Mostrar mensagens com a etiqueta Amizade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Amizade. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Um pai, as três filhas, e o sal


       Um rei tinha três filhas; perguntou a cada uma delas por sua vez, qual era a mais sua amiga. A mais velha respondeu:
       – Quero mais a meu pai, do que à luz do Sol.
       Respondeu a do meio:
       – Gosto mais de meu pai do que de mim mesma.
       A mais moça respondeu:
       – Quero-lhe tanto, como a comida quer o sal.
       O rei entendeu por isto que a filha mais nova o não amava tanto como as outras, e pô-la fora do palácio. Ela foi muito triste por esse mundo, e chegou ao palácio de um rei, e aí se ofereceu para ser cozinheira. Um dia veio à mesa um pastel muito bem feito, e o rei ao parti-lo achou dentro um anel muito pequeno, e de grande preço. Perguntou a todas as damas da corte de quem seria aquele anel. Todas quiseram ver se o anel lhes servia: foi passando, até que foi chamada a cozinheira, e só a ela é que o anel servia. O príncipe viu isto e ficou logo apaixonado por ela, pensando que era de família de nobreza.
       Começou então a espreitá-la, porque ela só cozinhava às escondidas, e viu-a vestida com trajos de princesa. Foi chamar o rei, seu pai, e ambos viram o caso. O rei deu licença ao filho para casar com ela, mas a menina tirou por condição que queria cozinhar pela sua mão o jantar do dia da boda. Para as festas de noivado convidou-se o rei que tinha três filhas e que pusera fora de casa a mais nova. A princesa cozinhou o jantar, mas nos manjares que haviam de ser postos ao rei seu pai não deitou sal de propósito. Todos comiam com vontade, mas só o rei convidado é que não comia. Por fim perguntou-lhe o dono da casa por que é que o rei não comia? Respondeu ele, não sabendo que assistia ao casamento da filha:
       – É porque a comida não tem sal.
       O pai do noivo fingiu-se raivoso, e mandou que a cozinheira viesse ali dizer porque é que não tinha botado sal na comida. Veio então a menina vestida de princesa, mas assim que o pai a viu, conheceu-a logo, e confessou ali a sua culpa, por não ter percebido quanto era amado por sua filha, que lhe tinha dito, que lhe queria tanto como a comida quer o sal, e que depois de sofrer tanto nunca se queixara da injustiça de seu pai.

domingo, 14 de dezembro de 2014

UM AMIGO É UM BEM

Um amigo é um bem,
Um tesouro que se tem,
Sóis vós as estrelas,
Que nos guiam mais além.
São momentos bons e maus,
Nesta estrada percorrida,
E digo mais, não vos trocava
Por nada desta vida.

Refrão
E talvez um dia, chegue a hora do adeus,
Deixar-vos-ei com pena, amigos meus,
Mas mesmo longe, vós estais perto,
Ao pé de mim,
Pois entre amigos é assim.

Um amigo é um irmão,
Nosso pensar, nossa mão.
Meus amigos que estão aqui
Para vós canto esta canção.
O tempo voa neste instante,
E já estamos de partida,
E digo mais, não vos trocava
Por nada desta vida.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Manuel Forjaz - doença, vida, escolhas, fé, Deus, morte

       “A doença provavelmente vai matar-me, não sei quando e não me preocupo com isso. O que sei é que o cancro não vai conseguir matar-me a vida” (p. 153)

       “Sei que tenho um cancro e que um dia me vai vencer. Mas esse dia ainda não chegou e até lá tenciono continuar a aproveitar cada momento. Tive várias derrotas na minha vida, mas de todas as vezes caí de pé. É preciso nunca deixar de viver” (p. 155)

       “A minha fé é plástica, irracional, absoluta, converso com Deus enquanto passeio na rua, Ele senta-se ao meu lado à noite antes de adormecer e quando rezo, não papagueio apenas umas ave-marias e um pai-nosso, falo com Ele, discuto, exponho as minhas inquietações. Vou à missa com regularidade e passo pela Igreja dos Mártires rodas as semanas para falar durante uns minutos com o padre João Seabra, que me casou, batizou os meus filhos e continua a ser o meu confessor” (p 149)
       “Não deixar nada para amanhã, não pôr a vida em suspenso à espera do resultado de mais um exame, viver todos os dias, deixou de ser um objetivo e passou a ser um hábito, uma rotina” (p 140)
       "O sofrimento é relativo, podia ser pior, poder ter acontecido ais meus filhos. Vou morrer, sim. Eu e mais 155 mil pessoas no mesmo dia. Mas não é amanhã, e enquanto isso não acontece a vida segue pujante, bela, cheia de amor, de pequenos prazeres, sol e peixe grelhado. A única coisa que quero é seguir a minha vida tal como ela é, manter tudo exatamente na mesma. Sem nunca baixar os braços, sem nunca parar de procurar mais um tratamento, mais uma alternativa, mais uma opção” (p 55-56)


in MANUEL FORJAZ, Nunca te distraias da Vida.

quarta-feira, 19 de março de 2014

MANUEL FORJAZ - Não te distraias da vida

MANUEL FORJAZ. Não te distraias da vida. Poderei morrer da doença, mas a doença não me matará. Oficina do Livro. Alfragide 2014. 172 páginas.
       Quase por acaso, ou talvez não, encomendei, via Internet, este livro, sem conhecer o autor. Vi a promoção da publicação e pela descrição seria uma leitura interessante e envolvente afinal era o testemunho de alguém que tem cancro e que já passou por muitas intervenções, tratamentos, por melhoras e por recaídas, por momentos em que o otimismo natural o predispunha a celebrar a vida, outras vezes as notícias que se tornavam desanimadoras sobretudo quando chegavam novos exames a contradizer a esperança de vencer a doença. Num dia seguinte, encontrei o José Alberto Carvalho, na TVI 24, a entrevistar um homem, sem cabelo, que me fez lembrar o economista Vítor Bento (outro Vítor que poderia ter sido Ministro das Finanças). Afinal, pelo desenrolar da conversa, me apercebi que era precisamente o autor do livro que tinha encomendado nas vésperas.
       Como diria Tolstoi, as famílias felizes são todas iguais, as famílias tristes são cada uma à sua maneira. Ou como popularmente se vai dizendo, não há doenças, há doentes, pois cada pessoa reage de maneira específica à manifestação da doença, que pode ter o mesmo nome, mas cuja reação interage com a pessoa. Acrescentaríamos que a doença se faz particular na pessoa, a pessoa "faz" a doença ser diferente que noutras pessoas. Assim também o cancro, no caso concreto num pulmão. Uns querem falar da doença, outros não. Uns reagem com esperança e não quebram as rotinas, a não ser que a isso sejam forçados, outros deixam de viver.
       O livro resulta do desejo de acalentar a esperança para os que enfrentam situações semelhanças e para as pessoas que convivem com doentes oncológicos. Há pouco tempo recomendámos a leitura do livro da Fernanda Serrano - Também há finais felizes -, que viveu momentos de grande aflição e que parece ter superado os anos de maior risco da doença "reincidir". Pelo que se vê no presente testemunho, Manuel Forjaz continua a viver à espera do próximo tratamento, da próxima experiência, sem deixar de procurar, de lutar, de incentivar outros. Além do livro, tem usado várias plataformas para contar a sua experiência, para responder a quem busca respostas, fazendo sugestões para enfrentar a doença, mas também acompanhar, trabalhando na área de empreendedorismo, a criação de empresas.
       É uma história de vida, como filho, como marido, como pai, como católico, como professor, como diretor de empresas de sucesso mas que também passam por dificuldades. O importante é não desistir. Como refere no subtítulo: «poderei morrer da doença, mas a doença não me matará [a vida]». Há tantas coisas que se podem fazer. Não adiar para amanhã. Não desanimar. Pior é ter cancro no Sudão do Sul onde os cuidados médicos são muito deficitários. Não se contente com uma resposta, busque outras.
       Uma das perspetivas, e apesar da doença por vezes o deixar de rastos, é a procura por manter hábitos e rotinas. Veio à memória outro livro, outra história comovente, a de um médico oncologia, José Maria Cabral, em quem se manifestou o cancro. O título - O desafio da Normalidade - mostra como é possível arranjar forças para procurar viver a vida com os amigos e com a família, não deixando que a doença ganhe na qualidade dos afetos e dos sentimentos.
       Conheça ou não alguém com cancro, tenha alguém na família ou não, esta leitura será sempre um desafio, uma provocação. Pode lembrar-nos, no meio das nossas aflições, que há outros cujo sofrimento é bem mais violento e constante. Por outro lado, e numa perspetiva de fé que o autor também expressa, não valerá a pena perguntar: "Porquê eu?", pois pode acontecer a todos. Não é certamente um castigo de Deus. Integra a fragilidade biológica do ser humano. A fé pode abrir outra perspetiva, dando-nos força mas também esperança diante da eminência da morte.
ANEXO 1:
O MEU CANCRO: REGRAS PARA VIVER MELHOR
- Proíba quem quer que seja de lhe falar de quem morreu de cancro; quem tem cancro tem presente que vai morrer provavelmente mais cedo que a maioria, não precisa ser lembrado todos os dias;
- Por outro lado, e em sentido contrário, estimule quem o rodeia a contar histórias de quem venceu, está a vencer ou vive com a doença há muito tempo; inspire-se nas boas histórias, sem nunca perder o bom senso;
- Não tenha pena de si próprio. Isso gera um círculo fechado de tristeza e angústia de que é difícil libertar-se;
- Não tente perceber «porquê eu?». Porque sim. Uns cancros são genéticos, outros são ambientais, outros são profissionais. Acontece, não há razões místicas ou religiosas. Toca a muitas pessoas, aqui e no Sudão do Sul, onde claramente as condições de tratamento são bem piores;
- Se ainda assim tem tendência para ficar a remoer esse tipo de pensamentos, lembre-se (quem, como eu, tiver filhos) que ainda bem que fomos nós e não eles;
- Perceba que vai morrer, mas lembre-se que morrem todos os dias 155 mil pessoas, algumas em circunstâncias bem piores que a sua. E vai morrer, mas não é já amanhã. E até lá, a vida segue, bela, poderosa, pujante, cheia de coisas boas, cheia de amor, de pequenos prazeres, de sol e peixe grelhado;
- Não perca demasiado tempo a pensar na sua morte e no disparate das bucket list (apesar de ser tolerável ir ver o filme de Morgan Freeman e Jack Nicholson). Se o fizer, esquece-se de viver. Manter tudo exatamente na mesma - contactos, vida social e profissional -, praticar exercício físico e seguir uma boa alimentação, é a melhor maneira de continuar a viver;
- Siga as medicinas alternativas que entender, mas só depois de as estudar, de ouvir testemunhos credíveis e certificar-se de que não afetam os tratamentos clássicos que estiver a seguir.
ANEXO II
O CANCRO DOS OUTROS: REGRAS PARA LIDAR COM A DOENÇA
- Lembre-se que ninguém morre logo amanhã; às vezes morre-se em poucas semanas, mas a vastíssima maioria dos doentes com cancro dura bastante mais e alguns sobrevivem além da idade de morrer de velho;
- Prepara-se para possíveis recaídas. Muitos doentes tratam-se à primeira, outros à segunda e outros à terceira (mas nunca desistimos);
- Não dramatize. A medicina evoluiu muito e hoje os doentes vivem com razoável qualidade de vida;
- Há doentes que querem falar do cancro e outros que preferem não tocar no assunto. Respeite essa decisão mas, em qualquer caso, se não está psicologicamente preparado é melhor não se armar em enfermeiro ou psicólogo;
- Esqueça as tragédias alheias e as histórias de quem nãos e safou, disso os doentes já têm chegue. Dê sorrisos, miminhos e amor que é tudo o que um doente com cancro precisa na eterna luta contra a doença;
- A quimioterapia não é um horror de diarreias, enjoos e aftas. Há dois dias de «psicadélicos», ao segundo e ao terceiro dia, mas cada caso é um caso e cada pessoa reage de maneira diferente. O segredo para reforçar a energia é «canja de galinha», muito mar, se possível, e boa disposição à volta;
- Ficar careca acontece a muita gente, mas o cabelo volta a crescer, não há drama nenhum nisso - brinquem com a situação (só os carecas mesmo é que perdem o cabelo para sempre);
- Todos morremos, disso ninguém escapa. O segredo não é por isso falar de morte, que é óbvia e absoluta, mas sim lembrar o outro de não se esquecer de viver a vida, que é fantástica, surpreendente e extraordinária;
- Nunca digam a alguém com cancro que está mal ou vai morrer, sejam, louca e racionalmente positivos e otimistas.
Páginas de Manuel Forjaz:
»» no FACEBOOK
»» www.manuelforjaz.com
»» no YOUTUBE.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

A Arte da Alegria

       Alguém falou no pecado da tristeza. Realmente, há pessoas tristes, desanimadas, desiludidas. Há no mundo de hoje uma espécie de doença, a de não se procurar a verdadeira alegria, ou procurá-la onde não está. O rosto é o espelho da alma, e a alegria, a grande mensageira do coração em paz.
       Não achas que o mundo está com os lábios cerrados de mais? Que há poucas pessoas que podem ser consideradas cartaz do bom humor, modelos de alegria? Falta aos homens dos nossos dias o dom da verdadeira alegria, faltam lábios a transbordar sorrisos e rostos a vender felicidade.
       A alegria está em vencer o egoísmo e a ganância. Está em sofrer com espírito de luta, mas com aceitação. A verdadeira alegria está na fraternidade.
       Há mais alegria em dar que em receber. A alegria está nas boas amizades e no dever levado a sério. Está na vida condividida, no diálogo com Deus, no lar onde existe a verdadeira fé e o verdadeiro amor.
       Já não se faz nada com emoção, com alegria e cordialidade. Vamos reagir. Sem alegria morre-se antecipadamente.
       Que tipo de felicidade já experimentaste? Hoje tornaste alguém feliz?

BÁGGIO, António - Tudo transformar em cada amanhecer. Lisboa: Edições Paulistas, 1993

quinta-feira, 6 de junho de 2013

A nossa humanidade é narração de Deus

"A nossa humanidade é narração de Deus: o nosso rosto conta como é o Seu; as nossas mãos dão a ver as Suas; Ele fala pelas nossas palavras e respira melhor à medida que os nossos gestos se tornam amplos; os nossos olhos testemunham como os d'Ele cintilam; os nossos silêncios e o nosso riso são mapas muito aproximados para quem quiser chegar a Ele. A nossa fragilidade dá a ver a força da Sua compaixão. As ausências em que nos perdemos permitem que se revele ainda mais a Sua amizade. Como qualquer mãe ou pai, Ele não deseja que o filho seja mais alto ou mais baixo, mais louro ou mais tisnado. Ele só quer que os seus filhos sejam o que são de maneira plena. Nada há em nós que lhe seja desconhecido ou indiferente: interrupções e recomeços, frustrações e desafios, turbulências ou tempos de paz. Ele chega a toda a hora, sem nunca verdadeiramente partir. Ele entra quando lhe abrimos a porta, mas está sempre presente. Ele está aqui e além. Está abraçado a nós e à nossa espera para o abraço sem fim"

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Abrir, abrir, abrir

       "Construir mais praças do que paredes; mais mesas do que despensas; abrir, abrir, abrir. Pode até acontecer que este gesto de abertura seja denunciado como traição dos interesses do grupo. Mas, para sermos fiéis ao núcleo mais fundo da autenticidade, temo-nos de interrogar constantemente: «o que é trair?» Não esqueçamos o que ensina Kierkegaad: a única traição é não ter querido nada, profunda e autenticamente".

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Judas, o predileto discípulo de Jesus

       "... nenhuma perturbação provoca em nós tanto impacto, nem golpe nenhum fere como aqueles que nos chegam de um irmão, de um amigo".

       "... só quem nos ama pronuncia corretamente o nosso nome, sabe o seu significado até ao fim, está apto a nomear o nosso mundo na sua complexa e enigmática inteireza. Só quem nos ama é capaz de ver-nos como realmente somos: esta mistura apaixonada e contraditória, esta aventura conseguida e, ainda assim, inacabada, esta pulsão de nervos e de alma, de opacidade e vislumbre. escreveu com razão o poeta: «Quem não me deu Amor, não me deu nada». Só quem nos ama deposita no fundo da terra oscilante do nosso coração uma semente de bondade, um fragmento de amanhã. E, contudo, tal como a noite, a certa hora, espera inevitável pelo dia, ou como tempestade brota, sem sabermos explicar como, do interior da própria bonança, assim é na amizade. Pode existir um momento, uma hora da vida, uma situação em que, com menor ou maior gravidade, sintamos, ao arrepio de tudo, o contacto com um gesto, com uma palavra que a atraiçoa...
       ... A traição estilhaça o nosso quadro interno, precipita-nos na deceção, amarra-nos a um intensa e desconhecida dor...
       ... só quem me ama me pode trair"
        "Em hebraico, Judas significa «o predileto». Tal como Cefas (o nome Pedro) significa «pedra».. Há quem veja aqui traços do humor de Jesus, que chama «pedra» a um seguidor assustado como Pedro e tem como discípulo traidor um de nome «predileto»... Jesus não escolheu Judas por outra razão que não fosse o amor...
       Quando ele se dispôs a seguir Jesus, certamente existia nele idealismo, convicção e verdade... O desejo de verificar com os seus próprios olhos, de se envolver eram genuínos. Depois, foram-se acumulando poeiras, embaraços, esfriamentos, discórdias...

       "Tal como os restantes discípulos, ele estava convencido de que Jesus se dirigia para Jerusalém para instaurar o Reino de Deus e o Verus Israel (verdadeiro Israel), sob a forma de um poder político, a tal ponto que as discussões entre eles era sobre o lugar que caberia a casa um no futuro governo (cf. Lc 9, 46 e Mc  10, 35-40)...

       "Judas, no fundo, traiu porque se sentiu traído. É a traição que determina o seu gesto. Que, da sua parte, tudo fique decidido durante a Última Ceia, evidencia bem a densidade do desfecho: quando, no partir e repartir do pão, Jesus anuncia que aceita viver a morte como dom, Judas considera isso intolerável. Ele não quer um Messias que morre. E abandona a sala..."

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

terça-feira, 28 de maio de 2013

A alegria é um dom da amizade acolhida

       "Quando olhamos para aquilo que somos e vivemos, quando pomos os olhos no fim do caminho que estamos a percorrer, é importante que sintamos que é para a alegria que estamos chamados. É para a roda dos eleitos que estamos a caminhar. E, por isso, deslocamos infatigavelmente o nosso coração do peso da sombra para a leveza da luz, para a leveza da alegria. Na verdade somos atravessados, somos conduzidos, levados pela mão de uma promessa, e essa promessa é alegria. Não sabemos o que é isso. por agora a nossa alegria é parcial, provisória; é ainda a alegria deste momento, deste instante... Porém, a alegria que nos está prometida é uma alegria completa"
       "A alegria não nos pertence. A alegria atravessa-nos. A alegria é sempre um dom. A alegria nasce do acolhimento. A alegria nasce quando eu aceito construir a minha vida numa cultura de hospitalidade... A alegria é um dom da amizade acolhida... A alegria é um dom que me visita na surpresa, no não anunciado... O meu coração é uma soleira, uma porta entreaberta. a minha vida vive do acolhimento amigável. Temos de adquirir uma porosidade, deixarmo-nos tocar, deixamo-nos ligar pelo fluxo reparador da vida".

       "Os dias sem alegria são completamente sem memória.

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Somos argila amassado do tempo

       "Nós somos feitos de tempo; somos amassados da argila do tempo; somos feitos de idades, de estações, de horas, de dias, somos feitos de cronometrias, isto é, de medições de tempo, visíveis e invisíveis. De facto, tudo o que é humano é feito de tempo; somos um reservatório de tempo; lençóis de tempo que se vão acumulando. Para dizer uma palavra - somos duração...
        «Viver sem amigos é morrer sem testemunhas». Os amigos trazem à nossa vida uma espécie de atestação. Os amigos sabem o que é para nós o tempo. Eles testemunham que somos, que fizemos, que amamos, que perseguimos determinados sonhos e que fomos perseguidos por este ou aquele sofrimento. E fazem-no não com a superficialidade que, na maior parte das vezes, é a das convenções, mas com a forma comprometida de quem acompanha. O olhar do amigo é uma âncora. A ela nos seguramos em estações diferentes da vida para receber esse bem inestimável de que temos absoluta necessidade e que, verdadeiramente, só a amizade nos pode dar: a certeza de que somos acompanhados e reconhecidos. Sem isso a vida é uma baça surdina destinada ao esquecimento.
        A história de cada um de nós consuma-se através de uma necessidade de reconhecimento. Para haver um «eu» tem de existir um «tu». Com cada homem vem ao mundo algo de novo que nunca antes existiu, algo de inaugural e de único, mas é na construção de uma reciprocidade que de forma consistente o podemos descobrir. O «eu» tem imperiosa carência de ser olhado amigavelmente por outro, e por outros, para organizar-se e ousar o risco de ser"

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Amizade - lugar de encontro entre Deus e o Homem

"Amar e ser amado são faculdades tanto divinas como humana, mas o único verdadeiro amor é o de Deus, porque tudo nele tem a sua origem. A causa pela qual devemos amar a Deus e amarmo-nos uns aos outros é o próprio Deus ..."
"A amizade com Deus torna-se, então, a medida (sem medida) da nossa amizade. «Bem-aventurado quem te ama, e ao seu amigo em Ti, e ao seu inimigo por causa de Ti» [Santo Agostinho, Confissões, IV 9,4]"

"A amizade é antes o próprio lugar do encontro entre o humano e o divino, o lugar onde os amigos podem participar de Deus, podem mergulhar no seu mistério..."

"O amigo espiritual é uma imagem de Cristo; o repouso no seu abraço é o abandono no Espírito Santo, que é vida que circula em Deus. Um amigo torna-se para nós um mestre do desapego e da liberdade interior: «os corações que se amam testemunha,-no por expressões do rosto, por palavras, olhares e mil pequenas nadas, que são gravetos para alimentar o fogo onde as almas se fundem entre si e tornam-se apenas uma. Mas se o que nós acreditamos dever amar nos nossos amigos não nos conduzir a uma amar por amar, a nossa consciência reprovar-nos-á» [Aelredo]"

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

O amigo fiel é remédio da vida

       A palavra amável multiplica os amigos e uma língua afável atrai saudações agradáveis...  há amigos de ocasião, que não serão fiéis no dia da adversidade. Há amigos que se tornam inimigos, revelando as vossas contendas para tua humilhação. Há amigos para a mesa, que não serão fiéis no dia da desgraça... Afasta-te dos teus inimigos e acautela-te dos teus amigos. O amigo fiel é abrigo seguro: quem o encontrou descobriu um tesouro. O amigo fiel não tem preço: não se pode medir o seu valor. O amigo fiel é remédio da vida: os que temem o Senhor hão-de encontrá-lo. Quem teme o Senhor orienta bem a sua amizade, porque tal como ele é, assim é o seu amigo (Sir 6, 5-17).
       Ben Sirá, na sua experiência e sabedoria, fala-nos hoje da amizade. O amigo vê-se na adversidade e quem encontrou um amigo verdadeiro encontrou um tesouro. Na bonança muitos parecem ser os amigos. Na adversidade se vê quem permanece, quem é verdadeiramente amigo.
       Para lá do cuidado na escolha dos amigos, importa antes de mais o temor de Deus, para que vivendo de acordo com a Sua vontade, a amizade possa tornar-se mais autêntica.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

A amizade é um contínuo

 "A amizade não se alimenta de encontros episódicos ou de feitos extraordinários. A amizade é um contínuo. Tem sabor a vida quotidiana, a espaços domésticos, a pão repartido, a horas vulgares, a intimidade, a conversas lentas, à exposição confiada, a peripécias à volta de uma viagem ou de um dia de pesca. A Amizade tem o sabor da hospitalidade, a corridas atarefadas e a tempo investido na escuta. A amizade enche a cada de perfume (cf. Jo 12, 3)"
"A amizade não se satisfaz apenas com a versão pública dos acontecimentos, mas procura sempre um outro lado, um ângulo diferente para olhar mais fundo...

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Eucaristia - comensalidade que congrega crentes

"É verdade que a Eucaristia (cf Lc 22,19-20), centro da vida do Reino, é uma refeição, e que ela condensa, em torno de uma mesa, o inteiro destino do Senhor, como se todos os seus gestos e palavras confluíssem, afinal, para a unidade de um único gesto e de uma única palavra. Mas a Eucaristia nasceu já como uma refeição atípica, impregnada de uma semântica irredutível a esse enquadramento. Desde o princípio foi relatada e acolhida, na fé da comunidade cristã, como Dom radical de si que Jesus protagonizou e como comensalidade que congrega os crentes à volta desse acontecimento. Contudo, aquilo que se verifica é que, além da Eucaristia, os Evangelhos estão costurados pela memória de outras refeições. E estas, colocando Jesus numa situação simbólica cheia de implicações, iluminam para nós o sentido profundo da amizade de Jesus".

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Evangelho - o Testamento de um amigo

 "O discípulo amado é aquele que tem uma proximidade particular a Jesus; é aquele que se reclina sobre o seu peito, não apenas numa demonstração de afeto, mas também de comunhão de vida e de sentimentos. Este gesto do reclinar é uma imagem que comparece em outros textos judaicos e que tem a ver com a transmissão do testamento. O Evangelho representa, digamos, o testamento de um amigo; o olhar de um amigo sobre Jesus que nos implica profundamente, colocando-nos no seu lugar. A intervenção do discípulo amado liga-se, assim, a um eixo profundo da teologia de João que considera ser através da amizade que nós compreendemos Jesus e nos avizinhamos dele..."

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

O meu amigo é este próximo... distante

"Eu não espero nada de um amigo, ou melhor, espero tudo, na medida em que a sua existência, pela sua radical diferença, me permite existir. A amizade é o acolhimento de um intervalo puro que, de mim a esse outro que é um amigo, mensura tudo o que há entre nós. A doçura da amizade, porém, é equivalente ao seu rigor mais infrangível: o meu amigo é este próximo que não deixa nunca de ser o mais distante"

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

terça-feira, 30 de abril de 2013

A amizade é guardada pelo silêncio

       "Na amizade estamos uns com os outros e somos uns para os outros, mantendo porém a exterioridade: os amigos não se diluem, não se justapõem, nem se substituem. A amizade é uma forma de expsição ao outro, mas uma exposição que não quebra a reserva, que não invade a solidão. A amizade não só guarda silêncio, mas ela é guardada pelo silêncio...
       "Não há amizade senão onde a distância se conserva. Simone Weil explica-o assim: «A amizade é o milagre pelo qual o ser humano aceita olhar a distância, e sem se aproximar, o próprio ser que lhe é necessário como alimento. É a força de espírito que Eva não teve; e, contudo, ela não tinha necessidade do fruto. Se ela tivesse tido fome no momento que olhava o fruto, e se, apesar disso, tivesse permanecido indefinidamente a olhá-lo sem dar um passo na sua direção, teria realizado um milagre análogo ao da perfeita amizade"

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Amizade - O silêncio é um vínculo que une

"Os amigos podem estar juntos em silêncio. Entre os conhecidos é um embaraço, sentimos imediatamente a necessidade de fazer conversa, de ocupar o espaço em branco da comunicação: ficar em silêncio traz-nos incómodo. Com os amigos o silêncio nada tem de embaraçoso. O silêncio é um vínculo que une"
"... Se assumirmos que a amizade é estar em companhia, mesmo sem falar, então o exercício da oração aprofunda-se, toca outros níveis, abre-nos a outras dimensões do ser. Não é preciso falar. Basta a consolação de estar um ao lado do outro. Amigo é alguém cuja simples presença traz alegria, independentemente do que faça ou diga".

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

A ganância do padeiro... e outros

Funcionamento do sistémica económico por Adam Smith...

       "Devemos o nosso pão fresco não ao altruísmo do padeiro, mas à sua ganância. É graças à ambição do ganho, que os bens de que precisamos chegam às prateleiras dos supermercados. . Esse dado é, de resto, comummente aceite. O facto que hoje se coloca, sempre com maior urgência, é, porém, de outra natureza. Claro que não perde validade a justa expectativa de que a atividade laboral produza o seu lucro, mas o que se coloca às nossas sociedades é a questão da sua capacidade para resolver, ainda que de modo não completamente perfeito, os desequilíbrios que elas próprias geram e que ameaçam a sua preservação... A difícil situação atual mostra-nos, sem margem para hesitações, como se tornou urgente e vital introduzir alternativas de fundo num campo que é económico e financeiros, mas também é humano e civilizacional..."

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

O amigo do seu amigo não faz o mundo melhor

"Quem é pai do seu filho está disponível para estender e praticar a paternidade sempre que for necessário, acolhendo, escutando, amparando. Quem é amigo só do seu amigo não torna propriamente o mundo melhor. A amizade não pode confundir-se com uma associação egoísta de interesses... A verdadeira amizade transfigura e amplia a nossa humanidade, dá-nos competências afetivas, estimula-nos a abrir o círculo, a fazer mais, a ser melhor. A amizade inspira-nos a demonstrarmos, inclusive, a lógica da inimizade, como desafia Jesus: «Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos persegue»

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.