sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Onde estiver o corpo, aí se juntarão os abutres

        Disse Jesus aos seus discípulos: «Como sucedeu nos dias de Noé, assim será também nos dias do Filho do homem: Comiam e bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca. Então veio o dilúvio, que os fez perecer a todos. Do mesmo modo sucedeu nos dias de Lot: Comiam e bebiam, compravam e vendiam, plantavam e construiam. Mas no dia em que Lot saiu de Sodoma, Deus mandou do céu uma chuva de fogo e enxofre, que os fez perecer a todos. Assim será no dia em que Se manifestar o Filho do homem. Nesse dia, quem estiver no terraço e tiver coisas em casa não desça para as tirar; e quem estiver no campo não volte atrás. Lembrai-vos da mulher de Lot. Quem procurar salvar a vida há-de perdê-la e quem a perder há-de salvá-la. Eu vos digo que, nessa noite, estarão dois num leito: um será tomado e o outro deixado; estarão duas mulheres a moer juntamente: uma será tomada e a outra deixada». Então os discípulos perguntaram a Jesus: «Senhor, onde será isto?». Ele respondeu-lhes: «Onde estiver o corpo, aí se juntarão os abutres» (Lc 17, 26-37).
       Um dos géneros literários bastante usado na Bíblia é o apocalíptico. Popularmente está ligado a anúncio do fim dos tempos, ou a tempos de grande convulsão, violência, guerras, conflitos, destruição e morte. Desde logo a palavra apocalipse, associada a cataclismos, significa na sua origem REVELAÇÃO. Com este significado perde alguma da carga negativa que traz.
       Os profetas, olhando para as desgraças do tempo que passa, perspetivam o futuro, mostrando, por um lado, que chegarão tempos ainda mais violentos, e por outro, a confiança em Deus, que será fiel ao Seu povo, à humanidade, e que aparecerá como SOL radiante acima dos escombros.
       Jesus recorre também a este género literário. Naquela altura havia fortes sinais de agitação e conflito, a qualquer momento surgiam contendas, levantamentos, revoluções. Jesus previne os Seus discípulos. Com Ele chega o Reino de Deus, mas os problemas, as dificuldades, não serão irradiadas de uma vez para sempre. E com isso poderá chegar o desânimo, a insegurança, a dúvida. Jesus alerta-os. Mesmo que o universo inteiro desabe, Deus continua a guiar o mundo, a história, o tempo. Só Deus é o Senhor do Universo.

sábado, 5 de novembro de 2016

Vigília Missionária em Vila da Ponte - 29/10/2016

       "Com Maria, Missionários na Misericórdia", foi o tema escolhido para a vigília missionária que se realizou no passado dia 29 se Outubro em Vila da Ponte.
       Esta vigília dividiu-se em duas grandes partes: a primeira, foi um belíssimo momento de oração, que se desenvolveu a partir do tema "Missão"; e a segunda foi a Adoração ao Santíssimo.
       Durante a primeira parte da vigília, podemos ver algumas encenações realizadas pelo grupo JSF de Vila da Ponte, e escutar diversas orações e pensamentos sempre acompanhados de belíssimos cânticos Marianos. É também importante salientar, todo o trabalho que os JSF tiveram a nível de decoração da igreja, pois estava um espaço muito bonito e acolhedor, o que nos fazia entrar logo no espírito de vigília.
       Tivemos ainda a oportunidade, de escutar o testemunho de dois jovens que realizaram uma "ponte" no mês de Agosto em Angola. (Para quem não tem conhecimento do termo, ponte é o nome dado à missão de ir para outro país, durante um determinado tempo, para poder ajudar quem mais precisa, seja a nível de saúde, educação, cidadania, etc). Pessoalmente acho que foi o momento que mais nos tocou no coração. Posso dizer que ao ouvir aqueles dois jovens fiquei com vontade de um dia fazer uma missão do género, pois acho que todos temos o dever de ajudar o próximo, nem que seja apenas ao levar uma palavra de esperança e de fé.
       No final da vigília, houve um momento de descontração e convívio, onde todos os grupos presentes, bem como a comunidade da paróquia, puderam partilhar um pequeno lanche.
       Que tenhamos sempre presente no nosso dia-a-dia, o espírito de Missão, para que assim possamos com a ajuda de Deus, ajudar o próximo.

Márcia Ribeiro, Grupo de Jovens de Tabuaço
in Voz de Lamego, ano 86/49, n.º 4385, 1 de novembro de 2016

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XXXII Domingo do Tempo Comum - ano C - 6/11/2016

       1 – Os dias 1 e 2 de novembro, com a solenidade de Todos os Santos e a comemoração dos Fiéis Defuntos, e todo o mês vivido como o mês das almas, evoca a fé católica na ressurreição da carne (pessoa) e a comunhão dos santos. Todos nos encaminhamos para a morte. Todos nos encaminhamos para a vida eterna. A morte não tem a última palavra. A última palavra é da vida. É de Deus. É do Amor que nos faz transcender já na vida histórica, transcendendo-nos para a eternidade de Deus.
       A oração, os gestos de carinho e cuidado pelos mortos, o arranjo das campas e do cemitério, nestes dias, pelo menos, mostra a gratidão para com familiares, amigos e vizinhos, sublinha a saudade da sua partida, evoca a esperança de um encontro futuro na ressurreição. Eles morreram. Partiram antes de nós. Levaram um pouco de nós, deixaram um pouco deles. Confiamos em Deus e esperamos reencontrar-nos na eternidade. No decorrer da Última Ceia, Jesus diz aos Seus discípulos que vai partir para o Pai, vai preparar-lhes um lugar. A tristeza do momento presente, pela separação, dará lugar à alegria do (re)encontro na Casa do Pai.
       É mais fácil acreditar em Deus que na vida eterna. A sensibilidade popular, tanto as pessoas mais piedosas como as mais instruídas acreditam facilmente num Deus bom, generoso, benevolente, que protege e abençoa. Quando se fala na vida além da morte (biológica), na ressurreição ou na eternidade já colocam mais interrogações. Ninguém veio do outro lado dizer-nos como é, só sabemos até ao momento da morte! Cá se fazem, cá se pagam! O bem e o mal serão retribuíveis durante a existência terrena... mesmo que saibamos de tantas injustiças das quais os prejudicados nunca foram ressarcidos nem os fautores foram penalizados! O cemitério como última morada! Todos temos um destino comum: a terra…
       Augusto Cury, célebre psiquiatra brasileiro, ao investigar a inteligência humana, chega à conclusão que seria um absurdo que tudo acabasse com a morte física, seria em vão todo o esforço feito por melhorar a vida das pessoas, a sabedoria acumulada, as descobertas, a própria inteligência que exige e luta pela eternidade. Ateu, através das suas investigações, chega à conclusão que a identidade da pessoa há de sobreviver à morte biológica, garantindo que a identidade de cada um não se perde para sempre. Assim se torna crente. A fé em Deus é decorrente da exigência da identidade sobreviver ao tempo e à história.
       2 – Escutemos o Evangelho. Logo de entrada o evangelista fala nos saduceus que se aproximam de Jesus, dizendo que eles não acreditam na ressurreição. São religiosos, frequentam o Templo, vivem as exigências da Lei judaica, mas não acreditam que haja vida além da vida temporal.
       Provocam Jesus com uma questão, no mínimo, curiosa: «Moisés deixou-nos escrito: ‘Se morrer a alguém um irmão, que deixe mulher, mas sem filhos, esse homem deve casar com a viúva, para dar descendência a seu irmão’. Ora havia sete irmãos. O primeiro casou-se e morreu sem filhos. O segundo e depois o terceiro desposaram a viúva; e o mesmo sucedeu aos sete, que morreram e não deixaram filhos. Por fim, morreu também a mulher. De qual destes será ela esposa na ressurreição, uma vez que os sete a tiveram por mulher?».
       Recorrendo aos ensinamentos de Moisés, que têm o peso e a sabedoria da Lei, os saduceus transportam para a eternidade as mesmas vivências e tradições. E no caso concreto até tem a sua lógica, pois também nós defendemos as repercussões da vida atual na eternidade, ainda que não desta forma tão material. Segundo a Lei, um casamento teria que dar fruto, pela parte masculina, assegurando a linhagem familiar. Se o homem morresse sem descendência, os irmãos assumiam o encargo de lhe dar descendência desposando a mulher (ou seja, a cunhada) até que gerasse um filho. Neste exemplo, todos os irmãos a desposaram, mas nenhum lhe deu descendência. Havendo continuidade material-histórica na eternidade, com quem ficava a mulher? Houve um tempo em que as pessoas julgavam que ressuscitavam como tinham morrido, por exemplo, sem um olho, ou com o rosto já encovado! Ou seja, a eternidade seria, destarte, a continuação natural do tempo e da história. Morre novo, ressuscita novo. Morre idoso, ressuscita idoso!
       A resposta de Jesus é clarificadora: «Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento. Mas aqueles que forem dignos de tomar parte na vida futura e na ressurreição dos mortos, nem se casam nem se dão em casamento. Na verdade, já não podem morrer, pois são como os Anjos, e, porque nasceram da ressurreição, são filhos de Deus. E que os mortos ressuscitam, até Moisés o deu a entender no episódio da sarça ardente, quando chama ao Senhor ‘o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob’. Não é um Deus de mortos, mas de vivos, porque para Ele todos estão vivos».
       A ressurreição dos mortos é agrafada à fé em Deus, pois para Ele todos estão vivos.
       3 – Jesus recorre ao Antigo Testamento para elucidar a fé em Deus e na ressurreição. Utiliza a mesma fonte dos seus interlocutores. A primeira leitura, por sua vez, traz-nos uma das passagens veterotestamentárias mais explícitas sobre a ressurreição.
       As invasões a que esteve sujeito o Reino de Israel, com a divisão, com a subjugação a povos estrangeiros, com o exílio de muitas famílias, levou à necessidade de preservar a fé, as tradições, os usos e costumes, para que não se perdesse o património cultural e religioso, a identidade do Povo de Deus. O segundo Livro de Macabeus terá sido escrito no Egipto, para os judeus aí residentes, retratando personagens heroicas, convidando à conversão e fidelidade à Aliança.
       O autor sagrado parte do pressuposto que o exílio é consequência natural e merecida dos pecados do povo, dos transvios à Lei de Moisés, das infidelidades à Aliança. Agora há que manter acesa a chama da fé, não perdendo de vista a herança recebida, até ao dia do regresso à terra prometida.
       Sete irmãos e a sua mãe são presos. O rei da Síria quer obrigá-los a trair a sua Lei, comendo carne de porco. A resposta dos irmãos, apoiados pela firmeza maternal, é clarividente: «Estamos prontos para morrer, antes que violar a lei de nossos pais». Com a morte de um, os seguintes poderiam vacilar, por medo, pela violência infligida. Mas também o segundo se mantém decidido: «Tu, malvado, pretendes arrancar-nos a vida presente, mas o Rei do universo ressuscitar-nos-á para a vida eterna, se morrermos fiéis às suas leis». A tortura continua e a resposta do terceiro irmão é igualmente clarificadora: «Do Céu recebi estes membros e é por causa das suas leis que os desprezo, pois do Céu espero recebê-los de novo».
       A coragem dos jovens e as suas palavras fazem admirar o próprio rei e quantos o acompanham. Segue o quarto irmão e o mesmo destemor: «Vale a pena morrermos às mãos dos homens, quando temos a esperança em Deus de que Ele nos ressuscitará; mas tu, ó rei, não ressuscitarás para a vida».
       Na continuação do texto, verifica-se que os sete se fortalecem mutuamente. E a Mãe, que chorava por dentro a morte dos filhos, exteriormente animava-os, pois entendia que era muito mais importante sobreviver para Deus.
       4 – A continuidade entre o tempo e a eternidade, entre a história e a vida gloriosa, propalada pelos saduceus, não é de todo descabida, ainda que não da forma material-biológica com que questionaram Jesus. Com efeito, a vida eterna inicia-se aqui e agora (hic et nunc) na situação concreta, real, histórica. A salvação é dom gratuito de Deus. Cabe-nos acolhê-la e transparecê-la. O tempo que nos é dado é de graça, mas graça que nos irmana, nos compromete e nos envolve na transformação do mundo. Ressuscitados, pela água e pelo Espírito no Batismo, há que viver como ressuscitados, apostados na cultura da vida, da fraternidade, da compaixão. Seria uma contradição "viver" como mortos, deixando correr, afastando-se das dificuldades, mantendo-se indiferente ao sofrimento dos outros.
       O Apóstolo Paulo, na segunda missiva à Igreja de Tessalónica, convoca à fé comprometida com a vida: "Jesus Cristo, nosso Senhor, e Deus, nosso Pai, que nos amou e nos deu, pela sua graça, eterna consolação e feliz esperança, confortem os vossos corações e os tornem firmes em toda a espécie de boas obras e palavras".
       À saudação segue-se o pedido de oração: "orai por nós, para que a palavra do Senhor se propague rapidamente e seja glorificada, como acontece no meio de vós. Orai também, para que sejamos livres dos homens perversos e maus, pois nem todos têm fé. Mas o Senhor é fiel: Ele vos dará firmeza e vos guardará do Maligno". E acrescenta a confiança que deposita nos membros na comunidade: "Quanto a vós, confiamos inteiramente no Senhor que cumpris e cumprireis o que vos mandamos. O Senhor dirija os vossos corações, para que amem a Deus e aguardem a Cristo com perseverança".

       5 – A oração conduz-nos à vontade de Deus. Colocamo-nos em atitude de escuta, para que Ele fale em nós. "Deus eterno e misericordioso, afastai de nós toda a adversidade, para que, sem obstáculos do corpo ou do espírito, possamos livremente cumprir a vossa vontade".
       Quem ora a Deus com sinceridade está a comprometer-se com a Sua vontade. É como pedirmos a opinião a alguém. Se somos sinceros, só perguntaremos para ultrapassar uma dúvida ou indecisão, e se levamos a sério a pergunta e a resposta, sujeitamo-nos a alterar a trajetória. A oração predispõe-nos, na escuta, à obediência.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (C): 2 Mac 7, 1-2. 9-14; Sal 16 (17); 2 Tes 2, 16 – 3, 5; Lc 20, 27-38.

Fiel nas coisas pequenas, fiel nas grandes...

        "Quem é fiel nas coisas pequenas também é fiel nas grandes; e quem é injusto nas coisas pequenas, também é injusto nas grandes. Se não fostes fiéis no que se refere ao vil dinheiro, quem vos confiará o verdadeiro bem? E se não fostes fiéis no bem alheio, quem vos entregará o que é vosso? Nenhum servo pode servir a dois senhores, porque, ou não gosta de um deles e estima o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro". Os fariseus, que eram amigos de dinheiro, ouviam tudo isto e escarneciam de Jesus. Então Jesus disse-lhes: "Vós quereis passar por justos aos olhos dos homens, mas Deus conhece os vossos corações. O que vale muito para os homens nada vale aos olhos de Deus" (Lc 16, 9-15).
       Jesus é contundente em mais esta confrontação com alguns dos fariseus.
       Em algo que é tão simples, Jesus refere que a honestidade é verificável nas pequenas coisas. Quem não é fiel em pequenas coisas não será nas grandes. Esta é uma lição que aprendemos desde crianças, o que é dos outros é dos outros, mesmo que o tenhamos encontrado, é bom que procuremos o seu dono. É uma atitude que parte de nós, da nossas consciência.
       Como cristãos, o nosso único Senhor, é o Deus do Universo, Pai de Jesus Cristo. Só a Ele devemos prestar "vassalagem", pois só Ele nos garante um futuro absoluto, para lá do tempo e da história. Não nos podemos dividir e ter tantos deuses quanto as ocasiões ou os interesses. Obviamente que este primeiro e fundamental mandamento não nos afasta de vivermos em sociedade, de nos relacionarmos com os outros, de lidarmos com o dinheiro e com os bens materiais, mas a perspectiva é a mesma, se vivemos em Deus e com Deus, a nossa ligação aos outros far-se-á com alegria, generosidade, com respeito, honestamente, procurando em tudo a justiça e a conciliação, sabendo que todo e qualquer bem material é instrumento (e não um fim) da nossa felicidade e da outras pessoas.
       E não se trata de fabricar uma imagem para os outros. Como se disse, é algo que parte do nosso interior, na certeza que Deus nos conhece e isso vale mais do que tudo o que há no mundo.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

O administrador infiel...

        Disse Jesus aos seus discípulos: «Um homem rico tinha um administrador que foi denunciado por andar a desperdiçar os seus bens. Mandou chamá-lo e disse-lhe: ‘Que é isto que ouço dizer de ti? Presta contas da tua administração, porque já não podes continuar a administrar’. O administrador disse consigo: ‘Que hei de fazer, agora que o meu senhor me vai tirar a administração? Para cavar não tenho forças, de mendigar tenho vergonha. Já sei o que hei de fazer, para que, ao ser despedido da administração, alguém me receba em sua casa’. Mandou chamar um por um os devedores do seu senhor e disse ao primeiro: ‘Quanto deves ao meu senhor?’. Ele respondeu: ‘Cem talhas de azeite’. O administrador disse-lhe: ‘Toma a tua conta: senta-te depressa e escreve cinquenta’. A seguir disse a outro: ‘E tu quanto deves?’ Ele respondeu: ‘Cem medidas de trigo’. Disse-lhe o administrador: ‘Toma a tua conta e escreve oitenta’. E o senhor elogiou o administrador desonesto, por ter procedido com esperteza. De facto, os filhos deste mundo são mais espertos do que os filhos da luz, no trato com os seus semelhantes» (Lc 16, 1-8).
       Quem não é fiel no pouco não é fiel no muito. A conclusão que se tira desta parábola e presente nas palavras de Jesus. A astúcia é elogiada por Jesus, pois aquele servo, desonesto, utiliza a posição e os bens materiais para arranjar amigos. Em contraponto, Jesus aponta a honestidade, mas igualmente desafia a apostar nas pessoas, na amizade. Numa palavra, os bens materiais hão de ajudar a aproximarmo-nos uns dos outros. A referência é esta. Quem é fiel nas coisas pequenas também o será nas grandes, quem é honesto a administrar os bens alheios, também se lhe podem confiar os próprios bens. Somos administradores dos DONS que Deus nos dá, não para o reter, mas para os partilhar.
       O dinheiro e os bens materiais não têm em si mesmo qualquer conotação moral, quando muito são coisas boas, resultam da inteligência e da criatividade humanas. O uso que se faz do dinheiro e dos bens materiais é que pode ser eticamente positivo ou moralmente desonesto. Como seguidores de Jesus Cristo cabe-nos administrar com verdade e justiça todos os recursos que estão ao nosso alcance.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Devagar se vai ao longe… com a persistência do amor!

       Depressa e bem não há quem. Diz o povo num dos seus ditados. Ou nestoutro, devagar se vai ao longe. Séneca põe-nos de sobreaviso: todos os ventos são desfavoráveis para quem não sabe para onde vai.
       Na aprendizagem, nos relacionamentos, na vida das pessoas e das comunidades, a paciência é essencial para percorrer o caminho, por entre as dificuldades e os obstáculos. Por vezes, a forma inesperada e violenta como a vida nos surpreende pode levar-nos à desistência ou à resiliência. Desistir por certo não é uma opção para quem quer viver, para quem se quer feliz, para quem sonha e procura realizar-se como pessoa. Nem sempre é fácil. E facilmente dizemos aos outros que desistir é o caminho mais fácil. Mas se não os podemos substituir nas suas dificuldades podemos animá-los, pela presença, por uma palavra, um sorriso. E se é válido para os outros também é para nós. Resistir, insistir, recomeçar, com paciência, com amor, persistir no bem, na ligação aos outros. O “não” está certo, vamos procurar e lutar pelo sim, pela felicidade, apostando os trunfos não desistindo nem dos outros nem da vida.
       O Papa Francisco utiliza uma belíssima imagem sobre a paciência e o amor que devemos ter com os outros. “Segurar o papagaio [de papel] assemelha-se à atitude que é preciso ter perante o crescimento da pessoa: em dado momento, é preciso dar-lhe corda, porque «rabeia». Dito de outra maneira: é preciso dar-lhe tempo. Temos de saber pôr o limite no momento justo. Mas, outras vezes, temos de saber olhar para o outro lado e fazer como o pai da parábola, que deixa que o filho se vá embora e desperdice a sua fortuna, para que faça a sua própria experiência”.
       O cuidado com as pessoas, a tolerância baseada no amor e na ternura, a criatividade para deixar que o outro cresça e manifeste as suas qualidades. Dos pais para os filhos, dos educadores para os educandos, suficientemente perto para ajudar, humildes quanto baste para deixar que os próprios vão tomando a vida nas suas mãos.
       Noutra passagem o Papa Francisco utiliza outro termo curioso: “Quantas vezes, na vida, é preciso travar, não querer atingir tudo de repente! Transitar na paciência pressupõe todas essas coisas: é claudicar da pretensão de querer solucionar tudo. É preciso fazer um esforço, mas entendendo que uma pessoa não pode tudo. Há que relativizar um pouco a mística da eficácia”.
       A caridade é paciente, tudo espera, tudo suporta…

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4384, de 25 de outubro de 2016

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Solenidade de Todos os Santos - 1 . novembro . 2016

       1 – Quando alguém espirra é comum dizer-se-lhe "santinho". Outras expressões também conhecidas: "viva", "saúde", "com Jesus Cristo cresças". Durante a peste negra quando alguém espirrava era, na maioria dos casos, o último suspiro. Desejar saúde ou vida ou felicidade era uma forma de encorajamento. Ou "santinho", pois deveria ser santo e estar nas graças de Deus para sobreviver ao espirro da morte. A resposta mais comum: "não sou". É como se fosse algo de impossível, acessível a uns poucos; outras vezes dá a sensação que ser santinho é ter uma vida insossa, direitinha, sem chama nem fogo, sem prazer nem entusiasmo.
       Os últimos Papas têm reconhecido a santidade em pessoas (ditas) normais. Havia a clara noção que para se ser santo ou se era mártir ou tinha que se viver num convento ou num mosteiro, longe das tentações do mundo e das preocupações próprias do quotidiano. Havia ainda a ideia que a santidade estava ligada à virgindade imaculada e, nesse propósito, uma pessoa casada estava fora dos eleitos à santidade. Lembro-me de na minha infância ouvir uma conversa sobre este tema, notando-se, o que só muito mais tarde percebi, a ideia que o casamento tinha algo de pecaminoso.
       O reconhecimento da santidade na vida familiar e o reconhecimento do casal como testemunhos de santidade, por exemplo, os pais de Santa Teresa do Menino, de jovens ou adultos, de um surfista ou uma médica, garante-nos que a santidade é possível. E não apenas, é também desejável. Ser santo é ser feliz, bem-aventurado, capaz de assumir a sua identidade primeira, amar e acolher o amor do outro, porque primeiro Deus nos amou.
       2 – Há pessoas à nossa volta que pela simplicidade de vida, pela alegria que irradiam, pelo bem que fazem, pela paz que comunicam, pela disponibilidade com que ajudam os outros, pela prontidão com que se dão, transparecem o sorriso e a misericórdia de Deus.
       Um dos primeiros aspetos sublinhados pelo nosso Bispo, D. António Couto, na Carta Pastoral para o ano de 2016-2017, é a necessidade e a urgência dos cristãos serem transparência e testemunhas de Jesus Cristo. Discípulos missionários e não apenas animadores ou transmissores do Evangelho. A identidade do cristão passa por viver em Cristo, alimentando-se da Sua Palavra e dos Sacramentos pelos quais Ele continua a agir no nosso mundo, cuidando d'Ele na pessoa dos mais necessitados de pão e de amor.
       A santidade de vida começa no tempo presente. Não apenas na hora da morte ou na eternidade. É aqui que nos preparamos, nos treinamos e iniciamos a vida como ressuscitados em Jesus Cristo, a partir do Sacramento do Batismo. Mergulhamos na Sua morte, para com Ele ressuscitarmos e vivermos como ressuscitados.
       São João na sua primeira missiva sublinha isso mesmo: "Caríssimos, agora somos filhos de Deus e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Mas sabemos que, na altura em que se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porque O veremos tal como Ele é. Todo aquele que tem n’Ele esta esperança purifica-se a si mesmo, para ser puro, como Ele é puro".
       Se vivemos já a esperança da ressurreição futura, onde seremos semelhantes a Ele, é tempo de nos purificarmos, isto é, de vivermos assumindo os Seus passos, o Seu mandato: "Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei".

       3 – A vivência do Evangelho, o seguimento de Jesus Cristo, não é coisa do passado, não é para um grupo de elite ou para uma geração de pessoas mais idosas. É para todos, em todo o tempo, em toda a parte. É possível que no passado as comunidades dessem a ideia de uma maior vivência do cristianismo, mas sabemos também que muitas vezes era pelo medo infligido, pela superstição, pela imposição social, pois todos iam à Missa, todos se confessavam pelo menos na "desobriga", todos comungavam ao menos uma vez ao ano, todos casavam pela Igreja e se alguém não ia e não seguia o padrão era olhado de lado e falado abertamente.
       As comunidades cristãs estão mais frágeis? Talvez. Não há tanta regularidade? É possível.
       Por um lado, o compromisso com a comunidade parece mais esbatido e menos "obrigatório", correspondendo à tendência cultural e social do tempo. Primeiro há que atender às necessidades pessoais, resolver os problemas caseiros e a vida em família, tratar da profissão e, então e se ainda houver tempo, vamos à Missa ou a outras atividades pastorais que a Igreja proponha. Esquecemos que também somos Igreja, somos membros deste Corpo de Cristo, onde todos somos necessários e onde a falta de um prejudica todo o corpo.
       Por outro lado, os que estão, estão mais conscientemente, sem tantos medos ou preconceitos ou pressões culturais, familiares ou sociais. Vão porque acham importante, porque se sentem bem, porque tomaram consciência da sua pertença à comunidade paroquial. Isto não significa que os pais, a família não deva incentivar os filhos e, num primeiro momento, como para a escola, não devam levá-los com eles. Pelo contrário, quando maior a consciência da pertença à comunidade, mais responsabilidade. Há pais que nunca deixam de ir, de participar. Mães que levam os filhos na barriga, ao colo, pela mão... mais tarde será mais fácil os filhos irem pelo próprio pé. Se os pais não arranjam desculpas fáceis para não ir, mas vão a todo o custo, deixando outros afazeres, é possível que os filhos tomem consciência do quão importante é a fé e a vida em comunidade.
       4 – Não é fácil ser cristão. Ser cristão não é para as elites, não é para um grupo de puros, já santos, já convertidos. Ser cristão implica-nos por inteiro, em todas as situações. Não somos cristãos apenas quando nos apetece, quando dá jeito. Mas o tempo todo. O sacramento do Batismo é indelével, isto é, transforma-nos em novas criaturas para Jesus Cristo e, com Ele e n'Ele, a favor dos outros. Estamos todos a caminho, com as nossas fragilidades, com o nosso pecado, confiando sempre na misericórdia de Deus e na Sua complacência para connosco. Por isso nos dá Jesus, o Seu Amado Filho, que Se mistura connosco e nos ensina a caminhar para o Pai, confiando, colocando o nosso olhar, o nosso coração e a nossa vida sob o olhar e a proteção de Deus.
       O caminho de Jesus é exigente. Não é uma exigência exterior, forçada, imposta. É uma exigência que decorre do seguimento. Se somos de Cristo, então ajamos como Ele. Viver em lógica de serviço e cuidado aos demais, como o último de todos, colocando os outros à frente, não é um processo fácil. Exige vigilância, consistência, insistindo uma e outra vez. É o caminho das bem-aventuranças em que nos colocamos em dinâmica de compaixão, de ternura, de caridade.
       Bem-aventurados os pobres em espírito, os humildes, os que choram, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os que promovem a paz, os que sofrem perseguição por amor da justiça. É deles o reino dos Céus, serão eles e seremos nós, a transformar, a renovar a terra e as relações entre pessoas e povos. «Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa».
       Jesus Cristo foi injuriado, julgado, morto. Os discípulos, desde a primeira hora, também o foram. E assim tem sido ao longo da história da Igreja. É, com efeito, um critério pelo qual poderemos aferir a fidelidade a Cristo na Igreja. A honestidade, o serviço, a denúncia das injustiças, da corrupção, a opção pela verdade, acarreta a perseguição e a maledicência e, muitas vezes, uma vida sacrificada. Há pessoas, em alguns países, que perdem o emprego por serem cristãos e o afirmarem publicamente. Isto acontece mesmo em países ditos do primeiro mundo. Mas é uma opção que nos realiza e nos santifica na medida em que nos agrafa a Jesus Cristo.

       5 – Com Jesus Cristo, Deus renova todas as coisas. Com a Sua morte e na Sua ressurreição, também nós fomos santificados. Ele morreu e ressuscitou por mim e por ti. Agora sou eu e tu, somos nós, que devemos morrer/viver pelos outros, não em substituição, mas em serviço, cuidado, dedicação. Há mais alegria em dar do que em receber. A santidade é o caminho de todo aquele que quer imitar Jesus Cristo. A santidade é esta capacidade, esta disponibilidade, de vivermos como pessoas, levando a sério a nossa humanidade e na certeza que o bem que fizermos também nos beneficia. Procurar ser santo é procurar ser feliz. E só somos verdadeiramente felizes com os outros.


Pe. Manuel Gonçalves




Textos para a Eucaristia (C): Ap 7, 2-4. 9-14; Sl 23 (24); 1 Jo 3, 1-3; Mt 5, 1-12a.

domingo, 30 de outubro de 2016

VL – A graça do palhaço – 3

       A graciosidade do palhaço é tanto maior quanto mais se entrega, quando mais se dá aos outros. A sua graça depende da resposta do público, das pessoas para quem atua.
       Ele tem a preocupação de pôr a audiência a rir. E nada melhor que expor os seus próprios problemas. Procurar o palhaço que há em si mesmo, descobrir-se com as suas inseguranças e medos, com as suas debilidades e angústias. A verdade entra na equação. Quanto mais autêntico, quanto mais ele mesmo, apanhado em flagrante delito de debilidade, mais gracioso será. A arte de ser palhaço engloba toda a sua vida, fazendo sobressair a inocência que existe no mais fundo de si mesmo. Aceita o fracasso, o seu fracasso, para promover o outro, colocando o espectador em estado de superioridade. “Através desse fracasso, o palhaço revela a sua profunda natureza humana que nos emociona e nos faz rir” (Cristina Moreira).
       Com o palhaço aprendemos a ser para os outros e com os outros. O palhaço tem um contacto direto com o público, está sob o olhar dos outros. Não se faz palhaço diante do público. Atua com o público, interage com todas as pessoas do público e as reações das mesmas influenciam a sua atuação. 
       Com efeito, “o importante não é o palhaço em si mesmo. O essencial é o olhar que recebe dos outros a quem dedica a sua vida”, procurando “converter o pesado em leve, o amargo em doce, o oculto em verdadeiro… Deve buscar para a sua personagem um estado de inocência, de frescura, de ingenuidade, de onde olhar a vida… é um peregrino que segue uma estrela, que crê na sua verdade e se sente solvente em comunicar-se na mensagem…”
       Tal como o palhaço também nós queremos ser reconhecidos, amados, queridos…
       O palhaço conta-se a si mesmo. Por isso a sua vida interior tem tanto que ver com a sua atuação. “O palhaço não existe separado do autor que o interpreta. Todos somos palhaços, todos nos julgamos bonitos, inteligentes e fortes, mas na realidade, cada um de nós tem as suas debilidades, o nosso lado ridículo, que, quando se manifesta, fazem rir”.
       Ele, como nós, busca o amor de alguém, o reconhecimento do público. O que faz é para agradar, para divertir as pessoas. Incorpora, por imitação, tudo o que admira e reprodu-lo com afeto. A ilusão de superar as limitações do tempo e do espaço, com criatividade e imaginação. Faz-nos desejar pertencer a um mundo melhor… 

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4383, de 18 de outubro de 2016

sábado, 29 de outubro de 2016

XXXI Domingo do Tempo Comum - ano C - 30/10/2016

       1 – Um publicano a rezar no Templo, colocando-se diante de Deus, despido de qualquer presunção ou pretensão, certo da misericórdia de Deus. Apresenta-se transparente e disponível para deixar que Deus o transforme. É a atitude do discípulo de Cristo. O discípulo é aquele que se predispõe a amadurecer, a crescer como pessoa, aperfeiçoando as arestas que ainda magoam os outros, pela indiferença ou pelos gestos de maldade, injustiça, violência.
       Hoje o Evangelho mostra-nos outro modelo de discípulo. Zaqueu, o homem de vistas curtas, de estatura baixa, que não vê além do seu nariz, do seu umbigo. Mas chega um dia em que se sente impelido a ver e conhecer Jesus. Dois fatores o impedem de chegar perto de Jesus. O primeiro tem a ver sua pequena estatura. Já deu o primeiro passo: a decisão de ver Jesus. O outro obstáculo é a multidão. A multidão, na qual também nos encontramos, pode ajudar a encontrar Jesus, apontando para Ele, mas pode também impedir que alguém se aproxime de Jesus, mantendo-se compacta e barrando a passagem.
       Em que situações a multidão impede de ver Jesus?
       Em que situações a multidão ajuda a encontrar Jesus?
       São duas questões que devemos colocar-nos. Sabemos que a vivência da fé, a coerência de vida, o testemunho, o cuidado com os mais frágeis, pode levar outros a querer estar perto de Jesus e a desfrutar da mesma fé e do mesmo compromisso. O inverso manifesta-se quando a vida concreta contradiz abertamente a fé professada. O nosso intento será sempre, reconhecendo o nosso pecado, procurar o mais possível a identificação a Jesus Cristo.
       2 – Quando queremos alguma coisa, de verdade, vamos atrás. Insistimos, uma e outra vez. Não desistimos à primeira. Procuramos os meios, as pessoas, os instrumentos para obtermos o que desejamos. Zaqueu decidiu ver Jesus. Não apenas avistá-l'O à distância, mas vê-l'O de perto, deixar-se ver por Ele. Também aqui a multidão teve uma influência positiva. Zaqueu ouviu falar de Jesus. Terá ouvido muitas coisas acerca do Mestre da Docilidade. Como chefe de publicanos, cobradores de impostos odiados por toda a gente, foi ouvindo o que se dizia acerca de Jesus: um Profeta que anuncia um reino novo, um tempo novo, uma nova maneira das pessoas se relacionarem. As palavras e os prodígios, a mensagem e a Sua postura. A alternativa: um subversivo, um revolucionário, um lunático. Das informações recolhidas, um desejo forte de encontrar-se pessoalmente com Jesus, confirmando com os próprios olhos o que ouvira dizer. Não basta o que ouvimos dizer, é necessário o encontro com Jesus.
       "Então correu mais à frente e subiu a um sicómoro, para ver Jesus, que havia de passar por ali". Colocado num lugar estratégico, para ver sem ser visto. Mas antes de ver, já Jesus, chegado ao local, o vê e o chama: «Zaqueu, desce depressa, que Eu hoje devo ficar em tua casa». Atónito e surpreendido, logo desce e com alegria recebe Jesus em sua casa. Não há tempo para perguntas e para porquês. Agora é o tempo da conversão. A conversão iniciara-se com o desejo de ver Jesus e completa-se com o acolhimento alegre a Jesus.
       O discípulo torna-se missionário. «Senhor, vou dar aos pobres metade dos meus bens e, se causei qualquer prejuízo a alguém, restituirei quatro vezes mais». A alegria do encontro com Jesus provoca compromisso e mudança de vida. Zaqueu só precisou de um lampejo de luz para se abrir à misericórdia de Deus, que se manifesta e age em Jesus. Doravante a postura de Zaqueu não mais será a mesma.
       3 – Somos responsáveis uns pelos outros. A desresponsabilização pelo próximo é pecado que fere os outros e que brada aos Céus. Deus pergunta a Caim sobre o seu irmão e ele responde-Lhe – acaso sou guarda do meu irmão? Contradiz a fraternidade original e a vontade de Deus. No Evangelho Jesus reporá o mandamento: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei. Não há maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos. Jesus não demonstra o amor, mostra-o ao entregar-Se por nós.
       Como relembra o Principezinho, somos responsáveis por aqueles que cativamos. E devemos cativar e cuidar de cada pessoa, de todas as pessoas, da pessoa que está à minha beira, pois foi-me enviada por Deus. É a presença de Deus no meio de nós. Quero encontrar Deus? Queres encontrar-te com Deus? O próximo é a resposta! Cuidar de quem precisa de mim e de ti, de quem precisa de nós. Fazermo-nos próximos para ajudar. Esta é a via para chegar a Deus.
       Não há outra forma. Deus deixa-Se ver, tocar, prender, abraçar em cada pessoa. Não podes, lembra São Tiago, fazer juras de amor a Deus, que não vês, se desprezas os outros que vês, em quem podes ver Deus. Deus não Se manteve e não Se mantém distante de nós. Em Jesus Cristo, Deus encarnou, assumiu a nossa natureza humana. A fragilidade e o pecado foram tocados e redimidos pela carne de Jesus Cristo. Encarnou. Viveu. Morreu. Ressuscitou. Ascendeu para Deus Pai. Mas não nos deixa órfãos, dá-nos o Espírito Santo, que acende em nós a chama do amor e nos ilumina tornando Cristo visível na Palavra proclamada, nos Sacramentos celebrados, nas pessoas encontráveis no nosso peregrinar.
       Aquela multidão que vê Jesus a entrar em casa de Zaqueu – o chefe de publicanos, odiado pela profissão que exerce, concluindo-se que pertencia àqueles que usam e abusam do cargo –, não fica convencida: «Foi hospedar-Se em casa dum pecador». Jesus não percebe. É ingénuo. Como vai logo hospedar-se em casa de uma pessoa assim?! A resposta de Jesus vem mais à frente: «Hoje entrou a salvação nesta casa, porque Zaqueu também é filho de Abraão. Com efeito, o Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido». Também aqui se pode ver a intuição da parábola do Pai Misericordioso: "este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado".
       A vinda de Jesus ao mundo tem um propósito firme: que n'Ele todos descubram Deus e se deixem salvar pelo Seu amor. Por conseguinte, cabe-nos hoje mostrar Deus aos nossos contemporâneos, transparecendo-O nas palavras e nos gestos, com a voz e com a vida.

       4 – Maior que o nosso pecado é a misericórdia e a complacência de Deus. A humildade faz-nos mirar ao espelho, não para nos vermos, mas para vermos o quanto Deus nos ama. Víamos na semana passada que a oração do pobre sobe ao céu, a oração do fariseu traz-lhe a justificação de Deus. A prepotência e a soberba condenam-nos a girar em torno do nosso umbigo, acabando zonzos, acabando por cair no vazio e na solidão…
       "Diante de Vós, Senhor, o mundo inteiro é como um grão de areia na balança, como a gota de orvalho que de manhã cai sobre a terra. De todos Vos compadeceis e não olhais para os seus pecados... Vós amais tudo o que existe... A todos perdoais, porque tudo é vosso, Senhor, que amais a vida. O vosso espírito incorruptível está em todas as coisas. Por isso castigais brandamente aqueles que caem e advertis os que pecam, recordando-lhes os seus pecados, para que se afastem do mal e acreditem em Vós, Senhor".
       O livro da Sabedoria deixa vir ao de cima a misericórdia de Deus. Do mesmo jeito o Salmo nos ensina a compaixão e a bondade de Deus: "O Senhor é clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade. O Senhor é bom para com todos e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas. O Senhor é fiel à sua palavra e perfeito em todas as suas obras. O Senhor ampara os que vacilam e levanta todos os oprimidos".

       5 – E porque sabemos que Deus nos atende, suplicamos-Lhe que nos faça caminhar sem obstáculos para os bens por Ele prometidos, ou para aprendermos, com a sabedoria do coração, a fazer com que as dificuldades sejam oportunidades para fortalecer a nossa fé e a nossa confiança em Deus. Por outro lado, a oração previne-nos contra os falsos profetas, comprometendo-nos com o tempo presente, com o mundo atual, sabendo que Deus nos envia em missão, a missão de espalhar a fé e a esperança, através da prática do bem, do cuidado e do serviço a todos os que encontrarmos.
       Rezando, o Apóstolo adverte-nos contra o desespero, contra as trevas, contra aqueles que nos querem amedrontar com desgraças. "Oramos continuamente por vós, para que Deus vos considere dignos do seu chamamento e, pelo seu poder, se realizem todos os vossos bons propósitos e se confirme o trabalho da vossa fé. Assim o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo será glorificado em vós... Nós vos pedimos, irmãos, a propósito da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo e do nosso encontro com Ele: Não vos deixeis abalar facilmente nem alarmar por qualquer manifestação profética, por palavras ou por cartas, que se digam vir de nós, pretendendo que o dia do Senhor está iminente".
       Hoje como ontem, são muitos os que anunciam o fim do mundo, com imensos sinais destrutivos, numa crescente cultura da morte. Porém, adverte-nos o apóstolo, cabe-nos irradiar a cultura da vida, perseverando, lutando pela justiça e pela verdade, na certeza que Deus vencerá.

Pe. Manuel Gonçalves

Textos para a Eucaristia (C): Sab 11, 22 – 12, 2; Sl 144 (145); 2 Tes 1, 11 – 2, 2; Lc 19, 1-10.

VL – A graça do palhaço – 2

       A D. Evinha (1924-2016), natural da Paróquia de Santa Eufémia de Pinheiros, a viver em Tabuaço, numa vida dedicada aos outros, inserida na vida pastoral da Igreja, comprometida em viver e comunicar o Evangelho, sugeriu-me várias leituras, como por exemplo de José António Pagola. Outra leitura que me aconselhou foi a “A graça do Palhaço” (La gracia en el clown) e “Os palhaços” (Los clowns). Deixamos para a discussão académia as diferenças que podem ser estabelecidas entre “palhaços” e “clowns” (termo inglês, numa evocação mais erudita).
       A autora é docente de teatro, Cristina Moreira, oriunda da Argentina, bailarina e atriz, tendo-se fixado na Europa, integrando companhias de teatro, escrevendo peças… O seminário dedicado aos palhaços é o mais festivo. O objetivo do palhaço é fazer rir o público. Começa aqui o ensinamento para cada um de nós. Ser palhaço para os outros. Agir pelos outros. Fazer rir está intimamente ligado ao amor. Exige muito, exige tudo do palhaço, entrega intensa que se sujeita a ser aceite ou recusado. Com docilidade o palhaço procura construir uma relação com o público. “O amor está implícito no desejo de comunicar a alegria de estar com os outros… a graça emana da entrega espiritual ao outro”.
       Um ator representa, seguindo um guião. O palhaço representa-se. Ele procura reconstruir a partir de si uma nova personagem. Elabora o seu guião interagindo com a sua audiência. Ao longo do processo vai aprimorando a sua habilidade, o seu carácter, a sua fisionomia. Não é a vestimenta, a caracterização física que distingue os palhaços, mas a capacidade de mostrar-se com as próprias fraquezas, oferecendo-se à audiência, sempre num prisma de humildade. Serve os demais, sujeita-se aos seus juízos e, o que preparou com esmero, pode falhar.
       Sublinha a autora que “a graça no intérprete nasce do reconhecimento da própria limitação, de um estado de humildade diante do verdadeiramente eterno. No momento em que o homem se pode rir de si mesmo, não se levando a sério… encontra um estilo solto para olhar a sua vida. Esta liberdade permite-lhe fazer rir os demais”.
       O palhaço avança a partir do nada, que é muito, que é tudo, avança a partir do seu interior, dando o melhor de si, expondo-se, colocando a nu as suas inseguranças, os seus medos, procurando ultrapassar os seus dilemas. O palhaço é um homem real com os seus contratempos. Dessa forma se sintoniza com o seu público, com as suas debilidades, desafiando-os a rir-se de si mesmos, levantando-se para a luta.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4382, de 11 de outubro de 2016

Num banquete nupcial não tomes o primeiro lugar...

       Jesus entrou, num sábado, em casa de um dos principais fariseus para tomar uma refeição. Todos O observavam. Ao notar como os convidados escolhiam os primeiros lugares, Jesus disse-lhes esta parábola: «Quando fores convidado para um banquete nupcial, não tomes o primeiro lugar. Pode acontecer que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu; então, aquele que vos convidou a ambos, terá que te dizer: ‘Dá o lugar a este’; e ficarás depois envergonhado, se tiveres de ocupar o último lugar. Por isso, quando fores convidado, vai sentar-te no último lugar; e quando vier aquele que te convidou, dirá: ‘Amigo, sobe mais para cima’; ficarás então honrado aos olhos dos outros convidados. Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado» (Lc 14, 1.7-11 )
       Jesus toma uma refeição em casa de um dos principais fariseus e observa como alguns procuram o primeiro lugar, para estar mais perto do anfitrião, para serem servidos em primeiro lugar, para serem vistos por todos. Jesus aproveita, uma vez mais, a ocasião, para intervir ensinando. O discípulo não é o que ocupa o primeiro lugar, o discípulo é aquele que serve, que ama, que se humilha para ajudar e cuidar dos outros.
       Bem sabemos que na atualidade, em qualquer banquete, esta questão já não se coloca, pois os anfitriões previamente destinam os lugares, precisamente para evitar constrangimentos na hora de escolher os lugares. Podem gostar ou não gostar do sítio onde foram colocados, mas pelo menos não se cria um mau ambiente entre convidados.
       Seja como for, Jesus caracteriza uma vez mais a atitude e identidade do discípulo. Aquele que serve, que não precisa de exibições ou de aparências, mas dá prioridade à relação com os outros, atendendo-os nas suas necessidades.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

VL – A graça do palhaço – 1

       A conversa é como as cerejas. Começa e não sabemos quando acaba. Esta reflexão será um pouco assim. Por estes dias (1 de outubro) foi a sepultar na Paróquia de Santa Eufémia de Pinheiros, a D. Evinha, de onde era natural, a viver na Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Tabuaço há mais de uma década. É daquelas pessoas que marcam um tempo, criam um espaço de afetos e de luz, deixam um rasto de bondade, de alegria e simplicidade.
       A D. Evinha era cidadã do mundo, cristã em todos os momentos. Na Escola Diocesana de Formação Social acentuou um caminho de compromisso em Igreja que passou agora para a eternidade de Deus. Dos tempos da Ação Católica, as ganas de viver, de renovar a vida eclesial, com o Vaticano II, a sede de Deus e as novidades que iam chegando do Concílio. A formação superior na área da ação social, a passagem pelo ministério do trabalho e da solidariedade social, onde poderia fazer carreira, tendo optado por ajudar na promoção de outros, no país do Estado Novo e nos tempos da revolução, as reuniões cuidadosas para evitar a prisão de pais e mães de família, da aldeia à cidade, do norte à capital, ao Alentejo e ao Algarve, a vida consagrada no instituto de vida secular, com forte implantação em Espanha e na Améria Latina, o trabalho missionário/social/humano no Brasil e nos países vizinhos, dormindo em esteiras, comendo frugalmente, o contacto com a Teologia da Libertação e a perceção que a fé tem que estar ao lado dos mais pobres, dando-lhes ferramentas para que possam gerir as suas vidas…
       Regressada do Brasil, fixando-se definitivamente em terras de Tabuaço, nunca desistiu de se empenhar, participando onde era necessário, na Igreja e na vida social e cultural. Sempre disponível, para mais oração, para mais formação, das crianças aos jovens e aos adultos, aos mais idosos, na catequese, nos grupos de jovens, como ministra extraordinária da comunhão, na vivência do Natal, da Páscoa, a cantar as Boas Festas, a visitar doentes, a dar conselhos com a delicadeza de uma mãe, preparando jovens para o crisma, intervindo nos tempos de formação, escrevendo, partilhando a vida, gastando-se… sempre ligada à vida da Igreja, sempre sintonizada com os sinais dos tempos.
       Como Pároco pude usufruir da sua amizade e dos seus conselhos, da sua ajuda e das suas sugestões. Uma das sugestões, no início no meu ministério sacerdotal: as homilias deveriam terminar sempre de forma positiva, para que fosse autêntico o “assim seja”…

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4381, de 4 de outubro de 2016

São Simão e São Judas, Apóstolos

       O nome de Simão figura em undécimo lugar na lista dos Apóstolos. Dele se sabe apenas que nasceu em Caná e que tinha o denominativo de «Zelotes».
       Judas, de sobrenome Tadeu, é o Apóstolo que na Última Ceia perguntou ao Senhor por que razão Se manifestava aos seus discípulos e não ao mundo (Jo 14, 22).

       "Já não sois estrangeiros nem hóspedes, mas sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o alicerce dos Apóstolos e dos Profetas, que tem Cristo como pedra angular. Em Cristo, toda a construção, bem ajustada, cresce para formar um templo santo do Senhor; e em união com Ele, também vós sois integrados na construção, para vos tornardes, no Espírito Santo, morada de Deus" (Ef 2, 19-22).

       Este texto da Epístola aos Efésios, proposto na festa dos Apóstolos São Simão e São Judas, remete-nos para a família de Deus a que pertencemos, pelo Baptismo. Já não somos estrangeiros, somos filhos, pertencemos ao Senhor. O nosso nome já nos fala desta pertença e desta identidade, cristãos, isto é, de Cristo. Se nos configurarmos a Ele, então contribuiremos para edificar no bem, e nos tornarmos morada de Deus.

Oração de Coleta:
Deus de infinita misericórdia, que nos fizestes chegar ao conhecimento do vosso nome por meio dos bem-aventurados Apóstolos, concedei-nos, por intercessão de São Simão e São Judas, que a vossa Igreja cresça continuamente com a conversão dos povos ao Evangelho. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
REFLEXÃO de BENTO XVI sobre estes dois apóstolos:

Simão o Cananeu e Judas Tadeu

Queridos irmãos e irmãs!
Hoje tomamos em consideração dois dos doze Apóstolos: Simão o Cananeu e Judas Tadeu (que não se deve confundir com Judas Iscariotes). Consideramo-los juntos, não só porque nas listas dos Doze são sempre mencionados um ao lado do outro (cf. Mt 10, 4; Mc 3, 18; Lc 6, 15; Act 1, 13), mas também porque as notícias que a eles se referem não são muitas, excepto o facto que o Cânon neotestamentário conserva uma carta atribuída a Judas Tadeu.
Simão recebe um epíteto que varia nas quatro listas: Mateus qualifica-o como "cananeu", Lucas define-o "zelote". Na realidade, as duas qualificações equivalem-se, porque significam a mesma coisa: na língua hebraica, de facto, o verbo qanà' significa "ser zeloso", "dedicado" e pode referir-se quer a Deus, porque é zeloso do povo por ele escolhido (cf. Êx 20, 5), quer a homens que são zelosos no serviço a Deus único com dedicação total, como Elias (cf. 1 Rs 19, 10). Portanto, é possível que este Simão, se não pertencia exactamente ao movimento nacionalista dos Zelotes, tivesse pelo menos como característica um fervoroso zelo pela identidade judaica, por conseguinte, por Deus, pelo seu povo e pela Lei divina. Sendo assim, Simão coloca-se no antípoda de Mateus, que ao contrário, sendo publicano, provinha de uma actividade considerada totalmente impura.
Sinal evidente que Jesus chama os seus discípulos e colaboradores das camadas sociais e religiosas mais diversas, sem exclusão alguma. Ele interessa-se pelas pessoas, não pelas categorias sociais ou pelas actividades! E o mais belo é que no grupo dos seus seguidores, todos, mesmo se diversos, coexistiam, superando as inimagináveis dificuldades: de facto, era o próprio Jesus o motivo de coesão, no qual todos se reencontravam unidos. Isto constitui claramente uma lição para nós, com frequência propensos a realçar as diferenças e talvez as contraposições, esquecendo que em Jesus Cristo nos é dada a força para superar os nossos conflitos. Tenhamos também presente que o grupo dos Doze é a prefiguração da Igreja, na qual devem ter espaço todos os carismas, os povos, as raças, todas as qualidades humanas, que encontram a sua composição e a sua unidade na comunhão com Jesus.
No que se refere depois a Judas Tadeu, ele é chamado assim pela tradição, unindo ao mesmo tempo dois nomes diferentes: de facto, enquanto Mateus e Marcos o chamam simplesmente "Tadeu" (Mt 10, 3; Mc 3, 18), Lucas chama-o "Judas de Tiago" (Lc 6, 16; Act 1, 13). O sobrenome Tadeu tem uma derivação incerta e é explicado ou como proveniente do aramaico taddà', que significa "peito" e, por conseguinte, significaria "magnânimo", ou como abreviação de um nome grego como "Teodoro, Teódoto". Dele são transmitidas poucas coisas. Só João assinala um seu pedido feito a Jesus durante a Última Ceia. Diz Tadeu ao Senhor: "Senhor, como aconteceu que te deves manifestar a nós e não ao mundo?". É uma pergunta de grande atualidade, que também nós fazemos ao Senhor: porque o Ressuscitado não se manifestou em toda a sua glória aos seus adversários para mostrar que o vencedor é Deus? Por que se manifestou só aos Discípulos? A resposta de Jesus é misteriosa e profunda. O Senhor diz: "Se alguém me tem amor, há-de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada" (Jo 14, 22-23). Isto significa que o Ressuscitado deve ser visto, sentido também com o coração, de modo que Deus possa habitar em nós. O Senhor não se mostra como uma coisa. Ele quer entrar na nossa vida e por isso a sua manifestação é uma manifestação que exige e pressupõe o coração aberto. Só assim vemos o Ressuscitado.
Foi atribuída a Judas Tadeu a paternidade de uma das Cartas do Novo Testamento, que são chamadas "católicas" porque não se destinam a uma determinada Igreja local, mas a um círculo muito amplo de destinatários. De facto, ele dirige-se "aos eleitos amados por Deus Pai e guardados para Jesus Cristo" (v. 1). A preocupação central deste escrito é advertir os cristãos de todos os que, com o pretexto da graça de Deus, desculpam a própria devassidão e para desviar outros irmãos com ensinamentos inaceitáveis, introduzindo divisões dentro da Igreja "deixando-se levar pelo seu delírio" (v. 8), assim define Judas estas suas doutrinas e ideias especiais. Ele compara-os inclusivamente aos anjos caídos, e com palavras fortes diz que "seguiram pelo caminho de Caim" (v. 11). Além disso classifica-os sem reticências como "nuvens sem água que os ventos levam; árvores de outono sem fruto, duas vezes mortas, desarraigadas; ondas furiosas do mar que repelem a espuma da sua torpeza; estrelas errantes condenadas à negrura das trevas eternas" (vv. 12-13).
Talvez hoje nós já não estejamos habituados a usar uma linguagem tão polémica, que contudo nos diz uma coisa importante. No meio de todas as tentações que existem, com todas as correntes da vida moderna, devemos conservar a identidade da nossa fé. Certamente, o caminho da indulgência e do diálogo, que o Concílio Vaticano II felizmente empreendeu, deve ser sem dúvida prosseguida com uma constância firme. Mas este caminho do diálogo, tão necessário, não deve fazer esquecer o dever de reconsiderar e de evidenciar sempre com igual força as linhas-mestras e irrenunciáveis da nossa identidade cristã. Por outro lado, é necessário ter bem presente que esta nossa identidade exige força, clareza e coragem face às contradições do mundo em que vivemos. Por isso o texto epistolar prossegue assim: "Mas vós, caríssimos, fala a todos nós mantende-vos no amor de Deus, esperando que a misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo vos conceda a vida eterna. Tratai com misericórdia aqueles que vacilam..." (vv. 20-22). A Carta conclui-se com estas bonitas palavras: "Àquele que é poderoso para vos livrar das quedas e vos apresentar diante da sua glória, imaculados e cheios de alegria, ao Deus único, nosso Salvador, por meio de Jesus Cristo, Senhor nosso, seja dada glória, a majestade, a soberania e o poder, antes de todos os tempos, agora e por todos os séculos, Amém" (vv. 24-25).
Vê-se bem que o autor destas frases vive plenamente a própria fé, à qual pertencem realidades grandes como a integridade moral e a alegria, a confiança e por fim o louvor, sendo motivado em tudo apenas pela bondade do nosso único Deus e pela misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso, tanto Simão o Cananeu, como Judas Tadeu nos ajudam a redescobrir sempre de novo e a viver incansavelmente a beleza da fé cristã, sabendo dar um testemunho dela forte e ao mesmo tempo sereno.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

VL – Santa Mãe dos Pobres

       Madre Teresa de Calcutá nasceu a 26 de agosto de 1910, em Skopje, na Albânia. O nome de batismo é Agnes (Inês). Com 18 anos foi para a Irlanda, tornando-se irmã de Loreto. Em 1928 foi para a Índia, a fim de ensinar (geografia e religião) no colégio de St. Mary, em Entally, Calcutá. Em 1946, sente a "vocação dentro da vocação", para sair ao encontro dos mais pobres dos pobres, daqueles que ninguém quer. Pouco depois solicita ao Vaticano autorização para fundar uma nova Congregação, as Irmãs da Caridade. Até à sua morte entregar-se-á inteiramente a Jesus Cristo no cuidado dos mais desfavorecidos.
       Beatificada por João Paulo II em 19 de outubro de 2003.
       Canonizada por Francisco em 4 de setembro de 2016.
       Partindo de Cristo… "Pela minha missão, pertenço a todo o mundo, mas o meu coração pertence a Jesus Cristo... Quando olhamos para a cruz, compreendemos a grandeza do Seu amor. Quando olhamos para a manjedoira compreendemos a ternura do Seu amor por ti e por mim, pela tua família e por cada família... Nunca estejais tristes. Sorri, pelo menos, cinco vezes por dia. Basta um sorriso, um bom-dia, um gesto de amizade. Fazei pequenas coisas com grande amor... Muitos de vós, antes de partir, vão pedir-me autógrafos. Seria melhor que vos aproximasses de um pobre e, através dele, pudésseis encontrar o autógrafo de Cristo".
       Na oração e na intimidade com Deus, a ousadia para servir os enjeitados deste mundo. «Reza como se tudo dependesse de Deus e age como se tudo dependesse de ti... A verdadeira santidade consiste em fazer a vontade de Deus com um sorriso... É fácil sorrir às pessoas que estão fora da nossa casa. É fácil cuidar das pessoas que não se conhecem bem. É difícil ser sempre solícito e delicado e sorridente e cheio de amor em casa, com os familiares, dia após dia, especialmente quando estamos cansados e irritados. Todos nós temos momentos como estes e é precisamente então que Cristo vem ter connosco vestido de sofrimento».
       O mundo precisa de Deus. E precisa de nós para levarmos Deus aos mais pobres. «Eu sou um lápis nas mãos de Deus. Ele usa-me para escrever o que quer... Demo-nos conta que o que fazemos é apenas uma gota no oceano. Mas sem essa gota, faltaria alguma coisa no oceano. Sejamos capazes de amar uma só pessoa de cada vez, de servir uma pessoa de cada vez... Jesus é o meu tudo. A minha plenitude».

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4377, de 6 de setembro de 2016

... como a galinha recolhe os pintainhos...

        Naquele dia, aproximaram-se alguns fariseus, que disseram a Jesus: «Vai-te daqui, porque Herodes quer matar-te». Jesus respondeu-lhes: «Ide dizer a essa raposa: Eu expulso demónios e realizo curas hoje e amanhã; ao terceiro dia chego ao meu fim. Mas hoje, amanhã e depois de amanhã, devo seguir o meu caminho, porque não é possível que um profeta morra fora de Jerusalém. Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados, quantas vezes Eu quis reunir os teus filhos, como a galinha recolhe os pintainhos debaixo das suas asas! Mas vós não quisestes. Pois bem. A vossa casa vai ficar abandonada. E Eu vos digo: Não voltareis a ver-Me, até chegar o dia em que direis: ‘Bendito o que vem em nome do Senhor!’». (Lc 13, 31-35).
       Alguém avisa Jesus de que Herodes pretende matá-l'O e que é melhor abandonar a cidade. A resposta de Jesus é firme e como planeado permanecerá na cidade três dias. Aproveita também a ocasião para profetizar sobre a cidade de Jerusalém, como aviso e como desafio à conversão. Os seus habitantes tiveram muitos sinais. Deus permaneceu sempre próximo, na "espera" para que os filhos pudessem ser reunidos.
       O último aviso é mais uma oportunidade, radicada na esperança. Voltareis a ver-me no dia em que direis "bendito o que vem em nome do Senhor".

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Espaço Pastoral acolhe o Diogo Martinho

       Natural de Cutelo, Gosende, concelho de Castro Daire, o Diogo Martinho, de 22 anos, no 5.º Ano do curso de Teologia, a frequentar o Seminário Maior de Lamego, estará connosco, neste espaço pastoral que engloba as paróquias a mim (Pe. Manuel Gonçalves) confiadas, Tabuaço, Pinheiros, Távora e Carrazedo.
       Estará connosco aos fins de semana para ver, observar, ajudar e nos enriquecer com a sua presença.
       Acolhemo-lo no dia 15 de outubro, começando por se apresentar nas diferentes paróquias e em momentos diversos, nos ensaios do grupo coral infanto-juvenil, na catequese, na Missa vespertina, em Tabuaço, seguindo para a Eucaristia vespertina na Paróquia de São Salvador de Carrazedo. À noite, jantar com membros dos diferentes grupos da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição. O dia 16 foi preenchido pela participação nas Eucaristias das paróquias de São João Batista de Távora e de Nossa Senhora da Conceição de Tabuaço, na bênção-inauguração da Ampliação e requalificação do Quartel dos Bombeiros Voluntários de Tabuaço e, no início da tarde, na Eucaristia na Paróquia de Santa Eufémia de Pinheiros.


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VL – O amor afasta o temor (Santa Faustina)

       Imaginemos um pai severo, com muitas regras e castigos. Tão distante dos filhos que se faz respeitar pelo medo. Basta um olhar! E se for preciso desapertar a fivela do cinto...
       Imaginemos um pai compreensivo, dialogante, carinhoso com os filhos, estabelece regras explica-as, negoceia fronteiras e limites...
       Passados 30 anos, quais os filhos estarão mais próximos dos pais?
       Há pessoas que se atêm à religião mais pelo medo, pela presença demoníaca, pela escrupulosidade do pecado, que pelo convite acolhedor de Jesus e do Seu Evangelho de Paixão e de Misericórdia.
       O Ano Jubilar acentuou a dinâmica do amor de Deus para com a humanidade, assumido e plenizado na vida de Jesus, na Sua morte e ressurreição, e o desafio à Igreja para ser Casa da Misericórdia, assomando a beleza e a alegria da Boa Nova da redenção. 
       Há um caminho importante a fazer. O caminho de cada um – lembrando as palavras do então cardeal Ratzinger: há tantos caminhos quantas as pessoas – há de aproximar-nos de Jesus, Caminho, Verdade e Vida. Com Ele experimentamos libertação, docilidade, prontidão, serviço. Não ameaça, atemorização. Jesus não olha para o inferno mas para o Céu, para o Pai.
       Ao longo dos séculos, muitos círculos eclesiais acentuaram o medo e à ameaça. As descrições do inferno pareciam ser testemunhos de quem lá tinha estado. O inferno era garantia da nossa vida. Era preciso fazer tudo para ganhar o céu, pelo sacrifício, pela mortificação, anulando-se como pessoas e colocando-se em atitude de subserviência, à espera que à custa de tantos sofrimentos Deus pudesse compadecer-se. É o contrário, o Céu é garantia e a vida eterna está aí como dom que nos responsabiliza com os outros.
       A vida, a pregação e a oração dos cristãos há de estar preenchida com ternura e o amor de Deus. Nãos se trata de negar a doutrina da Igreja, assente nas palavras e nos gestos de Jesus. Porém, seguindo-O, veremos a bondade e a filiação amistosa com o Pai. O inferno é uma possibilidade real. Deus leva-nos a sério, respeita a nossa liberdade e o nosso não. Mas como cristãos e como Igreja vivemos do amor de Deus. Jesus procura libertar, elevar, envolver. A Cruz é a assunção do amor levado até à última gota de sangue. Com a Sua ressurreição, Jesus coloca a nossa natureza humana na glória do Pai, de onde nos atrai e desafia.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4380, de 27 de setembro de 2016

terça-feira, 25 de outubro de 2016

VL – Um Deus bom destrói a religião?!

       A religião tem-se imposto pelo medo, pela ameaça, pela certeza de forças ocultas, poderosas, capazes de aniquilar o ser humano para sempre. Parece que quando maior o medo e o desconhecimento, maior o número dos que engrossam as fileiras da religião.
       Esta servirá para aplacar a ira dos deuses, para compensar, pelo sacrifício, as ofensas para com um deus-supremo, Juiz, Vigilante, Patrão, Todo-poderoso. 
       Será sempre mais fácil dizer que os padres destroem a religião.
       Quando se dispensam ou alteram certas tradições populares, logo as pessoas sublinham que os padres hão de destruir a religião. Bem entendido, nem seria assim tão mal, se estivermos a falar da religião assente mais nos méritos humanos do que na gratuidade da salvação de Deus oferecida a todos os homens.
       Neste ano jubilar tem-se acentuado o atributo maior de Deus, a Misericórdia, cujo Rosto é Jesus Cristo, nas palavras e nas obras, na vida e na morte, entendida como entrega até ao fim. Na Ressurreição de Jesus, a certeza do amor de Deus e da Sua misericórdia, que está acima de qualquer limitação.
       Para alguns, sublinhar demasiado a misericórdia de Deus pode levar à desconstrução da religião composta por uma série de exigências, sacrifícios, sujeita a ameaças, anúncios de cataclismos sempre e quando o ser humano não cumprir com a vontade de Deus.
       Por um lado, na Igreja como em outros movimentos religiosos, sempre que nos aproximamos do fim dos séculos ou do milénio, o medo que o mundo acabe gera mais pessoas à procura da proteção da religião. Se a ameaça termina, parece que as pessoas voltam às suas vidas e se esquecem de Deus e sobretudo se esquecem das suas obrigações com a comunidade. Poder-se-á agrafar aqui a máxima, só nos lembramos de santa Bárbara quando troveja.
       Por outro lado, Jesus Cristo destruiu efetivamente a religião passada e do passado. Aproximou-nos de Deus e fez com que Deus chegasse tão perto de nós que pudesse ser perseguido, maltratado, injuriado, e morto. Em Jesus, Deus assume as chagas da nossa fragilidade e as limitações do tempo e do espaço. Ao mesmo tempo, ultrapassa as fronteiras das religiões e do templo. Com Jesus, Deus está ao alcance da mão. É um Deus bom, misericordioso, compassivo. Mas quem disse que ternura não pode exigir e pressupor a justiça? A misericórdia de Deus acaricia-nos além do perdão dos pecados. Com efeito, o amor afasta o temor, como diz Santa Faustina no seu diário.
       No final, prender-nos-á mais o amor que o temor!

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4379, de 20 de setembro de 2016