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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Santa Teresa do Menino Jesus - História de uma Alma

Santa TERESA DO MENINO JESUS. História de uma Alma. Manuscritos Autobiográficos. Editorial A. O., 14.º Edição. Braga 2009. 352 páginas.
       Padroeira das Missões, Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face, também reconhecida por Santa Teresa de Lisieux, é uma das figuras maiores do Carmelo e da Igreja, onde figuram por exemplo e Santa Teresa de Jesus / Santa Teresa de Ávila, que lhe serve de inspiração em muitos momentos, ou Santa Teresa Benedita da Cruz / Edith Stein.
       Conhecer o que se escreveu sobre os santos, ou sobre o comum dos mortais, é uma forma de nos inteiramos das suas vidas. Contudo, mais importante será ler o que os próprios escreveram sobre a sua vida e sobre a sua vocação. Teresa do Menino Jesus nasceu em 2 de janeiro de 1873, e foi-lhe dado o nome de Maria Francisca Teresa Martin. Com quatro anos a família fixa-se em Lisieux. Vive num contexto de grande religiosidade, de tal forma que as cinco irmãs que sobreviveram à infância se tornaram religiosas. Teresa do Menino Jesus foi admitida no Carmelo antes da idade permitida, tendo recorrido ao Bispo e ao Papa. Consegue ser admitida com 15 anos, depois de muita persistência, orações, intercessões, súplicas ou como a própria refere depois de muito sofrer. Um dos momentos reveladores é a 13 de maio de 1883, domingo de Pentecostes, recebe o sorriso da Virgem Maria e a cura milagrosa e inexplicável,quando se encontrava gravemente doente.
       A sua delicadeza e a procura constante por viver identificada com Jesus Cristo, com a Sua Cruz, grangearam-lhe, ainda em vida, a admiração de irmãs e/ou sacerdotes que a acompanhavam. Por isso lhe foi solicitado que escrevesse as suas memórias, para que depois da morte outros possam benificiar do testemunho da sua vida. São muitos os padecimentos por que passa, procurando não deixar trasnparecer para os outros, para não dar trabalhos às irmãs de clausura. Por vezes mantém-se heroicamente de pé só para obedecer a alguma irmã. Por outro lado, a morte não assusta. Seguindo o testemunho de São Paulo, quer na morte quer em vida, o que importa é fazer a vontade de Deus, identidicando-se com Jesus Cristo.
       Morre em 30 de setembro de 1897, com 24 anos de idade. Muito jovem mas com uma longa história de vida que tem inspirado muitas conversões. Foi beatificada em 29 de abril de 1923 e canonizada em 17 de maio de 1925, pelo Papa Pio XI, o mesmo que em 14 de dezembro de 1927 a declara Padroeira das Missões.
       Em 19 de outubro de 1997, o Papa João Paulo II declara-a Doutora da Igreja. Refira-se que o Santo Padre ja tinha ido em peregrinação a Lisieus em 2 de junho de 1980. Por outro lado, o mesmo Papa declara Veneráveis os pais de Teresa do Menino Jesus, em 26 de março de 1994. Serão beatificados em 19 de outubro de 2008, em Lisieux.
       Depois de muitas revisões, o texto que ora recomendamos procura ser o mais fidedigno, apresentando notas com a indicação de palavras acrescentadas, ou rasuradas, pela próprio ou pelas Madres. Mas mais importante, esta é uma leitura verdadeiramente fundamental para entender a vida e a santidade de Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face.
 (Jesus bate à nossa porta - quadro pintado por Santa Teresa do Menino Jesus, em 1982, oferecido à sua irmã Celina)
 (Teresa do Menino Jesus no papel de Santa Joana d'Arc, em 21 de janeiro de 1895)
(Retrato de Santa Teresa, pintado pela sua irmã Celina, alusivo à chuva de rosas que Teresa prometeu fazer cair sobre a terra quando chegasse ao Céu)

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Pe. José Tolentino Mendonça - A MÍSTICA DO INSTANTE

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA (2014). A Mística do Instante. O tempo e a promessa. Prior Velho: Paulinas Editora. 222 páginas.
       O Pe. Tolentino Mendonça é sobejamente conhecido para que tudo o que escreva tenha de imediato visibilidade, mas para chegar aqui não basta aparecer, é certamente resultado de muito trabalho e de muita alegria no trabalho realizado. O padre-poeta, ou o teólogo-poeta, apresenta textos que nos fazem sentir parte integrante, dando sentido a cada palavra, frase ou texto, buscando, fazendo-nos buscar em nós, no mundo, e nos outros, buscar Deus, a alegria, a felicidade, o amor, a amizade, a beleza.
       Nestas reflexões, o Pe. Tolentino Mendonça, além da diversidade de citações, de estórias, da experiência e dos encontros com pessoas de diferentes vertentes culturais e religiosas, a ambiência bíblica, percorrendo diversos textos mas principalmente a vida, os gestos, as palavras de Jesus e dos Seus encontros com Marta, Maria, Maria Madalena, com os Apóstolos, com a Mulher pecadora, o cego, com Zaqueu... Textos também contextualizadas nesta Teologia dos Sentidos, os Salmos, o livro dos Génesis.
       O autor dá uma atenção (poética) a cada um dos cinco sentidos: olhar/ver; tato/tocar; ouvir/escutar; olfato/odor; sabor/saborear. A espiritualidade não nos afasta de casa, do mundo, do mundo sensível. Na nossa fragilidade e limitação, na vida concreta do dia a dia, onde nos encontramos, no trabalho, no lazer, na escuta e no silêncio, na oração, na pobreza e na riqueza, em todos os lugares, em todas as dimensões da vida podemos viver, aprofundar, mergulhar na espiritualidade. Esta não se contrapõe ao corpo, ao material e sensível, mas radica-se precisamente no nosso corpo, que nos separa dos outros e do mundo, mas é o mesmo corpo que nos aproxima dos outros, de Deus e do mundo.
       A leitura desta obra, como a de outras do autor, é agradável, acessível, evolvente. Como tenho ouvido outras pessoas, os textos de Tolentino Mendonça são para ler, para reler, e ter por perto os livros, sublinhando, meditando, ruminando, sabendo que através das suas reflexões nos sentiremos mais próximos de Jesus e da Sua Boa Nova.
"A pele recobre o nosso corpo, da cabeça aos pés. Ela divide e ao mesmo tempo une o mundo exterior e interno. A pele lê a textura, a densidade, o peso e a temperatura da matéria. O sentido do tato conecta-nos com o tempo e a memória... O tato permite que não esbarremos apenas uns contra os outros, mas que existam encontros".
"O amor é o caminho que leva à esperança"
"São os nossos corpos que rezam, não apenas o pensamento. A oração habita cada um dos nossos sentidos"
"À beira do fim há sempre tanta coisa que começa"

Livros do autor aqui recomendámos:

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Editorial da Voz de Lamego | SOCIEDADE do CANSAÇO

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Por vezes luto com Deus, por vezes danço (III)

       Quando se dança, diz-se a verdade. Quando se ora também se diz a verdade. É impossível haver fingimento na oração.
       O verdadeiro encontro com Deus, se por vezes é tão difícil, é porque nos pede essa nudez. Pede-nos a aceitação da pobreza, que com frequência é o mais difícil de alcançar; a aceitação do nosso limite, do que não podemos, do que não sabemos, do que não conseguimos, do que não fomos, do que não quisemos, e que, contudo, nos foi dado e temos de viver.
       Na terceira e última parte da conferência "Por vezes luto com Deus, por vezes danço", o P. José Tolentino Mendonça cruza os caminhos da dança com os da espiritualidade cristã:

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Por vezes luto com Deus, por vezes danço (II)

       O Batismo não é a entrada num estado de isenção, de neutralidade. O viver crente está a fazer-se, é sempre inacabado, é sempre o lugar da turbulência, da agitação.
       Lutando com Deus, também dançamos com ele. A fé uma dança, e Abraão mostra-nos isso. Quando já não tinha grandes expectativas acerca da vida, Deus convoca-o para uma forma de nomadismo singular que é a fé. Abraão vai viver na viagem, e essa é a dimensão da própria fé.
       Com o movimento da fé, sabemos de onde partimos mas, ao contrário dos caminhos que habitualmente percorremos, tantas vezes estreitos e utilitários, desconhecemos para onde vamos. Com a fé, viajamos sem mapas para lá de tudo o que se pode prever.
       Segunda parte da conferência "Por vezes luto com Deus, por vezes danço", pelo P. José Tolentino Mendonça:

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Por vezes luto com Deus, por vezes danço (I)

       O silêncio e a ausência são sinais que, misteriosamente, insinuam uma presença.
       A aceitação do silêncio é um trabalho preparatório para a escuta. A disciplina de fazer silêncio no coração, calar os pensamentos e as imagens, as maledicências e superficialidades.
       O silêncio ainda não é Deus, mas é também a possibilidade de abrir a vida ao Outro, deixando que a possibilidade do Outro nos habite.
       A fé vive como hipótese, como lugar contínuo de expectativa, vive de um combate: nunca nada está acabado, nunca nada é completamente conhecido.
       Primeira parte da conferência "Por vezes luto com Deus, por vezes danço", pelo P. José Tolentino Mendonça:



quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Frei Beto - tanta coisa que não preciso para ser feliz

       "Ao viajar pelo Oriente, mantive contactos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão. Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: 'Qual dos dois modelos produz felicidade?'

        Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: 'Não foi à aula?' Ela respondeu: 'Não, tenho aula à tarde'. Comemorei: 'Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde'. 'Não', retrucou ela, 'tenho tanta coisa de manhã...' 'Que tanta coisa?', perguntei. 'Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina', e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: 'Que pena, a Daniela não disse: 'Tenho aula de meditação! Estamos construindo super-homens e super mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados.
        Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: 'Como estava o defunto?'. 'Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!' Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?
        Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais...
        A palavra hoje é 'entretenimento'; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: 'Se tomar este refrigerante, vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro,você chega lá!' O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta
a neurose.
        O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, autoestima, ausência de estresse. Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping-center. É curioso: a maioria dos shoppings-centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...
        Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Deve-se passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do Mc Donald...
        Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: 'Estou apenas fazendo um passeio socrático.' Diante de seus olhares espantados, explico: 'Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia:...
"Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser Feliz"!!!

Uma das fontes possíveis: Passeio Socrático.