quarta-feira, 10 de junho de 2020

Solenidade do Corpo de Deus - 11 de junho de 2020

ZACHARIAS HEYES - Como encontrar Deus

ZACHARIAS HEYES (2020). Como encontrar Deus... e porque nem é preciso procurá-l'O. Lisboa: Paulus Editora. 128 páginas
Jesus, com a Sua encarnação, vida, mensagem, com a Sua morte e ressurreição mostra-nos que Deus é um Deus tão próximo, tão próximo, que Se confunde com a humanidade. Em Jesus, Deus não apenas vem à procura da humanidade "perdida", mas faz-Se Ele mesmo humanidade, assumindo a nossa carne, a nossa fragilidade. Por conseguinte, se diz que o cristianismo não é tanto uma religião, mas um encontro, um acontecimento: Deus, Pai/Mãe, faz-Se ser humano, vem e faz a Sua morada em nós e no mundo que é a nossa casa, a casa de todos.
"Como encontrar Deus... e porque nem é preciso procurá-l'O". O título do livro faz-nos intuir o propósito do autor com estas reflexões. O Padre Zacharias Heyes é monge na Abadia de Münsterschwarzach, na Alemanha. Logo a abrir diz o que pretende. "Aquele que parte em busca de Deus não precisa de ficar constantemente no 'modo de procura', mas ter apenas a disposição interna de permitir que Deus o encontre e de O encontrar no meio das pessoas... em Jesus é evidente que Deus não só Se aproximou das pessoas, mas que Ele está nas pessoas, Ele mesmo tornou-Se homem e, como tal, pôde ser vivenciado pelos outros... O caminho leva à descoberta de Deus em mim e no outro, pois em Jesus evidencia-se que aquele que deseja encontrar Deus precisa de procurar o ser humano... se Deus está no meio da vida, no quotidiano das pessoas, então é exatamente aí que a Igreja precisa de estar".
A Encarnação de Jesus é o acontecimento decisivo. "Os cristãos acreditam que em Jesus o próprio Deus Se tornou homem. Ele viveu entre as pessoas, deu-lhes o seu amor, a sua amizade, curou-as e instruiu-as. As pessoas que conhecem Jesus recebem uma nova esperança e força através desse encontro. Deus encontrou o ser humano no homem Jesus. O desejo de Deus é estar presente entre as pessoas porque Ele ama os seres humanos".
A primeira parte do livro apresenta as experiências bíblicas essenciais e a certeza que Deus encontra o ser humano. O autor apresenta algumas personagens bem conhecidas: Adão e Eva, a certeza que não somos fruto do ocaso, mas somos criados pelo amor de Deus; Abraão, que Deus encontra através dos Seus mensageiros, revelando-Se como um Deus da partida e do caminho, num encontro que muda a sua vida e parte para outra terra; Moisés, salvo pelas águas e a certeza que "não existe lugar neste mundo que não seja lugar da presença de Deus, não existe lugar que não seja chão sagrado, não existe lugar em que não possamos encontrar Deus"; David, que Deus encontra para o ungir e tornar Rei do Seu povo; Maria, moça simples do Povo de Israel, que é surpreendida pelo Anjo Gabriel e se entrega à vontade de Deus, permitindo que n'Ela se realize a encarnação, tornando-Se a Mãe de Deus; José, a quem Deus Se comunica pelos sonhos, e que aceita o que lhe é pedido em sonho; Zaqueu, cobrador de impostos, é encontrado por Jesus, na sua banca, na certeza que Deus vem ao nosso encontro na nossa vida, antes de qualquer exigência moral, vem para ficar em nossa casa; a mulher junto ao poço: "Deus não está preso a nenhum lugar geográfico, as pessoas podem encontrá-l'O em qualquer sítio; os discípulos de Jesus: "ninguém deve acreditar que está sozinho e abandonado... a maneira mais simples de experimentar o amor de Deus é no amor de outra pessoa, porque esse amor é palpável", e Jesus, na certeza que "Deus não Se esconde. Ele deseja ser encontrado e redescoberto; nunca para de bater à porta, de chamar a nossa atenção para se relacionar connosco".
Num segundo momento - Não procures, encontra! - o autor conduz-nos a encontrar Deus em mim, partindo do facto de sermos imagem de Deus, aceitando Deus na nossa vida e no nosso corpo e com Ele tornando-nos cocriadores; a encontrar Deus nos outros - "Se eu quiser encontrar Deus no outro, o 'mapa do tesouro' que me leva até Ele é a conduta e as palavras de Jesus. Como ser humano, Ele viveu como todos os outros, entre os seres humanos. Ele amou, sofreu e zangou-se como todos não fazemos. Mas fez algumas coisas de modo diferente ao que as pessoas estavam acostumadas a fazer na época que não só surpreendeu mas também chocou aquelas que conviviam com Ele. Mas isso também significa encontrar Deus, e ás vezes pode ser incómodo... Deus pode ser experimentado no outro, no diálogo que aquece, fortalece, cura, edifica e que não julga nem condena"; a comunhão na Igreja - o encontro com Deus passa pelo encontro das pessoas umas com as outras, estamos vinculados uns aos outros, comungamos o mesmo corpo, o mesmo pão. "Eu encontro-me no outro". Solidariedade radical; o Deus em mim busca e encontra o Deus no outro, como João e Jesus, no encontro entre Isabel e Maria e todos são lugar para encontrar Deus, todos "são lugar da presença de Deus. são imagem de Deus; ou, por outras palavras, o outro é sarça ardente... o Ser humano é local da presença de Deus. Ele é a luz do mundo.. Deus deseja brilhar em cada um e por meio de cada um neste mundo". Jesus há de lembrar-nos, a propósito: o que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos é a Mim que o fazeis. Entra aqui então o programa das obras de misericórdia... Na terceira parte: "Onde é a Igreja?" e obviamente que a Igreja é... a caminho, mosteiro, peregrinação, convívio, rituais, para o espírito do tempo, misericórdia. A Igreja é com cada um, em caminho e em comunhão, na busca e sobretudo na descoberta e no encontro de Deus em cada ser humano.

terça-feira, 2 de junho de 2020

ANTÓNIO COUTO - Leitura do tempo em que vamos

ANTÓNIO COUTO (2020). Daqui, desta planura: Leitura do Tempo em que vamos. Lisboa: Óbidos: Aletheia Editores. 140 páginas.
D. António Couto, Bispo de Lamego, já nos habituou à clareza e profundidade de pensamento, no campo da reflexão bíblica, mas também com as pontes com a cultura deste tempo, do tempo dos escritos sagrados, da antropologia e arqueologia, com a etimologia dos termos e da linguagem, procurando a fidelidade a cada autor e sobretudo ao Autor primeiro.
Esta é uma obra diferente de todas as outras que publicou, ainda que haja expressões e conteúdos já insinuados, refletidos ou aprofundados noutros textos, nomeadamente nas pistas de reflexão que nos apresenta para cada domingo, sentando-se connosco à mesa da Palavra.
O tempo em que vamos remete-nos para a egolatria, para o culto do eu sem um tu como interlocutor e quando muito um tu que é adversário, inimigo e osbtáculo às minhas pretensões. O individualismo, a cultura do "ego" e, por outro lado, a exaltação da liberdade pura, sem entraves, nem ligações. Dispensa-se o outro, tudo o que é institucional, e passo a ser "eu" o critério para a minha vida, sou eu que decido, que faço. Quero, posso e mando. Dispenso o outro e o Outro que é Deus. Fico sem Deus, sem chão nem céu, sem pai nem mãe, sem religião. Eu decido o que sou, sem umbigo, escolho se sou homem ou sou mulher, ou uma mistura de ambos. Deus foi remetido para o pensamento e do pensamento para a inexistência. Não há nenhum critério moral fora de mim.
Ao individualismo atual, D. António Couto propõe a socialidade, a partir sobretudo da reflexão filosófica de Emmanuel Levinas. A opção pelo outro, que me cabe acolher. O outro aponta para o totalmente Outro, Deus, que Se revela em cada rosto. O outro impõe-se, irrompe na minha vida, com o mandamento: não matarás. O outro não é redutível, não é enquadrado, é sempre um mistério, não da razão, mas da humanidade. Levinas propõe o primado do outro.
A questão do Ocidente é a questão de uma liberdade absoluta que rejeita e exclui o rosto, a resposta, a responsabilidade. Daí que a questão do Ocidente se torne na questão do "outro", a questão da alteridade. O rosto do outro, a alteridade, conduz à socialidade, isto é, à responsabilidade pelo outro, que não tem princípio em mim, é "fruto do rosto do outro vindo sem se fazer anunciar, vindo como eleiçãi em que a minha humanidade recebe a sua verdadeira identidade e unicidade pela impossibilidade de se subtrair à eleição... a socialidade é a minha responsabilidade pelo outro, pelo próximo". "A socialidade póe-me em relação com o rosto ou o viso do outro, ao mesmo tempo, pobre e senhor, porque porque nu, e senhor porque pobre e nu, rosto ou viso que não surge como conteúdo, mas como súplica e mandamento, que quebra e interrompe a minha espontaneidade e expansividade selvagem... impõe-me a responsabilidade pelo outro, que é o verdadeiro sentido da proximidade, na aceção nova de me obrigar a responder ao outro e pelo outro, portanto, por aquilo que não fui eu que fiz".
Deixemos o autor falar um pouco mais: "De facto, perdemos o «amor», o cinto, o cíngulo, o cordão, o sýndesmos, que dava segurança, sentido e beleza à nossa vida. Vendo bem, andamos por aí perdidos, desconstruídos, à deriva, vivendo de «relações de bolso» e de «compromissos enlatados, com a advertência bem visível: »consumir de preferência antes de...». A música que nos chega aos ouvidos são notas servidas em pautas enlatadas,sons de mármore, ritmos de marchas militares ou fúnebres. Só o Rosto nu do pobre que é, afinal, o verdadeiro soberano, que nos elege, institui, veste, e ordena, vindo de fora e acolhido à porta com amor, surpresa e maravilha, dom, e-vento, ad-vento, pode romper e fecundar este areal espesso com gesso. Falo do alento de Deus, beijo de Deus no pó que modela em suas mãos. Só Ele pode transformar estas pedras em filhos e irmãos".

LUIGI GIUSSANI - Gerar rasto na História do Mundo

LUIGI GIUSSANI, STEFANO ALBERTO e JAVIER PRADES (2019). Gerar Rasto na História do Mundo. Lisboa: Paulus Editora. 212 páginas.
"O verdadeiro protagonista da história é o mendicante: Cristo mendicante do coração do homem e o coração do homem mendicante de Cristo". O Acontecimento Cristo torna concreto a realidade de Deus; o Infinito garante que a história tem um sentido que vai além de mim e de ti, de que não somos a medida das coisas, porque então seria um sentido limitado, finito, vazio. É um acontecimento que dá origem a um povo, o povo Eleito, primeiro, com o chamamento de Abraão, do novo povo de Deus, a Igreja, com a encarnação de Deus em Jesus Cristo. Este acontecimento há de gerar o encontro, o seguimento, o envio, a missão. Posteriormente, a memória tornará atual o acontecimento Cristo.
O autor, Pe. Luigi Giussani, já falecido, é o fundador do movimento Comunhão e Libertação e em algumas páginas é visível essa pertença, com a preocupação de que o carisma esteja aberto à Igreja, como um todo, e à sociedade. Sublinha ele que se o movimento estiver preocupado em defender-se e promover-se perde sentido e verdade. O livro conta com a colaboração de mais dois sacerdotes: Stefano Alberto e Javier Prades que recolheram textos, ordenando-os de forma sistemática para que resultasse num livro com princípio, meio e fim.
Vivemos uma época em que o "eu" ocupa uma lugar cimeiro, contrapondo-se ao "tu", excluindo um "nós". Os outros surgem como concorrentes ou empecilhos ao meu poder. Quando eu sou a medida das coisas e do mundo, então tudo se torna relativo até se tornar vazio ou até desaparecer. Ora, como sustenta o autor, há um Acontecimento que me precede, que nos procede, para nós cristãos, Jesus Cristo, um Acontecimento que se faz encontro. No encontro a vida acontece, altera-se, muda-se para sempre.
Logo a abrir o primeiro capítulo, o autor diz claramente que "o cristianismo é o anúncio de que Deus Se fez homem, nascido de uma mulher, num determinado lugar e num determinado tempo... Deus deu-Se a conhecer revelando-e, tomando Ele a iniciativa de colocar-se como fator da experiência humana, num instante decisivo para toda a vida humana". Deus torna-Se acessível, em Cristo podemos encontrá-l'O. É a experiência de João e André, e depois Pedro e outros apóstolos. Pedro, como João e André é surpreendido por Jesus: Tu és Simão... serás Pedra. É a "simpatia" de Jesus que atrai, chama, provoca, constitui-se em companhia, para depois enviar.
"O Cristianismo é um acontecimento: tudo o resto é consequência... Deus também poderia ter escolhido como caminho para Se comunicar aos homens o caminho de uma inspiração direta, de maneira a que cada um tivesse de seguir aquilo que Deus sugeria ao seu pensamento e ao seu coração. Um caminho, esse, que em nada seria mais fácil e seguro, sempre exposto à flutuação de sentimentos e pensamentos. mas a modalidade que Deus escolheu para nos salvar é um acontecimento".
Um acontecimento é algo palpável, é-nos exterior, irrompe na nossa vida, na história, pode ter um início, um caminho. É experimentável. O sentido da fé parte, então de um acontecimento, de um encontro, engloba a razão. "A fé cristã é a memória de um facto histórico no qual o Homem disse de si mesmo uma coisa que os outros aceitaram como verdadeira e que agora, graças à forma excecional como esse Facto ainda me alcança, aceito também. Jesus é um homem que disse: «Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida». É um Facto que aconteceu na história: um menino nascido de mulher, inscrito no registo civil de Belém... a fé é um ato da razão movida pela excecionalidade de uma presença, que leva o homem a dizer: «Este fala a verdade, não iz mentiras, aceito aquilo que Ele diz»". Sendo um Facto, possibilita o encontro. O encontro por sua vez é um facto histórico, pois acontece num momento preciso da vida, assinala o início de um caminho, sujeito às coordenadas espácio-temporais.
"O encontro feito hoje é verdadeiro porque Ele, Jesus Cristo, nascido da Virgem Maria, morreu e ressuscitou, subiu ao céu e investe a realidade com o seu Espírito. Este encontro é válido graças a um Facto acontecido há dois mil anos. A Fé é a consciência de uma presença que começou no passado: por isso o encontro ativa a memória... O encontro presente faz descobrir o acontecimento original que, por sua vez, funda, decide da verdade do encontro presente, explica-o... A memória é a história entre a origem e o agora... Jesus Cristo está presente aqui e agora: Ele permanece na história através da sucessão ininterrupta dos homens que pela ação do seu Espírito, Lhe pertencem, quais membros do Seu Corpo, prolongamento no tempo e no espaço da Sua presença. O Batismo é o gesto com que Cristo morto e ressuscitado agarra nas suas mãos os homens que o Pai Lhe deu e os leva para dentro de Si".

Luigi Maria Epicoco - O QUE ÉS PARA MIM

LUIGI MARIA EPICOCO (2019). O que és para mim. Palavras sobre a intimidade. Lisboa: Paulus Editora. 104 páginas.
       Este pequeno livro foi recomendado pelo Papa Francisco a sacerdotes e bispos.
       Italiano, o padre Luigi Epicoco escreveu alguns apontamentos para os exercícios espirituais de alguns sacerdotes americanos, já que não lhe era possível naquele momento deslocar-se à América. O livro resulta destas meditações, tendo em cada uma delas um texto bíblico e algumas questões/desafios para a reflexão e vida de cada um. Embora os destinatários sejam antes de mais os consagrados, é um belíssimo texto de reflexão para todos, para crentes cristãos, podendo ser um bom texto para aqueles que andam em busca de Algo ou de Alguém.
       As reflexões deram origem a dois outros livros: "Somente os doentes que curam" (já o sugerimos como leitura aqui na Voz de Lamego) e "A Estrela no caminho, o Menino", para leitura futuro quando estiver disponível.
      Cinco meditações: primeira pausa ou realismo de misericórdia; segunda pausa ou do pão e do silêncio: terceira pausa ou do tesouro escondido; quarta pausa ou do êxodo da competência ao abandono confiante; quinta pausa ou da parábola do Pai reencontrado.
  1. Na primeira pausa somos desafiados a colocar Deus em primeiro lugar, amor único e exclusivo, que não faz concorrência, antes alimenta o amor aos outros. "Um cristão é aquele que faz a sua vida em intimidade com Deus e vive tudo e só por Deus, com Deus e em Deus, o que quer que faça e em qualquer circunstância em que se encontre". Reconhecer que só Deus é Deus, para não converter ninguém em ídolo, numa perfeição que não existe.
  2. Na segunda etapa da viagem, a certeza de que Deus caminha connosco em todos os momentos, também quando as trevas nos assolam. Como acontece com os discípulos de Emaús, Cristo faz-Se ver especialmente na Eucaristia. "O nosso Amado faz-Se, de novo, pão e vinho, corpo e sangue. E, de novo, estamos ali, naquele cenário, sob a cruz, diante do sepulcro vazio... comemos aquela bússola e tornamo-nos direção. O caminho está em nós, em nós a verdade, em nós a vida. Já não são só os nossos olhos a ver, mas é todo o nosso ser a viver daquilo que apenas tínhamos visto". Por outro lado, "desde que Cristo encarnou, cada fragmento da realidade é, potencialmente, um lugar de encontro com o Senhor".
  3. A viagem continua.O reino de Deus que Jesus nos traz não é apenas para o além."Esta existência não pode ser apenas um vazio à espera de ser preenchido, porque esta vida não pode conter toda a plenitude da vida eterna, uma vez que é, ela própria, um tempo limitado, um recipiente demasiado pequeno para conter o céu... O cristianismo não é uma dieta que possamos começar na segunda-feira da próxima semana. O cristianismo ou é verdadeiro agora ou nunca será verdadeiro".
  4. A pausa leva-nos a colocar-nos diante de Deus com a nossa vulnerabilidade. "Amamos verdadeiramente quando nos entregamos com a nossa fragilidade à pessoa que amamos. Uma pessoa que se defende é uma pessoa que estudo de tal modo o seu inimigo que imagina o movimento seguinte... Aquele a quem nos deveríamos entregar na nossa vulnerabilidade torna-se naquele de quem nos defendemos. Procuramos, deste modo, conhecer o outro não para amar mas para dele nos defendermos... É a confiança em nós próprios e no próximo aquilo que nos falta... um inseguro é alguém que não tem disponibilidade para se ocupar do outro, porque passa a maior parte do tempo a tentar permanecer à tona".
  5. A última incursão leva-nos a refletir sobre o Pai que vai ao encontro de Jesus para que liberte o seu filho (cf. Mt 17, 14-21). Os discípulos não conseguem libertar aquela crianças do demónio que a atormenta. O pai vai até Jesus. Ser pai é ter a noção dos seus limites. Faz tudo o que pode, quando não pode pede ajuda. Um pai não vive em lugar do filho e nem é a única resposta credível para o filho. "Às vezes falta-nos a inteligência, porque nos falta a humildade. Às vezes falta-nos, mesmo, esta simplicidade: o pedir".

Nuno Tovar de Lemos, sj - Eugénia Kraft

NUNO TOVAR DE LEMOS, s.j. (2019). Eugénia Kraft. Braga, Editorial Frente e Verso. 224 páginas.

Trinta anos para escrever um livro.
Muito tempo para refletir, ponderar, amadurecer ideias e conceitos, para acolher contributos, experiências, para viver histórias, para testemunhar a vida, os sonhos, a evolução dos tempos, o amor, a amizade, a solidariedade, o sentido da vida, mas mudanças.
É assim que o sacerdote jesuíta, Pe. Nuno Tovar de Lemos, no posfácio, fala da cronologia de um livro que foi escrevendo, partilhando páginas, acolhendo sugestões, deitando fora páginas, limando a linguagem e a narrativa. O ponto de partida permaneceu: o personagem principal, Tiago, vai perder todas as memórias. Uma doença rara, da qual só percebe a palavra Kraft, atribuindo-lhe, então, um nome próprio, Eugénia. Eugénia significa "bom nascimento", quando o fio condutor deste romance é recomeço(s). Ao longo de trinta anos o texto é refeito por completo, à exceção do ponto de partida.
A personagem principal, Tiago, vai ao médico, um neurologista, para saber o resultado dos exames, nomeadamente TAC's que fez à cabeça, depois de ter descoberto um alto na cabeça, seis meses antes, pelo barbeiro. O neurologista informa-o de uma doença que não mata, mas que provocará a perda de memória, mais de 40 anos de vida que passam à história. Será como acordar de manhã em Tóquio sem saber como foi lá parar, sem conhecer ninguém, sem saber como lá chegou e tendo que explorar tudo como se fosse a primeira vez.
Haverá, contudo, uma informação básica que não perderá, a memória associada às funções básicas e primárias. Será bastante ignorante mas basicamente autossuficiente. A partir daqui decide colocar por escrito vivências, informações que irá precisar para saber quem é, quais os amigos que tem, o que faz, o que lhe pertence, números de contas e os momentos mais importantes da sua vida. Quando a "Eugénia" chegar, terá de começar de novo a construir memórias. O que será essencial nessa nova fase da vida? Então, ao rever aquilo que quer guardar começa já a mudar, a perceber quem são os verdadeiros amigos a preservar, com quem pode contar. E se a "eugénia" não aparecer? Há 20% de hipótese de tal não suceder. De qualquer forma o melhor é contar com isso! E porque esperar dois meses, porque não mudar já? "Um começo novo. Este recomeço há de certamente implicar aceitar perder muitas coisas para serem possíveis outras novas: novas ideias, novas maneiras de estar na vida, novos gostos, novos objetivos, novas maneiras de olhar para mim, novas compreensões acerca do que é a vida e o que estamos cá a fazer".
Uma das vivências que não pode esquecer: a Flowers. Legalmente ainda é a sua mulher, embora estejam separados. Na nova vida, precisa de alguém. Egoísmo, talvez! Mas talvez esteja no momento de corrigir o que falhou, a vida mais ou menos superficial, as saídas noturnas e as bebedeiras. A reaproximação a Flowers vai levá-lo a perceber a amizade e o amor, mas também o que é a fé e o amor aos outros.

Algumas expressões para refletir:
"o amor não era uma bengala onde nos apoiamos mas umas asas que nos permitem voar mais alto"
"Não é tapando buracos que se recomeça. Uma outra relação pode, eventualmente, ajudar a dar um impulso inicial de confiança mas recomeçar é um assunto estritamente pessoal. Recomeçar. acho eu, implica aprender a abraçar a própria solidão e a aprender a viver assente sobre os próprios pés em vez de se tentar agarrar a outra pessoa para poder ficar de pé. Mesmo que se tenha um companheiro ou companheira, há muitas coisas na vida que temos de viver sozinhos... a solidão é  abraço entre nós e a verdade".
"Quando uma pessoa está a nadar num rio e é apanhada num remoinho, não deve tentar nada para a superfície porque não conseguirá sair e vai esgotar as suas forças. O que a pessoa deve fazer - curiosamente - é nadar para o fundo. Porquê? Porque a porta de saída está precisamente no vértice do cone invertido, no fundo do remoinho".
"Vou abraçar a minha solidão e tirar partido dela sem andar a mendigar migalhas afetivas de outras pessoas"
"É muito mau adiar coisas importantes. Achamos que temos sempre tempo. Claro, há sempre tantas coisas a fazer que o tempo não chega. Mas o tempo chega sempre para aquilo a que damos prioridade. O problema não é a falta de tempo; o problema é termos prioridades trocadas."
"Não só por amor das pessoas a quem te dás mas por amor de alguém invisível que te ama como ninguém. E imagina que sabes que em cada gesto de amor na terra está a antecipar um abraço eterno no Céu. E uns dias são fáceis, outros difíceis; uns dias consegues, outros não consegues; uns dias percebes, outros não percebes. Mas sabes que é por aí o caminho e sentes a paz das coisas certas. E depois, quando caia, Alguém te levanta para que possas recomeçar a viagem e voltar a amar".
"Quando tempo é preciso para uma pessoa ser alguém? O tempo que precisar para aceitar que não é ninguém".
"Mais vale um garrafa cheia que uma pessoa vazia"
Deus... "diz-te para olhares para a frente, que o melhor está para vir; convida-te a seguires a tua consciência e não as expetativas dos outros ou o 'politicamente correto'; inspira-te grandes ideais que te fazem sonha alto. Aponta-te alternativas originais, sempre. E quando ficas enredado na culpa dá-te o perdão, que é a força para recomeçares... tudo na fé tem a ver com recomeçar, desde o batismo".
Não interessa "tanto se as coisas estão a ser fáceis ou difíceis mas se estamos a avançar na direção certa ou na direção errada. A maior parte das pessoas vive como se não houvesse meta, vive como uma criança de dois anos atrás de uma bola. A criança, cada vez que chega á bola, chuta numa direção qualquer, arbitrária. Sem uma meta, no fim, a bola andou aos ziguezagues"
"o que nos dá mais força não é o amigo de ferro mas aquele que partilha connosco as suas lágrimas"
"A fé que tens nos outros vem da fé que sentes que Deus tem em ti"
"Não tenho receio de morrer. Apenas um grande receio de viver sem amor".
"Vamos fugir... Vamos aproveitar. Viver cada instante como se fosse o último...
Acho que devemos fazer exatamente o oposto: viver cada dia normalmente. Não alterar nada. Viver cada instante como se fosse o do meio, não o último. E depois viver o que vier com a mesma confiança. O último já não será cá... devemos viver bem cada minuto sem estarmos a pensar se é o último ou não... em qualquer circunstância, em qualquer dia da nossa vida, devemos aproveitar bem todas as oportunidades sem nos deixarmos levar pela rotina".

"Se vivesse a caminhar p'ra Santiago...

talvez não carregasse tantos bens materiais nas malas do meu coração
e amasse mais a simplicidade de vida, a sobriedade e a partilha;

talvez não me perguntasse tanto se a vida está a ser está  ser fácil ou difícil
mas sim se estou a dar passos na direção certa ou na direção errada;

talvez não pusesse a minha segurança em nenhum abrigo, pois tudo é frágil,
mas em cada estrada buscasse Presença que me conduz;

talvez nunca mais olhasse outra pessoa pensando no que me pode dar
mas perguntasse sempre como posso ser um bom companheiro de viagem;

talvez não perdesse a cabeça com os fracassos nem me autocoroasse com os sucessos,
mas tudo agradecesse humildemente a Deus e com tudo aprendesse a caminhar melhor;

talvez não me defendesse dos outros nem me deixasse possuir por ninguém
mas todos procurasse amar com inteligência, devoção e liberdade;

talvez não ficasse agarrado às paisagens - bonitas ou feias - porque todas passam,
mas recordasse cada dia o Santuário Final para onde me dirijo e ao qual já pertenço;

e assim, cada passo, anteciparia o gozo de chegar ao Fim,
de Te encontrar no Céu e de me deixar abraçar por Ti, Senhor meu Deus. 

São Vicente Ferrer, o Anjo do Apocalípse

São Vicente Ferrer, o Anjo do Apocalípse

(texto de Almas Castelos

São Vicente Ferrer nasceu em 1350, em Valência na Espanha. Estudou filosofia, teologia, exegese bíblica e sabia falar hebraico. Foi um religioso da ordem dos dominicanos.

Certo dia, estando em Avignon (França), caiu gravemente doente a ponto de quase falecer. Foi quando teve a visão de Nosso Senhor Jesus Cristo, acompanhado de São Domingos e São Francisco, conferindo-lhe a missão de pregar pelo mundo. Assim, repentinamente, recuperou a saúde.

Sua oratória, brilhante e cheia de fogo, mantinha entretanto a lógica imperturbável das argumentações escolásticas. Mas a atração que as pessoas sentiam por suas palavras era devida principalmente a dois fatores: a percepção da presença de Deus nele e o enlevo, cheio de consolações, ocasionado pela graça divina.

Ao chegar perto de uma cidade, a população vinha ao seu encontro, e todos disputavam um lugar próximo dele. E só escapava de ser esmagado porque andava no meio de pranchões sustentados por homens possantes. Em várias cidades, enquanto durava sua pregação, os negócios paravam, as lojas fechavam, as audiências dos próprios tribunais eram suspensas.

São Vicente trabalhou ardentemente pela conversão dos judeus e dos maometanos. Há historiadores que afirmam que converteu 25.000 judeus e 8.000 mouros. Exagero? Com milagres tão abundantes e portentosos, a pergunta não deve se pôr a um espírito sério e objetivo.

No Domingo de Ramos de 1407, na igreja de Ecija (Espanha), uma dama judia, rica e poderosa, que seguia seus sermões por curiosidade e desafio, sem ocultar os sarcasmos que fazia a meia voz, atravessou de improviso a multidão para sair. Não conseguia conter-se de raiva. O povo, explicavelmente, ficou indignado. "Deixai-a sair, disse o Santo, porém afastai-vos do pórtico", o qual caiu sobre ela, matando-a.

"Mulher, em nome de Cristo, volte à vida!", ordenou ele, e assim se fez. Após um tal milagre, não é de causar estranheza que essa senhora tenha prontamente se convertido à verdadeira Religião...

Naquela cidade, uma procissão anual passou a comemorar a morte, ressurreição e conversão da judia.

Quando se encontrava na Bretanha (França), percebeu que sua vida estava chegando ao fim, por causa de uma chaga que lhe envenenara a perna.

Depois de dez dias de agonia, assistido pelos amigos, pelos irmãos dominicanos e pelas damas da corte da Duquesa da Bretanha, entregou sua bela e combativa alma a Deus, com 69 anos de idade e várias décadas de luta no cumprimento de sua missão. Era o dia 5 de abril de 1419.

O processo de canonização começou no dia seguinte à sua morte e Roma reconheceu como fidedignos 873 milagres. Foi elevado à honra dos altares em 1455 pelo Papa Calisto III, o qual recebera, muito antes de ocupar a Sé de Pedro, uma profecia do Santo. Com efeito, durante uma das pregações que este último fez em Valência, entre a multidão dos que se aproximavam de São Vicente Ferrer para se encomendar às suas orações, prestou atenção em um sacerdote, que lhe pedia também a caridade de uma prece, ao qual o grande taumaturgo dirigiu as seguintes palavras: "Eu te felicito, meu filho. Tendes presente que és chamado a ser um dia a glória de tua pátria e de tua família, pois serás revestido da mais alta dignidade a que pode chegar um homem mortal. E eu mesmo serei, após minha morte, objeto de tua particular veneração".
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Fontes de referência:

* Frei Vicente Justiniano Antist, Vida de San Vicente Ferrer, in Biografía y Escritos de San Vicente Ferrer, BAC, Madrid, 1956.
* Ludovico Pastor, Historia de los Papas, vol. II, Ediciones G. Gili, Buenos Aires, 1948.
* José Leite S.J., Santos de Cada Dia, vol. I, Editorial A.O., Braga, 1987.
* Matthieu-Maxime Gorce, Saint Vincent Ferrier, Librairie Plon, Paris, 1924.
* Henri Gheon, San Vicente Ferrer, Ediciones e Publicaciones Espanholas S.A., Madrid, 1945.

(Trechos do que foi escrito por Roberto Alves Leite na Revista Catolicismo de abril de 1997)

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Tu, meu Deus, a Quem busco


Tu meu Deus a quem busco
sede de ti tenho na alma
qual terra seca, qual terra seca sem água.

Porque o Teu amor é melhor que a vida
meus lábios querem cantar para Ti
e assim quero com a vida bem dizer-Te
e levantar as mãos abertas para Ti.

Quantas vezes de noite, quando o sono se vai, penso em Ti
e tranquilo me encontro à Tua sombra
como uma criança, minha alma se aperta contra Ti
e segura a Tua mão me sustém.

Uma só coisa Te peço, Senhor, uma coisa estou buscando:
viver em Tua casa para sempre e conhecer-Te.
Tu sabes quem eu sou. Tu sabes o que eu tenho, o que eu anseio,
o que eu não sou, o que eu não tenho.

Música interpretada por Carolina Canelas, voz e órgão, e Cláudia Canelas, na voz. A autoria da letra/música é-nos desconhecida.

domingo, 17 de maio de 2020

Homilia de Bento XVI na Beatificação de João Paulo II

Amados irmãos e irmãs,

Passaram já seis anos desde o dia em que nos encontrávamos nesta Praça para celebrar o funeral do Papa João Paulo II. Então, se a tristeza pela sua perda era profunda, maior ainda se revelava a sensação de que uma graça imensa envolvia Roma e o mundo inteiro: graça esta, que era como que o fruto da vida inteira do meu amado Predecessor, especialmente do seu testemunho no sofrimento. Já naquele dia sentíamos pairar o perfume da sua santidade, tendo o Povo de Deus manifestado de muitas maneiras a sua veneração por ele. Por isso, quis que a sua Causa de Beatificação pudesse, no devido respeito pelas normas da Igreja, prosseguir com discreta celeridade. E o dia esperado chegou! Chegou depressa, porque assim aprouve ao Senhor: João Paulo II é Beato!

Desejo dirigir a minha cordial saudação a todos vós que, nesta circunstância feliz, vos reunistes, tão numerosos, aqui em Roma vindos de todos os cantos do mundo: cardeais, patriarcas das Igrejas Católicas Orientais, irmãos no episcopado e no sacerdócio, delegações oficiais, embaixadores e autoridades, pessoas consagradas e fiéis leigos; esta minha saudação estende-se também a quantos estão unidos connosco através do rádio e da televisão.

Estamos no segundo domingo de Páscoa, que o Beato João Paulo II quis intitular Domingo da Divina Misericórdia. Por isso, se escolheu esta data para a presente celebração, porque o meu Predecessor, por um desígnio providencial, entregou o seu espírito a Deus justamente ao anoitecer da vigília de tal ocorrência. Além disso, hoje tem início o mês de Maio, o mês de Maria; e neste dia celebra-se também a memória de São José operário. Todos estes elementos concorrem para enriquecer a nossa oração; servem-nos de ajuda, a nós que ainda peregrinamos no tempo e no espaço; no Céu, a festa entre os Anjos e os Santos é muito diferente! E todavia Deus é um só, e um só é Cristo Senhor que, como uma ponte, une a terra e o Céu, e neste momento sentimo-lo muito perto, sentimo-nos quase participantes da liturgia celeste.

«Felizes os que acreditam sem terem visto» (Jo 20, 29). No Evangelho de hoje, Jesus pronuncia esta bem-aventurança: a bem-aventurança da fé. Ela chama de modo particular a nossa atenção, porque estamos reunidos justamente para celebrar uma Beatificação e, mais ainda, porque o Beato hoje proclamado é um Papa, um Sucessor de Pedro, chamado a confirmar os irmãos na fé. João Paulo II é Beato pela sua forte e generosa fé apostólica. E isto traz imediatamente à memória outra bem-aventurança: «Feliz de ti, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim meu Pai que está nos Céus» (Mt 16, 17). O que é que o Pai celeste revelou a Simão? Que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus vivo. Por esta fé, Simão se torna «Pedro», rocha sobre a qual Jesus pode edificar a sua Igreja. A bem-aventurança eterna de João Paulo II, que a Igreja tem a alegria de proclamar hoje, está inteiramente contida nestas palavras de Cristo: «Feliz de ti, Simão» e «felizes os que acreditam sem terem visto». É a bem-aventurança da fé, cujo dom também João Paulo II recebeu de Deus Pai para a edificação da Igreja de Cristo.

Entretanto perpassa pelo nosso pensamento mais uma bem-aventurança que, no Evangelho, precede todas as outras. É a bem-aventurança da Virgem Maria, a Mãe do Redentor. A Ela, que acabava de conceber Jesus no seu ventre, diz Santa Isabel: «Bem-aventurada aquela que acreditou no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor» (Lc 1, 45). A bem-aventurança da fé tem o seu modelo em Maria, pelo que a todos nos enche de alegria o facto de a beatificação de João Paulo II ter lugar no primeiro dia deste mês mariano, sob o olhar materno d’Aquela que, com a sua fé, sustentou a fé dos Apóstolos e não cessa de sustentar a fé dos seus sucessores, especialmente de quantos são chamados a sentar-se na cátedra de Pedro. Nas narrações da ressurreição de Cristo, Maria não aparece, mas a sua presença pressente-se em toda a parte: é a Mãe, a quem Jesus confiou cada um dos discípulos e toda a comunidade. De forma particular, notamos que a presença real e materna de Maria aparece assinalada por São João e São Lucas nos contextos que precedem tanto o Evangelho como a primeira Leitura de hoje: na narração da morte de Jesus, onde Maria aparece aos pés da Cruz (Jo 19, 25); e, no começo dos Actos dos Apóstolos, que a apresentam no meio dos discípulos reunidos em oração no Cenáculo (Act 1, 14).

Também a segunda Leitura de hoje nos fala da fé, e é justamente São Pedro que escreve, cheio de entusiasmo espiritual, indicando aos recém-baptizados as razões da sua esperança e da sua alegria. Apraz-me observar que nesta passagem, situada na parte inicial da sua Primeira Carta, Pedro exprime-se não no modo exortativo, mas indicativo. De facto, escreve: «Isto vos enche de alegria»; e acrescenta: «Vós amais Jesus Cristo sem O terdes conhecido, e, como n’Ele acreditais sem O verdes ainda, estais cheios de alegria indescritível e plena de glória, por irdes alcançar o fim da vossa fé: a salvação das vossas almas» (1 Ped 1, 6.8-9). Está tudo no indicativo, porque existe uma nova realidade, gerada pela ressurreição de Cristo, uma realidade que nos é acessível pela fé. «Esta é uma obra admirável – diz o Salmo (118, 23) – que o Senhor realizou aos nossos olhos», os olhos da fé.

Queridos irmãos e irmãs, hoje diante dos nossos olhos brilha, na plena luz de Cristo ressuscitado, a amada e venerada figura de João Paulo II. Hoje, o seu nome junta-se à série dos Santos e Beatos que ele mesmo proclamou durante os seus quase 27 anos de pontificado, lembrando com vigor a vocação universal à medida alta da vida cristã, à santidade, como afirma a Constituição conciliar Lumem gentium sobre a Igreja. Os membros do Povo de Deus – bispos, sacerdotes, diáconos, fiéis leigos, religiosos e religiosas – todos nós estamos a caminho da Pátria celeste, tendo-nos precedido a Virgem Maria, associada de modo singular e perfeito ao mistério de Cristo e da Igreja. Karol Wojtyła, primeiro como Bispo Auxiliar e depois como Arcebispo de Cracóvia, participou no Concílio Vaticano II e bem sabia que dedicar a Maria o último capítulo da Constituição sobre a Igreja significava colocar a Mãe do Redentor como imagem e modelo de santidade para todo o cristão e para a Igreja inteira. Foi esta visão teológica que o Beato João Paulo II descobriu na sua juventude, tendo-a depois conservado e aprofundado durante toda a vida; uma visão, que se resume no ícone bíblico de Cristo crucificado com Maria ao pé da Cruz. Um ícone que se encontra no Evangelho de João (19, 25-27) e está sintetizado nas armas episcopais e, depois, papais de Karol Wojtyła: uma cruz de ouro, um «M» na parte inferior direita e o lema «Totus tuus», que corresponde à conhecida frase de São Luís Maria Grignion de Monfort, na qual Karol Wojtyła encontrou um princípio fundamental para a sua vida: «Totus tuus ego sum et omnia mea tua sunt. Accipio Te in mea omnia. Praebe mihi cor tuum, Maria – Sou todo vosso e tudo o que possuo é vosso. Tomo-vos como toda a minha riqueza. Dai-me o vosso coração, ó Maria» (Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 266).

No seu Testamento, o novo Beato deixou escrito: «Quando, no dia 16 de Outubro de 1978, o conclave dos cardeais escolheu João Paulo II, o Card. Stefan Wyszyński, Primaz da Polónia, disse-me: “A missão do novo Papa será a de introduzir a Igreja no Terceiro Milénio”». E acrescenta: «Desejo mais uma vez agradecer ao Espírito Santo pelo grande dom do Concílio Vaticano II, do qual me sinto devedor, juntamente com toda a Igreja e sobretudo o episcopado. Estou convencido de que será concedido ainda por muito tempo, às sucessivas gerações, haurir das riquezas que este Concílio do século XX nos prodigalizou. Como Bispo que participou no evento conciliar, desde o primeiro ao último dia, desejo confiar este grande património a todos aqueles que são, e serão, chamados a realizá-lo. Pela minha parte, agradeço ao Pastor eterno que me permitiu servir esta grandíssima causa ao longo de todos os anos do meu pontificado». E qual é esta causa? É a mesma que João Paulo II enunciou na sua primeira Missa solene, na Praça de São Pedro, com estas palavras memoráveis: «Não tenhais medo! Abri, melhor, escancarai as portas a Cristo!». Aquilo que o Papa recém-eleito pedia a todos, começou, ele mesmo, a fazê-lo: abriu a Cristo a sociedade, a cultura, os sistemas políticos e económicos, invertendo, com a força de um gigante – força que lhe vinha de Deus –, uma tendência que parecia irreversível. Com o seu testemunho de fé, de amor e de coragem apostólica, acompanhado por uma grande sensibilidade humana, este filho exemplar da Nação Polaca ajudou os cristãos de todo o mundo a não ter medo de se dizerem cristãos, de pertencerem à Igreja, de falarem do Evangelho. Numa palavra, ajudou-nos a não ter medo da verdade, porque a verdade é garantia de liberdade. Sintetizando ainda mais: deu-nos novamente a força de crer em Cristo, porque Cristo é o Redentor do homem – Redemptor hominis: foi este o tema da sua primeira Encíclica e o fio condutor de todas as outras.

Karol Wojtyła subiu ao sólio de Pedro trazendo consigo a sua reflexão profunda sobre a confrontação entre o marxismo e o cristianismo, centrada no homem. A sua mensagem foi esta: o homem é o caminho da Igreja, e Cristo é o caminho do homem. Com esta mensagem, que é a grande herança do Concílio Vaticano II e do seu «timoneiro» – o Servo de Deus Papa Paulo VI –, João Paulo II foi o guia do Povo de Deus ao cruzar o limiar do Terceiro Milénio, que ele pôde, justamente graças a Cristo, chamar «limiar da esperança». Na verdade, através do longo caminho de preparação para o Grande Jubileu, ele conferiu ao cristianismo uma renovada orientação para o futuro, o futuro de Deus, que é transcendente relativamente à história, mas incide na história. Aquela carga de esperança que de certo modo fora cedida ao marxismo e à ideologia do progresso, João Paulo II legitimamente reivindicou-a para o cristianismo, restituindo-lhe a fisionomia autêntica da esperança, que se deve viver na história com um espírito de «advento», numa existência pessoal e comunitária orientada para Cristo, plenitude do homem e realização das suas expectativas de justiça e de paz.

Por fim, quero agradecer a Deus também a experiência de colaboração pessoal que me concedeu ter longamente com o Beato Papa João Paulo II. Se antes já tinha tido possibilidades de o conhecer e estimar, desde 1982, quando me chamou a Roma como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, pude durante 23 anos permanecer junto dele crescendo sempre mais a minha veneração pela sua pessoa. O meu serviço foi sustentado pela sua profundidade espiritual, pela riqueza das suas intuições. Sempre me impressionou e edificou o exemplo da sua oração: entranhava-se no encontro com Deus, inclusive no meio das mais variadas incumbências do seu ministério. E, depois, impressionou-me o seu testemunho no sofrimento: pouco a pouco o Senhor foi-o despojando de tudo, mas permaneceu sempre uma «rocha», como Cristo o quis. A sua humildade profunda, enraizada na união íntima com Cristo, permitiu-lhe continuar a guiar a Igreja e a dar ao mundo uma mensagem ainda mais eloquente, justamente no período em que as forças físicas definhavam. Assim, realizou de maneira extraordinária a vocação de todo o sacerdote e bispo: tornar-se um só com aquele Jesus que diariamente recebe e oferece na Igreja.

Feliz és tu, amado Papa João Paulo II, porque acreditaste! Continua do Céu – nós te pedimos – a sustentar a fé do Povo de Deus. Muitas vezes, do Palácio, tu nos abençoaste nesta Praça! Hoje nós te pedimos: Santo Padre, abençoa-nos! Amen.

PAPA BENTO XVI
Vaticano, 1 de maio de 2011