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sexta-feira, 8 de julho de 2016

Leitura: LUCIANO MANICARDI - Caridade dá que fazer

LUCIANO MANICARDI (2016). Caridade dá que fazer. Atualidade das obras de misericórdia. Prior Velho: Paulinas Editora. 240 páginas.
       Vivemos o Jubileu Extraordinário da Misericórdia, convocado pelo Papa Francisco, e que decorre de 8 de dezembro de 2015 a 20 de novembro de 2016. O Jubileu tem levado a rever planos pastorais, compromissos eclesiais. O Papa quis que a Igreja refletisse e vivesse procurando acolher e viver a misericórdia de Deus. As Obras de Misericórdia, corporais e espirituais, sinalizam a concretização da misericórdia de Deus no serviço aos outros.
       Têm sido vários os autores a centrar a sua atenção na Misericórdia, na Bíblia, na história, na Igreja, na vivência da fé. Um dos pedidos do Papa levou muitos a refletir sobre as obras de misercórdia e na sua pertinência no mundo atual.
       O livro que Luciano Manicardi, publicado em 2010, foi revisto e aumentado, englobando já algumas das afirmações do Papa Francisco e dos seus propósitos acerca da importância da misericórdia, no compromisso da Igreja com o mundo.
       Luciano Manacardi nasceu em 1957, em Itália. É monge na comunidade monástica fundada por Enzo Bianchi, onde também é responsável pela formação dos noviços. A sua formação é sobretudo bíblica, mas não deixa de recorrer às descobertas da antropologia e da psicologia.
       Neste trabalho é frequente o recurso à Sagrada Escritura, contextualizando, explicitando, tornando inteligível a caridade, como compromisso do amor com a justiça e com a verdade. As obras de misericórdia continuam a traduzir a assunção da fé cristã, na certeza que o corpo e o tempo nos identificam como irmãos, nos comprometem com o corpo (a vida) do outro e, nessa medida, nos tornam verdadeiramente humanos.
       A melhor forma de sugerir uma leitura será com palavras do próprio autor:
"A caridade ocorre sempre no âmbito das relações humanas. Relações interpessoais, sociais e políticas. A caridade ocorre na história, num espaço e num tempo precisos. A caridade é histórica, não é um princípio abstrato. Também a caridade cristã, que manifesta e mostra como «Deus é amor» ( 1 Jo 4, 16), a caridade que tem, portanto, uma configuração teológica essencial, que encontra a sua personificação em Cristo, a caridade suscitada pela ação do Espírito Santo, a caridade que «pertence à natureza da Igreja e que é expressão irrenunciável da sua própria essência» (Bento XVI), também esta caridade ocorre na história, manifestando-se e tomando uma forma no hoje histórico. E a Igreja tem a responsabilidade histórica dessa narração da caridade: é chamada a ser epifania da caridade nos dias de hoje. Não há outro lugar da caridade que não seja a histórica, o hoje, o corpo: corpo pessoal, social, eclesial, mundial..." 
"Deus é ferido pelo mal que o homem comete contra o homem. A indignação divina e profética face ao mal também é - e sobretudo - sofrimento... a profecia sintetiza-se na exclamação de que Deus não é indiferente ao mal e que, pelo contrário, o grande mal é o habituar-se ao mal, a ponto de já não se escandalizar, de já não se deixar ferir nem perturbar por ele" 
"O Deus que se ligou em aliança aos filhos de Israel é vulnerável, sensível aos sofrimento humano. O Deus que intervém para restabelecer a justiça, ali onde é violada, é o Deus que co-sofre com o povo oprimido" 
"Para uma teologia da quotidianidade, há que saber reconhecer o detalhe, o pormenor, a sinuosidade, os meandros da existência, o interstício da vida, para poder apreendê-la como lugar em que se deve manifestar, vivendo-a, a qualidade humana e evangélica. A tradição das obras da misericórdia fala de vestir e de se vestir, de comer e de dar de comer, de beber e de dar de beber, de gente sem casa a colher de doentes a tratar e a visitar, de mortos a sepultar, de ofensores a perdoar, de ignorância a instruir, de hesitantes a aconselhar. Em tudo isto não é difícil reconhecer-nos a nós próprios ou outros que se cruzam com a nossa vida quotidiana. Não é difícil ver as situações quotidianas da morte de um parente e do trabalho de luto, da doença de um familiar e da tarefa da assitência e da proximidade do drama vivido por um preso e pelos seus familiares, da condição penosa de tantos imigrantes, da convivência quotidiana com uma pessoa com dificuldades e de aspetos pesados de suportar" 
"A caridade é a atenção ao corpo do outro. E como o corpo é a realidade humana mais espiritual, é através do contacto com o corpo ferido, carente, sofredor, necessitado, que recriamos as condições de dignidade do homem ferido e ofendido injuriado pela vida" 
"Jesus de Nazaré deu um rosto humano a essa misericórdia e compaixão, revelando-a na sua vida (cf. Mc 1, 41; 6, 34; Lc 7,13; etc.), e, seguindo-o, pela fé e pelo amor por Ele, também o discípulo do Senhor pode viver a misericórdia". 
"A paciência de Deus não é impassibilidade nem passividade, mas a longa respiração da sua paixão, paixão de amor que aceita sofrer esperando os tempos do homem e a sua conversão: «Não é que o Senhor tarde em cumprir a sua promessa, como alguns pensam, mas simplesmente usa de paciência para convosco, pois não quer que ninguém pereça, mas que todos se convertam» (2 Ped 3, 9). 
A paciência de Deus surge como fruto da sua escolha, da sua vontade, de um trabalho interior em que Ele é confrontado com a possibilidade de deixar explodir a sua ira... A paciência, com efeito, não quer tornar-se cúmplice do mal cometido (cf. Jr 44, 22). A paciência divina não é ausência de cólera, mas capacidade de elaborá-la, de domá-la, de interpor uma espera entre a inspiração e a sua manifestação... a paciência é o olhar generoso de Deus fixo no homem olhar que não se detém nos detalhes, no acidente de percurso, que não considera o pecado definitivo, mas que o coloca no contexto de todo o caminho existencial que o homem é chamado a percorrer... Em Cristo, Deus aceita «carregar o fardo», «suportar» a insuficiência e incapacidade humanas, assumindo a responsabilidade pelo homem na sua falibilidade. A «paciência de Cristo» (2 Tes 3, 5), exprime assim o amor de Deus, do qual é sacramento". 
Oração de intercessão: "Um estar diante de Deus em favor do outro, um compromisso ativo entre duas partes, um situar-se na fronteira, um estar no limiar, um situar-se no vazio existente entre Deus e o homem, um habitar o espaço intermédio. É a posição de Aarão que «se interpôs» (Sb 18, 23), detendo assim a ira divina e impedindo-a de atingir os seres vivos; é a posição de Moisés que se colocou «na cavidade da rocha» (Sl 106,23) para desviar a ira de Deus do povo… O intercessor é o homem da fronteira, que se encontra entre dois fogos, na delicadíssima posição de quem está completamente exposto, de quem assume a responsabilidade pelo povo pecador e a levar à presença do Deus santo e misericordioso. É uma posição «crucial». É a posição de Jesus na cruz, quando o seu estar entre o céu e a terra, de braços estendidos para levar a Deus todos os homens, se torna revelação do resultado último da intercessão: o dar a vida pelos pecadores, por parte daquele que é santo"

domingo, 12 de junho de 2016

Leituras: João XXIII e a Pequena via da misericórdia

RINALDO DONGHI (2016). A Pequena via da misericórdia. Da Agenda pessoal do Papa João XXIII. Prior Velho: Paulinas Editora. 176 páginas.
       Mais um livro obrigatório para quem quiser conhecer São João XXIII, canonizado no dia 27 de abril de 2014, num acontecimento significativo, pois foram canonizados dois Papas (João Paulo II e João XXIII), com a presença de dois Papas, Francisco, o nosso Santo Padre, e Bento XVI, o magno papa Emérito.
       Por outro lado, e por maioria de razão porque vivemos o Jubileu da Misericórdia, João XXIII, o Bom Papa, introduziu a simplicidade, a bondade e a misericórdia no Papado e na Igreja. Na abertura do Concílio Vaticano II, a 11 de outubro de 1962, deixava claro que "agora, a Esposa de Cristo prefere usar o medicamento da misericórdia em vez de abraçar as armas do rigor [...]. A Igreja Católica, enquanto com este Concílio Ecuménico levanta o facho da verdade católica, quer mostrar-se mãe amorabilíssima de todos, benigna e paciente, inclinada à misericórdia e com a bondade para com os filhos dela separados".
       A sua natural bonomia, simplicidade, com gestos espontâneos, apostando tudo na delicadeza, na atenção às pessoas e às suas situações, o trato próximo e benevolente com todos, o cuidado com os mais pobres, procurando construir uma Igreja pobre para os pobre, levou muitas pessoas a identificarem o papa Francisco com o bom Papa João, ainda que o próprio Papa Francisco se afirme mais devedor do grande Papa Paulo VI.
       Com a temática da misericórdia e com sua a canonização, João XXIII tem vindo a ser descoberto, através de biografias e da publicação das suas intervenções. Neste livro, o autor enquadra, numa perspetiva das 14 obras de misericórdia o viver e João XXIII como Delegado Apostólico na Grécia e na Turquia e Administrador do Vicariato latino de Estambul, partindo dos apontamentos que o futuro Papa iam fazendo nas suas agendas, mostrando à saciedade a bondade, a simplicidade, a preocupação pelas pessoas que viviam em situações mais precárias, nomeadamente em ambientes de guerra. Angelo Giuseppe Roncalli procura atender a todos os pedidos, receber todas as pessoas, usar a influência que tem para libertar prisioneiros ou tentar aliviar-lhes as penas. Recebe cada pessoa com fidalguia. Vai ao encontro dos pobres, visita orfanatos, hospitais, prisões, usa os recursos da Santa Sé para aliviar uns e outros, e usa dos próprios recursos. Ajuda até onde pode.
       A santidade perpassa no compromisso quotidiano de cada pessoa. João XXIII transparece com facilidade o compromisso com Jesus Cristo, com a Igreja, com o mundo, usando a caridade, a paciência, o diálogo e o respeito.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Sessão da Escola da Fé com o Pe. Tiago Cardoso

       No dia 22 de abril, sexta-feira, como habitualmente no Centro Paroquial de Tabuaço, mais uma sessão da Escola da Fé, que neste ano pastoral se centram nas Obras de Misericórdia, procurando que em cada sessão se reflita numa obra de misericórdia corporal e numa obra de misericórdia espiritual.
       Em novembro: sepultar os mortos e rezar a Deus pelos vivos e pelos defuntos, com o Pe. Diamantino Alvaíde; em janeiro: Dar de comer a quem tem fome e ensinar os ignorantes, com o Pe. Jorge Giroto; desta feita: Vestir os nus e consolar os tristes, com o Pe. Tiago Cardoso.
Algumas fotos desta jornada de oração, reflexão, convívio:

Para outras fotos, visitar a página da Paróquia de Tabuaço no Facebook.

sábado, 28 de novembro de 2015

Escola da Fé - Obras de Misericórdia - 27 de novembro

       "Sepultar os mortos e reza a Deus pelos vivos e pelos mortos".
       No dia 23 de outubro iniciámos as sessões da Escola da Fé para este ano pastoral de 2015-2016.
Com a proximidade do Ano Santo Extraordinário - Jubileu da Misericórdia -, convocado pelo Papa Francisco, para iniciar a 8 de dezembro, do corrrente ano, solenidade da Imaculada Conceição e encerrar no dia 20 de novembro de 2016, solenidade de Cristo Rei, a misericórdia de Deus para connosco, e com a qual deveremos contagiar todos os que se cruzam connosco, estará sempre como referência à reflexão e à vivência cristã, comprometidos com o mundo atual. Desta feita, e com conformidade com a Bula "O Rosto da Misericórdia", as Obras de Misericórdia corporais e espirituais serão um desafio que nos envolve e nos desafia. Igualmente o juízo Final segundo São Mateus (25, 31-46): "Quantas vezes o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes".
       Nesta segunda sessão da Escola da Fé, a proposta era refletir sobre uma obra de misericórdia corporal e uma espiritual: "SEPULTAR OS MORTOS E REZAR A DEUS POR VIVOS E DEFUNTOS". Este connosco o Pe. Diamantino Alvaíde, Pároco de Moimenta da Beira e de Cabaços, e que será o pregador da Novena da Imaculada Conceição.
       O Pe. Diamantino partiu do texto de São Lucas (9, 57, 60), sobre as exigências do seguimento. "Segue-me... deixa que primeiro vá sepultar o meu Pai... (resposta de Jesus:) Deixa que os mortos sepultem os seus mortos..." É uma expressão que, à primeira vista, pode suscitar espanto. Afinal Jesus conhece a Sagrada Escritura e sabe o respeito com que os mortos devem ser tratados... O antigo Testamento tem várias passagens em que lembra a justiça e a justeza de sepultar os mortos e igualmente de rezar, intercedendo, pelos vivos e pelos defuntos.
       Parte do tempo, o Pe. Diamantino dedicou à reflexão sobre o luto, nas suas formas, motivos, tempos; a resposta dada e a dar pela Igreja. Houve oportunidade para troca de impressões, tornando mais viva mais esta escola da fé.
       Algumas imagens:
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terça-feira, 17 de novembro de 2015

BENTO XVI sobre SANTA ISABEL DA HUNGRIA


Queridos irmãos e irmãs,

Hoje gostaria de vos falar de uma das mulheres da Idade Média que suscitou maior admiração: trata-se de Santa Isabel da Hungria, chamada também Isabel de Turíngia.

Nasceu em 1207; os historiadores debatem sobre o lugar. Seu pai era André II, rico e poderoso rei da Hungria que, para fortalecer os laços políticos, casou com a condessa alemã Gertrudes de Andechs-Merânia, irmã de Santa Edviges, que era esposa do duque da Silésia. Isabel viveu na Corte húngara só os primeiros quatro anos da sua infância, com uma irmã e três irmãos. Gostava dos jogos, da música e da dança; recitava fielmente as suas preces e já prestava atenção especial aos pobres, os quais ajudava com uma boa palavra ou com um gesto carinhoso.

A sua infância feliz foi bruscamente interrompida quando, da longínqua Turíngia, chegaram alguns cavaleiros com a finalidade de a levar para a sua nova sede na Alemanha central. Com efeito, segundo a tradição dessa época, o seu pai decidiu que Isabel se tornasse princesa da Turíngia. O landgrave ou conde dessa região era um dos soberanos mais ricos e influentes da Europa no início do século XIII, e o seu castelo era centro de magnificência e cultura. Mas por detrás das festas e da aparente glória escondiam-se as ambições dos príncipes feudais, muitas vezes em guerra entre si e em conflito com as autoridades reais e imperiais. Neste contexto, o landgrave Hermann acolheu de bom grado o noivado entre seu filho Ludovico e a princesa húngara. Isabel partiu da sua pátria com um rico dote e um grande séquito, inclusive com as suas servas pessoais, duas das quais foram suas amigas fiéis até ao fim. Foram elas que nos deixaram preciosas informações sobre a infância e a vida da Santa.
Após uma longa viagem, chegaram a Eisenach, para depois subirem à fortaleza de Wartburg, o castelo maciço acima da cidade. Ali celebrou-se o noivado entre Ludovico e Isabel. Nos anos seguintes, enquanto Ludovico aprendia a profissão de cavaleiro, Isabel e as suas companheiras estudavam alemão, francês, latim, música, literatura e bordado. Embora o noivado tenha sido decidido por motivos políticos, entre os dois jovens nasceu um amor sincero, animado pela fé e pelo desejo de cumprir a vontade de Deus. Aos 18 anos, Ludovico, depois da morte do pai, começou a reinar na Turíngia. Mas Isabel tornou-se objeto de murmúrios, porque o seu modo de se comportar não correspondia à vida cortesã. Assim, também a celebração do matrimónio não foi pomposa e as despesas para o banquete foram parcialmente destinadas aos pobres. Na sua profunda sensibilidade, Isabel via as contradições entre a fé professada e a prática cristã. Não suportava os comprometimentos. Certa vez, ao entrar na igreja na solenidade da Assunção, tirou a coroa, depô-la diante da cruz e permaneceu prostrada no chão com o rosto coberto. Quando a sogra a repreendeu por aquele gesto, ela retorquiu: «Como posso eu, criatura miserável, continuar a trazer uma coroa de dignidade terrena, quando vejo o meu Rei Jesus Cristo coroado de espinhos?». Do mesmo modo como se comportava diante de Deus, também o fazia em relação aos súbditos. Entre os Ditos das quatro servas encontramos este testemunho: «Não consumia alimentos se antes não estivesse certa de que provinham das propriedades e dos bens legítimos do marido. Enquanto se abstinha dos bens conquistados ilicitamente, esforçava-se também por indemnizar aqueles que tinham suportado violência» (nn. 25 e 37). Um verdadeiro exemplo para todos aqueles que desempenham funções de guia: o exercício da autoridade, a todos os níveis, deve ser vivido como serviço à justiça e à caridade, na busca constante do bem comum.
Isabel praticava assiduamente as obras de misericórdia: dava de beber e de comer a quem batia à sua porta, oferecia roupas, pagava as dívidas, cuidava dos enfermos e enterrava os mortos. Quando descia do seu castelo, ia muitas vezes com as suas servas às casas dos pobres, levando pão, carne, farinha e outros alimentos. Entregava pessoalmente a comida e controlava com atenção as roupas e os leitos dos pobres. Este comportamento foi referido ao marido, que não só não se lamentou, mas respondeu aos acusadores: «Enquanto ela não vender o meu castelo, estou feliz!». É neste contexto que se insere o milagre do pão transformado em rosas: quando Isabel ia pelo caminho com o seu avental cheio de pão para os pobres, encontrou o marido que lhe perguntou o que estava a levar. Ela abriu o avental e, em vez de pão, apareceram rosas magníficas. Este símbolo de caridade está presente muitas vezes nas representações de Santa Isabel.

O seu matrimónio foi profundamente feliz: Isabel ajudava o cônjuge a elevar as suas qualidades humanas a nível sobrenatural, e ele, em contrapartida, protegia a esposa na sua generosidade aos pobres e nas suas práticas religiosas. Cada vez mais admirado pela grande fé da sua esposa, Ludovico, referindo-se à sua atenção aos pobres, disse-lhe: «Amada Isabel, foi Cristo que lavaste, alimentaste e cuidaste». Um claro testemunho do modo como a fé e o amor a Deus e ao próximo fortalecem a vida familiar e tornam ainda mais profunda a união matrimonial.

O jovem casal encontrou apoio espiritual nos Frades Menores que, a partir de 1222, se difundiram na Turíngia. Entre eles, Isabel escolheu frei Rogério (Rüdiger) como diretor espiritual. Quando ele lhe narrou a vicissitude da conversão do jovem e rico comerciante Francisco de Assis, Isabel entusiasmou-se ulteriormente no seu caminho de vida cristã. A partir desse momento, decidiu-se ainda mais a seguir Cristo pobre e crucificado, presente nos pobres. Mesmo quando nasceu o primeiro filho, seguido depois por outros dois, a nossa Santa nunca descuidou as suas obras de caridade. Além disso, ajudou os Frades Menores a construir em Halberstadt um convento do qual frei Rogério se tornou superior. Assim, a direcção espiritual de Isabel passou para Conrado de Marburgo.

Uma dura prova foi o adeus ao marido, no final de Junho de 1227, quando Ludovico IV se associou à cruzada do imperador Frederico II, recordando à esposa que se tratava de uma tradição para os soberanos da Turíngia. Isabel respondeu: «Não te impedirei. Entreguei-me totalmente a Deus e agora devo dar-lhe também a ti». Porém, a febre dizimou as tropas e o próprio Ludovico adoeceu e faleceu com 27 anos em Otranto, antes de embarcar, em Setembro de 1227. Quando recebeu a notícia, Isabel ficou tão amargurada que se retirou em solidão, mas depois, fortalecida pela oração e consolada pela esperança de o rever no Céu, recomeçou a interessar-se pelos assuntos do reino.
Contudo, outra prova esperava-a: o seu cunhado usurpou o governo da Turíngia, declarando-se autêntico herdeiro de Ludovico e acusando Isabel de ser uma mulher piedosa mas incompetente no governo. A jovem viúva, com os três filhos, foi expulsa do castelo de Wartburg e pôs-se em busca de um lugar onde se refugiar. Só duas servas permaneceram ao seu lado, a acompanharam e confiaram os três filhos aos cuidados dos amigos de Ludovico. Peregrinando pelas aldeias, Isabel trabalhava onde era acolhida, assistia os doentes, fiava e costurava. Durante este calvário suportado com grande fé, com paciência e dedicação a Deus, alguns parentes, que tinham permanecido fiéis a ela e consideravam ilegítimo o governo do cunhado, reabilitaram o seu nome. Assim Isabel, no início de 1228, pôde receber uma renda apropriada para se retirar no castelo de família em Marburgo, onde habitava também o seu diretor espiritual, frei Conrado. Foi ele que referiu ao Papa Gregório IX o seguinte acontecimento: «Na Sexta-Feira Santa de 1228, pondo as mãos no altar da capela da sua cidade de Eisenach, onde tinha acolhido os Frades Menores, na presença de alguns frades e familiares, Isabel renunciou à própria vontade e a todas as vaidades do mundo. Ela queria renunciar também a todas as posses, mas eu desaconselhei-a por amor aos pobres. Pouco tempo mais tarde, construiu um hospital, recolheu doentes e inválidos e serviu à sua mesa os mais miseráveis e desamparados. Quando a repreendi por estes gestos, Isabel respondeu que dos pobres recebia uma especial graça e humildade» (Epistula magistri Conradi, 14-17).

Podemos entrever nesta afirmação uma certa experiência mística, semelhante à que viveu São Francisco: com efeito, no seu Testamento o Pobrezinho de Assis declarou que, servindo os leprosos, aquilo que antes era amargo se transformou em docilidade da alma e do corpo (cf. Testamentum, 1-3). Isabel transcorreu os últimos três anos no hospital por ela fundado, servindo os doentes e velando sobre os moribundos. Procurava desempenhar sempre os serviços mais humildes e os trabalhos mais repugnantes. Ela tornou-se aquela que poderíamos definir uma mulher consagrada no meio do mundo (soror in saeculo) e, com outras suas amigas vestidas de hábitos cinzentos, formou uma comunidade religiosa. Não é por acaso que é Padroeira da Terceira Ordem Regular de São Francisco e da Ordem Franciscana Secular.

Em novembro de 1231 foi atingida por uma febre forte. Quando a notícia da sua enfermidade se propagou, muitas pessoas acorreram para a ver. Depois de cerca de dez dias, pediu que as portas fossem fechadas, para permanecer sozinha com Deus. Na noite de 17 de novembro adormeceu docilmente no Senhor. Os testemunhos sobre a sua santidade foram tão numerosos e tais que, só quatro anos mais tarde, o Papa Gregório IX proclamou-a Santa e, nesse mesmo ano, foi consagrada a bonita igreja construída em sua honra em Marburgo.

Estimados irmãos e irmãs, na figura de Santa Isabel vemos como a fé e a amizade com Cristo criam o sentido da justiça, da igualdade de todos, dos direitos dos outros, e criam o amor e a caridade. E desta caridade nascem inclusive a esperança e a certeza de que somos amados por Cristo, e que o amor de Cristo nos espera, tornando-nos assim capazes de imitar Cristo e de O ver nos outros. Santa Isabel convida-nos a redescobrir Cristo, a amá-lo, a ter fé e deste modo a encontrar a verdadeira justiça e o amor, assim como a alegria de que um dia seremos imersos no Amor divino, na alegria da eternidade com Deus. Obrigado!

PAPA BENTO XVI, AUDIÊNCIA GERAL