaudium et spes, 22).
       A finalidade de Jesus Se fazer pobre não foi a pobreza em si mesma, mas – como diz São Paulo – «para vos enriquecer com a sua pobreza». Não se trata dum jogo de palavras, duma frase sensacional. Pelo contrário, é uma síntese da lógica de Deus: a lógica do amor, a lógica da Encarnação e da Cruz. Deus não fez cair do alto a salvação sobre nós, como a esmola de quem dá parte do próprio supérfluo com piedade filantrópica. Não é assim o amor de Cristo! Quando Jesus desce às águas do Jordão e pede a João Batista para O batizar, não o faz porque tem necessidade de penitência, de conversão; mas fá-lo para Se colocar no meio do povo necessitado de perdão, no meio de nós pecadores, e carregar sobre Si o peso dos nossos pecados. Este foi o caminho que Ele escolheu para nos consolar, salvar, libertar da nossa miséria. Faz impressão ouvir o Apóstolo dizer que fomos libertados, não por meio da riqueza de Cristo, mas por meio da sua pobreza. E todavia São Paulo conhece bem a «insondável riqueza de Cristo» (Ef 3, 8), «herdeiro de todas as coisas» (Heb 1, 2).
       Em que consiste então esta pobreza com a qual Jesus nos liberta e torna ricos? É precisamente o seu modo de nos amar, o seu aproximar-Se de nós como fez o Bom Samaritano com o homem abandonado meio morto na berma da estrada (cf. Lc 10, 25-37). Aquilo que nos dá verdadeira liberdade, verdadeira salvação e verdadeira felicidade é o seu amor de compaixão, de ternura e de partilha. A pobreza de Cristo, que nos enriquece, é Ele fazer-Se carne, tomar sobre Si as nossas fraquezas, os nossos pecados, comunicando-nos a misericórdia infinita de Deus. A pobreza de Cristo é a maior riqueza: Jesus é rico de confiança ilimitada em Deus Pai, confiando-Se a Ele em todo o momento, procurando sempre e apenas a sua vontade e a sua glória. É rico como o é uma criança que se sente amada e ama os seus pais, não duvidando um momento sequer do seu amor e da sua ternura. A riqueza de Jesus é Ele ser o Filho: a sua relação única com o Pai é a prerrogativa soberana deste Messias pobre. Quando Jesus nos convida a tomar sobre nós o seu «jugo suave» (cf. Mt 11, 30), convida-nos a enriquecer-nos com esta sua «rica pobreza» e «pobre riqueza», a partilhar com Ele o seu Espírito filial e fraterno, a tornar-nos filhos no Filho, irmãos no Irmão Primogénito (cf. Rm 8, 29).
       Foi dito que a única verdadeira tristeza é não ser santos (Léon Bloy); poder-se-ia dizer também que só há uma verdadeira miséria: é não viver como filhos de Deus e irmãos de Cristo.

O nosso testemunho

       Poderíamos pensar que este «caminho» da pobreza fora o de Jesus, mas não o nosso: nós, que viemos depois d'Ele, podemos salvar o mundo com meios humanos adequados. Isto não é verdade. Em cada época e lugar, Deus continua a salvar os homens e o mundo por meio da pobreza de Cristo, que Se faz pobre nos Sacramentos, na Palavra e na sua Igreja, que é um povo de pobres. A riqueza de Deus não pode passar através da nossa riqueza, mas sempre e apenas através da nossa pobreza, pessoal e comunitária, animada pelo Espírito de Cristo.
       À imitação do nosso Mestre, nós, cristãos, somos chamados a ver as misérias dos irmãos, a tocá-las, a ocupar-nos delas e a trabalhar concretamente para as aliviar. A miséria não coincide com a pobreza; a miséria é a pobreza sem confiança, sem solidariedade, sem esperança. Podemos distinguir três tipos de miséria: a miséria material, a miséria moral e a miséria espiritual. A miséria material é a que habitualmente designamos por pobreza e atinge todos aqueles que vivem numa condição indigna da pessoa humana: privados dos direitos fundamentais e dos bens de primeira necessidade como o alimento, a água, as condições higiénicas, o trabalho, a possibilidade de progresso e de crescimento cultural. Perante esta miséria, a Igreja oferece o seu serviço, a sua diakonia, para ir ao encontro das necessidades e curar estas chagas que deturpam o rosto da humanidade. Nos pobres e nos últimos, vemos o rosto de Cristo; amando e ajudando os pobres, amamos e servimos Cristo. O nosso compromisso orienta-se também para fazer com que cessem no mundo as violações da dignidade humana, as discriminações e os abusos, que, em muitos casos, estão na origem da miséria. Quando o poder, o luxo e o dinheiro se tornam ídolos, acabam por se antepor à exigência duma distribuição equitativa das riquezas. Portanto, é necessário que as consciências se convertam à justiça, à igualdade, à sobriedade e à partilha.
       Não menos preocupante é a miséria moral, que consiste em tornar-se escravo do vício e do pecado. Quantas famílias vivem na angústia, porque algum dos seus membros – frequentemente jovem – se deixou subjugar pelo álcool, pela droga, pelo jogo, pela pornografia! Quantas pessoas perderam o sentido da vida; sem perspetivas de futuro, perderam a esperança! E quantas pessoas se veem constrangidas a tal miséria por condições sociais injustas, por falta de trabalho que as priva da dignidade de poderem trazer o pão para casa, por falta de igualdade nos direitos à educação e à saúde. Nestes casos, a miséria moral pode-se justamente chamar um suicídio incipiente. Esta forma de miséria, que é causa também de ruína económica, anda sempre associada com a miséria espiritual, que nos atinge quando nos afastamos de Deus e recusamos o seu amor. Se julgamos não ter necessidade de Deus, que em Cristo nos dá a mão, porque nos consideramos autossuficientes, vamos a caminho da falência. O único que verdadeiramente salva e liberta é Deus.
       O Evangelho é o verdadeiro antídoto contra a miséria espiritual: o cristão é chamado a levar a todo o ambiente o anúncio libertador de que existe o perdão do mal cometido, de que Deus é maior que o nosso pecado e nos ama gratuitamente e sempre, e de que estamos feitos para a comunhão e a vida eterna. O Senhor convida-nos a sermos jubilosos anunciadores desta mensagem de misericórdia e esperança. É bom experimentar a alegria de difundir esta boa nova, partilhar o tesouro que nos foi confiado para consolar os corações dilacerados e dar esperança a tantos irmãos e irmãs imersos na escuridão. Trata-se de seguir e imitar Jesus, que foi ao encontro dos pobres e dos pecadores como o pastor à procura da ovelha perdida, e fê-lo cheio de amor. Unidos a Ele, podemos corajosamente abrir novas vias de evangelização e promoção humana.
       Queridos irmãos e irmãs, possa este tempo de Quaresma encontrar a Igreja inteira pronta e solícita para testemunhar, a quantos vivem na miséria material, moral e espiritual, a mensagem evangélica, que se resume no anúncio do amor do Pai misericordioso, pronto a abraçar em Cristo toda a pessoa. E poderemos fazê-lo na medida em que estivermos configurados com Cristo, que Se fez pobre e nos enriqueceu com a sua pobreza. A Quaresma é um tempo propício para o despojamento; e far-nos-á bem questionar-nos acerca do que nos podemos privar a fim de ajudar e enriquecer a outros com a nossa pobreza. Não esqueçamos que a verdadeira pobreza dói: não seria válido um despojamento sem esta dimensão penitencial. Desconfio da esmola que não custa nem dói.
       Pedimos a graça do Espírito Santo que nos permita ser «tidos por pobres, nós que enriquecemos a muitos; por nada tendo e, no entanto, tudo possuindo» (2 Cor 6, 10). Que Ele sustente estes nossos propósitos e reforce em nós a atenção e solicitude pela miséria humana, para nos tornarmos misericordiosos e agentes de misericórdia. Com estes votos, asseguro a minha oração para que cada crente e cada comunidade eclesial percorra frutuosamente o itinerário quaresmal, e peço-vos que rezeis por mim. Que o Senhor vos abençoe e Nossa Senhora vos guarde!

Vaticano, 26 de dezembro de 2013
Festa de Santo Estêvão, diácono e protomártir

terça-feira, 4 de março de 2014

Quaresma 2014: Mensagem de D. António Couto

IDE ATÉ AO CORAÇÃO DE DEUS E DOS IRMÃOS

       1. Na sua mensagem para esta Quaresma, o Papa Francisco convida-nos a acolher Jesus que, por amor, se fez nosso irmão, descendo ao nosso nível, para nos entregar o amor, a paz, a alegria, a fraternidade e a verdade. Por isso, veio ter connosco. De longe e do alto, só nos podia atirar dinheiro, mas não nos enriquecia. Não tocava nem sarava as nossas feridas, não lavava os nossos pés, não afagava o nosso coração, não tornava mais divina a nossa humanidade. Ele, que é o «rosto humano de Deus e o rosto divino do homem» (Ecclesia in America [1999], n.º 67), desceu ao nosso mundo, fez-se pobre, caminhou e caminha connosco, no meio de nós, para nos enriquecer com a sua pobreza (2 Coríntios 8,9).

       2. Mas como Jesus não veio apenas ao meu encontro para só a mim se entregar por amor e só em mim fazer nascer o amor, mas veio ao encontro de todos e a todos se entregou por amor, então a minha fé é verificada pelo meu amor a Deus e a todos os meus irmãos amados por Deus. Diz bem o Apóstolo: «Quem não ama o seu irmão, que bem vê, não pode amar a Deus, que não vê» (1 João 4,20).

       3. E o Apóstolo insiste em pôr diante dos nossos olhos esta chave de verificação: «Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama, permanece na morte» (1 João 3,14). A verdadeira morte não é então o termo da vida, mas aquilo que, desde o princípio, impede de nascer: o não acolhimento do Deus que vem por amor e por amor se faz pobre, para, por amor, fazer nascer em nós o amor e novas e impensáveis pautas de fraternidade.

       4. Sim, então o amor ou a caridade não cabem, longe disso, naquilo que habitualmente designamos por solidariedade ou ajuda humanitária. O amor ou a caridade desborda sempre dessas realidades, e impele-nos ao anúncio do Evangelho, que é «a primeira caridade» (Evangelii Gaudium [2013], n.º 199; Novo millennio ineunte [2001], n.º 50) e «o primeiro serviço que a Igreja pode prestar ao homem e à humanidade inteira» (Redemptoris missio [1990], n.º 2), e que consiste em mostrar este Deus que vem por amor ao nosso encontro, para nos servir o amor e fazer nascer em nós, como resposta, o serviço humilde, próximo e dedicado do amor.

       5. Por isso, o tempo da Quaresma é um tempo diferente e um tempo em que devemos viver de frente, sem fugas, desculpas, meias-tintas, inverdades, meias-verdades ou mentiras. É tempo de ir até ao coração de Deus e dos irmãos. É tempo de entregarmos a Deus o nosso pó, a nossa cinza, que só Ele sabe transformar em amor (Génesis 2,7) e fazer-nos renascer como seus filhos verdadeiros, e, portanto, irmãos perfeitos no amor.
Toma em tuas mãos, Senhor,
A nossa terra ardida.
Beija-a.
Sopra nela outra vez o teu alento,
A tua aragem,
E veremos nela outra vez impressa a tua imagem.

Tu sabes bem, Senhor, que somos frágeis,
Mas que contigo por perto
Seremos fortes e ágeis,
Capazes de abrir estradas no deserto,
A céu aberto.
       6. Por isso e para isso, amados irmãos, insistentemente vos peço que deixeis que Deus renove a vossa vida. Frequentai os Sacramentos da Eucaristia e da Reconciliação, que nos comunicam a vida divina, e são a nossa verdadeira terapia. Tornemos mais fundo e mais fecundo o caminho da nossa iniciação cristã, não o deixando cair nunca na vala da finalização cristã!
       7. Aos sacerdotes peço encarecidamente que se entreguem à oração e convoquem as comunidades para a oração, para a escuta atenta e qualificada da Palavra de Deus, para a Eucaristia, para a Reconciliação, para a prática da caridade. A todos peço uma maior dedicação ao exercício do sacramento da Reconciliação ou Penitência segundo as normas da Igreja, expressas em tempos recentes, por exemplo, na Misericordia Dei (2002). Que seja proporcionada a todos os fiéis a prática concreta da «confissão pessoal», evitando-se o recurso abusivo à «absolvição geral» ou «coletiva», que arrasta consigo «graves danos para a vida espiritual dos fiéis e para a santidade da Igreja».

       8. A Quaresma convida-nos a dilatar o nosso coração até às periferias do mundo, olhando com um olhar de graça por e para os nossos irmãos de perto e de longe. Façamos um exercício de verdade. Despojemo-nos, não apenas do que nos sobra, mas também do que nos faz falta. Dar o que sobra não tem a marca de Deus. Jesus não nos deu coisas, mas deu a sua vida por nós. O Papa Francisco lembra-nos que a nossa esmola, que é igual à caridade, se for verdadeira, tem de doer! E eu acrescento que tem de doer e de nos encher de alegria (Tobias 4,16). Como em anos anteriores, peço aos meus irmãos de todas as paróquias da nossa Diocese de Lamego para abrirmos o nosso coração a todos os que sofrem aqui perto e lá longe. Neste sentido, vamos destinar uma parte da nossa esmola quaresmal para o fundo solidário diocesano, para aliviar as dores dos nossos irmãos de perto que precisam da nossa ajuda. Olhando para os nossos irmãos de longe, vamos destinar outra parte do esforço da nossa caridade para as missões dos Missionários Combonianos no Sudão do Sul, onde a guerra civil já provocou mais de 10.000 mortos e 700.000 deslocados, e as dificuldades dos nossos irmãos atingem o indescritível. Esta finalidade da nossa Renúncia ou Caridade Quaresmal será anunciada em todas as Igrejas da nossa Diocese no Domingo I da Quaresma, realizando-se a Coleta no Domingo de Ramos na Paixão do Senhor.

       9. Com a ternura de Jesus Cristo, saúdo todas as crianças, jovens, adultos e idosos, catequistas, acólitos, leitores, salmistas, membros dos grupos corais, ministros da comunhão, membros dos conselhos económicos e pastorais, membros de todas as associações e movimentos, departamentos e serviços, todos os nossos seminaristas, todos os consagrados, todos os diáconos e sacerdotes que habitam e servem a nossa Diocese de Lamego ou estão ao serviço de outras Igrejas. Saúdo com particular afeto todos os doentes, carenciados e desempregados, e as famílias que atravessam dificuldades. Uma saudação muito especial a todos aqueles que tiveram de sair da sua e da nossa terra, vivendo a condição de emigrantes.

Na certeza da minha oração e comunhão convosco, a todos vos abraça o vosso bispo e irmão, António.

FONTE: página oficial da DIOCESE de LAMEGO - AQUI.

Muitos dos últimos serão os primeiros...

       Pedro começou a dizer a Jesus: «Vê como nós deixámos tudo para Te seguir». Jesus respondeu: «Em verdade vos digo: Todo aquele que tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou terras, por minha causa e por causa do Evangelho, receberá cem vezes mais, já neste mundo, em casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras, juntamente com perseguições, e, no mundo futuro, a vida eterna. Muitos dos primeiros serão os últimos e muitos dos últimos serão os primeiros» (Mc 10, 28-31)
       «Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Mt 6, 24-34). Jesus colcoa-nos este dilema. Que resposta dar? Os discípulos, num primeiro tempo, tinha como preocupação os benefícios económicos, sociais e de estatuto que poderiam vir a ter se seguissem o Mestre. A resposta de Jesus é clara: o reino de Deus não nos enche de coisas materiais, o reino de Deus compromete-nos no serviço e a recompensa é a vida eterna. Quando o nosso coração se fixa em Deus, quando a nossa preocupação pelo Reino dos Céus está em primeiro lugar, o mais virá por acréscimo, e não nos faltarão pessoas nem o necessário para vivermos com dignidade.
        A expressão final do evangelho é muito clara: muitos dos que neste mundo parecem os primeiros serão contados entre os últimos, e muitos dos que são atualmente tidos por menos serão contados entre os primeiros. A lógica do Reino de Deus não é igual à lógica do mundo, onde predomina quem tem mais, mais poder, mais dinheiro, mais influência. O Reino de Deus é dom de Deus a todos, os primeiros são aqueles que se colocam ao serviço dos irmãos. Merecem atenção especial para Jesus e para os seus seguidores os que se encontram em situações de maior fragilidade.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Carpe Diem. Vive o presente.

[O Evangelho deste DOMINGO - VIII do Tempo Comum - ano A, fez-nos recordar esta reflexão, publicada no Jornal da Dicoese]
 
       Cada dia tem as suas próprias preocupações.
       O tempo não volta, gastemo-lo bem. Foi-nos dado gratuitamente.
       Vive hoje, sem a ansiedade e o medo paralisante do futuro.
       O futuro só a Deus pertence. Deus providenciará.
       Façamos a nossa parte, o que está ao nosso alcance.
       Não esperemos pelo amanhã para viver.
       Expressão atribuída a Horácio, poeta romano (65-8 a.C.): "Colhe o dia presente e sê o menos confiante possível no futuro".
       Jesus desafia os discípulos a viver no tempo atual, sem medo do amanhã, confiando em Deus, mas não deixando a vida ao acaso, empenhando-se na edificação do Reino de Deus e da Sua justiça.
       "Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo. Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã já terá as suas preocupações. Basta a cada dia o seu problema" (Mt 6, 33-34).
       A expressão «carpe diem» é utilizada em vários sentidos: "gasta a vida enquanto podes", "aproveita enquanto és novo", "goza agora que não sabes o dia de amanhã". Também serve para justificar excessos...
       Num sentido cristão, é um convite a "desfrutar" com alegria o dia de hoje, a potenciar a nossa vida, a realizarmos o que está ao nosso alcance sem esperarmos que outros o realizem.
       O tempo não volta… Ainda que haja situações idênticas, o tempo e a história não se repetem. Por mais que quiséssemos e por mais esforços que façamos, o passado não volta. Não nos pertence. Porém, não é possível a pessoa de hoje, sem a de ontem. A anulação da memória destrói a vida da pessoa, da família e da comunidade.
       Por outro lado, a melhor gratidão que prestamos à história e aos nossos antepassados, é a abertura ao futuro, à novidade. Eles rasgaram horizontes que nos permitem viver com muita comodidade, uns mais que outros. Puseram os seus talentos a render. Preparam o futuro (que é o nosso presente) com o seu engenho e esforço.
       Hoje cabe-nos a nós. Não esqueçamos os que vieram antes e o que nos legaram. Agora é a nossa vez de construir e preparar o nosso futuro e o futuro dos vindouros.
       Vivamos o hoje com alegria e confiança. Aguardemos que o amanhã nos dê a oportunidade de cimentarmos o que hoje semeamos. A página que não preencher hoje, não a terá amanhã. Amanhã terá uma página inteirinha para escrever.

in Jornal diocesano VOZ DE LAMEGO, n.º 4240, de 19 de novembro de 2013. 

domingo, 2 de março de 2014

D. António Couto: Introdução ao Evangelho de Mateus

D. ANTÓNIO COUTO. Introdução ao Evangelho segundo Mateus. Paulus Editora. Lisboa 2014. 112 páginas.
       Depois da publicação do "Quando Ele nos abre as Escrituras. Domingo Após Domingo. Uma leitura bíblica do Lecionário (Ano A)", inteirinho dedicado à liturgia de Domingo, centrado essencialmente no Evangelho, cujo evangelista principal, de domingos e solenidades é são Mateus, eis agora mais uma preciosa ajuda para entender o Evangelho da Igreja, isto é, o Evangelho de Jesus Cristo segundo São Mateus.
       Com a seriedade com que nos habitou, com a profundidade que lhe reconhecemos, D. António faz-nos entrar DENTRO do texto do Evangelho mas também dentro da HISTÓRIA de Jesus Cristo, de uma forma muito, muito, acessível, simples e muito poética. Cada texto traz a sabedoria das Escrituras Sagradas, explicada, exemplificada, com ligações à história de Israel e à história da Salvação. Texto de Mateus mas ligado a outros textos e contextos.
       Os grandes discursos de Mateus, diversos acontecimentos que nos "agrafam" a Jesus, levam-nos àquele tempo, ou melhor trazem Jesus até nós, pois que Ele caminha connosco, queiramos nós escutá-l'O e segui-l'O e ainda seremos poucos para a sua seara. Ele diz o Pai, como o Espírito Santo diz o Filho e o Pai, mas também nos diz a nós. Estamos lá à beirinha de Jesus, escutando, interrogando-o, hesitando, duvidando, caminhando, ansiosos, de olhares perdidos que Ele faz questão em encontrar.
       O que surpreende sempre nos textos de D. António, para lá da vasta cultura bíblica, é a forma poética e ritmada de dizer, de explicar, de nos envolver nas belíssimas páginas do Evangelho, da Escritura Sagrada. Este é mais um extraordinário exemplo, como quem trabalha a prata e o ouro, ou quem de tosca pedra tira belas estátuas, ainda que aqui a imagem seja desajustada, pois a pérola é o próprio Evangelho. Mas é possível que a beleza do Evangelho se torne ainda mais transparente e acessível com este estudo de D. António. Vale a pena ler, meditar, deixar-nos guiar para dentro das páginas do livro e sobretudo fazer com que as páginas do Evangelho continue a escrever nas nossas vidas, dentro do coração de cada um.
       Já recomndámos a leitura dos comentários da Liturgia do DOMINGO: AQUI. Do mesmo modo poderá seguir as reflexões de D. António através do seu blogue pessoal: Mesa de Palavras - AQUI. Embora possam ser textos próximos, o autor e as leituras são as mesmas, mas o blogue permite uma ou outra atualização, que aqui ou acolá mais nos conduz ao Evangelho de Jesus.

A Livraria Fundamentos também recomenda este belíssimo trabalho: AQUI.

sábado, 1 de março de 2014

Domingo VIII do Tempo Comum - ano A - 2 de março

       1 – «Não vos inquieteis com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã tratará das suas inquietações. A cada dia basta o seu cuidado».
       Por mais esforços que façamos, não é possível dispensarmos o que somos ou o futuro que almejamos. Todavia, o passado não pode ser empecilho para vivermos e nos comprometermos com a atualidade, no trabalho, na família, na Igreja. Más experiências podem tirar-nos confiança e deixar-nos com pouca vontade para insistirmos... O futuro pode assustar-nos. Perante o mundo que nos envolve, cujo pessimismo é justificado por milhentas situações destrutivas, também o amanhã poderá surgir sombrio.
       E, no entanto, a palavra de Deus desafia-nos à temperança, caldeada na esperança e na fé, colocando o nosso olhar e a nossa vida em Deus. Só Ele garante que o chão não nos foge debaixo dos pés, mesmo quando experimentamos a instabilidade do mar alto, com o nevoeiro das nossas limitações, com as tempestades dos nossos fracassos. Ele está no nosso barco, ainda que pareça que vai a dormir. Ele está. Quantas situações nos apetece gritar por Ele, que Ele nos dê um sinal, uma prova, uma evidência?
       Aos seus discípulos, e hoje somos nós, Jesus mostra um CAMINHO claro de salvação e vida: «Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro».
       Aí está mais uma chave de leitura, uma escolha a fazer, uma prioridade a assumir. Se o fim da nossa vida é colocado nos outros ou nos bens materiais, vamos pouco a pouco perdendo o pé e sairemos desiludidos. E por quê? Quanto às pessoas, por mais queridas que sejam, são seres humanos, limitados, finitos, e por mais perfeitas que sejam há aspetos em que nos desiludem, ou pelo menos não plenizam o que esperávamos. Por outro lado, temporalmente não nos acompanharão sempre, alguém deixará esta vida mais cedo.
       Quanto aos bens materiais, ao dinheiro, sabendo que são necessários para vivermos com dignidade, não os podemos assumir como fim da nossa vida, pois seria de uma pobreza estéril. No no final o que precisaremos é da companhia, da presença de alguém que nos compreenda, e nos apoie, que goste de nós e a quem possamos confiar os nossos segredos mais íntimos. Se o dinheiro for o nosso deus maior, então nunca estaremos satisfeitos, mesmo que tenhamos o justo para viver bem quereremos sempre mais, mais não seja para termos mais que os outros. E também isto nos tira o sono e a tranquilidade. Também isto nos traz fadiga e desilusão, nos traz doença e traz a morte ao humano que existe em nós.
        2 – «Não vos inquieteis com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã tratará das suas inquietações. A cada dia basta o seu cuidado». O convite de Jesus é verdadeiramente libertador. A ambição, com conta peso e medida, ambição solidária, que procura melhorar o mundo e não apenas a própria vida à custa dos outros, sabendo que estamos no mesmo barco, para o bem e para o mal. O que se descarta é a ganância, pura e simples, pela qual os fins justificam todos os meios, e até as pessoas são usadas enquanto geram lucro. Isto é algo destrutivo, desumano.
       Precisamos de pouco para viver bem: saúde, amor, amigos, companhia, saber que ALGUÉM nos sustem para lá da instabilidade e para lá do tempo.
       Vale a pena ler/escutar o texto do Evangelho:
«Não vos preocupeis, quanto à vossa vida, com o que haveis de comer, nem, quanto ao vosso corpo, com o que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu: não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros; o vosso Pai celeste as sustenta. Não valeis vós muito mais do que elas? Quem de entre vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um só côvado à sua estatura? ... Bem sabe o vosso Pai celeste que precisais de tudo isso. Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo».
       A nossa humildade passa por aqui, tomarmos consciência que o essencial da nossa vida está dentro de nós, na atitude que assumimos perante os outros, na postura face à vida, com as suas dificuldades e com as suas potencialidades. Há muitas coisas que não dependem de nós. Estas podem paralisar-nos, se queremos controlar todas as coordenadas, ou podem libertar-nos se, reconhecendo as nossas limitações, nos apoiamos na bondade de Deus sem temermos arriscar a própria vida. As coordenadas são-nos interiores: Deus, bem, amor, verdade, perdão, comunhão. E estão ao nosso alcance.

       3 – «Não vos inquieteis com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã tratará das suas inquietações. A cada dia basta o seu cuidado». O futuro por vezes serve de desculpa para hoje não nos comprometermos. Duas razões: por medo, pois não sabemos o que trará o dia de amanhã, assusta-nos, e também face à nossa história de vida que não nos permite agir com confiança. E para quê sofrermos por antecipação? Por outro lado, adiamos, logo se vê, amanhã as coisas podem estar melhor, quando tivermos tempo, quando tivermos mais dinheiro, quando as condições forem mais favoráveis. Mas as circunstâncias nunca serão ideais, e o que deixarmos de fazer hoje, amanhã poderá escapar-nos ou não teremos mais tempo, como aquele filho que foi adiando o encontro com o pai para lhe pedir perdão pela distância, pela arrelia, pela rebeldia; quando se resolveu já não chegou a tempo, o pai tinha falecido na semana anterior. E agora? Muitas vezes está macambúzio pelo tempo que perdeu longe da ternura do Pai lamentando-se pelas vezes que esteve quase a telefonar e a visitá-lo.
       "O amor começa hoje. Hoje alguém sofre. Hoje alguém está na rua. Hoje alguém tem fome. Hoje temos de começar. Ontem já passou. Amanhã ainda não chegou. Somente hoje podemos anunciar Deus, amando, servindo, alimentando os que têm fome, vestindo os que estão nus, dando aos pobres um teto sobre as suas cabeças. Não espereis até amanhã. Amanhã eles estarão mortos, se nada lhes dermos hoje" (Madre Teresa de Calcutá).
       A vida não é preto e branco, é multicolor. Nem todos conseguem exercitar-se de tal forma que nem o passado nem o futuro paralisem as suas vidas, mas é pelo menos um desafio, deverá ser um compromisso, para nos tornarmos mais saudáveis, para não nos arrependermos depois, para potenciarmos os nossos talentos, para ajudarmos o mundo a ser uma casa para todos.

       4 – «Não vos inquieteis com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã tratará das suas inquietações. A cada dia basta o seu cuidado». Quantas preocupações me afetam agora? Pode acontecer que não saiba para onde me virar e em quem poderei confiar.
       Em Isaías vêm ao de cima do lamento de Sião: «O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-Se de mim». Mas logo a resposta pronta do Senhor: «Poderá a mulher esquecer a criança que amamenta e não ter compaixão do filho das suas entranhas? Mas ainda que ela se esquecesse, Eu não te esquecerei».
        É nesta certeza que rezamos: "Só em Deus descansa a minha alma, d’Ele me vem a salvação. D’Ele vem a minha esperança. Ele é meu refúgio e salvação, minha fortaleza: jamais serei abalado". Ainda que os meus pés vacilem, nada temerei porque o Senhor está comigo.
       À semelhança do salmista, também o Apóstolo São Paulo confia no Senhor e na Sua misericórdia, pelo que não receia o juízo rápido e impaciente dos homens: «De nada me acusa a consciência, mas não é por isso que estou justificado: quem me julga é o Senhor. Portanto, não façais qualquer juízo antes do tempo, até que venha o Senhor, que há de iluminar o que está oculto nas trevas e manifestar os desígnios dos corações. E então cada um receberá da parte de Deus o louvor que merece».
        Saber que só Deus em definitivo me julgará e que posso contar com a Sua misericórdia infinita, alarga as possibilidades de hoje me comprometer sabendo que o futuro está assegurado por Ele, e não será em vão todo o bem que possa fazer pelos que me acompanham nesta viagem pelo tempo e pela história.

Textos para a Eucaristia (ano A): Is 49, 14-15; Sl 62 (63); 1 Cor 4, 1-5; Mt 6, 24-34.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Foi uma grande alegria caminhar convosco nestes anos

Venerados e queridos irmãos!
       Com grande alegria vos acolho e dirijo a cada um de vós a minha cordial saudação. Agradeço ao cardeal Angelo Sodano que, como sempre, soube fazer-se intérprete dos sentimentos de todo o colégio: 'Cor ad cor loquitur'. Obrigado, eminência, de coração. E gostaria de dizer - retomando a experiência dos discípulos de Emaús - que também para mim foi uma grande alegria caminhar convosco nestes anos, na luz da presença do Senhor ressuscitado.
       Como disse ontem diante de milhares de fiéis que lotaram a praça São Pedro, a vossa proximidade e o vosso conselho foram de grande ajuda no meu ministério. Nestes oito anos, vivemos com fé momentos belíssimos de luz radiante no caminho da Igreja, junto a momentos nos quais algumas nuvens pairavam no céu. Procuramos servir Cristo e a sua Igreja com amor profundo e total, que é a alma do nosso ministério. Demos esperança, aquela que vem de Cristo, que somente pode iluminar o caminho. Juntos podemos agradecer ao Senhor que nos fez crescer na comunhão, e juntos rezar para que vos ajude a crescer ainda nesta profundidade, de forma que o colégio de cardeais seja como uma orquestra, onde a diversidade - expressão da Igreja universal - contribua sempre para uma maior concórdia e harmonia.
       Gostaria de deixar-vos um pensamento simples, que tenho muito no coração: um pensamento sobre a Igreja, sobre o seu ministério, que constitui para todos nós, podemos dizer, a razão e a paixão da vida. Deixo-me ajudar por uma expressão de Romano Guardini, escrita propriamente no ano em que os padres do Concílio Vaticano II aprovavam a Constituição 'Lumen Gentium', no seu último livro, com uma dedicação pessoal também para mim; por isso as palavras deste livro são para mim particularmente queridas. Diz Guardini: a Igreja "não é uma instituição concebida e construída em cima de uma mesa..., mas uma realidade viva... Ela vive ao longo do curso do tempo, em andamento, como cada ser vivo, transformando-se... Contudo na sua natureza permanece sempre a mesma, e o seu coração é Cristo". Foi a nossa experiência, ontem, parece-me, na praça São Pedro: ver a Igreja que é um corpo vivo, animado pelo Espírito Santo e vive realmente da força de Deus. Ela está no mundo, mas não é do mundo: é de Deus, de Cristo, do Espírito. Vimos isso ontem. Por isto é verdadeira e eloquente outra famosa expressão de Guardini: "A Igreja se desperta nas almas". A Igreja vive, cresce e se desperta nas almas, que - como a Virgem Maria - acolhem a Palavra de Deus e a concebem por obra do Espírito Santo; oferecem a Deus a própria carne e, propriamente na sua pobreza e humildade, tornam-se capazes de dar à luz a Cristo hoje no mundo. Através da Igreja, o Mistério da Encarnação permanece presente para sempre. Cristo continua a caminhar nos tempos e em todos os lugares.
       Permaneçamos unidos, queridos Irmãos, neste Mistério: na oração, especialmente na Eucaristia quotidiana, e assim sirvamos à Igreja e toda a humanidade. Esta é a nossa alegria, que ninguém pode nos tirar.
       Antes de saudar-vos pessoalmente, desejo dizer-vos que continuarei a ser próximo na oração, especialmente nos próximos dias, a fim de que estejam plenamente dóceis à ação do Espírito Santo na eleição do novo Papa. Que o Senhor vos mostre aquilo que é desejado por Ele. E entre vós, entre o colégio cardinalício, há também o futuro Papa ao qual já hoje prometo a minha incondicional reverência e obediência. Por isto, com afeto e reconhecimento, concedo-vos de coração a benção apostólica.
BENEDICTUS PP XVI
Sala Clementina do Palácio Apostólico - Vaticano
Quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
 "Não sou mais pontífice, mas um simples peregrino que cumpre a última etapa nessa terra junto com a Igreja"

Há um ano - Bento XVI passa a ser mais um PEREGRINO


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Bento XVI - a partir da janela do Vaticano - Há um ano

Queridos irmãos e irmãs,
       Obrigado pelo vosso afeto!
       Hoje, segundo domingo da quaresma, temos um Evangelho particularmente belo, aquele da Transfiguração do Senhor. O evangelista Lucas coloca especial atenção para o fato de que Jesus se transfigurou enquanto rezava: a sua é uma experiência profunda de relacionamento com o Pai durante uma espécie de retiro espiritual que Jesus vive em um alto monte na companhia de Pedro, Tiago e João, os três discípulos sempre presentes nos momentos da manifestação divina do Mestre (Lc 5,10; 8,51; 9,28). O Senhor, que pouco antes tinha predito a sua morte e ressurreição (9, 22) oferece aos discípulos uma antecipação da sua glória. E também na Transfiguração, como no batismo, ressoa a voz do Pai celeste: "Este é o meu filho, o eleito; escutai-o!" (9, 35). A presença então de Moisés e Elias, que representam a Lei e os Profetas da antiga Aliança, é ainda mais significativa: toda a história da Aliança é orientada para Ele, o Cristo, que cumpre um novo "êxodo" (9, 31), não para a terra prometida como no tempo de Moisés, mas para o Céu. A intervenção de Pedro: "Mestre, é bom estarmos aqui" (9, 33) representa a tentativa impossível de parar esta experiência mística. Comenta Santo Agostinho: “[Pedro] ... sobre o monte ... tinha Cristo como alimento da alma. Por que ele iria descer para voltar aos trabalhos e dores, enquanto lá estava cheio de sentimentos de amor santo para Deus e que o inspiravam, portanto, a uma conduta santa? (Discurso 78,3: PL 38,491).
       Meditando sobre esta passagem do Evangelho, podemos aprender um ensinamento muito importante. Antes de tudo, o primado da oração, sem a qual todo o empenho do apostolado e da caridade se reduz ao ativismo. Na quaresma aprendemos a dar o tempo certo à oração, pessoal e comunitária, que dá fôlego à nossa vida espiritual. Além disso, a oração não é um isolar-se do mundo e das suas contradições, como no Tabor queria fazer Pedro, mas a oração reconduz ao caminho, à ação. "A existência cristã - escrevi na mensagem para esta quaresma - consiste em um contínuo subir ao monte do encontro com Deus, e depois voltar a descer trazendo o amor e a força que daí derivam, para servir os nossos irmãos e irmãs com o próprio amor de Deus" (n. 3).

       Queridos irmãos e irmãs, esta Palavra de Deus a sinto de modo particular dirigida a mim, neste momento da minha vida. Obrigado! O Senhor me chama a 'subir o monte', a dedicar-me ainda mais à oração e à meditação. Mas isto não significa abandonar a Igreja, ao contrário, se Deus me pede isto é para que eu possa continuar a servi-la com a mesma dedicação e o mesmo amor com o qual tenho buscado fazê-lo até agora, mas de modo mais adequado à minha idade e às minhas forças. Invoquemos a intercessão da Virgem Maria: ela nos ajude a todos a seguir sempre o Senhor Jesus, na oração e nas obras de caridade.

Vaticano, 24 de fevereiro de 2013
BENEDICTUS PP XVI

Bento XVI agradece a ajuda e a solicitude...


CONSELHOS PASTORAIS - Como uma bússola

       Não perder o Norte!”. Esta expressão familiar pode ajudar-nos a compreender a responsabilidade do Conselho Pastoral Paroquial (CPP). Não perder o Norte, para uma comunidade cristã, é não perder de vista a sua razão de ser: a missão que deve realizar no espaço humano que é a paróquia. Esta missão que nos é confiada pelo Cristo e pelo Espírito Santo é única na diversidade de exigências: anunciar a pessoa de Jesus Cristo, experimentar a fraternidade, celebrar a fé e comprometer-se no serviço aos mais pequenos. O CPP, como uma bússola, ajuda a comunidade a manter o rumo da missão.
       Para ser fiel à sua responsabilidade, o CPP dá orientações pastorais, de forma que a equipa pastoral mandatada, formada por responsáveis nomeados pelo bispo (padres, diáconos, responsáveis por diferentes serviços e missões…), conselho económico e outros grupos assumam a responsabilidade das áreas que lhes são confiadas e tenham uma actuação de conjunto.
       Eis um dos maiores desafios do CPP: ser o conselho mais próximo da missão e deixar que os outros intervenientes actuem no seu próprio domínio. Lugar de discernimento, de decisão, de concretização, de coordenação e de avaliação, o CPP é um teste de verdade para os nossos discursos quanto à responsabilidade confiada aos baptizados na construção da Igreja.
       O CPP torna-se um lugar de aprendizagem onde os seus membros praticam o diálogo, o respeito mútuo e, assim, vivem uma experiência eclesial. Permite aos ministros ordenados, às pessoas mandatadas e às forças vivas da comunidade trabalhar sinodalmente no serviço da missão, fazendo em conjunto um pedaço do caminho. Uma oportunidade que pode exigir uma conversão mútua nas nossas maneiras de conceber e de articular as nossas responsabilidades respectivas!
       O CPP está ao serviço da comunidade. Os seus membros (que será vantajoso renovar regularmente) devem ser capazes de trabalhar harmoniosamente, discernir os sinais e apontar pontos da pastoral actual, ser solidários com as outras realidades eclesiais (zona pastoral, arciprestado, diocese…). Assim, é o mesmo espírito missionário que anima o CPP e a comunidade no serviço à paróquia.
       O número dos membros não é uma garantia de sucesso. Antes, o CPP deve ser constituído à imagem da comunidade que quer animar. Será isto utópico ou realizável? Nada melhor do que sermos nós a demonstrá-lo.
 
FONTE: Jornal diocesano VOZ DE LAMEGO, n.º 4252, de 18 de fevereiro de 2014.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Papa Francisco, Bento XVI e os novos Cardeais

       No dia da Festa da Cadeira de São Pedro, com o Consitório para a criação de 19 Cardeais, o Papa Francisco acolheu alegremente a presença do Seu Predecessor, o Papa Emérito, Bento XVI. Eis algumas imagens:

Creio em Deus Pai, Filho e Espírito Santo

        "O Pai é o amor originário, a fonte de todo o amor. Ele começa o amor. «Só Ele começa a amar sem motivos; mais é Ele quem, desde sempre, começou a amar (Eberhard Jüngel). O Pai ama desde sempre e para sempre, sem ser obrigado nem motivado a partir de fora. É o «Eterno amante». Ama e continuará a amar sempre. Nunca nos reinará o Seu amor e fidelidade. D'Ele só brota amor. Consequência: criados à Sua imagem, estamos feitos para amar. Só amando acertamos na existência.
       O ser Filho consiste em receber o amor do Pai. Ele é o «Amado eternamente», antes da criação do mundo. O Filho é o amor que acolhe, a resposta eterna do amor do Pai. O mistério de Deus consiste, pois, em dar e também em receber amor. Em Deus, deixar-se amar não é menos que amar. Receber é também divino! Consequência: criados à imagem de Deus estamos feitos não só para amar, mas também para ser amados.
       O Espírito Santo é a comunhão do Pai e do Filho. Ele é o AMOR eterno entre o Pai amante e o Filho amado, é Ele que revela que o amor divino não é possessão ciumenta do Pai nem apropriação egoística do Filho. O amor verdadeiro é sempre abertura, dom, comunicação transbordante. Por isso, o amor de Deus não se fica em si mesmo, mas comunica-se e estende-se às Suas criaturas. «O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rom 5,5). Consequência: criados à imagem de Deus, estamos feitos para amar, sem nos apropriarmos, nem nos encerrarmos em amores fictícios e egoístas".

José ANTONIO PAGOLA, O Caminho aberto por Jesus: Mateus.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Domingo VII do Tempo Comum - ano A - 23 de fevereiro

       1 – Quem julgas que és? Estás a ameaçar-me? Livra-te, vou chamar o meu irmão mais velho! / E eu vou chamar os meus amigos. / Eu trago os meus amigos e os meus irmãos, e todos sabem que os meus irmãos são os mais fortes da escola! / Não tenho medo, trazes os teus amigos e irmãos e eu trago o meu professor de Karaté…
       Esta é uma pequena estória semelhante a tantas outras. Em primeiro lugar, é uma contenda entre crianças e também elas pouco a pouco deverão aprender que os problemas se resolvem melhor, mais duradoiramente, a conversar. Por outro lado, meterem-se adultos ao barulho, como pais, compreende-se e em algumas situações torna-se imperioso, mas muitas vezes tem efeitos perversos, pois os filhos voltam a ser amigos e os pais tornam-se inimigos para sempre. Porém, esta pequena estória tem hoje um contexto diferente. Ao olharmos o nosso tempo, e apesar da evolução cultural e social, continuam a repetir-se situações idênticas. E assim, por vezes, a educação dos filhos: Chamou-te nomes? Chama também. Bateu-te? Bate-lhe também. Tens medo? Leva uma colega mais velho contigo.
       O meu vizinho deitou um ramo do castanheiro para o meu quintal... E tu não fizeste nada? Claro que fiz: voltei a deitar-lhe o ramo e o lixo que tinha do meu lado. E aprendeu a lição? Achas? Aparou o castanheiro e deitou os ramos para o que é meu. E tu que fizeste? Se fosse eu ou chamava a polícia ou ia lá a casa e só se não pudesse senão partia-lhe as fuças. Não te preocupes, eu fiz melhor, cortei a lenha aos bocados e tenho-a aproveitado para a lareira, bem jeito me faz. Além do mais, já vai para duas semanas e se me vê recolhe-se em casa. Estou em crer que um dia destes ainda me vai pedir para se aquecer em minha casa…
       Há histórias semelhantes que acabam no hospital, na cadeia e na morgue... Infelizmente multiplicam-se situações destrutivas entre vizinhos e por vezes dentro das famílias.
        2 – Ao ver a multidão, Jesus subiu para o monte. Os discípulos aproximam-se d'Ele. Jesus sentou-se e começou a ensiná-los (Mt 5, 1-2). É desta forma que São Mateus nos introduz no Sermão da Montanha. Bem-aventuranças. Ser sal da terra e luz do mundo. Plenitude da Lei de Moisés em dinâmica de perdão e de amor. Amor ao inimigo em contraponto à lei de talião. Jesus refere-a aos antigos, mas na atualidade continua a ter muitos seguidores: "Olho por olho e dente por dente".
       A violência, como facilmente se pode verificar, gera violência, multiplicando-a. Os bons propósitos das Nações Unidas (ONU) de impor a paz pelo exercício da força, quando não é possível o diálogo, a diplomacia, os acordos de paz, tem abafado a agressão fácil a países com menos recursos, mas gera novos ódios e desejos de vingança. Países que evoluíram para democracias, cujo chão ainda respira sangue e morte, continuam demasiado vulneráveis e ao mínimo podem vir ao de cima os ódios e as vinganças.
       Como víamos na semana passada, Jesus não vem para anular a Lei mas para a levar à plenitude e, por conseguinte, contrapõe: «Eu, porém, digo-vos: Não resistais ao homem mau. Mas se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda. Se alguém quiser levar-te ao tribunal, para ficar com a tua túnica, deixa-lhe também o manto. Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, acompanha-o durante duas. Dá a quem te pedir e não voltes as costas a quem te pede emprestado. Ouvistes que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus; pois Ele faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos. Se amardes aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem a mesma coisa os publicanos? E se saudardes apenas os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos?»
       A referência é Deus: «Sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito». Amar os outros como a nós mesmos indica claramente o caminho. Mas nem sempre o amor-próprio ou a autoestima serão critérios saudáveis para cuidar dos outros. Jesus dá o mote: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei. Sede misericordiosos como o Vosso Pai é misericordioso.
       3 – A primeira leitura traz-nos o desafio de Deus, através de Moisés, a uma convivência sadia entre pessoas e grupos: «Não odiarás do íntimo do coração os teus irmãos, mas corrigirás o teu próximo, para não incorreres em falta por causa dele. Não te vingarás, nem guardarás rancor contra os filhos do teu povo. Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor». E de novo a referência a ter em conta é o próprio Deus: «Sede santos, porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo».
       Na mesma corrente, o salmista mostra o quanto Deus nos ama e como age com benevolência para connosco, para que também nós sejamos generosos no perdão e na caridade: «Ele perdoa todos os teus pecados e cura as tuas enfermidades; salva da morte a tua vida e coroa-te de graça e misericórdia. O Senhor é clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade; não nos tratou segundo os nossos pecados, nem nos castigou segundo as nossas culpas».
       Se Deus age tão misericordiosamente connosco, como não nos sentirmos impelidos a agir como Ele? Se O amamos vamos querer agir em conformidade com a Sua vontade!

      4 - Mas há mais. São Paulo mostra-nos, novamente, o nosso bilhete de identidade: pertencemos a Deus, somos criados à Sua imagem e semelhança, Ele assume-nos como filhos, como Sua morada. A resposta ao amor de Deus, como Pai/Mãe, levar-nos-á a amar a Deus, no compromisso com os outros, pois a todos Deus ama em perfeição. "Amor com a amor se paga" (São João da Cruz). Se Deus nos habita, a nossa casa tem de transpirar amor para O sentirmos em nós, para O revelarmos com a nossa vida.
       Diz o apóstolo: «Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o templo de Deus é santo, e vós sois esse templo. Ninguém deve gloriar-se nos homens. Tudo é vosso: Paulo, Apolo e Pedro, o mundo, a vida e a morte, as coisas presentes e as futuras. Tudo é vosso; mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus».
       Se somos de Cristo, há de ser Ele agir em nós e através de nós continuar a viver e a atuar no mundo, nos outros.

Textos para a Eucaristia (ano A): Lev 19, 1-2.17-18; Sl 102 (103); 1Cor 3, 16-23; Mt 5, 38-48.