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sábado, 9 de fevereiro de 2019

Havia sempre tanta gente a chegar...

       "...os Apóstolos voltaram para junto de Jesus e contaram-Lhe tudo o que tinham feito e ensinado. Então Jesus disse-lhes: «Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco». De facto, havia sempre tanta gente a chegar e a partir que eles nem tinham tempo de comer. Partiram, então, de barco para um lugar isolado, sem mais ninguém. Vendo-os afastar-se, muitos perceberam para onde iam; e, de todas as cidades, acorreram a pé para aquele lugar e chegaram lá primeiro que eles. Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e compadeceu-Se de toda aquela gente, porque eram como ovelhas sem pastor. E começou a ensinar-lhes muitas coisas" (Mc 6, 30-34).
       A liturgia da palavra continua a fornecer-nos textos belíssimos e verdadeiramente significativos.
       No Evangelho acompanhamos o regresso dos Apóstolos, depois do envio, em que se nota expressivamente a delicadeza de Jesus para com eles e para com as multidões que O procuram em toda a parte. Preocupa-se com o descanso dos discípulos. Logo depois compadece-se daquela multidão, a quem ensina muitas coisas. O ensino é parte essencial do ministério de Jesus. Significa também que a multidão não vinha apenas à procura de milagres mas de um sentido para as suas vidas.

sábado, 6 de agosto de 2016

XIX Domingo do Tempo Comum - ano C - 7.agosto.2016

       1 – As palavras de Jesus são para todos. Mas nunca são para os outros. São sempre para nós. Posso recorrer ao ensinamento de Jesus para explicar, para elucidar, para corrigir com caridade, para desafiar, mas em primeiro lugar devo olhar para a minha vida confrontando-a com o que me pede Jesus.
       Quando os discípulos questionam Jesus sobre a salvação dos justos, a resposta não poderia ser mais elucidativa: preocupai-vos por entrar pela porta estreita, porque largos são os caminhos que levam à perdição. O mais é com Deus. Aos homens é impossível, a Deus tudo é possível. A salvação é dom de Deus, que toma a iniciativa. Nunca pode ser usurpação do homem.
       Jesus volta a insistir na necessidade dos bens materiais não serem um obstáculo à felicidade. O que nos salva verdadeiramente é o que podemos levar connosco para a eternidade. Tal como viemos ao mundo, dele sairemos, nus. Não levaremos nada que pese. Levaremos tudo o que liberta, o que nos fez bem, o que nos aproximou dos outros. Levamos as pessoas. Não as coisas.
       Façamos um exercício. Se fôssemos viajar, o que levaríamos? Se se só pudéssemos levar connosco uma ou duas pessoas, quem seguiria connosco? Se estivéssemos a morrer, sabendo disso, o que mudaríamos na nossa vida? Com quem é gostaríamos de falar? Para pedir perdão? Para agradecer? Para nos reconciliarmos? Para deixarmos uma mensagem importante? O que ainda gostaríamos de fazer? Certamente nem todas as respostas seriam iguais, mas possivelmente não se afastariam muito!
       Não esperemos pelo fim para sermos felizes. É um projeto basilar de todas as pessoas, mesmo quando não o reconhecem explicitamente. Outro exercício. Coloquemo-nos como se estivéssemos no fim dos nossos dias. Como gostaríamos de olhar para a nossa vida? Que avaliação faríamos a olhar para trás?
       Outra questão: o que é imprescindível para sermos felizes? Muito dinheiro? Conforto? Saúde? Uma boa casa? Um carro em bom estado? Tudo o que os outros têm e mais algum? Amigos? Uma família harmoniosa? Um bom trabalho? Segurança? Liberdade e participação nas decisões importantes para a vida da nossa vila e do nosso país? Sermos reconhecidos e respeitados por quem somos? Um telemóvel de alta gama? Um diploma? Um curso superior? Escrever um livro? Plantar uma árvore? Aparecer na televisão? Ser aplaudidos pelos outros?
       2 – Jesus desafia os seus discípulos a apostar os trunfos todos no que permanece até à eternidade. O tempo urge. Não há que adiar para a manhã. Para amanhã deixa quê comer não quê fazer. É hoje. Aqui e agora. Viver com tudo o que somos. O melhor de nós em busca do melhor dos outros.
       «Não temas, pequenino rebanho... Vendei o que possuís e dai-o em esmola. Fazei bolsas que não envelheçam, um tesouro inesgotável nos Céus, onde o ladrão não chega nem a traça rói. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração. Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas. Sede como homens que esperam o seu senhor ao voltar do casamento, para lhe abrirem logo a porta, quando chegar e bater. Felizes esses servos, que o senhor, ao chegar, encontrar vigilantes... Estai vós também preparados, porque na hora em que não pensais virá o Filho do homem».
       Pedro, como sempre, toma a dianteira para perguntar a Jesus se aquelas palavras também são para eles. Então Jesus conta-lhes outra parábola sobre o administrador fiel e prudente que o Senhor coloca à frente da sua casa e que será bom se o encontrar vigilante quando regressar e a administrar a sua casa com justiça. Jesus conclui dizendo que «a quem muito foi dado, muito será exigido; a quem muito foi confiado, mais se lhe pedirá».
       Antes de esperarmos que os outros cumpram, seja o que for, importa que nós nos empenhemos na prossecução do bem, no serviço aos outros. Somos administradores, não donos. E como administradores desta casa que é o mundo cabe-nos apresentar ao Senhor os melhores resultados possíveis, ou melhor, o que fizemos a favor dos outros, com que justiça e empenho colocamos na procura de soluções para integrar todos, para ajudar os mais desfavorecidos, para constituirmos uma família para Deus.
       3 – Deus concede a Salomão um desejo. «Pede. Que Eu posso dar-te?» Salomão pede então, não riqueza, não longos anos, nem vitória sobre os inimigos, nem glória: «Concede-me, pois, a sabedoria e o conhecimento, a fim de que eu saiba conduzir este povo». Deus conceder-lhe-á a sabedoria, mas também o quê não ousou pedir (2 Cr 1, 7-12).
       Voltamos às questões anteriores. O que é imprescindível para sermos verdadeiramente felizes e nos realizarmos como pessoas, para vivermos segundo a vontade de Deus? Onde está o nosso tesouro? Que pediríamos a Deus? Onde colocamos o nosso coração?
       Refira-se à partida, relembrando o que líamos e refletíamos no domingo passado, que o mal não são os bens e as riquezas materiais, mas o uso que deles se faz. O mal é a avareza que seca o coração e enferma a vida em abundância. Se o tesouro são as pessoas que Deus colocou à nossa beira, isso implica-nos em todos os esforços para eliminar o mal, o sofrimento, a violência, a pobreza endémica. Lembremo-nos de São Tiago, não se prega a estômagos vazios, não podemos desejar a paz e o bem a alguém que não tem que comer nem com que se agasalhar. A opção pela pobreza em espírito não nos descompromete, pelo contrário, leva-nos a usar o que somos e o que temos em prol dos outros.

       4 – A fé e a esperança guiam-nos para o futuro que Deus nos traz, para vivermos comprometidos no presente, transformando positivamente o mundo em que vivemos. O passado recorda-nos o que fomos, como caminhámos, os pecados que nos fizeram tropeçar, os sonhos que nos fizeram levantar, os projetos que nos puxaram para o hoje.
       Não há trevas que não possam ser iluminadas pela luz da fé, pela esperança em Deus, pela certeza que Deus não nos faltará. A Sabedoria lembra que "a noite em que foram mortos os primogénitos do Egipto foi dada previamente a conhecer aos nossos antepassados, para que, sabendo com certeza a que juramentos tinham dado crédito, ficassem cheios de coragem. Ela foi esperada pelo vosso povo, como salvação dos justos e perdição dos ímpios... os justos seriam solidários nos bens e nos perigos; e começaram a cantar os hinos de seus antepassados". A voz de Deus ecoa do futuro para nos encontrar e nos alentar a viver, lutar e ultrapassar as agruras dos tempos presentes.
       A oração ajuda-nos a confiar em Deus. Nas horas de maior amargura, a presença de Deus agiganta-Se com o Seu amor infinito. "Os olhos do Senhor estão voltados para os que O temem, para os que esperam na sua bondade, para libertar da morte as suas almas e os alimentar no tempo da fome. A nossa alma espera o Senhor, Ele é o nosso amparo e protetor. Venha sobre nós a vossa bondade, porque em Vós esperamos, Senhor".

        5 – Por sua vez a Carta aos Hebreus, recorda-nos a fé de Abraão, o testemunho de confiança, de despojamento, de desprendimento, para seguir o chamamento de Deus, procurando corresponder à vontade de Deus. A fé em algo transforma-se em fé em Alguém, a Quem se segue e de Quem se espera uma vida com sentido. "A fé é a garantia dos bens que se esperam e a certeza das realidades que não se veem. Ela valeu aos antigos um bom testemunho. Pela fé, Abraão obedeceu ao chamamento e partiu para uma terra que viria a receber como herança; e partiu sem saber para onde ia. Pela fé, morou como estrangeiro na terra prometida, habitando em tendas, com Isaac e Jacob, herdeiros, como ele, da mesma promessa, porque esperava a cidade de sólidos fundamentos, cujo arquiteto e construtor é Deus». Prosseguindo o mesmo exemplo, também Sara, sua esposa, os seus descendentes, Isaac e Jacob. De um homem – Abraão – que já esperava a morte sem descendência, Deus concedeu-lhe uma descendência incontável.
       Abraão e os seus descendentes voltam-se para o futuro e para uma pátria que os aguarda. Não para o que deixaram, mas para o que os espera. "Se pensassem na pátria de onde tinham saído, teriam tempo de voltar para lá. Mas eles aspiravam a uma pátria melhor, que era a pátria celeste... Pela fé, Abraão, submetido à prova, ofereceu o seu filho único Isaac, que era o depositário das promessas». Desta forma, conclui a Carta, "Ele considerava que Deus pode ressuscitar os mortos; por isso, numa espécie de prefiguração, ele recuperou o seu filho", assim como Jesus Cristo, Filho unigénito do Pai será recuperado, glorificado, não na vida carnal, mas na ressurreição definitiva, à qual todos somos associados.

Pe. Manuel Gonçalves

Textos para a Eucaristia (C): Sab 18, 6-9; Sl 32 (33); Hebr 11, 1-2. 8-19; Lc 12, 32-48.

sábado, 10 de agosto de 2013

XIX Domingo do Tempo Comum - ano C - 11 de agosto

       1 – “Onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração”.
       Bem pode ser a divisa que nos acompanha na reflexão da palavra de Deus e em toda a nossa vida, como cristãos, comprometidos com Deus e com os irmãos que connosco peregrinam aqui na terra, que é criação de Deus.
       Ressoam em nós, ainda, as palavras de São Paulo aos Colossenses: aspirai às coisas do alto… a nossa vida está escondida com Cristo em Deus. Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às coisas terrenas.
       Em continuação lógica do domingo precedente, Jesus clarifica a opção dos discípulos:
“Fazei bolsas que não envelheçam, um tesouro inesgotável nos Céus, onde o ladrão não chega nem a traça rói. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração. Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas. Sede como homens que esperam o seu senhor ao voltar do casamento, para lhe abrirem logo a porta, quando chegar e bater”.
      Podemos ter o mundo inteiro dentro da nossa carteira, mas esta não nos garante a felicidade, a vida, não nos permite comprar a paz, a amizade, não nos livra da nossa dose de sofrimento, de angústia, não nos resguarda da escuridão, não nos protege da solidão nem da morte. Obviamente que viver dignamente implica bens materiais, mas sem extremismos. A ganância faz-nos mal, obscurece o essencial. Em função de números, de novo, sacrificamos a dignidade humana ao capital, acumulação desmedida, além das necessidades básicas, centrados na riqueza como um fim em si mesmo e não como meio facilitador. Cedo ocuparemos o sonho com muitas coisas e muitas preocupações.
       Na nossa carteira cabem notas, fotos, documentos e até memória, mas não cabem pessoas, sentimentos, o olhar de um rosto, de uma presença amiga, não cabe o toque, o sorriso, um aperto de mão, a força de um abraço, um beijo, o carinho de um afago, não cabe a gratuidade. Com a carteira recheada, como o filho mais velho da parábola, poderemos até comprar companhia, mas só disfarçará a solidão, sem preencher o coração. Só a gratuidade, a espontaneidade nos dignificam e nos elevam.
       2 – “Onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração”.
       Desengane-se, porém, quem interpreta as palavras de Jesus como renúncia aos bens materiais e como defesa da indigência das pessoas. Pelo contrário, o desafio a fazer bolsas, carteiras, que não envelheçam, é um forte apelo à partilha solidária, a tratar o próximo com delicadeza, e sobretudo os mais pobres. Aquilo que fizerdes aos meus irmãos mais pequeninos é a Mim que o fazeis. Dai-lhes vós de comer. Como Eu fiz fazei vós também. O primeiro mandamento: amar a Deus. O segundo decorre do primeiro: amar o próximo como a si mesmo.
       Continuemos a escutar as palavras do Senhor:
«Felizes esses servos, que o senhor, ao chegar, encontrar vigilantes. Em verdade vos digo: cingir-se-á e mandará que se sentem à mesa e, passando diante deles, os servirá. Se vier à meia-noite ou de madrugada, felizes serão se assim os encontrar. Compreendei isto: se o dono da casa soubesse a que hora viria o ladrão, não o deixaria arrombar a sua casa. Estai vós também preparados, porque na hora em que não pensais virá o Filho do homem».
       O administrador vigilante é aquele que não usurpa o lugar do seu senhor, mas mesmo na sua ausência, cuida dos dons, da riqueza, da casa. Assim nós também, como administradores a quem Deus confia a Sua casa, a terra, deveremos estar vigilantes, procurando que os dons que nos dá sejam valorizados, multiplicados, e não ciosamente guardados para cada um de nós. Quando Ele vier pedir-nos-á contas do nosso serviço, da nossa bondade, da generosidade com que gerimos o Seu património, e o Seu património, as bolsas que não se rompem, passa pela caridade, pela partilha, pela solidariedade, pelo cuidado dos mais frágeis, atenção aos que estão mais longe da dignidade humana.
       O nosso amor maior é Deus. O amor maior de Deus é a humanidade. Se amamos a Deus de todo o coração, cada membro da humanidade há de ser interlocutor do nosso amor, serviço e dedicação.

       3 – “Onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração”.
       Quantas vezes nos sentimos divididos, entre tantos amores, tantas coisas para fazer, tantas atividades em que nos ocuparmos? Quando os tesouros são variados, e são muitos os amores, dá-se a fragmentação do coração, não sabemos para onde nos voltarmos.
       Na epístola aos Efésios, São Paulo fala-nos no mistério de amor de Jesus Cristo pela Igreja, por quem oferece a Sua vida. Não são vários amores, mas um AMOR maior e único. E num amor tão grande cabe a Igreja toda e a humanidade inteira.
       Se tivermos vários amores, será difícil AMAR bem e quem não ama bem acabará por não perceber o que é amar. Também aqui a vigilância é AMAR bem, um amor ÚNICO, e o nosso amor único é DEUS. Só pode ser Deus, só pode ser Jesus Cristo.
       Se o nosso tesouro forem os bens materiais, tornámo-nos idólatras, e perderemos a grandeza que nos vai no coração, desviar-nos-emos da nossa filiação divina. Se o nosso coração estiver colocado nesta ou naquela pessoa, poderemos sentir-nos compensados e uma vez que a vida já terá algum sentido, pois tem a companhia de um rosto, de uma pessoa, de um igual a nós. Porém, ninguém nos acompanha até ao final, ou nós não temos o poder de acompanhar o outro até ao final. Será importante concretizar o amor de Deus, na companhia humana, mas a espera no outro, na mesma fragilidade humana, não absorve uma certa ansiedade e temor de que alguém falhe. E sempre o horizonte da finitude, a nossa e a dos outros. Só em Deus a nossa inquietude encontra descanso pleno. A horizontalidade temporal limita a nossa sede de infinito, encerra-nos a meio do caminho.
        É preciso que o nosso tesouro seja Deus e que o nosso coração esteja em Deus. Esta é a garantia que a nossa vida não será em vão, que o nosso amor aos outros, no caminho com os outros, não será instrumentalizado. Só um AMOR maior, definitivo, aberto até à eternidade nos garante a salvação para lá do sofrimento e da morte.

       4 – “Onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração”.
       Os nossos pais colocaram em Deus a Sua confiança e pela fé souberam caminhar, como povo, em direção à eternidade.
“A noite em que foram mortos os primogénitos do Egipto foi dada previamente a conhecer aos nossos antepassados, para que, sabendo com certeza a que juramentos tinham dado crédito, ficassem cheios de coragem. Ela foi esperada pelo vosso povo, como salvação dos justos e perdição dos ímpios... que os justos seriam solidários nos bens e nos perigos”.
       Na mesma sintonia do livro de Sabedoria, as sábias palavras da Epístola aos Hebreus:
“A fé é a garantia dos bens que se esperam e a certeza das realidades que não se veem. Ela valeu aos antigos um bom testemunho. Pela fé, Abraão obedeceu ao chamamento e partiu para uma terra que viria a receber como herança; e partiu sem saber para onde ia. Pela fé, morou como estrangeiro na terra prometida, habitando em tendas, com Isaac e Jacob, herdeiros, como ele, da mesma promessa, porque esperava a cidade de sólidos fundamentos, cujo arquiteto e construtor é Deus... É por isso também que de um só homem – um homem que a morte já espreitava – nasceram descendentes tão numerosos como as estrelas do céu e como a areia que há na praia do mar... Pela fé, Abraão, submetido à prova, ofereceu o seu filho único Isaac, que era o depositário das promessas, como lhe tinha sido dito: «Por Isaac será assegurada a tua descendência». Ele considerava que Deus pode ressuscitar os mortos; por isso, numa espécie de prefiguração, ele recuperou o seu filho”.
       A fé nas realidades futuras, no futuro de Deus, leva o povo ao compromisso com o presente.
       Por isso, e com o salmista, rezamos: “Feliz a nação que tem o Senhor por seu Deus, o povo que Ele escolheu para sua herança”, para que também nós tenhamos o Senhor por Deus, como nosso tesouro, n’Ele coloquemos o nosso coração, deixando-nos atrair pelo Seu olhar de misericórdia.
       Enquanto é tempo, trabalhemos pela instauração do Reino de Deus, promovendo os dons que Ele nos dá, na partilha fraterna, na proximidade com os mais frágeis dos frágeis.

Textos para a Eucaristia (ano C): 
Sab 18, 6-9; Sl 32 (33); Hebr 11, 1-2.8-19; Lc 12, 32-48.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Domingo IV do Advento - ano C - 23 de dezembro

       1 – Em vésperas de Natal, celebração festiva do nascimento de Jesus, a Palavra de Deus coloca-nos mais perto do grande milagre da Encarnação: Deus vem em Pessoa para o meio de nós.
       O profeta Miqueias, mesmo não tendo noção do alcance das suas palavras, diz-nos claramente que está para chegar o Messias e que virá como pastor para apascentar todo o Israel:
Eis o que diz o Senhor: «De ti, Belém-Efratá, pequena entre as cidades de Judá, de ti sairá aquele que há de reinar sobre Israel. As suas origens remontam aos tempos de outrora, aos dias mais antigos. Por isso Deus os abandonará até à altura em que der à luz aquela que há de ser mãe. Então voltará para os filhos de Israel o resto dos seus irmãos. Ele se levantará para apascentar o seu rebanho pelo poder do Senhor, pelo nome glorioso do Senhor, seu Deus. Viver-se-á em segurança, porque ele será exaltado até aos confins da terra. Ele será a paz».
       Miqueias nomeia a cidade onde nascerá Aquele que vem para reinar, um lugar discreto, pobre, pequeno; perspetiva a Sua missão, virá para ajuntar os filhos dispersos de Israel; antecipa o ambiente que chegará com o Seu pastoreio, com a Sua realeza: segurança e paz. Entenda-se, desde já, que esta paz radicará na nossa identificação a Jesus Cristo, e não num determinado de pacifismo descomprometedor. Como o próprio Jesus dirá, a paz pode implicar luta, perseguição, contrariedades a favor da verdade, do bem e do serviço ao próximo.
       2 – Da promessa visível em Miqueias avançamos para a oração que se faz súplica no Salmo responsorial: “Deus dos Exércitos, vinde de novo, olhai dos céus e vede, visitai esta vinha; protegei a cepa que a vossa mão direita plantou, o rebento que fortalecestes para Vós. Estendei a mão sobre o homem que escolhestes, sobre o filho do homem que para Vós criastes”.
       Esta prece revela uma grande fé em Deus. Apesar dos tempos adversos, o crente confia na benevolência de Deus. Desde logo a experiência do passado, que garante o amor, a fidelidade e a presença de Deus. Foi Deus que criou, que plantou, que cuidou, que fortaleceu. A história da fragilidade gerou conflitos, afastamento, convulsões sociais, políticas e religiosas, dispersão, descaracterização do povo eleito.
       É possível voltar. O pedido a Deus é, sobretudo, um desafio aos membros do povo eleito. Tornou-se para nós um grito. Deus vem. Deus desce. Deus planta, cuida, fortalece-nos. Como reagimos? Estamos disponíveis para O acolher, para O reconhecer nos irmãos, para O descobrir no nosso mundo? Em que medida estamos dispostos a alterar o nosso coração, a nossa vida, para nos tornarmos vinha cultivável e fértil?
       3 – São Lucas narra a Visitação de Nossa Senhora à sua prima Santa Isabel. Na anunciação Maria toma conhecimento que Isabel, apesar da idade avançada, foi abençoada por Deus e encontra-se grávida. Que fazer com esta informação? Eis a resposta:
“Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se apressadamente para a montanha, em direção a uma cidade de Judá. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino exultou-lhe no seio. Isabel ficou cheia do Espírito Santo e exclamou em alta voz: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor? Na verdade, logo que chegou aos meus ouvidos a voz da tua saudação, o menino exultou de alegria no meu seio. Bem-aventurada aquela que acreditou no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor».
       Registe-se a precisão de Lucas ao relatar a Visitação, deixando-nos alguns dados, mais que curiosos, significativos. Pressa de Nossa Senhora em auxiliar Isabel. Há momentos que as palavras devem imediatamente dar lugar a gestos concretos. Quantas situações em que temos toda a informação, mas não vamos além disso?!
       Encontro, no seio materno, de João Batista e de Jesus. Ambos gerados por ação de Deus, envolvidos no mistério divino, ainda que a missão e as circunstâncias sejam distintas. A alegria, como víamos no domingo passado, é uma característica fundamental no nosso encontro com Jesus Salvador. Como nos sentimos por nos sabermos salvos por Jesus? É diferente a nossa vida por termos Jesus na nossa vida?
       Papel preponderante de Maria na vida de Jesus, e futuramente na comunidade cristã. Ela é a eleita do Senhor, a cheia de Graça, escolhida para ser a Mãe do Filho do Altíssimo. É bem-aventurada porque acreditou em tudo o que o Senhor lhe comunicou. Isabel deixou-se contagiar com a PRESENÇA de Deus em Maria. E nós, cristãos, de que forma nos deixamos contagiar por Jesus, pela Sua palavra, pelos seus sacramentos, pelas pessoas que Ele coloca ao nosso lado?
       4 – Com a chegada de Jesus Cristo, o culto antigo dá lugar a um culto novo, centrado na pessoa, no coração, nos sentimentos e afetos, na postura de cada um na inserção à comunidade crente. Os ritos têm a sua importância, como identificação e referência ao povo, à cultura, à história, em que nos inserimos e a que pertencemos. Muitas vezes, porém, acontece que a pessoa tem de se submeter a costumes e tradições ultrapassadas, sem ligação à vida concreta.
       Ao nível religioso sucede o mesmo, introduzem-se elementos que têm sentido numa determinada comunidade, e numa época específica, e com o tempo perdem o seu propósito mobilizador e por vezes mantêm-se apenas por birrice e por receio de mudança, ou para garantir o estatuto a alguns membros da comunidade.
“Ao entrar no mundo, Cristo disse: «Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas formaste-Me um corpo. Não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado. Então Eu disse: ‘Eis-Me aqui; no livro sagrado está escrito a meu respeito: Eu venho, ó Deus, para fazer a tua vontade’»... aboliu o primeiro culto para estabelecer o segundo. É em virtude dessa vontade que nós fomos santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita de uma vez para sempre”.
       A Epístola aos Hebreus mostra desta forma a prevalência da pessoa sobre a lei. Cristo vai à frente. Ele vem para fazer a vontade de Deus. Encarna para viver, para humanizar, para nos fazer descobrir a nossa pertença a Deus. Ele oferece-Se por nós e para nossa salvação. Maria, como víamos, intui esta prevalência. Exemplifica como fazer: pressa em servir. 


Textos para a Eucaristia (ano C): Miq 5, 1-4a; Sl 79 (80); Hebr 10, 5-10; Lc 1, 39-45.

sábado, 3 de novembro de 2012

XXXI Domingo do Tempo Comum - ano B - 4 de novembro

       1 – Jesus é um extraordinário ACONTECIMENTO na vida do mundo, um DOM na história da humanidade. Cada gesto, palavra, cada encontro, cada olhar, o sorriso, a delicadeza, o acolhimento, são expressão sublime do AMOR que Jesus nos vem trazer. Ele não anuncia um código de valores, regras para uma conduta regrada, um conjunto de obrigações, delimitando os direitos e os deveres e a linha divisória entre o bem e o mal, o aceitável e o condenável. A Sua vida é sobretudo acontecimento, sinal, presença, vida nova, proximidade, e não tanto discurso, texto, exigência.
       Para Jesus não há balizas para meninos bem comportados que serão compensados por andarem sempre na linha e para meninos mal comportados que por isso serão castigados e já agora ameaçados. Aliás, este maniqueísmo não é de todo possível. Há matizes diversas como o são as vidas de cada pessoa. Não há caminhos iguais. A identidade de cada pessoa acompanha-a pela vida fora. A aproximação ao CAMINHO de Jesus faz-se aceitando o colorido de experiências pessoais, familiares, comunitárias. Ninguém, de forma definitiva e absoluta, poderá considerar-se como ser acabado, perfeito, impecável, sem margem para o erro nem para o aperfeiçoamento. Estamos no Caminho, e a caminho. Estamos sujeitos às vicissitudes do tempo, da história, do nosso temperamento, das circunstâncias que nos envolvem. Sem pessimismos. Sem derrotas antecipadas. Sem vanglória. Somos todos discípulos de Jesus.
       Todos são chamados. Ele vem para todos. Vem com a força e o fogo do amor. Sem preconceitos. Como víamos, ainda no domingo passado, quando é necessário Ele deixa tudo, o caminho e a oração, o descanso e a pregação, para desafiar, para acolher, para perdoar, para curar, para que alguém à margem entre no Seu caminho e Lhe alcance o passo. Deus é Amor. E é Amigo. Jesus não nos mostra senão o amor de Deus e a Sua paixão pela humanidade inteira.
       Ao longo da Sua vida pública não se detém a discutir os pormenores da Lei, ou os preceitos mosaicos que autorizam e sancionam os que são dignos e puros perante a religião. Detém-se diante de pessoas, de carne e osso. Cada pessoa vale. Vale muito. Vale tudo. Ele deixa tudo por cada pessoa excluída, abandonada à sua sorte, a viver na escuridão e marginalizada na sociedade e no templo. Por mais inspirada que seja a Lei nada pode afastar as pessoas do bem, da vida, da alegria, de Deus. Como se vê, Ele não diaboliza a LEI, mas purifica-a pelo perdão e pelo AMOR. A caridade é o fundo, o fundamento, a seiva de todas as leis.

       2 – Quando um doutor da Lei se aproxima de Jesus e Lhe pergunta sobre o maior dos mandamentos, a resposta, que ambos conhecem, está explícita na Sagrada Escritura: «O primeiro é este: ‘Escuta, Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças’. O segundo é este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Não há nenhum mandamento maior que estes».
      Sabemos a formulação e o resumo dos mandamentos: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Os seguidores de Jesus Cristo não precisam de mais leis. Têm o que é preciso: colocar Deus antes e acima de tudo e de todos. A adoração a Deus supõe e implica o amor ao semelhante. Jesus acrescenta o segundo mandamento de imediato para que não haja dúvidas. O amor ao próximo é decorrente do amor a Deus. Se, por mera hipótese, houvesse amor a Deus sem amor ao próximo, seria uma neurose intelectual/espiritual, uma mentira. O inverso deixaria margem para a instrumentalização das pessoas.
      Como nos mostra o evangelista Marcos, nestes últimos domingos, o serviço ao outro, o amor sem limites, a inclusão dos excluídos, é a melhor forma, a única, de amar a Deus. Quem quiser seguir Jesus faça como Ele: ame. Ame sempre. Ame mais. Ame sem parar. Ame cada pessoa. Servindo a todos. Vivendo para amar e para servir.
      Depois de perguntar, o escriba responde, sancionando com alegria as palavras de Jesus: «Muito bem, Mestre! Tens razão quando dizes: Deus é único e não há outro além d’Ele. Amá-l’O com todo o coração, com toda a inteligência e com todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, vale mais do que todos os holocaustos e sacrifícios».
      Jesus não fala do alto de uma tribuna, sentado, expondo. Ele caminha. Percorre a vida e os caminhos da Judeia, da Galileia, da Samaria, vai às margens de Israel, encontra estranhos e estrangeiros, mulheres e publicanos, doentes e leprosos, crianças e pecadores públicos. Não desvia o olhar de ninguém. Procura à volta, traz para a luz os que vivem nas trevas da solidão, da pobreza, da doença, do pecado. Para Jesus, cada pessoa vale. Vale muito. Vale tudo. Uma multidão que O acompanha não abafa a voz de um. Uma multidão não esconde um coração despedaçado. Ele ouve, Ele sente, Ele olha. Ele cura. Como Ele assim também há de ser a nossa envolvência com cada pessoa que Deus coloca à nossa beira.
      3 – Curiosa a pergunta do escriba, quando se aceita sem discussões ou nuances que o primeiro mandamento é o que coloca Deus em primeiro lugar, tendo-se tornado oração para todos os judeus. Ao logo do tempo, porém, a lei foi sendo adaptada, aumentada, complicada, dando-se uma inexplicável multiplicação de normas, preceitos, que complicam a compreensão da mesma e sobretudo a vivência séria para as pessoas mais simples e cumpridoras.
        As leis, ontem como hoje, têm de servir as pessoas, a sua dignidade, a aproximação entre uns e outros, a inclusão, a justiça, a verdade. Para as pessoas do povo, as leis têm de ser claras, diretas, sem subterfúgios. Para os entendidos, a complexidade das leis serve para iludir os demais e para justificar as exceções, o não cumprimento das mesmas.
       Jesus não é um fazedor de leis, mas um curador de corações, um vendedor de sonhos. Não dita ensinamentos, mas comunica a experiência de proximidade a Deus, ensina com a vida, a amar, a perdoar, a acolher, a dar, a reconhecer nos outros a presença de Deus.
       Para quem vive de Deus e para Deus, o amor ao seu próximo torna-se consequência lógica, inevitável, ainda que entre os entendidos haja discussões sobre quem é o próximo, o que é da minha religião, o que vive perto de mim, o que me ajuda, o da minha classe social e política, o que professa a minha maneira de ver e viver a vida? A resposta de Jesus é conclusiva, próximo é toda a pessoa de quem me aproximo, toda a pessoa que encontro pela frente, pois cada pessoa é presença do Deus altíssimo, a Quem amo em primeiro lugar. Amo a Deus, amando os que Ele me dá para amar. Amo a Deus fazendo a Sua vontade, como quando amo alguém e procuro tudo fazer para lhe ser agradável. E qual a vontade de Deus? Que todos sejam felizes, tenham vida e vida em abundância.

       4 – A epístola aos Hebreus, como em domingos anteriores, mostra-nos a originalidade do sacerdócio de Jesus Cristo, como paradigma e como desafio ao nosso compromisso sacerdotal. Em Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, o Céu desce à terra e da terra, Jesus eleva o homem até à eternidade. Jesus é mediador da Graça de Deus. Santifica-nos. Dá a Sua pela nossa vida.
       N'Ele o AMOR de Deus é-nos revelado em plenitude. Já não vivemos nas trevas, ou enublados pela dúvida, pela incerteza, Jesus é o ROSTO e a PRESENÇA de Deus no mundo, ontem como hoje e para sempre.
“Tal era, na verdade, o sumo-sacerdote que nos convinha: santo, inocente, sem mancha, separado dos pecadores e elevado acima dos céus, que não tem necessidade, como os sumos-sacerdotes, de oferecer cada dia sacrifícios, primeiro pelos seus próprios pecados, depois pelos pecados do povo, porque o fez de uma vez para sempre quando Se ofereceu a Si mesmo. A Lei constitui sumos-sacerdotes homens revestidos de fraqueza, mas a palavra do juramento, posterior à Lei, estabeleceu o Filho sumo-sacerdote perfeito para sempre”.
A plenitude da Lei de Moisés transforma-Se pela força do amor, pela entrega de Jesus a favor da humanidade inteira. Ele Encarna, assume a nossa humanidade, a nossa finitude. Ama-nos como somos. Ensina-nos a amarmo-nos como irmãos, porque primeiro Ele nos amou e Se entregou por nós.


Textos para a Eucaristia (ano B): Deut 6, 2-6; Hebr 7, 23-28; Mc 12, 28b-34.

sábado, 13 de outubro de 2012

XXVIII Domingo do Tempo Comum - ano B - 14 de outubro

       1 – Um homem correu ao encontro de Jesus, ajoelhou diante d’Ele e perguntou- Lhe: «Bom Mestre, que hei de fazer para alcançar a vida eterna?» A atitude deste homem é delicada e de grande expetativa. Vem a correr. Ofegante. A primeira coisa que faz é colocar-se de joelhos diante de Jesus, reconhecendo-O como Mestre justo e bom. A primeira atitude diante de Deus é de reverência, para em Deus tratarmos a todos como iguais, como irmãos.
       Rico de muitos bens materiais, como vemos mais à frente, é um homem em correrias, ansioso, insatisfeito, à procura de um sentido maior para a sua vida e que justifique os seus dias. “O Homem ultrapassa infinitamente o homem”, como salienta o filósofo francês Blaise Pascal, o homem não cabe em si mesmo, tende a buscar-se até ao infinito, constitutivamente limitado e finito, mas procurando sobreviver para lá do tempo e da materialidade, além das fronteiras do seu corpo e do seu espírito.
       Ouve falar de um homem que tem palavras de vida eterna, e procura serenar e confiar a sua busca, junto de Alguém que lhe merece o benefício da dúvida. Faz-nos evocar as sábias palavras de Santo Agostinho, “Senhor, criastes-nos para Vós, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em Vós”.
       A resposta de Jesus não visa agradar ou convir ao seu interlocutor, mas desafiar, propondo um projeto de vida viável e exequível: “Tu sabes os mandamentos: Não mates; não cometas adultério; não roubes; não levantes falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe”.
       Mas cumprir a lei não liberta e não salva. Mesmo que escrupulosamente se cumpra. A lei é uma orientação para vivermos harmoniosamente em sociedade. Não basta. É necessário que a lei seja vida, que brote da convicção, e que corresponda a um compromisso alegre com os outros. O homem disse a Jesus: «Mestre, tudo isso tenho eu cumprido desde a juventude».        Num segundo momento, e vendo que a lei era um fardo para aquele homem, ainda que ele a cumprisse, Jesus, olha para ele com simpatia, e lança um desafio maior: «Falta-te uma coisa: vai vender o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me». Ouvindo estas palavras, anuviou-se-lhe o semblante e retirou-se pesaroso, porque era muito rico.
       2 – O seguimento de Jesus é uma proposta de salvação que revoluciona a nossa vida. Como constatámos nos domingos anteriores, seguir Jesus implica-nos, não é uma adesão exterior, como camisa que se troca a qualquer momento, é a vida toda, um jeito de viver, de amar, de se relacionar com os outros. Ele entranha-Se em nós, somos transformados não pela rama, como crosta que se desprende passado algum tempo, mas em todas as veias, é seiva que circula, vida nova, sangue que nos liga a Jesus, totalmente, para a vida toda.
       Garantida está a Sua presença, o Seu olhar, o Seu espírito de Amor, e a vida eterna. Garantida está uma vida de serviço aos outros. O maior para Jesus, o maior no reino de Deus, é o que se faz menor, o que serve os demais, como Ele que veio para servir e não para ser servido. Ou nas palavras de Santo Agostinho, “quem não vive para servir, não serve para viver”.        A disputa dos discípulos por lugares há de dar lugar à disputa pela caridade. Não devais nada uns aos outros, senão a caridade (São Paulo). Para seguir Jesus não pode haver nada que nos impeça de nos fazermos próximos uns dos outros. O homem do evangelho queria ser útil aos demais, dar um rumo novo à sua vida, preenchida com o esqueleto da Lei, dos Mandamentos, mas faltando-lhe a carne, o espírito, a alegria, um sentido de plenitude, como flor que para o ser precisa de desabrochar, mostrando a sua beleza.
       Falta alguma coisa. Ainda não está preparado para dar o salto, ainda há demasiadas coisas, demasiados bens, que o impedem de se dar aos outros e de seguir Jesus, ainda não está disposto a pegar na Sua cruz, renunciando a todo o tipo de egoísmo, ainda vive como a borboleta cómoda no seu casulo, com medo de arriscar. Seria o ponto de viragem, da comodidade da sua casa (plano material) para se tornar casa para os outros (plano espiritual e afetivo).

3 – A resposta de Jesus é também para os discípulos, de ontem e de hoje, a quem alerta com veemência: «Meus filhos, como é difícil entrar no reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus».
       Uma vez mais dá-se um nó na cabeça dos discípulos, continuam a magicar qual deles tirará mais dividendos do facto de seguir o Mestre e procuram saber mais, tirando tudo a limpo: «Quem pode então salvar-se?». Fitando neles os olhos, Jesus respondeu: «Aos homens é impossível, mas não a Deus, porque a Deus tudo é possível». Pedro insiste, apresentando créditos – «Vê como nós deixámos tudo para Te seguir» – que Jesus valoriza: «Em verdade vos digo: Todo aquele que tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou terras, por minha causa e por causa do Evangelho, receberá cem vezes mais, já neste mundo, em casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras, juntamente com perseguições, e, no mundo futuro, a vida eterna».
       A salvação é dom gratuito, que cabe acolher, viver, aqui e agora, até à eternidade. Iniciámos no tempo presente, o que havemos de ser no encontro definitivo com Deus. Muitas coisas e muitas situações se entrepõem entre nós e Deus: dúvidas, distanciamentos, trabalho e falta dele, doenças, solidão, conflitos familiares e/ou profissionais, deceções, falta de tempo.
       O que se entrepõe entre nós e Deus também se entrepõe entre nós e o próximo. Exatamente o que aconteceu ao bem-intencionado que se dirige a Jesus para o interpelar sobre a vida eterna. Ele queria algo mais da sua vida. Jesus propõe-lhe o seguimento e serviço aos outros. Ele pensava que haveria alguma forma mágica que o salvasse do cinismo (ram-ram) da sua existência, dando-lhe um sentido novo mas sem comprometer a sua vida por inteiro, uma vestimenta que pudesse usar por cima, vestir e despir conforme a disposição, sem alterar nada da vida que tinha.

         4 – O destino do ser humano é ser feliz. É para isso que Deus nos criou. É para isso que andamos por cá. A pergunta feita a Jesus tem a ver precisamente com esta busca incessante: o que devo fazer para ser feliz, agora e no futuro? A vida eterna é o fim último que se inicia no tempo presente. A felicidade não é uma meta, mas um caminho, com muitas etapas e muitas estações, com paragens, com avanços e, por vezes, recuos.
       Em Jesus Cristo a meta está iluminada, está ao nosso alcance, já a podemos experimentar no compromisso quotidiano com os outros. Daí a importância de escutar e mastigar a palavra de Deus, que “é viva e eficaz… é capaz de discernir os pensamentos e intenções do coração… tudo está patente e descoberto a seus olhos. É a ela que devemos prestar contas”.        Não precisamos de pedir muitas coisas a Deus, peçamos o discernimento, a sabedoria, para calcorrear um chão que nos ligue aos outros. “Orei e foi-me dada a prudência; implorei e veio a mim o espírito de sabedoria. Preferi-a aos cetros e aos tronos e, em sua comparação, considerei a riqueza como nada. Não a equiparei à pedra mais preciosa, pois todo o ouro, à vista dela, não passa de um pouco de areia e, comparada com ela, a prata é considerada como lodo. Amei-a mais do que a saúde e a beleza e decidi tê-la como luz, porque o seu brilho jamais se extingue. Com ela me vieram todos os bens e, pelas suas mãos, riquezas inumeráveis”.
       Se nos ligamos aos outros, em atitude de serviço, neles encontraremos a Deus, a Quem buscamos no mais íntimo de nós mesmos.

Textos para a Eucaristia (ano B): Sab 7, 7-11; Hebr 4, 12-13; Mc 10, 17-30.
 

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Aquele que fez a promessa é fiel

       Tendo nós plena confiança de entrar no santuário por meio do sangue de Jesus, por este caminho novo e vivo que Ele nos inaugurou através do véu, isto é, o caminho da sua carne, e tendo tão grande sacerdote à frente da casa de Deus, aproximemo-nos de coração sincero, na plenitude da fé, tendo o coração purificado da má consciência e o corpo lavado na água pura. Conservemos firmemente a esperança que professamos, pois Aquele que fez a promessa é fiel. Velemos uns pelos outros, para nos estimularmos à caridade e às boas obras, sem abandonarmos a nossa assembleia, como é costume de alguns, mas exortando-nos mutuamente, tanto mais quanto vedes que se aproxima o dia do Senhor (Hebr 10, 19-25).

       A Epístola aos Hebreus que temos vindo a escutar nestas três últimas semanas (primeiras do Tempo Comum) é verdadeiramente inspiradora, envolvendo-nos na confiança em Deus, que é Pai e que nos dá por Salvador o Seu Filho, Jesus Cristo, que Se torna para nós o verdadeiro e sumo Sacerdote, o sacerdote que nos convinha, sem mácula nem pecado, que de uma vez para sempre morre pelos nossos pecados.
       Sabendo que sacerdote temos à frente da Casa do Senhor - Jesus Cristo - vivamos confiantes e conduzamos outros à presença do Senhor, com a nossa fé e com a prática de boas obras. Ajudemo-nos mutuamente na caridade.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Deus não é injusto!

       Deus não é injusto. Ele não pode esquecer o vosso trabalho e o amor que mostrastes pelo seu nome, colocando-vos ao serviço dos santos, no passado e no presente. Desejamos, porém, que cada um de vós mostre o mesmo zelo, mantendo intacta a sua esperança até ao fim, de modo que não vos torneis tíbios, mas imiteis aqueles que, pela fé e pela esperança, se tornam herdeiros dos bens prometidos (Hebr 6, 10-20).

       Deus não esquece aqueles que cria por amor.
       O autor da Epístola aos Hebreus, sublinha a fidelidade de Deus, mas também o trabalho e o amor das comunidades cristãs. No entanto, alerta para que os crentes não caiam na rotina, deixando de se alegrar na esperança de Deus.
       É um alerta para todos os cristãos. Não nos acontecerá por vezes que façamos as coisas tão rotineiramente que não nos deixemos tocar pelas palavras de Deus? Até somos praticantes, mas deixamos-nos provocar, surpreeender pela fé, pelas celebrações, pela palavra de Deus? Entusiasmamo-nos com o amor que Deus nos devota? E na vida quotidiana, experimentamos a presença de Deus? Testemunhamo-l'O nas nossas escolhas?

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações

       Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não endureçais os vossos corações, como no tempo da provação, no dia da tentação no deserto, onde vossos pais Me tentaram e provocaram, apesar de terem visto as minhas obras...
       Tende cuidado, irmãos, que nenhum de vós tenha um coração mau e incrédulo, que o afaste do Deus vivo. Exortai-vos uns aos outros todos os dias, enquanto dura o tempo que se chama ‘hoje’, para que nenhum de vós se endureça, seduzido pelo pecado. Porque todos nós nos tornamos participantes de Cristo, desde que mantenhamos firme até ao fim a confiança inicial (Heb 3, 7-14).

       O passado, a história, pode ser de uma grande ajuda, pois nos ajuda a valorizar o que de bom nos legaram os antigos e a corrigir os desvios e os erros dos antepassados, dando mais qualidade à nossa vida actual. A nossa existência define-se no "hoje" das nossas escolhas, das nossas opções, das nossas obras.
       A voz do Senhor é um alerta. No passado, quando o povo fechou os ouvidos e deixou de escutar a voz de Deus, transviou-se no pecado, na morte, na destruição. Agora temos a oportunidade de decidir com Deus, seguindo a Sua palavra, escutando a Sua voz, cumprindo a vida que Ele nos dá em abundância.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Veio em auxilio dos descendentes de Abraão

       Uma vez que os filhos dos homens têm o mesmo sangue e a mesma carne, também Jesus participou igualmente da mesma natureza, para destruir, pela sua morte, aquele que tinha poder sobre a morte, isto é, o diabo, e libertar aqueles que estavam a vida inteira sujeitos à servidão, pelo temor da morte. Porque Ele não veio em auxílio dos Anjos, mas dos descendentes de Abraão. Por isso devia tornar-Se semelhante em tudo aos seus irmãos, para ser um sumo sacerdote misericordioso e fiel no serviço de Deus, e assim expiar os pecados do povo. De facto, porque Ele próprio foi provado pelo sofrimento, pode socorrer aqueles que sofrem provação ( Hebr 2, 14-18).

       A Espístola aos Hebreus, nesta passagem, faz-nos lembrar o início da Epístola de São Paulo aos Filipenses, lembrando-nos, uma e outra, a filiação divina de Jesus, que não se vale da Su omnipotência, mas identifica-Se em tudo com o ser humano.
       Ele é da mesma carne e do mesmo sangue dos homens, Não veio em auxílio de anjos, mas das pessoas, de carne e osso.
       Torna-se semelhante em tudo, para nos libertar do poder do pecado e da morte, como o Sumo-sacerdote que nos conduz a Deus.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Não Se envergonha de nos chamar irmãos

       Convinha, na verdade, que Deus, origem e fim de todas as coisas, querendo conduzir muitos filhos para a sua glória, levasse à glória perfeita, pelo sofrimento, o Autor da salvação. Pois Aquele que santifica e os que são santificados procedem todos de um só. Por isso não Se envergonha de lhes chamar irmãos, ao dizer: «Anunciarei o teu nome aos meus irmãos, no meio da assembleia cantarei os teus louvores (Hebr 2, 5-12).

       Iniciámos, ontem, a leitura da Epístola aos Hebreus.
       A Epístola aos Hebreus fala-nos de Jesus como o sacerdote por excelência, Aquele que foi estabelecido para nos elevar à grandeza de Deus. Hoje, como escutamos, o autor sagrado fala-nos do Autor da Salvação, Jesus Cristo, que foi provado pelo sofrimento. Ele vem para nos libertar de todo o mal, de todo o sofrimento, a partir de dentro. Ele não sofre, vendo a partir de fora, mas embrenhando-se na hsitória e no tempo, passando pelas fragilidades humanas...