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sábado, 15 de julho de 2017

São Boaventura, Bispo e doutor da Igreja

Nota biográfica:
       Nasceu aproximadamente no ano 1218 em Bagnoregio, na Etrúria; estudou filosofia e teologia em Paris e a seguir ensinou as mesmas disciplinas, com grande aproveitamento, aos seus irmãos da Ordem dos Frades Menores. Foi eleito Ministro Geral da sua Ordem, cargo que exerceu com prudência e sabedoria. Foi nomeado cardeal bispo de Albano e morreu em Lião no ano 1274. Escreveu muitas obras filosóficas e teológicas.

Oração (de colecta):
       Concedei-nos, Deus todo-poderoso, que, celebrando hoje a memória de São Boaventura, aproveitemos a riqueza dos seus ensinamentos e imitemos a sua ardente caridade. Por Nosso Senhor...

A MAIOR DAS CAPACIDADES: AMAR

       «Certa vez, Frei Egídio (um dos companheiros mais queridos de S. Francisco), homem muito simples e piedoso, falou assim ao Ministro General, Frei Boaventura (+ 1274), um dos maiores teólogos da Igreja.
       - Meu Pai, Deus deu-lhe muitos dotes. Eu, pessoalmente, não recebi grandes talentos. O que devemos nós, ignorantes e tolos, fazer para sermos salvos?
       O douto e santo Frei Boaventura elucidou-o dizendo:
       - Se Deus não desse ao homem nenhuma outra capacidade senão a de amar, isto lhe bastaria para se salvar.
       - Quer dizer que um ignorante, pode amar a Deus tanto como um sábio?, perguntou Frei Egídio, tentando entender.
       - Mesmo uma velhinha muito ignorante, disse-lhe com ternura o grande teólogo, pode amar mais a Deus do que um professor de Teologia.
       Dando pulos de alegria, Frei Egídio correu para a sacada do convento e começou a gritar:
       - Ó velhinha ignorante e rude, tu que amas a Deus Nosso Senhor, podes amá-l`O mais do que o grande teólogo Frei Boaventura.
       E, comovido, ficou ali, imóvel, durante três horas.»

(Pe. Neylor J. Tonin, em "Histórias de Sabedoria"), in Abrigo dos Sábios.

São Boaventura, bispo: «Itinerário da alma para Deus»

À sabedoria mística revelada pelo Espírito Santo

Cristo é o caminho e a porta. Cristo é a escada e o veículo; o propiciatório colocado sobre a arca de Deus e o sacramento escondido desde os séculos. Quem olha para este propiciatório, de rosto plenamente voltado para ele, contemplando-o suspenso na cruz, com fé, esperança e caridade, com devoção, admiração e alegria, com veneração, louvor e júbilo, realiza com Ele a Páscoa, isto é, a passagem. E assim, por meio da vara da cruz atravessa o Mar Vermelho, saindo do Egipto e entrando no deserto, onde saboreia o maná escondido. Descansa também no túmulo com Cristo, parecendo exteriormente morto, mas sentindo, quanto lhe é possível no estado de viador, aquilo que na cruz foi dito ao ladrão que aderiu a Cristo: Hoje estarás comigo no paraíso.
Nesta passagem, se for perfeita, é necessário que se deixem todas as operações intelectivas e que o ápice mais sublime do amor seja transferido e transformado totalmente em Deus. Isto porém é uma realidade mística e ocultíssima, que ninguém conhece a não ser quem recebe, nem ninguém recebe senão quem deseja, nem deseja senão aquele que é inflamado, até à medula da alma, pelo fogo do Espírito Santo, que Cristo enviou à terra. Por isso diz o Apóstolo que esta sabedoria mística é revelada pelo Espírito Santo.
Se pretendes saber como isto sucede, interroga a graça e não a ciência, a aspiração profunda e não a inteligência, o gemido da oração e não o estudo dos livros, o esposo e não o professor, Deus e não o homem, a nuvem e não a claridade. Não interrogues a luz, mas o fogo que tudo inflama e transfere para Deus, com unção suavíssima e ardentíssimos afectos. Esse fogo é Deus; a sua fornalha está em Jerusalém. Cristo acendeu-o na chama da sua ardentíssima paixão. Só verdadeiramente o recebe quem diz: A minha alma preferia o estrangulamento, e os meus ossos a morte. Quem ama esta morte pode ver a Deus, porque é indubitavelmente verdade que nenhum homem poderá ver-Me e continuar a viver.
Morramos, pois, e entremos nessa nuvem; imponhamos silêncio às preocupações terrenas, paixões e imaginações; passemos, com Cristo crucificado, deste mundo para o Pai, a fim de que, ao manifestar-se-nos o Pai, digamos com o apóstolo Filipe: Isto nos basta; e ouçamos com São Paulo: Basta-te a minha graça; e exultemos com David, exclamando: Desfalece a minha carne e o meu coração: Deus é o meu refúgio e a minha herança para sempre. Bendito seja o Senhor para sempre. E todo o povo diga: Amen. Amen.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Um pai, as três filhas, e o sal


       Um rei tinha três filhas; perguntou a cada uma delas por sua vez, qual era a mais sua amiga. A mais velha respondeu:
       – Quero mais a meu pai, do que à luz do Sol.
       Respondeu a do meio:
       – Gosto mais de meu pai do que de mim mesma.
       A mais moça respondeu:
       – Quero-lhe tanto, como a comida quer o sal.
       O rei entendeu por isto que a filha mais nova o não amava tanto como as outras, e pô-la fora do palácio. Ela foi muito triste por esse mundo, e chegou ao palácio de um rei, e aí se ofereceu para ser cozinheira. Um dia veio à mesa um pastel muito bem feito, e o rei ao parti-lo achou dentro um anel muito pequeno, e de grande preço. Perguntou a todas as damas da corte de quem seria aquele anel. Todas quiseram ver se o anel lhes servia: foi passando, até que foi chamada a cozinheira, e só a ela é que o anel servia. O príncipe viu isto e ficou logo apaixonado por ela, pensando que era de família de nobreza.
       Começou então a espreitá-la, porque ela só cozinhava às escondidas, e viu-a vestida com trajos de princesa. Foi chamar o rei, seu pai, e ambos viram o caso. O rei deu licença ao filho para casar com ela, mas a menina tirou por condição que queria cozinhar pela sua mão o jantar do dia da boda. Para as festas de noivado convidou-se o rei que tinha três filhas e que pusera fora de casa a mais nova. A princesa cozinhou o jantar, mas nos manjares que haviam de ser postos ao rei seu pai não deitou sal de propósito. Todos comiam com vontade, mas só o rei convidado é que não comia. Por fim perguntou-lhe o dono da casa por que é que o rei não comia? Respondeu ele, não sabendo que assistia ao casamento da filha:
       – É porque a comida não tem sal.
       O pai do noivo fingiu-se raivoso, e mandou que a cozinheira viesse ali dizer porque é que não tinha botado sal na comida. Veio então a menina vestida de princesa, mas assim que o pai a viu, conheceu-a logo, e confessou ali a sua culpa, por não ter percebido quanto era amado por sua filha, que lhe tinha dito, que lhe queria tanto como a comida quer o sal, e que depois de sofrer tanto nunca se queixara da injustiça de seu pai.

terça-feira, 11 de março de 2014

Diante das dificuldades: cenoura, ovo e café...

       Uma filha queixou-se à mãe que sua vida era difícil. Já não sabia o que fazer. Estava cansada de lutar contra as dificuldades.
       A mãe, em vez de lhe responder com palavras de ânimo, conviou a acompanhá-la à cozinha. Depois encheu três panelas com água e colocou-as ao fogão. Numa delas pôs cenouras; na outra, ovos, e na última, pó de café.
       Sem nada dizer, deixou que tudo fervesse.
       Cerca de vinte minutos depois, desligou o fogão. Retirou cuidadosamente o que estava dentro e colocou cada coisa na sua tigela.
       Em seguida, voltando-se para a filha, perguntou-lhe:
       - o que vês aqui?
       Ela disse:
       - Cenouras, ovos e café.
       A mãe pediu-lhe que pegasse nas cenouras. Ela notou que estavam macias.
       Pediu-lhe depois que descascasse um ovo. Ela verificou que ele endurecera com a fervura.
       Finalmente, pediu-lhe que bebesse um pouco de café. Ela gostou e sorriu. Depois perguntou:
       - Mãe, o que é que significa tudo isto?
       A mãe explicou que cada um desses produtos tinha enfrentando a mesma adversidade, mas cada um deles tinha reagido de maneira diferente.
       Perguntou-lhe então:
       - Qual deles és tu? És como a cenoura que, perante as dificuldades amolece? És como o voo, que se torna duro? Ou és como o café, que se torna saboroso?
       A filha não precisou de responder. Percebeu imediatamente que não devia ser como a cenoura ou como o ovo. O ideal sera ser como o café. A adversidade deve tornar-nos mais saborosos, mais compreensivos, mais perfeitos no amor.

in Revista JUVENIL, n.º 571. Março 2014

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A Boneca de Sal

A boneca de sal vagueou pela terra até chegar ao mar,
onde ficou absorta a comtemplar aquela massa imensa de água inquieta
que ela nunca vira.

"Quem és tu?", pergunta a boneca ao mar.

"Entre e vê" - diz o mar sorrindo.

Dito e feito, ela entrou mar dentro

e quanto mais entrava, mais se dissolvia
até restar só um pouco do seu corpo.

Antes de derreter-se totalmente,

exclamou a Boneca admirada:
"Agora já sei quem sou!
Anthony de Mello, O canto do pássaro, Paulinas 1995.
       Há uns largos anos, no Seminário Menor de Resende, foi-nos mostrado um diaporama com este título e a história mais detalhada seria mais ou menos assim:
Era uma vez uma boneca feita de sal. O maior sonho da vida dela era, um dia, poder ver o mar.
Ficava dias e noites embrenhada nos seus pensamentos, tentando imaginar a imensidão e a beleza do grande oceano, e ia ficando presa a uma grande nostalgia - uma espécie de "saudade", vaga, de algo que lhe parecia conhecer apesar de tão longínquo...
Um certo dia, decidiu meter mãos à obra - não podia esperar mais -, e decidiu partir.
Depois de uma árdua e continuada busca, chegou, por fim, a uma areal - uma praia à beira mar. E, ali, confirmou o que o seu coração adivinhava: como era imenso e apelativo aquele mar. E como era misterioso?
Ali ficou, perdida em contemplação, e tentando indagar mil e uma palpitantes respostas advindas daquele mar:
- Diz-me, quem és tu?
- Sou o mar.
- Mas o que é o mar?
- Sou eu!
- Explica-me melhor, por favor! Deixa-me perceber, deixa-me conhecer-te...
- É simples: toca-me.
A boneca, extasiada, mas um pouco a medo, avançou um passo em direcção à espuma que orlava aquela vastidão, e deixou que os seus pequenos pés fossem acariciados por aquela "evanescência?". Um pouco mais afoita, mergulhou os seus pés, em pleno, na água que a convidava. E - surpresa! - pareceu-lhe que começava mesmo a compreender qualquer coisa...
Quando, porém, pôs os olhos no chão, apercebeu-se, assustada, que os seus pés haviam desaparecido. Protestou aflita:
- Oh! Que fizeste tu? Onde estão os meus pés?
Mas o mar replicou:
- Porque choras? Apenas foi necessário ofereceres alguma coisa - um pouco de ti própria - para poderes compreender...
A boneca reflectiu e serenou; e pareceu-lhe que entendia um pouco mais.
Então, decidida avançou. A água começou lentamente a cobrir partes do seu corpo, ao mesmo tempo que sentia que estas, dolorosamente, se desvaneciam. A cada passo que dava, a menina perdia algum pedaço. Contudo - oh, estranho "porquê"! - quanto mais avançava, mais e mais profundamente compreendia, mais saber lhe era comunicado, apesar de ainda não ser capaz de dizer o que era o mar.
Uma outra vez, inquiriu:
- O que é o mar?
Uma última onda arrebatou o que restava dela. E, precisamente, naquele derradeiro momento em que desaparecia na imensidão do seu Seio, a boneca exclamou:
- Sou eu!

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A vela teimosa

       Era uma vez uma vela vermelha e dourada que teimava em não se deixar acender. Uma atitude estranha, pois as velas foram feitas para estar acesas e para iluminar com a sua chama a cintilar na escuridão.
       Estava próximo o dia da grande festa familiar e todas as outras velas começavam a ficar felizes, só em pensar que iriam ser protagonistas com a sua luz que iam irradiar.
       A vela vermelha e dourada repetia obstinadamente:
       - Não quero ser queimada. Quando somos acesas queimamo-nos em pouco tempo. Quero permanecer assim como sou: elegante, bela e integral.
       Uma vela disse-lhe:
       - Se não te deixas acender, é como se estivesses morta. Tu foste feita para iluminar e é assim que serás feliz.
       A vela vermelha e dourada respondeu:
       - Não, obrigada. Admito que a escuridão e o frio são horríveis, mas é melhor sofrer por causa de uma chama que queima e faz doer.
       Uma outra vela disse-lhe:
       - Admite que é melhor a luz que a escuridão. Nós aceitamos ser consumidas, precisamente para sermos portadoras de luz. É assim que nos tornamos úteis.
       A vela vermelha e dourada insistia:
       - Mas assim perdemos a forma e a cor.
       - Sim, mas só assim podemos vencer a escuridão e iluminar o mundo.
       Foi então que a vela vermelha e dourada se deixou acender. A cera e o pavio consumiram-se lentamente. Brilhou na noite até desaparecer. Nos últimos instantes sentiu-se feliz porque tinha cumprido a sua missão. Ainda teve tempo de exclamar:
       - Fui feita para brilhar.

in Revista JUVENIL, n.º569, janeiro 2014.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A minha casa celestial

       Era uma vez um homem muito rico que amava mais as riquezas que as pessoas. Não era mau, mas boas ações eram poucas.
       Um dia morreu e foi recebido por São Pedro à porta do Céu. Deus teve misericórdia dele e admitiu a sua entrada.
       Um anjo cicerone acompanhou-o na visita a esta nova cidade onde moram os santos. O rico, ao ver uma morada muito bela, perguntou ao anjo:
       - Quem mora ali?
       O anjo respondeu:
       - É o Ricardo, o seu motorista que morreu o ano passado.
       O rico ficou pasmado: "Ora o Ricardo com uma casa destas!"
       Mais adiante apareceu uma outra moradia ainda mais bela. Ele perguntou:
       - E quem mora aqui?
       O Anjo respondeu:
       - Aqui é a casa da Senhora Ana, que foi sua cozinheira.
       O rico pensou: "Se os meus empregados têm no Céu vivendas tão bonitas, a minha deve ser um palácio!"
       O Anjo, depois desta visita ao Céu, parou diante de uma barraca construída com tábuas e placas de zinco. O anjo disse-lhe:
       - Esta será a sua casa para sempre.
       O rico ficou indignado:
       - Como é possível que eles tenham tão belas moradias e a minha seja tão pobre?
       O anjo explicou:
       - Nós aqui no Céu construímos as casas com os materiais que as pessoas nos enviam da terra. O senhor só enviou isto! Para perceber melhor, explico-lhe que os materiais das casas do Céu são as boas obras. Cada atitude de bondade, de perdão, de ajuda, de consolação, de amizade, de paz, é como que um tijolo de primeira qualidade.

in Juvenil, novembro 2013.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Os cinco macacos

        Um grupo de cientistas colocou cinco macacos numa jaula.
      No meio, uma escada e sobre ela um cacho de bananas. Quando um macaco subia na escada para pegar as bananas, um jato de água fria era acionado em cima dos que estavam no chão. Depois de certo tempo, quando um macaco ia subir a escada, os outros o pegavam e enchiam de pancada. Com mais algum tempo, nenhum macaco subia mais a escada, apesar da tentação das bananas.
        Então os cientistas substituíram um dos macacos por um novo. A primeira coisa que ele fez foi subir a escada, dela sendo retirado pelos outros, que o surraram. Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo não subia mais a escada. Um segundo macaco veterano foi substituído e o mesmo ocorreu, tendo o primeiro substituto participado com entusiasmo na surra ao novato. Um terceiro foi trocado e o mesmo ocorreu. Um quarto, e afinal o último dos veteranos, foi substituído. Os cientistas então ficaram com um grupo de cinco macacos que mesmo nunca tendo tomado um banho frio, continuavam batendo naquele que tentasse pegar as bananas. Se fosse possível perguntar a algum deles porque eles batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza a resposta seria:
       - Não sei, mas as coisas sempre foram assim por aqui.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Bem-aventuranças: Jesus vem de novo à terra!

       Uma vez, Cristo saiu de junto da glória do Pai e foi passear pelo mundo dos homens. Como sempre teve tendência de preferir os pequenos e os pobres, passeou por bairros populares, entrou em barracas, passou por prisões, observou de perto a vida das pessoas. Como outrora, encheu-se de compaixão, e decidiu fazer algo.
        Por isso dirigiu-se a alguns cristãos que foi encontrando na cidade.
Ao primeiro disse:
       - Preciso de ti, dos teus ouvidos para escutar as histórias da senhora Ana, a velhinha que necessita de alguém que não se canse de a ouvir.

A outro disse:
       - Preciso de ti, dos teus braços para pegar naquela criança deficiente, pois a sua mãe está cansada e não pode mais.

A outro disse:
       - Preciso de ti, das tuas palavras porque quero saudar e chamar o senhor José, que é invisual e que é invisível para as pessoas que correm a olhar para o relógio.

A outro disse:
       - Preciso de ti, das tuas mãos para dar uma palmada de ânimo a David que, apesar das suas recaídas, já conseguiu passar 15 dias sem consumir droga.

A outro disse:
       - Preciso de ti, do teu trabalho para dar uma ajuda à senhora Maria, pois o marido está desempregado e ela tem três filhos para educar.

A outro disse:
       - Preciso de ti, do teu coração, porque quero explicar a Marta e a João que, apesar de não poderem comprar um andar, tenho uma mensagem de amor e liberdade para eles.

       E foi assim que Cristo foi interpelando os seus seguidores, pois desejava ver a todas as pessoas felizes.

in PEDROSA FERREIRA, As Bem-aventuranças, Hoje.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Dureza e flexibilidade

       O discípulo de um Filósofo foi ter com o Mestre, no seu leito de morte.
       Perguntou-lhe:
       - Tem ainda alguma coisa para dizer ao seu discípulo? Então o sábio abriu a boca e disse ao jovem que olhasse para dentro.
       Disse-lhe:
       - Está lá dentro ainda a minha língua?
       - Sim, Mestre. 
       - E os meus dentes?
       - Não.
       - E sabes porque é que a língua dura mais tempo que os dentes? Porque é flexível, é mole. Os dentes caem primeiro porque são duros. Com isto já aprendeste tudo. Não tenho mais nada para te ensinar. 

Lenda árabe, in Cristo Jovem.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

As borboletas e o fogo

       Uma noite, as borboletas reuniram-se na ânsia de conhecer a chama.
       Diziam:
       – é preciso que alguém nos dê alguma informação.
       Uma delas aproximou-se de um castelo e, de fora, viu a luz da candeia. Contou as colegas a sua impressão segundo tinha podido entender. Mas a borboleta que presidia à assembleia não ficou satisfeita. E disse:
       – Não sabes nada acerca da chama.
       Partiu uma outra e penetrou no castelo, tocando na candeia, mas ficando longe da chama. Também esta trouxe uma mão cheia de segredos, falando do seu encontro com a candeia. Mas a borboleta sábia disse:
       – Também isso não é uma informação com interesse, minha querida. Precisamos de uma melhor investigação.
       Partiu a terceira e devagarinho, bateu as asas e poisou em cima da chama. Estendeu as patas e abraçou-a, perdendo-se alegremente nela. Envolvida completamente pelo fogo, tornou-se toda vermelha como ele.
       Quando a borboleta sábia a viu de longe a tornar-se uma só coisa com a candeia e a ficar cor da luz, disse:
       – Apenas esta conseguiu. Só ela sabe alguma coisa acerca da chama!
Lenda Árabe

       Em muitas das questões fundamentais, o ser humano precisa de fazer a experiência por si mesmo. Não basta o que ouvimos dizer, é fundamental o que sentimos nesta ou naquela dimensão da vida. Para o crente cristão não basta o que já ouvir dizer de Jesus Cristo, é imperioso que faça a experiência de Jesus na sua vida pessoal e familiar, que leia, medite, reflicta a Palavra de Deus, que concretize a sua fé em gestos concretos de perdão e de caridade, ao jeito de Jesus, para assim saber quem é Jesus,...

segunda-feira, 4 de junho de 2012

O Príncipe e os prisioneiros

       Depois de ter vencido a batalha, os conselheiros disseram ao princípe:
        - Todos os prisioneiros devem ser mortos, porque era assim que fazia o teu pai.
       O príncipe convocou os prisioneiros à sua presença. Chamou o primeiro e disse-lhe:
       - Amas alguém?
       Ele respondeu:
       - Sim, amo a minha esposa.
       O príncipe sentenciou:
       - Então estás salvo, pois o amor tem direito à vida.
       E assim foi interrogando, um a um, todos os prisioneiros, e todos amavam alguém. Tinham, por isso, direito a viver.
       Apareceu, contudo, um que não amava ninguém e odiava toda a gente. O princípe disse-lhe:
       - Tu também te podes ir embora, pois não existes! És como se estivesses morto. Só existe verdadeiramente quem sabe amar.

in Juvenil, n.º 537. Maio 2010.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Um estranho perto de minha casa

       Um velho camponês observava, descontente, um jovem que construía uma cabana perto do seu arrozal.
       - Pergunto-me de onde veio - disse à mulher, nessa mesma noite. - Não é daqui da terra. A julgar pelas roupas, é originário das montanhas. Que vem fazer para aqui? Isto não me agrada nada. Isto não me agrada mesmo nada...
       - Porque não vais cumprimentá-lo amanhã? - Aconselhou a mulher.
       - Dá-lhe as boas vindas. De certeza que não conhece ninguém por estes lados.
       - Nem penses nisso - ripostou o camponês. - Não sabes que os habitantes das montanhas são todos uns ladrões? Ignoremo-lo; com sorte, talvez até se vá embora.
       Todos os dias, o camponês trabalhava no arrozal. Com a água pela barriga das pernas, arrancava as ervas daninhas e punha-as num balde. Uma manhã, descobriu que o balde não estava no sítio do costume.
       - Eu sabia. - Vociferava, enquanto levantava a cama e espreitava por detrás do armário. - Eu sabia. O homem roubou-me. Roubou o meu balde!
       A mulher perguntou-lhe:
       - Quem te roubou o balde?
       - Ora quem! - Sussurrou o homem - O montanhês!
       - Ninguém te roubou nada - assegurou a mulher. - Sabes muito bem que passas a vida a perder tudo. Procura bem o balde e acabarás por encontrá-lo!
       Mas o camponês não lhe deu ouvidos. Saiu de casa à socapa e foi espiar o vizinho. O jovem estrangeiro cuidava tranquilamente das suas tarefas, mas o camponês achou que ele tinha um ar suspeito.
       - Não há dúvida - disse para consigo, semicerrando os olhos enquanto observava o montanhês. - Tem ar de ladrão de baldes, anda como um ladrão de baldes: é um ladrão de baldes!
       - Bom-dia, vizinho - saudou-o o jovem, ao aperceber-se de que o camponês o espreitava por detrás de uma árvore.
       O velho fugiu a correr. Quando chegou junto da mulher, disse-lhe, esbaforido:
       - Estás a ver, até me cumprimenta para que não desconfie dele. É mesmo arrogante! Desafia-me! Ri-se de mim!
       O camponês barricou-se em casa com a mulher, as dez galinhas e os três porcos.
       - Meu pobre amigo - disse-lhe a mulher, abrindo a porta. - Perdeste mesmo a cabeça!
       - Mas - gemeu o camponês - Agora que tem o meu balde, vai querer tudo o que eu tenho. E ainda não te disse tudo - acrescentou o homem, batendo os dentes. - Quando não são ladrões, os montanheses são assassinos!
       A mulher encolheu os ombros e foi dedicar-se às tarefas do dia.
       Ao cair da tarde, o camponês saiu de casa para beber água do poço. E o que viu ele, pousado no parapeito do poço? O seu balde! Lembrava-se agora que tinha ido buscar água para dar de beber aos animais. Tinha-se esquecido completamente de pôr o balde no lugar.
       - Mas - repetia para si mesmo, envergonhado - O montanhês tinha mesmo ar de ladrão...

Johanna Marin Coles & Lydia Maria Marin Ross. O balde. Retirado de Caminhos de Encontro, Manual de EMRC, 5.º Ano

terça-feira, 22 de maio de 2012

A Lua cheia... sem comentários a acrescentar...

       A LUA cheia elevou-se gloriosamente sobre a cidade, e todos os cães do sítio começaram a ladrar à lua.
       Só um cão não ladrou, e disse aos outros com voz grave:
       - Não acordeis o silêncio do seu sono, não puxeis a lua para a terra com os vossos latidos.
       Então todos os cães deixaram de ladrar e permaneceram em terrível silêncio.
       Mas o cão que tinha falado continuou a ladrar, reclamando silêncio, durante toda a noite.

in "O povo de Rio Tinto", ano 34, n.º 291

O Urso e a Panela

       Certa vez, um urso faminto perambulava pela floresta em busca de alimento.
       A época era de escassez, porém, seu faro aguçado sentiu o cheiro de comida e o conduziu a um acampamento de caçadores. Ao chegar lá, o urso, percebendo que o acampamento estava vazio, foi até a fogueira, ardendo em brasas, e dela tirou um panelão de comida.
       Quando a tina já estava fora da fogueira, o urso a abraçou com toda sua força e enfiou a cabeça dentro dela, devorando tudo. Enquanto abraçava a panela, começou a perceber algo lhe atingindo.
        Na verdade, era o calor da tina... Ele estava sendo queimado nas patas, no peito e por onde mais a panela encostava. O urso nunca havia experimentado aquela sensação e, então, interpretou as queimaduras pelo seu corpo como uma coisa que queria lhe tirar a comida. Começou a urrar muito alto. E, quanto mais alto rugia, mais apertava a panela quente contra seu imenso corpo. Quanto mais a tina quente lhe queimava, mais ele apertava contra o seu corpo e mais alto ainda rugia.
       Quando os caçadores chegaram ao acampamento, encontraram o urso recostado a uma árvore próxima à fogueira, segurando a tina de comida. O urso tinha tantas queimaduras que o fizeram grudar na panela e, seu imenso corpo, mesmo morto, ainda mantinha a expressão de estar rugindo.
       Quando terminei de ouvir esta história, percebi que, em nossa vida, por muitas vezes, abraçamos certas coisas que julgamos ser importantes. Algumas delas nos fazem gemer de dor, nos queimam por fora e por dentro, e mesmo assim, ainda as julgamos importantes. Temos medo de abandoná-las e esse medo nos coloca numa situação de sofrimento, de desespero. Apertamos essas coisas contra nossos corações e terminamos derrotados por algo que tanto protegemos, acreditamos e defendemos.
        Para que tudo dê certo em sua vida, é necessário reconhecer, em certos momentos, que nem sempre o que parece ser o melhor vai lhe dar condições de prosseguir, de ser feliz. Tenha a coragem e a visão que o urso não teve.
       Solte a panela! 
Autor desconhecido, in Nova Civilização

terça-feira, 3 de abril de 2012

A lama que atiramos cai-nos na roupa!!!

       Um dia o Zeca regressou da escola cheio de raiva. Antes que o pai lhe perguntasse alguma coisa, gritou irritado:
       - O Pedro não devia ter feito aquilo para comigo. Humilhou-me à vista de todos. Quero que ele sofra como eu. Quem me dera que ele parta uma perna...
       O pai escutou tudo calado enquanto caminhou para o fundo do jardim onde guardava um saco cheio de carvão. O Zeca viu o saco aberto e o pai a propor-lhe:
       - Filho, faz de conta que aquela camisa branca a secar no varal é o amigo que te ofendeu e cada pedaço de carvão é uma acusação que tens contra ele. Atira-lhe este carvão todo.
       O miúdo achou a brincadeira divertida e descarregou assim a sua fúria mas a camisa estava longe demais e poucos pedaços acertaram o alvo. No final sentiu-se cansado mas satisfeito por ter conseguido alguma coisa. O pai levou-o então até ao espelho do quarto onde pôde ver a sua figura toda suja de carvão. Só enxergava os dentes e os olhos. O pai concluiu ternamente:
       - Filho, viste que aquela camisa quase que nem se sujou mas, olha para ti. O mal que desejamos aos outros é aquilo que nos desfigura. Por mais que possamos atrapalhar a vida de alguém com as nossas acusações, a borra, os resíduos e a fuligem ficam sempre em nós mesmos.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A jovem cerejeira

       Na colina da aldeia havia algumas cerejeiras. A primavera ainda estava longe, mas os habitantes esperavam ansiosamente por verem desabrochar as delicadas flores brancas, coloridas de rosa.
       Junto de uma velha cerejeira havia uma outra ainda muito nova. Mas ela tinha uma imensa pressa de crescer, para mostrar a beleza das suas flores.
       A jovem cerejeira perguntava muitas vezes à mais velha:
       - Quando posso florir? Falta muito tempo?
       Ela respondia-lhe sempre:
       - Tens de ter paciência, cara amiga. Na natureza há leis a cumprir. Espera pela tua hora. Verás que, quando terminar o inverno, florirás. Serás bela como uma noiva. Depois virão as primeiras cerejas. Por agora, tens de ter paciência.
       A jovem cerejeira, embora lhe custasse muito esperar, suspirava:
       - Está bem!
       Um certo dia de fevereiro amanheceu com um sol radioso. Parecia mesmo um dia de primavera.
       A jovem cerejeira, ao princípio da tarde, perguntou:
       - Já posso florir?
       A velha cerejeira, indisposta, disse:
       - Uff! Vós, as grandes, sois sempre assim! Só sabeis dizer que é preciso ter paciência. Estou farta de vos ouvir! Está um maravilhoso e, a partir de agora, serei eu a mandar em mim.
       E foi assim que dos botões da jovem cerejeira despontavam belíssimas flores. As pessoas passavam por ali e ficavam maravilhadas ao contemplar essas flores brancas coloridas de rosa.
       A jovem cerejeira sentia-se feliz, contemplando-se a si própria e admirando a sua beleza. Era na paisagem a única cerejeira florida.
       Infelizmente, esses dias de sol primaveril duraram pouco tempo. Veio de novo o frio e o gelo, queimando todas as suas flores. Tinha querido ser adulta antes do tempo e estragou a vida.

In revista Juvenil, n.º 552, fevereiro 2012.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Quando acaba a noite...

        Um Sábio fez um dia aos seus alunos a seguinte pergunta:
       - Como é que se pode reconhecer o momento exato em que acaba a noite e começa o dia.
       Um deles respondeu:
       - Talvez quando já não se consegue distinguir um cão de uma ovelha.
       - Não.
       Um outro disse:
       - Quando se distingue um figueira de uma oliveira.
       - Também não.
       Seguiram-se outras respostas e o velho Sábio ia respondendo que não. Foi então que eles pediram:
       - Diga-nos então quando é que se pode reconhecer o momento exato em que acaba a noite e começa o dia.
       Ele respondeu:
       - É quando tu, ao olhares para o rosto de uma pessoa qualquer, reconheces nela um irmão ou uma irmã. Antes de chegares a esse ponto, é ainda noite no teu coração.

In revista Juvenil, n.º 552, fevereiro 2012.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O nó do lençol

Neste dia que celebramos o festa da Sagrada Família (de Nazaré: Jesus, Maria e José, e cada um de nós), deixamos esta pequena estória. Desconhecemos autoria da mesma, mas vale a pena ler e meditar. Quando falta tempo e comunicação...
 (Imagem da Diocese de Lamego, usada na Programação Pastoral 2012)

       Numa reunião de pais numa escola da periferia, a professora ressaltava o apoio que os pais devem dar aos filhos e pedia-lhes que se fizessem presentes o máximo de tempo possível... Considerava que, embora a maioria dos pais e mães trabalhasse fora, deveria arranjar tempo para se dedicar às crianças. 
       Mas a professora ficou muito surpreendida quando um pai se levantou e explicou humildemente, que não tinha tempo de falar com o filho, nem de vê-lo, durante a semana, porque quando ele saía para trabalhar era muito cedo e o filho ainda estava a dormir. Quando voltava do trabalho já era muito tarde e o filho já não estava acordado.
       Explicou, ainda, que tinha de trabalhar assim para prover o sustento da família, mas também contou que isso o deixava angustiado por não ter tempo para o filho e que tentava compensá-lo indo beijá-lo todas as noites quando chegava em casa. E para que o filho soubesse da sua presença, ele dava um nó na ponta do lençol que o cobria. Isso acontecia religiosamente todas as noites quando ia beijá-lo.
       Quando o filho acordava e via o nó, sabia, através dele, que o pai tinha estado ali e o havia beijado. O nó era o meio de comunicação entre eles.
       A professora emocionou-se com aquela história e ficou surpreendida quando constatou que o filho desse pai era um dos melhores alunos da escola. O fato faz-nos refletir sobre as muitas maneiras de as pessoas se fazerem presentes, de comunicarem com os outros.
       Aquele pai encontrou a sua, que era simples mas eficiente. E o mais importante é que o filho percebia, através do nó, o que o pai estava a dizer. Simples gestos como um beijo e um nó na ponta do lençol, valiam, para aquele filho, muito mais do que presentes ou a presença indiferente de outros pais.
       É por essa razão que um beijo cura a dor de cabeça, o arranhão no joelho, o medo do escuro...
       É importante que nos preocupemos com os outros, mas é também importante que os outros o saibam e que o sintam. As pessoas podem não entender o significado de muitas palavras, mas sabem reconhecer um gesto de amor. Mesmo que esse gesto seja apenas um nó num lençol...

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Águia ou galinha

       Uma metáfora da condição humana
       Era uma vez um camponês que foi à floresta vizinha apanhar um pássaro para mantê-lo em sua casa. Conseguiu pegar um filhote de águia. Colocou-o no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas. Embora a águia fosse o rei/rainha de todos os pássaros. Depois de cinco anos, este homem recebeu em sua casa a visita de um naturalista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista:
       - Esse pássaro não é uma galinha. É uma águia.
       - De facto – disse o camponês. É águia. Mas eu criei como galinha. Ela não é mais uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de extensão.
       - Não – retrucou o naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia. Este coração a fará um dia voar às alturas.
       - Não, não – insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia.
       Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e desafiando-a disse:
       - Já que você de facto é uma águia, já que você pertence ao céu e não a terra, então abra suas asas e voe! A águia pousou sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá em baixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas. O camponês comentou:
       - Eu lhe disse, ela tornou-se uma simples galinha!
       - Não – tornou a insistir o naturalista. Ela é uma águia. E uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.
       No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no tecto da casa. Sussurrou-lhe:
       - Águia, já que você é uma águia, abra as suas asas e voe!
       Mas quando a águia viu lá em baixo as galinhas, ciscando o chão, pulou e foi para junto delas.
       O camponês sorriu e voltou à carga:
       - Eu não lhe disse, ela tornou-se galinha!
       - Não – respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma última vez. Amanhã a farei voar.
       No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha. O sol nascente dourava os picos das montanhas. O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe:
       - Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe!
       A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direcção do sol, para que seus olhos pudessem encher-se da claridade solar e da vastidão do horizonte.
       Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico kau-kau das águias e ergueu-se, soberana, sobre se mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez mais para o alto. Voou... voou... até se confundir com o azul do firmamento...
       E Aggrey terminou conclamando:
       - Irmãos e irmãs, meus compatriotas! Nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus! Mas houve pessoas que nos fizeram pensar como galinhas. E muitos de nós ainda acham que somos efectivamente galinhas. Mas nós somos águias. Por isso, companheiros e companheiras, abramos as asas e voemos.
       Voemos como as águias. Jamais nos contentemos com os grãos que nos jogarem aos pés para ciscar.

Leonardo Boff, in Porque evangelizar é preciso.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Folhas verdes... flores brancas e quem tem razão?!

       Dois pássaros estavam muito felizes sobre a mesma planta.
       Um mais acima e outro mais abaixo. A um certo momento, um disse ao outro:
       - Que lindas estas folhas verdes!
       O que estava mais abaixo, irritado, respondeu:
       - Estás cego? Não vês que são brancas?
       O de cima continuou:
       - Tu é que estás cego. São verdes e bem verdes.
       A discussão prolongou-se até ao ponto de se prepararem para lutar um contra o outro.
       Quando o de cima desceu, estando no mesmo ramo e preparando-se para o duelo, ambos olharam para a mesma direcção.
       Foi então que o que antes estava em cima e desceu, disse:
       - Que estranho! Afinal as folhas são brancas!
       Depois voaram os dois para o ramo de cima e disseram:
       - Que estranho! Afinal as folhas são verdes