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terça-feira, 24 de abril de 2018

As minhas ovelhas escutam a minha voz

A liturgia da Palavra deste dia faz-nos perceber a proximidade de Jesus, como Bom Pastor, que acompanha o seu rebanho em todas as circunstâncias, também na perseguição.
Celebrava-se em Jerusalém a festa da Dedicação do templo. Era inverno e Jesus passeava no templo, sob o Pórtico de Salomão. Então os judeus rodearam-n’O e disseram: «Até quando nos vais trazer em suspenso? Se és o Messias, diz- nos claramente». Jesus respondeu-lhes: «Já vo-lo disse, mas não acreditais. As obras que Eu faço em nome de meu Pai dão testemunho de Mim. Mas vós não acreditais, porque não sois das minhas ovelhas. As minhas ovelhas escutam a minha voz: Eu conheço as minhas ovelhas e elas seguem-Me. Eu dou-lhes a vida eterna e nunca hão-de perecer, ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que Mas deu, é maior do que todos e ninguém pode arrebatar nada da mão do Pai. Eu e o Pai somos um só» (Jo 10, 22-30).

       Poderíamos considerar esta a semana do BOM PASTOR. O 4.º Domingo da Páscoa, Dia Mundial de Oração pelas Vocações, é o conhecido como Domingo do Bom Pastor, mas que se estende pela semana fora, mormente na proposta do Evangelho em que se aprofunda a temática de Jesus como Bom Pastor, como a Porta do aprisco pela qual entram as ovelhas.
       As palavras de Jesus revelam o amor e o cuidado de Deus por cada um de nós. Eu conheço as minhas ovelhas, e elas conhecem-me. Dou-lhes a vida eterna. Venho para que tenham vida e vida em abundância. Para que nenhuma se perca. Eu e o Pai somos UM. Que haja um só rebanho e um só pastor. Unidade e comunhão. Vida nova. Vida com qualidade. São expressões que deixam transparecer a proximidade de Deus através de Jesus Cristo.

Na primeira leitura, dos Atos dos Apóstolos, acompanhamos a dispersão do rebanho e que se deve (sobretudo) a perseguição à comunidade de Jerusalém. Oportunidade para anunciar o Evangelho em outras localidades, dando testemunho acerca de Jesus Cristo, morto e ressuscitado.
Os irmãos que se tinham dispersado, devido à perseguição desencadeada pelo caso de Estêvão, caminharam até à Fenícia, Chipre e Antioquia. Mas anunciavam a palavra apenas aos judeus. Houve, contudo, entre eles alguns homens de Chipre e de Cirene, que, ao chegarem a Antioquia, começaram a falar também aos gregos, anunciando-lhes o Senhor Jesus. A mão do Senhor estava com eles e foi grande o número dos que abraçaram a fé e se converteram ao Senhor. A notícia chegou aos ouvidos da Igreja de Jerusalém e mandaram Barnabé a Antioquia. Quando este chegou e viu a ação da graça de Deus, encheu-se de alegria e exortou a todos a que se conservassem fiéis ao Senhor, de coração sincero; era realmente um homem bom e cheio do Espírito Santo e de fé. Assim uma grande multidão aderiu ao Senhor. Então Barnabé foi a Tarso procurar Saulo e, tendo-o encontrado, trouxe-o para Antioquia. Passaram juntos nesta Igreja um ano inteiro e ensinaram muita gente. Foi em Antioquia que, pela primeira vez, se deu aos discípulos o nome de «cristãos» (Atos 11, 19-26).

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Eu sou a porta das ovelhas...

       Disse-lhes Jesus: «Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que não entra no aprisco das ovelhas pela porta, mas entra por outro lado, é ladrão e salteador. Mas aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas. O porteiro abre-lhe a porta e as ovelhas conhecem a sua voz. Ele chama cada uma delas pelo seu nome e leva-as para fora. Depois de ter feito sair todas as que lhe pertencem, caminha à sua frente e as ovelhas seguem-no, porque conhecem a sua voz. Se for um estranho, não o seguem, mas fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos». Jesus apresentou-lhes esta comparação, mas eles não compreenderam o que queria dizer. Jesus continuou: «Em verdade, em verdade vos digo: Eu sou a porta das ovelhas. Aqueles que vieram antes de Mim são ladrões e salteadores, mas as ovelhas não os escutaram. Eu sou a porta. Quem entrar por Mim será salvo: é como a ovelha que entra e sai do aprisco e encontra pastagem. O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir. Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância» (Jo 10, 1-10).
       O tema do pastoreio volta nesta semana. Um dia depois do Domingo do Bom Pastor ressoa em nós a voz de Jesus Cristo: "Eu sou o bom Pastor... Eu sou a porta das ovelhas... quem entrar por mim será salvo... Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância".
       A temática mostra-nos, uma vez mais, quanto Deus Se coloca do nosso lado, à nossa beira, junto a nós. Em Jesus Cristo vem para nos salvar, para nos constituir verdadeiro povo, para nos formar como família de Deus.

Por sua vez, na primeira Leitura, em São Pedro visualiza-se o mandato de Jesus Cristo. Pedro anuncia a todos oa Boa Notícia, alargando o pastoreio:
Disse-lhes Pedro: Quando comecei a falar, o Espírito Santo desceu sobre eles, como sobre nós ao princípio. Lembrei-me então das palavras que o Senhor dizia: ‘João baptizou com água, mas vós sereis baptizados no Espírito Santo’. Se Deus lhes concedeu o mesmo dom que a nós, por terem acreditado no Senhor Jesus Cristo, quem era eu para poder opor-me a Deus?» Quando ouviram estas palavras, tranquilizaram-se e deram glória a Deus, dizendo: «Portanto, Deus concedeu também aos gentios o arrependimento que conduz à vida» (Atos 11, 1-18).

       São Pedro regressa à comunidade judaica depois de ter estado entre pagãos. A reacção da comunidade é, de início, apreensiva, desconfiada, cautelosa. A salvação em Cristo é manifestada aos judeus, como é que Pedro vai até junto dos incircuncisos, os pagãos?
       Pedro, inspirado pelo Espírito Santo fala-lhes do sonho que teve e como Deus lhe manifestou a necessidade de alargar a mensagem para os pagãos e, ao mesmo tempo, a recepção positiva dos pagãos à mensagem pregada por Pedro, em nome de Jesus Cristo.
       Finalmente, a comunidade compreende que a salvação não é exclusiva de um povo, de uma nação, de um grupo de pessoas, mas destina-se à humanidade inteira... ainda que episódios destes se repitam pela história da Igreja...

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Que nenhum dos pequeninos se perca

       Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Que vos parece? Se um homem tiver cem ovelhas e uma delas se tresmalhar, não deixará as noventa e nove nos montes para ir procurar a que anda tresmalhada? E se chegar a encontrá-la, em verdade vos digo que se alegra mais por causa dela do que pelas noventa e nove que não se tresmalharam. Assim também, não é da vontade de meu Pai que está nos Céus que se perca um só destes pequeninos» (Mt 18, 12-14).
       Jesus - Aquele que salva o povo dos seus pecados - vem para todos. Porém, como hoje sublinha, vem sobretudo para os pequeninos, os pobres, os pecadores, ou seja, para aqueles que se abrem à graça de Deus, à Sua presença entre nós, aqueles que reconhecendo a sua pequenez se dispõem a mudar a sua vida, procurando corresponder aos desígnios de Deus.
       Como sabemos, ninguém que se considere santo, perfeito, mais sábio que todos os outros, arrogante, prepotente, poderá acolher o que vem dos outros, ou o que vem de Deus, porque se considera a si mesmo uma referência última, sem necessidade da ajuda, colaboração, ou vida dos outros.
       O convite de Jesus é, antes de mais, um desafio à humildade e à pobreza, à abertura aos outros e a Deus.

sábado, 6 de maio de 2017

Domingo IV da Páscoa - ano A - 7 de maio de 2017

       1 – Há muitas situações que nos tiram o sono. Muitos momentos em que não conseguimos adormecer com a rapidez desejada e o sono é tão leve que acordamos cansados, parecendo que nem chegámos a dormir. Damos voltas e mais voltas e não adianta. Uma doença. A morte de alguém. Uma traição. Um negócio que correu mal. Um conflito com um colega. Um aborrecimento com um familiar.
       A falta de saúde, o cansaço, o stress no trabalho ou a falta de trabalho – e a insegurança no trabalho – tudo isso são motivos fáceis de detetar. Ansiedade. Medo de não dormir bem, de acordar sem vontade de sair de casa, de chegar de manhã e continuar tudo igual.
       Afinal de contas o que é que nos deixa mais inseguros e ansiosos? A vida não é branco e preto, mas podemos responder com segurança que é o nosso relacionamento com os outros que nos provoca medo, ansiedade, desgaste, agitação. O que os outros podem pensar de mim? Como vou reagir ao que me me vão dizer? Como me vou defender ou justificar? Como vou fazer calar o outro? Como é que lhe hei de mostrar que sei mais que ele? A conversa que tive com a minha mulher! A discordância com a atitude do meu filho! O raspanete que levei do meu pai! Como é que vou gerir a amizade com dois amigos que não se dão entre eles? Como vou exigir o que é meu por direito? Como é que vou explicar ao meu professor que não consegui estudar? Que é que a professora pensará de mim?
       Cada um de nós precisa da aceitação do outro e ser reconhecido, antes de mais, como pessoa. Há quem se imponha pela maldade, pelo poder, pela violência. Há quem se afirme pela positiva, pela delicadeza, por ser prestável, útil, atencioso. Há alunos que chamam a atenção pela assertividade em relação aos professores e aos colegas. Há alunos que chamam a atenção pelos disparates que fazem a toda a hora. Ou como quem diz, ou vai ou racha.
       2 – Neste 4.º Domingo de Páscoa temos dois modelos de assertividade, de empatia ou um modelo com dois rostos e que se multiplica por muitos rostos e muitas pessoas. Assim o queiramos. Por um lado, o Dia Mundial de Oração pelas Vocações, que evoca a figura do Bom Pastor, visualizável em Jesus Cristo. Por outro, o Dia da Mãe, que nos remete para Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, mas também para as nossas próprias mães.
       O pastoreio fala-nos de pobreza e de trabalho, de honestidade e delicadeza. Os pastores eram pessoas simples e humildes. Levavam o seu trabalho a sério, pois disso dependia a sua sobrevivência. Pessoas que lidam com animais sabem como se lhes ganha afeição. Também os pastores se tornam pessoas delicadas, conhecendo as ovelhas pelo nome, cuidando delas para que nenhuma se perca, não deixando que nenhuma se afaste com o risco de se tornar presa fácil para os animais selvagens. Guardando as suas ovelhas ou da tribo/povoação, o cuidado é semelhante. É o seu ganha-pão.
       David, antes de ser rei, era pastor. Ficou no imaginário dos judeus como uma referência do cuidado para com o Povo. Aqui e além, a sua fragilidade humana, mas sem lhe faltar a humildade para pedir perdão e interceder junto de Deus a favor do povo. A expectativa messiânica assenta na figura de David, o que há de ser, o Messias que está para vir, é um novo David ou filho de David, será um rebento de Jessé (pai de David). Em Domingo de Ramos, na entrada triunfal em Jerusalém, Jesus é aclamado como filho de David, isto é, o Messias prometido, agora reconhecido como tal.
       Com efeito, o Pastor por excelência é o próprio Deus. Eu próprio irei para o meio do Meu povo, como pastor que apascenta o seu rebanho. Belíssimo o salmo com que hoje respondemos à Palavra de Deus: «O Senhor é meu pastor: nada me falta. Leva-me a descansar em verdes prados, conduz-me às águas refrescantes e reconforta a minha alma...não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo: o vosso cajado e o vosso báculo; me enchem de confiança».
       3 – O Messias de Deus, Cristo Jesus, assume-Se como o Bom Pastor, a Porta pela qual entram as ovelhas, o Porteiro que abre a porta às ovelhas. Como Pastor, conhece cada ovelha pelo nome, levando aos ombros as que andam cansadas e abatidas, para que nenhuma se perca. As ovelhas, por sua vez, conhecem a voz do Seu Pastor, seguem a Sua voz, porque sabem que Ele as trata bem. «Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância».

       4 – O mês de maio desafia-nos a olhar com mais atenção para Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe. O primeiro dia do mês é dedicado às Mães, com uma referência muito peculiar a Santa Maria Mãe de Deus. N'Ela, as características que queremos encontrar nas nossas mães: a candura, a doçura, a capacidade de nos amar em todas as circunstâncias, de nos desculpar e justificar, a diplomacia para a paz e para unidade na família, defendendo-nos com unhas e dentes, procurando a harmonia na família, o diálogo, a disponibilidade para o esforço e sacrifício, para sofrer em nossa vez, a humildade e, em muitas situações, a sujeição à humilhação.
       A vida de Maria mostra-nos a Sua delicadeza para com aqueles que precisam de ajuda, exemplo disso a pressa em ir ao encontro de Isabel ou a intervenção junto de Jesus para agir em favor dos noivos de Caná da Galileia; prontidão para se inteirar da vida do Filho, como quando lhe trazem más notícias. Respeita a Hora do Filho mas mantém-se por perto, vigilante.
       Pelos frutos se veem as árvores. Jesus não nasceu do ar, como extraterrestre, é de carne e osso. Ele aprendeu a ser delicado com os Seus pais, Maria e José. Com o Pai, o trabalho, a profissão, os valores do respeito e da honra, da palavra dada e do compromisso. Com a Mãe, a atenção aos outros, a doçura, a humildade, o olhar terno e a capacidade de se colocar – tanto quanto possível – no lugar dos outros, com as suas necessidades e dúvidas.
       A história bíblica vai-nos mostrando que Deus é Pai que nos ama com amor de Mãe. Jesus transparece a beleza e a misericórdia de Deus Pai, nas palavras, na postura, nas imagens utilizadas na pregação, nos gestos assumidos. O seu último desejo, contudo, aponta para a Maria, dando-no-l'A por Mãe, assumindo-nos como irmãos, afiliando-nos a Maria: Eis a tua Mãe. Eis o teu filho.

       5 – São Pedro, na primeira como na segunda leitura, falando e escrevendo, procura envolver-nos na salvação revelada e realizada por Jesus Cristo que veio de Deus para nos salvar, para nos reunir e congregar. Passou fazendo o bem, sofrendo por todos nós. E por nós foi crucificado.
       A Sua postura é de bondade. Não responde com violência à violência de que é vítima. «Ele suportou os nossos pecados no seu Corpo, sobre o madeiro da cruz, a fim de que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça: pelas suas chagas fomos curados. Vós éreis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes para o pastor e guarda das vossas almas».
       Ele deu-nos o exemplo. Para que, imitando-O, morrendo n'Ele o que em nós é obscuro, pecado, inveja, revolta, vontade de vingança, com Ele possamos ressuscitar na alegria e na paz, na justiça e na verdade, na relação franca e transparente. O batismo sinaliza a nossa conversão e o compromisso permanente em sermos dóceis ao Espírito Santo que recebemos, ao espírito de filhos adotivos, para que a graça de Deus em nós produza abundantes frutos de redenção e de bênção.
       Que o Espírito Santo, que nos habita, nos inspire à abertura do coração, à confiança na bondade dos outros, nos impele a despregar-nos da ansiedade doentia, do medo e das expectativas que nos tolhem na relação entre nós. Que a cuidado e delicadeza do Bom Pastor e a ternura e o amor da Virgem Mãe nos faça mensageiros da paz e da alegria e construtores de um mundo saudável e fraterno, inclusivo, acolhendo as diferenças que nos enriquecem, promovendo a dignidade que nos irmana como filhos amados de Deus.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano A): Atos 2, 14a. 36-41; Sl 22 (23); 1 Pedro 2, 20b-25; Jo 10, 1-10.

sábado, 10 de setembro de 2016

XXIV Domingo do Tempo Comum - ano C - 11.09.2016

       1 – O Jubileu da Misericórdia está agrafado ao Evangelho de São Lucas, conhecido também como Evangelho da Misericórdia. O Evangelho transparece a ternura, a docilidade, a proximidade de Jesus com os pecadores, os pobres, os doentes, os enjeitados deste mundo, leprosos, mulheres, crianças, servos, publicanos, estrangeiros. Nas palavras e nos gestos, na postura e nos prodígios, Jesus orienta a Sua vida e missão para reabilitar, curar, envolver, incluir, salvar. O mistério da Encarnação garante-nos a presença de Deus no meio de nós. Da eternidade para o tempo, do Céu para o mundo, para redimir a humanidade, reconciliando-a pelo perdão e pelo amor.
       Estamos no centro do Evangelho, com este grupo de três parábolas. Outras parábolas nos falam da misericórdia: dois devedores perdoados das suas dívidas (Lc 7, 41-43); o Bom Samaritano, que socorre o homem caído à beira do caminho (Lc 10, 25-37); o pobre Lázaro, que nos desafia a agir com compaixão, aqui e agora, onde se inicia o caminho para o Céu... amanhã é sempre tarde (Lc 16, 19-31); Misericórdia no prisma da oração perseverante, na súplica da viúva pobre diante do iníquo Juiz (Lc 18, 1-8); o fariseu soberbo e o publicano justificado pela humildade (Lc 18, 9-14). Mais que pelo mérito, a justificação vem-nos da misericórdia divina que nos reabilita além da nossa miséria.
       Primeira condição para sermos redimidos: abertura à graça de Deus. As parábolas explicitam o agir de Jesus; veja-se, por exemplo, a compaixão para com a viúva de Naím que levava o filho único a sepultar (Lc 7, 11-17) ou para com a multidão fatigada e faminta, multiplicando os pães (Lc 9, 11b-17). Só para dar dois exemplos do cuidado e da resposta concreta que Jesus que dá.

        2 – "Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és". Junta-te aos bons e serás como eles, junta-te aos maus e serás pior que eles! Qualquer um de nós está certo destes princípios. Facilmente nos colocaríamos do lado dos escribas e fariseus, contestando a promiscuidade de Jesus, que convive e come com publicanos e pecadores! Jesus anda em "más" companhias. Vai correr mal!
       Aqueles que prevenimos, contestam-nos dizendo que conhecem bem os amigos e se sentem capazes de os mudar. Jesus também se justifica, mas remetendo-nos para o proceder de Deus, que usa de misericórdia para com todos e faz festa pelo reencontro dos que se perderam.
       Conta-lhes, e a nós também, uma parábola, desdobrável em três. «Quem de vós, que possua cem ovelhas e tenha perdido uma delas, não deixa as outras noventa e nove no deserto, para ir à procura da que anda perdida, até a encontrar? Quando a encontra, põe-na alegremente aos ombros e, ao chegar a casa, chama os amigos e vizinhos e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida’. Eu vos digo: Assim haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se arrependa, do que por noventa e nove justos, que não precisam de arrependimento. Ou então, qual é a mulher que, possuindo dez dracmas e tendo perdido uma, não acende uma lâmpada, varre a casa e procura cuidadosamente a moeda até a encontrar? Quando a encontra, chama as amigas e vizinhas e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma perdida’. Eu vos digo: Assim haverá alegria entre os Anjos de Deus por um só pecador que se arrependa».
       O Pastor deixa tudo e vai procurar a ovelha perdida. Ao encontrá-la, coloca-a aos ombros e alegra-se, fazendo festa com os amigos. É fundamental cuidar para que nenhuma ovelha se perca. O ambiente é adverso, o deserto. As complicações da vida, exterior e interior, podem conduzir ao desnorte e à perdição. Mas também podemos perder-nos dentro de casa, dentro da Igreja, no caminho da fé. A mulher perde a dracma em casa. Quando encontra a moeda perdida, faz festa com as amigas. Deus sempre faz festa, no nosso regresso! Antes, precisamos de arrumar a casa, acender a lâmpada da fé, de varrer tudo o que é poeira e estorvo, desviar os empecilhos, para então encontrarmos a moeda perdida.
       3 – Na terceira parábola, a mais refletida, Jesus fala num Pai que ama até ao limite e dois filhos que não se reconhecem como irmãos e lidam com o Pai como Patrão. O Pai procura salvá-los pelo amor. Os filhos relacionam-se em dinâmica de poder, disputando para ver quem é o melhor. Um acomoda-se em casa do Pai-patrão, vai herdar um imenso património. Outro pede-lhe em vida o que lhe pertenceria pela morte, quer ser patrão de si mesmo, autodeterminando-se e assumindo-se "sem pai", já que o considera morto pelo pedido da herança que lhe toca.
       O pai reparte os bens pelos seus filhos. Poderia não o fazer, pois só a morte o exigiria. Mas abaixa-se à vontade dos filhos. Por amor. A sua tristeza é evidente. Não se revolta. Não contesta os filhos. Continua a amá-los com amor materno. Parte-se-lhe o coração. Mas não desiste. Deus nunca desiste de nós. Espera, espreita o horizonte contando que o filho regresse. Quando isso acontece, não se faz rogado, "ainda ele estava longe, quando o pai o viu: enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos".
       O filho continua a fixar-se em si mesmo e não no Pai. Quer ser acolhido como empregado. O que o faz regressar é a miséria em que caiu. Para o pai é suficiente um esboço de arrependimento: "Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho". Está tão feliz que nem espera pelas justificações do filho: "Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha. Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o. Comamos e festejemos, porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado". A misericórdia de Deus cancela as nossas dívidas, o nosso pecado; só não atua se não lhe abrirmos qualquer brecha.
       4 – A festa começa e, quando tudo parece bem, eis que vem o filho mais velho e faz a sua birra. Ciumento e invejoso, não vê o irmão que regressa vivo, mas um concorrente – esse teu filho – a disputar as graças do patrão! "Há tantos anos que eu te sirvo, sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos. E agora, quando chegou esse teu filho, que consumiu os teus bens com mulheres de má vida, mataste-lhe o vitelo gordo".
       O filho mais velho reclama direitos. Sempre certinho, cumpridor, mas sem experimentar a alegria da proximidade com o pai. Não partilha alegrias, só trabalho. Não saboreia a vida, só obrigações. A relação com o Pai não assenta na familiaridade e na alegria, mas em deveres.
       Para o Pai, em todas as situações, prevalece o amor, a compaixão, a proximidade. Não há nada mais importante que os filhos. Podem maltratá-lo, esbanjar os bens, acusarem-no. O importante é que os filhos se sintam em casa e que estejam bem e sejam felizes. «Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado».
       Todos os filhos contam. E contam tudo. O Pai "obriga-nos" a olhar para o outro como irmão. Se é Pai de todos, somos todos irmãos. Devemos tratar-nos como tal.

       5 – A Misericórdia de Deus não tem limites. Melhor, o único limite é a nossa liberdade. Podemos escolher viver à margem de Deus, longe de casa e de costas voltadas para os irmãos.
       O povo de Deus experimenta a misericórdia de Deus, mas rapidamente se esquece do Seu cuidado e do Seu amor. Faz lembrar alguns animais domésticos, mal enchem a pança logo se afastam de casa. Aquele povo, liberto do Egipto, ensoberbece-se, fazem um deus à sua imagem!
       Diz Deus a Moisés: «Tenho observado este povo: é um povo de dura cerviz. Agora deixa que a minha indignação se inflame contra eles e os destrua. De ti farei uma grande nação».
       A oração ajuda-nos a perceber a vontade de Deus. De modo nenhum Deus quer a morte do pecador, mas antes que se converta e viva. A oração de Moisés revela a sensibilidade e o cuidado para com os seus irmãos, invocando a benevolência de Deus: «Por que razão, Senhor, se há de inflamar a vossa indignação contra o vosso povo, que libertastes da terra do Egipto com tão grande força e mão tão poderosa? Lembrai-Vos dos vossos servos Abraão, Isaac e Israel, a quem jurastes pelo vosso nome, dizendo: ‘Farei a vossa descendência tão numerosa como as estrelas do céu e dar-lhe-ei para sempre em herança toda a terra que vos prometi’». Deus não desiste de nós. Nunca. Mais facilmente desistimos uns dos outros.

       6 – Deus não cessa de nos amar. Só amando é possível tornar completa a vida e projetá-la até à eternidade. O amor pleniza-nos e eterniza os nossos sonhos e as nossas escolhas.
       Deus envia-nos Jesus. A eternidade entra no tempo, o divino humaniza-se, o Céu toca a terra, Deus faz-Se um de nós. Para nos salvar a partir de dentro. Sem imposições. Por amor. O apóstolo é testemunha desta graça de Deus. Perseguidor, blasfemo, pecador, alcançou a misericórdia de Deus. "A graça de Nosso Senhor superabundou em mim". Com efeito, continua o apóstolo, "Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores e eu sou o primeiro deles. Mas alcancei misericórdia, para que, em mim primeiramente, Jesus Cristo manifestasse toda a sua magnanimidade…".
       Humildemente, seguindo a interpelação do apóstolo, confiemo-nos ao olhar compassivo de Deus nosso Pai: "Criador e Senhor de todas as coisas, lançai sobre nós o vosso olhar; e para sentirmos em nós os efeitos do vosso amor, dai-nos a graça de Vos servirmos com todo o coração".
       Na proximidade de Deus, acolhidos na casa paterna, na alegria do Seu banquete, prontifiquemo-nos a contagiar outros para este reino de alegria e de paz, de justiça e de amor.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (C): Ex 32, 7-11. 13-14; Sl 50 (51); 1 Tim 1, 12-17; Lc 15, 1-32.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Pelos prados e campinas... É o Senhor que me leva

       Proposta como cântico na Eucaristia Dominical, na Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, de Tabuaço. Autoria do Pe. Zezinho:
1. Pelos prados e campinas verdejantes eu vou,
é o Senhor que me leva a descansar.
Junto às fontes de águas puras repousantes eu vou,
minhas forças o Senhor vai animar.

Tu és Senhor, o meu pastor:
por isso, nada na minha vida faltará. (2x)

2. Nos caminhos mais seguros junto d’Ele eu vou,
e para sempre o Seu nome eu honrarei.
Se eu encontro mil abismos nos caminhos eu vou,
segurança sempre tenho em Suas mãos.

3. Ao banquete em Sua casa muito alegre eu vou,
um lugar na Sua mesa me preparou.
Ele unge minha fronte e me faz ser feliz,
e transborda a minha taça em Seu amor.

4. Com alegria e esperança caminhando eu vou,
minha vida está sempre em Suas mãos.
E na casa do Senhor eu irei habitar,
e este canto para sempre irei cantar.

domingo, 22 de julho de 2012

Claudine Pinheiro - O Senhor é meu pastor

      "Jesus compadeceu-Se de toda aquela gente, porque eram como ovelhas sem pastor". O Evangelho deste domingo de novo nos mostra a sensibilidade e delicadeza de Jesus, que Se preocupa com os seus discípulos, quer que eles descansem e comam, e do mesmo modo sente-Se compadecido com aquela multidão fatigada da vida, faminta de vida nova. O Salmo deste domingo - Salmo 22 (23) - é precisamente "O Senhor é meu Pastor"..Recuperámos, mais uma vez, o cântico da Claudine Pinheiro, na paróquia de Tabuaço, no dia 2 de maio de 2009, na Igreja Paroquial. Ouça, volte a ouvir, medite na letra, aprecei a melodia. Viva em Domingo.

sábado, 28 de abril de 2012

IV Domingo de Páscoa (ano B) - 29 de abril de 2012

       1 – “Vede que admirável amor o Pai nos consagrou em nos chamarmos filhos de Deus. E somo-lo de facto. Se o mundo não nos conhece, é porque não O conheceu a Ele. Caríssimos, agora somos filhos de Deus e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Mas sabemos que, na altura em que se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porque O veremos tal como Ele é”.
       Jesus Cristo é a surpresa admirável de Deus. Milagre do amor de Deus para connosco. É a Palavra que Se faz vida, é o sorriso que nos envolve, o abraço que nos embala, é o olhar que nos afaga. Jesus é a Pessoa, de carne e osso, que Deus nos envia. A Sua vida, a Sua história, mistura-se com a nossa vida e com a nossa história, no nosso tempo, ontem como hoje, na Judeia como nas nossas ruas.
       Deu-nos o Filho para n'Ele nos tornarmos filhos e herdeiros, para partilharmos a origem e o destino, a mesma herança, a vida eterna. Trazemos em nós as marcas do Céu, fomos por Ele criados; com Jesus somos assumidos como filhos de Deus e irmãos uns dos outros; quando entrarmos na glória de Deus, conhecer-nos-emos então totalmente, ao vê-l'O, ao sermos vistos por Ele, a nossa existência tornar-se-á luminosa, mais brilhante que o sol, plena de alegria, de felicidade, em comunhão perfeita com o Deus da vida, o Seu olhar redentor refazer-nos-á em perfeição.
       Na vastidão do Céu, todos teremos um lugar especial, no coração de Deus. Sem privilégios, sem máscaras, sem manhosices. Estaremos expostos, como fomos criados, como somos, como vivemos, despidos de todos os trapos que muitas vezes ofuscam a beleza com que Ele nos criou.


       2 – Jesus é o Bom Pastor, o Rosto de Deus Pai e que transparece o Seu amor, a Sua dedicação e devoção à humanidade. Um Pai com amor de Mãe. Respeita a liberdade daqueles que gerou mas como Mãe debruça-se, permanentemente sobre o seu amor maior, a razão maior da sua existência, para que no seu olhar de mãe, olhar de ternura, de paixão, de estímulo, o filho encontre segurança e forças para voltar à vida.
       «Eu sou o Bom Pastor. O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas. O mercenário, como não é pastor, nem são suas as ovelhas, logo que vê vir o lobo, deixa as ovelhas e foge, enquanto o lobo as arrebata e dispersa. O mercenário não se preocupa com as ovelhas. Eu sou o Bom Pastor: conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-Me, do mesmo modo que o Pai Me conhece e Eu conheço o Pai; Eu dou a minha vida pelas minhas ovelhas. Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil e preciso de as reunir; elas ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só Pastor. Por isso o Pai Me ama: porque dou a minha vida, para poder retomá-la. Ninguém Ma tira, sou Eu que a dou espontaneamente. Tenho o poder de a dar e de a retomar: foi este o mandamento que recebi de meu Pai».
       Jesus é o “INSTRUMENTO” de salvação, por excelência. Como Bom Pastor – de Deus para a humanidade –, vem habitar o mundo, vem preencher o coração humano com o dinamismo do Espírito Santo, com o Amor de Deus. Dá-Se por inteiro, em palavras, em gestos, no anúncio da boa notícia, no chamamento dos discípulos e das populações, no acolhimento dos mais pobres dos pobres, os pecadores públicos, os ostracizados da sociedade do seu tempo, os publicanos, as pessoas rudes do campo, os trabalhadores, os escravos, os doentes, os aleijados, os idosos, as crianças, as mulheres, os estrangeiros (entre os quais, os samaritanos, vizinhos e da mesma religião judaica, mas considerados impuros por terem misturado o seu sangue com pessoas dos povos invasores, ou com os naturais das nações para onde foram exilados). Ele dará a vida pelas Suas ovelhas, conhece-as pelo nome, sabe das suas necessidades e dos seus sonhos.
       Ele está dentro do aprisco, está no meio, onde se encontra a humanidade, está onde pulsa a vida. Morreu, ressuscitou, e permanece, pelo Espírito Santo, em cada discípulo, na Palavra proclamada, acolhida, celebrada, nos Sacramentos, em todo o bem feito em Seu nome.

       3 – Admirável Pastor, que não parte sem antes assegurar que "as ovelhas" têm novos guias, com o mesmo espírito, a mesma dedicação, a mesma entrega. Aproximando-se a hora da partida para o Pai, prepara um grupo de discípulos/apóstolos, para que mantenham o rebanho em segurança e possam também eles ser instrumentos de salvação e de unidade, "ajuntando" as ovelhas que estão arredadas. Dá-lhes (e a nós também, para este tempo) o Espírito Santo, para que vão, anunciem o reino de Deus, façam discípulos em toda a parte, curando, salvando, provocando a generosidade, a partilha, a comunhão e a caridade sem fim.
       Quando escutamos as narrações dos Atos dos Apóstolos, vemos como um grupo tão pequeno, mas tão “sabido”, tão cheio do Espírito Santo, se torna capaz de ir tão longe, até ao fim do mundo para O dar a conhecer.
       Pedro, uma vez mais, com os outros apóstolos, surge afoito, destemido, dirigindo-se a todos, mesmo aos que os querem calar:
       “Chefes do povo e anciãos, já que hoje somos interrogados sobre um benefício feito a um enfermo e o modo como ele foi curado, ficai sabendo todos vós e todo o povo de Israel: É em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, que vós crucificastes e Deus ressuscitou dos mortos, é por Ele que este homem se encontra perfeitamente curado na vossa presença. Jesus é a pedra que vós, os construtores, desprezastes e que veio a tornar-se pedra angular. E em nenhum outro há salvação, pois não existe debaixo do céu outro nome, dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos”.
       Envolvidos pela certeza inabalável do amor de Deus por nós, deixemo-nos guiar pelo Espírito Santo, para sermos, hoje, testemunhas audazes de Jesus Cristo, a pedra angular, transparecendo nos gestos, nas palavras e nas obras a nossa identidade, a nossa filiação divina, a nossa pertença ao Corpo de Cristo que é a Igreja, da qual somos pedras vivas.

Textos para a Eucaristia (ano B): Atos 4,8-12; 1 Jo 3,1-2; Jo 10,11-18.