terça-feira, 8 de outubro de 2019

Paróquia de Pinheiros | Santa Eufémia 2019

A Romaria e Festa de Santa Eufémia de Pinheiros é a maior festa do concelho popular, nesta perpetiva de romaria. A adesão das pessoas às festas tem muito a ver com as iniciativas ou os grupos de música contratados. A Festa de Pinheiros, para lá desse dimensão muito musical e festiva, tem a devoção à Santa Eufémia que, a 16 de setembro, junta pessoas oriundas de todo o concelho, mas também dos concelhos limítrofes, de Armamar e de Moimenta da Beira. Continua a haver pessoas que vêm a Pinheiros a pé, rezam, confessam-se, participam na santa Missa e na Procissão, cumprem as suas promessas, fazem os seus pedidos...
Belíssima música que acompanha este videoporama: DABAR - Faz-te ao largo.

domingo, 6 de outubro de 2019

Paróquia de Tabuaço | Primeira Comunhão 2019

Na nossa paróquia, como em tantas outras comunidades, a Primeira Comunhão realiza-se na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus - Corpo de Deus. Este ano caiu na quinta-feira, 20 de junho. Fizeram a sua Primeira Comunhão: a Catarina; o Duarte; o Francisco; a Francisca; a Helena; a Lara Maria; a Margarida; o Pedro Afonso, e o Pedro Tomás; sendo catequistas: Clara Castro; Eliana Santos; Bárbara Longa, e Sofia Barradas.
Créditos fotográficos: Paróquia de Tabuaço / Frederico Gomes
Música de fundo: Claudine Pinheiro - Transformai-vos, do Álbum "Até quando?"

sábado, 5 de outubro de 2019

Paróquia de Tabuaço | Profissão de Fé 2019

Celebração da Profissão de Fé, dos pré-adolescentes, como gostam de ser tratados, do 6.º Ano de Catequese, na nossa Paróquia habitualmente em dia de Solenidade de Pentecostes, a 9 de junho de 2019.
Acompanham as fotos, duas belíssimas músicas do grupo cristão de Vila Real, DABAR (A Palavra) - "Jardineiro de sonhos" e "À volta".

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Discípulos missionários do Deus desconhecido

LUÍS RAFAEL (2019). Discípulos missionários do Deus desconhecido. Um estudo exegético-pastoral de Atos 17, 16-34. Lamego: LIAM. 142 páginas.
(Foto: Pe. Hermínio Lopes)

       O Pe. Luís Rafael, natural de Vila da Ponte, membro a Equipa Sacerdotal da Paróquia de Almacave, ligado há muitos anos aos Jovens Sem Fronteiras (JSF), lançou há algumas semanas a sua dissertação de mestrado: um estudo exegético-pastoral de At 17, 16-34. Em Lamego, a apresentação do Livro foi no Centro Pastoral de Almacave, no dia 20 setembro. Já demos nota na edição anterior do Jornal. Agora é a nossa leitura e consequente sugestão.
       O lema dos JSF é: “Estar perto dos que estão longe sem estar longe dos que estão perto”. E eu diria que por vezes temos dificuldade em valorizar o talento e o trabalho dos que nos são próximos e dos que estão por perto. A sugestão do livro é mais que merecida. Passou o o escrutínio dos avaliadores da Universidade Católica e chegou, com todo o mérito, à publicação assumida pela LIAM (Liga Intensificadora Missionária). 
       O texto em estudo é do livro dos Atos dos Apóstolos (17, 16-34), diz respeito à intervenção do Paulo no Areópago, em Atenas, perante uma plateia de homens livres, cultos, religiosos, que acreditavam haver pelo menos uns 3 mil deuses, um para cada situação da vida. O Apóstolo dir-nos-á que evangelizar para ele (e claro, para nós, discípulos missionários) não é uma escolha, mas uma obrigação, "ai de mim se não evangelizar" (1 Cor 9, 16). Recomenda a Timóteo: "proclama a palavra, insiste em tempo propício e fora dele, convence, repreende, exorta com toda a compreensão e competência" (2 Tim 4, 2). Ele próprio testemunha a sua vida missionária: "fiz-me servo de todos, para ganhar o maior número. Fiz-me judeu com os judeus, para ganhar os judeus; com os que estão sujeitos à Lei, comportei-me como se estivesse sujeito à Lei – embora não estivesse sob a Lei – para ganhar os que estão sujeitos à Lei; com os que vivem sem a Lei, fiz-me como um sem Lei – embora eu não viva sem a lei de Deus porque tenho a lei de Cristo – para ganhar os que vivem sem a Lei. Fiz-me fraco com os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para salvar alguns a qualquer custo. E tudo faço por causa do Evangelho, para dele me tornar participante" (1 Cor 9, 19-23).
       Paulo, uma vez convertido, procurou corresponder ao mandato de Jesus Cristo: “Ide e anunciai o Evangelho a toda a criatura” (Mc 16, 15).
       Tal como os demais apóstolos, também Paulo começou por se dirigir primeiramente aos judeus, até porque falavam a mesma língua, tinham a mesma base cultural e religiosa, mas cedo percebeu que o Evangelho não poderia ficar refém de um espaço, de um tempo, de uma cultura, mas abrir-se a todo o mundo. Não surpreende que Paulo procure outros mundos para também aí levar o Evangelho de Jesus Cristo. Na Sinagoga e na praça pública, Paulo não cessa de anunciar Jesus e de discutir com quem aparece. Na praça, aparecem também filósofos, epicuristas e estóicos, que o levam ao Areópago. Diante de atenienses e estrangeiros residentes em Atenas, Paulo procura ir ao encontro das suas discussões e anseios, para logo lhes anunciar Jesus Cristo: «Atenienses, vejo que sois, em tudo, os mais religiosos dos homens. Percorrendo a vossa cidade e examinando os vossos monumentos sagrados, até encontrei um altar com esta inscrição: ‘Ao Deus desconhecido.’ Pois bem! Aquele que venerais sem o conhecer é esse que eu vos anuncio».
       A partir do discurso de Paulo, o Pe. Luís Rafael meteu mãos à obra para nos desafiar, também a nós, a mim e a ti, a não recearmos os tempos nem os lugares, as dificuldades e os contratempos, mas, sem temor, vivermos, testemunharmos e anunciarmos o Evangelho, com alegria e criatividade.
       A dissertação divide-se em três movimentos principais: 1) Estudo sobre o texto e tudo o que o envolve, analisando os aspetos linguísticos-textuais, as circunstâncias histórico-geográficas, religiosas, socioculturais e filosóficas; 2) Análise exegética, os dilemas que o texto apresenta, as temáticas teológicas presentes e a ponte para a filosofia grega; 3) A atualização do relato, deixando-nos desafios, apresentando os novos areópagos e as oportunidades com que hoje nos deparamos para anunciar o Evangelho.
       O trabalho está bem fundamento, com recurso a diversas fontes e diferentes áreas da teologia e do saber. O terceiro capítulo coroa o caminho árduo do trabalho, numa dinâmica mais pessoal e escorreita, com cenários que nos convocam à esperança e ao compromisso com o Evangelho de Jesus. Os desafios são lançados depois do trabalho "árduo", que fundamentam, contextualizam e explicitam a sábia intervenção de São Paulo no Areópago, o maior evangelizador de todos os tempos.
       Eis os desafios que o Pe. Luís Rafael nos deixa, para sermos discípulos missionários do Deus a conhecer e sobretudo a viver: 

1) Religiosidade XXI. "A cidade repleta de ídolos" (Atos 17, 16b): 
"Quantas vezes os batizados trocam o encontro comunitário com Deus por uma simples ida a uma catedral desportiva ou por uma manhã de compras no centro comercial! Eis o despotismo da indiferença... já não se trata da negação de Deus, mas do Seu desconhecimento... Um evangelizador tem de se destacar pela diferença: ele não vende Deus, dá-O a conhecer, dá-O gratuitamente para saciar a sede de todos os que vivem perto e longe d'Ele, todos os que O amam ou O negam, e de modo especial a todos os que vivem atormentados com medo, subjugados a facilitismos cegos, guiados pela prevenção esotérica... aquelas pessoas que 'tateando', procuram na escuridão longínqua um Deus que, na verdade, está bastante próximo de cada um (cf. Atos 17, 27)". 

2) Lugares de proximidade. "De pé, no meio do Areópago" (Atos 17, 22a): 
"O anúncio do Evangelho também tem de ser feito em Braga, em Lamego, em Vila da Ponte, em nossa casa, no meio desta 'apostasia silenciosa', onde os próprios batizados vivem como se Deus não existisse... é necessário que sejamos corajosos e criativos... temos de ser nós a sair, a ir até às mais variadas periferias... As potencialidades dos novos meios comunicativos são imensas e, se soubermos aproveitar, podemos fazer com que os valores gravados nas páginas da Sagrada Escritura cheguem até às imensas pessoas que se servem deles, e que estão neles! Na verdade, mais que simples meios, eles também são em si mesmos um 'lugar de encontro e de testemunho da fé, são autênticas mediapolis". Por outro lado, "nesta missão, não existem pessoas que possam ser dispensadas, nem lugares a serem evitados... Impõe-se que estejamos online neste Areópago digital mundial, sem que isso nos faça perder a consciência de que o virtual não substitui o real! Na verdade, sempre que possível, o clique deve levar ao toque, à proximidade física, à reunião comunitária, porque acima de tudo, o Deus que anunciamos não está distante, mas 'inacreditavelmente próximo de nós', é n'Ele que 'vivemos, nos movemos e existimos' (Atos 17, 28a)". 

3) INculturação da Fé. "Aquele que venerais sem o conhecer é esse que eu vos anuncio" (Atos 17, 23b): 
"Jesus Cristo foi o primeiro agente e modelo de inculturação! Assumiu, verdadeiramente, a natureza humana com tudo aquilo que isso implicava: ser membro de um povo com hábitos e costumes, língua e religião, uma cultura humana concreta... O primeiro passo para uma evangelização fecunda assenta no escutar e compreender o modo de pensar das pessoas que estão diante de nós, fazer como Paulo em Atenas". 

4) Evangelização da Cultura. "Como também o disseram alguns dos vossos poetas" (Atos 17, 28b): 
"Uma fé que não se torna cultura é uma fé não plenamente acolhida, não totalmente pensada, não fielmente vivida" (João Paulo II). "Ciência e fé não são opostas, não se sobrepõem, não se confundem, mas completam-se... Se queremos ser autênticos discípulos missionários... temos de estar firmemente enraizados n'Aquele em Quem acreditamos e intelectualmente preparados para dialogar com os representantes das mais diversas áreas do mundo da cultura". 

5) Testemunho sem cálculos. "Concordaram com ele e abraçaram a fé" (Atos 17, 34a) 
"A nossa sociedade está a ser abalada por uma crise de esperança... se também nós cedermos ao pessimismo e nos tornarmos sócios da lamúria permanente, condenaremos o futuro à esterilidade... Eis-nos aqui, hoje, num tempo novo, numa conjuntura que deve ser encarada com prudência, realismo e ânimo... Não podemos ser escravos do medo! É verdade que nem sempre um evangelizador obtém os resultados esperados, mas a evangelização não é uma questão de multidões”. Devemos tornar-nos “sensíveis a cada realidade humana, fiéis à verdade, sem medo dos resultados, sempre disponíveis para mostrar o rosto de Deus... Não podemos ficar acomodados a ver o tempo passar".
      E para concluir com o autor, "o importante é não ficarmos parados, mas percebermos que a evangelização é uma ação teândrica, na qual se impõe que colaboremos com o DEuS-CONHECIDO para dar respostas às inquietações cruciantes do Homem contemporâneo".

AUGUSTO CURY - FELICIDADE ROUBADA

AUGUSTO CURY (2015). Felicidade Roubada. Lisboa: Editora Pergaminho. 208 páginas. 
       Há autores que não precisam de apresentações. Augusto Cury é sobejamente conhecido em todo o mundo, sobretudo no âmbito da psiquiatria, psicologia, é, parafraseando-o, um poeta da mente humana e da saúde emocional.
       Criou uma nova teoria sobre a mente humana, a Inteligência Multifocal. A inteligência é complexa, tudo tem a ver com tudo, uma palavra, um gesto, pode armadilhar a mente e, com o tempo, ou quando menos se espera, resultar numa depressão, numa reação violenta ou extemporânea, sem se saber porquê, nem o próprio nem os outros. Quatro mil páginas, depois sintetizadas em pouco mais de 400, para se tornar acessível a todos. Janelas Killer (assassinas) e janelas light, síndrome do pensamento acelerado, reescrever memórias (já que as memórias não se podem apagar), memória RAM (registo automático da memória), são alguns dos termos “criados” pelo autor. Desafios sobre a importância de falar dos próprios sentimentos, também sobre as dificuldades e fracassos, higienizar mente, ter uma atitude positiva da vida, duvidar das ditaduras do insucesso, ser ator e não espectador da vida. DCD - duvidar, criticar, determinar.
       Hoje recomendamos este livro, mas recomendamos vivamente outros títulos, como os cinco que escreveu sobre a inteligência de Jesus Cristo - O Mestre dos Mestres, o Mestre da Sensibilidade, o Mestre da Vida, o Mestre do Amor, o Mestre Inesquecível, Maria, a maior educadora da história, mas também os romances, O Vendedor de Sonhos, O Semeador de Ideias, A Saga de um Pensador. Em cada um dos livros vêm ao de cima aspetos da teorização sobre a Inteligência Multifocal. Através dos livros, das palestras e intervenções, o autor tem como fito resgatar a mente humana, a saúde mental, que se repercute na saúde do corpo. Ler a teoria, com as teses, premissas, conclusões, pode ser interessante para se ficar por dentro desta original perspetiva sobre a memória e a inteligência, com a evocação de muitas situações, a ligação a muitos estudos, porém, ao escrever romances ou estudos (sobre Jesus, sobre a ditadura da beleza, sobre Maria, sobre educação, com muitas histórias reais à mistura), simplifica e torna mais contagiante os princípios que defende com o propósito de ajudar as pessoas, e a relação entre elas, os pais e os filhos, os professores e os alunos, os patrões e os empregados, e até mesmo profissionais que trabalham na área da saúde, para que não desistam de ninguém, mas que sejam humanos, que não temam falar abertamente dos medos, da ansiedade, dos fracassos, das perdas.
       Neste romance, o epicentro é um famoso neurocirurgião, cuja inteligência e rapidez de pensamento e sucesso com o bisturi, o levam a ser reconhecido e a ser convidado para conferências, a preparar outros médicos, como professor e a trazer fama ao hospital do qual também é um dos principais sócios. Até que tem um ataque de pânico, durante uma operação, com todos os sinais que pode ser um enfarte do miocárdio (ataque do coração), o fazem ter a sensação que a morte se aproxima. Os exames mostram que está bem de saúde, ao nível físico, mas o corpo sofre com um surto de ansiedade, medo de falhar, de deixar morrer quem tem na mesa de operações. Segundo o protagonista, mais perigoso do que os cirurgiões, só os psiquiatras – “Só há um médico que pode destruir mais do que um cirurgião: um psiquiatra. Quando é um mau profissional, o primeiro destrói o corpo, o segundo destrói a mente” –, mas descobrirá quanto é essencial reconhecer que precisa de ajuda para enfrentar os medos e, nessa missão, a criticar os anseios, a valorizar o que é, a olhar para quem lhe quer bem, a arranjar tempo de qualidade para a família e para os amigos, a dar descanso à mente.
       Logo no prefácio, Augusto Cury situa-nos na trama e na finalidade deste romance: "Quando abraçamos mais e julgamos menos, elogiamos mais e criticamos menos, apostamos mais cobramos menos (inclusive a nós próprios), dialogamos sobre quem somos e menos sobre onde estamos, aceitamos mais os limites dos outros e temos menos a necessidade neurótica de mudá-los, vivemos mais o presente e sofremos menos pelo futuro, protegemos a nossa emoção e traímos menos a nossa cama, o nosso sono, os nossos sonhos".
Mas vejamos algumas expressões significativas que o autor, também através das personagens do romance, explana e aprofunda algumas das ideias que estão na base da inteligência multifocal, na procura de criar seres humanos mais assertivos e saudáveis: 
"A necessidade de evidência social é um dos sintomas da infelicidade".
“Mais de 3 mil milhões de pessoas, mais cedo ou mais tarde, desenvolverão um transtorno psiquiátrico... as sociedades modernas tornaram-se uma fábrica de pessoas stressadas". 
"Antes escraviza-se o corpo, hoje escraviza-se a mente".
"Azedas a alma com as tuas reclamações". 
“Quando se ama não há sacrifícios, apenas há prazer em dar". \
"É melhor compreender do que julgar". 
  • Tratei e operei milhares de pacientes como um vendedor de tempo e de qualidade de vida. fazia quase o impossível para prolongar meses, ou mesmo alguns dias, a vida de cada paciente que estava no último estágio da vida... 
  • Todos os cérebros estão tranquilos quando se está distante da morte. Contudo, quando se aproximam dela, milhares de milhões de neurónios entram em estado de choque, clamam pela continuidade da existência através do aumento da frequência cardíaca... Se todos os seres humanos estivessem às portas da morte, ainda que virtualmente, através de um ataque de pânico, não haveria guerras, corrupção, disputas irracionais. Erradicaríamos as nossas loucuras. Nós seres humanos, vivemos como deuses, embora saibamos que somos mortais. 
  • A questão toda não é se Deus existe ou não, se se é materialista ou espiritual, se se é neurocientista, como eu fui, ou um leigo. A questão é que Deus tem de existir, senão a vida humana tornar-se-ia uma ilusão. Você ama, mas nunca mais poderá tocar quem ama e conviver com eles. É possível aceitar este fatalismo? Só se não se ama ou se não se tem consciência das sequelas irreparáveis do fim da existência. Já parou para pensar sobre o que acontece na solidão de um túmulo? 
  • Esfacela-se a memória, silencia-se a consciência, destrói-se a autonomia... tenho necessidade de crer em Deus. 
  • O edifício do presente apoia-se nos alicerces do passado, seja ele glorioso ou desastroso... 
  • Quem cobra demasiado de si próprio, sabota a sua saúde emocional, aumenta os níveis de exigência para ser feliz... 
  • Amar é necessitar, trocar, entregar-se, procurar, esperar... 
  • Uma dívida de amor não é uma dívida numérica... 
  • Se as palavras fossem balas, todos seríamos assassinos 
  • Quem só vê à sua frente a sua profissão ou o seu partido político tem um desequilíbrio intelectual doentio 
  • Todos vamos morrer. Quando? Não sabemos. O importante é fazer de cada dia um momento eterno 
  • Quem tem ciúmes diminui-se e sobredimensiona o outro... vive em função da perda... quem tem medo da perda, já perdeu. 
  • Ter uma cama confortável não quer dizer dormir bem 
  • Ter comida farta à mesa não quer dizer ter prazer em comer 
  • Conheço muitos milionários que mendigam o pão da alegria 
  • Saber corretamente uma língua não quer dizer ter maturidade para falar de si próprio e educar 
  • Ter bajuladores não quer dizer ter um ombro em que se apoiar quando o mundo desaba 
  • Ter um seguro de automóvel, de habitação, de vida, não significa, em hipótese alguma, ter proteção psíquica 
  • Ter tido uma vida mutilada, privada, ferida, abandonada não quer dizer ser programado para ser infeliz, doente, emocionalmente miserável 
  • Sem esperança, a emoção não tem oxigénio.

sábado, 14 de setembro de 2019

Domingo XXIV do Tempo Comum - ano C - 15.09.2019

Exaltação da Santa Cruz - 14 de setembro

       1 – "A linguagem da cruz é certamente loucura para os que se perdem mas, para os que se salvam, para nós, é força de Deus... Nós pregamos um Messias crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios. Mas, para os que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é poder e sabedoria de Deus" (1 Cor 1, 17-31).
       Só os criminosos eram condenados à crucifixão. A cruz é ignominiosa remetendo imediatamente para algum crime hediondo. Ao ser apresentado como Crucificado, Jesus é tido como um malfeitor, um criminoso.
       Por outro lado, como é que Jesus sendo Filho de Deus, todo-poderoso, pode deixar-Se matar? Como é que pode ser o Messias esperado e libertador, se Ele mesmo é preso, esbofeteado e morto? E sendo Deus, como pode morrer?
       Alguns tentam mitigar a gravidade e o escândalo, dizendo que a morte de Jesus foi aparente; ou só morreu Jesus (humano) separado do Cristo (divino); ou foi substituído no momento da crucifixão por um dos discípulos, por exemplo, por Judas Iscariotes (cujo corpo seria desviado do túmulo e estrategicamente “enforcado” para ser encontrado), e depois Jesus teria aparecido “ressuscitado” (não se encontrando o seu corpo em parte nenhuma, uma vez que não tinha morrido). Ainda há correntes religiosas que não aceitam que Jesus Cristo tivesse sido morto e muito menos numa cruz. As representações da figura de Jesus é romantizada com belíssimas passagens, mas numa em situação de sofrimento, de fragilidade ou de morte na cruz. Ora, se Jesus não tivesse sido morto, tudo seria uma encenação, um faz-de-conta, e que colocaria em causa toda a pregação de Jesus.
       Quando Jesus anuncia que vai morrer, logo os apóstolos O contestam, a começar por Pedro: Deus te livre de tal, nós não deixaremos. Já na Cruz, alguns zombam d’Aquele Messias: se és o Messias, desce da Cruz… Nas Aparições do Ressuscitado há um elemento bem visível, as marcas do Crucificado, as chagas do seu corpo, é o mesmo Jesus Cristo.
       No início da missiva aos Coríntios, o Apóstolo mostra-nos o centro da pregação e a identificação do Evangelho. A Cruz ocupa um lugar incontornável na fé cristã e na vida da Igreja. Com efeito, não se poderia falar em ressurreição se antes se não falasse da morte de Jesus. E, concretamente, na morte de Cruz, lugar de oblação, de entrega, lugar do amor levado às últimas consequência, até à última gota de sangue. Oferecendo-Se, Jesus oferece-nos a Deus. Desce ao mais profundo, para nos elevar ao mais elevado.
       Por mais voltas que se deem de forma a minorar os estragos da fé num Deus todo-poderoso, revelado em Jesus Cristo, a fé estaria condenada ao fracasso se não contemplasse a cruz. Os braços estendidos enlaçam-nos como irmãos. A cruz, cravada na terra, ligada a todos os que a habitam, levanta-se e levanta-nos para o alto. Dali, Jesus repara em nós, fixa o Seu olhar no nosso olhar e obriga-nos a levantar a cabeça para lá da Cruz.
       2 – «Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele». A Encarnação marca um tempo novo: Deus entra na história como verdadeiro Homem, como um de nós, carne da nossa carne, sangue do nosso sangue. Tal mistério traz-nos a eternidade de Deus, para no final, nos abrir, para escancarar, as portas do Céu. Mas o Céu já está entre nós, é Jesus Cristo, que ao morrer e ressuscitar nos levará para junto do Pai. Quis-Se connosco. Veio. Quer-Se connosco, leva-nos com Ele. Sem a abertura do Céu, ficaríamos apenas pó.
       Quando encontra Nicodemos, Jesus revela-lhe a importância da vinda do Filho de Deus:
«Ninguém subiu ao Céu senão Aquele que desceu do Céu: o Filho do homem. Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, também o Filho do homem será elevado, para que todo aquele que acredita tenha n’Ele a vida eterna. Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna».
       Jesus recorda a Nicodemos como aquela serpente, levantada por Moisés no meio do nada, do deserto, antecipa a Cruz plantada entre salteadores, no meio dos homens: a salvação.
"O Senhor disse a Moisés: «Faz uma serpente de bronze e coloca-a sobre um poste. Todo aquele que for mordido e olhar para ela ficará curado». Moisés fez uma serpente de bronze e fixou-a num poste. Quando alguém, era mordido por uma serpente, olhava para a serpente de bronze e ficava curado".
       Mordidos pelo pecado, pelo egoísmo, pela maledicência, pela violência, só voltando-nos para o alto encontraremos a redenção que nos obriga a sair de nós, a olhar além do nosso umbigo.

       3 – Belíssimo o poema recolhido por São Paulo na Epístola aos Filipenses, e que resume todo o mistério de Jesus Cristo, a Encarnação, o abaixamento, a divindade que Se encolhe na humanidade, a eternidade que Se faz tempo e história, o Infinito que Se faz finito e frágil. Deus esconde-Se no Homem.
"Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai".
       Fácil imaginar uma Mãe (um Pai) a agachar-se para estar ao nível da criança, ora para brincar com ela, ora para a levantar em seus braços e a segurar no seu colo. Assim Deus. Debruça-Se para nos olhar olhos nos olhos, viver connosco no meio de nós, assumindo-nos no nosso pecado, na nossa fragilidade e finitude, identificando-Se com a nossa humanidade. Debruça-Se para depois nos erguer com Ele.
       Como não recordar Jesus no momento da última Ceia - a primeira deste tempo novo - quando Se ajoelha, colocando-Se ainda mais baixo que os discípulos, e lhes (e nos) lava os pés, em atitude de serviço. Está connosco à mesa, partilha connosco o pão e a vida. Já as suas palavras saem embargadas. Daqui a pouco terá uma prova de fogo e de resistência. Irá até ao fim. Por todos. Por cada um de nós. São suores de sangue, quando a vida biológica está sob ameaça. São palavras de entrega confiante ao Pai: faça-Se como Tu queres. Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito.
       Jesus fecha um círculo, enlaçando-o na nova vida que nos dá em abundância. Tudo n'Ele está consumado. A Cruz põe termo a toda a treva, a todas as distâncias. Jesus eleva-nos para Deus. O Seu abaixamento, torna-se exaltação. Deus dá-lhe um nome, diante do qual todos nos devemos ajoelhar para melhor O acolhermos, O louvarmos, para melhor nos deixarmos trabalhar por Ele.
       A nossa salvação, a Cruz de Jesus Cristo, está cravada na terra, entre nós, no mundo, entre a terra e o Céus. Enxertada na terra, mas erguendo-se para o alto, e com os braços bem abertos, para a todos nos envolver, para a todos nos acolher no Abraço do Pai.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia: Num 21, 4b-9; Filip 2, 6-11; Jo 3, 13-17.

(Reposição da reflexão completa, 14 de setembro de 2014)

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Augusto Cury - Tu és insubstituível

Algumas expressões do livro de AUGUSTO CURY (2018). Você é insubstituível. Lisboa: Editora Pergaminho:
"Sem sonhos, a vida não tem brilho. Sem metas, os sonhos não têm alicerces. Sem prioridades, os sonhos não se tornam reais. Sonhe, trace metas, estabeleça prioridades e corras riscos para realizar os seus sonhos. É melhor errar por tentar do que errar por se omitir. Não se esqueça de que tu, ainda que incompleto, foste o maior aventureiro da História" (espermatozóide entre 40 milhões na luta pela vida).

"Sem o perdão, o monstro do passado eclodirá no seu presente e controlará o seu futuro. Qual é a maior vingança contra um inimigo? É perdoá-lo. A palavra-chave para o perdoar não é tentar perdoá-lo, mas compreendê-lo. Se o compreender, perdoa-lo. Se o perdoas, ele morre dentro de ti e renasce de outra forma. Caso contrário, o seu inimigo dormirá contigo".

"Quando empreenderes, não tenhas medo de cometer erros. E quando os cometeres, não tenhas medo de os reconhecer. E quando os reconheceres, não tenhas medo de chorar. E quando chorares, não tenhas medo de reavaliar a tua vida. E quando reavaliares, não te esqueças de dares sempre uma nova oportunidade a ti próprio". 

VIKTOR E. FRANKL - O Homem em busca de um sentido

VIKTOR E. FRANKL (2019). O Homem em busca de um sentido. 9.ª edição. Alfragide: Editora Lua de Papel. 160 páginas.
Viktor Frankl escreveu este livro em 9 dias sucessivos, em 1945, logo depois de ter sido libertado do campo de concentração nazi. Inicialmente o livro, escrito em alemão, era para ser publicado anonimamente. O propósito era ajudar pessoas com tendência para o desespero e não a tornar o autor famoso. Os amigos incentivaram-no a assumir a autoria. Por outro lado, a segunda parte do livro é dedicado à logoterapia desenvolvida pelo autor, pelo que o relacionar das duas partes se tornam essenciais: a vivência concreta que, depois, é possível visualizar-se na teoria apresentada.
Já muitos relatos foram escritos sobre os campos de extermínio nazi, com testemunhos daqueles que sobreviveram. O autor, contudo, mais que nos relatar a vida desumana nos campos, tem como objetivo ajudar as pessoas a encontrar um sentido para as suas vidas, não universal, mas o sentido concreto para cada pessoa e pelo qual valha a pena viver e lutar.
A apresentadora Fátima Lopes, no seu livro "Fátima, o meu caminho, a minha fé", que já sugerimos como leitura, revela que esta obra faz parte das que tem na mesinha de cabeceira, para ler e reler. Seguindo a recomendação procurámos o livro e, depois de o lermos, secundamos a conselho de Fátima Lopes, pois é uma leitura que nos prende da primeira à última página, quer na parte do testemunho quer na apresentação que o famoso psiquiatra elaborou.
O autor passou por quatro campos de concentração durante a 2.ª Guerra Mundial, nunca se deixando abater pelas contrariedades e pela desumanidade com que foi tratado, ele e os companheiros. Para trás, os prisioneiros deixaram tudo, mulher, filhos e bens. Entram no campo de concentração nus, despidos das roupas e da "dignidade", à qual nunca renunciará e que sustenta que nunca se perde. Uma das expressões contundentes do autor, é que a dignidade é inerente à pessoa, não tem a ver com utilidade, pois dessa forma se justificaria a eutanásia, tal como praticada pelo nazismo.
Antes da guerra, já Viktor Frankl tinha credibilidade como psiquiatra, especializado no estudo da depressão e do suicídio. Inicialmente seguiu de perto Freud, com quem manteve correspondência, e Alfred Adler, dos quais se viria a distanciar na prática clínica. Para Sigmund Freud, a vida é sobretudo a busca de prazer e para Adler a busca de poder. Par o autor, a vida é sobretudo a busca de sentido. Três fontes de sentido: o trabalho (fazer alguma coisa significativa), o amor (cuidar de outra pessoa) e a coragem em tempos difíceis. Como refere a nota introdutória, acerca do pensamento de Frankl, "não podemos controlar o que nos acontece na vida, mas podemos sempre controlar o que iremos sentir e fazer quanto àquilo que nos acontece".
Viktor desenvolveu um programa pioneiro com os estudantes de Viena, que reduziu a zero a taxa de suicídios. A sua brilhante carreira viria a ser interrompida pelo Nacional Socialismo. Teve em mãos um visto para emigrar para os EUA, mas escolheu ficar para cuidar dos pais. Em 1942, foi deportado para um gueto e, mais tarde para Auschwitz. Com ele, também o irmão e o pai, que não sobreviveram. Também a mulher, grávida, foi para os campos de concentração. Só ele sobrevivia.
Uma das expressões que utiliza, em diversas ocasiões, até para explicar a logoterapia, a busca de sentido, é Nietzsche: "Aquele que tem uma razão para viver pode suportar quase tudo". Quem tem um motivo, uma razão para viver, mais facilmente encara as dificuldades e os contratempos, por mais violentos que sejam. O autor agarrou-se ao livro que lhe foi tirado quando entrou no gueto... Toma consciência que perdeu tudo, mas ainda assim começa logo a reescrever mentalmente o livro, para depois tomar notas (usando a estenografia) em cada pedaço de papel que vai encontrando, para que quando estiver em liberdade o livro possa ser publicado. Por outro lado, pensa na Mulher. Não sabe se está morta ou viva, mas fala com ela e interpreta positivamente alguns sinais ou coincidências, como quando um pássaro vem pousar perto dele. Cria conversas com a mulher que o serenam, motivam-no, fazem esquecer a degradação, ajudam-no a continuar.
Há outros fatores que o ajudam a sobreviver, os companheiros, os guardas que encontra, a própria sorte, pois não passa de um número que pode ser necessário para entrar nalgum camião da morte. Sobrevivendo, recusará sempre a culpa coletiva do povo alemão. Também aí a logoterapia se estende. A dignidade da pessoa mantém-se em todas as situações. A pessoa não é apenas a conjugação de dados inatos, do ambiente em que cresceu e vive e das circunstâncias. É também livre e responsável. E, por isso, diz claramente que há "porcos e santos" dos dois lados da barricada, dos prisioneiros e dos guardas. Mais tarde alguém lhe perguntou porque é que continuava a escrever em alemão, a língua de Hitler. Então o autor pergunta-lhe se tem facas na cozinha. Como a senhora respondesse que sim, então Frankl rebate: Como é que ainda consegue usar facas depois de tantos assassinos as terem usado para apunhalar e matar as suas vítimas?
Ao longo de todo o livro, o autor não se prende tanto com a experiência, fá-lo sobretudo para mostrar a sua teoria - logoterapia, isto é, como a vida se resolve na busca de um sentido, olhando para o futuro sem desprezar o passado (o que temos de mais certo), não se fixando numa culpa coletiva, mas respondendo com a sua vida. Ao lado da Estátua da Liberdade deveria estar a Estátua da Responsabilidade, pois a liberdade responsabiliza-nos, torna-nos responsáveis pelo que somos e pelo que fazemos.
"Não havia nem tempo nem vontade para olhar para questões éticas ou morais. Cada pessoa era controlada por um único pensamento: manter-se viva para a família que a esperava em casa e salvar os seus amigos".
"Em geral, só conseguiam ficar vivos aqueles que, após anos a saltar de campo em campo, tinham perdido todos os escrúpulos na sua luta pela sobrevivência; estavam prontos a usar todos os meios, honestos ou não, até mesmo a força brutal, o roubo e a traição dos amigos, de maneira a salvarem-se. Nós, os que voltámos a casa, com a ajuda de muitas circunstâncias felizes ou milagres - seja qual for o nome que escolhemos dar-lhe - nós sabemos: os melhores de entre nós não regressaram".
"A parte mais dolorosa de uma agressão é o insulto que implica"
"O meu espírito mantinha-se preso à imagem da minha mulher. Ouvi-a a responder-me, via o seu sorriso, o seu olhar franco e encorajador. Real ou não, esse olhar era naquele momento mais luminoso que o Sol que começava a nascer... A verdade - o amor é o supremo e mais elevado objetivo a que o Homem pode aspirar. Vislumbrei então o significado do maior segredo que a poesia, o pensamento e as crenças dos seres humanos podem comunicar: a salvação dos homens consegue-se no amor e pelo amor. Compreendi como pode um homem a quem nada resta no mundo conhecer ainda assim a felicidade, mesmo que por breves instantes, na contemplação do ser amado... o meu espírito continuava agarrado à imagem da minha mulher... o amor vai muito além da pessoa física do ser amado... Sentia a sua presença com cada vez mais intensidade, sentido que estava comigo; tinha a sensação de poder tocá-la, de poder esticar a minha mão e pegar na dela. Esse sentimento era muito forte: ela estava ali. Então, nesse preciso momento, um pássaro voou em silêncio e veio pousar mesmo à minha frente, num monte de terra que tinha escavado da vala, e ficou a olhar fixamente para mim... Escuta, Otto [companheiro, a quem comunica o seu testamento], se não voltar para a minha mulher e se a vires outra vez, diz-lhe que falei dela todos os dias, a todas as horas. Não te esqueças. Segundo, amei-a mais do que a qualquer outra pessoa. Terceiro, o pouco tempo que estive casado com ela supera tudo, até mesmo aquilo que passámos aqui".
História da Morte em Teerão
"Um persa rico e poderoso caminhava certo dia no seu jardim na companhia de um dos seus criados. O criado gritou que tinha acabado de encontrar a Morte, que o tinha ameaçado. Implorou ao amo que lhe desse o cavalo mais rápido de maneira a poder fugir para Teerão, onde poderia chegar nessa mesma noite. O amo acedeu e o criado afastou-se a galope no cavalo. Ao regressar a casa, o amor encontrou também a Morte, e questionou-a: «Por que razão assustaste e ameaçaste o meu criado?» E a Morte disse: «Não o ameacei; limitei-me a mostrar surpresa por estar ainda aqui quando tinha planeado encontrar-me com ele esta noite em Teerão”.
Nietzsche: "Aquilo que não me mata torna-me mais forte". 
"As experiências da vida nos campos mostram que os homens têm realmente a possibilidade de escolher. Houve muitos exemplos, com frequência de natureza heróica, que demonstraram que a apatia podia ser vencida e a irritabilidade dominada. O Homem pode preservar um vestígio de liberdade e independências espirituais, até mesmo em condições terríveis de stress físico e psíquico... Homens que iam de caserna em caserna para confortar os outros, oferecendo-lhes o último pedaço de pão. Podem ter sido poucos, mas constituem prova suficiente de que tudo pode ser tirado a um homem, menos uma coisa: a última das liberdades humanas - a possibilidade de escolhermos a nossa atitude em quaisquer circunstâncias, de escolher a nossa maneira de fazermos as coisas".
"É uma característica peculiar dos seres humanos só conseguirem viver a olhar para o futuro - sub specie aeternitatis. E isto é a sua salvação nos momentos mais difíceis da existência, embora por vezes tenham de forçar-se a prosseguir".
"A emoção, que constitui sofrimento, deixa de ser sofrimento logo que formamos uma ideia clara e distinta a seu respeito".
"O preso que perdesse a fé no futuro - o seu futuro - estava condenado. Ao perder a crença no futuro, perdia igualmente o controlo espiritual; deixava-se decair e ficava sujeito a um definhamento físico e mental".
"O homem pode ser chamado a aceitar simplesmente o destino, a carregar a sua cruz... Quando um homem descobre que o seu destino é sofrer, terá que aceitar esses sofrimento como sua missão; a sua missão única e exclusiva. Terá que reconhecer o facto de que, até mesmo no sofrimento, é único e está só no universo. Ninguém pode libertá-lo do seu sofrimento ou de sofrer no seu lugar. A sua oportunidade única reside na forma como carrega o seu fardo".
"Ter sido é também uma forma de ser, e talvez das mais seguras... Há alguém a olhar por cada um de nós nos momentos difíceis - um amigo, uma esposa, alguém vivo ou morto, ou um Deus - e essa pessoa não gostaria que a desiludíssemos. Esperaria ver-nos a sofrer com orgulho - e não abatidos - sabendo como morrer".
"Há duas raças de homens neste mundo e só estas duas - a «raça» dos homens decentes e a «raça» dos homens indecentes. Podemos encontrar uma e outra por todo o lado; elas permeiam todos os grupos sociais. Nenhum desses grupos consiste inteiramente de pessoas decentes ou indecentes. Neste sentido, nenhum grupo é uma «raça pura» - e podíamos, portanto, encontrar ocasionalmente uma pessoa decente entre os guardas do campo".
"A experiência suprema entre todas, para o homem que regressa a casa, é o sentimento maravilhoso de que, depois de tudo quanto sofreu, não há mais nada a temer - exceto o seu Deus".
"O amor é a única maneira de compreender outro ser humano no fulcro mais íntimo da sua personalidade. Ninguém pode ter um conhecimento profundo e completo da essência do outro ser humano a menos que o ame. Por meio do seu amor, fica capacitado pata ver os traços e as características essenciais da pessoa amada; mais ainda, vê aquilo que há em potência nela, anda que não efetivado mas que deveria sê-lo. Para além disso, por meio do amor, a pessoa que ama permita àquela que é amada a efetivação desses potencialidades. Ao torná-la consciente daquilo que pode ser e daquilo em que deveria transformar-se, torna essas potencialidades reais... O amor é um fenómeno tão primário como o sexo. Normalmente, o sexo é um modo de expressão do amor. O sexo é justificado, é até santificado, logo que se tornar um veículo do amor, mas só na medida em que o seja. O amor não é, assim, compreendido como um mero efeito secundário do sexo; é, antes, o sexo que constitui uma forma de exprimir a experiência dessa derradeira forma de comunhão que se chama amor".
"A liberdade não é a última palavra. A Liberdade é só uma parte da história e metade da verdade. A liberdade não é senão o aspeto negativo do fenómeno no seu todo, cujo aspeto positivo é a responsabilidade., De facto, a liberdade está em risco de degenerar em mera arbitrariedade, a menos que seja vivia num âmbito de responsabilização. Por este motivo recomendo que a Estátua da Liberdade na costa leste seja completada com uma Estátua da Responsabilidade na costa oeste".
"O Homem é esse ser que inventou as câmaras de gás de Auschwitz; no entanto, é igualmente o ser que entrou nas câmaras de gás de cabeça erguida, com o Pai Nosso ou o Shema Yisrael nos lábios".
"Sigmund Freud declarou uma vez, «deixemos alguém tentar expor à fome um certo número dos mais diversificados tipos de pessoas. À medida que aumentar a necessidade imperativa da fome, todas as diferenças individuais tenderão a esbater-se e a dar lugar à expressão uniforme do único instinto por saciar». Graças a Deus, Freud foi poupado ao conhecimento dos campos de concentração por dentro. Os seus pacientes deitam-se num divã luxuoso de estilo vitoriano e não na imundice de Auschwitz. Aí, as «diferenças individuais» não se »apagaram», pelo contrário, as pessoas tornaram-se mais diferentes; as pessoas desmascaram-se, tanto os porcos como os santos. E hoje em dia já não precisamos de hesitar em usar a palavra «santos»: basta pensar no padre Maximiliano Kolbe, forçado a passar fome e por fim assassinado com uma injeção de ácido carbólico em Auschwitz e que em 1983 foi canonizado".

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Domingo XII do Tempo Comum - ano C - 1.09.2019

João António - Onde está Jesus, hoje?

J.A. PINHEIRO TEIXEIRA (2019). Onde está Jesus, hoje? A Igreja como cristopresença e cristovivência. Lamego. 392 páginas.

       Colaborador próximo da Voz de Lamego, de que já foi Diretor, presença habitual nas redes sociais e em jornais da região, o Reitor do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, Pe. João António, vai-nos brindando com algumas publicações, em forma de testemunho e de desafio, envolvendo-nos no seguimento de Jesus e na identificação com a Sua vida, procurando, como Ele, sintonizar, transparecer e testemunhar a vontade de Deus.
       A escrita do autor é muito característica. Quem lê as suas crónicas, conhece o estilo: contrapontos, antíteses, dilemas, expressões subordinadas, avançando a reflexão em forma de espiral, retomando temáticas, repondo algumas frases, reforçando as ideias propostas, fazendo-nos aprofundar e progredir na reflexão. São muitas a referências a autores consagrados na teologia mas também em outras áreas do saber, de ontem e de hoje, mas a referência inadiável é Jesus, a Sua intimidade com o Pai, na oração, com as Suas opções, sem excluir ninguém, a preferência pelos pobres, pelos mais frágeis da sociedade, por aqueles que estão à margem, excluídos e até odiados, a coerência entre as palavras e a vida, as obras como expressão da fé, contra a hipocrisia, pelo serviço, caracterizado pelo amor, opondo-se a qualquer tipo de imposição e poder. 
       Já tivemos a oportunidade de noticiar a apresentação do livro, realizada no dia 12 de agosto, no Santuário dos Remédios. Nessa ocasião, disponibilizámos também a apresentação feita por D. António Couto, Bispo de Lamego, nas primeiras páginas do livro. D. António recomenda vivamente a leitura desta obra, tendo em conta a temática eclesial a desenvolver na nossa Diocese no triénio pastoral de 2018-2021: Igreja na sua vocação e identidade, na sua missão e no seu caminho. Tendo-o lido, com proveito, assim o esperamos, , secundamos agora a sugestão de D. António. É uma leitura muito oportuna, cuja densidade não impede a clareza.
       A Igreja é de Cristo. O que é Cristo terá que ser a Igreja. O que é Cristo teremos que ser nós. Cristo transparece e vive a vontade do Pai. Assim também nós havemos de deixar transparecer o amor de Cristo pela Sua Igreja, pela humanidade.
       Dos muitos pedaços de texto com que poderíamos ilustrar o que dissemos sobre este livro, as palavras da contracapa são suficientemente luminosas e sugestivas: 
Amo-te, minha mãe, minha mãe Igreja.
Amo-te, porque me dás o que ninguém mais me consegue dar: Cristo, Maria, os santos e o convívio diário com pessoas que exalam o incomparável perfume de Deus.
Amo-te, porque nem nos momentos de maior fragilidade desistes da nossa humanidade.
Amo-te, porque és tu que tens levado o Evangelho da paz e da esperança a tantos deserdados deste mundo.
Amo-te, porque és tu que queres aqueles que mais ninguém quer.
Amo-te e quero-te mais do que nunca.
É contigo que espero continuar a viver. E é nos teus braços que, um dia, quero morrer.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

FÁTIMA LOPES - FÁTIMA, O MEU CAMINHO, A MINHA FÉ

FÁTIMA LOPES (2019). Fátima, o meu caminho, a minha fé. 2.ª Edição. Barcarena: Manuscrito Editora. 170 páginas.

       Nada melhor que as palavras da autora para enquadrar o livro que sugerimos: "Fátima é um lugar de descanso, onde encontro respostas, mas também onde me são colocados novos desafios e novas perguntas. Onde confirmo a certeza que tenho desde pequenina: a de que nasci para ser feliz e ajudar os outros a serem felizes".
       A Fátima Lopes não precisa de grandes apresentações, pois quase diariamente aparece em programas de televisão, nos últimos anos na TVI, em programas de entretenimento, vindo a "especializar" em programas que contam histórias de vida, demandas, sofrimento, sempre histórias de amor, de luta, de adversidade, de esperança. Além disso, é uma mulher de fé, católica, devota de Fátima. E não o esconde.

       Em 12 de maio de 2017, a autora em trabalho de reportagem para a TVI foi surpreendida por 8 minutos em que o Papa Francisco, na Capelinha das Aparições, permaneceu em silêncio e em oração. Um mar de gente que, com o Papa, fez um "silêncio orante", na expressão do Papa Francisco. Foram dias muito aguardados, visita do Papa, centenário das Aparições de Nossa Senhora aos Pastorinhos, canonização de Francisco e Jacinta. "Foi como se, de repente, o Santuário tivesse ficado vazio. Silêncio... espontâneo, comovente, rezado por milhares de pessoas... uma paz que nunca tinha sentido antes. Um abraço quente que não conhecia... uma mão que pousava sobre a minha cabeça e me trazia uma sensação de conforto, de serenidade e de uma felicidade plena... Rapidamente que esqueci de que era apresentadora de televisão e deixei que falasse o meu lado crente. Senti necessidade de partilhar com os espectadores momentos íntimos associados à minha fé. Como, por exemplo, o caminho feito para conseguir engravidar do meu segundo filho".
       São aqueles 8 minutos que marcam a decisão de Fátima Lopes em fazer-se peregrina de Fátima, partindo de Lisboa, a pé até ao Santuário, a primeira, em outubro de 2017 e, a segunda, em maio de 2018. Foi desafiada pelos companheiros de peregrinação a escrever sobre a sua experiência de caminhar a pé para Fátima.
"Defino-me como uma mulher de fé. Levo Fátima marcado no meu nome e na minha data de nascimento, 13 de maio, mas foi ali, naquele silêncio esmagador de mais de 500 mil peregrinos junto do seu pastor que eu senti que tinha de ir mais fundo, mais longe, na minha vida e na minha fé... Também eu queria escrever a minha história de peregrina. Também eu queria passar em análise a minha vida, enquanto caminhava, quilómetro a quilómetro. Queria sentir o milagre de Fátima e viver no meu coração a certeza de que o Papa Francisco nos deixou na homilia do dia 13 de maio: «Temos Mãe»... Este ano faço 50 anos e 25 anos de carreira na televisão. É por isso um ano repleto de celebrações para mim, como tudo o que cada uma delas significa... Este livro é por isso um marco. Uma reflexão sobre a minha vida, os meus valores, aquilo em que acredito e o que me move. Uma forma de agradecer tudo o que a vida me tem dado e todas as experiências que tenho vivido".
       Ao longo do livro, Fátima Lopes fala da sua vida, das dificuldades e dos medos, de sofrimento e de perda, da vida e da fé, do amor e da esperança, de educação e de valores, num caminho cheio de esperança, assumindo a disponibilidade para aprender, para caminhar, para aprender com os erros, para enfrentar os medos e as perdas, para aprender com o passado, mas encarando com alegria o presente e o futuro. É uma leitura empolgante. Um testemunho de fé e de vida.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

SEÁN O’MALLEY - GAMBIARRAS DE LUZ

SEÁN O’MALLEY, Ofm Cap. (2019). Gambiarras de Luz. Prior Velho: Paulinas Editora. 208 páginas. 
“A busca pela luz surge espontaneamente no nosso coração. Nós não podemos viver sem luz. A luz de Cristo permite-nos encontrar significado, descobrir a nossa própria identidade, e abraçar a missão que Cristo nos deu. As reflexões deste livro são as modestas tentativas de um pastor para ajudar as pessoas a roubarem um pouco da luz dos céus, conectando-se à mensagem de Jesus no Evangelho e às perceções de um simples frade que busca penetrar uma luz e uma sabedoria que não são dele, mas sim uma dádiva de um Deus cheio de amor”. 
É este o propósito com que o autor, o Cardeal Seán O’Maaley, franciscano capuchinho, arcebispo de Boston, disponibiliza mais um conjunto de intervenções, homilias e discursos, sobressaindo a sua missão como cristão, bispo e um dos responsáveis da Igreja mais próximos do Papa Francisco, integrando precisamente o Conselho de Cardeais. Está muito ligado à Comissão para as Atividades Pró-Vida da Conferência Episcopal Americana, entre outros compromissos, tal como ser Presidente da Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores. 
São vários os textos que têm precisamente a ver com a ligação convicta do Cardeal às atividades Pró-Vida, numa América em que a comunicação social e a classe política utilizam todos os meios para promover uma cultura de indiferença face aos outros e ao seu sofrimento, defendendo a individualismo, quando facilmente se percebe que todos estamos dependentes uns dos outros e somos responsáveis uns pelos outros, ao longo de toda a vida, mas sobretudo nos momentos de mais fragilidade, no início e no fim da vida. O Cardeal participa habitualmente nas marchas a favor da vida. A Igreja não é contra nada, é a favor da vida. Não se trata de perseguir e condenar, mas de ajudar a encontrar soluções positivas, de vida, de promoção da dignidade de cada ser humano, independentemente da fragilidade em que se encontre. 
Ligado ao aborto, a pobreza. As questões que eram usadas para a defesa da legalização do aborto eram as má-formações, a violação, o perigo de vida para a mãe. Mas na realidade, mais de 90% dos abortos são por questões financeiras. Depois do aborto, a eutanásia, o suicídio assistido e agora o homicídio assistido, por vezes sem consentimento do próprio, outras sem sequer avisar a família. 
Os textos são um hino à vida, procurando sublinhar a beleza do Evangelho e da vida.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

LUIGI MARIA EPICOCO - SAL, NÃO MEL

LUIGI MARIA EPICOCO (2019). Sal, não mel. Para uma Fé que incendeie. Lisboa: Paulus Editora. 180 páginas.
"A Fé não é um pouco de mel na boca para enganar o sabor de um comprimido amargo. Por vezes, é uma coisa que arde, como o sal numa ferida. Mas exatamente por isto impede-a de 'apodrecer'. Somos chamados a ser sal, não mel".
É desta forma que termina este pequeno livro, sublinhando que a Fé não nos livra da luta, do fracasso ou do sofrimento. Quando muito leva-nos a viver a tempestade como esperança para o que há de vir, com a certeza do bem que está além e apesar de todo o mal, na certeza que somos amados, que Deus nos ama mesmo que a nossa vida contradiga a nossa pertença ao Senhor.
É leitura sobre as três virtudes teologais: Fé, Esperança e Caridade. A abrir, o autor cita o Diário de um pároco de aldeia, de Georges Bernanos: "Uma cristandade, como como um homem, não se nutre de compota. O bom Deus não escreveu que fôssemos o mel da terra, meu rapaz, mas o sal... O sal, sobre a pele ferida, é uma coisa que arde. Mas também a impede de apodrecer". A partir daqui Luigi Picoco reflete sobre a vida espiritual como dom e como caminho, encontro entre a Graça de Deus e a nossa abertura para a acolher na nossa vida. "A nossa vida está sempre prestes a apodrecer... As coisas que se arriscam a apodrecer são as coisas vivas, as coisas transbordantes de vida... Uma doença desenvolve-se onde há vida. Uma chaga dói porque agride um corpo vivo".
Por vezes, na vida espiritual somos como discípulo noturno, como Nicodemos, temos a necessidade de escutar Jesus, de O seguir, de alargar a nossa humanidade, mas ao mesmo tempo estamos presos à noite, ao julgamento dos outros, com medo de perder o pé. Optamos pelo compromisso, ansiosos pelo Espírito, mas não abdicando das nossas certezas. "A humildade é deixar de confiar em nós mesmos e começar a confiar exclusivamente n'Ele".
Antes de refletir especificamente sobre as virtudes teologais o autor faz-nos ver que elas são dom de Deus. Não são esforço nosso. É dom do Céu. "No máximo, humanamente, somos capazes de confiança, que é assunto diferente da Fé; somos capazes de otimismo que não é Esperança, e somos capazes de bem que é matéria diferente de Caridade", aos quais hão de corresponder comportamentos humanos, mas estes só por si são insuficientes.
"A Fé uma direção, não uma explicação... Caminhos mais que respostas... A Fé é sempre um caminho. É uma direção na escuridão... uma estrada a percorrer". A Fé liberta-nos da posse. É significativo que Abraão "abdique" da posse do seu filho Isaac, por acreditar no amor de Deus.
A Fé fala da relação de amor, entre mim e Ele. Deus ama-me! A Esperança é acreditar que no fundo de tudo o que existe está escondido o bem. Assim, a esperança diz respeito á nossa relação com tudo o que Deus criou. Há que conjugar, então, a relação entre duas montanhas, a do Tabor e a do Calvário. O Tabor mostra-nos a divindade de Jesus. O Calvário, a Sua humanidade. "Na hora da cruz, a hora do Calvário, não verás mais luz, mas só a memória da luz te poderá segurar. É a memória profunda, a recordação de quem uma vez vimos uma luz. É isto que nos salva na escuridão... A Esperança é a memória viva desta luz que nos acompanha quando estamos na escuridão".
O primordial é a Caridade. A Fé e a Esperança são necessárias, mas o fundamento é o amor, a caridade. "A Fé é crer que Deus me ama. A Esperança é saber que, no fundo de tudo, o que existe é um bem... A Caridade é saber que primeiro que tudo, antes de qualquer coisa, existe o amor". É importante amar, mas igualmente saber-se e sentir-se amado. "Ser cristão não significa viver apenas o mandamento de amar. O mandamento do amor é amar, sim, mas também deixar-se amar. Isto fundamenta a nossa vida. É o pressuposto para que uma vida permaneça humana, porque o coração do homem, crente ou não-crente, cristão ou não-cristão, exige, pela sua natureza, saber-se amado... Todos procuramos o amor, todos procuramos ser amados. A maior parte das nossas patologias nascem exatamente do amor, isto é, de não nos sentirmos amados... a única coisa que satisfaz o nosso coração, mais ainda que a Fé, mas do que a Esperança, é o Amor, é a Caridade, é saber-se amado de maneira estável, definitiva, decisiva... Só o amor cura a nossa angústia, a nossa tristeza, o nosso desconforto, a nossa insatisfação. Só o Amor. Deus envia o Seu Filho ao mundo por tomar a sério este desejo de nos sentirmos amados que existe em todos nós... Não são os mandamentos que nos fazem sentir amados... Deus dá-nos o Filho. Porque sabe que temos necessidade da concretização do Amor e não da explicação do Amor... O amor preenche-nos a vida... A Caridade é o pressuposto da vida".

Domingo XVI do Tempo Comum - ano C - 21.julho.2019

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Santo Bartolomeu dos Mártires

Nota biográfica:
      Frei Bartolomeu dos Mártires, de seu nome Bartolomeu Fernandes, nasceu em Lisboa a 3 de maio de 1514, e é recordado como um modelo de benevolência e uma figura ímpar na dedicação à Igreja Católica.
       Recebeu o hábito dominicano a 11 de Novembro de 1528 e professou um ano depois. Tendo concluído os estudos em 1538, leccionou Filosofia e Teologia em diversos conventos da Ordem. Foi nomeado por Pio IV, a 27 de Janeiro de 1559, Arcebispo de Braga, vindo a exercer com incansável diligência e eficácia uma intensa actividade apostólica.
       Efetuou, de modo sistemático e muito eficiente, visitas pastorais às paróquias da Arquidiocese, mesmo às mais distantes e inóspitas. Fomentou a Evangelização do povo, para o qual preparou um catecismo ou doutrina cristã e práticas espirituais. Preocupou-se com a santidade e cultura do clero e redigiu muitas e valiosas obras doutrinárias, entre as quais se salientam o notável tratado «Estímulo dos Pastores» e o «Compêndio de Doutrina Espiritual».
       Participou no período final do Concílio de Trento (1561-1563), merecendo o elogio do Papa e o aplauso dos seus pares, que o chamaram Luminar do Concílio. Em vista da execução das reformas tridentinas, efectuou um Sínodo Diocesano (1564) e um Concílio Provincial dois anos mais tarde (1566), e promoveu a fundação do Seminário, dito “conciliar” (1572), para conveniente formação dos sacerdotes.
       Aceite pelo Papa a sua renúncia do Arcebispado, recolheu em 1582 ao convento de Santa Cruz de Viana, construído por sua iniciativa, onde prosseguiu a vida austera de simples religioso, todo voltado para a oração, caridade e estudo. Aí faleceu em 16 de Julho de 1590.
O bispo português foi declarado venerável a 23 de março de 1845, pelo Papa Gregório XVI, e beatificado a 4 de novembro de 2001, pelo Papa João Paulo II.
       O Papa Francisco promulgou, no dia 6 de julho de 2019, o decreto relativo à canonização de D. Frei Bartolomeu dos Mártires (1514-1590), bispo português natural de Lisboa e que foi responsável pelo território que compreende hoje as dioceses de Braga, Viana do Castelo, de Bragança-Miranda e de Vila Real.

       Em janeiro de 2016, o Papa Francisco já tinha autorizado a canonização de Frei Bartolomeu dos Mártires sem a necessidade de um novo milagre atribuído à intercessão do futuro santo português, num processo que é denominado como canonização equipolente.
Na sequência da decisão do Papa não haverá uma cerimónia de canonização, mas apenas a leitura solene do Decreto que inscreve Frei Bartolomeu dos Mártires no Livro dos Santos. A cerimónia deverá ter lugar na Arquidiocese de Braga, no dia 10 de novembro, data em que começa a Semana dos Seminários.

     A “canonização equipolente”, a que o Papa Francisco tem recorridos em diversas ocasiões, é um processo instituído no século XVIII por Bento XIV, através do qual o Papa “vincula a Igreja como um todo para que observe a veneração de um Servo de Deus ainda não canonizado pela inserção de sua festividade no calendário litúrgico da Igreja universal, com Missa e Ofício Divino”.

Oração de Colecta:
       Senhor, que dotastes de grande caridade apostólica o bem-aventurado Bartolomeu dos Mártires, protegei sempre a vossa Igreja de modo que, assim como ele foi glorioso na sua solicitude pastoral, também nós sejamos, pela sua intercessão, sempre fervorosos no vosso amor. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

B. Bartolomeu dos Mártires, bispo

Exposição anagógica da Oração Dominical

Pai. Por natureza e graça, nos comunicastes o ser, os sentidos e os movimentos naturais, bem como a essência da graça, isto é, o seu movimento, que nos faz viver.
Nosso. Porque, com a concessão liberal da vossa bondade, gerais em cada dia muitos filhos segundo o ser espiritual da graça e do amor.
Que estais nos céus. Quer dizer, que habitais admiravelmente naqueles que são chamados a viver no Céu, isto é, que estão firmes no vosso amor, sempre movidos pela assiduidade dos desejos sublimes, como se estivessem ornados de estrelas, o mesmo é dizer, de virtudes.
Santificado seja o vosso nome. Realize-se em mim, sem nada de terreno, o vosso nome, com a purificação de todos os afectos mundanos.
Venha a nós o vosso reino. Reina inteiramente e sempre em mim, não só para que não haja nenhum movimento ou acto contra os vossos preceitos, mas para que todas as minhas acções sejam feitas com a aprovação da vossa providência. São Bernardo, no comentário septuagésimo terceiro ao Cântico dos Cânticos, expõe esta matéria do segundo advento, dizendo: “Oh se acabasse já este mundo e se manifestasse o vosso reino! Isto é o que ardentemente deseja a esposa, ou seja, a Igreja”.
Seja feita a vossa vontade. Nos homens da terra como nos habitantes do Céu, isto é, nos firmes, nos que sempre estão em crescimento, ornados de estrelas, como acima dissemos.
O pão nosso de cada dia. Ó Pai, se não mandardes, lá do alto, o pão do fervor e da consolação espiritual, todos os dias e a todas as horas, depressa desfaleceremos e iremos procurar pão vilíssimo de consolações exteriores. Enviai-nos, Pai benigníssimo, as migalhas daquela mesa opulentíssima, pois se com elas (quer dizer, com os actos de amor unitivo) não for alimentado todos os dias, perderei por certo, o vigor da fortaleza.
Perdoai-nos as nossas dívidas. Perdoai o castigo devido até pelos mais leves pecados. Detesto-os, odeio-os, porque fazem obscurecer o raio da vossa luz e tornam tíbio o fervor do meu amor.
Não nos deixeis cair em tentação. Quanto mais Vos amo, benigníssimo Senhor, mais temo separar-me de Vós, considerando a fragilidade da minha carne e a astúcia das investidas do inimigo. Não permitais, que alguma vez eu ceda às suas carícias ou ciladas, mas livrai-me das muitas inclinações para o mal, bem como das penas do Purgatório, na medida em que podem adiar a vossa dulcíssima visão.

terça-feira, 16 de julho de 2019

Leituras - Com o Coração nas Mãos

MARTA ARRAIS e EMANUEL DIAS (2019). Com o coração nas mãos. Lisboa: Paulus Editora. 128 páginas.
Aí estão 52 reflexões, uma para cada semana do ano, por exemplo. Com a chancela da Paulus Editora, tem como autores dois jovens cronistas, Marta Arrais e Emanuel António Dias, na plataforma digital “iMissio”, projeto de evangelização que “tem tido como objetivo dar voz a uma comunidade convicta de que a internet pode ser um ambiente de evangelização que desafie o modo de pensar a fé. Tem pretendido ser espaço de relação entre a fé, a vida da Igreja e as transformações vividas atualmente pelo Homem”.
Marta Arrais é mestrada em ensino de Inglês e Espanhol. É professora. Acompanha várias atividades de cariz voluntário em Portugal, Espanha e Moçambique. Emanuel Dias frequenta o mestrado integrado de Psicologia. É acólito e catequista na sua paróquia.

Para abrir o apetite:
“A vida não espera por ti. Não espera que te decidas. Não espera que fiques mais forte. Não espera que lutes um bocadinho mais. A vida tem muita pressa. Não fiques à espera do dia certo. Não fiques à espera de ter mais coragem e menos medo. De ver melhor. De descobrir uma verdade que te mude para sempre. A vida não espera por ti. Vem em forma de furacão, desarruma todas as tuas esperanças e certezas e obriga-te a entregares-lhe todas as armas” (Marta Arrais).
“Quando pedimos desculpa, damo-nos. Quando pedimos desculpa, soltamo-nos. Quando pedimos desculpa, envolvemo-nos… quando pedimos desculpa duas vidas se encontram na maior de todas as liberdades. Quando pedimos desculpa, desligamos o “descomplicador” e abraçamos a vida” (Emanuel Dias).
"Na dúvida, não duvides. Crava os pés e as mãos nas certezas que foram sempre tuas.
Na mágoa, não magoes. Priva o coração de sentir igual ao que te fizeram sentir a ti.
Na tristeza, não entristeças. Separa as águas e não deixes que se misturem. Não deixes que te misturem. Separa as marés de dentro e guarda sempre espaço para ser feliz.
Na queda, não faças cair. Olha para os dois lados antes de atravessar. Antes de atravessares a vida de alguém.
Na raiva, não te deixes arder. O que hoje queima e destrói, amanhã pode ser cicatriz que ensina" (Marta Arrais).
"Não é fácil admitir que erramos.
Não é fácil interiorizar que nem sempre temos razão.
É preciso olharmos para dentro e percebermos do que somos feitos.
É preciso nascermos de novo.
É necessário sabermos que "é muito mais aquilo que nos une, que aquilo que nos separa.".
É urgente que tenhamos a coragem de pedir desculpas.
É urgente que tenhamos a audácia de entender que aquele que se cruza connosco vai encontro da mesma humanidade.
É certo que é uma humanidade recheada de diferenças, mas são nelas que encontramos toda a sua beleza.
E nesta vida não vale a pena carregar a teimosia" (Emanuel Dias)
Cada reflexão se lê de uma assentada. A escrita é simples, acessível, compreensível para todos. Os temas são variados, falam de amor, de vida, de perdão, de Jesus, de luz e de trevas, de sonhos e projetos, falam de mim, falam de ti, falam de beleza e de leveza, de lágrimas e da Cruz de Jesus, falam humildade e de bondade, de paz e de luta.

HARUKI MURAKAMI - A morte do Comendador

HARUKI MURAKAMI (2018). A morte do Comendador. Volume 1. Alfragide: Casa das Letras. 408 páginas.
HARUKI MURAKAMI (2019). A morte do Comendador. Volume 2. Alfragide: Casa das Letras. 424 páginas.
Há ocasiões em que pegamos num copo cheio (de água, de cerveja, de vinho) e o bebemos de um trago. São assim os livros de Murakami, pelo menos para mim. Desde a obra "Em busca do Carneiro selvagem", a que aconselho para uma primeira leitura deste autor, que tenho seguido com atenção a publicação dos títulos deste autor japonês, radicado nos EUA.
Quem gosta de ler e segue de perto as publicações de alguns autores, procurando ler tudo ou quase tudo o que escrevem/publicam. Para mim, Paulo Coelho, durante um tempo, Virgílio Ferreira, José Saramago (com exceção dos diários), Augusto Cury, Gayle Forman. Um dos meus autores preferidos é Haruki Murakami. Sempre que surge uma nova publicação, qualquer outra leitura terá que esperar. Cada novo romance traz uma história encadeada, que nos prende do início ao final, com a inclusão de muitos ditados populares, criação de outros ditados, com personagens que surgem em diferentes livros, com recurso à cultura japonesa/oriental, à cultura mais ocidental, superstições e figuras mitológicas, crenças. Música, Jazz, carros, bares e rios, paisagens. Neste aparece o Toyota Corolla e um Jaguar, um Mini Cooper, e a música é clássica...
O narrador tem 36 anos (a idade de Murakami quando se tornou escritor) e enfrenta o divórcio, de um casamento que durou 6 anos, o sogro dava-lhes 5 anos de duração. Em vários livros, o autor apresenta personagens perfeitamente normais, sem se distinguirem do comum dos mortais. O narrador é um pintor, tendo-se especializado em retratos. O sucesso como retratista garante-lhe uma vida tranquila, sem sobressaltos. A opção por se tornar retratista foi o casamento e a família, agora tinha responsabilidades. Com o divórcio, a mulher decidiu que era o melhor, sente-se perdido pois continua a amar a mulher, mas "naturalmente" não faz fitas, sai de casa, anda a vaguear, até que se fixa na montanha, para Oddwara, na casa do filho do conhecido pintor Tomohiko Amada, Masahiko Amada, seu amigo, que lhe arranja emprego, a dar aulas, duas vezes por semana, duas turmas de adultos e uma de crianças.
Aí vai descobrir um quadro, escondido no sótão, onde vive uma coruja, intitulado "A Morte do Comendador". Um quadro desconhecido do grande público. Amada tinha ido para Viena estudar arte, para se dedicar a pintura ocidental, mas ao regressar ao Japão, adotou a pintura japonsesa, a nihonga, retalhos e colagens... Tornou-se famoso.
O narrador arruma o quadro no quarto de pintura. Vai-o admirando e estranhando porque é que o seu autor o manteve longe do público.
Entretanto um vizinho, Wataru Menshiki, mora numa vivenda em betão, branca, quer que o narrador lhe pinte o retrato e a soma avultada que lhe oferece fá-lo ponderar em voltar a pintar retratos. Menshiki trabalha na área das Novas Tecnologias, ou melhor, investe nesta aérea.
Uma das noites acorda, não com o barulho, mas com o silêncio, demasiado silêncio, nem os mosquitos se ouvem. Fica intrigado. Passado um momento começa a ouvir um barulho estranho, semelhante a um sino, olha para o exterior, mas está tudo às escuras, silencioso, a não ser aquele barulho. Sai para a floresta em busca do barulho, em direção a um santuário, e descobre um amontoado de pedras, quadradas, que parecem ter sido esculpidas. Volta para casa. O sino tocara entre a uma e meia e as duas horas e meia da manhã, mais coisa menos coisa. Volta a ouvir o barulho. Tem de contar a alguém e conta a Menshiki. Os dois vão novamente investigar o barulho vem do mesmo sítio. Através de pessoal contratado retiram as pedras. Pensam que podem encontrar um "monge" a tocar o sino, pois existem estórias várias de monges que se enterraram vivos e que tocam um gongo e pouco a pouco vão morrendo, ficando carne e osso. Depois anos mais tarde são desenterrados e muitas vezes são considerados como espécie de divindades. Um houve que se manteve anos a tocar o gongo e quando o encontraram, ressequido, ele continuava a tocar o sino. Alimentaram-no, ganhou carne, voltou à vida, casou, constituiu família, arranjou emprego, teve descendência... também o narrador e Menshik pensaram que poderiam encontrar um monge ressequido, mas encontram apenas um sino.
Levam-no para casa de Amada, onde vive o narrador, que o coloca no compartimento da pintura. O sino não deu sinal na primeira noite. Começam então a acontecer novos fenómenos. Um ocasião que está a tentar avançar no retrato, vai buscar qualquer coisa para comer e percebe que o banco em que se senta está noutra posição, mas não vê ninguém, daquela posição pode ver o que falta ao quadro. Mas há de ser uma voz que lhe diz que falta um pormenor importante (a cor branca do cabelo!). Mas não vê ninguém. Até que um dia encontra o Comendador, sentado tranquilamente no sofá da sala, do tamanho que está na pintura de Amada. Fala. Não está ferido. O narrador vai-lhe fazendo várias perguntas. Pode materializar-se pouco tempo e é mais fácil à noite, daí se materializar perto das duas manhã. Entrou na casa porque foi convidado no momento em que o sino também entrou. Depois pede ao narrador que convença Menshiki a convidá-lo. O narrador pergunta se pode levar o Comendador e Menshiki ri-se (da piada), mas convida-o e deixa-lhe um lugar à mesa. Só é visto e ouvido pelo narrador. O banquete é de agradecimento pelo retrato finalizado.
Menshiki pede outro favor, que pinte o retrato a uma menina, que é sua aluna, nas aulas de arte. A mãe da menina morreu, com picadas de vespas, e deixou-a com o marido, para todos os efeitos, o pai. Contudo, deixa uma carta a Menshiki e pela carta parece-lhe que ela poderá ser sua filha. Mas não quer recorrer ao ADN (se confirmasse, como é que iria retirar a filha do "pai"? E se não confirmasse, ficaria um vazio enorme), quer apenas estar próximo da filha e, por isso, comprou a casa naquele lugar, pois daí pode ver onde a filha mora. Se o narrador lhe pintar o quadro, Menshiki pode aparecer como que por acaso e vê de perto a filha, sem se revelar.

A história desenvolve, os quadros vão ficando prontos, os acontecimentos continuam a surgir. Eis que entretanto o retrato da menina está "inacabado", mas não há nada a acrescentar, fica a parte do mistério, a essência está lá.
Sem nada o prever, a menina desaparece. Parece ser um desaparecimento estranho. O narrador e Menshiki procuram-na no poço, mas apenas encontram um amoleto, que vai servir para o narrador atravessar um rio subterrâneo, será esse o pagamento ao barqueiro. Com o amigo, Masahiko Amada, o narrador vai visitar o grande pintor Tomohiko Amada. E volta a encontrar a figura do comendador, que lhe diz que terá que o matar (ainda que o Comendador seja uma Ideia). No quarto de Tomohiko Amada, na mesinha de cabeceira, a faca que anteriormente tinha desaparecido da casa de Mesahiko, onde mora o narrador. A morte do comendador será inevitável para que a menina possa reaparecer. Curiosamente, depois de aparecer, o narrador confronta a sua histórica com a da menina, a quem tinha aparecido o Comendador, quando ela se escondera na casa de Menshiki e como o Comendador a ajudou a manter-se escondida sem ser descoberta.

Mais de 800 páginas, nos 2 volumes, mas que se leem de um trago. As estórias de Murakami multiplicam-se, entrelaçando-se por entre a trama principal. O autor recorre a metáforas, imagens, comparações, analogias, ditados populares, numa linguagem sempre muito viva, escorreita, envolvendo-nos na história, com descrições pormenorizadas de pessoas, de lugares e dos acontecimentos, como quem conta uma história e nos faz ficar boquiaberto. Surpreende a forma como conjuga os elementos reais, históricos, com lugares, pessoas, culturas, a música, a pintura, a história do Japão com a China e com a Austrália, com elementos do imaginário oriental, com elementos do sobrenatural, espiritual, fantasmagórico. 

PAPA FRANCISCO - Catequeses sobre o PAI-NOSSO

A oração do Pai-Nosso é a oração dos cristãos. A única oração que Jesus ensinou aos seus discípulos. Ensina-nos a rezar. É o pedido que Lhe fazem os Seus discípulos. Há de ser também o nosso pedido, quando nos falham as palavras ou quando temos palavras a mais. O importante não é a quantidade de palavras, mas falar com o coração e com a vida. O Vosso Pai celeste bem sabe do que precisais.
Na oração do Pai-Nosso, Jesus ensina-nos o essencial. Faz-nos olhar para Deus como "Paizinho", "Papai", um tratamento carinhoso, delicado, reconhecendo que Deus é Pai que nos ama como Pai e como Mãe, sempre, em todas as circunstâncias.
Já muito se escreveu sobre o Pai-Nosso e talvez muito se venha a escrever, tal a densidade desta oração, tal a sua simplicidade. Não é uma oração longa, não procura ser uma obra de arte, dirigida a uns quantos iluminados. É uma oração que nos faz perceber o Deus de Jesus Cristo, a quem podemos e devemos tratar por Paizinho, cuja soberania se manifesta no amor, na bondade e na misericórdia, que nos envolve com o "nós", pois não o tratamos por Pai, se não nos tratarmos por irmãos. O que pedimos é para nós. o "eu" não tem lugar. O relacionamento com os outros pressupõe darmos largas ao perdão, o que recebemos de Deus, somos-lhe sempre devedores, a começar pela própria vida. E se recebemos também o partilhamos. Perdoamos porque Ele nos perdoa! Como Pai.
O Papa Francisco, nas Audiências Gerais das quartas-feiras, de 12 de dezembro de 2018 ao dia 22 de maio último, debruçou-se sobre a oração do Senhor. 16 catequeses, sublinhando alguns aspetos que são percetíveis ao longo da vida de Jesus. Estas catequese podem ser lidas ou relidas na página do Vaticano (http://w2.vatican.va), mas estão também disponíveis num livrinho, publicado pelo Secretariado Nacional da Liturgia: Papa Francisco. Catequeses sobre o Pai-Nosso. Esta é uma opção para quem gosta de manusear o papel e de sublinhar o texto. Por outro lado, é garantia do que se lê foi mesmo escrito e/ou pronunciado pelo Papa. Sabe-se que há muitas frases e textos atribuídos ao Papa, sem que correspondam minimamente a alguma intervenção sua.
Vamos à leitura e a algumas expressões papais nas diferentes catequeses: "A oração transforma sempre a realidade, sempre. se não mudam as coisas à nossa volta, pelo menos mudamos nós, muda o nosso coração", "Deus procura-te, mesmo que tu não o procures. Deus ama-te, ainda que tu o tenhas esquecido. Deus vislumbra em ti uma beleza, não obstante tu penses que desperdiçaste inutilmente todos os teus talentos. Deus é não só um pai, mas é como uma mãe que nunca deixa de amar a sua criatura. Por outro lado, há uma “gestação” que dura para sempre, muito além dos nove meses da gestação física; trata-se de uma gestação que gera um circuito infinito de amor.
Para o cristão, rezar significa dizer simplesmente “Aba”, dizer “Papá”, “Paizinho”, “Pai” mas com a confiança de uma criança", "Eis o que muitas vezes é o nosso amor: uma promessa com dificuldade para se manter, uma tentativa que depressa evapora e seca, quase como quando de manhã nasce o sol e enxuga o orvalho da noite... Desejosos de amar, depois entramos em conflito com os nossos limites, com a pobreza das nossas forças: incapazes de manter uma promessa que nos dias de graça nos parecia fácil de realizar. No fundo também o apóstolo Pedro teve medo e fugiu. O apóstolo Pedro não foi fiel ao amor de Jesus. Há sempre esta fragilidade que nos faz cair. Somos mendigos que no caminho corremos o risco de nunca encontrar completamente aquele tesouro que procuramos desde o primeiro dia da nossa vida: o amor", "hoje a tatuagem está na moda: “Eu gravei a tua imagem na palma das minhas mãos”. Fiz uma tatuagem de ti nas minhas mãos. Estou nas mãos de Deus e não a possa cancelar. O amor de Deus é como o amor de uma mãe, que nunca se esquece. E se uma mãe se esquecer? “Eu não me esquecerei”, diz o Senhor. Este é o amor perfeito de Deus, assim somos amados por Ele. Se também todos os nossos amores terrenos se despedaçassem e nas nossas mãos ficasse apenas pó, haverá sempre para todos nós, ardente, o amor único e fiel de Deus."Nos Evangelhos encontramos uma multidão de mendigos que suplicam libertação e salvação. Há quem pede o pão, quem a cura; alguns a purificação, outros a vista; ou que uma pessoa querida possa reviver... Jesus nunca fica indiferente face a estes pedidos e padecimentos... A oração cristã começa por este nível. Não é um exercício para ascetas; parte da realidade, do coração e da carne de pessoas que vivem em necessidade, ou que partilham a condição de quem não dispõe do necessário para viver... O pão que o cristão pede na oração não é o “meu” pão mas o “nosso”... O pão que pedimos ao Senhor na oração é o mesmo que um dia nos acusará. Repreender-nos-á o pouco hábito de o repartir com quem está próximo, o pouco hábito de o repartir. Era um pão oferecido à humanidade, e ao contrário foi comido só por alguns: o amor não pode suportar isto. O nosso amor não o pode suportar; nem sequer o amor de Deus pode suportar este egoísmo de não repartir o pão".