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quinta-feira, 17 de maio de 2018

LUIGI EPICOCO - SOMENTE OS DOENTES SE CURAM

LUIGI MARIA EPICOCO (2018). Somente os doentes se curam. O lado humano do (não) crente. Lisboa: Paulus Editora. 120 páginas.
       Quem recomenda um livro, uma leitura, é porque acha oportuno para que outros possam apreciar a escrita e sobretudo o conteúdo. Este é um pequeno livro que parte do encontro de Jesus com os discípulos de Emaús, para nos falar do cuidado, a atenção, a cura, a Igreja como estalagem, como lugar para retemperar forças, readquirir coragem, regressar com a dignidade refeita.
       Mas nada melhor que ler alguns pedaços deste belíssimo trabalho. Numa altura que a questão da eutanásia se levanta na sociedade portuguesa, o que podemos fazer antes de chegarmos aí, antes de desistirmos do outro que sofre e pede ajuda?!

"A verdadeira viagem não é só chegar. A verdadeira viagem é tudo o que acontece entre a partida e a chegada"
"A autenticidade é aquilo que resta de nós quando perdemos tudo"
"Se não podemos viver, como poderemos ser livres?"
"A amizade é aquela relação que nos fazer permanecer humanos quando a vida nos tira tudo e nos leva até a perder a nossa humanidade"
"Preciso da amizade. Porque só onde houver amigos poderei encontrar coragem para dar a vida"
"Quando um homem não encontra amizade na mulher que ama, quando muito levará pão para casa, mas não dará a vida por aquela mulher.."
"Não somos amigos porque temos a mesma fé; somos amigos porque temos a mesma humanidade"
É a ausência de amigos que, às vezes, torna a vida insuportável. Não é nem a dor nem o mal que torna a vida impossível de viver, mas a ausência de amigos.
"O pedido de eutanásia é o grito da solidão pela ausência de amigos".
Precisamos mais de amigos do que de pão.
Sozinhos só conseguimos perceber as contradições, os absurdos, os vazios da vida...
"O infinito do verbo amar é ficar, é permanecer apesar de tudo.
Amar é ficar ao pé da cruz de quem se ama, bebendo até ao fim do cálice amargo da impotência.
A maior dor é não poder fazer nada perante o sofrimento de quem se ama.
Mas o amor verdadeiro é ficar apesar da impotência, apesar de não podermos carregar aquela cruz.
O amor é Maria e João aos pés da Cruz.
O amor é Cristo que morre apesar de tudo, mas não estando sozinho...
Amamos quando permanecemos, mesmo quando já não vale a pena ficar"

"O amor é ficar quando o Sol se põe e o dia escurece."

Estalagem - Igreja

"Só o Templo e o Sagrado nos preparam para reconhecer Deus misturado na história"
"O erro é pensarmos que o Sagrado pode conter Deus"
"É a beleza da liturgia que me pode ajudar a reconhecer Cristo mesmo no rosto dos pobres, ou na beleza da criação ou nas sombras de uma dor ou no esplendor de uma alegria..."

A estalagem também é familiaridade, acolhimento e refúgio para a noite. Com frequência pergunto a mim mesmo se a Igreja será ou não um lugar onde paramos para restaurar forças. Um lugar não para morar, mas antes e sempre um pedacinho da casa que encontramos, um lar onde possamos reaquecer-nos, onde encontramos uma iguaria quente para satisfazer aquela fome de felicidade que nos instigou ao caminho.
A Igreja é a estalagem, não a habitação definitiva que, para nós, cristãos, é o Céu.
A Igreja é feita de homens e os homens fazem-se também das suas quedas, das suas fragilidades e das suas incoerências; mas podem, no entanto, ser tocados pela misericórdia de Deus. E a experiência da misericórdia não consiste na anulação da nossa humanidade, mas na posse da íntima certeza de que, por mais que caiamos, fomos feitos para estar de pé. Que, por mais que possamos errar, fomos feitos para as coisas certas. Que, embora possamos fazer mal, somos feitos para amar. A misericórdia e Deus são aqueles braços de mãe de de pais que nos põem de pé quando caímos, quando ainda estávamos a aprender a caminhar. Não podemos evitar que na Igreja haja quedas, mas podemos fazer com que a Igreja tenha a experiência da misericórdia. E a experiência da misericórdia não é uma esmola dada de cima para baixo. A misericórdia é a experiência de sentir-se acolhido, escutado e levado a sério. A misericórdia é a experiência da verdade que ilumina e aquece, mais ainda do que aquela verdade que julga e humilha.... A misericórdia é a beleza que une as nossas liturgias ao rosto dos pobres, e a nossa caridade ao único pão que realmente conta: Jesus Cristo. Aso nossos pobres damos roupas e comida, mas quase nunca nos apercebemos de que a única verdadeira caridade é dar-lhes Cristo juntamente com as roupas e a comida. A estalagem não é só um prato quente e um lugar abrigado. Por isso, a Igreja nunca é simplesmente um espaço, é, antes de tudo, alguém. A Igreja é o povo de Deus.
Esta hospedaria é, antes de mais, aquele lugar onde a Eucaristia acontece à mesa. Não basta estarmos juntos para dizer que somos Igreja. Não basta o culto das festas para tornar-nos comunidade. Não basta que nos sentemos uns ao lado dos outros para dizer que também encontrámos Cristo. A experiência da Igreja é a experiência daquele lugar onde acontece Eucaristia. Onde Aquele estrangeiro parte o pão diante dos nossos olhos e faz que O reconheçamos precisamente «ao partir do pão». Sem Eucaristia, a estalagem torna-se um mero entretenimento....

"Todos se sentam igualmente à volta da mesma mesa. No máximo uma hierarquia de lugares, mas existe igualdade de perspetiva. Sentados à mesa podemos olhar-nos olhos nos olhos. Mas olhar nos olhos não faz que cada um de nós deixe de ser ele próprio."

Há uma tremenda intimidade no gesto de comer do mesmo prato... a partilha cria comunhão... Sem partilha não há comunhão... É a comunhão que nos torna mais humanos....

Jesus escolhe os pés. Talvez o faça porque debaixo da planta dos pés da pessoa está o mapa do caminho que percorreu. Onde foi, em que poça caiu, que veredas fatigantes percorreu ou quanta erva fresca calcou. Os pés são o símbolo de tudo aquilo que percorremos com a nossa vida. Lavá-los significa libertar-se de toda aquela terra, , muito frequentemente feita de dor, que ficou agarrada a eles. Só quando alguém se afastou significativamente da sua própria história é que pode sentar-se à mesa com Jesus e ouvi-l'O; diferentemente, continuará  manter o pensamento naquela terra, naquela dor, naqueles pedras cravadas na carne, e já não haverá tempo para aperceber-se de mais nada além dos seus próprios pés. Não haverá pores do sol ou paisagens, rostos ou amor, esperanças ou silêncios, cores ou músicas. Toda a atenção se fixará sempre no seu mapa secreto relegado para o fundo do nosso corpo, naquela parte que toca a terra com todo o resto do corpo, da cabeça ao coração... Jesus liberta os discípulos de uma atenção errada e habilita-os a sentir, a ver, a aperceber-se, a comer, a saborear, a chorar...
O cristianismo é pôr-se de joelhos diante dos pés dos outros e não a curvar-se aos próprios... Deixar que nos lavem os pés e lavarmos os pés uns aos outros.

"Comer é partir, despedaçar, mastigar, destruir...
Quem não tem fé é que precisa de ver...

"O cristão é um porteiro que não deve adormecer... Na prática somos cristãos não só para nós mesmos mas principalmente para os outros.
O Senhor deu-nos a fé como um posto de trabalho"

"Depois da Ressurreição de Jesus, há fundamentalmente dois lugares onde podemos encontrar Cristo: na Eucaristia e no ser humano.
A Eucaristia, representada pela pobreza do pão, é o lugar onde Ele continua a estar presente na História. Isto é escandaloso, como Paulo no-lo recorda; e é escandaloso porque nos é inconcebível que Deus possa estar numa coisa tão simples tão frágil.

"Como homens não somos chamados à Cruz, mas à Ressurreição, tal como um mãe não é chamada às dores mas ao parto. As coisas estão ligadas entre si, mas com um diferença radical: as dores são temporárias e subordinadas ao parto. E o que nasce é infinitamente mais do que aquele momento doloroso. ... Ele não nos trouxe uma cruz para também nós sermos crucificados. Ele não é um Deus que ama o nosso sofrimento, porque até foi pregado nas cruzes de cada um de nós, recordando-nos de que são provisórias, precárias e a prazo, como todas as coisas desta jornada da vida.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Deus não existe para nos torturar

       O Bispo de Les Cayes, no Haiti, publicou uma mensagem na qual agradece a ajuda que tem sido oferecida ao país e lamenta que haja quem veja no terramoto do passado dia 12 uma “maldição de Deus”.
       D. Guy Poulard diz que “face a esta desolação, diversas questões são possíveis” enquanto crentes. “Vivendo segundo as reflexões do Antigo Testamento, poderíamos reconhecer que pagamos pelas nossas faltas, mas nós não somos desse tempo, assinala, acrescentando que Deus não existe para nos torturar”.
       O prelado sublinha que a natureza tem as suas leis e que os seres humanos apenas podem “limitar a sua manifestação na gestão respeitosa do direito à vida segundo as nossas relações com o ambiente”.
       O Bispo e todo o presbitério da Diocese, que assinam a missiva, referem que o terramoto “fez-nos sentir uma necessidade urgente de nos solidarizarmos”.
       "Muitas pessoas morreram. Várias casas foram destruídas e também edifícios públicos e eclesiais. Mas nós estamos aqui e mantemos viva a luz da esperança, esperança que precisa dos haitianos, do seu compromisso, da sua vontade de recomeçar e reconstruir", indicam.
       Os signatários agradecem aos países, ONG’s e organizações católicas que estão a ajudar o Haiti, neste momento: “Saudamos os esforços individuais e particulares do Estado e da comunidade internacional, a dedicação dos trabalhadores sanitários, as organizações não-governamentais, os organismos da Igreja Católica - Cáritas, “Catholic Relief Service”, Sociedade de São Vicente de Paulo, Projecto “Espoir Sud” - e dos cultos reformados, que não se pouparam a esforços para socorrer as vítimas”.
       "Os nossos governantes e a comunidade internacional, que nos querem ajudar na reconstrução do país, devem considerar o problema da descentralização para criar, em cada estado, estruturas e infra-estruturas necessárias para melhorar a qualidade de vida das pessoas, como trabalho, escolas, estradas, entre outras necessidades", conclui a mensagem.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Tragédia do Haiti - reflexões avulsas

São dramáticas as imagens que nos chegam do Haiti, não apenas as das primeiras horas mas também as actuais. O sismo devastador deu lugar a uma situação de descalabro e mesmo na procura de comida e de água há conflitos, violência, disputas várias pela sobrevivência e num ou noutro caso o ensejo de tirar algum proveito da desgraça alheia.
       Primeira nota: por mais violências e comovedoras que sejam as imagens, nada se compara ao caos instalado, ao sofrimento, ao luto e ao desespero das pessoas que perderam tudo e sobretudo perderam os seus familiares e amigos. Entenderão como uma bênção o terem sobrevivido, mas sobre-vem também a angústia pelo que perderam e por quem perderam. Mesmo depois do país estar recuperado haverá milhares de rostos desfigurados pela tragédia, pelo medo, pela perda de algum familiar. Por mais que tentemos nunca chegaremos a compreender totalmente a dimensão desta tragédia na vida concreta das pessoas.
       Segunda nota: a solidariedade internacional para com as vítimas e para com o Haiti é louvável. Um drama que suscita a comoção e a compaixão de pessoas, instituições e estados do mundo inteiro, mobilizados para minorar a dor e a confusão que se instalou. O ser humano, capaz de muitos atropelos, revela em momentos como este, o seu lado melhor e a capacidade de tentar fazer a diferença. Todos querem participar na ajuda ao Haiti.
       Terceira nota: o sismo pôs a descoberto uma situação que se vivia há muito: a pobreza. Quando ouvíamos falar do Haiti, do Havai, da República Dominicana, era numa linguagem romântica, de paisagens paradisíacas, lugar de férias, de turismo e de encantamento. O sismo desfez a imagem romântica que pudéssemos ter do Haiti. Afinal era um país extremamente pobre, dos mais pobres do planeta, onde as pessoas viviam na miséria. Talvez agora os olhos do mundo se voltem para o Haiti, e sobretudo para as pessoas concretas, como um desafio solidário de partilha e de ajuda na vida quotidiana, permitindo que ao recuperar o país, as pessoas recuperem também e possam encontrar condições humanas para enfrentar novos tempos...
       Quarta nota: só nos lembramos de Santa Bárbara quando troveja, nesta como em muitas situações da vida. O investimento para minorar os resultados do sismo e reconstruir o país, já deveria ter tido lugar no combate à pobreza e a degradação humana.. Por exemplo, os EUA disponibilizaram à partida 100 milhões de dólares. Naturalmente que países industrializados como os EUA, que muitas vezes apregoam a solidariedade, mas que chega apenas quando os holofotes estão ligados. As pessoas já viviam há muito na miséria, em condições sub-humanas...
       Quinta nota: decorrente do aspecto anterior, o investimento feito em armamento, ou até mesmo os gastos de reuniões internacionais, que não dão fruto, que se tornam muitas das vezes reuniões sociais e turísticas para os chefes de Estado, poderia em parte ser canalizado para a irradiação da pobreza. Esta é de bradar aos céus em países já reconhecidos como extremamente pobres, mas mesmo em países desenvolvidos.
       Há dias passava uma reportagem numa das nossas televisões que mostram como havia muitas pessoas que sobreviviam a partir de uma lixeira... e tanto desperdício... Diga-se, a este propósito ainda, que a atenção que o combate ao terrorismo merece, não invalida o investimento prioritário no combate pela irradiação da pobreza, que por sua vez, gera violência: quem nada tem, tudo pode fazer, porque nada tem a perder... por vezes nem a dignidade... que nunca lhe reconheceram...
       Sexta nota: no Haiti, quando os holofotes se apagarem ou se desviarem para outro acontecimento, o pior está para vir, a comoção poderá dar lugar à indiferença e ao esquecimento e quem sofrerá serão os mesmos que agora beneficiam do auxílio e das promessas, mas cujas dificuldades não serão facilmente sanadas. Importa que instituições locais continuem a obra de reconstrução do país e da "reconstrução" das pessoas e das famílias. A este propósito e como referência, o papel da Caritas Internacional e da Caritas Portuguesa, apoiam mas através da Caritas do Haiti, ou seja, de pessoas que já estão há muito no terreno da solidariedade e que lá continuarão. Obviamente, com isto não queremos significar a ajuda que for de fora não é meritória, mas que esta suscite também aquela, para que no final não fiquem desamparados aqueles que agora queremos ajudar...

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Simplesmente, estou triste!...

Simplesmente estou triste, por esta tragédia no Haiti...
Que Deus esteja com todos, mesmo diante de tanta angústia não devemos esquecer que existe um Deus misericordioso, que ajudará todos os que estão sofrendo neste momento.
Meu Deus,tenha misericórdia desta nação e deste povo que tanto tem sofrido e sofre.
Esperamos ajuda humanitária de todas as nações. O mundo todo, precisa se sensibilizar pelas vítimas. Se não pudermos ajudar materialmente, ao menos com uma oração é possível amenizar a dor de tantos irmãos.
Que Deus olhe para o povo do Haiti e aqueles que perderam a sua vida terrena, os recompense com a vida eterna. Que descansem em paz !. Muita força para quem sobreviveu.

Igreja Católica apoia vítimas do sismo no Haiti

Organizações ligadas à Caritas apelam ao envio de donativos.

“Uma enorme catástrofe”: é com estas palavras que a Cáritas Italiana descreve o violentíssimo sismo que ocorreu ontem em Port-au-Prince, capital do Haiti, provocando milhares de vítimas e danos em várias infra-estruturas essenciais da cidade.

Apesar de não existirem ainda dados oficiais, receia-se que centenas de pessoas tenham morrido na sequência do tremor de terra, que provocou a destruição de inúmeros edifícios. Estima-se que haja muitos soterrados nos escombros, fala-se em centenas de feridos e sabe-se que milhares ficaram desalojados na sequência do abalo, que durou quase um minuto.

Paolo Beccegato, responsável pelo departamento internacional da Cáritas de Itália, visitou o Haiti há cerca de um ano. Em declarações à Agência SIR, recorda “a pobreza impressionante” e as fracas condições dos meios de comunicação: “os telefones funcionavam mal, as estradas eram impraticáveis”. “Será muito difícil organizar a ajuda”, lamenta.

A Secours Catholique, associação católica francesa de luta contra a pobreza, lançou também um apelo ao envio de bens para aquele país das Caraíbas.

“A maior parte dos produtos de primeira necessidade (ajuda alimentar, produtos de higiene, medicamentos) e materiais necessários à reconstrução serão adquiridos na região, a fim de limitar os custos de transporte e de armazenamento, auxiliando igualmente a economia local fragilizada por esta catástrofe”, indica a organização não-governamental.

Ambas as organizações já disponibilizaram contas bancárias para o depósito de donativos (Cáritas Italiana, Secours Catholique).

A Fundação à Igreja que Sofre já decidiu o envio de um fundo de emergência, logo que seja possível contactar os bispos e o núncio apostólico no Haiti. A secção portuguesa desta Organização está a preparar uma campanha de recolha de fundos, que chegará aos seus benfeitores até ao fim desta semana.

O Haiti é o país mais pobre do hemisfério ocidental: 80 por cento da população vive abaixo do limiar da pobreza, com acesso a menos de dois dólares por dia. A capital alberga entre dois a três milhões de pessoas, agrupadas em bairros de lata. Outros seis milhões estão dispersos pelo resto do país, sobrevivendo sobretudo da agricultura de subsistência. Uma severa deflorestação deixou o Haiti com apenas dois por cento do seu coberto vegetal.

Com Agências