terça-feira, 16 de agosto de 2016

VL – A luz que encadeia também ilumina

       Os tempos conturbados, sob ameaça constante do terrorismo, não trazem originalidade, a não ser pela extensão, pela globalização rápida da violência, pela generalização e visualização das agressões, das mortes… há desculpas e justificações que se repetem e há fundamentalismos que não olham a meios.
       O terrorismo é surpreendente. Atualmente é levado a cabo sem precisar de muita organização ou preparação. Acontece em qualquer lugar, a qualquer hora, sem qualquer suspeita. O vizinho do lado. Um membro da família. Alguém que frequenta os mesmos espaços culturais, sociais e lúdicos.
       Violência sempre existiu. Houve momentos na história em que as trevas fizeram perigar a luz e a esperança. Numa guerra convencional há algumas regras. Só se atacam os exércitos ou locais de armamento. Civis, mulheres, crianças são para proteger. Sabe-se quem são os beligerantes. O terrorismo não respeita ninguém, nenhuma regra, nenhuma conduta, nenhuma trégua.
       A desculpa da religião existiu no passado, por exemplo, nas Cruzadas, levadas a cabo pelos países católicos para “evangelizar” os países muçulmanos; a caça às bruxas nos países evangélico-protestantes. A luz que se queria impor afinal eram trevas que impediam a verdadeira luz, inclusiva, promotora da verdade, da paz, da justiça, do respeito pelos outros, pela sua cultura e pela sua idiossincrasia e bem longe da postura de Jesus.
        O Papa Francisco, por ocasião das Jornadas Mundiais da Juventude, voltou a insistir que as religiões promovem a vida, a paz e concórdia. Há grupos fundamentalistas islâmicos, como há grupos católicos fundamentalistas. Há que procurar a paz. Lutar pela justiça. Usar de misericórdia.
       A violência confunde. A ameaça constante traz insegurança e incerteza.
        A Europa continua a dizer-se cristã. Já pouco. Os símbolos cristãos foram escondidos, privatizados, disfarçados e assim muitas manifestações culturais que pudessem beber na fé, na religião, no evangelho. Deus morreu com Nietzsche, mas também com muitos líderes políticos, sendo substituído pelo relativismo, pela indiferença, pela igualdade de ideologias, de géneros, de religiões… uma mixórdia onde vale tudo. A Europa (e o Ocidente), cada vez menos cristã, foi uma civilização inclusiva, com muitos pecados ao longo dos tempos, mas que promoveu a inculturação. Hoje, em qualquer cidade, por mais pequena que seja, há pessoas de várias cores, religiões, etnias…
       É sempre necessário a vigilância e o cuidado para que prevaleça a vida, a verdade, a solidariedade, a inclusão de todos e especialmente dos mais frágeis. O medo que se está a implantar é contrário a uma civilização integradora, capaz de respeitar e até promover as diferenças, sem as anular ou esquecer.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4375, de 9 de agosto de 2016

Bodas de Ouro Matrimoniais em Pinheiros

       No domingo, 7 de agosto de 2016, na Igreja Matriz de Santa Eufémia de Pinheiros, 50 anos do Matrimónio de José Fernando e Olga, com a família e os amigos e com a comunidade paroquial. Convidados, para solenizar a celebração, o Grupo de Jovens de Tabuaço.
       Um dia especial para agradecer a Deus o dom da vida e da fidelidade, da vida em comum, com as suas tristezas e alegrias, com as suas lutas e canseiras, com os seus sucessos e as suas festas. 50 anos é um tempo com muita história e muitas estórias. Os filhos e os netos. A comunidade paroquial. Os amigos. Alguns dos que estiveram presentes há 50 anos voltaram a marcar presença. Outros já o Senhor chamou a Si.
       Durante a Eucaristia, o renovar das promessas matrimoniais, com a bênção das novas alianças, sinais de uma aliança para permanecer. No momento de Ação de graças, uma das netas, a Bárbara, ladeada pelos outros netos, agradeceu aos avós e recordou alguns momentos importantes em família.
        Algumas imagens recolhidas pelo GJT e o convite:
Para outras fotos visitar a página da Paróquia de Pinheiros no Facebook

Leituras: FÁTIMA LOPES - A VIAGEM DE LUZ E QUIM

 FÁTIMA LOPES (2009). A viagem de Luz e Quim. Lisboa: Esfera dos Livros. 176 páginas.
       A leitura deste livro é suave, fácil, profunda, enriquecedora.
       Na contracapa a apresentação da história:
"Anos 50. Luz e Quim, duas crianças de 10 e 9 anos, vivem numa pequena aldeia de Portugal entre as dificuldades da vida do campo e a alegria de uma infância feliz passada entre os deveres da escola e os jogos da rua.
Quim decide seguir as pisadas do pai e trabalhar no campo de sol a sol. O medo bloqueia-lhe a ambição. Luz sonha com um futuro diferente. A certeza de que é capaz de melhor leva-a a entrar na camioneta do Tio Abílio e partir rumo à cidade, ao desconhecido. Fá-lo com o coração apertado de saudades, mas confiante de que a vida lhe vai dar tudo aquilo que ela mais deseja. A vida é uma viagem repleta de desafios que apenas surgem porque estamos prontos para enfrentá-los".
Recolhemos, na nossa leitura, algumas expressões luminosas:
"Sempre com os pés bem assentes no chão, os horizontes bem definidos e a certeza de que mereço melhor. Só abrindo-me a receber tudo o que a vida tem de bom me dar, sou capaz de ajudar os outros".
"É mais útil na nossa vida um estado de tristeza por causa de uma verdade do que um estado de alegria por causa de uma mentira. A pessoa que não sabe respeitar opiniões diferentes das suas perde constantemente a oportunidade de evoluir".
"Tudo é possível. Depende só da nossa cabeça e das pessoas que escolhemos para o nosso universo".
"Acredita em ti, reconhece tudo o que tens de bom e tudo o que tens capacidade de concretizar. Os outros só reconhecerão o teu valor, se tu o reconheceres primeiro".
"Uma pessoa que não sonha, não evolui, não vive coisas novas, não passa da cepa torta. São realmente os sonhos que comandam a vida. Quando se deseja e acredita muito numa coisa, ela acontece e no momento certo. Mas acontece, se for melhor para nós, porque às vezes a vida está preparada para nos dar ainda mais do que sonhámos. Temos de ser positivos, porque isso abre portas".
"A vida anda sempre para a frente, mesmo quando o coração pede para que paremos o tempo".
"Está tudo dentro de ti, da tua cabecinha. As pessoas que se perderam foram aquelas que usaram as suas cabeças contra elas próprias".
"Se alguém viveu uma situação negativa, isso teve a ver com a sua forma de pensar e funcionar. Não quer dizer que tu vais viver a mesma coisa. Portanto não projectes a tua vida em função da dos outros. Escuta-te a ti, ao teu interior e projecta o que realmente queres para ti e acreditas ser o melhor".
"Não desperdices o teu tempo com críticas. Aprende a interpretar o que te acontece e lembra-te sempre que é mais uma oportunidade de evoluíres"
"O medo bloqueia tudo, só serve para atrasar a nossa vida e ainda por cima tem o poder de criar aquilo de que temos medo".

VL – A luz que ilumina também encandeia

       “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; habitavam numa terra de som­bras, mas uma luz brilhou sobre eles” (Is 9, 1). Este texto do profeta Isaías é lido e relido no Natal, sublinhando que Jesus é essa LUZ: “O Verbo era a Luz verdadeira, que, ao vir ao mundo, a todo o homem ilumina... E a Vida era a Luz dos homens. A Luz brilhou nas trevas, mas as trevas não a receberam” (Jo 1, 4-5.9). Jesus é Luz que ilumina todo o homem! Logo acrescenta São João: nem todos se abrem à Luz verdadeira.
       Jesus vem libertar-nos de toda a espécie de escravidão, das superstições, do medo em relação às forças da natureza e a um Deus-Juiz iníquo, pondo a descoberto também aqueles que em nome da política ou da religião usurpam o lugar de Deus e espezinham aqueles que deveriam ajudar e servir.
       Jesus traz esperança. Devolve a dignidade às pessoas. Dá coragem aos mais frágeis para não desistirem dos seus sonhos e lutarem pelos seus direitos. O obstáculo nunca poderá ser Deus, que é Pai. Deus não pode ser nem desculpa nem justificação para amordaçar, para controlar, para subjugar, para agredir, para matar. Jesus leva até ao fim este propósito. Morre por amor, para nos libertar, para nos devolver por inteiro à nossa filiação divina, com a força de nos irmanar.
       O mundo ocidental levou tempo a assimilar esta mensagem libertadora e luminosa. A cristandade viveu momentos de trevas, de preconceito, sob ameaças do inferno. Contudo, a revolução francesa como a globalização cultural, as democracias modernas como a luta pela igualdade entre os géneros foram possíveis num mundo amplamente cristianizado.
       Hoje convivem no mundo judaico-cristão pessoas de todas as cores, raças, culturas, religiões. Verificou-se, porém, que o chão que se tinha como cristão permitiu duas guerras mundiais, a crise económico-financeira, que tem sacrificado milhões de pessoas, a crise dos refugiados, os atos terroristas. Não a LUZ mas as trevas. A luz não leva ao mal, mas o mal pode querer de regresso as trevas, a desconfiança, o medo, o preconceito. É um medo que se espalha pela violência gratuita perpetrada por interesses encapotados, como sublinhou o Papa Francisco, a caminho das Jornadas Mundiais da Juventude, na Polónia: encontramo-nos em guerra, mas não de religiões, mas de interesses estranhos e egoístas.
       O mal não vem da LUZ. Esta pode erradicar as trevas. Todavia, pode encandear aqueles que vivem nas trevas. As obras das trevas desejam trevas.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4374, de 2 de agosto de 2016

A Deus tudo é possível

       Disse Jesus aos seus discípulos: «Em verdade vos digo: Um rico dificilmente entrará no reino dos Céus. É mais fácil passar um camelo pelo fundo duma agulha do que um rico entrar no reino de Deus». Ao ouvirem estas palavras, os discípulos ficaram muito admirados e disseram: «Quem poderá então salvar-se?». Jesus olhou para eles e respondeu: «Aos homens isso é impossível, mas a Deus tudo é possível». Então Pedro tomou a palavra e disse-Lhe: «Nós deixámos tudo para Te seguir. Que recompensa teremos?». Jesus respondeu: «Em verdade vos digo: No mundo renovado, quando o Filho do homem vier sentar-Se no seu trono de glória, também vós que Me seguistes vos sentareis em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel. E todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou terras, por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá como herança a vida eterna. Muitos dos primeiros serão os últimos e muitos dos últimos serão os primeiros» (Mt 19, 23-30).
        A salvação é dom de Deus. É Ele que toma a iniciativa: cria-nos por amor e por amor nos salva, enviando-nos Jesus Cristo, Seu Amado Filho, que pela Sua vida, morte e ressurreição nos abre as portas da ressurreição e da comunhão plena com Deus, na eternidade.
       Deste modo, a salvação não é um direito ou uma prerrogativa de alguém, de algum povo ou de alguma religião. A religião é um espaço privilegiado para a descoberta e o encontro com Deus, mas ainda assim o Espírito Santo sopra onde quer, como refere o próprio Jesus.
       ... e ainda bem que a salvação não é um direito de alguém, porque poderia ser usurpado, manipulado, usado em beneficio próprio...

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

VL - Paciência que gera vida. Paciência pró-ativa

       Temos pressa e queremos resultados imediatos. Bento XVI, no início do Seu pontificado, dizia de uma forma muito acessível, que a nossa pressa destrói, precipita-nos. A paciência de Deus, que brota do amor, da compaixão, da Sua misericórdia infinita, constrói. Deus é paciente, espera por nós. Sempre.
       Diante de situações complexas e difíceis, apela-se à paciência, à resignação, sugerindo-se que é uma atitude cristã. Resignação aqui entendida como demissão, indiferença, desistência. Porém, a paciência/resignação, em sentido cristão, exige força, persistência, luta. Sofrer com paciência as ofensas do próximo. Uma das obras de misericórdia. Criar distanciamento face a situações difíceis, não desistir à primeira contrariedade, não desistir das pessoas, tentar compreender quem é diferente e aceitar as próprias imperfeições para aprender a aceitar as falhas dos outros, sorrir quando não se tem uma resposta adequada, rir de si mesmo, não se levar demasiado a sério, como nos lembrava Bento XVI, pois isso pesa-nos e não nos deixa voar.
       A paciência é um dos qualificativos da caridade, segundo São Paulo. Somos pacientes não por desistência mas por amor, não por resignação passiva, mas por resiliência. Insistimos uma e outra vez. Lutamos contra o mal, a doença, o sofrimento, as injustiças, a corrupção, as situações de miséria provocadas pela prepotência; aprendemos a calar quando a nossa voz é ruído, para falarmos por quem não tem voz; calamo-nos, num sentido ainda mais cristão, para que fale Jesus Cristo.
       O mal, a doença e o sofrimento desafiam-nos e a resignação (passiva) nunca é uma opção. Só o será depois de termos feito tudo o que está ao nosso alcance para superar as adversidades. O mal deve ser combativo. Devemos procurar a cura, quando as doenças são curáveis. Devemos enfrentar o sofrimento, eliminando as suas causas ou minorando os seus efeitos. Uma resignação que nos demita da luta e do compromisso nem é humana e muito menos cristã.
       Posto isto, o reconhecimento de situações que nos escapam e para as quais não temos nem justificações nem soluções. Fazem parte da condição biológica e da fragilidade humana. Uma vida perfeita, imaculada, impassível, só seria possível se fôssemos Deus, que sofre por excesso de amor. Quem ama sofre. Sofre por se deparar com o sofrimento de quem se ama. A paciência de Deus faz-Se de dádiva, de presença, de compaixão. Olhando para o Seu povo, Deus não Se retira, não Se afasta, não fica indiferente. O pobre clamou e o Senhor ouviu a sua voz. Chegada a plenitude do tempo, dá-nos o Seu próprio Filho.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4363, de 17 de maio de 2016

VL - Paciência que gera vida. Paciência pró-ativa - 2

       Na Exortação Apostólica «Amoris Laetitia», o Papa Francisco, fala da pressa e da ansiedade que destrói e da necessidade de educar a paciência, a espera. Tudo tem o seu tempo e seu lugar. Apressar não permite saborear a vida nem o caminho a percorrer. Ter tudo de mão beijada, sem esforço e sem sabor. Daí a vacuidade de tantas vidas, pois tudo acaba por não ter sentido. Rápido chega e rápido se perde. Já dizem os mais velhos, o que não custa a ganhar não custa a gastar! Assim também a vida, o que não exige esforço e dedicação logo se desvaloriza.
       «Na época atual, em que reina a ansiedade e a pressa tecnológica, uma tarefa importantíssima das famílias é educar para a capacidade de esperar. Não se trata de proibir as crianças de jogarem com os dispositivos eletrónicos, mas de encontrar a forma de gerar nelas a capacidade de diferenciarem as diversas lógicas e não aplicarem a velocidade digital a todas as áreas da vida».
       De forma ponderada, sem dogmatismos, mas firme e desafiador: «O adiamento não é negar o desejo, mas retardar a sua satisfação. Quando as crianças ou os adolescentes não são educados para aceitar que algumas coisas devem esperar, tornam-se prepotentes, submetem tudo à satisfação das suas necessidades imediatas e crescem com o vício do ‘tudo e súbito’. Este é um grande engano que não favorece a liberdade; antes, intoxica-a. Ao contrário, quando se educa para aprender a adiar algumas coisas e esperar o momento oportuno, ensina-se o que significa ser senhor de si mesmo, autónomo face aos seus próprios impulsos. Assim, quando a criança experimenta que pode cuidar de si mesma, enriquece a própria autoestima. Ao mesmo tempo, isto ensina-lhe a respeitar a liberdade dos outros. Naturalmente isto não significa pretender das crianças que atuem como adultos, mas também não se deve subestimar a sua capacidade de crescer na maturação duma liberdade responsável. Numa família sã, esta aprendizagem realiza-se de forma normal através das exigências da convivência».
       É conhecida a estória da laranja. Leva tempo até amadurecer. Pode ter o tamanho de uma laranja e ter uma cor aproximada do que será no final. Mas é insuficiente, se por dentro continuar verde. Será intragável. A laranja leva o seu tempo, a crescer, a amadurecer, precisa de sol e de chuva, como outros frutos, e de tempo. Mesmo que se expusesse a mais calor, não amadurecia nem produziria mais sumo. Há um tempo para tudo.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4364, de 24 de maio de 2016

VL - Paciência que gera vida. Paciência pró-ativa - 3

       A paciência pró ativa procura o tempo mais favorável, na espera ou criando as condições necessárias para fazer a vida acontecer.
       É de todos conhecida a parábola de Jesus: «Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi procurar os frutos que nela houvesse, mas não os encontrou. Disse então ao vinhateiro: ‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira e não os encontrou. Deves cortá-la. Porque há de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’. Mas o vinhateiro respondeu-lhe: ‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo. Talvez venha a dar frutos. Se não der, mandá-la-ás cortar no próximo ano».
       Deus ama-nos, infinita, pacientemente. A paciência de Deus constrói, espera por nós, aguarda a nossa conversão, respeita a nossa liberdade, as nossas escolhas, não nos abandona, mesmo em situações em que nós O arredamos da nossa vida, em situações em que não damos fruto. Deus continua a esperar, a cuidar de nós, a tratar-nos como filhos, a ver se damos fruto. Deus é lento para a ira e rico de misericórdia, "é um Deus clemente e compassivo, sem pressa para Se indignar e cheio de misericórdia e fidelidade" (Ex 34, 6).
       Noutra parábola, Jesus expressa a necessidade de esperar para não correr o risco de destruir juntamente o bem e o mal. «O reino dos Céus pode comparar-se a um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi-se embora. Quando o trigo cresceu e começou a espigar, apareceu também o joio». Apercebendo-se do que está a acontecer logo os seus servos querem cortar o mal pela raiz. Então o senhor diz-lhes: "Não! Não suceda que, ao arrancardes o joio, arranqueis também o trigo" (Mt 13, 24-43).
       Escutemos o Papa Francisco: "Transitar em paciência implica aceitar que a vida é isso: uma aprendizagem contínua. Quando uma pessoa é nova, julga que pode mudar o mundo; e isso está certo, tem de ser assim. Mas, depois, quando procura, descobre a lógica da paciência na própria vida e na dos outros. Transitar em paciência é assumir o tempo e deixar que os outros façam a sua vida. Um bom pai, tal como uma boa mãe, é aquele que vai intervindo na vida do filho o suficiente para lhe marcar as pautas de crescimento, para o ajudar, mas que depois sabe ser espetador dos fracassos próprios e alheios, e os supera".

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4366, de 7 de junho de 2016

domingo, 14 de agosto de 2016

VL - A nossa grande Alegria é Jesus Ressuscitado

       A Alegria do Evangelho centra-se na Pessoa de Jesus.
       Somos cristãos a partir do encontro pessoal e libertador com Jesus Cristo.
       Fomos batizados, na água e no Espírito Santo, a maioria de nós, quando ainda não sabíamos o que era a vida ou a fé, ou quem era Jesus. Fomos-Lhe apresentados e oferecidos, para ficarmos ao cuidado do Seu amor e da Sua bênção. Pelo batismo, os nossos pais e padrinhos e a comunidade crente assumiram a missão de nos educar na fé cristã, para amarmos a Deus e ao próximo como Ele nos ensinou. Tornámo-nos Corpo de Cristo, Ele a Cabeça, nós os membros. Pedras vivas do templo do Senhor que é a Igreja, novo Povo de Deus, convocado pela Palavra e pelos Sacramentos que nos sintonizam e agrafam com o mistério da morte e ressurreição de Jesus.
       A nossa infância foi validando, no ambiente familiar e na ligação à comunidade paroquial, a descoberta de Jesus, com fórmulas, orações, e as muitas histórias de Jesus e sobre Jesus.
        Quando termina o ano de catequese, em muitas das nossas comunidades paroquiais, voltam as inquietações e o tempo de avaliar o trabalho realizado. Será que conseguimos semear nas crianças e nos adolescentes o desejo de se encontrarem com Jesus? E nós, já nos encontrámos pessoalmente com Ele? Como vivemos e testemunhamos a nossa fé? Doutrinamos ou provocamos a procura de um Deus Misericordioso que Se envolve com a nossa história, com as nossas alegrias e tristezas, comprometendo-nos com os outros, na luta pela justiça, agindo solidariamente? Jesus vive entre nós? Sentimo-l’O no dia-a-dia das nossas escolhas? Ou ficou no passado da nossa história?
       Em Lisboa, no Terreiro do Paço, a 11 de maio, o Papa Bento XVI sublinhava que "o Ressuscitado oferece-Se vivo e operante, por nós, no hoje da Igreja e do mundo. Esta é a nossa grande alegria. No rio vivo da Tradição eclesial, Cristo não está a dois mil anos de distância, mas está realmente presente entre nós e dá-nos a Verdade, dá-nos a luz que nos faz viver e encontrar a estrada para o futuro... Para isso é preciso voltar a anunciar com vigor e alegria o acontecimento da morte e ressurreição de Cristo, coração do cristianismo, fulcro e sustentáculo da nossa fé, alavanca poderosa das nossas certezas, vento impetuoso que varre qualquer medo e indecisão, qualquer dúvida e cálculo humano. A ressurreição de Cristo assegura-nos que nenhuma força adversa poderá jamais destruir a Igreja".

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4368, de 21 de junho de 2016

Assunção de Nossa Senhora ao Céu - 15.agosto.2016

       1 – "Deus eterno e omnipotente, que elevastes à glória do Céu em corpo e alma a Imaculada Virgem Maria, Mãe do vosso Filho, concedei-nos a graça de aspirarmos sempre às coisas do alto, para merecermos participar da sua glória".
       A oração que rezamos na Eucaristia neste dia condensa o que celebramos, desafiando-nos a fixarmo-nos na meta, a glória de Deus, onde já se encontra coroada como Rainha, ornada do ouro mais fino, Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe. Ela, Virgem Imaculada, deu-nos Jesus Cristo, Rosto e Transparência da Misericórdia do Pai. Com Ela aprendemos a acolher e a gerar Jesus. N'Ela, Deus mostra-nos como chegar à Sua glória. Ela é a Porta do Céu, a Estrela da Manhã, o Refúgio dos pecadores. Deus quis que a honrássemos, acolhendo-A como Mãe. No seu SIM, o nosso sim.
       2 – É muito ilustrativo que o Evangelho escolhido para este dia solene seja o da Visitação. A cheia de Graça, que achou graça diante de Deus, corre apressadamente para a montanha ao encontro da Sua prima Santa Isabel, que se encontra grávida, também por uma intervenção extraordinária de Deus. Maria corre como mensageira de boas novas.
       São Lucas põe-nos a correr com Maria. Por um lado, a pressa em auxiliar quem se encontra mais frágil. Por outro, a alegria do evangelho é o verdadeiro motivo daquela pressa, como muitas vezes tem sublinhado o nosso Bispo, D. António Couto. Com efeito, Maria corre para se encontrar com Isabel e nesse encontro a alegria e o louvor vêm ao de cima. Isabel extravasa tal júbilo: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor? Na verdade, logo que chegou aos meus ouvidos a voz da tua saudação, o menino exultou de alegria no meu seio. Bem-aventurada aquela que acreditou no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor».
       A resposta de Maria surge em forma de oração, o Magnificat, louvando Deus: «A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da sua serva: de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas: Santo é o seu nome. A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem. Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência para sempre».
       Logo depois a informação do evangelista de que Maria ficou junto de Isabel cerca de três meses e regressou a sua casa. Nem terá esperado pelo nascimento de João Batista, que é narrado depois. Esta estadia e este tempo evocam a presença da Arca da Aliança, cerca de três meses, na casa de Obed-Edom (2 Samuel 6,11) antes de ser transportada para a cidade santa.
       3 – A palavra de Deus convoca-nos a ser, como Maria, anunciadores da Boa Notícia da salvação. Cristo está a chegar. Há de chegar connosco. Com as palavras que trazemos e com a vida que geramos, com o fruto que multiplicamos, partilhando o que temos e o que somos.
       No evangelho da vigília, uma mulher, do meio da multidão, diz a Jesus: «Feliz Aquela que Te trouxe no seu ventre e Te amamentou ao seu peito». Logo Jesus lhe lembra, e a nós também: «Mais felizes são os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática» (Lc 11, 27-28).
       Por aqui se compreende que o privilégio único de Maria, a Imaculada Conceição, é, em parte, partilhável connosco. Deus cria-nos por amor e por amor nos sustenta. A Encarnação é a favor de toda a humanidade. O universal só é tangível no particular e no concreto. Deus dá-Se por inteiro assumindo a fragilidade humana, com o concurso da Virgem Imaculada, que Ele prepara desde sempre. Deus também conta connosco para gerarmos Jesus Cristo e comunicarmos a alegria do Evangelho, através da nossa vida e da nossa voz.
       Jesus clarifica as condições que fazem de nós a Sua família. Escutar a Palavra de Deus e agir em conformidade com a vontade de Deus. Desta forma nos tornamos Seus familiares.
       Maria escuta a Voz de Deus, pelo Anjo Gabriel, e põe-se em campo, rapidamente, para levar Jesus mais longe, para O dar a conhecer. Ainda Se desenvolve no seu ventre e já Ela quer que outros experimenta a Alegria pela presença de Deus no mundo!
       4 – Maria é Mãe de Jesus. É Mãe da Igreja. É nossa Mãe. É Estrela que nos guia. É esperança que nos fortalece no nosso peregrinar. É consolo nas tribulações. É a Casa em que nos podemos encontrar como irmãos e descobrir como família. Ela precede-nos no acolhimento de Jesus, gera-O no seu ventre virginal, partilha-O para que outros possam experimentar a Alegria de se encontrarem com Deus. O Sim ao Anjo vai sendo atualizado na delicadeza e na atenção aos que necessitam de mais cuidado, a Sua prima Isabel, os noivos de Caná da Galileia, na proximidade a Jesus, ao longo da Sua vida pública, mas com maior visibilidade na via-sacra e junto à Cruz. Sempre perto para acudir, para acolher o olhar de Jesus, para Lhe dar força, encorajando-O. É-lhe confiado após a morte. Primeiro, Deus confia-lhe o Seu Filho, que Ela acolhe no seu ventre e depois no seu colo de Mãe. Depois, entregam-lhe o Filho morto, que mais uma vez toma em seus braços. Segue-O para o túmulo onde o seu corpo é depositado. Espera-O, em casa, congregando os discípulos em oração. Está lá, quando Jesus aparece ressuscitado e Se coloca no Meio dos Seus discípulos!
       A Igreja é o Corpo de Cristo, do qual Ele é a Cabeça e nós os membros. Maria é a Mãe da Igreja, pois é a Mãe de Jesus. Não é Mãe de uma parte, mas Mãe de Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Ela é também a primeira discípula de Jesus. Começa a sintonizar com Ele, quando silenciosamente Se forma no seu ventre. Não cessará de O escutar, de O seguir, como víamos, até ao fim, até à eternidade.
       No livro do Apocalipse, a belíssima imagem da Mulher coroada de 12 estrelas. É a imagem da Igreja, mas também identificada com Maria, aquela que gera e dá à luz o salvador do mundo. "Apareceu no Céu um sinal grandioso: uma mulher revestida de sol, com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça. Estava para ser mãe e gritava com as dores e ânsias da maternidade… Ela teve um filho varão, que há de reger todas as nações com cetro de ferro... E ouvi uma voz poderosa que clamava no Céu: «Agora chegou a salvação, o poder e a realeza do nosso Deus e o domínio do seu Ungido».
       Maria abre o mundo para Deus nascer em nós e nascer como um de nós, na nossa carne humana. Cristo, com a Sua ressurreição, abre-nos o Céu, para o Qual Maria foi elevada e nós, no seu devido tempo, também o seremos.

       5 – O reino novo, onde todos cabem, a mesa para qual todos são convidados, começa a irromper. A vida e sobretudo a morte e ressurreição de Jesus abrem-nos em definitivo, de par em par, as portas do Céu, dando-nos livre-trânsito para a misericórdia divina. Já não caminhamos às apalpadelas pelo escuro da noite, mas à plena Luz do dia. Jesus é a nossa luz, que nos ilumina e nos guia para o Pai.
       No seio de Maria, revestida de graça, Deus abaixou-Se, fazendo-Se um de nós, Jesus Cristo, Deus humanado, diminui-Se para que O possamos ver, O possamos amar, O possamos seguir, e, no final, vamos perceber, até O podemos perseguir, injuriar, podemos matá-l'O. Mas não podemos destruir o Seu amor por nós. Deus Pai O ressuscita, ressuscitando o Seu projeto de vida nova e bela, para gerar fraternidade, contando connosco.
       São Paulo, a quem um dia Jesus surpreendeu, não cessa de anunciar Jesus, morto e ressuscitado: «A morte foi absorvida na vitória. Ó morte, onde está a tua vitória? Ó morte, onde está o teu aguilhão?» (1 Cor 15, 54b-57). "Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram. Uma vez que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos; porque, do mesmo modo que em Adão todos morreram, assim também em Cristo serão todos restituídos à vida".
       A solenidade da Assunção, permite-nos, como filhos diletos, honrar a Virgem Mãe, procurando escutá-l'A para cumprirmos com alegria o seu mandato: "Fazei tudo o que Ele vos disser". E se fizermos tudo o que Ele nos disser, será para nosso bem. Assumindo-O em vida, como Maria, Ele nos assumirá na eternidade, junto do Pai, como a Maria, Sua e nossa Mãe.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia: Ap 11, 19a; 12, 1-6a. 10ab; Sl 44 (45); 1 Cor 15, 20-27; Lc 1, 39-56.

sábado, 13 de agosto de 2016

Domingo XX do Tempo Comum - ano C - 14 de agosto

       1 – Seguir Jesus é a vocação primeira do cristão. Seguir e amar. Seguir Jesus, implica amá-l'O. Não podemos seguir quem não amamos. Não amamos para ficarmos de braços cruzados a ver se chove! Amando-O, acima de tudo, segui-l'O-emos em todos os momentos da vida. Amar e seguir Jesus implica-nos por inteiro, compromete-nos com a Sua Palavra, com o Seu mandamento de amor, de tal forma que a intimidade com o Pai, imitando-O, transpareça no cuidado e no serviço ao nosso semelhante.
       Seguir Jesus acarreta riscos. Renunciar a si mesmo. Não à sua identidade mais profunda, mas ao que mais facilmente vem ao de cima. Renunciar à aparência. Renunciar ao egoísmo. Centrar a vida em Cristo, ocupando-se dos outros. Amar, cuidar, servir. Para encontrar Jesus em cada pessoa. Para se dar a Jesus, nos outros, como Jesus Se deu, por inteiro, a favor da humanidade. Por nós. Para nossa salvação. Mistério de vida nova. Morte e ressurreição. De braços abertos na cruz. Levantada para o céu, fixada na terra. Braços abertos para abraçar, acolher, envolver, desafiar, enviar. Hoje, os braços de Jesus são os meus e os teus, os nossos. Ele não tem outros braços nem outro olhar nem outro coração nem outro colo. É o meu e o teu, o nosso coração que ama e se dá. A nossa vida acolhida, partilhada, comungada, oferecida. Todo o dom é para dar!
       Vai valer a pena. Com sacrifícios. Incompreensões. Contando com a maledicência. Vai valer a pena, pois Ele agirá em nós. Segui-l'O implica que, como Ele, abramos os braços e estendamos as mãos e demos ao pedal para procurarmos e encontramos os outros. Ele vem. Assume-Se um connosco, Um de nós. Vem e percorre o nosso caminho, a nossa vida. Experimenta a dor, o sofrimento, a calúnia, a perseguição, as ofensas, experimenta o suplício da cruz. Vive e enfrenta o medo da dor física e da iminência da morte. Confia-Se ao Pai. Entrega-Se por inteiro nas mãos do Pai. Confiando n'Ele, confia-nos a Ele. Por amor. Amor que vence o medo e a morte e as trevas, abrindo os céus por completo, em definitivo. 
       2 – «Eu vim trazer o fogo à terra e que quero Eu senão que ele se acenda? Tenho de receber um batismo e estou ansioso até que ele se realize. Pensais que Eu vim estabelecer a paz na terra? Não. Eu vos digo que vim trazer a divisão. A partir de agora, estarão cinco divididos numa casa: três contra dois e dois contra três. Estarão divididos o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra».
       Dou-vos a paz, deixo-vos a paz. A paz que vos dou não é a paz do mundo.
       As palavras de Jesus sublinham uma paz que brota do amor, da garra em viver a vida e viver em prol da justiça e da verdade. Obviamente que Jesus nos dá a paz. Ele é o nosso descanso, o Bom Pastor, que nos redime e nos congrega em um só rebanho. Mas a paz, como o amor, a verdade, a misericórdia, compromete-nos e desafia-nos. Não é passividade de quem cruza os braços a ver a maré passar. É luta e compromisso com o bem de todos. E quem luta por mais justiça, mais honestidade, mais verdade, sabe de antemão que vai encontrar resistências, obstáculos, contrariedades.
       Quem não quer chatices cruza os braços e, qual avestruz, enterra a cabeça na areia para não ver. A paz de Jesus é fogo que interpela, que nos responsabiliza uns pelos outros e por toda a criação. A paz autêntica só será possível quando todos estiverem bem. Por um lado, realiza-se em definitivo na vida eterna. Por outro, é efetivada aqui e agora em dinâmica de serviço solidário, especialmente aos mais frágeis.
       O batismo de Jesus (inicia no Jordão) completa-se na Cruz. Ele adentra-se no sofrimento humano, até ao limite das forças. De peito aberto às injúrias, blasfémias, aos insultos. Peito aberto para nos acolher, para Se nos oferecer. Morre "substituindo-nos" como oferenda definitiva ao Pai. Não que o Pai precise que Se aplaque a Sua ira, mas para que a Sua misericórdia seja clarificada para nós e possamos voltar à vida e à comunhão uns com os outros, em Deus. Morre connosco, para nos ressuscitar com Ele. É o Seu batismo definitivo no qual somos enxertados pelo nosso batismo, sacramento que nos faz morrer para o pecado e para a morte e nos faz ressuscitar, novas criaturas, para o bem e felicidade, para a comunhão reconciliada pela Seu amor.
       3 – A primeira leitura traz-nos uma belíssima página sobre a vida e a missão de Jeremias. É um dos profetas maiores do judaísmo. E herança comum para judeus e cristãos. Um profeta que apela à interioridade, à conversão e a agir em conformidade com os mandamentos de Deus. De pouco ou nada vale fazer sacrifícios, oferecer holocaustos, se a vida não se modifica e se as injustiças e desonestidades continuam a ser o pão de cada dia.
       Há que voltar o olhar, o coração e a vida para Deus e n'Ele procurar as forças, a sabedoria e a humildade para amar, servir, para congregar. As suas palavras inquietam e provocam, desafiam e denunciam os que estão à frente do povo, do rei aos líderes religiosos cujos intentos não é servir o povo, especialmente os pobres, mas servirem-se, explorarem, sem se incomodarem com o sofrimento alheio. As suas maquinações desagradam a Jeremias e bradam aos céus. E não já apenas as suas palavras, mas a sua vida é de tal forma luminosa que põe a descoberto a injustiça e a perversão do rei, dos seus conselheiros, dos líderes políticos e religiosos. Basta olhar para uns e outros e vê-se claramente o que os distingue. Para quem vive nas trevas, a luz é agressão!
       Jeremias é uma pedra no sapato. É luz que expõe as trevas. É um adversário a abater.
       Os ministros pedem ao rei que lhe dê a morte: «Esse Jeremias deve morrer, porque semeia o desânimo entre os combatentes que ficaram na cidade e também todo o povo com as palavras que diz. Este homem não procura o bem do povo, mas a sua perdição». O rei não se opõe: «Ele está nas vossas mãos; o rei não tem poder para vos contrariar». Faz-nos lembrar um episódio posterior, o de Pilatos. Lavo as mãos. Fazei como vos aprouver. Mas quem não age, por comodismo, também é responsável pelo mal realizado. A tal paz e passividade que não humanizam. Os ministros e seus sequazes prendem Jeremias e fazem-no descer a uma cisterna, onde morreria atolado no lodo, sem pão para comer.
        Um estrangeiro, o etíope Ebed-Melc, intervém junto do rei denunciando os que fizeram mal a Jeremias, metendo juízo ao rei de quem obtém permissão para tirar o profeta da cisterna.
       Os que lutam pela paz, pela justiça, pela verdade, sabem que podem ser injuriados, maltratados, perseguidos e mesmo mortos, como aconteceu com Martim Luther King, com Mahatma Gandhi, com Dom Óscar Romero, mas ainda assim não cedem à violência nem à injúria.
       4 – O autor da Epístola aos Hebreus fala-nos da fé como um combate. Vem-nos à lembrança as palavras de São Paulo que caracteriza a sua vida e missão como um combate da fé, anunciando o Evangelho e vivendo de acordo com Jesus Cristo, em tudo, procurando que Ele seja tudo em todos.
       O bom combate da fé, a perseverança, o compromisso com a verdade, conduz à Cruz. Deixando o pecado, fixemo-nos em Jesus que suportou a Cruz, por amor, mas agora vive na glória do Pai. Portanto, refere a carta aos Hebreus, "pensai n’Aquele que suportou contra Si tão grande hostilidade da parte dos pecadores, para não vos deixardes abater pelo desânimo. Vós ainda não resististes até ao sangue, na luta contra o pecado". Ainda estamos a caminho.
       Não estamos sozinhos. É n'Ele que nos apoiamos. É Ele que nos atrai. Para a Cruz? Não, para a Misericórdia, para o bem, para o amor! Todavia, sabemos a priori que todo o compromisso exige esforço, sacrifício, renúncia e está sujeito ao sofrimento. Quem se sujeita a amar, sujeita-se a padecer.
       Da Palavra de Deus, a certeza que Ele não nos abandona, antes nos sustenta. "Esperei no Senhor com toda a confiança e Ele atendeu-me. Ouviu o meu clamor e retirou-me do abismo e do lamaçal, assentou os meus pés na rocha e firmou os meus passos" (salmo).


Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia (C): Jer 38, 4-6. 8-10; Sl 39 (40); Hebr 12, 1-4; Lc 12, 49-53.

VL – Etty Hillesum - a oração enraíza-nos em Deus

       Parafraseando Ortega Y Gasset, a pessoa é com as suas circunstâncias. Certamente. Tudo o que nos rodeia nos influencia. Tempo. As pessoas. As situações luminosas ou obscuras. Até a forma de acordar, ou a roupa que se veste, o descanso ou a falta dele. Uma palavra, um sorriso, a presença de alguém que estimamos, podem alterar positiva ou negativamente o nosso dia.
       Porém, o essencial é a atitude com que encaro a vida, as pessoas, os acontecimentos do tempo presente. Mudamos conforme as circunstâncias ou procuramos que as circunstâncias, ainda que contem, não definam, em definitivo, a nossa personalidade?
       Hillesum sabe que, mais dia, menos dia, será levada para o campo de extermínio, como outros judeus, para ser morta. Desabafa confiante: “Estamos em casa. Estamos em casa sob céu. Estamos em casa em qualquer lugar, se trouxermos tudo dentro de nós. Muitas vezes me tenho sentido, e ainda sinto, como um navio que transporta a bordo uma carga preciosa: os cabos são cortados e agora o navio parte, livre para navegar por toda a parte. Temos de ser a nossa própria pátria”.
        E quando não restar mais nada?
        “Quando a borrasca for demasiado forte, e eu já não souber como escapar, restar-me-ão sempre duas mãos juntas e um joelho dobrado. É um gesto que a nós, judeus, não foi transmitido de geração em geração. Tive de aprendê-lo a custo… Como é estranha a minha história – a história de uma rapariga que não se sabia ajoelhar. Ou, com uma variante: da rapariga que aprendeu a rezar. É o meu gesto mais íntimo”.
       A oração é a casa de Etty Hillesum. Onde se encontra e onde encontra Deus. “De repente, compreendi como uma pessoa, com o rosto escondido atrás das mãos juntas, pode deixar-se cair violentamente de joelhos e depois ter paz… Devo tornar-me mais simples, deixar-me viver um pouco mais. Agora sei qual a minha cura: acocorar-me a um canto e escutar aquilo que tenho dentro de mim própria”.
       E se o mundo conhecido desaparecer?
       “Falarei contigo, meu Deus. Posso? Como as pessoas vão desaparecendo, não me resta outra coisa senão o desejo de falar contigo. Amo assim tanto os outros porque em cada um deles amo o pedacinho de Ti, meu Deus. Procuro-Te em todos os homens e, frequentemente, encontro neles alguma coisa de Ti. E procuro desenterrar-Te do seu coração, meu Deus”.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4373, de 26 de julho de 2016

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

VL – Enraizados em Deus, para ver além do mal

       No dia 13 de fevereiro de 2013, Quarta-feira de Cinzas, dois dias depois de anunciar a renúncia ao pontificado, Bento XVI apresentava figuras cujas conversões são testemunho e interpelação. Uma dessas figuras proposta é “Etty Hillesum, uma jovem holandesa de origem judaica, que morrerá em Auschwitz. Inicialmente distante de Deus, descobre-o olhando em profundidade dentro de si mesma e escreve: «Dentro de mim existe um poço muito profundo. E naquele poço está Deus. Às vezes consigo alcançá-lo, mas na maioria das vezes está coberto por pedras e areia: então Deus está sepultado. É necessário que eu o volte a desenterrar» (Diário, 97). Na sua vida dispersa e inquieta, ela encontra Deus precisamente no meio da grande tragédia de Novecentos, o Shoah. Esta jovem frágil e insatisfeita, transfigurada pela fé, transforma-se numa mulher cheia de amor e de paz interior, capaz de afirmar: «Vivo constantemente em intimidade com Deus»”.
       Diante de tanto mal, poderia advir o desânimo. E se nos lembrarmos do extermínio de milhares de judeus, sob o império do mal perpetrado por Hitler e o nazismo, não será fácil sobreviver ao desencanto e a uma resignação destrutiva. Todavia, Etty Hillesum recorda que nenhum mal pode eliminar completamente o bem. O mal não tem futuro. O bem tem futuro. O mal, pela sua extensão, pode amedrontar-nos. Mas não é definitivo.
       Também o tempo atual parece sombrio: a crise económico-financeira, o Brexit, a crise dos refugiados, os atentados terroristas, a violência gratuita, xenófoba, racista, a falta de emprego e a insegurança quanto ao futuro, parecem destruir o sonho de um mundo seguro e onde todos se reconheçam como irmãos.
       Etty Hillesum desafia-nos a enraizar a vida em Deus, enfrentando assim a dor e o sofrimento. “É verdade que de vez em quando podemos estar tristes e abatidos por aquilo que nos fazem, é humano e compreensível. A vida é difícil, mas não é grave… Uma paz futura só o poderá ser verdadeiramente se antes tiver sido encontrada por cada um dentro de si próprio – se cada homem se tiver libertado do ódio contra o próximo de qualquer raça ou povo, se tiver superado esse ódio e o tiver transformado em algo diferente, talvez a longo prazo, em amor… É a única solução possível. Esse pedacinho de eternidade que trazemos dentro de nós… Meu Deus, ainda não se dão conta de que todas as coisas que existem são areias movediças, a não ser Tu”.
       Quanto mais em Deus, mais disponíveis para os outros.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4370, de 5 de julho de 2016

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

VL - A misericórdia de Deus reabilita-nos

       O Jubileu da Misericórdia alimenta-se da liturgia, permitindo acolher a Palavra de Deus ao longo do ano, refletindo-A e renovando propósitos que nos levam a ser misericordiosos como o Pai.
       Nos últimos três domingos (IX, X, XI, do Tempo Comum, ano C) fomos surpreendidos pela ternura, compaixão e proximidade de Jesus, que nos reabilita do pecado e da morte, “contaminando-Se” com a nossa fragilidade, deixando-nos contaminar com a Sua santidade.
       No primeiro episódio (Lc 7, 1-10), um centurião intercede por um dos seus servos, revelando uma grande humildade e uma grande fé, que o próprio Jesus testemunha. A compaixão do centurião leva-O a Jesus, cuja compaixão devolve a saúde ao servo. Atente-se à disponibilidade para partir. Nós temos que ver a agenda. Jesus parte e vai ao encontro de quem precisa da Sua ajuda! Sem hesitar.
       Num segundo momento (Lc 7, 11-17), Jesus, ao entrar na cidade de Naim, depara com um funeral. Uma pobre Mãe, viúva, leva o seu filho único a sepultar. Uma desgraça. A perda de um filho, arrasa qualquer pai. Acrescente-se o facto de ser filho único e a mãe ser viúva! O Evangelho mostra a comoção de Jesus. “Ao vê-la, o Senhor, compadeceu-Se dela”. Jesus não se fica pela contemplação da dor. Diz àquela mãe: “Não chores”. Aproxima-Se. Toca no caixão. E ordena: «Jovem, Eu te ordeno, levanta-te». Jesus levanta-nos, ressuscita-nos dos caixões que nos aprisionam, dos medos, do sofrimento e da perda e diz-nos que a última palavra não é da morte mas da vida.
       Neste último domingo (Lc 7, 36-50), uma mulher, pecadora, aproxima-se de Jesus, banha-lhe os pés com as lágrimas, derrama um vaso de alabastro, perfume de alto preço, enxuga-lhe os pés com os cabelos. Gestos que ressalvam a sua humildade e a predisposição para mudar de vida. Sente-se impelida por Jesus. Não tem muito a perder. Comprada às escondidas, rejeitada às claras. Vive e alimenta-se da escuridão. Não tem vida pessoal. Os afetos comprados não são afetos, são comércio que não tocam a alma, a não ser para a destruir. Quem a vê (de dia) desvia-se, com medo de ser contaminado e/ou que os outros levantem alguma suspeição. Se é pecadora pública, reconhecida como tal, outros contribuem para o seu pecado, comprando-a, expondo-a, promovendo a maledicência.
        Jesus deixa-Se tocar por esta mulher. Não Se desvia. Atrai-a para a Sua Luz. O amor tudo alcança. «A tua fé te salvou. Vai em paz». Os seus muitos pecados são-lhe perdoados porque muito amou.

Publicado na Voz de Lamego, de 14 de junho de 2016

VL – Enraizados em Deus, olhar o sofrimento de frente

       Etty Hillesum, a holandesa judia, morta em Auschwitz, surpreendeu-me pela serenidade com que enfrentou o sofrimento, as adversidades, procurando, através da oração, de joelhos, da meditação e da própria escrita, olhar de frente o mal, mas sem se dar por vencida e sem dar a primazia ao mal. Apesar de todo o mal infligido, o bem está a germinar por toda a parte e há de vencer. Por ora é tempo de lutar para que as pessoas não enterrem Deus nos seus corações.
       O mundo parece desmoronar-se e a violência gratuita (sobretudo) contra os judeus acentua-se, apesar disso, Etty Hillesum continua a esperar em Deus. Para sermos felizes não nos permitimos simplesmente virar as costas ao sofrimento. “Somos sobretudo nós próprios que nos roubamos. Acho a vida bela e sinto-me livre. Os céus estendem-se tanto dentro como acima de mim. Creio em Deus e nos homens e atrevo-me a dizê-lo sem falso pudor. A vida é difícil, ma isso não é grave… Meu Deus, dou-te graças por me teres criado tal como sou. Dou-te graças porque às vezes me permites estar tão cheia de vastidão, daquela vastidão que não é senão o meu ser transbordante de Ti”.
       O poder da violência é por agora invencível, mas não nos podem roubar a vida, não podem entrar no nosso íntimo, lugar onde encontramos Deus. “Dentro de mim há uma nascente muito profunda. E nessa nascente está Deus. Por vezes, consigo alcançá-lo, a maior parte das vezes, está coberta de pedras e de areia: nessas alturas, Deus está sepultado. Então há que voltar a desenterrá-lo. Imagino que certas pessoas rezam com os olhos fixos no céu: elas procuram Deus fora de si. Há outras que inclinam a cabeça, escondendo-a entre as mãos: creio que estas procuram Deus dentro de si”.
       E se Deus não me ajudar? Então serei eu a ajudar Deus…
       “Prometo-te uma coisa, meu Deus: tentarei ajudar-Te para que Tu não sejas destruído dentro de mim… A única coisa que podemos salvar destes tempos, e também a única coisa que conta de verdade, é um pedaço de Ti em nós mesmos, meu Deus. E talvez também possamos contribuir para te desenterrar dos corações devastados dos outros homens… Eu não ponho em questão a tua responsabilidade, mais tarde serás Tu a declarar-nos responsáveis a nós… Tu não nos podes ajudar, mas cabe-nos a nós ajudar-te a Ti, defender até ao fim a tua casa em nós... acredita, não te expulsarei do meu território”.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4372, de 19 de julho de 2016

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

VL – Enraizados em Deus, para viver a própria vida

       Há situações que nos deixam sem chão, sem palavras e cuja esperança quase desaparece. Etty Hillesum, como se pode descobrir no seu diário, nas suas cartas ou em livros sobre ela, como judia holandesa, viveu uma das tragédias do século XX. Viria a morrer, com 29 anos, no campo de extermínio de Auschwitz, como outros milhares de judeus. Foi um período negro para a humanidade, mas de onde surgiram figuras que continuam a iluminar o nosso tempo, pela perseverança e resiliência. Foram mortas mas não se deixaram matar pela história. Sobreviveram aos carrascos pelo testemunho que nos legaram.
       Diz-nos acerca dela Frei Michaeldavide (Etty Hillesum. Humanidade enraizada em Deus): é uma "mulher, cuja vida está prestes a ser violentamente despedaçada, ainda consegue acreditar… é uma jovem mulher que soube transfigurar a própria vida, deixando-a amadurecer até à plenitude, aprendendo a rezar e a meditar... Mediante a oração aprendeu a meditar sobre as trevas humanas através da luz de Deus, sem as negar, mas também sem as tornar mais densas... vive e abraça até ao fundo o contexto terrível de uma das páginas mais sombrias da humanidade – talvez a mais tenebrosa, por ter sido concebida e dada à luz pela civilização europeia enraizada na tradição do cristianismo”. Com efeito, “Etty Hillesum é mestra de total lucidez: na capacidade de atribuir um nome preciso àquilo que se pode verificar de negativo, sem esquecer que, no preciso momento em que qualquer coisa de terrivelmente negativo está a acontecer, continua a crescer o bem, que existe desde sempre e que é o futuro, enquanto o mal não tem futuro, mesmo quando parece tão tremendo que atrai toda a nossa atenção”.
       A dimensão do mal pode levar à desistência, ao lamento, à resignação (passiva). Com facilidade soçobramos ao mal que nos é infligido, gastando-nos, incendiando-nos o coração com trevas. Etty Hillesum tinha tudo para reclamar pelo infortúnio, mas opta pela esperança enraizada em Deus. “Entre a vida que recebemos e a vida que devemos receber oscila a nossa vida, aquela que, de momento, vivemos ou não vivemos… Se toda a dor não alargar os nossos horizontes e não nos tornar mais humanos, libertando-nos das mesquinhices e das coisas supérfluas desta vida, terá sido inútil… O homem ocidental não aceita a dor como parte desta vida: por isso, nunca consegue extrair forças positivas… Fomos marcados para sempre pela dor. Contudo, a vida é maravilhosamente boa... basta que façamos com que Deus, apesar de tudo, esteja em segurança nas nossas mãos".

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4371, de 12 de julho de 2016

terça-feira, 9 de agosto de 2016

GOMES MACHADO. Edith Stein - Pedagoga e Mística.

António José GOMES MACHADO. Edith Stein: Pedagoga e Mística. Editorial A.O., Braga 2008, 304 páginas.
        António José Gomes Machado dá à estampa este livro correspondente à dissertação de Mestrado em Ciências Religiosas, sobre Edith Stein que viria a converter-se em Teresa Benedita da Cruz. Nasceu em Breslau, na Alemanha, em 12 de outubro de 1981. Este dia coincidia com o Dia do Perdão, para os judeus, uma das festas judaicas mais significativas.
       Como é sabido, o século XX é marcado pelas duas grandes guerras e também Edith Stein, como judia e como alemã, estará no centro destes dois conflitos. Na primeira, voluntariando-se como enfermeira para ajudar os muitos feridos que chegavam aos hospitais. Na segunda, como vítima da perseguição nazi. Pelo meio fica uma história de procura, de descoberta, de encontro, de conversão, de luta, de persistência.
       A sua família é judia. As festas principais são oportunidades para a família estar mais ligada ao povo da primeira Aliança, promovendo ritos, tradições, costumes. Cedo verificará que a vida não é consequente com a fé professada e celebrada, sendo que as festas judaicas se tornam sobretudo encontro com a família mas não tendo uma tradução prática na vida quotidiana. Por volta dos 14/15 anos chega assaltam em definitivo as dúvidas e a busca pela verdade, por um sentido mais pleno para a vida. Deixa a escola e passa por um tempo em que se mistura o agnosticismo, o indiferentismo religioso, e até o ateísmo, mas sem uma clara animosidade em relação à religião judaica ou outra.
       Como nos mostra o autor, a sua busca levá-la-á a Santa Teresa de Ávila (Teresa de Jesus), a mística que renovou o Carmelo. Nunca deixando de procurar um sentido para a vida, a verdade, Edith Stein volta a estudar, entra em contacto com o pai da Fenomenologia, tornando-se sua discípula, mas não se fixando aí. Contacta com outros filósofos como Max Scheler, católico. Lê a autobiografia de Santa Teresa de Jesus e dá-se o clique: é esta a verdade. A partir de então, embora continuando a investigar, a dar aulas, explicações, na área da educação e da pedagogia, procura assumir a conversão, compra o Catecismo da Igreja Católica e um Missal, pede a um sacerdote para ser batizada e torna-se católica. A sua busca continuará sempre. As suas investigações terão um ponto de apoio, Jesus Cristo, o Messias anunciando pela Sagrada Escritura, esperado pelos judeus, e que ela descobre em Jesus. Concorre para uma cátedra na universidade mas, por ser mulher, é impedida. Então resolve seguir em definitivo a sua vocação, torna-se religiosa, procurando imitar Santa Teresa de Jesus.
       Entramos na segunda guerra mundial. As religiosas acham por bem que se mude para a Holanda, para outro Carmelo. Os Bispos holandeses acharam por bem emitir uma Carta Pastoral denunciando as atrocidades cometidas pelos nazis. Esta carta foi lida em 24 de julho de 1942 em todas as Igrejas católicas da Holanda. Como resposta, os representantes do Reich ordenaram a deportação de todos os judeus católicos, arrancando-os dos conventos. Também Edith foi detida a 2 de agosto de 1942, juntamente com a irmã Rosa Stein. Passaram por alguns campos de concentração, até que no dia 7 de agosto foram deportadas para o mais famoso campo de extermínio Auschwitz-Birkenau, onde chegara no dia nove do mesmo mês. Nesse dia, as que chegaram nesta leva, foram conduzidas para uma câmara de gás para serem mortas. Durante a noite os seus corpos foram queimados.
       O livro apresenta os dados biográficos de Santa Teresa Benedita da Cruz, mas também os frutos da sua investigação acerca da educação e da pedagogia, sendo que ela própria procurar colocar em prática o que ensinava.
       É uma leitura que permite conhecer melhor a co-padroeira da Europa (ao lado de Santa Brígida da Suécia e Santa Catarina de Sena), com muitos textos da própria Edith Stein. O livro é um extraordinário testemunho de vida, na procura permanente pela verdade, pelo bem, por um sentido para a vida.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

VL - O que não se dá perde-se

       Há mais alegria em dar do que em receber. Garante-nos Jesus.
       A vida como o pão, se não se consome, estraga-se. Por melhor que se acondicione, acaba por perder propriedades que nos fazem saboreá-lo mesmo sem nada a acompanhar. Também a vida, se se guarda, desperdiça-se.
       A vida só será plena e abundante no gastar-se a favor dos demais (cf. Lc 9, 18-24). Quem guarda tempo e dons para si, para o futuro, para ocasiões eventualmente mais favoráveis, não é discípulo de Jesus. O discípulo há de imitar Jesus, gastando-se em prol dos outros. Quem acumula para si, perde-se, porque se prende ao efémero e ao finito; quem se dá acumula tesouros para a eternidade. A vida é verdadeiramente minha quando a vivo na relação com os outros e com o mundo. A psicologia moderna lembra-nos que precisamos de gostar de nós para podermos gostar dos outros. Como podemos gostar dos outros se não gostamos de nós mesmos?
       O Papa Francisco sublinha a opção de Cristo que nos leva a centrar-nos nos outros e não em nós. Gostarmos e servimos os outros ajuda-nos a gostar de nós e a sentirmo-nos melhor connosco mesmos, mais úteis e mais felizes.
       Quem se centra demasiado em si mesmo, por mais qualidades que possua, acabará por se perder, se destruir e, fechando-se na sua concha, ficará humanamente raquítico, quando não paranoico, subserviente do aplauso constante dos outros como se fora o centro do Universo. A alegria do Evangelho liberta-nos do mofo para vivermos saudavelmente, caminhando com os outros. Como não lembrar mais uma vez o desejo do Papa Francisco: prefiro uma Igreja acidentada por sair, do que estagnada, doente, por se fechar, centrando-se em si própria.
       Esta semana assistimos, com o Brexit, a um reino unido desligando-se da União Europeia, colocando em causa o propósito das seis nações europeias que sonharam uma unidade entre os diferentes países, fortalecendo laços entre pessoas e povos, garantindo a paz, a prosperidade e o desenvolvimento. A crise económico-financeira, primeiro, e a crise dos refugiados, depois, colocou em causa o sonho de uma Europa solidária. Sobreveio a incapacidade de olhar além das fronteiras, reavivando egoísmos, nacionalismos. Uma Europa aparentemente a desintegrar-se, mas que pode tornar-se numa nova oportunidade, voltando (talvez) aos propósitos que estiveram na sua base. Também aqui vale o desafio de Jesus: quem guarda a sua vida, perde-a, quem a perde a favor dos outros, ganha-a agora e no futuro.

Publicado na Voz de Lamego, de 28 de junho de 2016

sábado, 6 de agosto de 2016

XIX Domingo do Tempo Comum - ano C - 7.agosto.2016

       1 – As palavras de Jesus são para todos. Mas nunca são para os outros. São sempre para nós. Posso recorrer ao ensinamento de Jesus para explicar, para elucidar, para corrigir com caridade, para desafiar, mas em primeiro lugar devo olhar para a minha vida confrontando-a com o que me pede Jesus.
       Quando os discípulos questionam Jesus sobre a salvação dos justos, a resposta não poderia ser mais elucidativa: preocupai-vos por entrar pela porta estreita, porque largos são os caminhos que levam à perdição. O mais é com Deus. Aos homens é impossível, a Deus tudo é possível. A salvação é dom de Deus, que toma a iniciativa. Nunca pode ser usurpação do homem.
       Jesus volta a insistir na necessidade dos bens materiais não serem um obstáculo à felicidade. O que nos salva verdadeiramente é o que podemos levar connosco para a eternidade. Tal como viemos ao mundo, dele sairemos, nus. Não levaremos nada que pese. Levaremos tudo o que liberta, o que nos fez bem, o que nos aproximou dos outros. Levamos as pessoas. Não as coisas.
       Façamos um exercício. Se fôssemos viajar, o que levaríamos? Se se só pudéssemos levar connosco uma ou duas pessoas, quem seguiria connosco? Se estivéssemos a morrer, sabendo disso, o que mudaríamos na nossa vida? Com quem é gostaríamos de falar? Para pedir perdão? Para agradecer? Para nos reconciliarmos? Para deixarmos uma mensagem importante? O que ainda gostaríamos de fazer? Certamente nem todas as respostas seriam iguais, mas possivelmente não se afastariam muito!
       Não esperemos pelo fim para sermos felizes. É um projeto basilar de todas as pessoas, mesmo quando não o reconhecem explicitamente. Outro exercício. Coloquemo-nos como se estivéssemos no fim dos nossos dias. Como gostaríamos de olhar para a nossa vida? Que avaliação faríamos a olhar para trás?
       Outra questão: o que é imprescindível para sermos felizes? Muito dinheiro? Conforto? Saúde? Uma boa casa? Um carro em bom estado? Tudo o que os outros têm e mais algum? Amigos? Uma família harmoniosa? Um bom trabalho? Segurança? Liberdade e participação nas decisões importantes para a vida da nossa vila e do nosso país? Sermos reconhecidos e respeitados por quem somos? Um telemóvel de alta gama? Um diploma? Um curso superior? Escrever um livro? Plantar uma árvore? Aparecer na televisão? Ser aplaudidos pelos outros?
       2 – Jesus desafia os seus discípulos a apostar os trunfos todos no que permanece até à eternidade. O tempo urge. Não há que adiar para a manhã. Para amanhã deixa quê comer não quê fazer. É hoje. Aqui e agora. Viver com tudo o que somos. O melhor de nós em busca do melhor dos outros.
       «Não temas, pequenino rebanho... Vendei o que possuís e dai-o em esmola. Fazei bolsas que não envelheçam, um tesouro inesgotável nos Céus, onde o ladrão não chega nem a traça rói. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração. Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas. Sede como homens que esperam o seu senhor ao voltar do casamento, para lhe abrirem logo a porta, quando chegar e bater. Felizes esses servos, que o senhor, ao chegar, encontrar vigilantes... Estai vós também preparados, porque na hora em que não pensais virá o Filho do homem».
       Pedro, como sempre, toma a dianteira para perguntar a Jesus se aquelas palavras também são para eles. Então Jesus conta-lhes outra parábola sobre o administrador fiel e prudente que o Senhor coloca à frente da sua casa e que será bom se o encontrar vigilante quando regressar e a administrar a sua casa com justiça. Jesus conclui dizendo que «a quem muito foi dado, muito será exigido; a quem muito foi confiado, mais se lhe pedirá».
       Antes de esperarmos que os outros cumpram, seja o que for, importa que nós nos empenhemos na prossecução do bem, no serviço aos outros. Somos administradores, não donos. E como administradores desta casa que é o mundo cabe-nos apresentar ao Senhor os melhores resultados possíveis, ou melhor, o que fizemos a favor dos outros, com que justiça e empenho colocamos na procura de soluções para integrar todos, para ajudar os mais desfavorecidos, para constituirmos uma família para Deus.
       3 – Deus concede a Salomão um desejo. «Pede. Que Eu posso dar-te?» Salomão pede então, não riqueza, não longos anos, nem vitória sobre os inimigos, nem glória: «Concede-me, pois, a sabedoria e o conhecimento, a fim de que eu saiba conduzir este povo». Deus conceder-lhe-á a sabedoria, mas também o quê não ousou pedir (2 Cr 1, 7-12).
       Voltamos às questões anteriores. O que é imprescindível para sermos verdadeiramente felizes e nos realizarmos como pessoas, para vivermos segundo a vontade de Deus? Onde está o nosso tesouro? Que pediríamos a Deus? Onde colocamos o nosso coração?
       Refira-se à partida, relembrando o que líamos e refletíamos no domingo passado, que o mal não são os bens e as riquezas materiais, mas o uso que deles se faz. O mal é a avareza que seca o coração e enferma a vida em abundância. Se o tesouro são as pessoas que Deus colocou à nossa beira, isso implica-nos em todos os esforços para eliminar o mal, o sofrimento, a violência, a pobreza endémica. Lembremo-nos de São Tiago, não se prega a estômagos vazios, não podemos desejar a paz e o bem a alguém que não tem que comer nem com que se agasalhar. A opção pela pobreza em espírito não nos descompromete, pelo contrário, leva-nos a usar o que somos e o que temos em prol dos outros.

       4 – A fé e a esperança guiam-nos para o futuro que Deus nos traz, para vivermos comprometidos no presente, transformando positivamente o mundo em que vivemos. O passado recorda-nos o que fomos, como caminhámos, os pecados que nos fizeram tropeçar, os sonhos que nos fizeram levantar, os projetos que nos puxaram para o hoje.
       Não há trevas que não possam ser iluminadas pela luz da fé, pela esperança em Deus, pela certeza que Deus não nos faltará. A Sabedoria lembra que "a noite em que foram mortos os primogénitos do Egipto foi dada previamente a conhecer aos nossos antepassados, para que, sabendo com certeza a que juramentos tinham dado crédito, ficassem cheios de coragem. Ela foi esperada pelo vosso povo, como salvação dos justos e perdição dos ímpios... os justos seriam solidários nos bens e nos perigos; e começaram a cantar os hinos de seus antepassados". A voz de Deus ecoa do futuro para nos encontrar e nos alentar a viver, lutar e ultrapassar as agruras dos tempos presentes.
       A oração ajuda-nos a confiar em Deus. Nas horas de maior amargura, a presença de Deus agiganta-Se com o Seu amor infinito. "Os olhos do Senhor estão voltados para os que O temem, para os que esperam na sua bondade, para libertar da morte as suas almas e os alimentar no tempo da fome. A nossa alma espera o Senhor, Ele é o nosso amparo e protetor. Venha sobre nós a vossa bondade, porque em Vós esperamos, Senhor".

        5 – Por sua vez a Carta aos Hebreus, recorda-nos a fé de Abraão, o testemunho de confiança, de despojamento, de desprendimento, para seguir o chamamento de Deus, procurando corresponder à vontade de Deus. A fé em algo transforma-se em fé em Alguém, a Quem se segue e de Quem se espera uma vida com sentido. "A fé é a garantia dos bens que se esperam e a certeza das realidades que não se veem. Ela valeu aos antigos um bom testemunho. Pela fé, Abraão obedeceu ao chamamento e partiu para uma terra que viria a receber como herança; e partiu sem saber para onde ia. Pela fé, morou como estrangeiro na terra prometida, habitando em tendas, com Isaac e Jacob, herdeiros, como ele, da mesma promessa, porque esperava a cidade de sólidos fundamentos, cujo arquiteto e construtor é Deus». Prosseguindo o mesmo exemplo, também Sara, sua esposa, os seus descendentes, Isaac e Jacob. De um homem – Abraão – que já esperava a morte sem descendência, Deus concedeu-lhe uma descendência incontável.
       Abraão e os seus descendentes voltam-se para o futuro e para uma pátria que os aguarda. Não para o que deixaram, mas para o que os espera. "Se pensassem na pátria de onde tinham saído, teriam tempo de voltar para lá. Mas eles aspiravam a uma pátria melhor, que era a pátria celeste... Pela fé, Abraão, submetido à prova, ofereceu o seu filho único Isaac, que era o depositário das promessas». Desta forma, conclui a Carta, "Ele considerava que Deus pode ressuscitar os mortos; por isso, numa espécie de prefiguração, ele recuperou o seu filho", assim como Jesus Cristo, Filho unigénito do Pai será recuperado, glorificado, não na vida carnal, mas na ressurreição definitiva, à qual todos somos associados.

Pe. Manuel Gonçalves

Textos para a Eucaristia (C): Sab 18, 6-9; Sl 32 (33); Hebr 11, 1-2. 8-19; Lc 12, 32-48.

Transfiguração do Senhor - ano C

Nota Histórica:
       A festa da Transfiguração, celebrada no Oriente desde o século V e no Ocidente a partir de 1457, faz-nos reviver um acontecimento importante da vida de Jesus, com reflexos na nossa vida.
       Situada antes do anúncio da Paixão e da Morte, a Transfiguração foi uma manifestação da vida divina, que está em Jesus. A luz do Tabor é, porém, uma antecipação do esplendor, que encherá a noite da Páscoa. Por isso, os Apóstolos, contemplando a glória divina na Pessoa de Jesus, ficaram preparados para os dolorosos acontecimentos, que iriam pôr à prova a sua fé. Vendo Jesus na Sua condição de servo, já não poderão esquecer a Sua condição divina.
       Anúncio da Páscoa, a Transfiguração encerra também uma promessa – a da nossa transfiguração. Jesus, com efeito, fez transparecer na Sua Humanidade a glória de que resplandecerá o seu Corpo Místico, a Igreja, na Sua vinda final.
       A nossa vida cristã é, pois, um processo de lenta transformação em Cristo. Iniciado no nosso Baptismo, completa-se na Eucaristia, «penhor da futura glória», que opera a nossa transformação, até atingirmos a imagem de Cristo glorioso.

      Jesus tomou consigo Pedro, João e Tiago e subiu ao monte, para orar. Enquanto orava, alterou-se o aspecto do seu rosto e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente. Dois homens falavam com Ele: eram Moisés e Elias, que, tendo aparecido em glória, falavam da morte de Jesus, que ia consumar-se em Jerusalém. Pedro e os companheiros estavam a cair de sono; mas, despertando, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com Ele. Quando estes se iam afastando, Pedro disse a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias». Não sabia o que estava a dizer. Enquanto assim falava, veio uma nuvem que os cobriu com a sua sombra; e eles ficaram cheios de medo, ao entrarem na nuvem. Da nuvem saiu uma voz, que dizia: «Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O» (Ano C: Lc 9, 28b-36). 

       A transfiguração é como um "rebuçado" dado por Jesus aos Apóstolos, para enfrentarem os momentos de dificuldade que se aproximam, quando o Mestre for perseguido, preso e levado à Cruz. Esta antecipação mostra a divindade de Jesus, para de novo assumir a nossa humanidade com toda a crueza que a limitação e a finitude podem envolver.
       Importa, em todas as situações, escutar a Sua voz. É a voz do Pai de entre as nuvens que ressoa por todo o universo.