terça-feira, 20 de março de 2018

VL – O Pobre de Nazaré é o Rei do Universo

Vivemos, no penúltimo domingo, o primeiro Dia Mundial dos Pobres, iniciativa proposta pelo Papa Francisco por ocasião do encerramento do Jubileu da Misericórdia. A designação suscitou algumas críticas em surdina, pois poderia dar a sensação que se estava a cristalizar a pobreza. Em vez de “pobres” talvez pudesse combinar melhor erradicação da pobreza ou da exclusão social. Porém, “pobres” é uma palavra e uma realidade que se cola. Podemos ter opiniões diferentes sobre o que significa pobreza, mas falar de pobres não ilude, sabemos que nos remete imediatamente para vidas marcadas pela doença, pela miséria, pelo abandono, pela solidão, pela perda de identidade e de pertença a uma comunidade.
Com a criação deste dia, o Papa interpela, antes de mais, os crentes contra a cultura do descarte e do desperdício, desafiando-nos à partilha solidária, ao cuidado do outro, ao acolhimento de Cristo nos mais frágeis, pois para tocar Cristo é necessário tocar as chagas do Seu corpo no corpo dos pobres. O convite alarga-se a todos “independentemente da sua pertença religiosa, para que se abram à partilha com os pobres em todas as formas de solidariedade, como sinal concreto de fraternidade. Deus criou o céu e a terra para todos; foram os homens que, infelizmente, ergueram fronteiras, muros e recintos, traindo o dom originário destinado à humanidade sem qualquer exclusão”.
O Papa Francisco deixou bem claro que os pobres não são um problema, mas “um recurso de que lançar mão para acolher e viver a essência do Evangelho… são eles que nos abrem o caminho para o Céu, são o nosso «passaporte para o paraíso». Para nós, é um dever evangélico cuidar deles, que são a nossa verdadeira riqueza; e fazê-lo não só dando pão, mas também repartindo com eles o pão da Palavra, do qual são os destinatários mais naturais. Amar o pobre significa lutar contra todas as pobrezas, espirituais e materiais”.
Na Sua mensagem para este dia, o Papa lança a ponte para a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo. Com efeito, “a realeza de Cristo aparece em todo o seu significado precisamente no Gólgota, quando o Inocente, pregado na cruz, pobre, nu e privado de tudo, encarna e revela a plenitude do amor de Deus. O seu completo abandono ao Pai, ao mesmo tempo que exprime a sua pobreza total, torna evidente a força deste Amor, que O ressuscita para uma vida nova no dia de Páscoa”. O reconhecimento da soberania de Cristo coloca-nos todos ao mesmo nível, como súbditos mas sobretudo como irmãos.

VL – A realeza de Jesus ao serviço dos pequeninos

O ano litúrgico é coroado pela solenidade de Jesus Cristo como Rei do Universo, cuja realeza tem um toque muito peculiar. Jesus é, claramente, um Rei que vem para servir, que Se assume como Pastor, Irmão, como Filho. Um reino cuja marca registada é o amor, o serviço, a caridade, a atenção e o cuidado aos mais frágeis, aos mais pequeninos. É um Reino frágil pois assenta os seus pilares na bondade, na misericórdia e na ternura. Não tem armas nem exércitos treinados. Não tem mestres nem comandantes. Mas é simultaneamente um reino forte porque não está dependente das circunstâncias sociais, políticas e económicas ou de equilíbrios de poder, vive a constância do serviço. Nada tem a perder, só tem a ganhar e ganha ao gastar-se a favor dos mais pequeninos.
A coroa deste Rei é tecida de espinhos. Melhor, a Sua coroa é tecida de amor, de compaixão, de delicadeza. O Seu trono é uma "abençoada" Cruz. Melhor, a Seu trono é a vontade do Pai. É o Seu alimento, a Sua ligação mais profunda. Por nada Se afasta dos desígnios paternos. É um Rei obediente, até à morte e morte de Cruz. Governa transparecendo as palavras do Pai, as obras do Pai. Nada faz por Si mesmo, diz o que ouviu dizer ao Pai, realiza as obras que o Pai Lhe mandou fazer.
A fragilidade do Rei é o Seu amor sem limites. É também a Sua grandeza: amor que ama e se consome a favor de todos a começar pelos últimos, pelos mais pequeninos.
O nosso Rei é Jesus, Filho Bem-amado do Pai que nos resgata do egoísmo, das trevas e da morte e nos assume como irmãos. Agora temos Pai, não somos órfãos. Nunca mais seremos órfãos. Temos Pai, sabendo que no final de tudo seremos julgamos pelo Pai, e não por um Juiz desconhecido, estranho, distante, imparcial, frio, vindicativo, seremos julgados pela misericórdia do Pai, através do Filho, no Espírito Santo.
Os Seus ajudantes, os Seus ministros, os Seus seguidores só têm que O imitar. Fazer do mesmo modo. Novamente o lema da nossa diocese retirado da parábola do Bom Samaritano: Vai e faz o mesmo, faz tu também do mesmo jeito. O Samaritano vê, para, aproxima-se para ver melhor, desce, debruça-se, ajuda, trata das feridas, levanta aquele que está caído como morto, leva-o até um lugar seguro, agrafa outros para dele cuidarem, assegurando-se que será bem tratado. É esta a verdadeira soberania de Jesus e dos Seus discípulos: servir os mais pequeninos.

VL – Os cristãos e a política como serviço aos últimos

Os discípulos de Jesus vivem durante muito tempo na dinâmica do grupo: o nosso grupo, os nossos, os que andam connosco. O Messias de Deus é nosso, pertence-nos, temos o exclusivo. Os milagres que fizer hão de beneficiar os nossos, os do nosso povo. As palavras que Ele disser são-nos dirigidas, a não ser que sejam para maldizer os outros, os estrangeiros, os que estão para lá do nosso grupo.
Como não lembrar o episódio em que os discípulos dizem a Jesus que tinham proibido um homem de fazer milagres e anunciar em Seu nome pelo simples facto de não fazer parte do grupo? (cf. Mc 9, 38). Ou a estranheza quando veem Jesus a falar com a Samaritana? Já era demais estar a falar com aquela mulher em público, mais escandaloso é o facto de ser samaritana, inimiga dos judeus (Cf. Jo 4, 1-41). Ou quando querem deitar fogo do céu contra os samaritanos que não os acolhem, pois iam em sentido contrário? (Lc 9, 51-56).
Num outro episódio, proposto num dos últimos domingos, no encontro com uma mulher cananeia (Mt 15, 21-28), Jesus assume a sensibilidade dos judeus ciosos do seu Deus e da sua religião. Jesus mantém-se em silêncio (exterior) diante da investida da mulher estrangeira: «Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim. Minha filha está cruelmente atormentada por um demónio».
É Mãe. Está tudo dito. Tudo fará para reaver o filho, para o reconquistar para a vida. Sujeita-se ao ridículo, à humilhação pública. Mas que lhe importa? O importante é a saúde e a vida do filho!
Porém, os discípulos ao apelarem a Jesus para que intervenha parecem incomodar-se sobretudo com a gritaria da mulher e não tanto pelo seu sofrimento!
Na resposta, Jesus diz-lhes que não foi enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel. Tinha sido essa a recomendação que Ele lhes dera quando os enviou dois a dois: «Não sigais pelo caminho dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos. Ide, primeiramente, às ovelhas perdidas da casa de Israel» (Mt 10, 5-6).
Convertamos em pergunta a resposta dada por Jesus àquela Mulher: "Será justo tomar o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos?". Entramos na pedagogia de Jesus! A Mulher cananeia ajuda-nos a responder ao questionamento de Jesus: «É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos».
Partindo da postura de Jesus, o compromisso dos cristãos na vida social, política (e partidária), na economia: ao serviço de quem mais precisa!

VL - A pobreza que se transforma em amor

O protagonista da história é um mendigo. Palavras do Papa Francisco na Colômbia, retomando as palavras que dirigiu aos Bispos do México. O protagonista da história da salvação é um mendigo, é Jesus Cristo, é cada um de nós, a partir da mendicidade do amor.
Jesus é o Pobre de Nazaré, tão pobre que não tem onde reclinar a cabeça. Nada tem e por isso pode dar-Se por inteiro, sem calculismos, sem medo. O Seu Tudo é Deus. Como não tem nada pode dar-se inteiramente ao Pai, pode dar-se totalmente aos irmãos.
O “Pobre de Nazaré” é um belíssimo livro de Ignacio Larrañaga sobre Jesus, a vida de Jesus, a mensagem de Jesus. Num dos capítulos apresenta Jesus como “O pobre entre os pobres”. Facilmente percebemos que Jesus Se faz pobre para nos enriquecer com o Sua pobreza. Identifica-Se connosco. Faz-Se um de nós. Assume-nos e assume a nossa frágil condição humana. Esvazia-Se do poder divino e de tudo o que possa afastá-l’O da nossa humanidade.
O caminho da pobreza transforma-se em amor, em entrega, da própria vida. Quem nada tem nem quer ter nada, nada teme, nada tem a perder. Pode dar tudo, dar-Se todo. Ele é o Servo de Javé. É um homem livre. E de um homem livre nasce um homem disponível. Da pobreza nasce o amor, como da morte há de nascer a vida. Torna-Se servidor. Eu não vim para ser servido, mas para servir e dar a vida por todos. Quem quiser ser o primeiro seja o último e o servo de todos.
É o Servo Sofredor que Se compadece perante o sofrimento dos pobres. A primeira atitude de Jesus é a compaixão visceral, a misericórdia. Esquece-Se de Si pelos outros. A compaixão leva-O a dar passos concretos de ajuda solidária aos que vivem prisioneiros do sofrimento. Usa o seu poder para curar, para salvar, para libertar. Os ricos no Reino de Deus são os pobres, são os mendigos, para retomarmos a linguagem do Papa Francisco. São os pobres que salvam os pobres. Os que sabem da sua pobreza, que sabem mendigar amor e colocar a sua confiança em Deus, como fez Jesus, como viveu Jesus.
Os cristãos, onde quer que estejam, na vida política, social, económica, cultural, devem ser pobres ao jeito de Jesus para ajudarem sobretudo os pobres, os que sofrem, os mais frágeis da sociedade. Na proximidade das eleições, fica a pergunta para aqueles que nos assumimos como cristãos: vamos a votos para servir os pobres ou nos servirmos, enriquecendo?

VL – A caducidade do amor gera a tristeza e a treva

"Se o amor vos fizer sinal, segui-o; ainda que os seus caminhos sejam duros e escarpados… e quando vos falar, acreditai nele; apesar da sua voz poder quebrar os vossos sonhos como o vento norte ao sacudir os jardins. Porque assim como o vosso amor vos coroa também deve crucificar-vos…. Como braçadas de trigo vos leva. Malhava-vos até ficardes nus. Passa-vos pelo crivo para vos livrar do palhiço. Mói-vos até à brancura… Amassa-vos até ficardes maleáveis. Então entrega-vos ao seu fogo, para poderdes ser o pão sagrado no festim de Deus… O amor basta ao amor. Quando amardes não digais: – Deus está no meu coração, mas antes: – eu estou no coração de Deus… O amor não tem outro desejo senão consumar-se” (Khalil Gibran, o Profeta).
O amor gera a vida. O amor que não se multiplica é como a palha a arder, queima-se a ele próprio e desaparece. O primeiro amor é o de Deus. É um amor original e originante. É amor primeiro que cria e recria o Universo. No amor (de Deus) nada há de excessivo, pois o excesso de amor (em Deus) gera vida, e em nós provoca a vontade de eternizarmos as pessoas, os momentos, gera a criatividade, a música, a arte, o cinema, a pintura. O amor comanda a vida. Talvez também o sonho, mas também este se alimenta do amor! Se o amor faltar, o nosso egoísmo passa a comandar-nos e gerir-nos por caminhos de indiferença e de prepotência, de sobranceria e exclusão, pois ninguém se nos poderá comparar. Afastar-nos-íamos por não sentirmos ninguém capaz para caminhar lado a lado connosco. Ou então os outros seriam colocados num estrado inferior propício à instrumentalização dos nossos caprichos.
O contrário do amor é o egoísmo (e não o ódio. Este é uma forma errada ou magoada de amar). O amor enlaça-nos nos outros. A falta de amor (verdadeiro) afasta-nos dos outros.
Bento XVI di-lo de uma forma luminosa: "O fundamento da nossa tristeza é a caducidade do nosso amor, a supremacia da finitude, da morte, do sofrimento, da maldade, da mentira; é a nossa solidão no mundo contraditório, no qual os misteriosos e luminosos sinais da bondade de Deus irrompendo pelas frinchas do mundo, são postos em causa pelo poder das trevas, o qual ou faz com que se atribua o mal a Deus ou faz com que Deus pareça ausente".
O amor leva-nos a sair de nós, faz-nos a ir ao encontro dos outros, dá-nos asas para sonhar, para criar, para partilhar… a vida!

VL – Viver o advento ao jeito do vinho generoso

Jesus Cristo está a chegar. Ele chega sempre que lhe abrimos o coração e a vida. A celebração festiva do Seu aniversário natalício leva-nos, como cristãos e em comunidade, a valorizar gestos e palavras.
A sociedade atual centra-se mais na dinâmica comercial, fazendo promoções atrativas para incentivar o consumo. Esta dimensão tem aspetos positivos, pois é o ganha-pão de muitas pessoas e em épocas festivas sai fortalecido.
O Natal é assim uma oportunidade para festas, viagens, noitadas! Um Natal feito à medida de cada um! Não faltam figuras criadas para alegrar a pequenada, distrair a graudada e, eventualmente, desnatalizar o Natal cristão: gnomos, pais-natais, renas e veados, árvores de natal e muitas luzes. Também os sinais exteriores podem levar-nos a interrogar-nos sobre o significado, as raízes e o conteúdo do Natal.
Para os cristãos, porém, o Natal é a celebração da Encarnação de Deus, um Deus-nosso que assume a nossa condição humana, a nossa fragilidade e finitude e quer habitar no meio de nós, quer habitar-nos. Como qualquer aniversário que se festeja, também o Natal de Jesus pressupõe uma boa preparação: conversão, vigilância, espera ativa e comprometida. A liturgia da Palavra desafia-nos a prepararmos o caminho do Senhor que vem. Sempre. De novo. Preparamo-nos pela oração mais diligente, pela escuta e meditação mais frequente da Palavra de Deus, pela prática da caridade, mais humana, próxima e atenta.
Das muitas imagens que poderíamos usar no Advento, hoje sugiro o vinho generoso, do Douro ou de Tabuaço… O vinho novo, das Bodas de Caná, a vinha do Senhor, o enxerto da vinha, a verdadeira vide ou cepa que é Jesus, e os ramos, que somos nós, ligados à vide, ou a vinha transplantada por Deus, criando as condições para frutificar com qualidade e abundância. É um tema recorrente na Sagrada Escritura.
O vinho generoso é colhido de boas cepas, produzido com qualidade e colocado a envelhecer em pipas (de carvalho), que o tornarão mais refinado, mais “doce” e macio, quase mel. À partida o vinho é de boa qualidade, mas precisa sempre de cuidados: algum vinho vai-se perdendo “naturalmente” e é necessário acrescentar vinho novo. Somos da cepa de Deus. De boa qualidade, portanto! Batizados na água e no Espírito Santos, somos novas criaturas. Como com o vinho, precisamos de estar atentos para não nos perdermos. Precisamos de “acrescentar” as palavras de Deus, os gestos de Jesus, a postura do Seu Evangelho de serviço. É tempo de verificarmos o que é preciso “acrescentar” para mantermos a boa qualidade de filhos de Deus.

VL – Depois das eleições, o trabalho a favor de todos


Terminadas as eleições as autárquicas, é tempo de deitar mãos à obra e trabalhar nos projetos e ideias colocadas a escrutínio! Talvez! Temos a consciência que as escolhas que se fazem têm motivos muito diversos, ainda que todos aceitemos que é importante votar e escolher aqueles que em consciência são mais fiáveis para gerir o que é de todos. Ficar em casa será renunciar a fazer uma escolha, ficando-se sem razões para “protestar” ou para “aplaudir”, pois não fomos nós a escolher. Há pessoas, contudo, e temos de respeitar, que não votam conscientemente porque não se reveem na forma de fazer política, nos projetos apresentados, nas pessoas que encabeçam ou preenchem as listas. É um direito que lhes assiste, mas talvez seja preferível votar no “mal menor” quando não há listas ou projetos que preencham os requisitos necessários.
Depois das eleições é expectável (pelo menos em teoria) que todos congreguem esforços para melhorar a vida das pessoas e se unam à volta de ideias e projetos que concretizem a vontade de quem votou. Mas como disse antes, ao votarmos não o fazemos de forma fria, só pelo programa, votamos pelas pessoas, pela inclinação partidária, pelas ideias, pelos projetos ou pela situação pessoal e/ou familiar. Nas eleições locais há uma maior variação, ainda que possa haver (positiva e negativamente) influência do que se passa ao nível da governação central. Mas há localidades que surpreendem e nas quais não é possível, de todo, fazer leituras mais gerais.
O tempo da governação local é de quatro anos, pelo que a campanha eleitoral faz um interregno prolongado! Talvez. É possível que no dia seguinte ao das eleições se inicie de imediato a campanha eleitoral do próximo escrutínio. E não será mal se isso significar empenho, escuta das pessoas, trabalho na vereação ou na oposição para apresentar, discutir, aprovar, rejeitar propostas, em ordem a maior justiça, verdade, transparência, em prol do desenvolvimento local, da integração de todos, privilegiando os que se encontram em situação mais frágil. É bom que todos os eleitos se lembrem dessa condição: foram eleitos não (apenas) para tirar dividendos pessoais, mas (sobretudo) para representar os eleitores. E assim se enriquece a democracia.
Para os cristãos envolvidos ma vida político-partidária é válido o que atrás se disse, com a obrigação acrescida da promoção da vida e da dignidade humana de todas as pessoas, seguindo o Mestre na opção preferencial pelos mais pobres e a dinâmica de serviço e cuidado. Também na vida pública, o serviço aos outros deve ser prioridade. 

VL – Antes e depois das eleições. Ou nós ou o caos.

Os governantes autárquicos são os primeiros a responder às necessidades e carências das pessoas, num envolvimento não apenas burocrático mas humano, afetivo, sentimental. Uns e outros conhecem-se, interagem, são amigos, encontram-se para tomar café, para jogar às cartas, eventualmente frequentam a mesma Igreja.
A proximidade tem vantagens: é possível responder rapidamente sem estar à espera de estudos e conhecer atempadamente as dificuldades. Alguns riscos: o conhecimento e a convivência facilitam o desrespeito, o abuso e exigências absurdas. Na hora das eleições tudo conta. Com efeito, o voto tem variadas motivações, muitas vezes pouco racionais: um pedido atendido ou a demora em atendê-lo, uma discussão por causa de uma partilha, um emprego que se conseguiu para um familiar ou uma promessa (pessoal) adiada.
Também as cores partidárias têm o seu peso e ajudam alguns a vencer e/ou a perder, mas têm-se visto enormes surpresas, pois em muitas freguesias e concelhos as pessoas contam mais que o partido, ou potenciam-no.
No dia de avaliar os ganhos e as perdas, um líder partidário foi lapidar: quem perdeu não fomos nós, as populações é que perderam ao não votar em nós. É de todos conhecido o provérbio: presunção e água benta cada um toma a que quer.
Em todos os partidos há pessoas honestas, competentes, preocupadas, com ideias e projetos saudáveis e benevolentes. A democracia, diria Winston Churchill, é o pior regime à exceção de todos os outros, o que permite substituir, dentro de prazos razoáveis, quem não é competente ou quem não agrada, ainda que, em sentido inverso, o horizonte eleitoral possa levar os autarcas a decidir não em conformidade com o bem de todos ou o bem maior, mas perspetivando os ganhos eleitorais, evitando decisões que possam custar nova eleição.
Nas campanhas eleitorais sobrevaloriza-se a própria competência, as ideias e os projetos que se apresentam para votos: sou o melhor para governar, o meu programa é o mais amigo das populações, venho para servir, para ajudar as pessoas, não estou cá por nenhum interesse pessoal ou partidário, a minha lista tem as pessoas mais capazes! Quanto aos outros? Eles não percebem nada, estão apenas a defender os seus interesses pessoais, os seus familiares e amigos, em nada vão melhorar a vida das pessoas!
Passadas as eleições, o expectável é agradecer a quem votou em nós, mesmo que tenhamos perdido, e seguir em frente, procurando contribuir, nos órgãos próprios, para o bem de todos. Ficar refém de possíveis ingratidões ou da ingenuidade de quem votou, não leva a nada!

Eu vou partir... Vós sois cá de baixo, Eu sou lá de cima

       Disse Jesus aos fariseus: «Eu vou partir. Haveis de procurar-Me e morrereis no vosso pecado. Vós não podeis ir para onde Eu vou». Diziam então os judeus: «Irá Ele matar-Se? Será por isso que Ele afirma: ‘Vós não podeis ir para onde Eu vou’?» Mas Jesus continuou, dizendo: «Vós sois cá de baixo, Eu sou lá de cima; vós sois deste mundo, Eu não sou deste mundo. Ora Eu disse-vos que morrereis nos vossos pecados, porque, se não acreditardes que ‘Eu sou’, morrereis nos vossos pecados». Então perguntaram-Lhe: «Quem és Tu?» Respondeu-lhes Jesus: «Absolutamente aquilo que vos digo. Tenho muito que dizer e julgar a respeito de vós. Mas Aquele que Me enviou é verdadeiro e Eu comunico ao mundo o que Lhe ouvi». Eles não compreenderam que lhes falava do Pai. Disse-lhes então Jesus: «Quando levantardes o Filho do homem, então sabereis que ‘Eu sou’ e que por Mim nada faço, mas falo como o Pai Me ensinou. Aquele que Me enviou está comigo: não Me deixou só, porque Eu faço sempre o que é do seu agrado» (Jo 8, 21-30).
        As palavras de Jesus tornam-se cada vez mais clarividentes. Mas quanto maior a clareza, maior a surpresa por parte de quem O escuta.
       Jesus vai partir. Vai para Deus. Ele é de cima, nós somos da terra. Ele pisa o nosso chão para nos elevar da terra. Quando Ele for elevado, nós seguiremos, com o nosso olhar, o Seu olhar de ternura e de paixão por nós.
       Na hora de mais dor, sentindo o abandono de todos, Jesus não deixa de sentir a intimidade de Deus Pai que Lhe dá forças e ganas para seguir em frente e concluir a obra da redenção, gastando-se até ao fim e apesar de todo o sofrimento prossegue até à Cruz, abrindo-nos os braços para a eternidade de Deus e enviando-nos a espalhar o mesmo amor misericordioso.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Vede como fala abertamente e não Lhe dizem nada

       Jesus percorria a Galileia, evitando andar pela Judeia, porque os judeus procuravam dar-Lhe a morte. Estava próxima a festa dos Tabernáculos. Quando os seus parentes subiram a Jerusalém, para irem à festa, Ele subiu também, não às claras, mas em segredo. Diziam então algumas pessoas de Jerusalém: «Não é este homem que procuram matar? Vede como fala abertamente e não Lhe dizem nada. Teriam os chefes reconhecido que Ele é o Messias? Mas nós sabemos de onde é este homem, e, quando o Messias vier, ninguém sabe de onde Ele é». Então, em alta voz, Jesus ensinava no templo, dizendo: «Vós Me conheceis e sabeis de onde Eu sou! No entanto, Eu não vim por minha própria vontade e é verdadeiro Aquele que Me enviou e que vós não conheceis. Mas Eu conheço-O, porque d’Ele venho e foi Ele que Me enviou». Procuravam então prender Jesus, mas ninguém Lhe deitou a mão, porque ainda não chegara a sua hora (Jo 7, 1-2.10.25-30).

       À medida que o tempo avança, vislumbra-se o desfecho da vida e missão de Jesus. Os sinais são claros. A oposição à Sua missão torna-se evidente, demasiado evidente. No Evangelho dá-se notícia que Jesus anda às claras, embora todos pensassem que Ele não viria à festa, ou se o fizesse, não se expusesse publicamente. Mas Jesus lá está a pregar abertamente, sem medo, em alta voz.
       Jesus prega com clareza levando os seus ouvintes a colocarem algumas questões. Tendo sido proibido de ensinar, sendo perseguido, como é que surge agora a pregar à frente de todos? Será que os judeus passaram a acreditar que Ele é o Messias? Mas, a interrogação continua, se fosse o Messias nós não saberíamos de onde Ele é!
       Jesus responde com frontalidade. É conhecida a Sua origem, terrena. Mas Ele vem do Pai. Neste caso, já não é tão fácil "saber" da origem de Jesus. Entramos no plano da fé.
       A hora de Jesus está a chegar, mas ainda não chegou, como se refere no Evangelho. A perspectiva é evidente, a entrega de Jesus é voluntária, é dádiva, não é imposta. "A vida ninguém ma tira, sou Eu que a dou".

quinta-feira, 15 de março de 2018

João era uma lâmpada que ardia e brilhava...

       O Senhor disse ainda a Moisés: «Tenho observado este povo: é um povo de dura cerviz. Agora deixa que a minha indignação se inflame contra eles e os destrua. De ti farei uma grande nação». Então Moisés procurou aplacar o Senhor seu Deus, dizendo: «Por que razão, Senhor, se há-de inflamar a vossa indignação contra o vosso povo, que libertastes da terra do Egipto com tão grande força e mão tão poderosa... (Ex 32, 7-14).
      Jesus disse aos judeus: «Se Eu der testemunho de Mim mesmo, o meu testemunho não será considerado verdadeiro. É outro que dá testemunho de Mim e Eu sei que o testemunho que Ele dá de Mim é verdadeiro. Vós mandastes emissários a João Baptista e ele deu testemunho da verdade. Não é de um homem que Eu recebo testemunho, mas digo-vos isto para que sejais salvos. João era uma lâmpada que ardia e brilhava e vós, por um momento, quisestes alegrar-vos com a sua luz. Mas Eu tenho um testemunho maior que o de João, pois as obras que o Pai Me deu para consumar – as obras que realizo – dão testemunho de que o Pai Me enviou. E o Pai, que Me enviou, também Ele deu testemunho de Mim. Nunca ouvistes a sua voz, nem vistes a sua figura e a sua palavra não habita em vós, porque não acreditais n’Aquele que Ele enviou. Examinais as Escrituras, pensando encontrar nelas a vida eterna; são elas que dão testemunho de Mim e não quereis vir a Mim para encontrar essa vida. Não é dos homens que Eu recebo glória; mas Eu conheço-vos e sei que não tendes em vós o amor de Deus. Vim em nome de meu Pai e não Me recebeis; mas se vier outro em seu próprio nome, recebê-lo-eis. Como podeis acreditar, vós que recebeis glória uns dos outros e não procurais a glória que vem só de Deus? Não penseis que Eu vou acusar-vos ao Pai: o vosso acusador será Moisés, em quem pusestes a vossa esperança. Se acreditásseis em Moisés, acreditaríeis em Mim, pois ele escreveu a meu respeito. Mas se não acreditais nos seus escritos, como haveis de acreditar nas minhas palavras?» (Jo 5, 31-47).

       A figura de Moisés é-nos apresentada nas duas leituras, no Êxodo e no Evangelho.
       Na primeira leitura, vemo-lo como intercessor junto de Deus, para aplacar a Sua ira contra o povo que se transviou, que se afastou dos caminhos do Senhor. Nas palavras de Moisés escutámos o sentir do próprio Deus que contraria a nossa facilidade em julgar e em condenar. Deus está sempre pronto a perdoar, vindo ao nosso encontro, está à porta e bate...
       Jesus fala em Moisés, para dizer que a fé nas palavras de Moisés levam à fé na Palavra de Deus que encarna em Jesus Cristo. Por outro lado, Jesus apresenta-Se como novo Moisés. Este intervém para que Deus não se ire contra o povo da Aliança; Jesus vem, não para condenar, mas para salvar e dar a vida pela humanidade.
       Testemunham a favor de Jesus, o próprio Moisés, João Baptista, e, mais importante, o próprio Deus, cujas obras Jesus realiza. Ao falar de João Baptista, Jesus fala-nos ao coração. A luz é sempre uma procura... ainda que a nossa treva nos tolde a mente...

quarta-feira, 14 de março de 2018

Meu Pai trabalha incessantemente e Eu também...

      O primeiro texto da liturgia é um belíssimo "testamento", mais um, do profeta Isaías. Nas suas palavras, a Palavra de Deus expressa o grandiloquente amor de Deus a favor de toda a humanidade, chamando todos à luz, ao bem, à verdade, à felicidade.
Assim fala o Senhor: «No tempo da graça, Eu te ouvi; no dia da salvação, Eu te ajudei. Eu te formei e designei para renovar a aliança do povo, para restaurar a terra e reocupar as herdades devastadas; para dizer aos prisioneiros: ‘Saí para fora’ e àqueles que vivem nas trevas: ‘Vinde para a luz’. Hão-de alimentar-se em todos os caminhos e acharão pastagem em todas as encostas. Não sentirão fome nem sede, nem o sol ou o vento ardente cairão sobre eles, porque Aquele que tem compaixão deles os guiará e os conduzirá às nascentes da água. De todas as minhas montanhas farei caminhos e as minhas estradas serão niveladas. Ei-los que vêm de longe: uns do Norte e do Poente, outros da terra de Sinim. Rejubilai, ó céus; exulta, ó terra; montes, soltai gritos de alegria, porque o Senhor consola o seu povo e tem compaixão dos seus pobres. Sião dizia: ‘O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-Se de mim’. Pode a mulher esquecer-se da criança que amamenta e não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Mas ainda que ela o esquecesse, Eu nunca te esquecerei» (Is 49, 8-15).
       No Evangelho, seguindo o diálogo de ontem com alguns dos judeus, Jesus acentua a dinâmica do bem, como trabalho ininterrupto. O bem tem lugar a todas as horas, em todas as circunstâncias. E será sempre uma manifestação da bondade de Deus.
Disse Jesus aos judeus: «Meu Pai trabalha incessantemente e Eu também trabalho em todo o tempo». Esta afirmação era mais um motivo para os judeus quererem dar-Lhe a morte: não só por violar o sábado, mas também por chamar a Deus seu Pai, fazendo-Se igual a Deus. Então Jesus tomou a palavra e disse-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: O Filho nada pode fazer por Si próprio, mas só aquilo que viu fazer ao Pai; e tudo o que o Pai faz também o Filho o faz igualmente. Porque o Pai ama o Filho e Lhe manifesta tudo quanto faz; e há-de manifestar-Lhe coisas maiores que estas, de modo que ficareis admirados. Assim como o Pai ressuscita os mortos e lhes dá vida, assim o Filho dá vida a quem Ele quer. O Pai não julga ninguém: entregou ao Filho o poder de tudo julgar, para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho não honra o Pai que O enviou. Em verdade, em verdade vos digo: Quem ouve a minha palavra e acredita n’Aquele que Me enviou tem a vida eterna e não será condenado, porque passou da morte à vida. Em verdade, em verdade vos digo: Aproxima-se a hora – e já chegou – em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem, viverão. Assim como o Pai tem a vida em Si mesmo, assim também concedeu ao Filho que tivesse a vida em Si mesmo; e deu-Lhe o poder de julgar, porque é o Filho do homem. Não vos admireis do que estou a dizer, porque vai chegar a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz: Os que tiverem praticado boas obras irão para a ressurreição dos vivos e os que tiverem praticado o mal para a ressurreição dos condenados. Eu não posso fazer nada por Mim próprio: julgo segundo o que oiço e o meu juízo é justo, porque não procuro fazer a minha vontade, mas a vontade d’Aquele que Me enviou» (Jo 5, 17-30).
       Um desafio: praticar o bem, realizar boas obras, para que seja manifesta a graça de Deus.
       Uma certeza: o julgamento do mundo e das pessoas será feito por Jesus, melhor, diante de Jesus. Nós também somos responsáveis pelas obras que realizamos, e assim também pela nossa salvação e pela salvação de todos.

terça-feira, 13 de março de 2018

Levanta-te, toma a tua enxerga e anda...

Pela água e pelo Espírito Santo tornamo-nos novas criaturas, nascemos de novo, enformados como Corpo de Jesus que é a Igreja. Nas leituras propostas para hoje, a água aparece como elemento fundamental. Na primeira leitura, do profeta Ezequiel, a água em abundância produz vida, purifica, sara, gera abundância:
O Anjo disse-me: «Esta água corre para a região oriental, desce até Arabá e entra no mar, para que as suas águas se tornem salubres. Em toda a parte aonde chegar esta torrente, todo o ser vivo que nela se move terá novo alento e o peixe será muito abundante. Porque aonde esta água chegar, tornar-se-ão sãs as outras águas e haverá vida por toda a parte aonde chegar esta torrente. À beira da torrente, nas duas margens, crescerá toda a espécie de árvores de fruto: a sua folhagem não murchará, nem acabarão os seus frutos. Todos os meses darão frutos novos, porque as águas vêm do santuário. Os frutos servirão de alimento e as folhas de remédio» (Ez 47, 1-9.12).
       Também no Evangelho, a água surge como elemento purificador. As águas agitadas da piscina possibilitam a cura dos que nelas mergulham o corpo. Jesus é a Salvação em pessoa, é água, é vida nova, é cura. Quem vem/vai a Ele torna-se saudável não apenas de corpo mas sobretudo espiritualmente, capaz de viver, de amar, de caminhar para os outros, de abraçar, de partir, de rezar, de louvar...
Jesus subiu a Jerusalém. Existe em Jerusalém, junto à porta das ovelhas, uma piscina, chamada, em hebraico, Betsatá, que tem cinco pórticos. Ali jazia um grande número de enfermos, cegos, coxos e paralíticos. Estava ali também um homem, enfermo havia trinta e oito anos. Ao vê-lo deitado e sabendo que estava assim há muito tempo, Jesus perguntou-lhe: «Queres ser curado?» O enfermo respondeu-Lhe: «Senhor, não tenho ninguém que me introduza na piscina, quando a água é agitada; enquanto eu vou, outro desce antes de mim». Disse-lhe Jesus: «Levanta-te, toma a tua enxerga e anda». No mesmo instante o homem ficou são, tomou a sua enxerga e começou a caminhar. Ora aquele dia era sábado. Diziam os judeus àquele que tinha sido curado: «Hoje é sábado: não podes levar a tua enxerga». Mas ele respondeu-lhes: «Aquele que me curou disse-me: ‘Toma a tua enxerga e anda’». Perguntaram-lhe então: «Quem é que te disse: ‘Toma a tua enxerga e anda’». Mas o homem que tinha sido curado não sabia quem era, porque Jesus tinha-Se afastado da multidão que estava naquele local. Mais tarde, Jesus encontrou-o no templo e disse-lhe: «Agora estás são. Não voltes a pecar, para que não te suceda coisa pior». O homem foi então dizer aos judeus que era Jesus quem o tinha curado. Desde então os judeus começaram a perseguir Jesus, por fazer isto num dia de sábado (Jo 5, 1-3a.5-16).
       No Evangelho podem sublinhar-se outros aspetos relevantes. Aquele homem não tinha ninguém que olhasse por ele. Muitas passavam indiferentes. Como hoje pode acontecer. Há depois o preconceito (desculpa) religioso. A cura ao sábado provoca escândalo a quem não teve mãos, nem vontade, nem lembrança, nem generosidade para ajudar aquele enfermo, mas tem língua para expor e apontar...

segunda-feira, 12 de março de 2018

Vou criar novos céus e nova terra

       Assim fala o Senhor: "Eu vou criar os novos céus e a nova terra e não mais se recordará o passado, nem voltará de novo ao pensamento. Haverá alegria e felicidade eterna por aquilo que Eu vou criar: vou fazer de Jerusalém um motivo de júbilo e do seu povo uma fonte de alegria. Exultarei por causa de Jerusalém e alegrar-Me-ei por causa do meu povo" (Is 65, 17-21).
       O funcionário real insistiu: «Senhor, desce, antes que meu filho morra». Jesus respondeu-lhe: «Vai, que o teu filho vive». O homem acreditou nas palavras que Jesus lhe tinha dito e pôs-se a caminho. Já ele descia, quando os servos vieram ao seu encontro e lhe disseram que o filho vivia. Perguntou-lhes então a que horas tinha melhorado. Eles responderam-lhe: «Foi ontem à uma da tarde que a febre o deixou». Então o pai verificou que àquela hora Jesus lhe tinha dito: «O teu filho vive» (Jo 4, 43-54).

     Na primeira leitura proposta para este dia, a palavra do Senhor fala dos novos céus e a nova terra que Ele vai criar. Com Jesus Cristo, os novos céus e a nova terra chega até nós. O funcionário real que vai ter com Jesus acredita que n'Ele está o poder de Deus e comprova-o com a cura do seu filho. O reino de Deus chegou até nós, os novos céus e a nova terra chegaram com Ele, Deus feito homem.

sábado, 10 de março de 2018

Dois homens subiram ao templo para orar

       Oseias presenteia-nos com mais esta belíssimo confissão de fé, de confiança em Deus. Se Ele nos feriu, Ele nos há de curar. Faz lembrar um Pai/Mãe que coloca o filho de castigo mas com a preocupação de o orientar para o bem. E numa imagem que hoje não se usa, a mãe ou o pai que dão uma bofetada no filho, mas que logo abraçam, afaçam, fazem sentir bem, acarinham, curam o filho que se magoou.
Vinde, voltemos para o Senhor. Se Ele nos feriu, Ele nos curará. Se nos atingiu com os seus golpes, Ele tratará as nossas feridas. Ao fim de dois dias, Ele nos fará viver de novo; ao terceiro dia nos levantará e viveremos na sua presença. Procuremos conhecer o Senhor: a sua vinda é certa como a aurora. Virá a nós como o aguaceiro de Outono, como a chuva da Primavera sobre a face da terra. «Que farei por ti, Efraim? Que farei por ti, Judá?» – diz o Senhor – «O vosso amor é como o nevoeiro da manhã, como o orvalho da madrugada que logo se evapora. Por isso os castiguei por meio dos Profetas e os matei com palavras da minha boca; e o meu direito resplandece como a luz. Porque Eu quero a misericórdia e não os sacrifícios, o conhecimento de Deus, mais que os holocaustos» (Os 6, 1-6).
       O profeta sublinha a conversão, as boas obras, a justiça, o amor, como forma de viver em Deus, remetendo para a misericórdia de Deus mais que todas as tradições ou sacrifícios. Também assim no Evangelho de hoje, não vale tanto o ritualismo, o cumprimento de uma tradição, de uma obrigação (ainda que religiosa), mas sobretudo uma atitude permanente de conversão e de despojamento diante de Deus.
       O publicano sai justificado, diante de Deus posta-se como "nada", precisado da graça de Deus. O fariseu aparece diante de Deus como "tudo", não precisa nem de Deus. Mas escutemos e meditemos o texto:
Jesus disse a seguinte parábola para alguns que se consideravam justos e desprezavam os outros: «Dois homens subiram ao templo para orar; um era fariseu e o outro publicano. O fariseu, de pé, orava assim: ‘Meu Deus, dou-Vos graças por não ser como os outros homens, que são ladrões, injustos e adúlteros, nem como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo quanto possuo’. O publicano ficou a distância e nem sequer se atrevia a erguer os olhos ao Céu; mas batia no peito e dizia: ‘Meu Deus, tende compaixão de mim, que sou pecador’. Eu vos digo que este desceu justificado para sua casa e o outro não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado» ( Lc 18, 9-14)

sexta-feira, 9 de março de 2018

Amar a Deus e ao próximo como a si mesmo

       A Sagrada Escritura é um manancial de vida nova. Palavras humanas, com toda a contextualização em que foram transmitidas e escritas, inspiradas por Deus e que se tornam para nós palavras de salvação, palavras de vida eterna.
       A contingência do tempo e da história, não aligeira o essencial da mensagem: os caminhos do Senhor levam-nos à felicidade, pois levam-nos pelo caminho da conciliação, da caridade, da justiça, da partilha, da comunhão. E estes valores, estas escolhas, sempre nos aproximam uns dos outros e nos fazem sentir úteis uns aos outros, fazem-nos sentir parte da família humana.
       Oseias, mais um dos profetas maiores de Israel, lembra que não são os poderes humanos, o poderes dos exércitos que podem salvar o povo, mas a conversão dos seus membros... o ponto de partida, também aqui, é o amor, a misericórdia de Deus.
Assim fala o Senhor: «Israel, converte-te ao Senhor, teu Deus, porque foram os teus pecados que te fizeram cair. Vinde com palavras de súplica, voltai para o Senhor e dizei-Lhe: “Perdoai todas as nossas faltas e aceitai o dom que Vos oferecemos, a homenagem dos nossos lábios. Não é a Assíria que nos pode salvar; não montaremos mais a cavalo, nem chamaremos ‘Nosso Deus’ à obra das nossas mãos, porque só em Vós o órfão encontra piedade”. Curarei a sua infidelidade, amá-los-ei generosamente, pois a minha ira afastou-se deles. Serei como orvalho para Israel, que florirá como o lírio e lançará raízes como o cedro do Líbano» (Os 14, 2-10).
       A uma pergunta de um escriba, Jesus responde com o essencial da Lei e dos Profetas, isto é, de toda a Sagrada Escritura. "Amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a si mesmo" é única exigência do Evangelho:
Jesus respondeu-lhe: «O primeiro é este: ‘Escuta, Israel: O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor: Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças’. O segundo é este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Não há nenhum mandamento maior que estes». Disse-Lhe o escriba: «Muito bem, Mestre! Tens razão quando dizes: Deus é único e não há outro além d’Ele. Amá-l’O com todo o coração, com toda a inteligência e com todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, vale mais do que todos os holocaustos e sacrifícios» (Mc 12, 28b-34).

quinta-feira, 8 de março de 2018

Segui o caminho do Senhor e sereis felizes!

       "Foi isto que ordenei ao meu povo: ‘Escutai a minha voz, e Eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo. Segui sempre o caminho que vou indicar-vos e sereis felizes’. Mas eles não ouviram nem prestaram atenção: seguiram as más inclinações do seu coração obstinado, voltaram-Me as costas, em vez de caminharem para Mim" (Jer 7, 23-28).
       "Todo o reino dividido contra si mesmo, acaba em ruínas e cairá casa sobre casa. Se Satanás está dividido contra si mesmo, como subsistirá o seu reino? Vós dizeis que é por Belzebu que Eu expulso os demónios. Ora, se Eu expulso os demónios por Belzebu, por quem os expulsam os vossos discípulos? Por isso eles mesmos serão os vossos juízes. Mas se Eu expulso os demónios pelo dedo de Deus, então quer dizer que o reino de Deus chegou até vós" (Lc 11, 14-23).

       O expulsar os espíritos impuros é uma característica de Alguém com poder divino, como perdoar os pecados. Desta forma, Jesus confirma que vem da parte de Deus, para instaurar um tempo novo, para nos introduzir nos caminhos de Deus, na certeza que vivendo de acordo com a Sua vontade nos realizamos como pessoas e como comunidade. Aliás, é essa também a mensagem comunicada através de Jeremias.
       O gesto de Jesus, contudo, provoca uma reacção negativa, o que indicia que doravante a sua situação não vai ser fácil. Uma crescente oposição à Sua palavra e à Sua postura hão-de conduzi-l'O ao Calvário, para testemunhar o amor de Deus para connosco.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas

       Na liturgia da Palavra proposta para esta quarta-feira, no centro aparecem os Mandamentos, dados por Deus ao povo, através do grande líder de Israel, Moisés. Mandamentos que se torna LEI e, conforme as palavras de Moisés, uma lei que engrandece o povo de Israel, tal a justeza e o equilíbrio dos preceitos emanados por inspiração divina:
Moisés falou ao povo, dizendo: «Agora, Israel, escuta os preceitos que vos dou a conhecer e põe-nos em prática, para que vivais e entreis na posse da terra que vos dá o Senhor, Deus dos vossos pais. Ensinei-vos estas leis e preceitos, conforme o Senhor, meu Deus, me ordenara, a fim de os praticardes na terra de que ides tomar posse. Observai-os e ponde-os em prática, porque eles serão a vossa sabedoria e a vossa prudência aos olhos dos povos, que, ao ouvirem falar de todas estas leis, dirão: ‘Que povo tão sábio e prudente é esta grande nação!’. Qual é, na verdade, a grande nação que tem a divindade tão perto de si como está perto de nós o Senhor, nosso Deus, sempre que O invocamos? E qual é a grande nação que tem mandamentos e decretos tão justos como esta lei que hoje vos apresento? Mas tende cuidado; prestai atenção para não esquecer tudo quanto viram os vossos olhos, nem o deixeis fugir do pensamento em nenhum dia da vossa vida. Ensinai-o aos vossos filhos e aos filhos dos vossos filhos» (Deut 4, 1.5-9).
       No Evangelho, Jesus valida a LEI e os seus mandamentos, dizendo claramente que não veio para pôr em causa, mas para levar à plenitude. Como poderemos verificar, por todo o Evangelho (nas suas quatro versões e visões), a plenitude da Lei é a caridade, o amor sem limites, o amor levado ao limite de dar a vida.
Disse Jesus aos seus discípulos: «Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas completar. Em verdade vos digo: Antes que passem o céu e a terra, não passará da Lei a mais pequena letra ou o mais pequeno sinal, sem que tudo se cumpra. Portanto, se alguém transgredir um só destes mandamentos, por mais pequenos que sejam, e ensinar assim aos homens, será o menor no reino dos Céus. Mas aquele que os praticar e ensinar será grande no reino dos Céus» (Mt 5, 17-19).

terça-feira, 6 de março de 2018

Assim procederá convosco o Vosso Pai

       "...E agora Vos seguimos de todo o coração, Vos tememos e buscamos o vosso rosto. Não nos deixeis ficar envergonhados, mas tratai-nos segundo a vossa bondade e segundo a abundância da vossa misericórdia. Livrai-nos pelo vosso admirável poder e dai glória, Senhor, ao vosso nome" (Dan 3, 25.34-43).

       Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe: «Se meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?» Jesus respondeu: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Na verdade, o reino de Deus pode comparar-se a um rei que quis ajustar contas com os seus servos. Logo de começo, apresentaram-lhe um homem que devia dez mil talentos. Não tendo com que pagar, o senhor mandou que fosse vendido, com a mulher, os filhos e tudo quanto possuía, para assim pagar a dívida. Então o servo prostrou-se a seus pés, dizendo: ‘Senhor, concede-me um prazo e tudo te pagarei’. Cheio de compaixão, o senhor daquele servo deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida. Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros que lhe devia cem denários. Segurando-o, começou a apertar-lhe o pescoço, dizendo: ‘Paga o que me deves’. Então o companheiro caiu a seus pés e suplicou-lhe, dizendo: ‘Concede-me um prazo e pagar-te-ei’. Ele, porém, não consentiu e mandou-o prender, até que pagasse tudo quanto devia. Testemunhas desta cena, os seus companheiros ficaram muito tristes e foram contar ao senhor tudo o que havia sucedido. Então, o senhor mandou-o chamar e disse: ‘Servo mau, perdoei-te tudo o que me devias, porque me pediste. Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?’ E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos, até que pagasse tudo o que lhe devia. Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão de todo o coração» (Mt 18, 21-35).
       A liturgia da Palavra deste dia apresenta-nos uma aspecto fundamental na vida do crente: o arrependimento dos pecados, reconhecendo a própria culpa, a conversão so Senhor de todo o coração e a vida nova daí resultante.
       Na primeira leitura, Azarias faz uma súplica de arrependimento, em seu nome e de todo o povo, para que Deus não leve em conta os seus pecados, mas na Sua misericórdia infinita olhe para o Seu pequeno povo e não esqueça a Sua aliança. O compromisso de Azarias e do povo é caminhar na presença do Senhor, segundo os Seus mandamentos.
       No Evangelho, encontramos Pedro a perguntar a Jesus quantas vezes devemos perdoar. A resposta de Jesus é inequívoca: sempre! Em todas as circunstâncias, em qualquer situação, todos os que nos ofenderem ou se a mesma pessoa nos ofender muitas vezes. Não é uma tarefa fácil. É um desafio salutar. Aceitar o outro com as suas limitações é pedir que os outros nos aceitem nas nossas insuficiência.
       Não esquecer, que o perdão nos é dado, antes de mais, pelo próprio Deus. Só Ele nos purifica e nos livra da culpa do pecado. É essa precisamente a lição a tirar da parábola de Jesus, do administrador infiel, que vê perdoada a sua grande dívida mas não é capaz de perdoar uma ninharia ao seu semelhante...

segunda-feira, 5 de março de 2018

Nenhum profeta é bem recebido na sua terra...

       Jesus veio a Nazaré e falou ao povo na sinagoga, dizendo: «Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua terra. Digo-vos a verdade: Havia em Israel muitas viúvas no tempo do profeta Elias, quando o céu se fechou durante três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a terra; contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas a uma viúva de Sarepta, na região da Sidónia. Havia em Israel muitos leprosos no tempo do profeta Eliseu; contudo, nenhum deles foi curado, mas apenas o sírio Naamã». Ao ouvirem estas palavras, todos ficaram furiosos na sinagoga. Levantaram-se, expulsaram Jesus da cidade e levaram-n’O até ao cimo da colina sobre a qual a cidade estava edificada, a fim de O precipitarem dali abaixo. Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho (Lc 4, 24-30).
       Embora situado no início do Evangelho de São Lucas, este incidente na sua terra natal, ou na terra que o viu crescer, mostra como Jesus se confronta com as dificuldades criadas, e como se distancia das facilidades, procurando em todos os momentos a fidelidade a Deus, Seu e nosso Pai. O regresso a casa bem poderia ser positivo e até aglutinador, desencadeando um movimento à sua volta. Mas Jesus não renuncia ao anúncio do Evangelho, só para agradar aos da sua terra, age como sempre. Isso custar-lhe-á caro, mais à frente há de custar-lhe a própria vida, que Ele dá a favor da humanidade.
       Jesus segue o Seu caminho, confiante e corajosamente, na consciência firme de estar a cumprir a vontade de Deus, mas antevendo os reveses da vida futuro. Foi um incidente, mas não será o último.
       Sublinhe-se, para nós, que por vezes temos de seguir o nosso caminho, se isso nos levar mais longe, se isso nos conduzir à verdade e à liberdade.

sábado, 3 de março de 2018

Domingo III da Quaresma - ano B - 4 de março de 2018

Pai, dá-me a parte da herança que me toca...

       É-nos proposto, para este sábado, o Evangelho em que Jesus apresenta Deus como um Pai infinitamente misericordioso, pronto a perdoar, que se lança aos braços dos filhos desavindos, que faz festa pelo regresso dos que se transviaram. É a conhecida parábola do filho pródigo, muito mais parábola do Pai Misericordioso.
       Por outro lado, agudiza-se o debate com os fariseus e doutores da lei. São como o filho mais velho, zelosos, e que julgam que por estarem há mais tempo na religião têm todos os direitos e podem decidir quem entra e quem sai, quem tem ou não direito à salvação.
       Por outro lado ainda, o convite à alegria e à festa, que por vezes se esquece na religião que assenta sobretudo na tradição e não na conversão pessoal, e na intimidade com Deus e com os outrso.
       Vale a pena ler toda a parábola:
Jesus disse-lhes então a seguinte parábola: «Certo homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’. O pai repartiu os bens pelos filhos. Alguns dias depois, o filho mais novo, juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante e por lá esbanjou quanto possuía, numa vida dissoluta. Tendo gasto tudo, houve uma grande fome naquela região e ele começou a passar privações. Entrou então ao serviço de um dos habitantes daquela terra, que o mandou para os seus campos guardar porcos. Bem desejava ele matar a fome com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. Então, caindo em si, disse: ‘Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome! Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho, mas trata-me como um dos teus trabalhadores’. Pôs-se a caminho e foi ter com o pai. Ainda ele estava longe, quando o pai o viu: encheu-se de compaixão e correu a lançar- se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos. Disse-lhe o filho: ‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho’. Mas o pai disse aos servos: ‘Trazei depressa a túnica mais bela e vesti-lha. Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o. Comamos e festejemos, porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’. E começou a festa. Ora o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças. Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. O servo respondeu-lhe: ‘O teu irmão voltou e teu pai mandou matar o vitelo gordo, porque chegou são e salvo’. Ele ficou ressentido e não queria entrar. Então o pai veio cá fora instar com ele. Mas ele respondeu ao pai: ‘Há tantos anos que te sirvo, sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos. E agora, quando chegou esse teu filho, que consumiu os teus bens com mulheres de má vida, mataste-lhe o vitelo gordo’. Disse-lhe o pai: ‘Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque o teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’» (Lc 15, 1-3.11-32).

sexta-feira, 2 de março de 2018

A pedra rejeitada torna-se pedra angular

        Jesus disse aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo: «Ouvi outra parábola: Havia um proprietário que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e levantou uma torre; depois arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe. Quando chegou a época das colheitas, mandou os seus servos aos vinhateiros para receber os frutos. Os vinhateiros, porém, lançando mão dos servos, espancaram um, mataram outro e a outro apedrejaram-no. Tornou ele a mandar outros servos, em maior número que os primeiros, e eles trataram-nos do mesmo modo. Por fim mandou-lhes o seu próprio filho, pensando: ‘Irão respeitar o meu filho’. Mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si: ‘Este é o herdeiro; vamos matá-lo e ficaremos com a sua herança’. Agar¬raram-no, levaram- no para fora da vinha e mataram-no. Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?» Os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo responderam-Lhe: «Mandará matar sem piedade esses malvados e arrendará a vinha a outros vinhateiros que lhe entreguem os frutos a seu tempo». Disse-lhes Jesus: «Nunca lestes na Escritura: ‘A pedra rejeitada pelos construtores tornou-se a pedra angular; tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos’? Por isso vos digo: Ser-vos-á tirado o reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos». Ao ouvirem as parábolas de Jesus, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus compreenderam que falava deles e queriam prendê-l’O; mas tiveram medo do povo, que O considerava profeta (Mt 21, 33-43.45-46).
       Nos textos sagrados sugeridos para este dia, aparecem-nos duas situações semelhantes. José, por ser o preferido, ou o eleito, é vendido como escravo para o Egipto. O ciúme e a inveja fazem dele um alvo a abater. Mas rejeitado, será ele a acudir a toda a família, ao seu povo, para o resgatar da miséria.
       Jesus conta a parábola de um proprietário, que planta, que cerca, que cuida da vinha. Na altura da "colheita" manda recolher os frutos. Mas os vinhateiros matam os servos e mais tarde matam o próprio filho. Nesta para´bola está condensada a história de Israel e a vinda de Jesus. O proprietário é Deus. Os vinhateiros o povo, a humanidade; Jesus, o filho enviado, mas também rejeitado.
       Apesar de rejeitado será Ele a pedra angular, pela Sua morte e ressurreição, trará a salvação para toda a humanidade. estejamos atentos para podermos receber aqueles que vêm em nome de Deus e para produzirmos frutos em abundância para que os possamos devolver a Deus.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Respeitai o direito, protegei, fazei justiça, defendei

       A palavra de Deus proposta para esta terça feira acentua a misericórdia de Deus. Jesus colocava a misericórdia de Deus como ideal comparativo para nos centrarmos na vivência da misericórdia. Hoje, na primeira leitura, a bondade de Deus, e o Seu perdão, estão ao alcance de todos, importa, antes de mais, iniciar um caminho positivo, de honestidade, de atenção ao semelhante, de prática da justiça e da caridade. Uma vez mais, as boas obras testam e aprofunda a fé.

Mas atentemos ao texto:
       Escutai a palavra do Senhor, chefes de Sodoma; dai ouvidos à lei do nosso Deus, povo de Gomorra: «Lavai-vos, purificai-vos, afastai dos meus olhos a malícia das vossas acções, deixai de praticar o mal e aprendei a fazer o bem. Respeitai o direito, protegei o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva. Vinde então para discutirmos as nossas razões, – diz o Senhor. Ainda que os vossos pecados sejam como o escarlate, ficarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como a púrpura, ficarão brancos como a lã. Se fordes dóceis e obedientes, comereis os bens da terra. Mas se recusardes e fordes rebeldes, sereis devorados pela espada» (Is 1, 10.16-20).
       No Evangelho, Jesus remete-nos para a necessidade das boas obras confirmarem o que professamos pelas palavras, procurando a correspondência entre o que nos exigimos e o que exigimos ao nosso irmão, optando por um caminho de humildade, e não de sobranceria. É no reconhecimento da nossa limitação, que podemos abrir-nos aos outros e a Deus.

Vejamos as palavras de Jesus aos discípulos e à multidão:
       «Na cadeira de Moisés sentaram-se os escribas e os fariseus. Fazei e observai tudo quanto vos disserem, mas não imiteis as suas obras, porque eles dizem e não fazem. Atam fardos pesados e põem-nos aos ombros dos homens, mas eles nem com o dedo os querem mover. Tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens: alargam as filactérias e ampliam as borlas; gostam do primeiro lugar nos banquetes e dos primeiros assentos nas sinagogas, das saudações nas praças públicas e que os tratem por ‘Mestres’. Vós, porém, não vos deixeis tratar por ‘Mestres’, porque um só é o vosso Mestre e vós sois todos irmãos. Na terra não chameis a ninguém vosso ‘Pai’, porque um só é o vosso pai, o Pai celeste. Nem vos deixeis tratar por ‘Doutores’, porque um só é o vosso doutor, o Messias. Aquele que for o maior entre vós será o vosso servo. Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado» (Mt 23, 1-12).