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quarta-feira, 11 de julho de 2018

São Bento, Abade, Padroeiro da Europa

Nota biográfica por BENTO XVI:

       Festa de São Bento Abade, Padroeiro da Europa, um Santo que me é particularmente querido, como se pode intuir pela escolha que fiz do seu nome. Nascido em Núrsia por volta do ano 480, Bento fez os primeiros estudos em Roma mas, desiludido com a vida da cidade, retirou-se para Subiaco, onde permaneceu por cerca de três anos numa gruta o célebre "sacro speco" dedicando-se totalmente a Deus. Em Subiaco, servindo-se das ruínas de uma enorme vila do imperador Nero, ele, juntamente com os seus primeiros discípulos, construiu alguns mosteiros dando vida a uma comunidade fraterna fundada sobre a primazia do amor de Cristo, na qual a oração e o trabalho se alternavam harmoniosamente com o louvor a Deus. Alguns anos mais tarde, em Montecassino, deu forma concreta a este projecto, e escreveu-o na "Regra", a única obra sua que chegou até nós. Entre as cinzas do Império Romano, Bento, procurando antes de tudo o Reino de Deus, lançou, talvez sem se aperceber, a semente de uma nova civilização que se teria desenvolvido, integrando por um lado, os valores cristãos com a herança clássica e, por outro, as culturas germânica e eslava.
       Há um aspecto típico da sua espiritualidade, que hoje gostaria de realçar de modo especial. Bento não fundou uma instituição monástica finalizada principalmente à evangelização dos povos bárbaros, como outros grandes monges missionários da época, mas indicou aos seus seguidores como finalidade fundamental, aliás única da existência, a busca de Deus: "Quaerere Deum". Mas ele sabia que quando o crente entra em relação profunda com Deus não pode contentar-se com viver de maneira medíocre seguindo uma ética minimalista e uma religiosidade superficial. Nesta luz, compreende-se então melhor a expressão que Bento tirou de São Cipriano e que sintetiza na sua Regra (IV, 21) o programa de vida dos monges: "Nihil amori Christi praeponere", "Nada antepor ao amor de Cristo". Consiste nisto a santidade, proposta válida para cada cristão que se tornou uma verdadeira urgência pastoral nesta nossa época na qual se sente a necessidade de ancorar a vida e a história em referências espirituais firmes.
       Maria Santíssima, que viveu em profunda e constante comunhão com Cristo, é modelo sublime e perfeito de santidade. Invoquemos a sua intercessão, juntamente com a de São Bento, para que o Senhor multiplique também na nossa época homens e mulheres que, através de uma fé iluminada, testemunhada com a vida, sejam neste novo milénio sal da terra e luz do mundo. (BENTO XVI)
Oração de Colecta:
       Senhor nosso Deus, que fizestes de São Bento um mestre insigne na escola do serviço divino, concedei-nos que, preferindo a todas as coisas o vosso amor, avancemos de coração alegre e generoso pelo caminho dos vossos mandamentos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Da regra de São Bento, abade

Nada absolutamente anteponham a Cristo

Em primeiro lugar, qualquer obra que empreenderes, com instantíssima oração hás de pedir a Deus que a leve a bom termo; de modo que havendo-Se dignado contar-nos entre o número dos seus filhos, não tenha alguma vez de Se entristecer por causa das nossas más acções. Com efeito, devemos em todo o tempo pôr ao seu serviço os bens que em nós depositou, para não suceder que Ele, como pai irado, venha a deserdar os seus filhos, ou como tremendo Senhor irritado com os nossos pecados, nos entregue a penas eternas, como servos perversos que O não quiseram seguir para a glória.
Levantemo-nos, então, por uma vez, como nos convida a Escritura: Já é tempo de nos levantarmos do sono. Abramos os olhos para a luz divinizante e, de ouvidos atentos, escutemos a exortação que todos os dias nos dirige a voz divina: Se hoje ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações; e ainda: Quem tem ouvidos para ouvir, escute o que o Espírito diz às Igrejas.
E que diz Ele? Vinde, filhos, escutai-me; ensinar-vos-ei o temor do Senhor. Correi, enquanto tendes a luz da vida, para que não vos surpreendam as trevas da morte.
E o Senhor, ao buscar o seu operário na multidão do povo a quem dirige estas palavras, diz ainda: Qual é o homem que quer a vida e deseja ver dias felizes? E se tu, ao ouvires este convite, responderes: «Eu», Deus te dirá: «Se queres alcançar a verdadeira e perpétua vida, guarda do mal a tua língua e da mentira os teus lábios; evita o mal e faz o bem; procura a paz e segue-a. E quando isto fizerdes, estarão então os meus olhos sobre vós e os meus ouvidos atentos às vossas preces; e ainda antes que chameis por Mim, vos direi: Aqui estou».
Que há de mais doce para nós, irmãos caríssimos, do que esta voz do Senhor que nos convida? Vede como o Senhor, na sua piedade, nos mostra o caminho da vida.
Cinjamos, pois, os nossos rins com a fé e com a prática das boas obras; conduzidos pelo Evangelho, avancemos pelos seus caminhos, a fim de merecermos contemplar Aquele que nos chamou para o seu reino. Se queremos habitar na mansão do seu reino, saibamos que a não poderemos atingir senão pelo caminho das boas obras.
Assim como há um zelo mau de amargura, que afasta de Deus e leva ao inferno, assim também há um zelo bom, que aparta dos vícios e conduz a Deus e à vida eterna. É este zelo que, com ardentíssimo amor, devem exercitar os monges, quer dizer: antecipem-se uns aos outros na estima recíproca; suportem com muita paciência as suas enfermidades, físicas ou morais; rivalizem em prestar mútua obediência; ninguém procure o que julga útil para si, mas antes o que o é para os outros; amem-se mutuamente com pura caridade fraterna; vivam sempre no temor e no amor de Deus; amem o seu abade com sincera e humilde caridade; nada absolutamente anteponham a Cristo, o qual nos conduza todos juntos à vida eterna.
FONTES:
Secretariado Nacional da Liturgia
BENTO XVI - Festa de São Bento - 10 de junho de 2005.
Audiência Geral de 9 de abril de 2008 sobre São BENTO.
Estes dois textos podem também ser encontrados em:
BENTO XVI, A Santidade não passa de moda. Editorial Franciscana, Braga 2010

quinta-feira, 24 de março de 2016

Jesus, o Poeta da Misericórdia – 4

O mistério pascal realiza a plenitude da misericórdia divina no meio de nós. Em Jesus Cristo, Deus vem ao nosso encontro, faz-Se mendigo do nosso amor, faz-Se peregrino com a humanidade. Traz-nos Deus, inicia um Reino novo, integrando-nos. Por um lado, Deus ama-nos absolutamente. Por outro, respeita-nos na nossa liberdade. Mas não desiste de nós, como a Mãe não desiste dos filhos mesmo quando a fazem sofrer.

Com a Encarnação Deus dá um passo gigantesco para nos encontrar. O Antigo Testamento revela um Deus interventivo, que não Se alheia da história e dos sofrimentos do Povo que escolheu para firmar uma Aliança (quase) unilateral. O pecado do Povo, as infidelidades, transgressões vão destruindo as ligações entre as pessoas, mas não quebram a Aliança. Deus mantém-Se fiel. A Sua misericórdia é infinita. O profeta Oseias exemplifica esta fidelidade/ misericórdia de Deus. Tal como Oseias desposa e cuida da esposa que o trai repetidamente, nunca desistindo de a amar, assim Deus não desiste de nos amar.

Os Patriarcas, os Juízes, os Sacerdotes, os Profetas são mensageiros que relembram ao Povo o caminho da felicidade e da vida, que passa pela prática da justiça, da solidariedade, pelo cuidado dos mais frágeis, os pobres, os órfãos e as viúvas, os escravos e os estrangeiros.

Chegado o tempo, Deus envia o Seu próprio Filho. Desde então não há nada que nos separe do amor de Deus, pois Ele caminha connosco, assumindo-nos, faz-Se pecado para nos redimir, no elevar, para nos introduzir na vida divina. Jesus é Rosto e é Corpo da Misericórdia do Pai. Em Jesus a misericórdia divina ganha um Corpo, lingando-nos sensivelmente uns aos outros e a Deus.

Ao longo da Sua vida, Jesus passou fazendo, gastando-Se a favor dos mais desvalidos. A delicadeza e a bondade de Jesus preenchem as suas palavras e os seus gestos.

A misericórdia fica mais transparente na última semana de vida de Jesus. O amor é levado até ao fim, a compaixão de Jesus pela humanidade levam-n’O à Cruz, para uma identificação completa com o sofrimento mais atroz e com a própria morte.

Uma das passagens luminosas da misericórdia vivida por Jesus é o gesto do Lava-pés, durante a Última Ceia. São João Paulo II diz-nos que é uma cátedra da caridade divina, e mais, é uma lição, uma epifania, uma revelação: a justiça de Deus relaciona-se com Sua misericórdia infinita, ajusta-Se à condição do pecador. Ali, em Jesus, Deus abaixa-Se, ajoelha-Se e lava-nos os pés, abrindo o Caminho da Misericórdia…

publicado na Voz de Lamego, n.º 4355, de 22 de março de 2016

quarta-feira, 23 de março de 2016

Jesus, o Poeta da Misericórdia – 3

A vida é um mistério que não se dissolve no conhecimento, na ciência ou na sabedoria popular. A sua complexidade, por um lado, e a sua simplicidade, por outro, fazem da vida (vegetal, animal, humana) um desafio permanente de procura, de descoberta, de admiração. Para crentes e não crentes é um mistério inabarcável.

Com os avanços da ciência foi possível resolver muitos enigmas e melhorar a qualidade da vida, ainda que persistam doenças crónicas, as depressões, o vazio existencial. Somos muito mais que a soma de cromossomas, ADN, sangue, ossos, músculos, carne. Somos um mistério que quanto mais se desvenda mais complexo se torna.

Ao longo do tempo, o ser humano procurou compreender e justificar o sofrimento, a doença e a morte. Se a vida é tão bela, como é possível o sofrimento e a morte? Porque é que a vida não é igual para todos? Porque que é que uns sofrem tanto e outros têm uma vida durável e saudável? Terá a ver (somente) com as escolhas de cada um?

Uns procuram respostas na fé e na religião, outros no acaso ou na ciência. Muitos aceitaram a doença e as desgraças como vontade de Deus ou como consequência do pecado.

O Poeta da Misericórdia, Jesus, não procura justificações ou culpados. É preciso ajudar? Ajuda-se. Se alguém sofre é porque algum mal praticou. A figura de Job é enigmática. É acusado pelos amigos mais próximos, que deveriam conhecê-lo melhor, de pecar tendo em conta todo o mal que está a sofrer. Job questiona tal ligação, pois nada praticou que merecesse tantos sofrimentos. Sobrevirá o mistério de Deus que não é desvendável em questões académicas.

Jesus desliga o mal sofrido de qualquer culpa. Mas, atenção, diz-nos Jesus, é necessário que nos preocupemos com o bem de todos, uns dos outros, aderindo ao Reino de Deus, convertendo-nos. Fácil é olhar para os defeitos e pecados dos outros! Porém, para os seguidores de Jesus, importa deixar-se olhar pela Misericórdia de Deus e a Ele aderir de todo o coração.

Na vida de Jesus, na Sua mensagem e na Sua morte e na Sua ressurreição, prevalece a misericórdia de Deus. Quem Me vê, vê o Pai. E quem vê Jesus vê a bondade e a delicadeza, a compaixão e a proximidade, a paciência e o amor, o perdão e a verdade. Em Jesus, o Reino de Deus está em ação e já se podem ver os frutos. Cabe-nos também transparecer o Reino de Deus.

publicado na Voz de Lamego, n.º 4354, de 15 de março de 2016

terça-feira, 22 de março de 2016

Jesus, o Poeta da Misericórdia – 2

A vida de Jesus é um hino de docilidade para como os excluídos da sociedade, da política, da religião. É um poema de ternura e proximidade para com todos os desprezados deste mundo; os palácios que visita são as aldeias e os campos, dorme onde calha e come do que lhe dão. Faz-Se mendigo da nossa generosidade, enquanto nos fala de um sonho, que já se visualiza no seu proceder para connosco, o sonho de nos ver sentados à mesma mesa, no mesmo reino, sob a mesma filiação, transformados pela misericórdia do Pai.

O Jubileu da Misericórdia, convocado pelo Papa Francisco, tem permitido aclarar a misericórdia como um atributo essencial e primário de Deus. A justiça é o menor dos atributos de Deus. A misericórdia sanciona o perdão e acaricia o homem marcado pelo pecado, pela miséria, renovando-o, envolvendo-o e inserindo-o numa vida nova de graça e de salvação.

A própria palavra misericórdia (miséria + coração) aponta para a absorção da nossa miséria pela compaixão de Deus. "A misericórdia divina vem em socorro da miséria do homem" (Beato Paulo VI, reflexão sobre Santo Agostinho). Jesus, Rosto da Misericórdia, proclama bem alto, nas palavras e sobretudo nos gestos a misericórdia infinita do Pai, que ama e que toma a iniciativa para nos salvar.

Sublinha o Papa Francisco: «A lógica de Deus, com a Sua misericórdia, abraça e acolhe reintegrando e transfigurando o mal em bem, a condenação em salvação e a exclusão em anúncio… o caminho da Igreja é sempre o de Jesus: o caminho da misericórdia e da integração».

A convivência de Jesus com pecadores, publicanos, prostitutas, leprosos, coxos, surdos, mudos, mulheres, crianças, estrangeiros visualiza o Reino de Deus aberto a todos. Jesus come com as pessoas que não contam para os reinos deste mundo, mostrando-lhes que no banquete de Deus há lugar para todos, mas os primeiros a sentar-se à mesa do Reino são os mais desvalidos, o que nos obriga a olhar para eles com um cuidado redobrado, pois tudo o que fizermos aos mais pequeninos dos irmãos é a Cristo que o fazemos (cf. Mt 25, 31-45). Se acolhemos o peregrino recebemos Cristo; se vestimos o nu agasalhamos Jesus; se alimentamos o pedinte fazemos com que Jesus seja nosso alimento e sacie a nossa fome e a nossa sede; se usarmos de misericórdia para com o nosso semelhante seremos alcançados pela misericórdia de Deus, que primeiro nos foi favorável.

publicado na Voz de Lamego, n.º 4353, de 8 de março de 2016

Jesus, o Poeta da Misericórdia

Jesus passou fazendo o bem (Atos 10, 38), anunciando o Reino de Deus, misturando-se e envolvendo-se com doentes, leprosos, publicanos, pecadores públicos, crianças, mulheres, pobres, os excluídos dos reinos deste mundo. Assume-Se como o Bom Pastor que dá a vida pelas ovelhas, que busca a que anda perdida até a encontrar e carrega aos ombros a ovelha ferida. É o poeta que bendiz o Pai por Ele Se manifestar aos pequenos deste mundo porque são grandes no Reino de Deus, são grandes porque são filhos de Deus.

Anda sobretudo pelo campo e pelas aldeias. Vai a casa de todos os que o convidam, mas por sua iniciativa não vive nem em palácios nem em casas luxuosas, não tem onde reclinar a cabeça, não tem casa própria, porque quer morar em nossa casa, não tem dinheiro porque Ele é a maior riqueza que podemos sonhar e mendiga a nossa generosidade; não tem outra muda de roupa, porque espera que O vistamos com o nosso abraço. Identifica-Se com os mais pobres da Galileia, pequenos artesãos, pescadores, agricultores, pastores, e todos os que não contam. Vive feliz por transparecer o Amor do Pai, triste porque nem todos conhecem a misericórdia e o cuidado do Pai.

Não é um filósofo ou um mestre que busque o sucesso e o aplauso. Fica feliz por cada pessoa que encontra no caminho e a quem fala com delicadeza, compadecendo-Se, procurando olhar a vida a partir do sofrimento que encontra para poder ser cura e salvação. Vem para os doentes, para os pecadores, a todos envolve com o olhar da misericórdia de Deus. Mostra-nos o Pai, na parábola do Bom Samaritano, no abraço à Mulher samaritana, na parábola do Pai misericordioso que faz festa pelo regresso do filho pródigo e a todos nos quer na Sua presença; mostra-Se próximo na alegria da mulher que encontra uma dracma, no encontro com Zaqueu, querendo ficar em sua casa; na surpresa da mulher apanhada em adultério e por Ele envolvida num olhar de amizade e num abraço que a resgata de todos os abraços pecaminosos.

Contrariamente a João Batista, a missão de Jesus não é denunciar e eliminar o pecado mas comungar a nossa vida e o nosso sofrimento, assumindo-nos como irmãos. Não nos pergunta pelo pecado, mas pelo bem que estamos dispostos a comunicar. Jesus é o poeta da Misericórdia nas palavras, nos encontros, nos gestos de proximidade, de cura, de integração, nos gestos de perdão e de paz.

publicado na Voz de Lamego, n.º 4352, de 1 de março de 2016

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

São Columbano, abade

Nota biográfica:
       Nasceu na Irlanda na primeira metade do século VI e estudou ciências sagradas e profanas. Tendo abraçado a vida monástica, partiu para França, onde fundou muitos mosteiros que governou com austera disciplina. Obrigado a exilar-se, foi para Itália, onde fundou o mosteiro de Bobbio. Depois de ter dedicado tão intensa actividade para promover a vida cristã e religiosa do seu tempo, morreu no ano 615.

ORAÇÃO de coleta:
       Senhor, que reunistes maravilhosamente em São Columbano o zelo da pregação e o amor à vida monástica, concedei por sua intercessão que, imitando o seu exemplo, Vos amemos sobre todas as coisas e trabalhemos generosamente na dilatação do vosso reino. Por nosso Senhor Jesus Cristo que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Das Instruções de São Columbano, abade

A grande dignidade do homem está na semelhança com Deus

Moisés escreveu na lei: Deus fez o homem à sua imagem e semelhança. Considerai, peço-vos, a transcendência desta afirmação. O Deus omnipotente, invisível, incompreensível, inefável, incomparável, criou o homem do pó da terra e enobreceu-o com a dignidade da sua imagem. Que é o homem comparado a Deus? Que é a terra comparada ao espírito? Porque Deus é espírito. Grande mercê que Deus tenha dado ao homem a imagem da sua eternidade e a semelhança da sua vida! A grande dignidade do homem está nesta semelhança com Deus, se se conserva.
Se ele praticar rectamente as virtudes infundidas na sua alma, será de facto semelhante a Deus. Devemos dar conta a Deus de todas as virtudes que em nós semeou no nosso estado original. É o que nos ensina com os seus preceitos. Este é o primeiro: Amar o Senhor com todo o nosso coração, porque Ele nos amou primeiro, desde o princípio e antes de existirmos. O amor de Deus é a renovação da sua imagem em nós. Ama a Deus quem guarda os seus mandamentos, como Ele diz: Se Me amais, guardai os meus mandamentos. E o seu mandamento é o amor mútuo, conforme aquela palavra: Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei.
Mas o verdadeiro amor não se exprime apenas com palavras, mas com obras e em verdade. Devemos, portanto, restituir a Deus nosso Pai a sua imagem, não deformada mas perfeitamente conservada na santidade de vida, porque Ele é Santo; como está escrito: Sede santos, porque Eu sou santo. Devemos restituí-la na caridade, porque Ele é caridade, como afirmou São João: Deus é caridade. Devemos restituí-la na bondade e felicidade, porque Ele é bom e fiel. Não pintemos em nós imagens estranhas. Desenha imagens de um tirano quem é duro, iracundo e soberbo.
Por conseguinte, a fim de não introduzirmos em nós imagens tirânicas, o próprio Cristo grava em nós a sua imagem, dizendo: Dou-vos a minha paz, deixo-vos a minha paz. Mas, de que aproveita sabermos que a paz é boa, se não a conservamos bem? Com efeito, tudo o que é belo costuma ser muito frágil e as coisas mais preciosas requerem maior cautela e mais atenta vigilância. É muito frágil esta paz que se pode perder com uma palavra leviana e se destrói com a mais pequena ofensa feita a um irmão. De facto, nada é mais agradável aos homens do que falar e ocupar-se de coisas alheias, manter continuamente conversas ociosas e difamar os ausentes. Por isso, os que não podem dizer: O Senhor deu-me uma língua eloquente para que saiba dizer ao desanimado uma palavra de conforto, esses devem calar-se; e se quiserem falar, digam palavras de paz.