Mostrar mensagens com a etiqueta Multidão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Multidão. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Tenho pena desta multidão...

       Jesus chamou os discípulos e disse-lhes: «Tenho pena desta multidão; há já três dias que estão comigo e não têm que comer. Se os despedir sem alimento para suas casas, desfalecerão no caminho, porque alguns vieram de longe». Responderam-Lhe os discípulos: «Como se poderia saciá-los de pão, aqui num deserto?». Mas Jesus perguntou: «Quantos pães tendes?». Eles responderam: «Temos sete». Então Jesus ordenou à multidão que se sentasse no chão. Depois tomou os sete pães e, dando graças, partiu-os e deu-os aos discípulos, para que os distribuíssem, e eles distribuíram-nos à multidão. Tinham também alguns pequenos peixes. Jesus pronunciou sobre eles a bênção e disse que os distribuíssem também. Comeram e ficaram saciados. Dos bocados que sobraram encheram sete cestos (Mc 8, 1-10).
       Neste episódio da multiplicação dos pães vemos a sensibilidade de Jesus, a Sua compaixão pelas multidões; vemos o milagre da multiplicação ou da partilha, num e noutro caso Jesus conta com a colaboração dos seus discípulos, isto é, Deus conta com a nossa cooperação para agir no mundo; a multiplicação mostra que o alimento que nos vem de Jesus nos sacia e ainda sobeja para os demais, em Cristo Jesus há alimento em abundância... símbolo claro da Eucaristia, onde Se nos dá de novo, sempre, até à eternidade e nos alimento...
       No meio do deserto, onde não existe nada, é possível que o amor transforme o pouco em muito, e que os poucos pães e os poucos peixes, pela oração, pela generosidade e pela fé, se transformem em muito, em abundância. O que daria para alguns, dá agora para muitos, para todos...

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Faz-te ao largo e lançai as redes para a pesca

       "Estava a multidão aglomerada em volta de Jesus, para ouvir a palavra de Deus. Ele encontrava-Se na margem do lago de Genesaré e viu dois barcos estacionados no lago. Os pescadores tinham deixado os barcos e estavam a lavar as redes. Jesus subiu para um barco, que era de Simão, e pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra. Depois sentou-Se e do barco pôs-Se a ensinar a multidão. Quando acabou de falar, disse a Simão: «Faz-te ao largo e lançai as redes para a pesca». Respondeu-Lhe Simão: «Mestre, andámos na faina toda a noite e não apanhámos nada. Mas, já que o dizes, lançarei as redes». Eles assim fizeram e apanharam tão grande quantidade de peixes que as redes começavam a romper-se. Fizeram sinal aos companheiros que estavam no outro barco para os virem ajudar; eles vieram e encheram ambos os barcos de tal modo que quase se afundavam. Ao ver o sucedido, Simão Pedro lançou-se aos pés de Jesus e disse-Lhe: «Senhor, afasta-Te de mim, que sou um homem pecador». Na verdade, o temor tinha-se apoderado dele e de todos os seus companheiros, por causa da pesca realizada. Isto mesmo sucedeu a Tiago e a João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão. Jesus disse a Simão: «Não temas. Daqui em diante serás pescador de homens». Tendo conduzido os barcos para terra, eles deixaram tudo e seguiram Jesus" (Lc 5, 1-11).
       A multidão segue Jesus. Procuremos situar-nos naquele tempo, no meio daquela multidão. Alguns de nós estaríamos pela primeira vez, outras vinham acompanhando Jesus há vários dias, outros já tinham ouvido falar d'Ele, outros tinham-se cruzado com Ele em outras cidades e aldeias.
       E o que é que estamos a fazer junto de Jesus? Nem todos estaremos pelas mesmas razões, cada um leva a sua vida. Segundo o próprio evangelista a multidão está ali aglomerada para ouvir Jesus. Da Sua boca saem palavras de desafio e de esperança.
       Todos podem ser cooperadores de Jesus Cristo e da Boa Notícia. Os pescadores já estão a lavar os barcos. Jesus sobre para o barco de Simão, para criar as melhores condições para a pregação e para a escuta. Senta-Se e do barco põe-se a ensinar a multidão.
       Segundo momento, diz a Simão para lançar as redes ao mar, como se fosse um entendido em pescaria. Pedro coloca a suas reservas/dúvidas, tal como faria cada um de nós se fosse pescador. Pedro entendia mais de pesca que Jesus. Como é que Este convida a pescar durante o dia. Mas o benefício da dúvida, já que o dizes, nós faremos como dizes. E lançaram as redes ao mar. E não é que a pescaria foi abundante!
       Mais vale quem Deus ajuda do que quem muito madruga. Sem Deus a pesca, a vida, é vazia, insignificante. Com Deus toda a pesca é abundante. Deus conta que façamos a nossa parte. O milagre não é "gratuito", pressupõe a fé e o empenho. Ele conta com o nosso barco, com as nossas redes, com os nossos braços, para lançar as redes e para pescar.
       A Pedro, como a outros, o desafio vai ainda mais longe: doravante serás pescadores de homens. Maior exigência. trabalho constante. Uma certeza: se Deus está connosco a pesca vai ser abundante.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Deus enxugará as lágrimas de todas as faces

       Sobre este monte, o Senhor do Universo há-de preparar para todos os povos um banquete de manjares suculentos, um banquete de vinhos deliciosos: comida de boa gordura, vinhos puríssimos. Sobre este monte, há-de tirar o véu que cobria todos os povos, o pano que envolvia todas as nações; Ele destruirá a morte para sempre. O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces e fará desaparecer da terra inteira o opróbrio que pesa sobre o seu povo. Porque o Senhor falou. Dir-se-á naquele dia: «Eis o nosso Deus, de quem esperávamos a salvação; é o Senhor, em quem pusemos a nossa confiança. Alegremo-nos e rejubilemos, porque nos salvou. A mão do Senhor pousará sobre este monte» (Is 25, 6-10a).
       "Jesus  foi para junto do mar da Galileia e, subindo ao monte, sentou-Se. Veio ter com Ele uma grande multidão, trazendo coxos, aleijados, cegos, mudos e muitos outros, que lançavam a seus pés. Ele curou-os, de modo que a multidão ficou admirada, ao ver os mudos a falar, os aleijados a ficar sãos, os coxos a andar e os cegos a ver; e todos davam glória ao Deus de Israel. Então Jesus, chamando a Si os discípulos, disse-lhes: «Tenho pena desta multidão, porque há três dias que estão comigo e não têm que comer. Mas não quero despedi-los em jejum, pois receio que desfaleçam no caminho». Disseram-Lhe os discípulos: «Onde iremos buscar, num deserto, pães suficientes para saciar tão grande multidão?» Jesus perguntou-lhes: «Quantos pães tendes?» Eles responderam-Lhe: «Sete, e alguns peixes pequenos». Jesus ordenou então às pessoas que se sentassem no chão. Depois tomou os sete pães e os peixes e, dando graças, partiu-os e foi-os entregando aos discípulos e os discípulos distribuíram-nos pela multidão. Todos comeram até ficarem saciados. E com os pedaços que sobraram encheram sete cestos" (Mt 15, 29-37).
       O profeta Isaías é, sem dúvida, o que mais claramente anuncia a chegada do Messias de Deus, caracterizando esse tempo de salvação. A vinda de Deus até nós reveste-se de esperança e envolve-nos em salvação. Ele vem salvar, Ele vem para nos reconduzir à abundância da felecidade. A imagem do banquete é sugestiva. Deus sacia-nos na nossa ânsia de viver.
       Jesus Cristo é verdadeiramente o Messias que estava para vir. Vem da parte de Deus, acolhendo e salvando os que andam perdidos, os aleijados, os paraliticos, os pobres, os surdos, os mudos, todos os doentes. N'Ele se revela um Deus compassivo, próximo das pessoas. Ele sente compaixão por aquela multidão, faminta de pão e de um sentido para a vida. Na multiplicação dos pães a certeza que em Jesus Cristo encontramos o alimento que nos salva e que sobeja, chega para todos.
       Pode ver-se aqui a figura da Eucaristia, banquete que nos alimenta até à vida eterna.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Alegrai-vos e exultai...

     Ao ver as multidão, Jesus subiu ao monte e sentou-Se. Rodearam-n’O os discípulos e Ele começou a ensiná-los, dizendo: "Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus. Bem-aventurados os humildes, porque possuirão a terra. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus. Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa. Assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós" (Mt 5, 1-12).
       As bem-aventuranças são uma referência vital para todo o crente, para todo o cristão. Nelas está condensada toda a mensagem de Jesus Cristo sobre a vivência dos Seus discípulos. São Bem-aventurados todos os que procuram o bem, partindo da verdade, assumindo uma postura de grande humildade, predispondo-se a viver a caridade, dando a vida pelos outros, em todas as situações.
       O próprio ambiente nos diz da importância que Jesus coloca nas palavras que dirige aos discípulos e à multidão. Qual Moisés, sobe ao monte e senta-se para ensinar. Mas não só. Mostra também a serenidade, senta-se, não fala em andamento, mas cria uma pausa que suscita uma maior atenção e dando maior enlevo àquelas palavras.
       O propósito será o de Maria: Eis a escrava do Senhor, faça-se em Mim segundo a Sua palavra. É a postura de Jesus: "Eu venho, ó Deus, para fazer a vontade a Vossa vontade". Há tornar-se a marca fundamental dos seguidores de Jesus, os cristãos: Minha Mãe e meus irmãos, diz-nos Jesus, são aqueles que escutam a palavra de Deus e a põem em prática.
       As Bem-aventuranças remete-se para a oração do Pai-nosso, e vice-versa, para para toda a mensagem e todo o agir de Jesus: despojar-Se de Si para Se preencher da Presença do Pai e do Seu Amor, deixando-os transbordar para todas as pessoas que encontra pela frente, sobretudo os que se encontram em situação de maior debilidade.
       As bem-aventuranças não é um desafio à miséria, mas precisamente o contrário, fazendo que os bens materiais e a riqueza não sejam empecilho para nos ajudarmos mutuamente, dando sempre prioridade a Deus, aos irmãos, aos sentimentos, aos laços de ternura e de amizade. Dando o melhor, indo ao encontro do melhor que há nos outros. E assim encontraremos Deus, em nós e nos outros.

sábado, 25 de julho de 2015

XVII Domingo do Tempo Comum - ano B - 26 de julho

       1 – O alimento e a pobreza são realidades de todas as épocas. Pobres sempre os tereis. Garantia de Jesus quando os discípulos contestam a generosidade e a devoção de uma mulher que d’Ele se aproxima e sobre Ele derrama um frasco de perfume de alto preço (cf. Mt 26, 6-12; Jo 12, 1-8). Faz-nos lembrar aquelas pessoas que desafiam a Igreja a vender tudo o que tem para acudir aos pobres mas não mexem uma palha para fazer alguma coisa, sabendo-se que muitos crentes dão o melhor que têm, por vezes com muito sacrifício, para terem uma Igreja bem adornada, com tudo o que há de melhor, procurando que a casa que é de todos seja a mais cuidada, e se é para receber o convidado mais importante, Jesus Cristo, não se poupam a esforços. E não tem a ver com quantidades, mas com o coração e com a vida, como exemplifica Jesus apresentando uma viúva pobre que deitou duas pequenas moedas no cofre do templo, mais do que todos os outros, pois estes deitaram do que lhes sobejava e aquela mulher deitou tudo quanto tinha para sobreviver (cf. Lc 21, 1-4), confiando-se totalmente a Deus.
       Porém, o cuidado com as coisas de Deus há de sensibilizar-nos a cuidar bem dos preferidos de Deus, os pobres, os pequeninos, os humildes e mansos de coração, os que têm pouco e vivem na míngua. O Juízo Final sintetiza a mensagem de Jesus: "Sempre que fizeste isto a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizeste... Sempre que deixaste de fazer isto a um destes pequeninos, foi a Mim que o deixaste de fazer" (Mt 25, 31-46). Também aqui não se pode simplesmente espiritualizar o amor ao próximo, há que o materializar: tive fome e deste de comer, tive sede e deste-me de beber, era peregrino e me recolheste, estava nu e me vestiste, adoeci e visitaste- me, estava preso e foste ver-me. E veja-se como passados alguns séculos, ainda que com muitos pecados, muitos atrasos e lentidões, muitos distanciamentos, a Igreja tem um compromisso social incomparável. A Igreja, com todos os seus membros, poderá sempre fazer melhor, até esgotar todas as possibilidades! O mandato de Cristo é o ponto de partida e o fundamento, que conta connosco e com os meios que estão ao nosso alcance para fazer a vida acontecer.
       Adentremo-nos no Evangelho da multiplicação e da partilha solidária.
       2 – Como víamos no domingo passado, ainda que com outro evangelista, há uma numerosa multidão que segue Jesus. São João refere que isso se deve aos milagres que Ele fazia com os doentes. Também aqui se vê que Jesus vai para o outro lado do mar da Galileia. Não fica deste lado, do seu lado, no seu canto, mas leva-nos com Ele para outras paragens. Sobe ao monte, vista privilegiada para ver a multidão que O segue, e diz a Filipe: «Onde havemos de comprar pão para lhes dar de comer?»
       Diante do número crescente de pobres, de famílias com dificuldades, empresas a fechar, incumprimento nos pagamentos, também podemos cair em desânimo, concluindo que os problemas são maiores do que as nossas possibilidades: «Duzentos denários de pão não chegam para dar um bocadinho a cada um». É uma pergunta legítima. E se nos pomos a pensar que alguns se puseram a jeito?! Por vezes é necessário acudir às necessidades imediatas, mas a preocupação é revolver as situações a longo prazo, envolvendo aqueles que estão necessitados. É também uma questão de dignidade.
       Fixemo-nos em Jesus. Não faz nenhum reparo em relação à multidão. Não Se interroga pelo facto de alguns estarem desprevenidos. O comentário partilhado com Filipe, e com os outros discípulos, e connosco, é sobre o que cada um nós pode fazer para resolver o problema que temos pela frente e saciar aquela multidão.
       André, irmão de Simão Pedro, denota a insuficiência dos meios: «Está aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?».
       Para nós é muito pouco, mas faz toda a diferença. «Mandai-os sentar». 5 mil homens. Jesus toma os pães e os peixes, dá graças e distribuiu-os. Todos comem o que querem. Até ficarem saciados. Nova ordem de Jesus que conta connosco: «Recolhei os bocados que sobraram, para que nada se perca». 12 cestos. De 5 pães e dois peixes, depois da refeição para 5 mil homens, sobram 12 cestos! Abundância que vem de Deus. Abundância que vem da partilha.
       3 – A primeira leitura, que novamente nos traz um profeta, prepara-nos para ler o Evangelho. Um homem leva a Eliseu pão feito com os primeiros frutos da colheita. 20 pães de cevada, e algum trigo no saco. Eliseu ordena-lhe: «Dá-os a comer a essa gente». Mas como poderia ele pensar em distribuir 20 pães por cem pessoas? Eliseu insiste: «Dá-os a comer a essa gente, porque assim fala o Senhor: ‘Comerão e ainda há de sobrar’». Mais vale quem Deus ajuda do que quem muito madruga!
       O verdadeiro milagre é a confiança em Deus e na Sua Palavra. Deus conta connosco. Cabe-nos parte importante na resolução dos problemas que afligem o nosso tempo. Deus age através de nós, dos nossos dons e dos nossos bens. O que fazemos pode não passar de uma gota de orvalho no oceano, mas este só estará completo com a nossa gota de orvalho, como nos lembra a Beata Madre Teresa de Calcutá.
       O milagre da multiplicação que Eliseu obtém de Deus, e o milagre da abundância operado por Jesus, podemos vivê-los através da partilha. "A terra está dotada dos recursos necessários para saciar a humanidade inteira. É preciso saber usá-los com inteligência, respeitando o ambiente e os ritmos da natureza, garantindo a equidade e a justiça nas trocas comerciais, e uma distribuição das riquezas que tenha em conta o dever da solidariedade" (São João Paulo II, Mensagem para a Quaresma, 1996). 
       O milagre só Deus o pode realizar, ainda que através de nós. A partilha faz-nos multiplicar por muitos o pouco que cada um possa ter. Sejam cinco pães e dois peixes! Deus acrescenta-nos no que fica o que damos aos outros. Na partilha as contas são de multiplicar. “A felicidade está mais no dar do que no receber” (Atos 20, 35).
       A oração de coleta ajuda-nos a consciencializar a iniciativa e omnipotência de Deus, envolvendo-nos na transformação do mundo presente com o olhar colocado na eternidade: "Deus, protetor dos que em Vós esperam, sem Vós nada tem valor, nada é santo. Multiplicai sobre nós a vossa misericórdia, para que, conduzidos por Vós, usemos de tal modo os bens temporais que possamos aderir desde já aos bens eternos". 

       4 – A Carta aos Efésios, por sua vez, continua a impelir-nos para os outros, fundamentando a nossa vida e as nossas escolhas em Deus, que é "Pai de todos, que está acima de todos, atua em todos e em todos Se encontra". Se professamos a mesma fé, há que agir para nos vincularmos no mesmo batismo: "Procedei com toda a humildade, mansidão e paciência; suportai-vos uns aos outros com caridade; empenhai-vos em manter a unidade de espírito pelo vínculo da paz. Há um só Corpo e um só Espírito, como há uma só esperança na vida a que fostes chamados. Há um só Senhor, uma só fé, um só Batismo".
       A missão de Paulo é levar o Evangelho a toda a parte. Porém, não esquece de verificar o Evangelho e os seus frutos nas comunidades por Ele fundadas, incentivando os cristãos a tornarem-se verdadeiros irmãos em Cristo Jesus.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (B): 2 Reis 4, 42-44; Sl 144 (145); Ef 4, 1-6; Jo 6, 1-15.

sábado, 7 de setembro de 2013

XXIII Domingo do Tempo Comum - ano C - 8 de setembro

       1 – Chamamento. Seguimento. Cruz. Despojamento. Humildade. Coragem. Persistência. Amor. Esperança. Sem promessas. Com as certezas que advêm da fé, do serviço e da verdade. O Mestre e os discípulos. Sempre discípulos, seguidores, aprendizes, alunos. Sempre apóstolos, enviados, em caminho, testemunhas do Evangelho, transparência, rosto e presença de Jesus em cada tempo, em todos os ambientes. A prioridade: amar. O essencial: serviço. O conteúdo: Jesus Cristo. A Mensagem: conciliar, reunir, servir, paz, justiça, bem-dizer e bem-fazer, partilha, comunhão, gratuitidade, verdade, amar servindo, servir amando. A meta: Deus. Em Deus há lugar para todos. A meta: a humanidade inteira. Cada pessoa, a minha tia, o meu sobrinho, o meu marido, a minha cunhada, a minha sogra, a minha enteada, a minha vizinha, o meu colega. Meta: Deus e em Deus a humanidade inteira. Sem Deus serei EU e mais NINGUÉM. Com DEUS, Eu/Nós em comunidade.
       A multidão seguia Jesus. Ia atrás da Sua Palavra, dos Seus gestos, de milagres, à procura, à descoberta de algo de novo e surpreendente. Todos com as mesmas intenções? Certamente que não. Hoje continua a ser assim. Multidões que seguem Jesus, que vão à Igreja, que têm fé, que vivem a religião, que têm fé e não vão à Igreja, e quase deixaram de ser Igreja, mas de vez enquanto ainda se sentem, se afirmam como cristãos, como Igreja, ou a combatem dizendo que também fazem parte dela, mas sentem-se mais seguros estando contra. Como diria um santo teólogo, a Igreja é como a nossa Mãe, velhinha e com a pele enrugada, mas não vamos andar por aí a dizer mal da nossa Mãe. Não. Pelo contrário, vamos dar-lhe mais atenção, dedicar-lhe mais tempo. Cuidar. Para que a Igreja seja sobretudo Mãe, e como Mãe também guia e mestra. A Igreja há de ser SACRAMENTO de salvação, de Jesus Cristo, do Evangelho. Cristo na Igreja. Nós em Cristo, no Seu Corpo que é a Igreja.
       A Igreja, a fé, tem muitos rostos e muitos caminhos, tantos quantos as pessoas, assim o afirmava o Cardeal Joseph Ratzinger, em entrevista concedida em 1996 (O Sal da Terra). Jesus é o CAMINHO, a Verdade e a Vida. É o nosso CENTRO, a referência fundamental, o AMOR maior. Mas cada um de nós tem a sua história, os seus dramas, os seus sonhos, cada um de nós sente à sua maneira. Mas se houver um FAROL que nos congregue será mais fácil carregar a nossa cruz. Se nos encaminhamos para o CAMINHO, que é Jesus, será mais doce a nossa festa e mais serena a nossa alegria e a nossa paz. A companhia ajuda-nos a superar a solidão, e as noites escuras, a apreciar os dias de sol.
       2 – «Se alguém vem ter comigo, e não Me preferir ao pai, à mãe, à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não pode ser meu discípulo. Quem de vós, desejando construir uma torre, não se senta primeiro a calcular a despesa, para ver se tem com que terminá-la? Assim, quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo». 
       Jesus não está pelos ajustes, ou tudo ou nada. Assim soam as suas palavras. Ele ama-nos definitiva e totalmente. A intimidade com Deus Pai mais O envia e compromete.
       Não há cá paninhos quentes. Quem Me quiser seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz, traga a sua vida por inteiro. Nada pode ficar de reserva, ou no condicional (vamos ver o que isto dá… depois logo se vê). A vida toda, o que somos, o bem e o que nos puxa para o mal. Tudo. Vamos inteiros, corpo, alma, espírito. Quem não Me preferir à mãe, ao pai, ou aos filhos, à própria vida, não pode ser Meu discípulo. Sem papas na língua. É assim mesmo! Põe todas as cartas na mesa. Não fica com nenhuma cartada na manga. A vossa linguagem seja, “sim, sim”, e “não, não”. Coração assente. Se O quisermos seguir já sabemos quais as condições. O contrato não têm letras pequeninas, mas garrafais: «QUEM NÃO ME PREFERIR À PRÓPRIA VIDA NÃO PODE SER MEU DISCÍPULO, quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo».
       A minha/nossa resposta não pode ser diferente. Não podemos amar a meias, a prazo, quando nos dá na real gana, ou quando estamos bem-dispostos. Ou quando precisamos. Ou quando a vida nos corre bem e nos sobra tempo. Ou amamos ou não amamos. Ainda que cada um possa manifestar o seu amor (e a sua fé) de maneira específica. Existe um caminho de aperfeiçoamento a construir. Ele não Se impõe. Não faz promessas. Não dá garantias de sucesso. Não faz chantagem, nem negoceia o Seguimento. Ou quereis ou não quereis. Seria um mau assessor e talvez um péssimo político, pelo menos como o entendemos na atualidade. Vinde que sereis compensados por isso. Seria um bom lema de campanha. Jesus, pelo contrário, diz logo à partida que vão ser perseguidos e mortos. Como o Mestre, assim os discípulos. O desfecho da Sua missão será violento, contraditório!
       3 – Será que Jesus quer que eu me isole para O seguir? Que vire as costas à família e aos amigos? Que me torne monge? Será que Ele exige uma vida vazia, sem nada nem ninguém? Quais são as condições para sermos Seus discípulos? Colocá-l'O no centro, preencher todo o nosso coração com o Seu amor. As palavras de Jesus não deixam qualquer folga, não são evasivas. Quem quiser ser Meu discípulo tem de renunciar a uma vida apagada, cómoda, instalada, de indiferença. Pegar na própria Cruz e segui-l'O. Dia após dia. Todos os dias, em todo o tempo. Até quando dormimos somos d'Ele. Até quando descansamos respiramos o Seu Espírito. Em qualquer estado de vida.
       Fique, no entanto, claro que quanto mais formos de Deus mais seremos para os outros, mais comprometidos no serviço, na caridade. De grata memória, um padre (Pe. Manuel Gonçalves da Costa) do Seminário Maior dizia: quando precisares de ajuda pede a quem tem muito que fazer, que ande sempre ocupado, pois arranja tempo e espaço para te ajudar. Se pedires ajuda a alguém que nunca tem nada para fazer, nunca arranjará tempo para te ajudar. É assim o convite de Jesus. Quanto mais ocupados com Deus, mais disponíveis para os outros. Alguém conhece pessoas cheias de si com tempo para os outros?
       Na convocação do Ano Sacerdotal, o Papa Bento XVI evocava uma reflexão do Santo Cura d'Ars, São João Maria Vianney, sublinhando o valor e a necessidade da oração. Para quê? Para que Deus dilate o nosso coração. Somos limitados, amamos limitadamente. A oração coloca-nos no coração ENORME de Deus, a oração faz-nos amar mais, mais, muito mais, o mundo inteiro. Seguindo Deus, amando Deus, servindo Deus, nos outros.
       Olhemos para a história. Quem foram os maiores benfeitores da humanidade? Aqueles que amealharam para si, que cuidaram dos seus amigos, dos seus irmãos, do seu grupinho? Ou aqueles que se esquecerem de si mesmos para se darem inteiramente a Deus? Nesse dar-se a Deus construírem comunidades, lutaram pela justiça, ajudaram as pessoas à sua volta e os povos por onde passaram. Se Deus é a nossa LUZ, de nós irradiará para o mundo inteiro. Este propósito começa sempre em minha e na tua casa. Dentro de mim e de ti. De nós.
       4 – Sabemos qual a exigência do Seguimento, as condições que Jesus coloca para sermos discípulos. Mas como poderemos interpretar cada situação, como colocar Deus em primeiro lugar, como seguir Jesus nas várias dimensões da vida? Na política, no desporto, na convivência social? Na promoção da cultura, no lazer, ou quando me cruzo com a D. Flor?
       “Quem pode sondar as intenções do Senhor? Mal podemos compreender o que está sobre a terra… Quem poderá conhecer, Senhor, os vossos desígnios, se Vós não lhe dais a sabedoria e não lhe enviais o vosso espírito santo?” 
       Peçamos auxílio ao Senhor, para que nos guie com a Sua sabedoria e benevolência. “Ensinai-nos a contar os nossos dias, para chegarmos à sabedoria do coração. Voltai, Senhor! Até quando... Tende piedade dos vossos servos. Saciai-nos desde a manhã com a vossa bondade, para nos alegrarmos e exultarmos todos os dias. Desça sobre nós a graça do Senhor nosso Deus. Confirmai, Senhor, a obra das nossas mãos”.


Textos para a Eucaristia (ano C): Sab 9, 13-19; Flm 9b-10.12-17; Lc 14, 25-33.

sábado, 30 de julho de 2011

XVIII Domingo do Tempo Comum - 31 de Julho

       1 - A nossa vida é uma busca constante, busca de felicidade, de realização em diferentes níveis, pessoal, familiar, profissional. E mesmo quando surgem situações de mal, de destruição, de egoísmo, são outras tantas formas de afirmação pessoal, de realização invertida, ainda que por vezes resulte não da vontade decidida e consciente mas pela influência do grupo ou de algum distúrbio psíquico. Mas a regra mantém-se: todos queremos ser felizes; a maneira de o conseguir, ou o grau de realização, é que é diferente de pessoa para pessoa.
       Encontramos pessoas que em pequenas coisas se sentem felizes e outras em que por mais razões que tenham para sorrir andam sempre de cara à banda, indispostas com a vida, com os outros, com o mundo. Existem pessoas que vivem só para este mundo e aparentam ser felizes, mas sempre com um vazio interior, porque as suas vidas fecham-se num tempo limitado e finito. E existem pessoas de fé que são verdadeiramente felizes. Nelas não existe o vazio da escuridão. É certo, como já referia Santo Agostinho, também elas procuram como quem encontra e encontram como quem procura. Por outras palavras, o sentido que encontra na fé e pela fé é motivação para aprofundarem a vivência espiritual, comprometendo-se mais e mais com a transformação deste mundo, para também aqui e agora trazerem razões para esperança.

       2 - Com efeito, a verdadeira resposta às nossas procuras interiores, à nossa sede de sentido, só tem uma resposta plenamente satisfatória em Deus, pois só Ele nos garante e à nossa vida, não apenas hoje, amanhã, mas definitivamente. Todos nós ansiamos por mais. Esta ânsia de sermos felizes é também uma ânsia de eternidade. E neste propósito só Deus assegura definitividade. Só Ele dá um sentido coerente e final que não se corrói com o tempo nem termina quando acaba a pessoa.
       A nossa memória pessoal e humana ficaria para sempre morta, no passado, sem promessas cumpridas, apenas com sonhos desfeitos. Por outro lado, Deus é a certeza que no fim vencerá o Bem, a Verdade, a Justiça, a Beleza. Este Vale de Lágrimas que atravessámos, sem fé, não teria qualquer sentido, pelo contrário acentuaria um vazio permanente, obscuro, destrutivo. E que dizer do sofrimento? Do sofrimento inocente? Já agora é tão difícil perceber. E se não houvesse futuro, se não houvesse Deus, se não houvesse Alguém que garantisse a justiça definitiva.
       É certo que Deus respeita as nossas escolhas. Como é certo que muitas das escolhas que uns e outros fazemos são fonte de injustiças e de sofrimento. Mas no fim, sabemos que Ele lá está, não como o castigador, mas como Amor que Se dá e Se entrega para que todos tenhamos a vida em abundância. Como nos lembra o Apóstolo: "...eu estou certo de que nem a morte nem a vida, nem os Anjos nem os Principados, nem o presente nem o futuro, nem as Potestades nem a altura nem a profundidade nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que se manifestou em Cristo Jesus, Nosso Senhor".

       3 - O Profeta Isaías, mensageiro de Deus, mostra-nos como em Deus podemos encontrar o alimento que dá sentido e sabor às nossas inquietações mais profundas, às nossas buscas interiores.
       «Eis o que diz o Senhor: 'Todos vós que tendes sede, vinde à nascente das águas. Vós que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei. Vinde e comprai, sem dinheiro e sem despesa, vinho e leite. Porque gastais o vosso dinheiro naquilo que não alimenta e o vosso trabalho naquilo que não sacia? Prestai-Me atenção e vinde a Mim; escutai e a vossa alma viverá. Firmarei convosco uma aliança eterna, com as graças prometidas a David'».
       E o alimento que Deus nos dá é gratuito. Acentua-se também aqui que o verdadeiro alimento que não se esgota provém da escuta da Palavra de Deus.
       Do mesmo jeito o Evangelho realça que a multidão vai em busca de um sentido, vai ouvir Jesus, esperando d'Ele palavras de conforto ou, como um dia dirá São Pedro, Palavras de vida eterna. Por vezes, também a curiosidade e o desejo de ver milagres. Mas os evangelhos são expressivos, mostram como a compaixão de Jesus pela multidão O leva a ensinar-lhes muitas coisas, dá-lhes um alimento espiritual. E as multidões seguem-n'O para O ouvir.
       O milagre da multiplicação foi sempre visto como antecipação do mistério maior da nossa fé, a Eucaristia, na qual, nos elementos do pão e do vinho, Jesus nos havia de dar o Seu corpo e sangue como alimento abundante até à eternidade.
       «Tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao Céu e recitou a bênção. Depois partiu os pães e deu-os aos discípulos e os discípulos deram-nos à multidão. Todos comeram e ficaram saciados». Neles todos somos (ou podemos ser) saciados.

       4 - A dimensão vertical (que nos liga a Deus) não dispensa a dimensão horizontal (que nos liga aos outros), antes o exigem. Viver a fé com autenticidade implica o compromisso com o nosso semelhante e com a transformação do mundo presente. Somos enviados por Jesus para, em Seu nome, inundarmos o mundo das pessoas com o Seu amor, com a Sua Paixão, com o Seu perdão, com a Sua vida.
       Aos discípulos Ele não pedirá menos que não sejam serem promotores do bem. Não lhes dá milagres para realizar, mas dá-lhes uma tarefa concreta, de fazerem como Ele fez.
       «Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e, cheio de compaixão, curou os seus doentes. Ao cair da tarde, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe: 'Este local é deserto e a hora avançada. Manda embora toda esta gente, para que vá às aldeias comprar alimento'. Mas Jesus respondeu-lhes: 'Não precisam de se ir embora; dai-lhes vós de comer'».
       E não vale a pena adiar os problemas e as dificuldades, ou esconder-se. As palavras são também para nós, discípulos deste tempo: "Não precisam de se ir embora; dai-lhes vós de comer". Agora é connosco. Jesus Cristo conta com cada um de nós e com todos nós.


Textos para a Eucaristia (ano A): Is 55,1-3; Rom 8,35.37-39; Mt 14,13-21

terça-feira, 6 de julho de 2010

A seara é grande...

       Jesus percorria todas as cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas, pregando o Evangelho do reino e curando todas as doenças e enfermidades. Ao ver as multidões, encheu-Se de compaixão, porque andavam fatigadas e abatidas, como ovelhas sem pastor. Jesus disse então aos seus discípulos: «A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara» (Mt 9, 32-38).
       A seara é grande... No reino de Deus todos figuram como intervenientes principais. Há lugar para todos. A seara é grande... Deus quer precisar de todos nós. Criou-nos livres, salva-nos na nossa liberdade, no nosso sim. Todos somos chamados. Cabe a cada um responder à chamada, com as palavras e a vida. Cabe a cada um acolher o Seu Espírito Santificador...